quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O Evangelho dominical - 20.08.2017

JESUS É DE TODOS

Uma mulher pagã toma a iniciativa de se aproximar de Jesus, apesar de não pertencer ao povo judeu. É uma mãe angustiada que vive a sofrer com uma filha «maltratada por um demônio». Sai ao encontro de Jesus dando gritos: «Tem compaixão de mim, Senhor, Filho de Davi!»
A primeira reação de Jesus é inesperada. Nem sequer se detém para a escutar. Ainda não chegara a hora de levar a Boa Nova de Deus aos pagãos. Como a mulher insiste, Jesus justifica a sua atitude: «Deus enviou-Me apenas para as ovelhas perdidas do povo de Israel».
A mulher não recua. Superará todas as dificuldades e resistências. Num gesto audacioso, prostra-se ante Jesus, detém a Sua marcha e, de joelhos, com um coração humilde, mas firme, dirige-lhe um só grito: «Senhor, socorre-me!»
A resposta de Jesus é insólita. Apesar de nessa época os judeus chamarem com toda a naturalidade os pagãos  de «cães», as suas palavras resultam ofensivas aos nossos ouvidos: «Não está bem deitar aos cachorros o pão dos filhos». Retomando a Sua imagem de forma inteligente, a mulher atreve-se a partir do chão a corrigir Jesus: «Isso é certo, Senhor, mas também os cachorros comem as migalhas que caem da mesa dos amos».
A sua fé é admirável. Seguramente que na mesa do Pai todos podem se alimentar: os filhos de Israel e também os «cães» pagãos. Jesus parece pensar apenas nas «ovelhas perdidas» de Israel, mas também ela é uma «ovelha perdida». O Enviado de Deus não pode ser só dos judeus. Há de ser de todos e para todos.
Jesus rende-se ante a fé da mulher. A sua resposta revela-nos a sua humildade e a sua grandeza: «Mulher, que grande é a tua fé! Que se cumpra como desejas». Esta mulher mostra a Jesus que a misericórdia de Deus não exclui ninguém. O Pai bom está por cima das barreiras étnicas e religiosas que os humanos criam.
Jesus reconhece a mulher como crente, apesar de viver uma religião pagã. Inclusive encontra nela uma «fé grande», não a fé pequena dos Seus discípulos, a quem recrimina mais de uma vez como «homens de pouca fé».
Qualquer ser humano pode recorrer a Jesus com confiança. Ele sabe reconhecer a sua fé, apesar de viver fora da Igreja. Todos poderão encontrar Nele um Amigo e um Mestre de vida.
Os cristãos, temos de nos alegrar de que Jesus continue a atrair hoje a tantas pessoas que vivem fora da Igreja. Jesus é maior que todas as nossas instituições. Ele continua a fazer muito o bem, inclusive àqueles que se têm afastado das nossas comunidades cristãs.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ANO A – SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – 20.08.2017

