quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O Evangelho dominical - 18.02.2018

ENTRE CONFLITOS E TENTAÇÕES

Antes de começar a narrar a atividade profética de Jesus, Marcos diz-nos que o Espírito o empurrou para o deserto. Ele ficou ali quarenta dias, deixando-se tentar por Satanás; vivia entre vermes e os anjos serviam-No. Estas breves linhas são um resumo das tentações ou provas básicas vividas por Jesus até à Sua execução na cruz.
Jesus não conheceu uma vida fácil nem tranquila. Viveu levado pelo Espírito, mas sentiu na Sua própria carne as forças do mal. A Sua entrega apaixonada ao projeto de Deus levou a viver uma existência desgarrada por conflitos e tensões. Dele temos de aprender, nós Seus seguidores, a viver em tempos de prova.
«O Espírito empurra Jesus para o deserto»
Não o conduz para uma vida cômoda. Leva-O por caminhos de provas, riscos e tentações. Procurar o reino de Deus e a Sua justiça, anunciar Deus sem falseá-Lo, trabalhar por um mundo mais humano é sempre arriscado. Foi para Jesus e será para os Seus seguidores.
«Ficou no deserto quarenta dias»
O deserto será o cenário pelo que transcorrerá a vida de Jesus. Este lugar inóspito e nada acolhedor é símbolo de provas e dificuldades. O melhor lugar para aprender a viver do essencial, mas também o mais perigoso para quem fica abandonado às suas próprias forças.
«Tentado por Satanás»
Satanás significa o adversário, a força hostil a Deus e a quem trabalha pelo Seu reinado. Na tentação descobre-se o que há em nós de verdade ou de mentira, de luz ou de trevas, de fidelidade a Deus ou de cumplicidade com a injustiça. Ao longo da Sua vida, Jesus irá manter-se vigilante para descobrir «Satanás» nas circunstâncias mais inesperadas. Um dia rejeitará Pedro com estas palavras: «Afasta-te de mim, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus». Os tempos de prova temos de os viver, como Ele, atentos ao que nos pode desviar de Deus.
«Vivia entre vermes e os Anjos serviam-No»
As feras, os seres mais violentos da terra, evocam os perigos que ameaçaram Jesus. Os anjos, os seres mais bondosos da criação, sugerem a proximidade de Deus, que os abençoa, cuida e sustenta. Assim viverá Jesus: defendendo-se de Antipas, a quem chama «raposa», e procurando na oração da noite a força do Pai. Temos que viver estes tempos difíceis com os olhos fixos em Jesus. É o Espírito de Deus que nos está a empurrar para o deserto. Desta crise sairá um dia uma Igreja mais humana e mais fiel ao Seu Senhor.
José Antonio Pagola
Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

