terça-feira, 31 de julho de 2012

Liberdade, liberdade!


“A liberdade se corrompe no mesmo dia em que se torna segurança, e no dia em que renunciamos a ela por amor à segurança caímos numa escravidão incurável. No fundo, a liberdade é vivida exemplarmente somente nas úmidas prisões, nas barricadas, nas salas clandestinas dos conspiradores. Nos capitólios, a liberdade é posta na jaula e morre de tristeza.

Para ser livre é preciso dar-se conta de que a liberdade é como aquela moça simpática em cuja janela cantaremos serestas durante toda a vida: ela continuará a nos iludir não fechando a janela para nos despedir, mas também nunca descerá à rua para se entregar ao nosso amor.”

(Arturo Paoli, La pazienza del nulla, Milano: Chiaralettere, 2012, p. 84-85)

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Kalimantan: impressões, emoções e reflexões (13)

O barco da nossa aventura de 16 horas

A hospitalidade é sempre uma bênção
Nossa viagem de barco de Baron Tongkok a Samarinda acabou demorando mais do que o previsto. Em vez de 12, gastamos mais de 15 horas! Com o passar das horas, aquele estrado com colchonete foi se tornando duro e incômodo. Eram mais de 100 pessoas no mesmo salão, o espaço era muito curto para os meus 1.70 mt e o ar condicionado insuficiente. Choveu intensamente durante parte da noite, e acho que isso contribuiu para o atraso. Resumindo, chegamos em Samarinda às 9:30 e, na casa paroquial, quando passavam das 10:00.
Estávamos sem janta e sem café da manhã. O estômago estava quase tocando a coluna, mas a estas horas não era conveniente comer alguma coisa mais sólida. O que eu mais desejava era um banho. Não aguentava mais aquela sensação de estar grudento, resultado de uma noite abafada e de dormir com a roupa cotidiana. Depois do banho, então bem desperto, tomei um copo de café e concluí as notas que compõem o capítulo anterior. Em meio a tantas atividades, escutas e deslocamentos, é preciso aproveitar cada minuto para que as impressões não desçam e se escondam no porão do inconsciente.
Almoçamos, como de costume, às 12:30 e partimos imediatamente para Balikpapan, gentilmente condizudos pelo Pe. Felix. Na partida, ainda tivemos a oportunidade de saudar os dois coirmãos que chegavam de Sangatta para ajudar os de Samarinda nas confissões quaresmais. É digno de registro que os coirmãos façam cinco horas de estrada para ajudar os outros no trabalho. Assim, no meio da tarde, chegamos de novo à casa das Irmãs Missionárias Adoradoras da Sagrada Família, onde havíamos deixado alguns pertences não necessários. Como já escrevi antes, é elogiável a hospitalidade destas Irmãs que compartilham conosco a inspiração da Sagrada Família. Igualmente significativa e bela é a relação e a proximidade entre nossos coirmãos MSF de Kalimantan e as irmãs MASF (o que ocorre também em Madagascar).
A moderna cidade de Balikpapan
Em Balikpapan, na casa das Irmãs MASF, tivemos finalmente um dia para respirar. Há 20 dias, praticamente desde a nossa chegada a Kalimantan, o tempo de descanso pode ser contado em horas: não mais que uma meia manhã em Palangka Raya e uma meia tarde em Ampah. Devo dizer que o que não me agrada não é propriamente a agenda cheia, mas a necessidade de chegar pela primeira vez num lugar e logo convidar o coirmão para uma conversa particular, sem antes ver, ouvir, sentir, observar as coisas. Uma visita canônica deveria ser antes de tudo uma visita, e isso significa um tempo razoável de permanência em cada localidade. Infelizmente não foi sido assim. E esse ritmo desumano acaba também cansando, até porque o diálogo mediado por um tradutor exige atenção redobrada e reduz a mútua compreensão. De qualquer maneira, tivemos nosso desejado descanso de um dia e meio.
A próxima etapa da visita foi Tanjung Selor, no nordeste da ilha de Kalimantan. Lá vivem e trabalham neste momento 10 coirmãos da Província indonesiana de Java. A região já havia contado com a presença dos Missionários da Sagrada Família em meados do século passado, que, aos poucos, foram descendo mais para o sul. Voltaram à região em 2002, quando Dom Yustinus Harjosusanto, MSF da Província de Java, foi nomeado bispo da diocese.
Fizemos o primeiro trecho da viagem de avião. Saímos de Balikpapan às 9:45 e, depois de 1 hora de vôo, chegamos à ilha de Tarankan. Neste trecho de vôo foi possível ter uma idéia ao menos parcial das imensas minas de carvão que se espalham pela região, atraem investidores e exploradores e abrem imensas feridas pretas no verde das matas. Quando o avião baixava para aterrizar, dava para ver os muitos rios serpenteando, muito parecido com o que se vê em Tefé e Carauari (a diferença fica por contas das quase infinitas plantações de arroz).
Porto de Tarankan, nordeste de Kalimantan
Em Tarankan nos esperava o Pe. Hartono, coirmão da Província de Java e nosso conhecido dos tempos em que ele estudava em Roma, que seria nosso guia e tradutor nesta etapa da visita. Tarankan é uma cidade insular e importante porto marítimo e fluvial da região. Como no dia seguinte seria uma importante data festiva dos hinduístas, o movimento no porto estava grande e só conseguimos bilhete para Tanjung Selor às 14:30. Assim, aproveitamos o tempo para almoçar tranquilamente e para visitar uma paróquia (administradas pelos Oblatos de Maria Imaculada, OMI).
O segundo trecho da viagem – de Tarancan a Tanjung Selor – fizemos de lancha (comumente conhecida como speed boat). É um meio bem mais rápido que os nossos conhecidos recreios do Amazonas... Como disse, o porto estava muito movimentado. O que se via era gente e mercadoria por todo lado, misturado ao forte cheiro característico das zonas litorâneas, especialmente quando a maré está baixa. Haviam-nos dito que nosso barco era para 40 passageiros e a viagem duraria 1 hora.
Na verdade, éramos 41 os passageiros adultos, mais umas 10 crianças. Imaginem toda essa gente num espaço aproximado de 1/3 dos nossos conhecidos ônibus, e sob um calor e uma umidade quese insuportáveis... E eu nem queria lembrar que toda a Indonésia é uma zona sísmica e os terremotos são frequentes. Quem não lembra do terremoto e do tsunami que se seguiu em Sumatra, uma das ilhas da Indonésia, em dezembro de 2004?
Como o barco era menor e menos potente que o previsto, a viagem também durou mais e passou de 90 minutos. Nestas zonas equatoriais, a vegetação é luxuriante e invade todos os espaços, misturando-se com os rios e igarapés. No porto de Tanjung Selor nos esperavam três outros coirmãos que ainda não conhecíamos. Eles e os demais padres da diocese estavam concluindo o retiro anual e aguardavam a celebração diocesana dos santos óleos (sim, duas semanas antes, para evitar longas viagens e aproveitar a presença dos padres).
Nova catedral de Tanjung Selor
Deu tempo para tomar um desejado e renovar banho e seguir para a catedral, um imenso e belo templo recentemente inaugurado. Este é mais um dos monumentais edifícios católicos erguidos com ajuda de dinheiro público. Dizem que o tamanho se justifica porque a cidade será uma capital regional... Mas este discurso não me convence. É a imagem de uma igreja que deseja ser potente, edifícios que não fecham com a pobreza do povo (por mais que as mesquitas sejam muito mais abundantes e imponentes). Aqui também o bispo construiu para sua moradia uma enorme casa, com uma capela e lugar para hospedar até 80 pessoas.  Lá funcionam também as diversas coordenações pastorais. Não é uma casa luxuosa como a do bispo de Samarinda, mas não deixa de chamar a atenção. É nesta casa que ficamos hospedados nos três dias de visita.
Na celebração da missa dos santos óleos, na qual também renovamos as promessas presbiterais, Pe. Natalino, um velho missionário italiano (dos Oblatos de Maria Imaculada), olhando para a catedral e para o povo presente, me dizia: “Há 30 anos atrás tive a graça de lançar as bases da comunidade católica nesta cidade. Éramos eu e treze famílias... Alguns destes patriarcas e matriarcas leigos ainda vivem e vejo alguns presentes nesta missa...” Que passos de gigante: em 30 anos, aquilo que era uma minúscula célua de catolicismo se torna sede de diocese! Quem poderia imaginar isso? De fato, aos missionários compete semear; o crescimento é o amadurecimento são coisas que tocam a Deus.