Maria simboliza a humanidade liberta e solidária.
A Assunção de Nossa Senhora é uma festa mariana que, para as comunidades católicas do Brasil, está ligada à semana dedicada à vocação à vida religiosa. Mas aquilo que cremos sobre Maria não tem a ver exclusivamente com os religiosos e religiosas: de alguma forma, se refere a todos os homens e mulheres, à comunidade eclesial, ao povo de Deus. A glorificação de Nossa Senhora, que é a plena realização de sua vida e sua vocação em Deus, é uma interpelação e uma promessa extensivas a toda a Igreja e a todos os homens e mulheres. E isso é preanunciado na imagem que João vê aparecendo no céu.
Lucas apresenta Maria como uma mulher que sabe ouvir a Palavra viva de Deus e que está pronta a dar o melhor de si para que esta Palavra se realize na história. É alguém que ousou acreditar na força da Palavra e na fidelidade daquele que a pronuncia. Deus pôde realizar grandes coisas nela e através dela porque encontrou em Maria a base humana indispensável. Não fazemos bem quando a idealizamos e desumanizamos, tirando-a da história. Para fazer-se humano o Filho de Deus precisou de uma pessoa fundamentalmente humana, não de uma criatura angélica e desencarnada do mundo!
Depois da experiência de ser amada e de ser chamada a gerar e dar à luz aquele que é a Luz do mundo, Maria vai apressadamente à casa de Isabel. Busca nesta família fiel um sinal que confirme a parceria de Deus com os humildes, sua aliança com os pobres e a veracidade de suas promessas. A discípula se faz serva, a serva se mostra peregrina e a peregrina experimenta a hospitalidade na casa de Isabel. Abraçadas no amor de um Deus que não esquece sua misericórdia, duas mulheres louvam a Deus e profetizam publicamente. A discípula, serva e peregrina se transforma em profetiza destemida. Maria contempla a história do seu povo e proclama a intervenção libertadora de Deus.
É importante não esquecer que Maria, esta mulher que foi elevada e assunta ao céu, não é apenas uma humilde trabalhadora do lar, uma pessoa discreta que acredita em Deus, uma doce e recatada esposa de um carpinteiro. Deus assume em corpo e alma e eleva à glória do céu uma mulher que rompe com os costumes que menosprezam a mulher e a mantêm calada, que diz uma palavra profética na arena pública, que proclama uma revolucionária intervenção de Deus num mundo patriarcal e opressor. Ela já havia usurpado o título masculino de “Servo de Deus” e agora abre a boca e faz-se profetiza.
Por isso, Maria simboliza uma Igreja com traços femininos. Nela e com ela, a Igreja é chamada a construir-se como corpo que acolhe, aquece, alimenta, ensina, respeita e favorece o crescimento e o amadurecimento dos filhos e filhas. Uma Igreja institucionalmente rígida, fechada, autoritária, legalista e doutrinária tem pouca relação com a figura feminina de Maria. Com Maria e suas companheiras mulheres é possível construir uma Igreja que vive intensamente a alegria do Evangelho, que deixa de ser alfândega e tribunal para ser lar e enfermaria que sai para acolher e cuidar, como quer o Papa.
Inspirada em Maria, a Igreja precisa criar espaços e condições favoráveis para o desenvolvimento de homens e mulheres maduros, livres, despojados, solidários e comprometidos com a salvação do mundo. Um corpo ou uma instituição que se impõe pelo medo e pela lei estaria condenado à esterilidade e nunca terá a graça de sentir os filhos e filhas saltarem de alegria no seu ventre. Seria um corpo incapaz de conhecer a felicidade, e permaneceria um túmulo de homens e mulheres que não chegam a nascer verdadeiramente. Deus nos livre de uma Igreja com nome feminino mas com estruturas masculinas!
Na origem da vocação à vida consagrada está a experiência de um Deus que olha nos olhos e, sorrindo, nos chama pelo nome. Ou uma experiência como aquela de Maria e de Isabel: “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo!” E então, a partir disso, os pés percorrem caminhos e o corpo estremece de alegria por receber inesperadamente a visita de Deus na própria casa. A vocação à vida religiosa não é primariamente um caminho de purificação moral ou de desprezo do mundo, mas a experiência de plenitude de uma graça que não cobra méritos: dar de graça aquilo que de graça se recebeu.
Maria, profetiza corajosa, mãe amorosa e discípula fiel do teu Filho: intercede junto a ele para que as pessoas que se consagram a Deus sejam ouvintes da Palavra, cresçam no serviço aos pobres e amadureçam na profecia. Que sejam fiéis ao chamado de proclamar com a vida e com palavras que nada pode ser colocado acima do amor pessoal a Jesus Cristo e aos pobres nos quais ele vive. Assim, ajudarão Jesus a vencer a morte que ameaça seus irmãos, que não se reduz à luta contra a corrupção. E que se façam ativa e corajosamente presentes nos desertos, nas periferias e nas fronteiras. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Apocalipse 11,19; 12,1-6 * Salmo 44 (45) * 1ª Carta aos Corintios 15,20-27 * Evangelho de Lucas 1,39-56)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Evangelho dominical - 13.08.2017

NO MEIO DA CRISE

Não é difícil ver na barca dos discípulos de Jesus, sacudida pelas ondas e a transbordar pelo forte vento contra, a figura da Igreja atual, ameaçada desde fora por todo o tipo de forças adversas e tentada desde dentro pelo medo e pela mediocridade. Como lermos este relato evangélico desde uma crise em que a Igreja parece hoje naufragar?
Segundo o evangelista, «Jesus aproxima-se da barca caminhando sobre as águas». Os discípulos não são capazes de reconhece-lo no meio da tormenta e da obscuridade da noite. Parece-lhes um fantasma. O medo aterroriza-os. A única coisa real para eles é aquela forte tempestade.
Este é o nosso primeiro problema. Estamos vivendo a crise da Igreja contagiando uns aos outros com desalento, medo e falta de fé. Não somos capazes de ver que Jesus está se aproximando precisamente desde o interior desta forte crise. Sentimo-nos mais sós e indefesos que nunca.
Jesus diz-lhes as três palavras que estão precisando escutar: «Animo! Sou Eu. Não temais!». Só Jesus lhes pode falar assim. Mas os ouvidos deles só ouvem o estrondo das ondas e a força do vento. Este é também o nosso erro. Se não escutamos o convite de Jesus a colocar Nele a nossa confiança incondicional, a quem acudiremos?
Pedro sente um impulso interior e, sustentado pelo chamado de Jesus, salta da barca e «dirige-se para Jesus andando sobre as águas». Assim temos de aprender hoje a caminhar até Jesus no meio da crise: apoiando-nos não no poder, no prestígio e nas seguranças do passado, mas no desejo de nos encontrarmos com Jesus no meio da obscuridade e das incertezas destes tempos.
Não é fácil. Também nós podemos vacilar e afundar-nos, como Pedro. Mas, como ele, podemos experimentar que Jesus estende a sua mão e nos salva enquanto nos diz: «Homens de pouca fé, porque duvidais?».
Porque duvidamos tanto? Porque não aprendemos nada de novo da crise? Porque seguimos procurando falsas seguranças para sobreviver dentro das nossas comunidades, sem aprender a caminhar com fé renovada até Jesus, mesmo no interior da sociedade secularizada dos nossos dias?
Esta crise não é o fim da fé cristã. É a purificação que necessitamos para nos liberarmos de interesses mundanos, triunfalismos enganosos e deformações que nos foram afastando de Jesus ao longo dos séculos. Ele está presente e ativo nesta crise. Ele está a conduzir-nos para uma Igreja mais evangélica. Reavivemos a nossa confiança em Jesus. Não tenhamos medo.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

ANO A – DÉCIMO-NONO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 13.08.2017

O Senhor é presença e companhia em todas as travessias!
A vida é uma travessia, e crer é caminhar. As travessias costumam ser arriscadas e causam medo. Há aqueles que preferem evitá-las sempre, convictos de que o risco não compensa. São pessoas que fecham os ouvidos a todo e qualquer chamado; padres que desempenham sua missão pastoral como uma atividade qualquer ou até como uma carreira; pais e famílias que se recusam a assumir sua missão de educar seus filhos para o amor; fiéis que preferem as velhas e potentes imagens de Deus ao desafio de descobri-lo na brisa leve da luta pela justiça...
Mas a revelação de Deus é experimentada mais claramente nos movimentos de passagem que na estabilidade dos templos e dos lugares-comuns: do Egito para a terra prometida; do centro para a periferia; do eu para o nós; da aparente segurança das cavernas para o descampado estimulante da montanha; do poder para o serviço; da autossuficiência para a entreajuda; do peso das estruturas eclesiásticas para a leveza e a criatividade do Espírito. Parece que Deus não gosta de se estabelecer! A Deus agrada mais o campo aberto e as estradas que os templos e palácios...
Como nos lembram sobejamente os evangelhos, os discípulos de Jesus imaginavam um Deus indiferente às necessidades dos famintos, ou suficientemente poderoso para resolver todas as dificuldades do povo. Esta é a imagem de Deus que predomina nas diversas religiões e em amplos setores do povo católico ainda hoje. Mas Jesus revela-se um Deus compassivo com os pobres, um Deus que tem necessidade da nossa colaboração – nem que seja apenas cinco pães e dois peixes! – na sua ação libertadora. E é ele que nos convida a superar o medo e confiar na sua presença em todas as travessias.
Infelizmente, apesar dos séculos de pregação, as imagens de um Deus poderoso e ameaçador, ou então nacionalista e ligado aos interesses de pequenos grupos, ainda não se apagaram da nossa memória. Ensinaram-nos que Deus se revela no poder destruidor dos terremotos, no fogo devorador das ideologias totalitárias, no mistério aterrador dos furacões, nos pesados decretos que condenam, na dura punição aos que erram. Segundo essa ideologia religiosa, Deus seria onipotente, onisciente e onipresente. Quanto mais poder ou saber alguém possui, mais se pareceria com Deus...
Diante de um Deus com estas características, caímos por terra ou gritamos de medo. E do ventre do medo não costuma nascer o amor que se faz dom, mas a agressividade da autodefesa ou da dominação. Um Deus com tais traços é um fantasma, uma fantasia que se abriga nas pessoas que não superaram o desejo infantil de onipotência. E esse fantasma, via de regra, está a serviço das diversas formas de dominação e de infantilização religiosa, econômica e política. Parecemo-nos com Pedro, que tenta caminhar sobre as águas, revelando seu desejo de participar da presumida onipotência de Deus...
É o medo dos ventos contrários, das diferenças e dos questionamentos que gera a dúvida e nos leva a afundar, tanto em termos humanos como espirituais. O medo não nasce da verdadeira experiência de Deus, mas de uma imagem parcial ou confusa de Deus. É isso que percebemos nos discípulos no episódio da travessia do mar: a força do vento e das ondas, que fustigam a barca como a tirania dos poderosos, somada à ideia de um Deus que caminha indiferente sobre as ondas, arranca-lhes gritos de pavor. É essa dúvida sobre a divindade de um Jesus frágil e compassivo leva Pedro a afundar apavorado!
Na carta aos Romanos, Paulo lamenta que seus irmãos de raça e sangue tenham se apegado às leis, à religião, às instituições e às promessas como se fossem um privilégio que os colocam acima dos demais seres humanos e povos e fora das peripécias e exigências da história. Talvez seja esse o maior obstáculo aos acordos de paz em vista da justiça, tão necessários na Síria como na Venezuela e no Brasil. Isso nos lembra que filiação é um dom e uma graça que carregamos como tesouro e em vasos de barro, e jamais um privilegio ou uma propriedade. Nem todos aqueles que ostentam o título de cristãos o são de fato...
Deus, pai e mãe, presença amorosa e encorajadora em todas as humanas travessias... Tu conheces a generosidade e a ambiguidade, a coragem e o medo de cada um de nós. A tentação continua levando-nos a te procurar no fogo, no terremoto, na ventania, nos acontecimentos que impressionam. Vem ao nosso encontro como vento calmo e benfazejo, como o calor sereno e acolhedor do colo dos melhores pais.  Socorre nossa pouca fé e cura as dúvidas do nosso coração e os desvios do nosso afeto. Ensina aos pais o cuidado dos filhos e filhas, colocando-te entre eles e guiando-os como modelos de vida, e não como patrões e senhores. E que nossas famílias sejam escolas de comunhão e generosidade. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(1° Livro dos Reis 19,9-13 * Salmo 84 (85) * Carta de Paulo aos Romanos 9,1-5 * Evangelho de São Mateus 14,22-33)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A Igreja e o projeto do Temer

Igreja católica E governo Temer
“Eu vi… e ouvi os clamores do meu povo” (Ex, 3,7)
Com essas palavras extraídas do Livro do Êxodo, a Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da CNBB se pronuncia sobre a crise política em que está mergulhado o país. A mensagem, de 1º de agosto de 2017, é endereçada “aos bispos das Pastorais Sociais”. Estas últimas, por sua vez, representam verdadeiros “exércitos” de agentes pastorais que atuam na base, junto aos operários e desempregados; camponeses e trabalhadores sem terra; migrantes, itinerantes, refugiados e nômades; menores e crianças desnutridas; pescadores e marítimos; mulheres prostituidas e encarcerados... Entre outros representantes das Comunidades Eclesiais.
Vale a pena citar todo um parágrafo da nota que, remetendo-se simultaneamente ao texto bíblico citado, à Constituição Gaudium es Spes do Concícilo Vaticano II e aos documentos da Igreja na América Latina, diz literalmente: “Clamam aos céus, hoje, as muitas situações angustiantes do Brasil, entre as quais o desemprego colossal, o rompimento da ordem democrática e o desmonte da legislação trabalhista e social. O governo, em lugar de fortalecer o papel do Estado para atender as necessidades e os direitos dos mais fragilizados, favorece os interesses do grande capital, sobretudo financeiro especulativo, penalizando os mais pobres, por exemplo com a reforma da previdência, falsamente justificada”.
Palavras duras, claras, veementes e proféticas. Dedo em riste que aponta ao coração mesmo da política econômica do governo Temer. Governo que para pavimentar esse caminho de entreguismo usa de todas os mecanismos e artimanhas que tem ao seu alcance. Prova disso foi a vitória envergonhada na Câmara dos Deputados para engavetar as denúncias que há tempo pesam sobre a autoridade máxima da nação. Nunca se viu funcionar com tamanha eficácia a troca de titulares por suplentes e a pressão do executivo sobre o legislativo, bem como a prática do “balcão de negociatas” entre ambos os poderes. Ou, mais prosaicamente, a compra e venda de privilégios e benefícios. Resta perguntar se a mesma estratégia funcionará para as próximas denúncias já em andamento pelo Ministério Público.
Os bispos estão cheios de razão. De fato, a política atual, com uma onda de privatizações, com a liberação do mercado total e com reformas que penalizam os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, o governo caminha na contramão dos “clamores” que chegam das bases. Surdo e cego às vozes das ruas, segue seu programa que traz, ao mesmo tempo, concentração de riqueza e exclusão social. Resulta disso o “desemprego colossal”, a falta de apoio a pequenos e médios produtores, empreendedores ou comerciantes, a fuga de cérebros para o exterior, a precarização crescente dos serviços públicos. Estes últimos acabam reconvertidos em mercadorias a serem vendidas por empresas privadas, evidentemente a preço de mercado. Bens pagos duplamente: primeiro, com a carga de impostos e, agora, com a elevação dos preços.
Uma pergunta conclusiva: que impacto terá esse pronunciamento não somente sobre os participantes das pastorais sociais, mas também sobre os movimentos sociais, as organizações não governamentais e trabalho de base em geral – hoje aparentemente tão fragmentados? Como poderão ser sacudidos o descrédito, a apatia e o marasmo que parecem ter dominado não poucas forças vivas da nação? Ou melhor, como canalizá-las num projeto popular em vista do “Brasil que queremos”, como se dizia na segunda Semana Social Brasileira, em meados da década de 1990? Perguntas cuja resposta só poderá levantar-se do chão!

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Roma, 7 de agosto de 2017

domingo, 6 de agosto de 2017

A CNBB e o governo golpista

MENSAGEM DOS BISPOS DAS PASTORAIS SOCIAIS
“Eu vi e ouvi o clamor do meu povo” (Ex 3,7)

Nós, Bispos da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora e Referenciais das Pastorais Sociais, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunidos em Brasília, na sede das Pontifícias Obras Missionárias, nos dias 31 de julho e 1º de agosto de 2017, procuramos luzes para a atuação da Igreja no Brasil frente aos novos desafios da nossa realidade, hoje.
Contando com a magnífica assessoria do Pe. José Oscar Beozzo, inspiramo-nos no Concílio Vaticano II, particularmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes (Alegria e Esperança), resgatando sua aplicação na América Latina e no Caribe, a partir da 2a. Conferência Episcopal deste Continente, em Medellín, cujo aniversário de 50 anos celebraremos em 2018, reavivando e atualizando suas intuições e compromissos fundamentais no contexto da atual transformação social.
Reconhecendo que não há realidade alguma, verdadeiramente humana, que não encontre eco no coração de Cristo (cf. Gaudium et Spes, nº 1), entendemos que a Igreja tem por missão pastoral atuar frente à globalidade da realidade, particularmente as situações que geram sofrimentos humanos, com a mesma compaixão de Jesus Cristo.
“Para levar a cabo esta missão, é dever da Igreja estar atenta a todo momento aos sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu carácter tantas vezes dramático” (Gaudium et Spes, nº 4).
Clamam aos céus, hoje, as muitas situações angustiantes do Brasil, entre as quais o desemprego colossal, o rompimento da ordem democrática e o desmonte da legislação trabalhista e social. O governo, em lugar de fortalecer o papel do Estado para atender as necessidades e os direitos dos mais fragilizados, favorece os interesses do grande capital, sobretudo financeiro especulativo, penalizando os mais pobres, por exemplo com a reforma da previdência, falsamente justificada.
Não seremos um país diferente sem superarmos a ingenuidade, a passividade e a indiferença. Urge-nos, portanto, como Igreja, realizar nossa missão pastoral em profunda comunhão, com coragem profética, promovendo e fortalecendo ações comuns com todos os setores democráticos deste país, em favor de novos rumos para a sociedade brasileira, fundados na dignidade humana de todos os cidadãos e cidadãs e no bem comum.
Interpelados pelo Espírito do Senhor, convidamos nossas comunidades eclesiais, os organismos do Povo de Deus e todas as pessoas de boa vontade a implementar ações que transformem em esperança as apatias e frustrações da sociedade brasileira, afinal, como diz o Papa Francisco, o coração de Deus é e continuará incandescente por amor a seu povo (cf. Audiência Geral, 26 de abril de 2017). Assim, também, estejam, hoje e sempre, os nossos corações!
Que Nossa Senhora Aparecida, a quem expressamos nosso louvor especial neste Ano Mariano, nos inspire a revelar o rosto misericordioso de Deus, defensor da justiça em favor dos empobrecidos, sendo sinais e instrumentos da ação libertadora e humanizadora de Cristo, frente às novas formas de escravidão dos tempos atuais.
Brasília, 1º de agosto de 2017.

Dom Guilherme Antonio Werlang, Msf
Bispo de Ipameri/GO
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O Evangelho dominical - 06.08.2017

O RISCO DE SE INSTALAR


Mais tarde ou mais cedo, todos corremos o risco de nos instalarmos na vida, procurando o refúgio cômodo que nos permita viver tranquilos, sem sobressaltos nem preocupações excessivas, renunciando a qualquer outra aspiração.
Conseguido já um certo êxito profissional, encaminhada a família e assegurado, de alguma forma, o futuro, é fácil deixar-se apanhar por um conformismo cômodo que nos permita continuar a caminhar pela vida da forma mais confortável.
É o momento de procurar uma atmosfera agradável e acolhedora. Viver descontraído num ambiente feliz. Fazer do lar um refúgio cativante, um canto para ler e escutar boa música. Saborear umas boas férias. Assegurar uns fins-de-semana agradáveis...
Mas, com frequência, é então quando a pessoa descobre, com mais clareza que nunca, que a felicidade não coincide com o bem-estar. Falta algo nessa vida. Algo que nos deixa vazios e insatisfeitos. Algo que não se pode comprar com dinheiro nem assegurar com uma vida confortável. Falta simplesmente a alegria própria de quem sabe vibrar com os problemas e necessidades dos demais, sentir-se solidário com os necessitados e viver, de alguma forma, mais próximo dos maltratados pela sociedade.
Mas há além disso um modo de «se instalar» que pode ser falsamente reforçado com «tons cristãos». É a eterna tentação de Pedro, que nos espreita sempre os crentes: «colocar tendas no alto da montanha». Quer dizer, procurar na religião o nosso bem-estar interior, esquecendo da nossa responsabilidade individual e coletiva de conseguir uma convivência mais humana.
E, no entanto, a mensagem de Jesus é clara. Uma experiência religiosa não é verdadeiramente cristã se nos isola dos irmãos, nos instala comodamente na vida e nos afasta do serviço aos mais necessitados.
Se escutamos Jesus, iremos sentir-nos convidados a sair do nosso conformismo, cortar com um estilo de vida egoísta em que estamos talvez confortavelmente instalados e começar a viver mais atentos à interpelação que nos chega dos mais desprotegidos da nossa sociedade.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

ANO A – FESTA DA TRANSFIGURAÇÃO – 06.08.2017

Que a palavra da profecia brilhe como lâmpada no escuro...
Neste ano, a festa da transfiguração de Jesus coincide com o domingo com o qual iniciamos a semana dedicada à vocação aos ministérios ordenados, particularmente o padre. O padre, há muito tempo colocado no coração pastoral e institucional da Igreja católica e da sociedade cristã tradicional, classicamente identificado com o ensino e a pregação, é hoje objeto de muitos questionamentos, vindos de fora e dos próprios ministros. De que modo e em qual perspectiva a festa da transfiguração e a Palavra de Deus nela proclamada podem nos ajudar a compreender e reconfigurar esse ministério?
O contexto teológico da narração da transfiguração de Jesus é o evento fundante do êxodo. A montanha remete ao monte Sinai, lugar da Aliança num contexto de crise e tensão. As tendas propostas por Pedro recordam a tenda do encontro e a tenda da Aliança, companheiras de um povo em saída. A nuvem que encobre e envolve Pedro, Tiago e João acena para a nuvem luminosa que guiou e protegeu o povo peregrino. No imperativo “escutai!” ressoa o mandato central “escuta, Israel!” e o anúncio da vinda futura de um profeta grande como Moisés. E Moisés e Elias estão visceralmente referidos ao êxodo e à Aliança. Ouvir, crer e sair são verbos e dinamismos centrais na transfiguração e na vida do padre!
Não podemos deixar de notar também onde acontece esse evento no qual Jesus é confirmado em sua filiação divina, e também a quem se dirige essa revelação. A experiência é feita em um lugar remoto, longe de Jerusalém e de Roma. E o destinatário dessa revelação não é a elite religiosa e política do judaísmo, mas um pequeno grupo de discípulos, oriundo das camadas sociais mais baixas, suspeitos aos olhos dos lideres religiosos. As periferias e margens são relevantes aos planos de Deus! Para ele e no seu reino, os últimos da escala social devem ser os primeiros! Eis o horizonte do ministério ordenado!
Mas não pode passar despercebido também o contexto temático no qual transcorre a cena da transfiguração de Jesus. Os fariseus lhe pediam um sinal vindo do céu, menos material e menos exigente que a compaixão que saciara a fome do povo. Os discípulos, mesmo reconhecendo formalmente que Jesus está entre os profetas e é filho do Deus vivo, murmuram e resistem a ele porque não conseguem assimilar um Deus e um Messias despojado de poder e essencialmente compassivo. Como Pedro, se o padre não se coloca atrás de Jesus, não leva a sério o que ele diz, não é discípulo mas pedra de tropeço!
Jesus de Nazaré, o filho de Deus que chama os diversos ministros e ministras e se lhes oferece como modelo, é substancialmente Servo, e não usa a roupagem do poder e da violência imperial. Ao contrário, se dá inteiramente ao sofredor povo que ele ama, compartilhando com ele a utopia e o destino de morte e ressurreição. Os discípulos não conseguem ouvir e entender este convite a tomar a cruz e seguir Jesus, não conseguem aceitar que é perdendo a vida pela Boa Notícia que a encontram. É mentirosa a pregação de um Jesus glorioso feita por ministros que se portam mais como vencedores que como servidores!
O brilho do sul no corpo de Jesus e o esplendor das suas vestes mostram claramente que se trata de uma experiência e uma manifestação e da presença divina. Mas as figuras de Moisés e de Elias querem recordar as situações e riscos de rejeição e perigo de morte que envolvem aqueles que são seduzidos e chamados por Deus. O ardor pela gloria divina e o empenho para faze-la valer em favor dos oprimidos, conduz frequentemente ao dissabor escuro da perseguição... Na sua carta, Pedro diz que é a palavra da profecia aquela que brilha como lâmpada no escuro, até clarear o dia. A fidelidade do padre não se mostra apenas na observação das normas morais litúrgicas, mas também na defesa dos injustiçados.
Impressionado com a visão, Pedro toma a palavra e expressa seu desejo de congelar aquela que deveria ser uma experiência que leva para fora, para baixo e para frente. Deus interrompe a fala de Pedro e sublinha que, antes de falar e propor, é preciso escutar e assimilar o caminho de Jesus, o esvaziamento e o serviço. Escutar Jesus é uma qualidade central do discipulado, é entender Jesus tomando a própria cruz do esvaziamento e da compaixão. Para pregar a Boa Notícia de Jesus, o presbítero precisa antes se familiarizar com ela, viver como discípulo e servidor, compassivo e misericordioso.
Jesus de Nazaré, profeta do Deus Vivo, em cujo rosto brilha o Sol da justiça! Tu revelas de modo admirável nossa gloria de filhas e filhos adotivos. Manda teu Espirito, para que ele abra nossos ouvidos à tua Palavra e nos torne herdeiros da tua infinita compaixão. Suscita ministros que te escutem e te sigam de verdade, que sejam, como tu, “filhos do Homem humano” e não se refugiem em gloriosas tendas; que se mostrem generosos no dom de si mesmos pela humanidade, especialmente pelos oprimidos. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Daniel 7,9-14 * Salmo 96 (97) * 2ª. Carta de Pedro 1,16-19 * Evangelho de São Mateus 17,1-9)

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O Evangelho dominical - 30.07.2017

A DECISÃO MAIS IMPORTANTE

O evangelho recolhe duas breves parábolas de Jesus com uma mesma mensagem. Em ambos os relatos, o protagonista descobre um tesouro muito valioso ou uma perola de valor incalculável. E nos dois reage do mesmo modo: vende com alegria e decididamente o que têm e fica com o tesouro ou a perola. Segundo Jesus, assim reagem os que descobrem o reino de Deus.
Ao que parece, Jesus teme que as pessoas o sigam por diferentes interesses, sem descobrir o mais atrativo e importante: esse projeto apaixonante do Pai que consiste em conduzir a humanidade para um mundo mais justo, fraterno e ditoso, encaminhando-o assim para a sua salvação definitiva em Deus.
Que podemos dizer hoje depois de vinte séculos de cristianismo? Porque tantos cristãos bons vivem fechados na sua prática religiosa, com a sensação de não ter descoberto nela nenhum «tesouro»? Onde está a raiz última dessa falta de entusiasmo e alegria em vários âmbitos da nossa Igreja, incapaz de atrair para o núcleo do Evangelho a tantos homens e mulheres que se vão afastando dela, sem renunciar por isso a Deus nem a Jesus?
Depois do Concilio, Paulo VI fez esta afirmação rotunda: «Só o reino de Deus é absoluto. Tudo o resto é relativo». Anos mais tarde, João Paulo II reafirmou dizendo: «A Igreja não é ela o seu próprio fim, pois está orientada para o reino de Deus, do qual é origem, sinal e instrumento». O papa Francisco vem repetindo: «O projeto de Jesus é instaurar o reino de Deus».
Se esta é a fé da Igreja, porque há cristãos que nem sequer ouviram falar desse projeto que Jesus chamava «reino de Deus»? Porque não sabem que a paixão que animou toda a vida de Jesus, a razão de ser e o objetivo de toda a sua atuação, foi de anunciar e promover esse projeto humanizador do Pai: procurar o reino de Deus e a Sua justiça?
A Igreja não pode renovar-se a partir da sua raiz se não descobre o «tesouro» do reino de Deus. Não é o mesmo chamar os cristãos a colaborar com Deus no Seu grande projeto de fazer um mundo mais humano que viver distraídos em práticas e costumes que nos fazem esquecer o verdadeiro núcleo do Evangelho.
O papa Francisco diz-nos que «o reino de Deus nos reclama». Este grito chega-nos desde o coração mesmo do Evangelho. Temos de o escutar. Seguramente, a decisão mais importante que temos de tomar hoje na Igreja e nas nossas comunidades cristãs é a de recuperar o projeto do reino de Deus com alegria e entusiasmo.
José Antonio Pagola.

Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

ANO A – DÉCIMO-SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 30.07.2017

Onde está o nosso tesouro, aí está também nosso coração!
Todos já fizemos a experiência de correr riscos. Dando por descontado que viver é em si mesmo um perigo, sabemos o risco que significa escolher uma vocação, iniciar um curso superior, investir numa atividade nova, apostar todas as cartas num determinado relacionamento afetivo... Quanto mais precioso nos parece o objeto, maior é a disposição para o sacrifício e menores são ponderações e receios. Para Jesus de Nazaré, a alegria contagiante de um ser humano que recupera a autonomia e a cidadania representa um tesouro precioso e impagável, diante do qual tudo o resto parece lixo.
Na liturgia dos últimos domingos, Jesus vem nos falando do mistério do Reino de Deus através de diversas parábolas. O sonho de Deus é semelhante a um semeador que, mesmo sabendo que parte da semente se perderá, não deixa de semear. É comparável também a um plantador que, apesar de ter usado boa semente, é surpreendido pelo o capim que cresce junto com o trigo. E pode também ser comparado à semente de mostarda: apesar de sua pequenez, está na origem de um apreciável arbusto. Seu dinamismo é comparável enfim ao fermento que desaparece na farinha e faz crescer a massa...
Neste domingo, Jesus nos apresenta a imagem do trabalhador rural que encontra um precioso tesouro no campo do seu patrão. Ao encontrar o tesouro, o homem é tomado pela surpresa, pois não estava procurando nada. Então ele mantém o tesouro escondido e, sem dizer nada a ninguém e cheio de alegria, se desfaz de tudo o que tem e compra o campo que escondia o tesouro. Para um simples empregado diarista, este é um negócio ousado e arriscado, que só se justifica pelo valor que o tesouro tem ao seus olhos. Ele vende, arrisca ou perde tudo para ficar com o único bem que vale a pena.
Um segundo personagem que Jesus nos apresenta como modelo é um comerciante de pérolas preciosas. Este sim está empenhado na procura de uma pérola de grande valor e, quando a encontra, vende todos os seus bens e compra a tal pérola. Este parece ser um negócio um pouco mais seguro, mas é comparável ao anterior no que diz respeito à necessidade de vender tudo para realizá-lo. Em ambos os casos, a experiência de encontrar algo precioso desestabiliza o equilíbrio dos negócios, relativiza as propriedades e chama a arriscar. E tanto o peão como o comerciante tomam a decisão certa.
Eis o desafio para os discípulos e discípulas de Jesus: tendo descoberto a preciosidade do Reino de Deus – o valor irredutível e impagável da liberdade e da vida digna de cada pessoa em sua singularidade, o horizonte deslumbrante de um mundo de irmãos e irmãs de fato – quem segue Jesus de Nazaré é impulsionado a hipotecar ou subordinar tudo o mais – reputação, carreira, bem-estar individual e até família e religião – em função desse bem maior. Deus não tem tempo para tratar de pequenos negócios conosco. Seu projeto é vida abundante, para todos, e isso urge. É tudo ou nada. E já!
Nosso batismo pressupõe esta opção de risco. Parece que poucas pessoas têm clara consciência disso, pois se não for assim, como explicar o descompromisso com que muitas o celebram? Dá vontade de aumentar as exigências de preparação ou até interditar o batismo a quem não acorda para o compromisso que ele implica, ou transformar a igreja numa alfandega, repleta de taxas... Mas o próprio Jesus ensina que o Reino de Deus é também semelhante a uma rede lançada ao mar, que recolhe peixes bons e peixes de qualidade questionável... E nós precisamos prestar atenção à sabedoria dos pescadores!
Um pescador experiente sabe que não é sensato esperar que a rede recolha apenas peixes bons e apropriados para o consumo e o comércio. E o trabalho árduo e criterioso de separar peixes bons e peixes ruins não pode ser feito durante a pesca e em alto mar, vem depois. Mas não tiremos conclusões apressadas e superficiais... Estre trabalho de caráter judicial não é de nossa responsabilidade, nem mesmo das nossas Igrejas! Mais que pescadores, somos peixes, e não estamos seguros da nossa própria qualidade! Deixemos ao fim dos tempos e aos anjos de Deus essa difícil tarefa de separar.
Deus Pai e Mãe, amante das criaturas e condutor da história: teu projeto de comunhão solidária de todas as criaturas é o tesouro mais precioso e a herança mais comprometedora que poderias nos entregar. Teu filho é o verdadeiro doutor da lei, aquele que aprendeu e ensinou o mistério do teu Reino: ele sabe vasculhar o baú da história e tirar dele coisas novas e velhas, e nos convida a fazer o mesmo. Dá-nos, Senhor, Sabedoria para distinguir o bem do mal e praticar a justiça, convictos de que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus e o próximo. Dá-nos, enfim, a alegre ousadia de investir com imensa generosamente tudo o que somos e temos no teu sonho de igualdade e libertação. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
                (1° Livro dos Reis 3,5-12 * Salmo 118 (119) * Carta de Paulo aos Romanos 8,28-30 * Evangelho de São Mateus 13,44-52)