ANO B – PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA – 18.02.2018


Conversão, justiça, comunhão e alegria é missão de cada dia!
Na última quarta-feira, enquanto recebíamos um punhado de cinza sobre a cabeça, escutávamos contritos e atentos a interpelação: “Convertam-se e acreditem no Evangelho!” Exatamente nessa ordem: primeiro, converter-se; depois, acreditar no Evangelho. A proposta apresentada por Jesus, assim como o caminho por ele aberto, são portadores de uma novidade tão radical que, para acolhê-la, precisamos mudar nossos esquemas mentais. E a base e o ponto de partida é aquilo que Pedro anuncia: a Aliança que Deus selou conosco em Jesus Cristo, a justo que morreu para reconciliar os injustos com Deus.
O evangelista nos diz que, logo depois do batismo no rio Jordão, onde faz a experiência de ser filho amado do Pai e servo enviado aos irmãos e irmãs, Jesus é conduzido pelo Espírito ao deserto. Seu batismo assinala claramente um novo começo, mas com sua retirada para o deserto esse início parece ser adiado por um tempo. Na verdade, Jesus apenas se retira do palco e se subtrai aos holofotes para aprofundar o sentido da missão que assumiu no batismo. No deserto, ele é levado ao confronto consigo mesmo e com as diversas possibilidades de viver sua condição de filho amado do Pai e servo da humanidade.
Efetivamente, Jesus faz a experiência das tentações que costumam acompanhar todos aqueles que se comprometem no serviço a Deus e ao seu povo: a tentação das soluções fáceis, miraculosas e espetaculares (cf. Mc 8,11); a tentação do legalismo e do casuísmo para beneficiar apenas algumas pessoas (cf. Mc 10,2); a tentação de disputar o poder (cf. Mc 12,15); a tentação de identificar a vontade de Deus com os próprios medos e vontades (cf. Mc 14,32-38). Os 40 dias de deserto recordam simbolicamente que Jesus foi frequentemente tentado, mas venceu guiando-se pelo Espírito.
No deserto, Jesus foi clareando o núcleo do Boa Notícia que anunciaria aos pobres. Por isso, este foi um tempo forte de discernimento e amadurecimento que, de alguma forma, estendeu-se por toda a sua vida. Pois o amadurecimento costuma se oferecer na discrição, no silêncio e na margem, longe dos holofotes e da publicidade. Este é o espírito do tempo quaresmal: sair do centro das atenções, deixar de lado os papéis decorados, vencer a comodidade de ficar na superfície e na periferia de nós mesmos, penetrar no núcleo mais secreto e vivo do nosso ser, enfim: crescer no conhecimento de Jesus e na adesão a ele.
O anúncio que Jesus acolheu, aprofundou e reformulou no seu deserto não comporta ameaças ou imposturas. É pura Boa Notícia. “O tempo de espera se cumpriu e o Reino de Deus está próximo!” Aquilo que era esperança faz-se realidade. Aquilo que estava distante agora está inexoravelmente próximo. É o tempo da graça do Senhor, da assinatura de um novo pacto com seus filhos e filhas e com toda sua criação, da justiça vindo como chuva e da paz correndo como rio... Jejuamos, rezamos e fazemos penitência para não passarmos ao largo nem relativizarmos a única coisa que vale a pena.
E qual é este bem precioso do qual não podemos abrir mão? É o novo céu e a nova terra, um país sem miséria e sem corrupção, mas também sem injustiças nem desigualdades (que são violências escondidas mas permanentes, que ferem a alma e o corpo dos mais pobres); uma cultura que enfatiza a relações harmoniosas entre as gerações, entre os grupos sociais, com a natureza e até com a morte, parte insuprimível da vida. E isso mesmo quando nos parece impossível não desconfiar daqueles que nos apresentam medidas e notícias excludentes e violentas como se fossem remédio.
Jesus percorre caminhos que o levam do rio Jordão ao deserto e, do deserto, à Galiléia. Caminhos que o afastam dos palcos e o aproximam da margem. Estradas que levam ao encontro do povo cansado e abatido, para anunciar-lhe a Boa Notícia da chegada do Reino de Deus, da renovação da aliança selada com Noé e com Moisés. Eis o rumo que seus discípulos e discípulas precisamos seguir. É apenas um rumo, não uma estrada bem sinalizada. Os caminhos concretos somos nós que devemos inventar, na força do batismo e com uma consciência boa e reta, como nos diz São Pedro na sua carta.
Jesus, voz que clama no deserto! Faz com que a oração traga oxigênio à nossa fé e nos mantenha abertos às tuas promessas. Que o jejum nos ajude a perceber nossos limites e a potencialize nossa sede de paz, de justiça e de igualdade. Que a partilha do pouco que temos com os que tem menos ainda seja semeadura de novas relações, fecundadas pelo amor e pelo serviço generoso. Que nossas celebrações comunitárias e nossa oração pessoal nos mantenham numa atitude vigilante e nos sustentem na necessária conversão. E não permitas que o cansaço ou a pressa nos prendam aos velhos hábitos e nos impeçam de servir ao bem comum, como indivíduos e como Igreja. Amém! Assim seja!
Itacir Brassiani msf

(Livro do Gênesis 9,8-15 * Salmo 24 (25) * 1ª. Carta de Pedro 3,18-22 * Evangelho de São Marcos 1,12-15)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

ANO B – QUARTA-FEIRA DE CINZAS – 14.02.2018


Deus não despreza ninguém, e tem compaixão de todos!
Estamos iniciando a caminhada quaresmal, tempo de concentração e de busca do essencial, convite a voltar a Deus de todo o coração, a vencer a tendência à fragmentação e à indiferença, a verter todas as energias para o único objetivo realmente decisivo: acolher a oferta de reconciliação que o próprio Deus nos faz; refazer as relações fraternas e avançar na superação das violências e na construção de uma sociedade radicalmente igualitária. Isso significa, entre outras coisas, reforçar o nosso combate sem tréguas contra os males que se enraízam tanto nos nossos sentimentos e pensamentos quanto na cultura e na estrutura social do Brasil, mesmo aqueles embutidos nas reformas ditas imprescindíveis.
Escrevendo aos cristãos de Corinto, Paulo enfatiza que o próprio Deus toma a iniciativa de refazer sua aliança e consertar a ruptura que provocamos com a sua proposta: em Jesus Cristo, ele reconciliou definitivamente consigo o mundo e cada um de nós. É desse dom incondicional, dessa amizade reatada unilateralmente, que brota para nós a possibilidade e a exigência de reconciliação com o Pai e com os irmãos e irmãs. E isso não é algo secundário, mas uma tarefa essencial e coisa para hoje, para agora! “É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação!”, sublinha o apóstolo das nações.
A tradição das comunidades cristãs privilegiou três ações que expressam simbolicamente a mudança de direção e a convergência das forças que marcam o tempo quaresmal: a esmola, a oração e o jejum. Mas, em relação a estas práticas de piedade, Jesus Cristo pede vigilância e autocrítica, pois nem mesmo estas ações estão livres da falsificação e do faz-de-conta. Por mais piedosos que pareçam, estes gestos podem ser motivados pela busca de aprovação, de estima e de reconhecimento e, então, afastam da lógica de Deus, que aprecia e reconhece aqueles que o mundo não vê, aquilo que fica escondido...
Jesus não a descarta a esmola, mas também não se entusiasma ingenuamente com ela. De fato, Jesus questiona a motivação e a disposição com a qual costumamos dar esmola. “Não mande tocar trombeta na frente... Que a sua mão esquerda não saiba o que a sua direita faz.” O sentido autêntico da esmola é a solidariedade e a partilha daquilo que temos com as pessoas que tem menos ainda. Mais que dar daquilo que sobra ou não faz falta, trata-se de partilhar aquilo que é fruto da terra e do trabalho da humanidade e que, por isso mesmo, não pode ser privatizado, pertence a todos.
A oração é, na maioria das religiões, uma expressão de fé e de comunhão com a divindade. Não faltam grupos e pregadores que insistem na necessidade de rezar muito, de multiplicar terços, ladainhas, missas e promessas. No Evangelho, Jesus insiste mais na qualidade e na motivação que na quantidade da oração.  Para ele, a oração é abertura radical a Deus e à sua vontade, superação dos estreitos limites dos nossos gostos, preferências e necessidades, diálogo íntimo e amigo com Aquele que quer nosso bem e que não descansa enquanto todos os seus filhos e filhas não estejam bem.
Quanto ao jejum, hoje ele está de novo na moda, e recebe o simpático nome de dieta. Mas quem a pratica está muito preocupado consigo mesmo, com a saúde ou com a aparência, e pouco interessado na compaixão e na partilha. No tempo de Jesus, muitas pessoas usavam o jejum, sinal de arrependimento e de mudança, para impressionar os outros e aumentar a influência e o poder sobre eles. Como cristãos, precisamos resgatar o sentido pedagógico do jejum: experimentar a humana vulnerabilidade e participar solidariamente das necessidades dos nossos irmãos e irmãs.
Na espiritualidade quaresmal, o jejum, a esmola e a oração estão a serviço do fortalecimento da vontade de combater todas as formas de mal, da conversão ao tesouro do reino de Deus, da renovação da vida em todas as suas expressões. E isso se mostra cotidianamente na abertura humilde e reverente a Deus, na consciência da nossa interdependência em relação aos nossos irmãos e irmãs, na luta permanente para superar todas as formas de violência, assim como a indiferença e o pragmatismo interesseiro que podem condicionar as igrejas e religiões em suas relações com a sociedade civil e o estado brasileiro.
Deus e Pai, nós vos louvamos pelo vosso infinito amor e vos agradecemos por ter enviado Jesus, o Filho amado, nosso irmão. Ele veio trazer paz e fraternidade à família das criaturas e, cheio de ternura e compaixão, sempre viveu relações repletas de perdão, solidariedade e misericórdia. Derrama sobre nós o Espírito Santo, para que, com o coração convertido, acolhamos o projeto de Jesus e sejamos construtores de uma Igreja fraterna e inclusiva e de uma sociedade justa e sem violência, solidaria e igualitária, para que, no mundo inteiro, cresça o vosso Reino de liberdade, verdade e de paz. Amém! Assim seja!
Itacir Brassiani msf
(Profecia de Joel 2,12-18 * Salmo 50 (51) * 2ª. Carta aos Coríntios 5,20-6,2 * Evangelho de S. Mateus 6,1-6.16-18

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O Evangelho dominical - 11.02.2018

AMIGO DOS EXCLUÍDOS

Jesus era muito sensível ao sofrimento de quem encontrava no Seu caminho, marginados pela sociedade, esquecidos pela religião ou rejeitados pelos setores que se consideravam moral ou religiosamente superiores.
É algo que lhe sai de dentro. Sabe que Deus não discrimina ninguém. Não rejeita nem excomunga. Ele não é só dos bons. A todos acolhe e abençoa. Jesus tinha o costume de levantar-se de madrugada para orar. Em certa ocasião revela como contempla o amanhecer: «Deus faz sair o Seu sol sobre bons e maus». Assim é Ele.
Por isso, às vezes ele reclama com força e pede que cessem todas as condenações: «Não julgueis e não sereis julgados». Outras vezes, narra uma pequena parábola para pedir que ninguém se dedique a «separar o trigo e a joio», como se fosse o juiz supremo de todos.
Mas o mais admirável é a Sua atuação. O traço mais original e provocativo de Jesus é o Seu hábito de comer com pecadores, prostitutas e pessoas indesejáveis. O fato é insólito. Nunca se tinha visto em Israel a alguém com fama de «homem de Deus» comendo e bebendo animadamente com pecadores.
Os dirigentes religiosos mais respeitáveis não puderam suportar. A sua reação foi agressiva: «Aí tendes a um comilão e bêbado, amigo de pecadores». Jesus não se defendeu. Era certo, pois no mais íntimo do Seu ser, sentia um respeito grande e cultivava uma amizade comovedora para com os rejeitados pela sociedade ou pela religião.
O evangelista Marcos recolhe no seu relato a cura de um leproso para destacar essa predileção de Jesus pelos excluídos. Jesus está atravessando uma região solitária. De repente aproxima-se um leproso. Não vem acompanhado por ninguém. Vive na solidão. Leva na sua pele a marca da sua exclusão. As leis condenam-no a viver afastado de todos. É um ser impuro.
De joelhos, o leproso faz a Jesus uma súplica humilde. Sente-se sujo. Não lhe fala de doença. Só quer ver-se limpo de todo estigma: «Se queres, podes limpar-me». Jesus comove-se ao ver a Seus pés aquele ser humano desfigurado pela doença e o abandono de todos. Aquele homem representa a solidão e o desespero de tantos estigmatizados. Jesus «estende a Sua mão» procurando o contato com a pele dele, «toca-lhe» e diz-lhe: «Quero, fica limpo!»
Sempre que discriminamos diferentes grupos humanos (vagabundos, prostitutas, toxicômanos, psicóticos, imigrantes, homossexuais...)  a partir da nossa suposta superioridade moral e os excluímos da convivência negando-lhes o nosso acolhimento estamos nos afastando gravemente de Jesus.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

