domingo, 29 de julho de 2012

Reflexão


“Olhai para a fé que anima a vossa Igreja…”

Repetimos esta oração em cada santa missa, após a recitação do Pai-Nosso e antes do abraço da paz e da comunhão eucarística. Todos/as conhecemos a oração de cor e salteado. Em alguns lugares, o presidente da celebração reza com exclusividade, noutras a assembléia lhe faz coro.
“Senhor Jesus Cristo, que disseste aos vossos apóstolos: ‘Eu vos deixo a paz! Eu vos dou a minha paz.’ Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima a vossa Igreja. E dai-lhe, segundo o vosso desejo, a paz e a unidade. Vós que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo.”
Já recitei esta oração milhares de vezes, mas hoje, aqui no interior do Rio Grande do Norte, a oração mexeu comigo. O que me inquietou mesmo foi o pedido para que Jesus Cristo não olhe para os nossos pecados, mas para a fé que anima a sua Igreja. Concordo: ele olha a nossa fé, mas nós devemos ter viva consciência dos nossos pecados eclesiais.
Lembrei-me das diversas reações de padres e bispos aos resultados da última pesquisa do IBGE sobre a pertença religiosa do povo brasileiro. A grande imprensa anunciou em letras garafais (e com satisfação?) a queda do número de católicos, tanto em termos relativos como absolutos. E chamou padres, teólogos e bispos para interpretar estes números.
Os dados são, resumidamente, os seguintes: em 1980, mais de 89% dos brasileiros se diziam católicos, e hoje são apenas 64%; entre os anos 2000 e 2010 a Igreja Católica teria perdido 1 milhão e 670 mil fiéis; nesse mesmo período, as igrejas evangélicas ganharam 16 milhões de novos fiéis, e hoje representam 22% da população brasileira.
Fiquei preocupado com três tipos de reação da hierarquia católica aos números da pesquisa. Uns colocam em dúvida a seriedade dos métodos de pesquisa do IBGE. Um outro grupo esgrima o resultado da pesquisa do CERIS, que evidencia o crescimento do número de paróquias e de movimentos. E há ainda quem aproveita os resultados para lançar uma nova ofensiva proselitista para reconquistar adeptos.
Meu Deus, onde está ‘a fé que anima a nossa Igreja’? Qual é o problema do crescimento das igrejas protestantes, inclusive das igrejas pentecostais? A preocupação com este crescimento evidencia o pressuposto de que elas não são queridas por Deus, que estão desviando o povo do Evangelho. Mas isso é um crasso erro teológico e sinal de um preconceito inaceitável.
Pergunto-me se a veracidade da fé católica precisa ser garantida pela manutenção de uma maioria numérica, e respondo que não. Também estou convicto de que a igreja católica não tem a obrigação de crescer indefinidamente. A autenticidade da fé se mostra mais da força de coesão, de missão e de transformação que na massa numérica de fiéis.
Sinceramente, não estou preocupado com o crescimento numérico das igrejas evangélicas, nem me animo com a multiplicação de paróquias e dioceses. Alegro-me sim com a notícia de que as igrejas evangélicas estão abrindo portas para que tanta gente encontre Jesus e seu Evangelho. E me preocupo com o ressurgimento do integrismo católico e com estratégias pastorais focalizadas na disputa de fiéis com as demais tradições cristãs.
Como faz falta uma fé cristã, pura, aberta, coerentemente evangélica nas nossas igrejas... Como é destrutiva uma orientação exclusivista, institucional, estreita. Junto com a fé autêntica, precisamos buscar de fato paz e unidade, mas não só nos estreitos limites da instituição católica. Peçamos a paz, a comunhão e a cooperação entre todas as igrejas cristãs. E assim o Evangelho será uma força diferenciada e eficaz de humanização e de transformação.
Itacir Brassiani msf

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