domingo, 29 de julho de 2012

Reflexão


“Olhai para a fé que anima a vossa Igreja…”

Repetimos esta oração em cada santa missa, após a recitação do Pai-Nosso e antes do abraço da paz e da comunhão eucarística. Todos/as conhecemos a oração de cor e salteado. Em alguns lugares, o presidente da celebração reza com exclusividade, noutras a assembléia lhe faz coro.
“Senhor Jesus Cristo, que disseste aos vossos apóstolos: ‘Eu vos deixo a paz! Eu vos dou a minha paz.’ Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja. E dai-lhe, segundo o vosso desejo, a paz e a unidade. Vós que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo.”
Já recitei esta oração milhares de vezes, mas hoje, aqui no interior do Rio Grande do Norte, a oração mexeu comigo. O que me inquietou mesmo foi o pedido para que Jesus Cristo não olhe para os nossos pecados, mas para a fé que anima a sua Igreja. Concordo: ele olha a nossa fé, mas nós devemos ter viva consciência dos nossos pecados eclesiais.
Lembrei-me das diversas reações de padres e bispos aos resultados da última pesquisa do IBGE sobre a pertença religiosa do povo brasileiro. A grande imprensa anunciou em letras garafais (e com satisfação?) a queda do número de católicos, tanto em termos relativos como absolutos. E chamou padres, teólogos e bispos para interpretar estes números.
Os dados são, resumidamente, os seguintes: em 1980, mais de 89% dos brasileiros se diziam católicos, e hoje são apenas 64%; entre os anos 2000 e 2010 a Igreja Católica teria perdido 1 milhão e 670 mil fiéis; nesse mesmo período, as igrejas evangélicas ganharam 16 milhões de novos fiéis, e hoje representam 22% da população brasileira.
Fiquei preocupado com três tipos de reação da hierarquia católica aos números da pesquisa. Uns colocam em dúvida a seriedade dos métodos de pesquisa do IBGE. Um outro grupo esgrima o resultado da pesquisa do CERIS, que evidencia o crescimento do número de paróquias e de movimentos. E há ainda quem aproveita os resultados para lançar uma nova ofensiva proselitista para reconquistar adeptos.
Meu Deus, onde está ‘a fé que anima a nossa Igreja’? Qual é o problema do crescimento das igrejas protestantes, inclusive das igrejas pentecostais? A preocupação com este crescimento evidencia o pressuposto de que elas não são queridas por Deus, que estão desviando o povo do Evangelho. Mas isso é um crasso erro teológico e sinal de um preconceito inaceitável.
Pergunto-me se a veracidade da fé católica precisa ser garantida pela manutenção de uma maioria numérica, e respondo que não. Também estou convicto de que a igreja católica não tem a obrigação de crescer indefinidamente. A autenticidade da fé se mostra mais da força de coesão, de missão e de transformação que na massa numérica de fiéis.
Sinceramente, não estou preocupado com o crescimento numérico das igrejas evangélicas, nem me animo com a multiplicação de paróquias e dioceses. Alegro-me sim com a notícia de que as igrejas evangélicas estão abrindo portas para que tanta gente encontre Jesus e seu Evangelho. E me preocupo com o ressurgimento do integrismo católico e com estratégias pastorais focalizadas na disputa de fiéis com as demais tradições cristãs.
Como faz falta uma fé cristã, pura, aberta, coerentemente evangélica nas nossas igrejas... Como é destrutiva uma orientação exclusivista, institucional, estreita. Junto com a fé autêntica, precisamos buscar de fato paz e unidade, mas não só nos estreitos limites da instituição católica. Peçamos a paz, a comunhão e a cooperação entre todas as igrejas cristãs. E assim o Evangelho será uma força diferenciada e eficaz de humanização e de transformação.
Itacir Brassiani msf

sábado, 28 de julho de 2012

Miriam de Nazaré (12)


Este é um ensaio de mariologia escrito pelo nosso amigo Bertilo Brod, professor aposentado da URI/Erexim, pai e vovô, pedagogo, ensaísta, teólogo e tradutor. Este fragmento faz parte do terceiro capítulo do ensaio, que apresenta uma reflexão mariológica no horizonte da pedagogia feminista e libertadora.

3.3    O ensinamento libertador do Magnificat (2)

Após estes elementos de natureza propedêutica ao terceiro tópico, adentremos na análise específica do mesmo, iniciando com algumas afirmações contundentes que servirão de inspiração para o nosso intento: “O Magnificat (...) é um dos textos de maior conteúdo libertador e político do Novo Testamento” (Gutiérez, apud AUTRAN, op. cit., p. 84). “Esse hino ressoa como a Marselhesa do front cristão de libertação na luta entre as potências e os oprimidos deste mundo” (Moltmann, apud AUTRAN, ibid., p. 85). “Nas comunidades de base, nos grupos onde a dimensão política da fé se explicita e se exerce, apreciam-se de modo especial os traços denunciadores, proféticos e libertadores de Maria, presentes em seu hino de louvor, o Magnificat” (BOFF, op. cit., p. 196-197). “O canto de Maria é um canto de combate de Deus travado na história humana, combate pela instauração de um mundo de relações igualitárias, de respeito profundo a cada ser, no qual habita a divindade” (GEBARA/BINGEMER, op. cit., p. 87).

À luz destes depoimentos, fica inteligível e justificável nosso intento de explorar a dimensão libertadora do ensinamento de Miriam de Nazaré contido no Magnificat. Sem dúvida, trata-se de um procedimento teológico, exegético e histórico não corriqueiro, uma vez que a dimensão política esteve praticamente ausente dos estudos mariológicos, antes do advento da teologia da libertação. Surgida na América Latina, mas de projeção e validade universal, já que os pobres e oprimidos existem em todos os continentes, a teologia da libertação tornou-se uma práxis libertadora e um ensaio de elaboração sócio-analítica do discurso teológico que tem como seu ponto de partida a miserabilidade das condições sociais dos pobres e excluídos e como meta última a libertação e redenção destes em Cristo. Metodologicamente, parte-se de uma rigorosa análise sociológica e histórica da realidade humana. Prossegue-se, aprofundando esta análise, nela inserindo o discurso teológico pelo recurso hermenêutico da releitura dos textos fundadores da nossa fé, isto é, da Escrituras, tematizando a dimensão libertadora de toda a história da salvação. A libertação que é visada não afeta apenas o destino escatológico dos homens, mas também o seu presente histórico. Objetiva-se a libertação do homem todo e de todos os homens, mas com uma “opção preferencial pelos pobres e oprimidos”. A novidade metodológica é a introdução, nesta releitura dos textos bíblicos, de um novo “círculo hermenêutico”, isto é, de um novo processo de interpretação e de exegese, cuja fundamentação teórica foi elaborada, com muita lucidez por Leonardo Boff, ao afirmar que:

“Lemos com os olhos de hoje as Escrituras cristãs escritas ontem (...). Nossos olhos vêm carregados de interrogações, expectativas e interesses, que despontam de nossa realidade. Com eles acedemos aos textos marianos que nos falam de Maria. Os textos sagrados, por sua vez, nos lançam sua mensagem que se depreende da sua letra. Mas nossos olhos interessados destacam da totalidade dos textos escriturísticos aqueles que se configuram como os mais relevantes para a nossa situação. Tais textos são sublinhados com tinta vermelha, seus contextos são indicados à margem com a observação: muito importante. Assumimos todos os textos fundadores da nossa fé, Mas a situação do nosso tempo, com suas urgências e prioridades, privilegia alguns textos e contextos. Neles houve uma voz que se endereça diretamente aos nossos ouvidos atuais. O sentido de outrora ganha uma atualidade hoje. Acolhemos um sentido que se deriva dos textos e criamos um sentido novo devido à sua ressonância no contexto da nossa História” (Leonardo Boff, apud AUTRAN, op. cit., p. 86-87).

Já Clodovis Boff, em sua obra Teologia do Político e suas Mediações, procura fornecer um aparato mais científico ao “círculo hermenêutico”: “Lemos os textos sagrados com nossos olhos atuais e por isso sempre interpretamos ao ler; esses mesmos textos nos enviam sua mensagem na direção do nosso ouvido histórico e são captados na onda sonora do nosso tempo; recebem, portanto, uma interpretação condizente” (Clodovis Boff, apud AUTRAN, op. cit., p. 87).

No procedimento metodológico da releitura das Escrituras, do “círculo hermenêutico”, no âmbito do discurso teológico, não se pode perder de vista a relação dialética entre Escritura e espírito da comunidade viva dos fiéis (o sensus fidelium). A rigor, o caráter de Palavra de Deus não se encontra nem só na letra da Escritura e nem só no espírito da comunidade ouvinte e leitora, e sim, precisamente na reciprocidade do movimento de vaivém dinânimo entre ambos. Cabe, por isso, fugir da armadilha de dois riscos: procurar na Bíblia aprioristicamente o que nos interessa (pragmatismo hermenêutico) ou mostrar obediência cega e servil ao positivismo literal (arqueologismo bíblico). Também na semiologia bíblica importa observar a regra hermenêutica: o sentido surge da relação permanente entre leitor e texto, isto é, o sentido não é algo reificado e deposto no texto que seria preciso passivamente recolher pela leitura; esta é também sempre produção de sentido. Em razão desta regra hermenêutica e semiológica, o texto bíblico está sempre aberto às sucessivas interpretações históricas. Ele nos remete à palavra atual e atualizante do Deus feito “lógos” (Palavra revelada) e à voz do Espírito sempre presente na comunidade dos que crêem.

Conclui-se desta regra teórica que o texto do Magnificat é fonte de sentido; é grávido de sentidos que virão à luz quando forem colocados em contato com a realidade histórica. Seu sentido literário, literal e histórico, enriquecido com as dimensões da simbologia e da teologia, é o fundamento de todos os sentidos que ele encerra e libera: a Palavra continua se revelando através das palavras que falam de Miriam de Nazaré e que o evangelista Lucas a ela atribui. Como Miriam, somos provocados e induzidos a dar nossa resposta, nossa palavra à Palavra revelada. O sentido liberado na leitura se concretiza somente na e pela resposta do leitor à interpelação. Por isso, a decodificação do sentido pleno do Magnificat ocorre apenas no “sim” intuído e vivido na concretude histórica da vida.

Para apreender o sentido libertador, profético e mesmo contestador do ensinamento do Magnificat, cumpre, de um lado, partir da realidade em que se vive e, de outro, inserir a dimensão libertadora na perspectiva totalizando do cântico. Comecemos pela primeira. Não é preciso ser um grande cientista social para concluir que nossa situação atual, na América Latina e em grande parte do mundo, se caracteriza sócio-político-economicamente como de cativeiro e opressão. A situação opressora atual é o lugar hermenêutico privilegiado da libertação. Esta situação de injustiça, opressão e exclusão já não afeta apenas as minorias étnicas, comportamentais ou de gênero, mas imensas maiorias de povos e populações. Pequenas elites detêm o poder, o saber e o ter e impõem seus interesses excludentes e exclusivos. Os poderosos possuem poder efetivo; os ricos detêm não só terra, capital e tecnologia, mas também o conhecimento e o saber. No pólo oposto, os famintos passam efetivamente privação e fome; os humildes são realmente oprimidos e humilhados, enquanto os excluídos sequer têm direito a uma vida de dignidade e de respeito.

Neste contexto histórico opressor e excludente, ecoa sempre a voz forte e rebelde de protesto e de contestação do Magnificat, desenvolvendo o tema central da magnificência de Deus que se revela gratuitamente e que inverte os valores deste mundo. Em apenas dez versículos, fornece uma insuperável filosofia e teologia da história, unificando o temporal e o eterno, o contingente e o absoluto, e o passado, o presente e o futuro. Três campos semânticos diferentes e complementares emergem da centralidade teológica e filosófica do Magnificat: o da transcendência, o da misericórdia e o da força. Miriam proclama que Deus é o Senhor (Kýrios), cujo nome é santo. O “nome” designa o mistério da proximidade do Deus transcendente. A divina transcendência constrói suatenda” (skenè) entre os homens, mas a sua santidade marca a diferença radical do Totalmente Outro, do Inefável incapaz de ser contido numa representação verbal. A despeito da sua transcendência e santidade inomináveis, a proximidade do Deus do Magnificat desvenda a sua misericórdia (éleos) que perdura porque está enraizada na fidelidade da promessa e da aliança. Por um misterioso paradoxo, a transcendência se fez condescendência amorosa e misericordiosa manifestada na intervenção e irrupção da divindade na humanidade, tomando forma concreta na concepção extraordinária do Emanuel e Salvador. Deus santo e misericordioso manifesta sua força (krátos) salvadora, fazendo maravilhas (megála) na humilde serva (doulè) de Deus. “O Deus de Maria, tal como aparece no Magnificat, é poderoso porque transforma criadoramente a realidade, manifesta sua força salvadora; santo, cumpre o plano de Deus, santifica o seu povo; misericordioso, recorda-se dos pobres e perdidos com amor que é fidelidade e perdão, bondade maternal e amor totalmente gratuito” (AUTRAN, op. cit., p. 94).
Bertilo Brod

quinta-feira, 26 de julho de 2012

17° Domingo do Tempo Comum


Uma pessoa que morre de fome é uma pessoa assassinada!
(2Rs 4,42-44; Sl 144/145; Ef 4,1-6; Jo 6,1-15)

Há uma lei que entre nós é mais aplicada que de todas as outras. É uma lei que não está escrita na Constituição nem na Bíblia, mas é ensinada em lições que vão do berço à sepultura. Esta lei diz, com algumas variações: “cada um pra si e Deus por todos”. Um complemento mais violentoensina que “quem pode mais, chora menos”. Não é difícil perceber que este princípio vai sendo assimilado tranquilamente na arena política, no sistema econômico, na área cultural e até no âmbito da religião. Basta prestar atenção para as ofertas de programas e celebrações que prometem bênçãos em forma de imediata prosperidade econômica. E não faltam testemunhos televisionados de pessoas que enriqueceram rapidamente por causa de uma suposta entrega a Jesus, sem qualquer atenção ao sofrimento e à pobreza das maiorias. Mas isso não se opõe frontalmente à fé em Jesus Cristo?
“Depois disso, Jesus foi para o outro lado do lago da Galiléia.”
Quem nos conta é o evangelista São João. Jesus estava em plena ação missionária. Já havia realizado três sinais que demonstravam a chegada dos tempos esperados, a utopia do Bem-viver, da Vida plena e gratuita para todos: ransformara água em vinho numa festa de casamento fadada ao fracasso; curara o filho de um funcionário do rei e um paralítico que há 38 anos não abandonava a esperança de recuperar a saúde e a plena cidadania.
Impactada por esses sinais, uma grande multidão segue Jesus por onde ele anda. Como sempre, o povo intui que é da periferia, do ensino e da proposta desse galileu desprezado, que pode nascer a novidade. Sabe que os centros de poder são como uma figueira estéril, ou pior, estão pavimentados com o trabalho dos pobres e pintados com o sangue dos inocentes. “Jesus ergueu s olhos e viu uma grande multidão que vinha ao seu encontro.”
O evangelista não diz que Jesus tem compaixão pelo povo, mas esta está subentendida. A compaixão parece filha da fraqueza, da humana vulnerabilidade, das periferias anônimas, enquanto que os palácios se sustentam sobre o poder e o medo. A compaixão supõe travessias, muitas travessias. Quando as Igrejas levarão a sério esta verdade? Para ver o povo e resgatar a compaixão ativa e redentora é preciso migrar para as periferias, deixar as discussões abstratas e estéreis, sair da própria barca.
“Onde vamos comprar pão para que estes possam comer?”
Ao entardecer das possibilidades de ajuda, quando as leis do mercado mostram que não têm coração, Jesus percebe a fome do povo e desperta os discípulos da insuportável indiferença que os envolvia inteiramente. “Onde vamos comprar pão para eles comerem?” Os discípulos não conseguem ver saída para o drama do povo a não ser dentro da lógica do império. Sem um plano alternativo, constatam desolados: “Nem meio ano de salário bastaria...”
Avaliando com um pouco mais de atenção suas próprias possibilidades, aquele grupo de homens e mulheres descobre que entre eles há alguém que tem cinco pães e dois peixes que providenciara para as necessidades da comunidade. “Mas o que é isso para tanta gente?”, questionam-se eles. Com essa pergunta parece que eles querem disfarçar o egoísmo elitista daqueles/as que pensam apenas nos seus direitos e privilégios, ou, ao menos, nas próprias necessidades.
Como está longe de Jesus uma Igreja e uma comunidade cristãs feita apenas de palavras e de ritos religiosos, que se compraz em lavar as mãos diante das tragédias que se abatem sobre o povo. Basta de instituições que entregam seus membros à implacável lógica dos impérios! E não nos desculpemos perguntando o que representam cinco pães e dois peixes para uma multidão de famintos... “O pouco com Deus é muito; o muito sem Deus é nada”, ensina a sabedoria popular.
 “Mas o que é isso para tanta gente?”
De repente o mundo parece ter acordado para a escassez de alimentos e a ONU convocou, há alguns, uma conferência urgente para discutir a questão e traçar soluções. Mas os países que comandam o organismo recusam-se a tirar a venda dos olhos e reconhecer as verdadeiras causas da emergência. São eles mesmos que, por mecanismos diversos e perversos, subtraem à mesa dos países pobres o alimento por eles mesmo produzido.
É verdade que nos últimos 40 anos a população da humanidade duplicou. Mas não podemos esquecer que , no mesmo período, a produção de alimentos triplicou! E se a fome vem crescendo, onde foi parar esse excedente? Soa como cínica, para não dizer diabólica, a ideologia que propõe resolver a fome dos pobres com a aprovação dos OGMs. Este projeto deseja subordinar a produção alimentar à padronização e às leis do mercado, destruindo assim a soberania e da segurança alimentar dos povos.
Jean Ziegler, ex-relator da ONU para o direito à alimentação, escreve: “O extermínio, a cada ano, de dezenas de milhões de homens, mulheres e crianças por causa da fome é o escândalo do nosso século. A cada 5 segundos uma criança de menos de 10 anos morre de fome. E isso num planeta no qual os recursos são abundantes e sobram... A agricultura mundial poderia alimentar sem dificuldades 12 bilhões de seres humanos... Uma criança que morre de fome é uma criança assassinada.”
“Fazei as pessoas sentar-se.”
A saída não é cada um cuidar de si, nem considerar povo faminto um simples objeto de caridade. O povo é soberano, e as autoridades devem colocar-se a seu serviço. E não se trata de povos nacionais, mas de um único povo, aquele que congrega todos os homens e mulheres. Paulo enfatiza que há um só corpo e um só espírito, uma só fé, uma só esperança, um só batismo, um só Senhor... Ou seja: odas as divisões são arbitrárias e fadadas a desaparecer.
A solução para esta crise alimentar sistêmica não está ao alcance de um país ou de uma Igreja particular. O caminho de saída começa com a adoção de um consumo moderado pelos ricos e com a erradicação da exploração comercial por parte dos países poderosos. Eles não precisam dar de comer: basta que não expropriem aos países pobres aquilo que lhes pertence por direito, e não lhes imponham receitas econômicas e padrões de consumo insustentáveis.
Eis aqui uma missão irrenunciável das Igrejas cristãs e de cada discípula/o de Jesus Cristo: estabelecer e defender profética e politicamente a soberania alimentar dos povos e exigir dos organismos multilaterais medidas concretas que possibilitem a toda a humanidade comer com dignidade. Essa não é de modo algum uma tarefa estranha à fé. Ou seremos surpreendidos pela terrível sentença: “Afastem-se de mim, malditos, porque eu estava com fome e vocês não me deram de comer...”
“Eles juntaram os pedaços e encheram doze cestos...”
A comida suficiente para alimentar os que têm fome – e para encher muitos cestos para os que ainda virão – aparece quando Jesus assume o protagonismo e os discípulos se associam à sua ação. Se ele deixasse a solução às ‘leis do mercado’ teríamos assistido à tragédia de um povo, ao cinismo da religião e ao enriquecimento dos astutos. O Espírito nos conduz do pão eucarístico ao pão para os famintos, da mesa da comunhão com Jesus Cristo à aliança com os oprimidos, do pão recebido à vida doada.
Encarcerado, mas livre, Paulo pede que os cristãos de Éfeso e também a nós que nos comportemos de modo digno da vocação que recebemos: que sejamos humildes, amáveis, pacientes. Que sejamos suportes uns para os outros no amor. “Mantenham entre vocês laços de paz para conservar a unidade e o Espírito.” Certamente a luta pelo pão na mesa de todos não pode ser estranha à unidade do gênero humano. E isso inclusive com o bravo trabalho dos pequenos agricultores cujo dia celebramos ontem.
Jesus de Nazaré, peregrino incansável no santuário das dores humanas, Deus compassivo e próximo de todos os sofredores/as, próximo também dos sonhadores/as e construtores de um mundo outro: Dá-nos olhos abertos e inteligência arguta para localizar os recursos necessários para evitar as tragédias que golpeiam teus irmãos e irmãs. Dá-nos um coração humanamente sensível, que nos conduza perto deles para servi-los com tudo o que somos e temos. Dá-nos um coração forte, próprio daqueles/as que se enamoram de ti, que não nos permita aceitar ou pregar meias-verdades, soluções cínicas e violentas, que nada têm a ver contigo e com tua Boa Notícia. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Kalimantan: impressões, emoções e reflexões (12)


Atravessando o rio Mahakan

Nem todos os mapas são iguais
Uma viagem de 45 minutos nos levou de Baron Bongkok a Tering. Um paroquiano gentil nos levou até o rio Mahakam. De lá ele voltou e nós atravessamos o rio de balsa. No outro lado nos esperavam ansiosos dois coirmãos Missionários da Sagrada Família: Pe. Gregorius Syamsudin e Pe. Daud Andy Savio Mering (este último, filho da terra chegara das Filipinas para uns dias de férias com sua família). O Ir. Urbanus Teluma Belawa nos esperava em casa.
Partindo do porto, caminhamos uns dois quilômetros pelas ruas da cidade (na verdade, uma mistura de ruas e passarelas de madeira), que se confunde com uma zona rural em plena mata equatorial. Passamos pela velha igreja católica, construída toda em madeira e muito bem conservada. Vimos de longe o hospital das Irmãs Missionárias Adoradoras da Sagrada Família e a escola pública municipal. O povo olhava curioso os dois estrangeiros que circulavam entre as casas...
Chegando diante da residência dos coirmãos, fomos recebidos oficialmente por um grupo de crianças, com danças tribais e vestes tradicionais. Acolheram-nos com os tradicionais braceletes de boas vindas e chapéus típicos, que consolidam a pertença. Isso deu uma graça especial a esta nova estação da nossa grande via-sacra (via- sacra no sentido de sagrada, e não de pesada).
Ruas ou passarelas?
Tering é uma pequena cidade de mais ou menos 12.000 habitantes (incluída a população que vive no interior e nas comunidades ribeirinhas). Do ponto de vista religioso, é uma espécie de exceção na ilha de Kalimantan: 80% do povo é crsitão e a paróquia conta com 6.000 fiéis, distribuídos em 17 comunidades. Aqui temos um dos berços da presença dos MSF na Indonésia e, pelos números que acabo de reportar, o trabalho dos coirmãos que se revezaram nestes quase 90 anos de missão foi abençoado por Deus e frutificou abundantemente.
São dois os coirmãos que levam avante o trabalho missionário e pastoral nesta paróquia: o Pe. Gregorius Syamsudin, pároco e superior da comunidade, é um jovem de 42 anos de idade (aqui quase todos aparentam menos idade do que têm!), vindo de uma família protestante que aderiu ao catolicismo em 1978; o Ir. Urbanus Teluma Belawa, 36 anos, originário da ilha de Flores, fez cursos para atuar na educação de agricultores e o curso superior para catequistas. Com a ajuda da comunidade das Irmãs, com quem celebram diariamente a missa e rezam o Ofício, estes dois coirmãos  visitam as comunidades duas ou três vezes por mês, tendo o cuidado de, dentro do possível, inculturar a fé no mundo dayak.
Chama muito a atenção a beleza do conjunto arquitetônico paroquial. Como a maioria absoluta das construções ribeirinhas, a casa paroquial e a igreja matriz são erguidas sobre estacas a mais de 2 metros do chão. É a necessária prevenção contra as frequentes enchentes que, mesmo assim, às vezes têm chegado a 1 metro acima do assoalho (isso mesmo que o leito do rio esteja a mais de 4 metros do terreno). Tanto a igreja como a casa paroquial, ligadas uma à outra por uma passarela coberta, são edificadas com madeiras nobres, resistentes à alta humidade, que por aqui é permanente. Além de resistente, a madeira é muito bem beneficiada, o que dá ao conjunto um aspecto leve e belo.
Bela equipe de acolhida dos visitantes estrangeiros!
O estilo da igreja, tanto na fachada externa como no interior, produz uma agradável surpresa ao visitante. Todas as colunas são de madeira roliça, escullpidas ou pintadas com motivos próprios da cultura dayak, e os móveis mantém a coloração natural da madeira. A iluminação natural é muito boa, assim como a ventilação. A cobertura de madeira com zinco por cima também protege do calor. Externamente, a construção assume o estilo das casas tradicionais. A torre do sino se sustenta sobre quatro blocos de madeira roliça nos quais está esculpido em relevo fragmentos da história cristã da região, que em 2007 completou 100 anos. Este templo é uma verdadeira jóia arquitetônica, obra do coirmão holandês Pe. Jamaat.
Como sempre, e para o nosso desespero, também em Tering nossa visita foi meteórica. Chegamos no meio da manhã, conversamos rapidamente com cada um dos três coirmãos, almoçamos (com direito a experimentar carne de urso!) e organizamos o retorno para as 14:00. Mas começou a chover, e o pior é que o carro da paróquia fica sempre do outro lado do rio! Esperamos ansiosos que a chuva passasse, pois em Barong Tongkok ainda tínhamos que conversar com o Pe. Usat, antes de seguir para o porto, de onde deveríamos partir às 18:00.
Menos mal que nossas preces foram atendidas e a chuva deu uma trégua. Assim, fomos de pés descalços até à beira do rio, descemos o barranco escorregadio apoiados num cajado de madeira que nos emprestaram e atravessamos o rio numa rabeta, tentando desesperadamente manter o equilíbrio. Neste ponto o rio Mahakam tem mais ou menos as dimensões do rio Uruguai em Iraí. Graças a Deus tudo correu bem. Seguimos de carro e chegamos em tempo a Barong Tongkok, falamos com o Pe. Usat, mastigamos um pedaço de pão e nos dirigimos ao porto, que está localizado a uns 30 minutos da cidade.
Embarcamos às 18:00. A duração prevista da viagem até o porto de Samarinda era de 12 horas. O barco era relativamente confortável para os moldes da região: 120 lugares, com colchonete e travesseiro para um bom descanso noturno, mais uns 80 passageiros que se amontoam em qualquer canto. Mas na parte que ocupamos tinha até ar condicionado (que não funcionou muito bem). Infelizmente o lamentável desconhecimento da língua mais uma vez nos impediu de estabelecer relações com os compaheiros de viagem, curiosos em saber quem são estes estrangeiros, o que fazem por aqui, o que pensam de Kalimantan... Uma jovem senhora mussulmana, usando a famosa burka (atrás da qual os olhos são a única parte do corpo que pode ser vista) se aproximou de nós com sua filhinha, a qual beijou nossa mão em sinal de respeito...
Uma matriz bela e inculturada
Depois destes 20 dias de visita, percorrendo estradas precárias, sob um sol implacável e envolvidos por uma umidade desalentadora, com mosquitos e insetos por todos os lados, em meio a uma natureza exuberante e um povo original, volto a tirar o chapéu diante dos missionários, vindos da Europa ou nativos, que abriram sendas missionárias neste mundo estranho e mantém a fé de comunidades absolutamente minoritárias mas muito vivas. E fico me perguntando o que significou para os coirmãos de governos gerais que nos antecederam, chegar a estes rincões usando meios mauito mais precários que os de hoje, alojados em casas muito menos confortáveis.
Para mim fica cada vez mais claro que a geografia e a cartografia missionárias são muitos diferentes daquelas guiadas pela economia ou pelo turismo. A cartografia turística põe em destaque Bali, paraíso turístico dos europeus, ou Borobudur, ruínas da cultura e da espiritualidade budistas do século XII. A geografia econômica põe em destaque a imponência urbana e o dinamismo econômico de Jakarta e a riqueza petrolífera de Balikpapan. Mas os mapas religiosos nos levam a Sampit, Ampah, Lambing, Tering, Buntok e outros povoados perdidos nesta ilha continental. Foi para lá que se dirigiram os filhos espirituais do Pe. Berthier no início do século passado, e é nestes lugares – mas não apenas nestes – que novas gerações de missionários dão o melhor de si mesmos.
Oxalá estes coirmãos possam perceber também a necessidade e se alegrar com a possibilidade da colaboração ecumênica, do diálogo com o mundo mussulmano e da perspectiva social da fé para o desenvolvimento de uma missão realmente evangélica no início do século XXI. Mas sempre seguindo a cartografia ditada pelo Evangelho: priorizando os últimos, aqueles que estão longe, os lugares onde é maior a necessidade, os grupos humnos em situação de maior fragilidade social.

domingo, 22 de julho de 2012

O perigoso fim das coletividades


Confesso que sempre que passo indiferente diante de uma pessoa que me estende a mão pedindo algo ou quando não esboço nenhuma reação diante de injustiças perpetradas contra grupos humanos oprimidos ou marginalizados sinto um certo desconforto. Isso não me parece nem nomal nem eticamente aceitável, mas, ao mesmo tempo, percebo que esta tentadora indiferença cresce em mim e naqueles que me rodeiam. Como explicar isso?
É claro que a explicação é menos importante que a ‘dissonância ética’ que isso causa. Mas o sentimento de inadequação e de discordância solicita e espera a companhia e a preciosa ajuda de uma honesta reflexão.
Lendo hoje (20.07.2012) o profeta Jeremias, tive uma intuição que me parece esclarecedora. Chamou-me a atenção o modo como ele fala do seu povo como se fosse de um sujeito real, com identidade, sofrimento e destino claramente definidos. A opressão sofrida por parte do povo é vista pelo profeta como opressão de um povo. Assim como o desejo de bem-viver dos oprimidos é visto como sonho de todo o povo de Israel. Aqui está: povo não é um sujeito abstrato, mas concreto e real.
Não seria a perda ou a recusa dessa identidade coletiva, dessa personalidade comunitária, o fator que propicia e potencializa a indiferença e diminui possibilidade a força da indignação? Não seria este dinamismo, que inflaciona a subjetividade individualista e promove a identidade soilipsista, a doença que está levando a solidariedade à letargia e matando a profecia?
Quando o outro – a vítima, o empobrecido, o esquecido, o diferente... – não tem nada a ver comigo, não tem nada em comum comigo, o que me importa o que se passa com ele? Quando não existe mais família, comunidade, tribo, etnia, coletividade... mas somente indivíduos que começam e terminam em si mesmos, o que pode nos inquietar e nos indignar a não ser a negação dos nossos desejos e preferências?
É claro que não podemos esquecer os malefícios danosos de coletivismos niveladores e negadores da subjetividade. Mas desse limite não se pode passar inocentemente à festiva diluição da identidade social na multidão de indivíduos. Porém, esse é o pecado que, em forma de tentação, de ação ou de omissão ronda o coração e a mente de bons cristãos e se aninha nos cultos discretos ou faustosos de muitas religiões, inclusive de um certo catolicismo.
Embarcar nesse trem parece bom e desejável, mas então eu não saberia mais o que fazer com Jesus Cristo, sua Palavra e sua ação.
Itacir Brassiani msf

Reflexão


Quando a Igreja vira circo
Era o mês de julho do ano de 1963 e eu não tinha ainda completado sete anos de idade. Em Araci (Bahia), minha cidade natal, celebrava-se uma festa de arromba: o Jubileu de Ouro do Apostolado da Oração da paróquia. Naquela época Araci era uma cidade pequenina formada apenas por três praças e menos de uma dezena de ruas. O município, com população quase toda rural, não passava de alguns milhares de habitantes. A cidade não tinha pároco e o padre vinha de vez em quando de Serrinha, a paróquia vizinha, situada a 36 quilômetros de distância. A região estava sendo assolada por uma seca que já durava quase três anos. Mesmo assim a festa aconteceu e o povo acorreu numeroso para participar, apesar de todo o sofrimento.
A abertura da festa se deu com a chegada do bispo diocesano de Feira de Santana (BA). Era a primeira vez que eu ia ver um bispo e nem sabia naquela época o que isso significava exatamente. Como toda criança, corri curioso, ao lado de meu pai, para a Praça da Matriz para ver a chegada de Sua Excelência. Fiquei impressionado. Uma figura imponente e vestida solenemente; usava luvas e sapatilhas e carregava atrás de si uma longa cauda, que era mantida suspensa a certa altura do chão por alguns caudatários. Entre esses caudatários estava um jovem seminarista, filho da minha terra e meu parente.
O bispo fez um discurso inflamado, rebuscado de frases em latim. Todos os presentes aplaudiram o “bom pregador”, embora quase ninguém tenha entendido nada, especialmente aquelas frases ditas na “língua da missa” que só o sacristão Zequinha, seu ajudante Agenário e a professora Dona Marieta – a mulher que tocava o harmônio da igreja – entendiam um pouco. Depois disso, o bispo deu a bênção do Santíssimo Sacramento, rebuscada com mais latim, o “Tantum Ergo Sacramentum”. A festa continuou por uma semana inteira: missas, pregações, confissões, batismos, casamentos e muito foguetório. Depois o bispo voltou para a sede da diocese, os missionários foram embora e o povo retornou para as suas casas. A vida voltou ao normal: luta contra a seca, fome, sede e miséria. “Seja o que Deus quiser”, repetia conformado o povo dos pobres.
Quando a festa do Jubileu do Apostolado aconteceu, já tinha sido realizada a abertura do Concílio Vaticano II. Porém, tudo continuava sendo realizado no “velho rojão”, como se dizia então. Missa em latim, de costas para o povo e sempre pela manhã; celebração dos sacramentos numa “língua embolada”; o povo sem entender nada. Em minha cidade a primeira missa em português foi celebrada na tarde do dia 1º de janeiro de 1965. O presidente da celebração, um velho frade capuchinho, quase não conseguia pronunciar as palavras em português, de tão acostumado que estava com as velhas fórmulas decoradas em latim.
O tempo passou, entrei para o seminário e passei a conhecer vários bispos. Morei sete anos na Itália. Lá vi cardeais, bispos e padres vestidos com muita solenidade. Mas nunca mais tinha visto um bispo carregando uma cauda e vestido com tanta pompa. João XXIII e Paulo VI tinham simplificado as coisas, expurgando da Igreja e da liturgia os resquícios imperiais que as caracterizavam. O próprio Paulo VI renunciou à tiara e à “sedia gestatória”, uma espécie de trono sobre o qual o papa se assentava e era carregado nos ombros de alguns homens. O Concílio Vaticano II renovou a Igreja, simplificou tudo, fazendo com que as comunidades cristãs retornassem à pureza do Evangelho e ao essencial. Pediu que a Igreja renunciasse às glórias mundanas, desse sinal de humildade e abnegação e, como seu Fundador, fosse pobre e estivesse ao lado dos pobres (LG, 8).
A liturgia deixou de ser uma atividade exclusiva de padres para ser ação de todo o povo de Deus, o qual, por força do batismo, tem o direito e o dever de participar ativamente das celebrações (SC, 14). Pude ver então um dinamismo extraordinário nas comunidades cristãs, com o povo participando ativamente da liturgia. Dava gosto ver uma celebração e perceber as pessoas participando de muitos momentos. Os cantos litúrgicos eram entoados entusiasticamente por todas as pessoas presentes à celebração. As celebrações litúrgicas deixaram de ser ações privadas e realmente se converteram em celebrações da Igreja (ekklesía), passando, de fato, a pertencer ao “povo santo reunido” (SC, 26).
Mas o tempo passou, o Concílio foi sendo esquecido e “aposentado” e muita coisa “mofa” começou a voltar. Inclusive, para minha surpresa, as caudas dos bispos e cardeais e seus caudatários. E a coisa tem se complicado mais ainda porque a pós-modernidade chegou e atingiu de cheio as religiões, como nota sabiamente Bauman em seu livro O mal- estar-estar da pós-modernidade (Rio de Janeiro: Zahar). Além disso, a pós-modernidade, segundo David Lyon no seu livro sobre o assunto (São Paulo: Paulus), foi se infiltrando também no cristianismo, o qual se tornou um item de consumo, embora “delicadamente embalado”. Assim sendo, as propostas cristãs foram se transformando em mercadorias, que podem ser compradas ou rejeitadas de acordo com os caprichos ou gostos consumistas de cada um. As lideranças, especialmente alguns padres, sucumbiram à sedução da tirania das imagens que passaram a serem usadas para seduzir as pessoas, especialmente as mais vulneráveis. Desta forma, tornaram-se profissionais do espetáculo e se utilizam disso para vender suas mercadorias religiosas e seus “kits de salvação”, enchendo seus bolsos. As celebrações litúrgicas também foram transformadas em espetáculo, no qual alguns fazem o show, enquanto o povo permanece mudo e inerte.
Qual o resultado disso? Gilberto Dupas, citando Debord, em seu livro Ética e poder na sociedade da informação (São Paulo: Unesp, 2011) responde de maneira magistral: o espetáculo é “o herdeiro da grande fraqueza do projeto filosófico ocidental”. De fato, “como a filosofia jamais conseguiu superar a teologia, o espetáculo é a reconstrução material da fantasia religiosa, a realização técnica do exílio, a cisão consumada do interior do homem. O espetáculo funciona ‘quase como uma forma de reconstrução material da ilusão religiosa. Ela já não remete para o céu, mas abriga dentro de si sua recusa absoluta, seu paraíso ilusório’” (p. 52).
Aplicando à Igreja e à liturgia o que disse Dupas, podemos afirmar que o espetáculo faz da Igreja um circo. Quando certos padres, e “presbiretes”, viram palhaços, “cuspidores de fogo na Igreja”, transformam celebrações litúrgicas em shows. Buscam na verdade minutos de glória fugaz para si, tratam a assembleia dos fiéis como uma massa de dementes e desvirtuam o espírito do Vaticano II. Com isso causam a alienação do fiel, o qual vira um mero expectador, levando-o a não mais participar plena e ativamente das celebrações e nem compreender e assumir a própria existência: a ser apenas um repetidor mecânico dos gestos de um padre animador de programa de auditório. Com isso o padre pop star não “remete as pessoas para o céu”, mas as empurra para um “paraíso ilusório” revestido de pura fantasia.
Quando a Igreja vira circo ela se enfraquece porque deixa de contar com pessoas adultas na fé. Passa a ser uma Igreja infantil formada por “crianças” que são jogadas para cá e para lá pela artimanha de pregadores astutos (Ef 4,14). Na Igreja-circo as pessoas passam a acreditar em qualquer coisa, a multiplicar objetos e kits de salvação e a fetichizar tudo. A comunidade cristã não cresce e nem se dinamiza porque é alimentada pelo obscurantismo. Na Igreja-espetáculo, diferentemente do que se pensa, a incerteza passa a ser a regra e não há crescimento “sob todos os aspectos em direção a Cristo, que é a Cabeça” (Ef 4,15). Não existe mais uma fé sólida porque tudo está revestido de fragilidade em razão da debilidade dos espetáculos religiosos e da superposição de “mercadorias religiosas” propostas pelos animadores dos shows religiosos. A atenção dos fiéis não se volta mais para a pessoa de Jesus Cristo, mas para o fanático e obsessivo pregador de bobagens. A Boa Nova é substituída por outro evangelho (Gl 1,6) e o deus pregado é o “deus do ventre” (Fl 3,19), ou seja, a glória, o orgulho, a vaidade e o exibicionismo desses animadores de missas shows e de programas religiosos baratos e vazios.
José Lisboa Moreira de Oliveira