ANO B – SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 11.02.2018

Curando o leproso, Jesus devolve a cidadania dos excluídos!
Depois de nos ter convocado a tomar parte na sua missão de reunir o povo disperso e anunciar a chegada do Reino de Deus, Jesus vai à sinagoga, onde enfrenta a autoridade dos escribas, e à casa de Pedro, onde cura muitos doentes. Após uma madrugada de oração, no final da qual ampliou os horizontes da missão, Jesus é procurado por um leproso. Narrando estes fatos, o evangelista Marcos nos ajuda, pouco a pouco, a reconhecer em Jesus um homem absolutamente livre e libertador, capaz de estabelecer a pessoa humana necessitada ou marginalizada como prioridade absoluta.
No tempo de Jesus, a lepra era considerada uma das piores doenças. A lei de Moisés determinava que as pessoas portadoras dessa doença deveriam ser separadas da convivência familiar e social e morar fora das aldeias, em bosques ou cavernas. E proibia que elas se aproximassem das pessoas consideradas sãs. Os leprosos eram declarados impuros, e assim permaneciam enquanto durava a doença. Isso significa que, como doentes, os leprosos eram colocados à margem da sociedade e considerados sujeitos sem direitos e sem dignidade. E a lei da pureza tornava ainda mais pesada a vida do leproso.
O que chama a atenção é que o leproso descrito no evangelho de hoje se aproxima de Jesus sem levar em conta as proibições impostas pela lei. Ele chega perto de Jesus e pede: “Se queres, tu tens o poder de me purificar”. Essa aproximação é, por si mesma, uma transgressão da lei que demarca muito bem os limites da movimentação de um leproso. Ele jamais poderia aproximar-se de qualquer pessoa sadia, e deveria gritar de longe, pedindo que ninguém se aproximasse, por ele ser impuro. De onde vem a confiança e a força que sustentam este leproso anônimo na sua destemida transgressão? Ele é muito mais ousado que as mais ousadas sátiras que costumam animar o carnaval mais crítico!
Não deixa de causar surpresa a observação de que Jesus ficou muito irritado (algumas traduções amenizem e falem que ele se compadeceu). Seguramente, Jesus não se irrita com o leproso que a ele se dirige com tanta coragem e reverência, mas com a terrível ideologia que carimbava o fardo da doença com a marca da impureza e da exclusão religiosa. Ou então, porque sabe que aquele leproso já havia procurado os sacerdotes para ser purificado e nada conseguira. Jesus se irrita porque sabe que os leprosos são marginalizados e que, para serem purificados, devem oferecer um sacrifício muito custoso.
Jesus “estendeu a mão, tocou no doente e, respondendo à interpelação dele, disse: ‘Eu quero, fique purificado!’ No mesmo instante a lepra desapareceu e o homem ficou purificado.” Jesus não é indiferente à doença e à impureza que pesa sobre os marginalizados! Ele se deixa tocar pela miséria deles e, ao mesmo tempo, os purifica com seu toque solidário.  Declarando puro aquele leproso, Jesus desafia a lei e a autoridade sacerdotal, e ocupa o lugar deles. Enviando o leproso ao templo, Jesus reintroduz no mais sagrado dos espaços da cidade aquela criatura antes condenada à viver à margem da cidadania.
Em outras palavras: o leproso, agora transformado em cidadão, é enviado por Jesus ao templo para testemunhar contra os sacerdotes, e assim participa da própria missão de Jesus. Na verdade, tendo sido reinserido na sociedade que o excluía, ele não vai ao templo, mas se transforma em apóstolo na praça pública: “Começou a pregar muito e espalhar a notícia.” Aquele homem antes condenado aos lugares remotos e desertos, volta ao seio da família e ao coração da cidade e torna-se testemunha e evangelizador. Como consequência, agora é Jesus que não pode mais entrar sossegado numa cidade...
É como se a impureza deixasse o leproso e passasse a Jesus. Com seu toque humanamente divino, Jesus purifica o leproso e assume sua impureza, assume na sua própria carne o pecado do mundo. O doente, antes excluído, se torna cidadão, enquanto que Jesus experimenta a perseguição... Os lugares desertos e afastados das cidades, porém, não são obstáculo para sua missão libertadora. “De todos os lados as pessoas iam procurá-lo.” Jerusalém se esvazia, o templo fica estéril e o povo procura Jesus no deserto. E Jesus continua sua missão de curar, de desmascarar a ideologia discriminadora dos escribas.
Estende tua mão, Jesus de Nazaré, e toca as multidões que jazem à beira da vida, jogadas em situações nas quais é quase impossível sobreviver. Converte a mão da tua Igreja em mão acolhedora e benfazeja. Ajuda-nos a ir além das cômodas mãos postas e a eliminar os incômodos dedos em riste. Que a comunidade dos que acreditam em ti trabalhe sem tréguas pela tua glória, que é a vida dos pobres, e não seja pedra de acusação ou de tropeço para ninguém. Assim, como ensina São Paulo, os cristãos serão teus imitadores e poderão ser imitados, pois não estarão buscando o que é vantajoso pare si mesmos. Amém! Assim seja!
Itacir Brassiani msf
(Livro do Levítico 13,1-2.44-46 * Salmo 31 (32) * 1ª Carta de Paulo aos Coríntios 10,31-11,1* Evangelho de  Sao Marcos 1,40-55)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O Evangelho dominical - 04.02.2018

À PORTA DE NOSSA CASA

Na sinagoga de Cafarnaum, Jesus libertou pela manhã um homem possuído por um espírito maligno. Em seguida, sai da «sinagoga» e parte para a «casa» de Simão e André. A indicação é importante, pois no evangelho de Marcos o que sucede nas casas encerra sempre algum ensinamento para as comunidades cristãs.
Jesus passa da sinagoga, lugar oficial da religião judia, à casa, lugar onde se vive a vida quotidiana junto aos seres mais queridos. Nessa casa vai-se formando a nova família de Jesus. Nas comunidades cristãs temos de saber que não são um lugar religioso onde se vive da Lei, mas um lar onde se aprende a viver de forma nova em torno a Jesus.
Ao entrar na casa, os discípulos falam-lhe da sogra de Simão. Não pode sair a acolhe-los, pois está prostrada na cama com febre. Jesus não necessita nada mais. De novo vai quebrar a lei do sábado, a segunda vez no mesmo dia. Para Ele, o importante é a vida sã das pessoas, não as observâncias religiosas. O relato descreve com detalhes os gestos de Jesus com a mulher doente.
«Aproximou-se». É o primeiro que faz sempre: aproximar-se dos que sofrem, olhar de perto o seu rosto e partilhar o seu sofrimento. Logo «pega-lhe pela mão»: toca a doente, não teme as regras de pureza que o proíbem; quer que a mulher sinta a Sua força de curar. Por fim «levantou-a», coloco-a de pé, devolveu-lhe a dignidade.
Assim está sempre Jesus no meio dos seus: como uma mão estendida que nos levanta, como um amigo próximo que nos infunde vida. Jesus só sabe servir, não de ser servido. Por isso a mulher curada por Ele se põe a «servir» todos. Aprende-o com Jesus. Os seus seguidores, temos de viver acolhendo-nos e cuidando-nos uns aos outros.
Mas seria um erro pensar que a comunidade cristã é uma família que pensa só nos seus próprios membros e vive de costas ao sofrimento dos outros. O relato diz que esse mesmo dia, «ao pôr-se o sol», quando havia terminado o sábado, levam a Jesus todo tipo de doentes e possuídos por algum mal.
Os seguidores de Jesus, temos de gravar bem esta cena. Ao chegar a obscuridade da noite, toda a população, com os seus doentes, «acotovela-se à porta». Os olhos e as esperanças dos que sofrem procuram a porta dessa casa onde está Jesus. A Igreja só atrai de verdade quando as pessoas que sofrem podem descobrir dentro delas Jesus curando a vida e aliviando o sofrimento. À porta das nossas comunidades há muita gente a sofrer. Não o esqueçamos.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

ANO B – QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 04.02.2018

Vivemos para comunicar o Evangelho de Jesus Cristo!  
Com a presença de Jesus, a casa de André, de Pedro e de todos os discípulos e discípulas se converte em espaço de acolhida e resgate da vida. Parece que Jesus desconhece a separação entre espaço público e espaço privado, e que sua ação libertadora não conhece fronteiras: ele não opõe religião e política, une oração e ação, transita livremente das sinagogas às casas, rejeita a precedência dos homens em relação às mulheres, supera o moralismo que impõe o respeito às autoridades e faz pouco caso do povo simples, une de forma indissolúvel o amor a Deus ao amor ao próximo...
Em tudo o que faz e diz, Jesus é a encarnação da Boa Notícia de Deus, especialmente para quem leva a vida como um fardo. Seu Evangelho faz calar o discurso pesado das elites e as decisões impostas de cima, que insistem nos débitos e culpas do povo. Ele ensina e anuncia com autoridade, pois consolida seu ensinamento em ações e relações solidarias e evita palavras vazias e frases de ocasião. Por fim, Jesus é Boa Notícia de Deus porque não se prende a templos e lugares, tem diante de si a humanidade inteira, vai ao encontro dos que ‘estão longe’, sai ao encontro da ovelha amada, faz-se próximo dos ‘últimos’.
No evangelho de hoje, a sogra de Pedro representa a humanidade oprimida por doenças, poderes e doutrinas que discriminam e condenam. Limitadas ao mundo privado, quando adoeciam, as mulheres eram ainda mais segregadas, inclusive no próprio espaço doméstico. Nessa dominação, a ideologia da impureza torna ainda mais pesado machismo cultural. Num mundo no qual predomina a figura masculina, Jesus se importa com a febre de uma mulher, rompe as barreiras culturais e toca no seu corpo. Ele vai onde ela está, segura ela pela mão e a coloca em pé, sem esperar que alguém o peça!
Numa sociedade que sujeita os mais fracos e mantém multidões dependentes dos poderosos, Jesus ajuda o povo caminhar com os próprios pés. Aquela mulher, que antes estava segregada e dependente por causa da doença, descobre sua capacidade de servir, torna-se ‘diaconisa’. E não se trata de um simples serviço subalterno ao qual as mulheres são usualmente subordinadas... Mas, longe de se deixar prender às necessidades do estreito círculo dos discípulos e de cair num ativismo curandeiro, Jesus ensina que seu Evangelho não reconhece fronteiras e encontra na oração o respiro purificador de que necessita.
A seu modo, Paulo sublinha que viver e anunciar essa Boa Notícia não é algo como uma opção, algo que podemos assumir ou não, uma atividade entre outras. Tampouco é um empenho em vista de algum tipo de remuneração. Evangelizar é uma missão que nos é confiada, solicitada, e nossa honra é realizá-la de forma gratuita e livre, sem buscar compensações, como nos demonstrou Jesus. É dessa missão recebida em confiança e como dever que nasce a liberdade do missionário: livre da necessidade de buscar vantagens, ele adquire a capacidade de servir a todos, sem servir-se de ninguém.
Paulo VI ensina que a missão da Igreja é evangelizar, e o Papa Francisco destaca que o fruto do encontro com o Evangelho de Jesus é sempre a alegria, e não o medo ou a resignação. Por seu modo de ser e de agir, Jesus deixa muito claro que entende sua missão como peregrinar pelo mundo instalando ‘hospitais de campanha’, e não construindo ‘alfândegas e tribunais’! Para ser fiel a ele, a Igreja precisa evangelizar trabalhando para que todas as pessoas, começando por aquelas que, como Jó, conhecem a vida apenas como sofrimento, peso e decepção, coloquem-se de pé, libertas, dignas e servidoras.
Mas faz parte da evangelização, porque fez parte da missão de Jesus, “impedir que os demônios falem”. E eles falam quando caçam a palavra original de cada pessoa ou povo e os fazem simples repetidores de discursos moralizantes e excludentes, ou quando atribuem a Deus a causa do sofrimento, da doença e da opressão. Hoje, essa voz demoníaca corre solta nos grandes meios de comunicação, quando se fazem porta-vozes das mentiras de um governo que trata como remédio o veneno que serve ao povo em suas contrarreformas, mas também nas redes sociais e até nas Igrejas, quando vomitam ódios contra lideranças populares, fecham-se a qualquer inovação ou doutrinam para dominar e acumular vantagens.
Querido Jesus, tu vens à nossa casa, e à tua casa que é a Igreja, pois tua Boa Notícia não fronteiras. Ensina-nos a sair de nós mesmos e dos nossos templos para estendermos a mão a todas as pessoas encurvadas sob o peso de tantos fardos econômicos, culturais e religiosos. Dá-nos a coragem de seguir teu exemplo e fazer do serviço aos nossos povos nosso tesouro e destino, de fazermo-nos fracos com os fracos, tudo para todos. E isso, por causa do Evangelho, cujo anúncio é para nós uma necessidade que vem da profundidade da fé e o motivo das nossas maiores alegrias, como ensina Paulo. Amém! Assim seja!
Itacir Brassiani msf
(Livro de Jó 7,1-7 * Salmo 146 (147) * 1ª Carta aos Coríntios 9,16-23 * Evangelho de São Marcos 1,29-39)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O Evangelho dominical - 28.01.2018

