quarta-feira, 16 de novembro de 2011

SÍMBOLOS DE REALEZA QUE PODEM ULTRAJAR OS POBRES

Na ocasião em que celebramos mais uma festa litúrgica de Cristo Rei pareceu-me oportuno resgatar uma comovida e profética meditação que Dom Hélder escreveu em Roma, na vigília desta mesma festa, durante o Concílio Vaticano II. A meditação aparece na circular escrita aos amigos e colaboradores na madrugada do dia 25 de outubro de 1964, e é de uma lucidez e, de uma simplicidade e de uma coragem tão evangélicas que comovem, mesmo 50 anos depois.
Tenho certeza, meu Irmão Jesus Cristo, de que nos entendemos, em absoluto, quando digo que a festa de hoje me aflige.
Claro que tenho presente a cena evangélica em que, interpelado oficialmente, declaraste tua realeza. Claro que tenho no ouvido a descrição que de teu reino, faz o prefcio da missa de hoje: reino de verdade e de vida; de santidade e de graça; de justiça e de paz.
Claro que não me esqueço que, um dia, todos os homens seremos julgados por Ti. Mas como, com a melhor das intenções, tua realeza tem sido interpretada em termos não-evangélicos!...
Hoje, os homens brincam de Rei. Isto me parece válido até para a Inglaterra... E é verdadeiríssimo para os povos onde aclamamos a Rainha da Primavera e do Maracatu, ou rei Momo I e único...
Cristo Rei!... Como explicar teu título aos 2/3 que estão no subdesenvolvimento e na fome?... Vão perguntar-me pela paz, pelo amor e pela justiça, tão ausentes da terra... Vão indagar-me pela santidade e pela graça que se refugiam no íntimo de tão poucos... Vão querer saber onde se escondem a verdade e a própria vida. (Viver, humanamente, não é só vegetar...)
Tanto que disseste que teu reino não è deste mundo. De novo, nossa fraqueza transformou em império a tua Igreja e nem sabemos como desfazer-nos dos novos e mais difíceis estados pontifícios, e episcopais, e congregacionais... Parece à nossa cegueira, a nosso pouco espírito evangélico que nem é viável viver de outra maneira...
Bem que te vestiste de Rei, tal como entendes tua realeza aqui na terra, à vèspera da tua morte! Mas para consolar-te dos ultrajes recebidos, construímos templos que são um ultraje à miséria dos nossos tempos. Quando tiraremos consequências práticas de tua indentificação com o Pobre e quando aprenderemos a lição forte do julgamento final!?...
(Dom Helder Camara, Circulares Conciliares. Vol. I, Tomo II,

CEPE/Instituto Dom Helder Camara, Recife, 2009, p. 205-206)

Nenhum comentário: