sábado, 12 de janeiro de 2013

Fatos & Personagens: a prata e o ouro das Américas


Digestões

Potosí, Guanajuato e Zacatecas comima índios. Ouro Preto comia negros.

Em solo espanhol, quicava a prata que vinha do trabalho forçado dos índios da América. Em Sevilha, a prata estava de passagem. Ia parar na pança dos baqueiros belgas, alemães e genoveses, e dos mercadores florestinos, ingleses e franceses, que tinham hipotecado a coroa espanhola e todas as suas rendas.Sem a prata da Bolívia e do México, ponte de prata que atravessou o mar, teria a Europa conseguido ser Europa?

Em solo português, quicava o ouro que vinha do trabalho escravo no Brasil. Em Lisboa, o ouro estava de passagem. Ia parar na pança dos banqueiros e mercadores britânicos, credores do reino, que tinham hipotecado a coroa portuguesa e todas as suas rendas. Sem o ouro do Brasil, ponte de ouro que atravessou o mar, teria sido possível a revolução industrial na Inglaterra?

E sem a compra e venda de negros, teria sido Liverpool o porto mais importante do mundo e a empresa Lloyd’s a rainha dos seguros? Sem os capitais do tráfico negreiro, quem teria financiado a máquina de vapor de James Watt? Em que fornos teriam sido fabricados os canhões de George Washington?

(Eduardo Galeano, Espelhos, L&PM, 2008, p. 157)

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