CURADOR

Segundo Marcos, a primeira atuação pública de Jesus foi a cura de um homem possuído por um espírito maligno na sinagoga de Cafarnaum. É uma cena avassaladora, narrada para que, desde o início, os leitores descubram o poder de cura e de libertação de Jesus.
É sábado e o povo encontra-se reunido na sinagoga para escutar o comentário da Lei explicado pelos escribas. Pela primeira vez Jesus vai proclamar a Boa Nova de Deus precisamente no local onde se ensina oficialmente o povo das tradições religiosas de Israel.
As pessoas ficam surpreendidas ao escutá-Lo. Têm a impressão de que até agora têm estado a escutar notícias velhas, ditas sem autoridade. Jesus é diferente. Não repete o que ouviu de outros. Fala com autoridade. Anuncia com liberdade e sem medos um Deus bom.
De repente, um homem põe-se a gritar: «Vieste destruir-nos?» Ao escutar a mensagem de Jesus sentiu-se ameaçado. O seu mundo religioso desmorona-se. Diz-nos que está possuído por um «espírito imundo», hostil a Deus. Que forças estranhas o impedem de continuar a escutar Jesus? Que experiências más e perversas bloqueiam o caminho até ao Deus bom que anuncia Jesus?
Jesus não se acovarda. Vê o pobre homem oprimido pelo mal e grita: «Cala-te e sai deste homem!» Ordena que se calem essas vozes malignas que não o deixam encontrar-se com Deus nem consigo mesmo. Que recupere o silêncio que cura o mais profundo do ser humano.
O narrador descreve a cura de forma dramática. Num último esforço para o destruir, o espírito «retorceu o homem violentamente e, fazendo um forte alarido, saiu dele». Jesus conseguiu libertar o homem da sua violência interior. Colocou um fim às trevas e ao medo a Deus. Daqui em diante poderá escutar a Boa Nova de Jesus.
Não poucas pessoas vivem no seu interior de imagens falsas de Deus que lhes fazem viver sem dignidade e sem verdade. Sentem-no, não como una presença amistosa que convida a viver de forma criativa, mas como uma sombra ameaçadora que controla a sua existência. Jesus sempre começa a curar-nos libertando-nos de um Deus opressor.
As Suas palavras despertam a confiança e fazem desaparecer os medos. As Suas parábolas atraem para o amor de Deus, não para a submissão cega da Lei. A Sua presença faz crescer a liberdade, não as servidões; suscita o amor à vida, não o ressentimento. Jesus cura porque nos ensina a viver apenas da bondade, do perdão e do amor, que não exclui ninguém. Cura, porque nos liberta do poder das coisas, do autoengano e da egolatria.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

ANO B – QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 28.01.2018

Jesus ensina com autoridade porque seu Evangelho liberta!
“Até quando continuaremos a aceitar que este mundo enamorado da morte é nosso único mundo possível? Até quando continuarão a soar em sinos de madeira as vozes da indignação? A miséria e a guerra são filhas do mesmo pai: como alguns deuses cruéis, comem os vivos e os mortos...” Há alguns anos estas perguntas lancinantes de Eduardo Galeano me incomodam. Como no episódio da sinagoga de Cafarnaum, no Brasil de hoje as vozes e forças de “deuses cruéis” que se opõem a qualquer mudança em favor do povo não apenas se fizeram ouvir como também ocuparam os meios de comunicação social, assaltaram o Estado e saíram à caça dos poucos direitos conquistados pelas classes populares.
É verdade que são letais as imagens de deuses cruéis que criamos e pregamos, as diversas as imagens de Jesus que circulam em nosso meio, desde aquelas que o aproximam da majestade dos reis até as que o identificam com o jovem de bem com a vida, aquelas de um torturado e banhado em sangue e as outras que o apresentam como um ser absolutamente indiferente diante de tudo. E não se trata apenas de imagens pintadas ou esculpidas, mas também de conceitos que veiculamos nos textos teológicos e espirituais, como aquela de um doce e ingênuo pregador dos valores do céu e da importância da alma...
A imagem de um Jesus ocupado apenas em curar doenças está hoje entre as mais veiculadas. É verdade que os evangelhos nos dizem que Jesus curou muitas pessoas, mas disso não podemos passar à imagem de Jesus como a de um médico ou curandeiro. As curas operadas por Jesus foram poucas e num contexto muito preciso. Não esqueçamos que a doença é um fato social, e não uma simples complicação orgânica. Em situações de alto grau de insegurança e tensão as doenças se multiplicam. Por isso, a verdadeira cura é a recuperação do bem-estar pessoal e social das pessoas, e é isso que Jesus faz.
Jesus não saiu pelos caminhos da Galileia simplesmente oferecendo curas a preços módicos, fazendo concorrência com os médicos e hospitais, como querem dar a entender alguns pregadores de hoje. Para Jesus, o resgate do pleno bem-estar, especialmente dos pobres e doentes, é um sinal da chegada do Messias. Quando cura, sua intenção não é afirmar o próprio poder ou divindade ou fazer fama, mas oferecer sinais de que o Reino de Deus chegou de fato como vida em abundância para as pessoas mais sofridas. E não pensemos que as curas que ele realizava eram aceitas unanimemente...
Na verdade, as ações mediante as quais Jesus restaura a vida e a cidadania das pessoas em sua integralidade são denúncias tácitas da inoperância do sistema político, cultural e religioso que não apenas não possibilita a saúde como também provoca o adoecimento físico e psíquico do povo. Esse enfrentamento com a ordem estabelecida fica claro no luta de Jesus contra os ‘espíritos impuros’. Mas, para compreender o sentido profundo e revolucionário dos “exorcismos” de Jesus precisamos esquecer aquilo que vimos nos filmes de exorcismo e o que vemos hoje nos cultos pentecostais...
No texto do Evangelho deste domingo a questão não é propriamente a possessão ou o exorcismo. Esta que é a primeira ação pública de Jesus relatada por Marcos tem como palco a cidade de Cafarnaum, mais exatamente a sinagoga – que é o espaço dominado pelos doutores da lei e escribas! – e o dia é sábado. Os escribas tinham o poder declarar alguém puro ou impuro, e isso estava ligado com saúde e doença. Ali, diante de um povo admirado com a autoridade do ensinamento de Jesus, uma pessoa possuída por um espírito mau grita seu protesto: “Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir?”
Está muito claro que na voz desse cidadão anônimo e despersonalizado ressoa a voz e o interesse dos escribas, ‘donos do campo’. O que está em jogo nesta cena é a autoridade de ensinar, orientar e liderar o povo: ela pertence a Jesus ou aos escribas? O medo de perder a liderança pode provocar ações e discursos enlouquecidos... Na voz desse homem dominado se manifesta o pânico e a desestabilização provocadas pela autoridade alternativa de Jesus. E isso é confirmado pela própria ação de Jesus: ele luta, ameaça o ‘espírito mau’ e manda que ele se cale e deixe de dominar as pessoas.
Jesus de Nazaré, profeta corajoso na palavra e ousado na ação: Somos teus discípulos e discípulas, e conosco estão os irmãos e irmãs de milhares de comunidade cristãs, além de homens e mulheres de boa vontade que se fazem movimento. Não permitas que vendamos nossa esperança por preço nenhum. Não nos deixes trocar teu Evangelho por ‘antigas lições’, ou fazer de ti um mestre doce e inofensivo. Ajuda-nos a romper com as estruturas de um mundo enamorado da morte, e faz ressoar em nossos sinos de bronze tua boa notícia, a indignação e a esperança! Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Livro do Deuteronômio 18,15-20 * Salmo 94 (95) * Primeira Carta aos Coríntios 7,32-35 * Evangelho de S. Marcos 1,21-28)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O Evangelho dominical - 21.01.2018

OUTRO MUNDO É POSSÍVEL

Não sabemos com certeza como reagiram os discípulos do Batista quando Herodes Antipas o encarcerou na fortaleza de Maqueronte. Conhecemos a reação de Jesus. Não ficou no deserto. Tampouco se refugiou entre os Seus familiares de Nazaré. Começou a percorrer as aldeias da Galileia predicando uma mensagem original e surpreendente.
O evangelista Marcos resume dizendo que «partiu para a Galileia proclamando a boa nova de Deus». Jesus não repete a predicação de João Batista nem fala do Seu batismo no Jordão. Anuncia Deus como algo novo e bom. Esta é a Sua mensagem.
«Cumpriu-se o prazo»
O tempo de espera que se vive em Israel acabou. Terminou também o tempo do Batista. Com Jesus começa uma era nova. Deus não quer deixar-nos sós ante os nossos problemas, sofrimentos e desafios. Quer construir junto conosco um mundo mais humano.
«Está chegando o reino de Deus»
Com uma audácia desconhecida, Jesus surpreende a todos anunciando algo que nenhum profeta se havia atrevido a declarar: « Deus já está aqui, com a força criadora da Sua justiça, tratando de reinar entre nós». Jesus experiencia Deus como uma Presença boa e amistosa que está a abrir caminho entre nós para humanizar a nossa vida.
Por isso toda a vida de Jesus é uma chamada à esperança. Há alternativa. Não é verdade que a história tenha que seguir pelos caminhos da injustiça que lhe trazem os poderosos da terra. É possível um mundo mais justo e fraterno. Podemos modificar a trajetória da história.
«Convertei-vos»
Já não é possível viver como se nada estivesse a acontecer. Deus pede aos Seus filhos colaboração. Por isso grita Jesus: «Mudai a forma de pensar e de atuar». Somos nós mesmos que temos que mudar. Deus não impõe nada pela força, mas está sempre atraindo as nossas consciências para uma vida mais humana.
«Acreditai nesta boa nova»
Tomai-a a sério. Despertai da indiferença. Mobilizai as vossas energias. Acreditai que é possível humanizar o mundo. Acreditai na força libertadora do Evangelho. Acreditai que é possível a transformação. Introduz no mundo a confiança.
Que temos feito desta mensagem apaixonante de Jesus? Como o podemos esquecer? Com que a temos substituído? Em que nos estamos a entreter se o primeiro é «procurar o reino de Deus e a sua justiça»? Como podemos viver tranquilos observando que o projeto criador de Deus de uma terra cheia de paz e de justiça está sendo aniquilada pelos homens?
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez