quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Evangelho dominical - 24.09.2017

NÃO DESVIRTUAR A BONDADE DE DEUS

Ao longo da Sua trajetória profética, Jesus insistiu uma e outra vez em comunicar a Sua experiência de Deus como «um mistério de bondade insondável» que quebra todos os nossos cálculos. A Sua mensagem é tão revolucionaria que, depois de vinte séculos, há todavia cristãos que não se atrevem a leva-la a sério.
Para contagiar a todos com a Sua experiência desse Deus bom, Jesus compara a Sua atuação com a conduta surpreendente do senhor de um vinhedo. Até cinco vezes sai ele mesmo em pessoa a contratar trabalhadores para o Seu vinhedo. Não parece preocupá-lo muito o seu rendimento no trabalho. O que não quer é que nenhum trabalhador fique um dia mais sem trabalho.
Por isso mesmo, no final da jornada, não lhes paga ajustando-se ao trabalho realizado por cada grupo. Embora o seu trabalho tenha sido muito desigual, a todos lhes dá «um denário»: simplesmente, o que necessitava cada dia uma família camponesa da Galileia para poder sobreviver.
Quando o porta-voz do primeiro grupo protesta porque tratou os últimos, igual que a eles, que trabalharam mais do que ninguém, o senhor da vinhedo respondeu-lhes com estas palavras admiráveis: «Vão ter inveja porque eu sou bom?» Vais impedir-me com os teus cálculos mesquinhos de ser bom com quem necessita de pão para comer?
Que está a sugerir Jesus? Deus não atua com os critérios de justiça e igualdade que nós manejamos? Será verdade que Deus, mais do que estar a medir os méritos das pessoas, como faríamos nós, procura sempre responder a partir da Sua bondade insondável à nossa necessidade radical de salvação?
Confesso que sinto uma pena imensa quando me encontro com pessoas boas que imaginam a Deus dedicado a anotar cuidadosamente os pecados e os méritos dos humanos, para retribuir um dia exatamente a cada um segundo o Seu merecimento. É possível imaginar um ser mais inumano que alguém entregue a este trabalho por toda a eternidade?
Acreditar num Deus Amigo incondicional pode ser a experiência mais libertadora que se poda imaginar, a força mais vigorosa para viver e para morrer. Pelo contrário, viver ante um Deus justiceiro e ameaçador pode converter-se na neurose mais perigosa e destruidora da pessoa.
Temos de aprender a não confundir Deus com os nossos esquemas limitados e mesquinhos. Não temos de desvirtuar a Sua bondade insondável misturando os traços autênticos que proveem de Jesus com os traços de um Deus justiceiro tomados daqui e dali. Ante o Deus bom revelado em Jesus, o único que resta é a confiança.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

ANO A – VIGÉSIMO-QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 24.09.2017

A Palavra de Deus alarga nossos critérios de justiça.
Avançamos setembro adentro e continua vivo e atraente convite e dar atenção à Palavra de Deus. “Lâmpada para os meus passos é tua Palavra!” (Sl 119/118,105). Numa época em que a discussão sobre os direitos humanos, sociais, culturais, econômicos e ambientais continua sem consenso, Jesus Cristo nos propõe uma Justiça que não se orienta pela meritocracia, e estabelece firmemente o direito dos sem-direito. A Palavra de Deus necessariamente alarga nossos critérios de julgamento. É mesquinha a justiça que se propõe a dar a cada pessoa aquilo que lhe é devido, sempre estabelecido pelos dominadores.
A parábola do chefe de família que trata com igualdade seus empregados que tem diferentes horas de trabalho está literariamente situada logo após o episódio do jovem rico (cf. Mt 19,16-26), aquele que não aceitara a proposta de partilha inerente ao Reino de Deus, e que provocara o desabafo de Jesus: “Dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus...” (19,23). Jesus vai adiante, e nos propõe um horizonte mais amplo e um exemplo concreto. Na parábola em questão, o chefe de família garante a todos os diaristas uma moeda de prata por dia, ou aquilo que é justo, que um trabalhado necessita para viver.
Alguns trabalhadores contratados começam a trabalhar bem cedo, outros às nove horas, outros ao meio-dia, alguns às três, e outros somente às cinco horas da tarde. A todos, o chefe de família promete um pagamento justo. Enquanto uns labutam um dia inteiro, outros empenham no trabalho apenas algumas horas da tarde. O patrão dá ao administrador a ordem de começar o pagamento por aqueles que haviam trabalhado um tempo mais curto. Aqueles que haviam sido contratados às cinco da tarde se aproximam, com grandes expectativas, mas cada um recebe uma moeda de prata...
Assistindo ao acerto de contas, e vendo o valor recebido pelos peões que haviam trabalhado apenas algumas horas, aqueles que haviam começado nas primeiras horas da manhã pensavam que necessariamente receberiam mais. E não ficam satisfeitos quando recebem o mesmo pagamento dado aos primeiros. À primeira vista, o protesto parece justo, e nosso desejo é fazer coro com eles. Afinal, fazer justiça não significa dar a cada um aquilo que ele merece? Não nos parece justo desconsiderar a diferença entre quem suportou o cansaço e o calor do dia inteiro e quem trabalhou apenas uma hora...
“Tu os igualaste a nós!” Este é o protesto daqueles que se acham no direito de receber mais. A questão não é se precisam ou não, se haviam combinado ou não um pagamento maior. A igualdade não lhes parece uma coisa justa. Não conseguem aceitar uma ética que tem como princípio estabelecer a igualdade fundamental de todos os seres humanos e garantir-lhes a vida mínima. Mas a Justiça do Reino, a Justiça de Jesus, considera que cada pessoa tem direito a receber aquilo que necessita para viver. Uma pessoa jamais perde a dignidade e o direito de ser respeitada e tratada como como sujeito de direitos.
O evangelho de hoje deixa uma pergunta no ar: os peões que se consideram os primeiros e têm dificuldade de aceitar que os últimos sejam igualados a eles não estariam com ciúme da generosidade de Deus? Jesus sublinha que Deus é Pai e sempre age guiado pela sua bondade e não pelos nossos mesquinhos merecimentos. Ele trata cada uma das suas criaturas segundo aquilo que necessitam, e não segundo estreitas leis que ditam o que elas fizeram por merecer. Não esqueçamos que é muito forte ainda hoje a tendência de imaginar um Deus que age com violenta frieza e pune os mais fracos, como se ele fosse um simples reflexo das nossas relações excludentes e violentas.
 Jesus Cristo não deixa dúvidas: Deus dá absoluta prioridade àqueles que as sociedades costumam colocar em último lugar. “Comecem pelos últimos...” Este é o caminho que devem seguir os administradores públicos, privados e eclesiais! Este ensinamento pode parecer muito duro e contrário à corrente das nossas convicções. De fato, desafia as hierarquizações e os sistemas construídos sobre o princípio do mérito, sempre prontos a premiar algumas poucas pessoas bem-sucedidas e a culpabilizar as maiorias, condenando-as violentamente a uma vida que nem merece esse nome.
Deus pai e mãe, bom e compassivo com todas as criaturas: que teu Espírito regue a semente da tua Palavra a fim de que ela germine e frutifique em nós! Que a tua justiça generosa ilumine os julgamentos dos cristãos e das Igrejas. Que a inversão das prioridades em função dos últimos se faça verdade em todos os níveis. Que nós não poupemos esforços para defender os direitos dos humanos e de toda a criação. Oxalá aprendemos de vez que que para os cristãos a posse de bens é licita somente quando está em função da generosidade que dá a cada pessoa aquilo que ela necessita para viver dignamente.  Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
  (Profecia de Isaias 55,6-9 * Salmo 144 (145) * Carta de Paulo aos Filipenses 1,20-27 * Evangelho de São Mateus 20,1-16) 

domingo, 17 de setembro de 2017

Missão & Paixão

Uma escola orgulhosa de ser humana, técnica, familiar e rural
A impressão é de que eles não passam de crianças... Inicialmente calados e arredios, quase sempre miúdos e sempre negros, o grupo de 40 adolescentes que frequenta a Escola Familiar Rural de Mecuburi (EFR) vem das diversas aldeias e comunidades rurais da seca região de Mecuburi, Muite, Ratane e Milhana. Nessa escola muito original em sua pedagogia, esses adolescentes recebem formação integral, com ênfase nos aspectos humano, agrícola e pecuário, durante três anos.
Missionarios em Mecuburi: Pe. Celso, Edina, Pe. Pedro e Raphael
O projeto da Escola Familiar Rural de Mecuburi nasceu praticamente junto com comunidade dos Missionários da Sagrada Família em Moçambique. Mas a ideia é mais antiga, e nasceu há mais de 50 anos na Bélgica, de onde se espalhou pelo mundo (inclusive no Brasil). Baseada no princípio associativo e cooperativo, envolve estudantes, pais e educadores voluntários num grande e frutuoso mutirão educativo, alternando duas semanas de internato e estudo na escola com duas semanas de trabalho na própria família, para dialogar com o saber tradicional herdado e mantido pelos pais.
Coube ao então Fr. Valdecir Rossa fazer os primeiros encaminhamentos da EFR de Mecuburi. Entretanto, o trabalho mais complexo e pesado foi assumido posteriormente pelo Ir. Edilson Frey, secundado pelo Pe. Neiri Segala. Com o apoio de entidades parceiras da Europa, várias construções, simples mas dignas, foram surgindo no terreno seco em frente à casa da missão, na periferia de Mecuburi. Hoje são várias construções independentes que abrigam salas de aula, administração, dormitórios, refeitório e cozinha, criadouro de suínos, cabras e aves, ferraria, armazém e outros, além do viveiro de mudas, da horta e das plantações (ou machambras, como fala o povo moçambicano).
Esta escola, que se orgulha se ser familiar e rural, humanista e técnica, acolhe estudantes que já tenham completado a 7° série, provindos prioritariamente do meio rural, foi inaugurada em janeiro de 2013, e teve como seu primeiro diretor o próprio Ir. Edilson. De janeiro de 2014 a agosto de 2017, foi dirigida pela Edina Lima, missionaria leiga que faz parte da comunidade missionaria de Mecuburi, e já formou três turmas – num total de 102 jovens – que hoje cultivam a terra com suas famílias ou prosseguem seus estudos noutras escolas. Alguns até se tornaram monitores da própria EFR!
Graças à “pedagogia da alternância” (duas semanas, em regime de internato, na escola, e duas semanas na família) a EFR tem condições de acolher concomitantemente duas turmas de até 40 estudantes, 50% meninos e 50% meninas. É fácil perceber como essa escola acaba se tornando um interessantíssimo espaço de amizade e socialização desses adolescentes que, de outro modo, teriam dificuldades de romper com o duro isolamento nas aldeias rurais. Para muitos deles, é a oportunidade de conhecer a luz elétrica e a televisão, de fazer três refeições por dia e descobrir o mundo das letras. Graças à seriedade e qualidade pedagógica e administrativa, a EFR de Mecuburi vem granjeando a confiança e o reconhecimento do povo e das autoridades da região.
Parte dos atuais alunos da Escola Familiar Rural de Mecuburi
Desde o dia 1° de setembro de 2017, a EFR de Mecuburi está sob a direção do jovem missionário leigo Raphael Alves, que, como a Edina Lima, vem do Centro Oeste do Brasil. Mas a comunidade missionaria como um todo – padres Pedro Léo e Celso, leigos Edina e Raphael) – tem consciência de que a escola é um dos projetos mais queridos preciosos da missão patrocinada pelos Missionários da Sagrada Família em Mecuburi, e disso se orgulham. Por isso, de um ou outro modo, todos estão envolvidos com a escola, os professores e os estudantes. 
Atualmente, a EFR de Mecuburi é mantida por uma bela rede de cooperadores: convenio com o Governo de Moçambique, que cede alguns equipamentos e professores; apoio financeiro de algumas entidades europeias, especialmente para a construção ou melhoria do espaço físico; doações eventuais de amigos e parceiros do Brasil; trabalho voluntario dos missionários, religiosos e leigos; e, principalmente, pela AMISAFA – Ação Missionaria da Sagrada Família. Que todos os colaboradores da AMISAFA se alegrem e orgulhem em saber que sua sempre preciosa colaboração ajuda na formação e na melhoria da vida dos adolescentes de Moçambique!
Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O Evangelho dominical - 17.09.2017

VIVER PERDOANDO

Os discípulos ouviram a Jesus dizer coisas incríveis sobre o amor aos inimigos, a oração ao Pai pelos que os perseguem, o perdão a quem lhes faz mal. Seguramente pareceu-lhes uma mensagem extraordinária, mas pouco realista e muito problemática.
Pedro aproxima-se agora a Jesus com uma abordagem mais prática e concreta que lhes permitiria, ao menos, resolver os problemas que surgiriam entre eles: desconfianças, invejas, confrontos e conflitos. Como têm de atuar naquela família de seguidores que caminham atrás dos Seus passos? Em concreto: «Quantas vezes tenho de perdoar o meu irmão quando me ofende?»
Antes de que Jesus lhe responda, o impetuoso Pedro adianta-se para fazer a sua própria sugestão: «Até sete vezes?» A sua proposta é de uma generosidade muito superior ao ambiente justiceiro que se respira na sociedade judaica. Vai mais longe inclusive do que se pratica entre os rabinos e os grupos essênios, que falam como máximo de perdoar até quatro vezes.
No entanto, Pedro continua a mover-se no plano da casuística judaica, onde se prescreve o perdão como arranjo amistoso e regulamentado para garantir o funcionamento ordenado da convivência entre quem pertence ao mesmo grupo.
A resposta de Jesus exige colocar-nos noutro registro. No perdão não há limites: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete». Não tem sentido manter uma contabilidade do perdão. O que se põe a contar quantas vezes está a perdoar ao irmão entra por um caminho absurdo que arruína o espírito que tem de reinar entre os Seus seguidores.
Entre os judeus era conhecido o «Canto da vingança» de Lámec, um lendário herói do deserto, que dizia assim: «Cain será vingado sete vezes, mas Lámec será vingado setenta vezes sete». Perante esta cultura da vingança sem limites, Jesus propõem o perdão sem limites entre os Seus seguidores.
As diferentes posições ante o Concilio foram provocando no interior da Igreja conflitos e confrontos por vezes muito dolorosos. A falta de respeito mútuo, os insultos e as calúnias são frequentes. Sem que ninguém os desautorize, setores que se dizem cristãos servem-se da Internet para semear agressividade e ódio, destruindo sem piedade o nome e a trajetória de outros crentes.
Necessitamos urgentemente testemunhas de Jesus que anunciem com palavra firme o Seu Evangelho e que contagiem com coração humilde a Sua paz. Crentes que vivam perdoando e curando esta obsessão doentia que entrou na Sua Igreja.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

ANO A – VIGÉSIMO-QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 17.09.2017

Sejamos incansáveis agentes do perdão e da reconciliação!
A vingança implacável e violenta hoje é quase uma exceção e, por isso, quando ocorre, torna-se notícia. Mas isso não quer dizer que as tensões tenham sido resolvidas e que os débitos tenham sido realmente perdoados e eliminados da convivência social. Os débitos e ofensas tem hoje uma conotação mais psicológica e social que moral, e às vezes se diluem numa situação que se criou sem culpa. Assim, muitos pensam que os pobres, os negros, as mulheres, os indígenas e outros, devem se contentar com um lugar subalterno e marginal, e não são perdoados quando ousam questionar esta ordem desordenada...
A parábola que Jesus propõe no evangelho deste domingo parte de uma pergunta que Pedro faz, como sempre, em nome dos discípulos: até quantas vezes devemos perdoar os irmãos e irmãs? Por trás da pergunta está a experiência viva de uma comunidade que enfrenta situações de tensão, de ofensa e pecado. Pedro não escamoteia esta situação, mas pensa que perdoar até sete vezes seja um inequívoco e suficiente sinal de generosidade. Efetivamente, essa já seria uma radical e corajosa inversão da postura de Lamec, que propunha vingar sete vezes quem agredisse Caim (cf. Gn 4,24).
A resposta de Jesus é contundente: “Não até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes!” Sua intenção é clara: o perdão aos irmãos e irmãs não deve ter limites, pois não é uma questão de números, mas de espiritualidade e de ética. E, para ilustrar aquilo que afirma, Jesus conta uma parábola, na qual contrapõe a pratica esperada de um cristão com a de um empregado que, mesmo tendo uma grande dívida perdoada por seu patrão, se nega a perdoar uma pequena dívida do seu companheiro. As ações do rei destoam do ensino de Jesus Cristo, mas Jesus não se preocupa com nossos fajutos pudores morais...
Precisamos também superar uma visão moralista e superficial das ofensas e débitos. A dívida do escravo da parábola é absolutamente impagável: 10 mil talentos equivalente ao tributo que o rei Pompeu exigiu de Israel depois de conquistá-lo! Ademais, o foco do ensino de Jesus nesta parábola não é o nosso pecado, mas o pecado ou a dívida dos irmãos. Muitos pensam que as pessoas nas escalas inferiores devem obediência e respeito às das pessoas das escalas superiores; que os pobres devem se contentar com as migalhas mal-humoradas dos ricos; que os leigos devem se submeter aos ministros ordenados...
O núcleo do ensino de Jesus é a conexão indissociável entre receber perdão e dar perdão. E isso é lustrado na relação que a parábola estabelece entre o perdão de uma enorme dívida, que o empregado recebe incondicionalmente do rei, e a sua falta de compaixão para com o companheiro que lhe devia algo insignificante. Esse empregado se mostra surdo e indiferente aos apelos do irmão, e o trata com violência (agarra, sufoca e joga na prisão). Até seus companheiros ficam impressionados diante de tanta violência. É isso que faz o rei voltar atrás e revelar que sua compaixão não era sincera nem profunda.
É sobre isso é que Jesus chama a atenção: “É assim que o meu pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão!” Se a vontade de Deus, que é estender seu perdão a todas as relações humanas, não for levada a sério, ele se verá forçado a agir como o rei da parábola. Aqui Deus não é o ‘rei dos céus’ mas o ‘pai que está nos céus’, e enquanto pai, nutre e testemunha um amor indiscriminado (cf. Mt 5,45-48), um amor que responsabiliza os discípulos. A misericórdia de Deus é um dinamismo que deve sustentar um modo de vida também misericordioso nos discípulos.
Quem não consegue perdoar, não alcançou a verdadeira liberdade. Viver sob o ressentimento, cobrando eternamente as ofensas cometidas, exigindo o pouco que os outros devem, é uma terrível escravidão que impede nosso amadurecimento humano e espiritual. Paulo diz que que somos nós que devemos amor ao próximo e não eles a nós (cf. Rm 13,8), e pede que sejamos acolhedores e compreensivos com aqueles que se mostram mais fracos na fé. Ele nos ensina que o núcleo da fé não é nossa honra ou nossos méritos, mas Jesus Cristo e seu Reino. “Ninguém vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos, e se morremos, é para o Senhor que morremos...”
Deus pai e mãe, o resumo da tua palavra é a verdade (cf. Sl 119/118,160). Hoje tua Palavra nos ensina que o perdão, tanto quando é recebido quanto quando é dado, é um dom que nos faz livres e resgata a igualdade essencial de todas as pessoas. Que teu Espírito e a participação na eucaristia, a mesa dos iguais, dos pecadores reconciliados, nos liberte da ira que mutila, das cobranças infantis, das acusações desequilibradas. Faz da nossa comunidade um laboratório de perdão e de igualdade, e, da Igreja inteira, um movimento capaz de fecundar o mundo e a história com a força do perdão. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Livro do Eclesiástico 27,33-28,9 * Salmo 102 (103) * Carta aos Romanos 14,7-9 * Evangelho de S. Mateus 18,21-35) 

domingo, 10 de setembro de 2017

Paixão & Missão

Um domingo com doce-amargo sabor de missão
Pe. Pedro, em frente à igreja de Malina...
O episódio do evangelho que a Igreja propunha para aquele domingo (3 de setembro de 2017) era aquele que podemos chamar da crise de fé de Pedro. Depois de haver professado a fé em Jesus, o Cristo e filho de Deus vivo, e depois de ter sido elogiado por sua ortodoxia e sabedoria, Pedro se colocou à frente de Jesus querendo impedi-lo de seguir o caminho que o próprio Pai havia traçado: não a carreira sacerdotal e o sucesso, mas o caminho profético da denúncia, do enfrentamento e dom de si até o fim.  A Palavra de Jesus é clara: o verdadeiro discípulo se coloca atrás dele, e não à frente. Ele é o caminho, por mais heterodoxo que às vezes pareça ser.
Ruminando essa boa e provocativa notícia de Jesus Cristo, despertei às 04:30 h e, depois de um café frugal, acompanhei o Pe. Pedro Léo Eckert msf na visita e celebração às comunidades da zona de Malina, setor “Milhana A”, paroquia Santa Cruz de Muíte, diocese de Nampula, Moçambique. A viagem durou mais de três horas.  Passamos por vários povoados, com suas casas típicas de palha e barro, atravessamos regiões praticamente desérticas, por onde perambulam misérias que ferem como se fossem espinhos que ameaçam penetrar nossos olhos.
O povo nos esperava em grande número, à sombra dos cajueiros. Quando avistaram o velho e conhecido Land Rover, um dos poucos veículos em condições de enfrentar incólume os caminhos – ou descaminhos – do sertão moçambicano, fizeram fila e abriram caminho para nos acolher com seus cantos, sempre acompanhados por tambores. Uma acolhida masculina, pois, nestas terras e culturas, a mulher vem sempre depois, atrás e abaixo... A evangelização deve sim ser inculturada, mas precisa também, no tempo oportuno, introduzir a novidade de Jesus!
Como é costume nestas terras de opressão explícita e continuada e de pecado introjetado, a celebração começa com as confissões individuais. Neste momento, o imenso muro étnico que separa o missionário estrangeiro e o fiel nativo, se mostra uma barreira linguística. Como escutar e orientar o fiel que vive sua fé, carrega suas dores e confessa seus pecados na língua macua se o missionário fala apenas português? Que Jesus revele sua inesgotável misericórdia na escuta atenta e nas palavras de apoio, benção e perdão de um ministro limitado e também pecador.
O Pe. Pedro presidiu a missa, seguindo o ritual na língua macua, com a ajuda de um “ancião” (ministro leigo), naturalmente mais habilitado nas nuances da língua. Fez a homilia em português, traduzida, a seu modo e no seu próprio horizonte religioso, pelo ancião. Por aqui é assim mesmo. A fé que o povo mantém e que mantém o povo é aquela que os lideres leigos cultivam e transmitem. Por isso, uma das principais estratégias da missão parece ser a formação continua e profunda dos verdadeiros sujeitos da Igreja, as lideranças leigas.
No final da missa, o coirmão pediu-me gentilmente que eu falasse. Até então, eu permanecera calado. Comecei dizendo que não havia falado porque sou surdo e mudo. Foi uma brincadeira, mas também uma metáfora da realidade:  o missionário e o visitante, além de serem hospedes, são e permanecem sempre um pouco surdos, pois não conseguem entender a língua e a cultura do outro, e mudos, porque não conseguem se comunicar adequadamente. Talvez seja essa a maior dor dos/as missionários/as: por mais que se esforcem e se doem, generosamente, permanecerão sempre estrangeiros/as e estranhos/as, uma espécie de bárbaros...
Um flash da presença das crianças presentes na celebração 
No final, em meio a danças e cantos, a comunidade expressou sua gratidão, como é costume por aqui, entregando aos missionários dois pequenos frangos e um enorme cacho de bananas. Em seguida, depois de algumas brincadeiras com as crianças e conversas com os adultos, serviram-nos a tradicional chima (feita de água e farinha de milho), frango assado, fígado de porco e cabrito cozido, que comemos usando as mãos como talheres. Estava gostoso e nos alimentou para a viagem de volta, por estradas arenosas, poeirentas e cheias de buracos e enormes pedras.
Assim, e ainda mais dura, e mais bela, é a vida dos missionários/as nessas terras: mais de 7 horas de viagem, em meio a incontáveis riscos, para uma celebração. Mas, para celebrar e se encontrar, há gente que caminha muito mais, sob um sol escaldante e enfrentando, entre outros, o risco de serpentes. E, além de não receber frangos e bananas, também volta para sua casa sem chima, sem frango assado e sem cabrito cozido. Oxalá, naquilo que depender de nós, essa gente nunca volte sem a alegria do Evangelho, sem a certeza do amor e da misericórdia de Jesus Cristo.

Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Paixão & Missão

Quando as lágrimas se tornam missionárias...
Os missionários leigos Édina Lima e Raphael Alves
Estou em trânsito, voltando de Moçambique, depois de 10 dias de convivência com a comunidade dos Missionários da Sagrada Família, em Mecuburi, diocese de Nampula. São muitas as imagens e sentimentos que zunem na minha cabeça e pedem espaço no meu coração. Mas não estou preocupado em ordena-las racionalmente. A missão não nasce nem se sustenta no cálculo, nas razoes claras e distintas. A missão faz parte das loucuras de um Deus apaixonado...
Neste dia que, para os Brasileiros, deveria ser de jejum e protesto, almocei em Nampula, na casa do Julio, noivo da nossa querida missionaria Edina, em companhia do Pe. Celso. Mais tarde, eles se reuniram com os missionários brasileiros da região para celebrar a data nacional. Depois de oito meses de calmaria, ontem a Edina foi de novo visitada pela malária, mas isso não impediu que viajasse conosco a Nampula e, inclusive, preparasse nosso almoço.
Aliás, ontem a malária se manifestou também no outro missionário leigo da nossa comunidade, o Raphael. Para quem vive nessas plagas, a doença nunca é novidade; a novidade é a ausência mais ou menos prolongada dela... Confesso que me cortou o coração ver ontem a Edina tremendo de febre, coberta de casacos embora a temperatura externa fosse de 25 graus... Mas não ouvi uma palavra de protesto ou de lamento, nem vi lagrimas, não obstante as dores terríveis que costumam anunciar e acompanhar esta enfermidade.
Lagrimas a Edina derramou, de verdade e em abundancia, em outubro de 2012, quando visitou Moçambique pela primeira vez, durante um mês. Ela não esquece disso, e gosta de recordar. Ela diz que tinha a impressão de que Moçambique entrara dentro dela e criara raízes, de que nela passavam a morar todas as belezas e durezas da vida teimosa do povo moçambicano, todos os suspiros e sonhos “em dose forte e lenta, de uma gente que ri quando deveria chorar e não vive, apenas aguenta”, como canta noutro contexto Milton Nascimento.
Mas aquelas não eram apenas lagrimas na despedida. O aperto na garganta prosseguiu nas duas horas de voo entre Nampula e Johannesburgo, e se prolongou noite adentro, no hotel, onde deveria aguardar o voo a São Paulo, no dia seguinte. Isso chamou a atenção do pessoal do hotel, que procurou saber se algo ruim estava acontecendo com aquela estranha brasileira. Não era nada de ruim, era tudo de bom, o máximo bem: um amor que não era simples sentimento, mas aliança e desejo louco de voltar!
Meus pensamentos vagueiam, e eu lembro que nos próximos dias (dia 14) celebraremos a festa Exaltação da Santa Cruz, o louvor a esse sinal inequívoco do amor que se esvazia para fazer-se dom, de um Deus que desce para abraçar a humanidade e curar suas dores. Logo depois (dia 15) teremos a festa de Nossa Senhora das Dores, de todas as dores, especialmente aquelas que dão à luz uma nova humanidade. E, no dia 19, a memória da aparição de Nossa Senhora nos Alpes franceses, com suas lagrimas luminosas...
Não é espantoso e paradoxal que os cristãos pouco se importem com suas próprias dores? Para os discípulos de Jesus, o que dói é a dor dos outros, e as lagrimas não se resumem a uma paixão sentimental. As lagrimas dos cristãos sempre conjugam a dor dos outros, assumida como se fosse própria, com a suprema alegria de descobrir-se capaz de compaixão, de sentir-se chamado a ser mais, a sair de si, a fazer-se próximo, irmão e irmã. Esta é a beleza que arranca lagrimas e rega as sementes de um mundo sem fronteiras e sem pirâmides...

Itacir Brassiani msf

ANO A – VIGÉSIMO-TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 10.09.2017

Na força da Palavra, reconciliar o mundo tão dividido!
Não dizemos com todas as letras, mas o sentimento generalizado é que o ‘outro’ é o nosso inferno. Hoje, o ideal parece ser viver, sofrer e vencer sozinho, sem ninguém por perto para perturbar ou dividir o prêmio. Talvez experiência do inferno não esteja ligada à consciência de ter errado mas ao terror de ser corrigido. É proibido importar-se com a vida do ‘outro’, pois isso pode trazer incômodos. Cada um decide e age com absoluta autonomia, e ninguém pode contestar sua decisão e sua ação. O inferno parece abrir suas portas somente quando alguém questiona nosso comportamento, atitude ou ação.
Depois de ter dito que o caminho que nos leva ao Reino de Deus é a acolhida solidaria dos pequenos e a atitude de criança; que é preciso evitar comportar-se como pedras no caminho dos pequenos; que Deus age como um pastor que, movido pelo amor pastoral, deixando em segundo lugar as noventa e nove ovelhas que estão protegidas e saindo à procura daquela que está em situação de risco, no evangelho deste domingo Jesus oferece à comunidade dos discípulos uma proposta pedagógica para enfrentar os erros e defecções internas. “Se o teu irmão pecar, vá e mostre o erro dele.”
Estamos lembrados do que Jesus disse a Pedro: “O que você ligar na terra será ligado no céu...” Sabemos que este ministério é extensivo a todos aqueles que o reconhecem como Messias e seguem seus passos. Trata-se de continuar sua missão de recriar os laços, de aproximar as pessoas entre si e com Deus, de criar e fortalecer alianças, de renovar a face da terra na força do seu Espírito. Por isso, o objetivo da correção fraterna não é punir quem erra ou construir a fama de quem denuncia, mas a conversão e a reconciliação das pessoas e grupos sociais que experimentam tensões e divisões.
O que Jesus nos propõe não é um procedimento jurídico mas uma pedagogia, um caminho. E o primeiro passo desse caminho é tomar a iniciativa de procurar discretamente aquele que nos atingiu ou prejudicou, fazendo isso com a atitude do pastor que vai ao encontro da ovelha que se perdeu e, quando a encontra, se alegra mais com ela que com as noventa e nove que não cometeram nenhum erro (cf. Mt 16,12-14). “Se ele lhe der ouvidos, você terá ganho seu irmão.” Mas nem quando essa iniciativa não é bem sucedida, não há razão para desistir. Jesus propõe um segundo passo...
O segundo passo é voltar ao irmão que pecou contra nós com uma ou duas pessoas que possam ajudar-nos a convencê-lo do erro e servir de testemunhas. Se, mesmo assim, ele não aceitar este segundo passo da correção fraterna, há uma terceira possibilidade: comunicar à comunidade eclesial, pois ela recebeu a responsabilidade ligar e desligar (cf. Mt 16,13-20). Se a ruptura se mantiver, há ainda um último recurso: “Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos.” Mas isso não significa trata-lo como inimigo?
Certamente Jesus não está pedindo que lavemos as mãos e, muito menos ainda, que discriminemos ou condenemos o próximo. Para os discípulos de Jesus Cristo, pagãos e pecadores são terreno de missão, e tanto a conversão como o perdão supõem um dinamismo ou uma base de sustentação. Este dinamismo se chama oração. A conversão – a nossa e a dos outros! – deve ser cultivada no coração e buscada na oração. Acima de qualquer poder de ligar e desligar, ou de qualquer vontade de punir aqueles que erram, deve estar sempre o desejo de concórdia, o amor fraterno. Nada está acima disso: nem a doutrina das Igrejas, nem seus interesses. “Quem ama o próximo cumpriu plenamente a lei”, diz São Paulo.
Sabemos por experiência que algumas mudanças, aquelas que tocam a vida mais profundamente, são muito exigentes e demoradas. Mas não são impossíveis. Por isso, Jesus conclui sua proposta pedagógica de correção fraterna sublinhando a importância da convergência de interesses e projetos na oração. “Se dois de vocês na terra estiverem de acordo sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está no céu.” Daí a necessidade de percorrer todos os passos indicados. Uma comunidade baseada na concórdia descobre sua força de reconciliação.
Deus pai e mãe, tu inclinas o ouvido para ouvir nossos clamores e orientar nossos passos. Somos membros do teu povo, ovelhas do teu rebanho. Tua Palavra é luz que dá cor às nossas buscas, é lâmpada no nosso caminhar. Por ela tu nos confias o dinamismo da reconciliação e nos ensinas que o amor à nossa ‘pátria amada’ não pode ter primazia sobre a sede de justiça e da concórdia, que estão acima das fronteiras nacionais e políticas. Abre nossos ouvidos a esta Palavra e faz da tua Igreja uma comunidade completamente empenhada na reconciliação da humanidade, hoje tão dividida. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Ezequiel 33,7-9 * Salmo 94 (95) * Carta de Paulo aos Romanos 13,8-10 * Evangelho de S. Mateus 18,15-20) 

O Evangelho dominical - 10.09.2017

ESTÁ ENTRE NÓS

Embora as palavras de Jesus, recolhidas por Mateus, sejam de grande importância para a vida das comunidades cristãs, poucas vezes atraem a atenção de comentaristas e predicadores. Esta é a promessa de Jesus: «Onde estão dois ou três reunidos em Meu nome, ali estou Eu no meio deles».
Jesus não está pensando em celebrações massivas, como as da praça de São Pedro em Roma. Embora só sejam dois ou três, ali está Ele no meio deles. Não é necessário que esteja presente a hierarquia; não faz falta que sejam muitos os reunidos.
O importante é que «estejam reunidos», não dispersos nem em confronto: que não vivam desqualificando-se uns aos outros. O decisivo é que se reúnam «em Seu nome»; que escutem a Sua chamada, que vivam identificados com o Seu projeto do reino de Deus. Que Jesus seja o centro do Seu pequeno grupo.
Esta presença viva e real de Jesus é a que há de animar, guiar e suster as pequenas comunidades dos Seus seguidores. É Jesus quem há de alentar a Sua oração, as Suas celebrações, projetos e atividades. Esta presença é o «segredo» de toda a comunidade cristã viva.
Os cristãos, não nos podemos reunir hoje nos nossos grupos e comunidades de qualquer forma: por costume, por inércia ou para cumprir umas obrigações religiosas. Seremos muitos ou, talvez, poucos. Mas o importante é que nos reunamos em seu nome, atraídos pela Sua pessoa e pelo Seu projeto de fazer um mundo mais humano.
Temos de reavivar a consciência de que somos comunidades de Jesus. Reunimo-nos para escutar o Seu Evangelho, para manter viva a Sua recordação, para contagiar-nos pelo Seu Espírito, para acolher em nós a Sua alegria e a Sua paz, para anunciar a Sua Boa Nova.
O futuro da fé cristã entre nós dependerá em boa parte do que façam os cristãos nas nossas comunidades concretas nas próximas décadas. Não basta o que possa fazer o Papa Francisco no Vaticano. Tampouco podemos colocar a nossa esperança no punhado de sacerdotes que possam ordenar-se nos próximos anos. A nossa única esperança é Jesus Cristo.
Somos nós os que temos de centrar as nossas comunidades cristãs na pessoa de Jesus como a única força capaz de regenerar a nossa fé gasta e rotineira. O único capaz de atrair os homens e mulheres de hoje. O único capaz de gerar uma fé nova nestes tempos de incredulidade. A renovação das instâncias centrais da Igreja é urgente. Os decretos de reformas, necessários. Mas nada tão decisivo como voltar com radicalidade a Jesus Cristo.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O Evangelho dominical - 27.08.2017

QUE DIZEMOS NÓS?

Também hoje Jesus dirige, a nós cristãos, a mesma pregunta que fez um dia aos Seus discípulos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Não nos pregunta só para que nos pronunciemos sobre a Sua identidade misteriosa, mas também para que revisemos a nossa relação com Ele. Que podemos responder-lhe desde as nossas comunidades?
Esforçamo-nos por conhecer cada vez melhor Jesus ou temo-Lo «encerrado nos nossos velhos esquemas entediantes» de sempre? Somos comunidades vivas, interessadas em colocar Jesus no centro da nossa vida e das nossas atividades ou vivemos estancados na rotina e na mediocridade?
Amamos Jesus com paixão ou ele converteu-se para nós num personagem gasto a quem continuamos a invocar enquanto no nosso coração vai crescendo a indiferença e o esquecimento? Quem se aproxima das nossas comunidades, pode sentir a força e o atrativo que têm para nós?
Sentimo-nos discípulos de Jesus? Estamos aprendendo a viver com o Seu estilo de vida no meio da sociedade atual ou deixamo-nos arrastar por qualquer reclame mais apetecível para os nossos interesses? Será que nos é igual viver de qualquer forma ou temos feito da nossa comunidade uma escola para aprender a viver como Jesus?
Estamos aprendendo a olhar a vida como a olhava Ele? Olhamos a partir das nossas comunidades aos necessitados e excluídos com compaixão e responsabilidade ou encerramo-nos nas nossas celebrações, indiferentes ao sofrimento dos mais desvalidos e esquecidos, os que foram sempre os prediletos de Jesus?
Seguimos a Jesus colaborando com Ele no projeto humanizador do Pai ou continuamos a pensar que o mais importante do cristianismo é preocupar-nos com a nossa salvação individual? Estamos convencidos de que a melhor forma de seguir Jesus é viver cada dia fazendo a vida mais humana e mais ditosa para todos?
Vivemos o domingo Cristão celebrando a ressurreição de Cristo? Acreditamos em Jesus ressuscitado, que caminha conosco cheio de vida? Vivemos acolhendo nas nossas comunidades a paz que ele deixa como herança aos Seus seguidores? Acreditamos que Jesus nos ama com um amor que nunca acabará? Acreditamos na Sua força ressuscitadora? Sabemos ser testemunhas do mistério da esperança que levamos dentro de nós?
José Antonio Pagola
Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez