quarta-feira, 28 de março de 2012

Domingo de Ramos

Deus assume o lugar do ser humano mais humilhado.
(Is 50,4-7; Sl 21/22; Fil 2,6-11; Mc 11,1-10)

Depois de cinco semanas de preparação, eis que se abrem as portas de uma semana que vale uma vida. Com ramos e flores, faixas e bandeiras, cânticos e palavras de ordem, percorremos ruas e reunimo-nos nos templos para aclamar nosso líder manso e humilde. “Bendito aquele que vem em nome do Senhor!” Só alguém infinitamente grande é capaz de fazer-se tão pequeno e tão próximo. Na celebração que abre a Semana-santa, somos convidados/as acompanhar Jesus no seu caminho de fidelidade. Ele oferece generosamente sua vida, bebe o cálice num só golpe e realiza plenamente a vontade do Pai. Ao lado de refrões que declaram que é bendito Aquele que vem em nome do Senhor, elevemos nossas palavras de ordem: Que a saúde se estenda sobre a terra! Que o SUS priorize o atendimento de às necessidades básicas de saúde do povo brasileiro, garantindo a qualidade, a universalidade e a gratuidade.
“Como um simples homem...”
Preciso despir as fantasias de poder e de sucesso quando meditamos sobre a entrada de Jesus em Jerusalém. Não tem nada de triunfal. Jesus vem da Galiléia e entra na sua capital montado num jumento. Nada de cortejos de honra, de generais e cavalos vistosos, que Marcos parece satirizar na sua narrativa. Como diz o hino de Paulo, Jesus chega a Jerusalém como sempre foi: um servidor, um simples homem, esvaziado de interesses escusos e obediente às necessidades dos outros.
O profeta Jesus vem da Galiléia e chega à capital do seu país dominado pelos romanos. O povo da periferia da capital o aclama como filho e herdeiro de Davi. Essa gente, como o velho Simeão, sabia reconhecer neste “simples homem” Aquele que vem em nome de Deus e atualiza sua ação libertadora. E isso contrasta com a fria acolhida por parte do povo de Jerusalém e com o medo indisferçável dos próprios discípulos.
O grupo que acompanha Jesus aclama o despontar do reino messiânico inspirado em Davi e a chegada do líder enviado por Deus. Jesus, porém, não realiza as ações de poder que eles esperavam: chega ao templo, olha tudo e se retira em Betânia sem fazer nada.  Ele é o ouvinte da Palavra do qual fala o profeta Isaías, e dessa escuta obediente brota uma palavra que desperta os adormecidos e encoraja os acorrentados pela doença e pelo medo.
“Vocês todos vão ficar desorientados...”
Mais uma vez, frente ao caminho seguido por Jesus Cristo não é possível alimentar nossos mitos de sucesso fácil e irresponsável. Não exageremos na ênfase sobre a acolhida que ele teve na entrada da cidade. Uma leitura atenta nos ajudará a perceber que o evangelista dá destaque à escolha da montaria. A entrada de Jesus montado num jumento é uma poderosa sátira dirigida aos libertadores militares conhecidos no passado ou esperados para o futuro.
Ademais, o entusiasmo suscitado naquele pequeno grupo de gente que vinha do interior não se sustentará por muito tempo. Os gritos de ‘hosana’ – Deus salva agora! – logo serão substituídos pelo insolente pedido ‘crucifica-o’, fruto da frustração popular e da manipulação interesseira das autoridades. Os próprios discípulos que o haviam acompanhado e frequentado suas lições sentem-se irremediavelmente desoriantados e defraudados em suas expectativas.
“Fiquem aqui e vigiem...”
A divisão que se criou entre os discípulos e a real possibilidade da traição não fazem Jesus mudar de plano. É verdade que ele se sente abatido e chega a perguntar-se sobre o rumo a seguir. No momento crucial, depois da festa de acolhida e da ceia de despedida, Jesus enfrenta um discernimento difícil. Pede aos discípulos que fiquem com ele e vigiem. “Tudo é possível para ti. Afasta de mim este cálice... ” Essa experiência permanece como um alerta para os discípulos e discípulas que esperam facilidades.
“Vigiem e rezem para não caírem em tentação.” Para Jesus, oração é o momento de confronto profundo com a vontade do Pai, com a missão escrita em caracteres confusos e exigentes. E para nós, seus discípulos/as, a oração continua sendo um convite a discernir com retidão e coerência os caminhos que levam à vida em abundância. Muitas vezes temos a impressão de que é mais cômodo deixar a oração de lado e seguir o róseo caminho do menor esforço, do “cada um para si e Deus para todos”.
Mas este já seria outro caminho. Pilatos cinicamente escolhe o caminho mais fácil: lavar as mãos, fazer a vontade da maioria e assim receber o apoio popular que faltava ao seu poder despótico. É o fácil caminho da indiferença diante da dor dos outros, da rápida incriminação dos lutadores, da alegre bajulação dos poderosos, da arrogante pretensão de ser o único artífice do próprio bem-estar. Todos/as precisamos vigiar para não cairmos em tentação...
“Ele era mesmo o Filho de Deus...”
Aquele que o povo simples havia saudado na entrada da cidade como quem vinha e agia em nome de Deus, permaneceu fiel e acabou preso, abandonado pelos próprios discípulos, condenado e pregado na cruz. A cruz era considerado lugar absolutamente vazio da presença Deus, a negação mais absoluta da realeza ou de qualquer forma de liderança, sinônimo de horror, de fracasso, de culpa, de impotência, de abandono.
“O Messias, o rei de Israel... Desça agora da cruz para que vejamos e acreditemos”, provocam muitos, entendendo que a divindade se mostra no poder, no cuidar de si mesmo, no salvar a própria pele. Tanto para os fiéis judeus como para os soldados romanos, a crucifixão representava a completa negação do ser humano, o redundante fracasso da peretensão de liderança, a absoluta ausência de Deus, a mais radical falta de sentido. O próprio Jesus parece mergulhar neste turbilhão: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”
Mas da boca de um soldado pagão vem a palavra que faz brilhar uma pequena luz na escuridão que fazia em plena tarde. “De fato, esse homem era mesmo o Filho de Deus.” O que viu aquele soldado naquela cruz envolta em trevas? Viu aquilo que Simeão reconhecera 30 anos antes: que Deus se revela na pequenez e na fidelidade daqueles que vivem e morrem defendendo a vida. Naquele homem esvaziado, anulado e descartado, mas, ao mesmo tempo, absolutamente fiel ao seu amor pelos últimos e senhor de si mesmo, o soldado viu a exaltação da humanidade e o brilho da glória de Deus diante da qual todo corpo se inclina e todo poder despótico treme.
“Vou contar tua fama aos meus irmãos...”
A Campanha da Fraternidade nos lembra que podemos ser curados de uma doença, inclusive de uma doença considerada mortal, mas não podemos vencer a mortalidade. Mas não podemos também aceitar passivamente a morte que é consequência do descaso pela vida, resultado da pobreza, dos acidentes, da violência e outros pecados. Ultimamente, a saúde deixou de ser uma questão de caridade e passou a ser vista como direito. Mas corre o risco de se tornar um negócio, refém de um mercado sem coração. Por isso, precisamos unir a prece confiante e a busca de bêão à reinvidicação de um Sistema de Saúde Pública de qualidade.
Nada de divorciar a fé em Jesus da nossa responsabilidade social! Com ramos nas mãos, aclamemos com alegria inocente e esperança convincente o profeta Jesus de Nazaré. Acompanhemos de perto seus passos, acolhamos seus gestos, escutemos suas palavras. Superemos a tentação de segui-lo de longe e evitar maiores riscos, como fizeram Pedro e os outros. Não esqueçamos que tantos discípulos e discípulas pelos séculos a fora permaneceram com ele, comungaram seu destino, transformaram a fé em ação social e política e se tornaram semente. E são tantos/as, graças a Deus.
“Mas tu, Senhor, não fiques longe...”
Senhor, Deus de amor, Pai de bondade, nós vos louvamos e agradecemos pelo dom da vida, pelo amor com que cuidas de toda a criação. Vosso filho Jesus Cristo, em sua misericórdia, assumiu a cruz dos enfermos e de todos os sofredores, e sobre eles derramou a esperança de vida em plenitude. Enviai-nos, Senhor, o vosso Espírito. Guia a vossa Igreja, para que ela, pela conversão, se faça sempre mais solidária às dores e enfermidades do povo, e que a saúde se difunda sobre a terra. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

quarta-feira, 21 de março de 2012

Quinto Domingo da Quaresma

Viver bem é doar a própria vida na luta pela vida dos outros.
(Jr 31,31-34; Sl 50/51; Hb 5,7-9; Jo 12,20-33)

Estamos entrando na última etapa da nossa caminhada de preparação para a grande festa da vitória da paz sobre a violência, da saúde sobre a doença, da solidariedade sobre a indiferença. Como aquele grupo de gregos, nas quatro semanas que passaram ouvimos falar de Jesus, e agora pedimos com insistência: “Queremos ver Jesus!” Estejamos pois muito atentos/as, sintonizemos bem nossos ouvidos e centremos nosso olhar no mistério profundo que se desvelará progressivamente na semna-santa. Na mesa da Palavra deste domingo já temos uma pequena amostra, um breve flash daquilo que nos será revalado mais adiante. O segredo de Deus se assemelha ao dinamismo da semente. O verdadeiro rosto de Deus é o que se revela no alto da cruz: um Deus transpassado que nos atrai irresistivelmente a si e nos transforma em dom para a vida do mundo. Dom Romero, cujo martírio recordamos ontem (+24/03/1980) entendeu, viveu e anuncio isso de modo exemplar.
“Queremos ver Jesus!”
Jesus recém havia realizado um sinal impressionante devolvendo a vida ao amigo Lázaro. Quando voltou a Betânia, Marta, Maria e o próprio Lázaro ofereceram-lhe um jantar de acolhida, e Maria ungiu seus pés com um perfume precioso, sob o olhar reprovador de Judas e dos fariseus. Depois Jesus foi a Jerusalém e entrou na cidade montado num jumentinho, acompanhado de uma multidão que o aclamava como Messias libertador. “Todo mundo vai atrás de Jesus”, constatavam contrariados os fariseus. De fato, as autoridades religiosas estavam preocupadas com a crescente fama de Jesus.
É nesse contexto que alguns crentes pagãos, excluídos da plena cidadania de Israel, chegando a Jerusalém para a festa da páscoa, afastam-se do templo e manifestam a Filipe o desejo de ver Jesus. Filipe não se sente em condições de dizer “vem e vê” (cf. Jo 1,46) e procura André. Juntos, Filipe e André comunicam a Jesus o desejo daquele grupo de estrangeiros. Enquanto as autoridades religiosas, que se consideravam os verdadeiros adoradores de Deus, procuram um jeito de prender Jesus (cf. Jo 11,57), os pagãos, tratados como crentes de segunda classe, manifestam o desejo de conhecê-lo.
“Chegou a hora em que o Filho do Homem será glorificado”
É interessante notar a reação de Jesus frente ao pedido daqueles que desejam conhecê-lo. Ele poderia aproveitar a oportunidade para aumentar sua fama. Mas, ao contrário, aproveita a oportunidade e desenvolve uma catequese profunda e exigente sobre o messianismo que assume. Jesus responde declarando que sua Hora está próxima e que logo mais sua Glória será plenamente conhecida. Essa Hora é a meta da sua vida, mas está envolta em mistério e provoca medo. A assinatura da nova aliança visualizada por Jeremias tem um custo que assusta o próprio Jesus.
A glória do Filho do Homem – assim como a glória dos filhos e filhas de Deus – está muito longe de se identificar com a simples fama. O brilho e a grandeza de Deus se assemelham ao mistério da semente. “Eu garanto a vocês: se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto.” A conquista da fama e de uma vida longa e sauável, em vez de ser portadora de glória, é caminho para a estirilidade e a solidão. Só o dinamismo de um amor que leva à doação de si mesmo/a a fundo perdido tem futuro e é digna de louvor. Mas este nunca foi e não é um caminho fácil.
“Cristo fez orações e súplicas a Deus, em alta voz e com lágrimas...”
O que impressiona é que, no exato momento em que sua fama ultrapassa os estreitos limites do judaísmo, Jesus nos abre seu coração e revela sua vulnerabilidade. “Agora estou muito perturbado. E o que vou dizer? Pai, livra-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, manifesta a glória do teu nome.” A possibilidade do martírio desestabiliza o próprio Filho de Deus, mas esse é o testemunho inequívoco de amor e o ápice da vida cristã.
Geralmente evitamos revelar nossas fraquezas. Preferimos apresentarmo-nos em público com as máscaras da competência e com maquiagens que passam a idéia de eficiência, estabilidade e saúde. A debilidade e a incompletude nos envergonham como se fossem pecados ou feridas culpáveis, e não a nossa mais profunda verdade como criaturas. Preferimos a mentira das máscaras à verdade da carência, do vazio e da necessidade, parte do nosso DNA de criaturas.
Mas também nisso Jesus Cristo é um caminho que nos conduz à liberdade. O Messias é vulnerável, e assumindo essa condição comum aos seres humanos, nos salva. A carta aos Hebreus diz sem titubeios: “Durante sua vida na terra, Cristo fez orações e súplicas a Deus em alta voz e com lágrimas ao Deus que o podia salvar da morte.” Sim, sofrendo, gritando e soluçando como uma pessoa esmagada e desesperada! A assunção dessa condição humana foi sua obediência e sua perfeição. E é assim que ele se torna fonte na qual também nós podemos beber liberdade, salvação e vida plena.
“Quem tem apego à sua vida var perdê-la.”
Jesus Cristo é o Messias de Deus que, inspirado no mistério da semente, mergulha fundo na debilidade humana e a assume como caminho de humanização. Esse é o percurso no qual nos guia o amor. Não sabe o que é o amor e não é capaz de amar quem, com medo de seu próprio vazio, procura desesperadamente fazer dos outros objetos para preenchê-lo. Não há faísca de amor nas pessoas que não conseguem reconhecer a dignidade do outro como outro, não pela utilidade que tem.
O grande ensinamento do Messias humanizado é que ganhamos a vida investindo-a em favor dos irmãos e irmãs, sem contabilizar perdas ou ganhos. Quem só age depois de fazer as contas dos dividendos que terá converte-se em negociante, perde o sentido da vida e acaba solitário e desesperado, afogado/a nos seus próprios créditos. A vida é fruto do amor, e não consegue germinar se esse amor não for pleno e incondicional. Dom Oscar Romero  que o diga!
Dar a própria vida é a máxima expressão do amor. E isso não é perda, mas ganho exponencial, não é frustração de uma existência mas seu êxito completo. Suscitar e universalizar o medo, da doença e da morte é a grande arma das estruturas injustas, e superar o medo de perder a própria vida é o caminho para desarmar os poderes estabelecidos. Quem confia a Deus sua vulnerabilidade vence o medo e é soberanamente livre para amar radicalmente. Alcança a imortalidade.
“Se alguém quer servir a mim, que me siga.”
Na pessoa de Jesus descobrimos que o amor não é da ordem dos sentimentos, mas algo que tem a ver com vontade e com ação. Ama verdadeiramente quem reconhece e afirma a dignidade de quem é diferente, mesmo que não seja agradável à proópria sensibilidade. Amar é colocar-se a serviço das reais necessidades do outro. O amor leal consiste em esquecer os interesses e seguranças pessoais e engajar-se no trabalho pela vida, pela dignidade e pela liberdade dos homens e mulheres no meio e apesar dos sistemas de morte. Amar é dar vida, da própria vida e a até a própria vida, dizia Romero.
Por isso, alcançamos a vida plena quando seguimos os passos de Jesus Cristo e estabelecemos nossa morada nas tendas nas quais ele se abriga. Nosso amor e nosso serviço a Jesus Cristo se mostram no prosseguimento criativo da sua ação, na entrega de nós mesmos/as como semente. Jesus é o novo templo no qual encontramos Deus, a nova lei que nos conduz à vida, e a sua morte não é outra coisa que a culminância desse processo de doação de si. A semente é uma parábola que revela o modo como Jesus e seus discípulos/as vivem, convivem e realizam a missão.
 “Quando eu for levantado, atrairei todos a mim”
Jesus de Nazaré: também nós desejamos te ver de perto, ouvir tua palavra, seguir teus passos. Sabemos que não és um filósofo estóico que se compraz em viver e ensinar o desapego dos prazeres da vida, mas um profeta que se entrega sem reservas ao sonho de mudar o mundo e, assim, revelar um novo rosto de um Deus que é pai e mãe. Para isso, assumes a vulnerabilidade e a conflitividade, desces ao fundo da condição humana e aceitas ser elevado na cruz entre criminosos desprezados. Fazes tudo isso para, em nome de Deus, afirmar a dignidade dos sem-dignidade, vencer ‘os principais’ desse mundo e nos atrair irresistivelmente para ti. Imprime tua força no nosso coração, renova tua aliança conosco e juda-nos a ser semente que se doa generosamente e aceita corajosamente a morte para frutificar abundantemente. Ensina-nos o que significa ser obediente, como foste tu. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

domingo, 18 de março de 2012

Oração a São José

Querido São José,
Na aurora da plenitude dos tempos foste escolhido para ser o servidor e o protetor da primeira Igreja doméstica.
Deus te considerou digno e te confiou seu maior tesouro. E te converteste alegremente em esposo de Maria e pai adotivo de Jesus, tornando-se para ele uma fiel e inspiradora imagem do Pai do céu.
Contemplando o ambiente de Nazaré, te pedimos: ajuda-nos a descobrir a importância da comunhão e a obra do Espírito Santo em nossas comunidades.
Inspira-nos um amor autenticamente humano, amor de irmãos e servidores/as, de pessoas que vivem uma castidade serena, generosa e fecunda.
Indica-nos o caminho da santidade, que se express em relações humanizadoras e no serviço a quem necessita, na confiança nos outros e na docilidade à Palavra de Deus.
Derrama em nossos corações o amor ao povo de Deus, e ajuda-nos a aceitar o que teu filho Jesus exige e recomenda mediante palavras e ações, especialmente na cruz.
Como descendente de Davi, dá-nos como armas a funda d amor, as pedras da simplicidade, a armadura da confiança e da alegria em Jesus Cristo, teu filho e nosso irmão.
Amém!

Oração a São José

São José, pai escolhido para proteger e educar o Salvador e para conviver com Maria, a cheia de graça:
Pede a Deus que sejamos capazes de corresponder ao Plano de Salvação ao qual ele nos convoca.
Ajuda-nos a viver nossa vocação com autenticidade e intercede pelos Missionários da Sagrada Família, a fim de que estejam próximos daqueles que estão longe, ajudem as famílias na missão de ser escolas de comunhão e solidariedade e despertem vocações comprometidas com a construção de um mundo fraterno e solidário.
Amém!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Festa de S. José

José, o marido de Maria

No dia 19 de março celebramos São José, o esposo de Maria, e esta festa é um convite para que levemos a sério seu matrimônio com Maria. José foi verdadeira e plenamente o marido de Maria. O evangelho no-lo apresenta como descendente de Davi e o define sobriamente como “o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Messias” (Mt 1,16). Aproveitando a oportunidade, e com a ajuda do livro Joseph, Maria e Jesus, de Lucien Deiss (Versailles: Saint-Paul, 1997), meditemos brevemente sobre o que isso significa para nossa fé.
José e Maria
Em primeiro lugar, podemos dizer que a missão fundamental de José em relação a Jesus foi resumir e testemunhar com a vida a tradição dos grandes patriarcas e inseri-lo na descendência davídica e na expectativa da vinda de um messias pobre e humilde. E isso significou especialmente ajudar Jesus a situar-se na periferia da Galiléia e a percorrer o caminho do êxodo para assumir em primeira pessoa a história de sofrimento e esperança do seu povo.
Por isso devemos ter o cuidado de não apresentar José e Maria separados um do outro e sem relação com Jesus. Os evangelhos fazem questão de apresentar José sempre em relação com Maria: ele é seu noivo, comprometido com o casamento (Mt 1,18; Lc 1,27), e ambos se situam na perspectiva da apresentação de Jesus, a boa notícia de Deus. Sabemos que na tradição judaica o noivado, celebrado depois que a moça alcançasse 12 anos e o rapaz chegasse aos 13, tinha valor de matrimônio, tanto que se um dos noivos viesse a morrer antes das núpcias, o outro era considerado viúvo.
Como o mais feliz dos homens
Sendo cheia de graça e destacada entre as suas coetâneas, Maria foi também uma graça e uma bênção para José. Como ouvinte assíduo da Palavra, José sabia que “quem encontra uma esposa, encontra a felicidade e alcança o favor de Javé” (Pr 18,22).  Como todo judeu piedoso, rlr esperou o dia de alegrar-se com sua esposa. Gostava de imaginá-la como uma ‘corça querida’ ou ‘gazela formosa’ e esperava embriagar-se com suas carícias (cf. Pr 5,18-19). E acabou provando a verdade das palavras de Jesus Ben Sirac: “A beleza da mulher alegra o rosto e supera todos os desejos do homem. Nos lábios dela existe bondade e doçura, e o seu marido é o mais deliz dos homens” (Eclo 36,22-23).
Mas, além da beleza e do charme, José via na sua namorada e esposa a figura da profetiza e líder do seu povo. Ele a comparava a Jael, também bendita entre as mulheres, bela e generosa companheira de Héber, corajosa lutadora que enfrentou Sisara (cf. Jz 5,24-27). Ao mesmo tempo, José colocava Maria ao lado de Judite, viúva fiel ao seu povo, bendita “mais que todas as mulheres da terra” por ter enganado e derrotado o chefe daqueles que oprimiam seu povo (cf. Jd 13,17-20).
Conjugando fantasia e informações históricas, podemos imaginar a celebração do casamento de José e Maria segundo a tradição judaica. Teriam sido sete dias de festa, começando com o cortejo das amigas que acompanhavam Maria à casa de José. Como descrever as palavras de José no costumeiro louvor público sobre a beleza da sua amada? Teria usado as mesmas palavras do anjo, dizendo que nela a graça e a beleza transbordavam? Ou teria repetido o elogio de Isabel, proclamando-a bendita entre todas as mulheres? E qual emoção latejava em todo o seu corpo quando bebia com Maria da mesma e única taça de vinho? Certamente José se sentia o mais bendito entre todos os homens...
Um verdadeiro casal
Celebrar José como esposo de Maria significa também afirmar que ele praticamente não existe sem sua relação com Maria, chamada a ser a mãe de Jesus. É verdade que José e Maria vivem a relação conjugal numa moldura teológico-espiritual na qual a vocação de cada um vem respeitada e potencializada, mas esse matrimônio não deixa de ser um um dado antropológico e um acontecimento social no âmbito da cultura judaica.
José e Maria formam um verdadeiro casal, no qual o amor profundo e transparente é vínculo de unidade e força de crescimento e transcendência. Seria normal um casamento no qual marido e mulher renunciassem às relações íntimas e aos filhos? Mesmo o amor mais sublime e espiritual tem suas raízes na humildade da carne. E os filhos são a bênção divina a coroar o amor.
O amor entre José e Maria é um amor virginal, humanamente transparente e maduro. Poderíamos dizer do amor entre José e Maria aquilo que o Catecismo da Igreja Católica diz sobre a virgindade de Maria, ou seja, que o caráter virginal do amor tem mais a ver com a Fé, que é abertura e confiança plena à intervenção de Deus, que com o aspecto físico? (cf. CIC § 506). O sentido teológico-espiritual da virgindade vai muito além da continência sexual ou de uma membrana inviolada.
No caso de José e Maria trata-se de um amor digno desse nome, de um amor “que não conhece a mordida do pecado, mas apenas o beijo da graça. Um amor que nunca é posse egoísta da pessoa amada, mas sempre e unicamente pura oblação. Um amor que acolhe todas as riquezas da diversidade sexual e as transforma em dons da graça” (p.47). Nesta perspectiva, o amor do casal Maria e José pode ser inspirador para todos os casais.
O amado de Maria
Que José seja o amado e verdadeiro esposo de Maria não é uma concessão que devemos fazer de má vontade diante dos incômodos testemunhos das escrituras. É uma boa notícia prenhe de alegria e consequências para a espiritualidade cristã, especialmente para a espiritualidade familiar. O amor matrimonial é um espaço e um desafio assumidos pelo próprio Deus para se fazer presente na história.
A santidade e a libertação não são alcançadas apesar do matrimônio, mas através do matrimônio e dos vínculos familiares, sempre que se mantenham abertos à dimensão universal do Reino de Deus. O matrimônio é chamado a ser sacramento da relação entre Deus e a comunidade dos discípulos e discípulas, e a opção pela vida celibatária não pode se alimentar do desprezo pela vida matrimonial.
“Não teria sido bom se Maria estivesse sozinha no nascimento de Jesus em Belém. Não teria sido bom se ela assumisse sozinha a educação do seu filho, especialmente no despertar da sua inteligência e na formação do seu equilíbrio afetivo. Não teria sido bom se ela não tivesse ninguém ao seu lado no tempo da crise de adolescência do seu filho. Foi bom que José tenha participado da sua dedicação a Jesus. Foi bom também que Maria tenha envolvido José com seu carinho e o tenha feito plenamente feliz como chefe da Sagrada Família” (p. 49-50).
Faísca do amor do Pai
Como esposo de Maria, José foi também pai adotivo e guardião de Jesus Cristo, o tesouro precioso que Deus entregou à humanidade. Numa linguagem piedosa e poética, o Pe. Berthier escreveu: “Jesus sentia-se mais bem nas mãos de José que nas asas dos querubins”, pois “tendo escolhido José para ser pai do seu Filho único no mundo, Deus, de alguma forma, fez brilhar nele alguns raios ou faíscas do seu amor infinito pelo Filho” (Le prêtre, vol. II, p. 797; 801). De alguma forma, José é no mundo uma espécie de parábola da ternura de Deus pai.
Não é nenhum piedoso exagero pensar que José tenha sido um homem no qual o bem-querer de Deus adquiriu nome e carne. Na família humana dirigida por José o próprio Deus sentiu-se em casa, mais à vontade que entre os anjos. Esse dom precioso de Deus, sua auto-comunicação à humanidade, encontrou em José um verdadeiro anjo custódio, um trabalhador atento e criativo que fez com que a semente se multiplicasse.
Deus Pai, que quiseste que teu filho Jesus fosse chamado filho de José para cumprir a promessa feita a Davi: ensina-nos a descobrir e apreciar a beleza e a profundidade da aliança matrimonial. Torna nosso amor cada vez mais generoso e maduro, capaz de respeitar as diferenças e se alegrar com elas. Ensina-nos a abertura e a obediência à tua palavra, especialmente nos momentos difíceis da vida. Ajuda-nos a acolher com simplicidade o mistério da encarnação. Ilumina nossa mente e nosso coração para que saibamos fazer das nossas famílias e comunidades verdadeiras escolas de acolhida, de ternura e de solidariedade.
Pe. Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 15 de março de 2012

Festa de S. José

José, homem  justo e sonhador

Seu próprio nome já é prenhe de significados:  na etimologia hebraica, José é aquele que reúne, que acrescenta. E lembra o nome de uma das antigas tribos que se uniram e formaram as bases do povo hebreu. Na linguagem de muitos profetas, a tribo de José sintetiza a história das muito queridas tribos de Benjamin e Manassés e, finalmente, é identificada com o próprio povo de Israel (cf. Am 5,14-15; Sl 80,2;  Sl 81,6). José, um nome e uma vocação de reunir os dispersos e congregar os diferentes.
Um lugar secundário
Pouco sabemos sobre antecedentes de José, o carpinteiro de Nazaré. Ele seria filho de Jacó, como nos informa Mateus (cf. Mt 1,16)? Ou seria filho de Eli, como Lucas diz que se pensava (cf. Lc 3,23)? Mas é isso que importa? A vida e a história de José se misturam e se dissolvem na história dos homens do seu povo, na vida comum dos trabalhadores do seu tempo, na vida profética e santa do filho que ele acolheu e educou. José é o marido de Maria, o pai de Jesus, o carpinteiro de Nazaré, um homem justo e sonhador. Isso não é suficiente?
Não nos preocupemos com o papel evidentemente secundário que José ocupa nos evangelhos. Ele não toma o lugar reservado ao Filho, Luz da qual recebe seu próprio brilho, nem dos apóstolos, testemunhas da Vida que desperta aqueles que jazem nas sombras da opressão e da morte. José aparece com discrição e firmeza no nascimento, na circuncisão e na apresentação de Jesus no templo, assim como na festa da páscoa, quando Jesus ficou em Jerusalém para discutir com os mestres do judaísmo. Isso é o bastante!
Uma crise difícil
Mas antes disso, José – aquele que reúne, que acrescenta – estava enamorado de Maria e, surpreendido por sua inesperada gravidez, não sabia o que fazer. O realismo pesado da Lei pedia-lhe que denunciasse  Maria publicamente e a rejeitasse. De repente José sentiu-se dividido entre o que mandava a Lei e o que exigia o Amor. Por mais que reflitisse e ponderasse, não encontrava uma solução aceitável.
O pobre José passou as horas do dia tentando uma saída. Quando foi dormir, levou para a cama sua preocupação e não conseguia conciliar o sono. E foi quando, vencido pelo cansaço, entregou-se ao sono, que uma luz brilhou e a saída pareceu-lhe clara. “José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria como sua esposa, porque ela concebeu por ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e você lhe dará o nome de Jesus, pois ele vai salvar seu povo dos seus pecados” (Mt 1,20-21).
Um sonho libertador: livre dos limites de uma consciência estreita, José conseguiu ver longe e profundo. Uma palavra de encorajamento: para que ter medo de receber como esposa aquela que ele tanto amava? Um mistério envolvente e promissor: o próprio Espírito de Deus estava agindo na sua noiva. Um filho a ser educado: pai é aquele que, mais que gerar biologicamente, acolhe e cuida da vida que lhe é doada. E um nome: mais que honra para seu pai, o filho traz salvação e liberdade para todo o povo.
Um homem sonhador
Esse José carpinteiro e esposo de Maria herdou de um outro José a capacidade de sonhar, de acolher e reunir. Ele conhecia a história do seu antecedente homônimo, filho de Jacó, objeto da inveja e da violência dos onze irmãos. A gota que enchera a taça da inveja dos filhos de Jacó fora uma túnica de mangas longas e um sonho do pequeno e amado José (cf. Gn 37,1-11). “Aí vem o sonhador...”, diziam os irmãos uns aos outros enquanto arquitetavam um plano para se livrarem dele (cf. Gn 37,19). E venderan-no como escravo a um grupo de comerciantes estranjeiros.
O dom de sonhar precisa ser acompanhado pelo discernimento, pela capacidade de interpretar os sonhos. Essa capacidade abriu a José do Egito as portas da liberdade (cf. Gn 40-41). E quando os dons de sonhar e de discernir os sonhos vêm unidos à compaixão pelos irmãos que padecem, os frutos são abundantes e um povo encurvado pode se colocar de pé (cf. Gn 42-45). “Eu sou José, o irmão de vocês, aqueles que vocês venderam para o Egito” (Gn 45,4). Assim, José livrou da miséria e da morte os próprios irmãos que haviam tentado matá-lo...
Segundo os evangelhos, José, o carpinteiro e esposo de Maria, também é um sonhador. Com que sonha nosso bom José? Com Maria habitando ao seu lado e compartilhando a esperança de um tempo de liberdade para todos (cf. Mt 1,20). Com um filho que tiraria o manto da culpa que cobria o rosto do seu povo (cf. Mt 1,21). Com uma terra onde os sonhadores como ele e o outro José pudessem viver em paz e segurança (cf. Mt 2,13). Com uma pátria livre dos déspotas que perseguem e oprimem os inconformados (cf. Mt 2,20). Com uma vida nova e promissora que nasce e cresce nas margens e periferias (cf. Mt 2,23).
Faça-se conforme a vontade de Deus
Sonhar e discernir não é tudo. Se os sonhos não descem da fantasia para a vida concreta terminam em ilusão ou fuga da realidade. José é um homem obediente, e sua obediência é literalmente uma atitude de escuta  (ob + audire = atitude de escuta) dos apelos gritados pela vida e das possibilidades oferecidas pela história. É mais no sonho que na bíblia que José descobre o que Deus lhe pede.
Aos sonhos José responde prontamente. Como sua companheira, ele diz seu fiat a Deus. Seu ‘sim’ não é feito de palavras mas de ações: acolhe Maria no seu coração e na sua casa; levanta-se, parte no meio da noite e faz-se migrante para defender a vida do filho; põe-se novamente a caminho e volta à sua pátria e ao seu povo; muda de rumo e lança raízes na periferia da Galiléia.
Sonhar, escutar, crer, obedecer, agir, cuidar, trabalhar, ensinar, esconder-se: ações que resumem a vida de José. A estas ações positivas Jesus deve muito daquilo que será mais tarde. José não deseja outra coisa que viver por Maria e por Jesus. E assim o faz porque sabe que essa é sua vocação, seu modo de servir à libertação do seu povo.
Um homem justo
É assim que o evangelista o descreve de passagem. “José, seu marido, era justo” (Mt 1,19). Justo porque respeita a maternidade e a vocação de Maria, mesmo ignorando quase tudo a respeito dela. Justo porque acolhe o filho como seu, educa-o na escuta da Palavra e nas tradições e esperanças messiânicas do seu povo, ajudando-o lançar raízes na periferia e a olhar tudo a partir desse lugar. Justo porque prioriza o amor e a compaixão à aplicação da lei. Justo porque vive e expressa sua fidelidade à lei através da misericórdia, colocando-se entre os últimos.
José é justo e amigo de Deus como Abraão: caminha no claro-escuro da fé; parte para o estrangeiro sem saber bem para onde; faz-se peregrino da nova sociedade cujo arquiteto é o próprio Deus (cf. Hb 11,8-12). José é amigo de Deus porque conversa amistosamente com ele, conhece sua Palavra, põe em prática sua vontade. É amigo de Deus porque é herdeiro do pastor Davi, parceiro dos profetas, amigo dos sábios e dos mais pobres de Nazaré, da Galiléia e de todos os recantos da terra.
Imagem do Pai
José é uma pessoa tão terna, afetuosa e amável que Jesus tinha mesmo que descobrir nele a imagem humana de Deus. E quando Jesus sentiu necessidade de falar de Deus aos seus discípulos, acabou dizendo que ele é como seu papai José: um papai que ama igualmente os justos e os menos justos; que quer ver o sol brilhando sobre os jardins de uns e de outros; que acolhe e ama todos e cada um dos seus filhos e filhas, não porque eles sejam bons mas porque Ele é Pai e ele é bom.
Era preciso que José demonstrasse uma radiosa bondade para que Jesus pudesse descobrir nela a imagem da ternura do Pai do céu. O papai José foi para ele um ícone de Deus Pai. Lucien Deiss diz que, para Jesus, a experiência da ternura humana que envolvia José foi o caminho para descoberta da ternura infinita que envolve o Pai do céu. Graças ao pai humano de Jesus nós descobrimos o rosto de um Deus a quem não devemos temer.
Meu Deus e nosso Deus, que esculpiste no rosto de José os traços da tua bondosa compaixão: forma-nos na escola da solidariedade que aproxima, acolhe e sustenta. Ensina-nos a acolher tua Palavra nos sonhos e esperanças do teu povo. Fortalece nossa vontade, para que passemos do sonho à ação. Ajuda-nos a situar-nos junto de ti, onde te colocas, nos últimos lugares. Sustenta-nos na missão de reunir e congregar. Renova nossos propósitos de realizar a justiça do Reino por inteiro e participar da amizade e da intimidade contigo.
Pe. Itacir Brassiani msf

quarta-feira, 14 de março de 2012

Quarto Domingo da Quaresma

Que o SUS garanta saúde e vida ao povo brasileiro!
(2Cr 36,14-16.19-23; Sl 136/137; Ef 2,4-10; Jo 3,14-21)

Um juíz implacável, impassível, sem coração, sempre pronto a defender a universalidade da lei e a pronunciar sentenças irreversíveis: essa é a imagem de Deus que muitos cristãos têm e divulgam. Mas, no Evangelho, Jesus diz claramente que Deus enviou seu Filho ao mundo para salvá-lo, para conduzi-lo à vida, e não para condená-lo. A gratuidade do amor de Deus é que nos salva. Como experimentar e testemunhar a Boa Notícia da gratuidade e da benevolência de Deus no contexto da luta por uma saúde pública e de qualidade a serviço de todo o povo brasileiro? Um dos objetivos da Campanha da Fraternidade é exatamente este: despertar nas comunidades cristãs a reflexão sobre a realidade da saúde pública em vista da defesa do SUS e da reinvindicação do seu adequado funcionamento...
“Deus enviou seu Filho não para condenar o mundo...”
Pessoas doentes e dobradas pelo sofrimento as vemos por toda a parte. Umas condenadas à miséria presente e a um futuro incerto; outras condenadas a um presente vazio e a um futuro que assusta. Umas forçadas a viver em casa como se estivessem numa prisão e outras condenadas à prisão por qualquer coisa. Umas condenadas por sua cor ou orientação sexual e outras pela falta de chances de estudo, por pensar diferente ou por querer desmascarar a hipocrisia.
A tentação é grande, e se não formos eternamente vigilantes acabamos dividindo o mundo entre culpados e inocentes, merecedores e indignos. E é fácil encontrar na Bíblia versículos isolados que se prestam a fundamentar nossas sentenças inapeláveis. E, via de regra, culpadas são as pessoas diferentes, as que tentam caminhos novos, as que questionam nossos interesses e privilégios, as que amargam derrotas e se curvam sob dores as mais diversas, as pessoas disfuncionais de toda sorte.
Como nos custa entender que Deus se rege por uma gramática diferente! É incrível a facilidade com que os homens (sim, no masculino!) que dirigem as igrejas e se apresentam como procuradores de Deus sentam na cadeira de juiz, cadeira que o próprio Jesus recusou. Com que frequência nos escondemos por trás de máscaras de benfeitores e imparciais e estamos prontos a denunciar o cisco no olho dos outros sem darmo-nos conta do nosso próprio lixo. Não, esse não é o jeito de Jesus Cristo!
“É preciso que o Filho do Homem seja levantado...”
O rosto do Messias é outro, a prática de Jesus é diversa. Ele recusa a cadeira de juiz e senta-se ao lado dos acusados, como aliado e defensor. Isso é evidente desde a estrebaria, onde os proscritos o visitaram, até a cruz, quando foi moeda de troca por condenado e compartilhou o calvário com outros dois. O Filho de Deus desceu todos os degraus para alcançar o ser humano no nível mais baixo, no lugar de culpado e de devedor. E não o fez insensível ou com o dedo em riste, mas de braços abertos.
O que deve nos impressionar não é o fato de que Jesus tenha subido ao céu, mas de que Deus tenha descido definitivamente à terra. E ele desceu tanto que, mais que assumir a frágil e contraditória condição humana, assumiu a carne dos/as condenados/as para declará-los/as justificados/as. Deus desceu tanto, que adentrou solidariamente no inferno vivido pelos/as condenados/as à morte ou a uma vida que tem mais a ver com um lento processo de morte. Desceu tanto que o levantaram numa cruz!
É para esse homem levantado na cruz dos malditos e entre dois condenados que somos chamados/as a voltar nosso olhar. Eis aqui o Messias, aquele que sola a língua aos mudos, abre o ouvido aos surdos, resgata a vida dos condenados à morte, anuncia boas notícias aos pobres, cura os doentes, proclama o ano da graça de Deus! Mudo, ela pronuncia palavras incomparáveis. Imóvel, abraça e acolhe os/as condenados/as de todos os tempos e rincões. Eis o ser humano! Eis o corpo de Deus!
“Deus amou de tal forma o mundo que entregou o seu Filho único...”
Não desperdicemos esta quarta e insuperável lição na escola da caminhada pascal. Começamos acompanhando Jesus no deserto para aprender a vencer as tentações. Subimos com ele no Tabor para apreder a lição da humildade e do serviço. Fomos com ele ao templo para que ele tirasse da nossa vida toda superficialidade, falsidade e autoritarismo. Neste domingo ele nos ensina que lamentar débitos ou exigir créditos não faz o menor sentido. “Vocês foram salvos pela graça”, insiste São Paulo, e isso para que ninguém se encha de orgulho. Deus é misericórdia e nos ama sem medida.
É Jesus quem diz que “Deus amou de tal forma o mundo que entregou seu Filho único...” Trata-se do mundo em sua globalidade, sem distinções entre culpados ou inocentes, homens ou mulheres, devedores ou merecedores. Em Jesus Cristo se manifesta de forma clara a glória de Deus, e essa glória não é outra coisa que o amor que se faz dom e acolhida sem nenhum tipo de condição ou exigência. Ele nos deu a vida “quando estávamos mortos por causa de nossas faltas”, sublinha Paulo.
“Todo aquele que nele acreditar, nele terá a vida eterna”
Em Jesus Cristo a salvação é gratuita, mas é também geradora gratuidade. Na fé cristã não há espaço para a passividade irresponsável. Acreditarnessa relação libertadora de Deus conosco implica na adesão a este dinamismo de gratuidade, no empenho pessoal e profundo para transformar esse princípio em pedra angular do comportamento pessoal e da organização eclesial e social. E isso é indispensável para que não sejamos tragados pela morte e não sejamos geradores de morte.
Este rio de graça, este sol de justiça que nos vem de Deus em Jesus Cristo começa por desmascarar nossos pretensos merecimentos, avança revelando nossa verdade mais profunda e termina capacitando-nos a agir como homens e mulheres novos. “Fomos criados para as boas obras” diz São Paulo, e precisamos nos ocupar delas. Crer é aderir à proposta de Jesus, e aderir é agir. Quem não decide somar sua ação à ação libertadora de Deus acaba desperdiçando a própria vida.
O amor de Deus feito carne no alto da cruz não tolhe a liberdade do ser humano. Ele apenas toma o lugar ocupado pela lei e se torna luz que orienta as nossas ações e opções. Nada está definido de ante-mão e tudo deve ser discernido. Nossas ações são guiadas e julgadas por essa  luz, a única capaz de revelar a bondade ou a maldade das nossas ações. Aderir a Jesus Cristo significa crer na dignidade inerente a cada pessoa humana e nas suas possibilidades positivas, e esse é o caminho da vida.
“A luz veio ao mundo mas os homens preferiram as trevas à luz”
Temos sempre a tentação de identificar a lei com a luz. “A lei é clara”, repetimos com frequência. Todas as leis são frutos dos consensos políticos e do equilíbrio de forças num determinado momento. Em última instância, são regras impostas pelo grupo mais forte, aquele que tem mais recursos para convencer os demais. Mais que luz, a lei é fogo, ela queima. A luz verdadeira, aquela da qual precisamos nos aproximar para que nossa bondade radical seja confirmada, é aquela afirmada na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ou melhor, é a prática amorosa de Jesus Cristo.
Não temos outra lei que possa ser caminho seguro de vida e de liberdade. Não há outra norma que possa conduzir à nova sociedade. Mas há aqueles/as que, para disfarçar a malícia dos seus projetos e a estreiteza dos seus interesses, fecham os ouvidos a essa Palavra e odeiam essa luz, mesmo que queiram demonstrar o contrário. Estas pessoas acabam produzindo frutos amargos que enchem a mesa dos outros: dominação, desigualdade, exclusão, violência, insegurança.
O Messias que acolhemos como caminho é aquele que desceu do céu aos infernos e, permanecendo fiel ao seu amor pelo mundo, foi elevado entre os condenados. Esse dinamismo de descida e esvaziamento solidário é nossa única lei, uma lei que não vem imposta de fora pois está no próprio coração da vida. Essa é a luz a partir da qual a verdade dos nossos projetos e práticas vêm à tona. Outros caminhos são máscaras, trevas e disfarces que escondem nossa verdade, violentam as pessoas e conduzem à morte.
“Tinha compaixão do seu povo e da sua morada...”
Deus pai e mãe, rico em misericórdia: é imenso o amor com que nos amas! Enviaste teu filho amado para nele todos/as tenhamos vida e saúde sem limites! Dá-nos um amor assim intenso e lúcido, a fim de que sejamos capazes de dar continuidade a este dinamismo que salva e renova mundo, lutando por um sistema de saúde público e de qualidade. Não permitas que sentemos e choremos passivamente nosso desterro, mas coloca-nos a caminho para reconstruir o mundo na força do teu amor. Amém! Assim seja!
Pe. Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 8 de março de 2012

Em memória delas

Nestes dias em que temos a oportunidade e a obrigação de fazer memória do significado histórico, antropológico e social da mulher na sociedade e na Igreja, assim como da discriminação e da violência de que foram e continuam sendo vítimas, recolho e publico breves biografias de mulheres que, entre tantas outras igualmente anônimas, merecem ser lembradas. Todos estes recortes biográficos estão no livro Espelhos, de Eduardo Galeano (L&PM Editores, Porto Alegre, 2008), que recomendo vivamente, tanto pelo estilo como pelo conteúdo.

Phoolan
Phoolan Devi teve a má idéia de nascer pobre e mulher, e numa das castas mais baixas da Índia. Em 1947, aos onze anos de idade, seus pais a casaram com um senhor de casta não tão baixa, e deram a ele uma vaca como dote.
Como Phoolan ignorava os deveres conjugais, seu marido a instruía torturando-a e violando-a. E quando fugiu, ele a denunciou, e os policiais a torturaram e violaram. E quando voltou às sua aldeia, o boi, seu boi, foi o único que não a acusou de ser impura.
E ela foi embora. E conheceu um ladrão de frondoso prontuário, e esse foi o único homem que perguntou se ela tinha frio e se sentia bem.
Seu amante ladrão caiu crivado de balas na aldeia de Behmai, e ela foi arrastada pelas ruas e torturada e violada por vários donos de terras. E algum tempo depois, Phoolan voltou a Behmai, em plena noite, e à frente de um bando de foragidos procurou aqueles homens, de casa em casa, e encontrou vinte e dois, e os acordou, um por um, e os matou.
Naquela época, Phoolan Devi tinha dezoito anos. Toda a região banhada pelo rio Yamuna sabia que ela era filha da deusa Durga, bela e violenta como a mãe. (p. 294)