domingo, 31 de março de 2013

Fatos & Personagens: Mat’ Marija Skobcova


Mat’ Marija Skobcova

No dia 31 de março de 1945 morreu em Ravensbrück, no campo de extermínio nazista, Elizaveta Jur’evna Pilenko, mais conhecida pelo nome que adotaria como monja, Mat’ Marija. Elizaveta nasceu em Riga, na Letônia, em 1891. Transferiu-se para São  Petersburgo e, durante a escola secundária e os primeiros anos de estudos universitários, participou do intenso debate intelectual e político que caracterizou a Rússia no início do século XX.

Sendo colega da poetisa Marina Cvetaeva, Elizaveta também gostava de poesia. Buscava ardentemente algo que pudesse satisfazer sua sede de justiça e, assim, se juntou aos primeiros revolucionários. Depois de celebrar segundas núpcias com um oficial da Armada Branca, Eslizaveta migrou com ele a Paris, em 1923. Lá teve contato com os maiores expoentes da ortodoxia russa no exílio (Bulgakov, Florivskij e, sobretudo, Berdjaev, Fedotov e o metropolita Evlogij).

Depois de atravessar uma profunda crise espiritual, Elizaveta pediu e obteve o divórcio, com a aprovação da Igreja Ortodoxa, e emitiu os votos monásticos em 1932. A monja Mat’ Marija – nome com o qual se tornará célebre na diáspora ortodoxa – fundou em Paris um mosteiro sui generis, dedicado à acolhida dos mais pobres, sobretudo dos migrantes russos na capital francesa.

Por causa da ajuda que frequentemente oferecia à fuga de crianças hebréias, Mat’ Marija foi presa em 1943 e, posteriormente, assassinada na câmara de gás do campo de concentração de Ravensbrück, oferecendo-se para substituir uma companheira de prisão. Com este seu último gestao, Mat’ Marija culminou uma vida totalmente doada, sem reservas, a todos aqueles a quem havia encontrado em seu caminho.

 (Comunità de Bose, Il libro dei testimoni, San Paolo, Milano, 2002, p. 174-175)

sábado, 30 de março de 2013

Um procurado

Procura-se!

Chama-se Jesus. É chamado de Messias. Não tem ofício nem residência.
Diz ser filho de Deus, e diz também que desceu do Céu para incendiar o mundo.
Foragido no deserto, anda alvoroçando as aldeias.
É seguido por malandros, mal-nascidos, malfeitores e mal-viventes.
Promete o Paraíso aos miseráveis, aos escravos, aos loucos, aos bêbados e às prostitutas.
Engana o populacho curando leprosos, multiplicando pães e peixes e fazendo outras magias e feitiçarias.
Não respeita a autoridade romana nem a tradição judaica. Viveu sempre fora da lei.
Está há 33 anos fugindo da sentença de morte que recebeu ano nascer.
A cruz espera por ele.

(Eduardo Galeano, Espelhos, uma história quase universal.
 L&PM Editores, Porto Alegre, 2008, p. 64-65).

sexta-feira, 29 de março de 2013

Sexta-Feira Santa


Você também é discípulo/a deste homem?
(Is 52,13-53,12; Sl 30/31; Hb 4,14-15; 5,7-9; Jo 18,1-19,42)
O comércio não sabe o que fazer com esta sexta-feira, e um clima estranho envolve a todos/as. Até as pessoas mais indiferentes intuem que algo profundamente significativo aconteceu e acontece nesse dia. Tudo é diferente, inclusive a liturgia. Em nenhuma parte do mundo se celebra missa, e começamos o encontro ajoelhados ou prostrados, sem canto, sem sinal da cruz. Uma multidão, talvez maior do que na festa da páscoa, se reúne nos templos. Em geral, são pessoas experimentadas na dor. Todos intuem que nesta sexta-feira se revela o que há de mais profundo no ser humano e de mais belo no coração de Deus. O mistério do mal atinge sua força mais terrível. A humanização de Deus atinge seu ponto mais luminoso. A entrega do ser humano a Deus se expressa em seu grau máximo. O amor a Deus brilha na entrega despojada e solidária a serviço do ser humano despojado de poder e de honra.
“Vejam o meu servo!”
Na vida de Jesus de Nazaré, o Messias e Filho de Deus, se revela de forma pessoal uma experiência universal. Isaías expressou com uma profundidade inigualável a opção e o destino daqueles/as que mantém a fidelidade em situações de risco e de controvérsia; daqueles/as que procuram manter sua identidade de Servidores/as de Deus e de relativização, venha o que vier; daqueles/as que não aceitam acender uma vela a Deus e outra aos diabólicos interesses pessoais ou de grupo.
Assim como todos os Servos e apesar das pinturas e imagens que querem desmenti-lo, Jesus não tinha aparência e beleza que pudessem atrair os olhares. Era como uma raíz em terra seca, como um indivíduo do qual escondemos o rosto. “Não parecia gente, tinha perdido a aparência humana.” Como diz o salmista, provocava nojo aos vizinhos e terror aos amigos. Foi esquecido como um morto ou como um objeto perdido. Não parecia humano e muito menos divino. Fez orações e súplicas em alta voz e com lágrimas e foi cortado da terra dos vivos.
Mas sua vida se tornou semente. Nós é que estávamos enganados e perdidos. O Servo fiel não perde sua vida, pois a doa livremente, e por isso prolonga sua existência. Ele carrega nas costas os pecados e sofrimentos de muitos, e por isso a luz brilha em seu rosto. Ele confia seu destino nas mãos daquele que é o segredo da vida, e assim vive naqueles/as que servem. Eis o rosto de Deus: é um rosto de Servo. Eis o ser humano realizado em seu máximo grau: chegou à maturidade e à estatura de irmão e irmã. Eis o caminho para chegar a Deus e à humanização.
“Eles mesmos não entraram no palácio para não se contaminarem.”
Conhecemos as tramas, traições e intrigas que levaram à prisão, condenação, tortura e morte de Jesus. São opções e atitudes que revelam o mistério do mal e sua força nas pessoas e nas estruturas. Um mal nada abstrato, que se expressa nos costumes, nas leis, nos sistemas econômicos, nos medos, em todas as formas de ambição. Um mal que assume feições de cinismo, como quando as autoridades religiosas, tendo decidido matar Jesus, não entram no palácio do governador para não se tornrarem impuras. As ditaduras de todos os quadrantes criam leis iníquas que as justificam e purificam.
Aqueles/as que, consentindo ou não, fazem dos seus interesses e ambições um ídolo intocável, cedo ou tarde acabam identificando como diabólicos e ameaçadores todas as pessoas, grupos ou movimentos que pensam diferente e propõem uma ordem alternativa. E criam estratégias para eliminá-los sem sujar as mãos, dentro dos quadros da lei, sem se tornarem impuros. Quantas leis – escritas nos códigos ou na alma dos povos – não passam de artifícios para disfarçar o domínio e a violência dos mais fortes sobre os mais fracos, na tentativa de empedir que vivam plenamente?
É este mistério inexplicável da iniquidade que faz com que a noite venha às três horas da tarde. Uma iniquidade que começa não se sabe bem onde e se expressa na afirmação de si mesmo/a à custa dos outros, na busca sem fim de vantagens, no desprezo de quem é diferente, no fechamento a toda e qualquer mudança, no uso do poder cultural e religioso para abusar de menores, enfim: na defesa da ordem desordenada que protege os vencedores e poderosos. Descrevendo este dinamismo maldito nos fere, o salmista diz: “Eis que na culpa fui gerado, no pecado minha mãe me concebeu.”
 “Eis o homem!”
Diante das autoridades, Jesus não parece disposto a debater nem se defender. Ele tem cosciência de que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para tornar palpável e digno de crédito o amor fiel de Deus pelas pessoas negadas em sua dignidade. Pilatos manda torturá-lo, transforma-o numa paródia de líder e o apresenta ao povo: “Eis o homem!”
Esta é mais que a apresentação de um homem procurado pelas forças da ordem. Fixemos o olhar nesse personagem que realizou em grau pleno a vocação de todo ser humano. Não, o ser humano não é chamado apenas a sofrer e padecer, nem essencialmente a gozar e mandar. Em Jesus descobrimos que a pessoa humana atinge sua plenitude quando não recua no propósito de dar a vida, quando não abre mão da solidariedade com as pessoas negadas em sua verdade e em sua dignidade. “Eis o homem!”
O ser humano maduro não é o amigo de César, que age sem autonomia e sem autoridade e que ordena por medo, mas a pessoa que transcende os interesses individuais e institucionais e se abre ao horizonte da vontade de Deus e do seu reino. Por isso, do alto da cruz, Jesus diz que no seu corpo doado inteiramente a criação chega ao seu ápice: “Tudo está consumado.” Nele Deus chega ao máximo de si mesmo e se supera no esvaziamento. Nele o ser humano vence todos os limites e se faz dom e semente fecunda nas mãos de Deus e na terra dos Homens.
“A quem procurais?”
Esta pergunta dirigida por Jesus aos soldados que o procuravam retoma a pergunta feita aos primeiros discípulos: “O que é que vocês estão procurando?” (Jo 1,38). E aqui ela se dirige a todos/as nós, reunidos/as para celebrar a paixão de Jesus Cristo e acolher sua cruz. O que nós esperamos de Jesus e o que buscamos nesta celebração? Consolação nos sofrimentos inexplicáveis? Confirmação dos nossos interesses e projetos? Inteligência para conciliar a submissão à lógica do ‘cada um pra si’?
Numa igreja que nasce e se edifica sobre a fé em Jesus crucificado, só é licito buscar forças para caminhar na fé e perseverar no seguimento de Jesus, amigo e servidor da humanidade. Do alto da cruz ele se dirige a Maria e lhe confia João: “Mulher, eis aí teu filho!” E, dirigindo-se ao discípulo, diz: “Eis aí tua mãe!” Aos pés da cruz  nasce uma nova família, não mais presa aos laços de sangue ou de interesses mesquinhos, mas aberta e servidora de todos os humanos seres que querem viver e promover a vida.
É por isso que nesta sexta-feira santa nossa oração se abre numa universalidade que não deveria estar ausente de nenhuma celebração: rezamos pela Igreja, pelo papa e todos os ministros, mas também pela união das diferentes Igrejas cristãs, pelos judeus e pelos não cristãos, pelos que não acreditam em nada, pelas autoridades e pela humanidade sofredora. Diante do crucificado, filho da humanidade e filho de Deus, aprendemos que os muros e fronteiras religiosas, políticas, econômicas e culturais não fazem o menor sentido.
“Lá havia um jardim, no qual ele entrou com os seus discípulos.”
Num jardim Jesus foi preso e num jardim foi sepultado. Estes dois jardins nos levam a um outro, aquele do Édem. Esse Jesus que nos ama até o fim é o novo Adão, o ser humano que não caiu em tentação porque aceitou carregar o peso dos irmãos, servindo assim unicamente a Deus. A cruz, sendo expressão da fidelidade de Deus e da doação maior do ser humano, é a nova árvore da vida, alimento perene e incomparável do qual todos/as nos podemos servir abundantemente. Maria é a nova Eva, a mãe dos viventes e sobreviventes.
Na caminhada para o Calvário, Pedro havia sido interrogado por uma empregada do Sumo Sacerdote: “Não pertences tu também aos discípulos deste homem?” Sem disposição e coragem para assumir riscos, Pedro negou. Mas, aos pés da cruz, há uma pequena comunidade corajosa e perseverante. O discípulo amado nos representa na nova família que nasce do Espírito derramado, à qual foi entregue a missão de renovar a criação.  Diante da prova da proximidade e do amor de Deus, respondamos com palavras e com a vida: “Sim, eu sou discípulo/a deste homem!” E aproximemo-nos e adoremos este que nos ama sem medida com um beijo que não é de traição, mas de agradecido reconhecimento.
Pe. Itacir Brassiani msf

Domingo da Pascoa


A vida que não morre vem do amor sem limites.
(At 10,34.37-43; Sl 117/118; Col 3,1-4; Jo 20,1-9)
Chegamos à festa que preparamos com tanto empenho nas últimas seis semanas. Trazemos no corpo a memória agradecida da aliança realizada na última ceia e nas muitas e solidárias ceias penúltimas. Trazemos nos olhos o sinal luminoso das mãos perfuradas e dos braços abertos em forma de cruz, prontos a abraçar a humanidade inteira, sem nenhuma exclusão. Partilhamos com Madalena o vazio de uma ausência querida. Trazemos na mente e no ventre o trabalho das mulheres e homens, comunidades e movimentos que, no escuro da noite, prepararam tecidos e perfumes para não deixar a vida se deteriorar. Graças ao testemunho das primeiras comunidades cristãs e de uma nuvem de testemunhas e mártires que cobre os séculos, sabemos que nossa vida está escondida com Cristo, em Deus, e por isso não temos. E dizemos, com a juventude em movimento: “Eis-me aqui! Envia-me!”
“Nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez.”
Não podemos pensar e celebrar a Páscoa congelando-a no passado, como se fosse algo acontecido apenas com Jesus de Nazaré, há dois mil anos atrás. Precisamos superar também a tentação de reduzi-la a um acontecimento que toca apenas a alma ou a interioridade das pessoas, como se não tivesse nenhuma relevância para o corpo e para a história. E é necessário também ultrapassar a idéia de que a Páscoa apenas confirma a nossa esperança na ressurreição individual dos mortos, prevista para um futuro indeterminado.
A Páscoa celebra o reconhecimento de Jesus – o jovem profeta perseguido e assassinado, o irmão e servidor da humanidade – como Filho de Deus. Proclama que nele Deus vence todas as formas de morte, da morte física à morte progressiva e massiva que resulta das estruturas iníquas e dos poderes despóticos. Anuncia que Jesus, considerado uma pedra problemática e sem utilidade na manutenção do mundo, foi considerado por Deus como pedra fundamental da construção de um mundo novo.
É isso que escutamos no testemunho entusiasmado e corajoso de Pedro. Ele recorda que Jesus andou por toda parte fazendo o bem e agindo sem medo, apesar da violência que havia levado João Batista à morte. Deus estava com ele e agia nele, inclusive no vazio e escuro da cruz, quando parecia havê-lo abandonado. Deus o ressuscitou dos mortos, e transformou em juiz aquele que fora réu de morte. E os discípulos da primeira hora, apesar da dificuldade de acreditar nele e de tê-lo abandonado, são constituídos testemunhas e pregadores desta Boa Notícia.
“Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto.”
A Páscoa de Jesus de Nazaré e dos cristãos celebra as milhares de possibilidades escondidas na vida de cada pessoa e na história da humanidade. Afirma que a última palavra não será sempre discurso frio daqueles que impõem sua injusta ordem e retiram das praças e ruas os jovens indignados. Proclama que a ação realmente eficaz e grávida de futuro é aquela que estabelece a absoluta superioridade do outro necessitado. Evidencia que a direção certa e o sentido da vida está no esquecimento de si,  no fazer-se semente de uma outra vida, no só a Deus servir e adorar.
E isso não é uma realidade que se manifesta apenas depois da morte. Paulo nos surpreende afirmando que os cristãos já foram ressuscitados. Ele se refere ao dinamismo pascal do nosso batismo, o qual possibilita e requer a passagem de uma vida miúda e individualista para uma vida plena e solidária. “Procurem as coisas do alto”, exorta Paulo. E isso significa assumir um estilo de vida centrado no dom e no amor, no serviço e na partilha, no compromisso perseverante e generoso com a gestação de um outro mundo, utopia tão cara aos jovens. “Se não nos deixarem sonhar, não os deixaremos dormir..:”
É verdade que o pecado não perdeu totalmente sua influência sobre nós. Continuamos sendo seduzidos por seu cheiro de beleza, seu ar de felicidade, sua aparência de inteligência, sua promessa de sucesso, sua alquimia que pretende unir fé em Deus e amor às riquezas e a fé na ressurreição com a acomodação as esquemas deste mundo. Mas ele está mortalmente ferido e não tem vida longa em nós. “Vocês estão mortos e a vida de vocês está escondida em Cristo com Deus,” lembra-nos São Paulo.
“Quando ainda estava escuro, Maria Madalena foi ao túmulo..."
A ressurreição de Jesus não é algo que se impõe com força e evidência, não vem acompanhada de manifestações potentes. Madalena foi à sepultura mas não levou perfume. Teria acreditado que a morte triunfara definitivamente? Não conseguira ver mais que uma sepultura aberta? Por que interpretou a sepultura vazia como sinal de morte e não como sinal de vida? Madalena não estaria representando a comunidade que não consegue superar a experiência de Jesus morto? É significativo que texto do evangelho de hoje repete nove vezes a palavra ‘sepultura’...
Diante da sepultura aberta e vazia, Maria Madalena corre alarmada para avisar Pedro e João. Também eles correm e, chegando, entram na sepultura vazia e vêem os panos e o sudário cuidadosamente dobrados. Mais tarde, Madalena abrirá os olhos quando será chamada pelo nome. E os discípulos desanimados encontrarão Jesus com fisionomia de peregrino no caminho de Emaús. Os outros dez apóstolos o reconhecerão numa manhã cinzenta, depois de uma escura noite de pesca frustrada.
O dia já havia amanhecido, mas, na cabeça e no coração de Maria Madalena e dos apóstolos, a experiência do fracasso pairava como escuridão. Só muito lentamente eles foram percebendo que os lençóis estendidos não estavam lá para cobrir um morto mas para acolher as núpcias de uma nova aliança. O sudário sim, depois de cobrir a cabeça de Jesus, estava à parte e envolvia totalmente o templo, ‘o lugar’ onde a morte fora tramada e deliberada.
 “Entrou também, viu e acreditou...”
O discípulo amigo de Jesus, como Madalena e Pedro, havia visto apenas o túmulo vazio e os panos mortuários abandonados. Mas ele, precedido e encorajado por Maria Madalena, entrou na sepultura escura e fria, “viu e acreditou”. Ele compreendeu aquilo que Jesus havia dito e feito enquanto os ensinava:  que a semente que cai na terra não se perde, que a vida doada se faz aliança, que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.
A Páscoa de Jesus de Nazaré inaugura a nova criação. Não se trata de uma simples correção do passado, de perdão dos pecados, de vitória sobre a morte física e individual. Jesus de Nazaré, o ressucitado que traz no corpo as marcas dos pregos e da lança, que passou fazendo o bem, é o Homem Novo, o Irmão primogênito e solidário de todos os homens e mulheres. Os discípulos e discípulas se reúnem em torno de sua memória e organizam comunidades que continuam sua pró-existência e que não conhecem limites de sangue, de raça ou de qualquer outra ordem. Isso é dinamismo da ressurreição!
E todos os homens e mulheres acolhidos nestas comunidades estabelecem vínculos, tecem redes e firmam alianças que formam um novo Povo de Deus, a comunhão dos grupos e movimentos que lutam por vida abundante para todos. A própria matéria, fecundada pelo Espírito Santo, dilata seus átomos, células e tecidos numa infinita teia de relações e superações e se torna capaz de abrigar uma comunhão mais forte que a fragmentação, uma vida mais forte que a morte. Isso é dinamismo da ressurreição!
“Ela saiu correndo...”
Reunimo-nos para festejar no Senhor, para celebrar com pureza e verdade, com fé e simplicidade a festa dos pequenos: uma festa que não serve bens roubados aos fracos e não revela a indiferença de quem não quer saber se a luta continua. Celebramos nossa páscoa na páscoa de Jesus, e, como Madalena, deixamos a igreja apressadamente para testemunhar que a vida é mais forte que a morte e que o amor é imortal. Se Jesus passou na terra fazendo o bem, não podemos permanecer fechados, por medo ou conveniência, no interior da igreja.
Jesus de Nazaré, filho e amigo da humanidade e filho de Deus! Iluminados/as e fortalecidos/as pela tua ressurreição, convictos/as de que venceste a morte e agora és juiz dos vivos e dos mortos, dos que oprimem e dos que são oprimidos, dos que morrem e dos mandam matar, acolhemos a vocação e a missão de ser semente: “Eis-me aqui! Envia-me! Eis-me aqui! Lança-me em boa terra! Eu tenho fome de justiça e de amor; quero ajudar a construir um  mundo novo...” Caminhando cintigo e cantando com teus discípulos e discípulas, aprendemos e ensinamos uma nova lição: “Somos todos iguais, braços dados ou não! Quem sabe faz a hora, não espera acoontecer!” Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 28 de março de 2013

Vigilia Pascal


Não coloquemos na lista dos mortos Aquele que está vivo!
(Gn 1,1-2,2; Gn 22,1-18; Ex 14,15-15,1; Rm 6,3-11; Sl 117/118; Lc 24,1-12)
Como quando falece uma pessoa querida, hoje nos reunimos em vigília, marcados pela dor da perda, recapitulando a história da salvação, regando as frágeis sementes da esperança. Mas a vigília sempre tem o objetivo de assumir a herança humana e espiritual de quem partiu, levantar o olhar, contemplar o horizonte e encontrar forças para continuar a caminhada da vida. Reunimo-nos, como canta Elis Regina, acariciando o pequeno fio de esperança: “Eu sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente... A esperança dança na corda-bamba de sombrinha, e em cada passo dessa linha pode se machucar...” A escuta atenta e ritmada da Palavra que cria e sustenta a vida e a esperança pode nos ajudar neste tempo de espera vigilante. A falta de uma sepultura e de um corpo para ser chorado e cultuado acende em nossa alma uma sede insaciável de estradas e sendas inovadoras.
“A terra estava deserta e vazia.”
Não podemos fazer de conta que já sabemos claramente o que vai acontecer no final desta breve vigília. Quem pensa assim não suporta uma hora de escuta e meditação e quer logo chegar ao fim já conhecido. O objetivo desta vigília não é apenas recordar a ressurreição de Jesus de Nazaré, acontecida há quase dois mil anos. Reunimo-nos para lançar um olhar contemplativo sobre nossa história pessoal, comunitária e social e tentar perceber nela os sinais de ressurreição.
É uma ilusão inocente ou maldosa imaginar que tudo muda num golpe de mágica. A ação criadora de Deus mediante nossa própria ação é sempre lenta e avança numa luta sem tréguas contra o vazio, o caos e o absurdo. Como os hebreus fugindo do Egito, quem entra na luta se vê frequentemente encurralado, com o mar intransponível à frente e as tropas ameaçadoras atrás. Nossa experiência ainda hoje mostra que existem pessoas lutadoras e iniciativas promissoras, mas estão muito dispersas, como o povo de Israel esparramado na Babilônia. Quais são os sinais de páscoa nesta situação?
Os sinais estão nas mil formas que a criação encontra para mostrar sua beleza, harmonia e bondade. Estão também nos homens e mulheres que, vivendo a ternura e o cuidado, estampam nos seus corpos a imagem do criador; nos homens e mulheres que mudam o coração de pedra e lei em coração de carne e humanidade; nos passos inseguros e cambaleantes que muitos grupos ousam, entrando mar adentro; nos fragmentos que se associam e se unem para formar um povo com consciência da sua dignidade e da sua missão; nesta comunidade chamada Igreja que, apesar das fraquezas e traições dos seus membros, confessa seu pecado, levanta a cabeça, anuncia e denuncia.
“Não está aqui! Ressuscitou!”
Sendo recordação, a vigília é também saudade, espera e vazio. O vazio da libertação perdida, do desejo de plenitude, do futuro que é espera. A vigília é também um dolorido processo de despojamento dos nossos estreitos conceitos, ambíguas ambições e despóticos senhores a fim de purificar nosso olhar e sintonizar nosso ser com o mistério de Deus. Deus assume esse vazio e nele faz sua morada! No início de tudo, o Espírito pairava sobre a terra informe e vazia...
O vazio da sepultura não comprova a ressurreição mas convida a perceber que as marcas dos pregos no corpo torturado não são a última palavra de Deus sobre a hisória. Na sepultura vazia, homens vestidos de branco e mulheres caminheiras ensinam que o caos pode dar lugar a uma criação harmoniosa, que o mar ameaçador pode ser atravessado a pé enxuto, que os grupos dispersos podem ser reunidos, que os crucificados caminham à nossa frente rumo às fronteiras, onde a nova humanidade está em gestação.
É verdade que o Dia ainda não amanheceu e que a terra continua tremendo, mas os guardas do sistema também tremem diante do vulto de mulheres e de homens que corajosamente se aproximam. Precisamos nos abrir às novas possibilidades escondidas no segredo do átomo, no íntimo das pessoas e nos caminhos da história, vibrar de alegria e sair correndo para anunciar aos outros esta Boa Notícia.
Mas as mulheres nos ensinam que os sinais palpáveis da ressurreição só podem ser tocados na periferia – “ele vai para a Galiléia na frente de vocês. Lá vocês o verão” – e na missão – “agora vocês devem ir e dizer aos discípulos dele e a Pedro...” É neste caminho de êxodo missionário que as três mulheres reconhecem o Ressuscitado que vem ao encontro delas pedindo que se alegrem e não tenham medo. O lugar onde ele estava deixa de ser importante. Importa agora é ir para onde ele está, para a Galiléia daqueles/as que não contam.
“Sabemos que o homem velho foi crucificado com Cristo.”
Como cristãos, completamos em nossos corpos os sofrimentos de Jesus Cristo, prolongamos os sinais do esvaziamento por amor. E a ressurreição se multiplica como semente no testemunho e nas iniciativas de discípulos e discípulas, comunidades e Igrejas, grupos e movimentos de mudança. Como na ressurreição de Jesus de Nazaré, os sinais são pequenos, quase desprezíveis, mas igualmente reais e promissores. Como na parábola, a semente é pequena, mas tem um impressionante dinamismo de crescimento.
O batismo, recordado comunitariamente nesta vigília, expressa este dinamismo pascal na vida de cada um/a de nós e da comunidade eclesial. Com o batismo dizemos que por Cristo, com Cristo e em Cristo fomos mortos/as e sepultados/as para os esquemas e interesses do mundo e servimos a um só Senhor. Mortos/as para a lei de levar vantagem em tudo e livres para começar uma vida nova, no caminho aberto por Jesus Cristo. O Homem velho vai morrendo, e uma nova criatura vai nascendo.
Já vivemos e sofremos o bastante para sabermos que isso não tem nada de mágico ou automático. Trata-se de um projeto de vida que, para ser realizado, exige disciplina e empenho sem descanso. Porque não se trata apenas de lutar contra inimigos externos, mas de vigiar sobre nós mesmos/as e a sobre a permanente tentação de sermos os/as primeiros/as, os/as superiores/as, os/as mais dignos/as, os/as merecedores/as.
Mas esta não é uma luta inglória. Jesus de Nazaré, nosso irmão maior, já venceu a batalha, derramou sobre nós o seu Espírito e nos tornou capazes de vencer com ele. E temos também o testemunho e o apoio de nossa comunidade de fé e de uma nuvem de testemunhas que nos precedeu ou caminha conosco. Entre estas testemunhas está o pastor e teólogo luterano Dietrich Bonhoefer que, na véspera de sua execução pelos nazistas (1945), escrevia aos seus amigos: “Estou tranquilo. A vitória é certa!”
“A pedra rejeitada tornou-se pedra prinicpal.”
Os primeiros cristãos resgataram uma imagem muito sugestiva para falar da ressurreição de Jesus: Ele é como uma pedra que os construtores descartaram e descastaram, mas que Deus transformou em pedra de ângulo, pedra que sustenta todo o teto em forma de abóbada. Por isso, a páscoa pede que abramos os olhos e as portas às pessoas e grupos sociais que são descartados como desnecessários ou eliminados como incômodos. Se não os tivermos no coração das nossas preocupações e projetos eclesiais, nossa fé é casa construída sobre a areia e nosso amor pode se degenerar em patologia.
Mas o alegre anúncio da ressurreição de Jesus nos confronta de novo com uma questão absolutamente fundamental: quem é o Senhor que rege nossa vida? Jesus Cristo, ou o poder e a riqeuza? Em que é que depositamos nossa esperança e a que atribuímos nossa segurança? Jesus Cristo, despojando-se de tudo e renunciando a tudo para melhor amar e servir, potencializou de tal forma sua vida que a violência dos poderosos não conseguiu destruí-la. Sua vida é uma parábola viva que comprova seu ensino: “Quem perde sua vida por causa de mim e do Evangelho a conserva para sempre.”
“Viverei para anunciar as obras do Senhor!”
Jesus de Nazaré, jovem pregador perseguido e eliminado pela violência dos poderes, ressuscitado pelo Pai na fé dos discípulos e discípulas! Aproximamo-nos da tua mesa e apresentamos nossas mãos calejadas de tantas semeaduras e nossos corpos grávidos de louca esperança. Te apresentemos nossos passos no escuro, ainda envolvidos pelo medo de quem não sabe o que virá, mas já convictos/as de que algo de bom e transcendente está acontecendo. Como aquelas três mulheres, apresentamo-nos diante de ti, mesmo sem perfumes, apenas com a ansiedade de quem ama e com os pés livres para caminhar. O medo e o comodismo perderam seu terrível senhorio sobre nós. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

quarta-feira, 27 de março de 2013

Homenagem ao Pe. Comblin


Uma memória do Padre José Comblin

No último domingo de Ramos, 24 de março, celebramos os 33 anos do martírio de Monsenhor Romero. O quanto padre José Comblin reverenciava Romero a quem considerou um dos Santos Padres da América Latina! Dizia que “Oscar Romero nunca teria sido profeta se não tivesse sido arcebispo de San Salvador na época da ditadura militar no seu país.” e mais adiante conclui: “A missão profética começa quando se descobre a realidade da opressão e da violência, ou seja, a verdadeira condição dos pobres”.
Certamente se regozijam juntos lá no céu e acompanham a jornada terrestre da Igreja à qual buscaram dar a feição de Jesus: uma igreja presente, compassiva, humilde e humana, acolhedora dos pequenos, defensora dos pobres.
Dois anos se passaram desde a Páscoa de padre José Comblin. E como sentimos a sua falta... Sobretudo por ocasião da renúncia do Papa: quantos desejaram ouvir suas palavras, suas análises, sua opinião. E mais ainda com a eleição de Francisco. O que ele nos diria a partir do seu aguçado sentido da história? Ele sempre enxergava mais longe. Dizia que o que está em jogo é a necessidade de mudança no modo de exercício do ministério de Pedro.
Dizia seguidamente que a Igreja precisa mudar. Na sua visão, o caminho seria o retorno à simplicidade das origens, simplicidade de vida, de relações, no exercício do governoe da autoridade. Retomar a simplicidade nocontexto atual sempre mais complexo edesafiante, que exige criatividade para atualizar as respostas. Voltar ao essencial, priorizar as relações humanas, a acolhida, a compaixão, o serviço, a solidariedade. Voltar-se aos pobres que continuam sendo bilhões e são os prediletos do Pai, e sempre serão. E ter a coragem de demolir tudo o que esconde a face de Jesus e o Evangelho. Hoje cada vez mais são os gestos que falam, são as atitudes que autenticam qualquer palavra. A humanidade carece de gestos fortes, contundentes, que apontem outro rumo, o rumo da fraternidade, da irmandade, da prioridade da pessoa humana, da verdade e da justiça, do cuidado especialmente com os pobres e com a natureza, a mãe terra e água.
E ele sempre dizia que é o Espírito que conduz e mostra os caminhos da missão, que leva ao encontro dos pobres. É preciso deixar-se conduzirpelo Espírito e ter como critério a lei maior que é o Amor. Assim ele mesmo pautou a sua vida quando afirmava: “A Missão não se pode planejar: temos que deixar o Espírito Santo conduzir. Podemos, sim, decidir aonde iremos; mas ao chegar, se tivermos abertura e sensibilidade ao que encontrarmos, não mais podemos planejar: cada situação exige uma resposta, uma ação, uma continuação...  Será o Espírito que dirá o que fazer, como prosseguir!”
Foi assim que ele seguiu o seu sacerdócio, tornou-se missionário, veio para o Brasil e para a América Latina, percorreu esse continente buscando ser presença nas Igrejas particulares onde ele percebia abertura ao novo, ao sopro do Espírito. A liberdade cristã é deixar-se conduzir pelo Espírito, sem itinerários pré-definidos, mas atentos aos apelos da realidade, às condições de vida dos pobres, descobrindo como intervir sem perder a hora. Certamente muito podemos aprender seguindo os percursos de sua vida.
Sem dúvida ele viveu os tempos privilegiados do despertar da Igreja Latino Americana. Ele chegou pouco antes do Concílio Vaticano II. Acompanhou e contribuiu com as conferencias episcopais que, sobretudo em Medellín, buscaram aplicar à realidade do continente as intuições conciliares. Foi incansável nas articulações, nas assessorias, nas análises elucidativas da realidade, das necessidades, da condição de vida do povo latino-americano, das necessárias respostas eclesiais. Secundou o nascimento da Teologia da Libertação, compartilhou os impasses, as incompreensões, alimentou as elaborações teológicas com perspicácia ímpar. Sempre destacava algo novo, muitas vezes incomodo, nem sempre compreendido, sua percepção fina da realidade muitas vezes era considerada pessimismo. Mas nós somos testemunhas da sua Fé, da sua Esperança, do seu Amor à Igreja e aos Pobres. Por ele fomos provocados e estimulados ao seguimento de Jesus. Ele nos ajudou a encontrar o Jesus dos Evangelhos que atraiu e segue atraindo discípulos, dois mil anos depois.
Há poucos dias celebramos antecipadamente os noventa anos do seu nascimento, através de uma Romaria ao Santuário Padre Ibiapina, na Paraíba, onde ele se encontra sepultado. Cerca de 450 pessoas, amigos, discípulos, alunos e ex-alunos das Escolas e Centros de Formação Missionária vieram de todos os estados do Nordeste, também do Amazonas, Maranhão, Mato Grosso e até do Sudeste! Proclamamos através das Celebrações, vigílias, depoimentos, testemunhos e apresentações que a esperança dos Pobres vive e viverá! Foram momentos ricos de memória e ação de graças, bebendo na fonte destes grandes mestres da Fé, da Esperança e da Caridade, os padres Ibiapina e José Comblin. Foi a 1ª Romaria Missionária, que desejamos repetir a cada cinco anos, retomando a memória e renovando nossa Fé, porta de entrada para a Esperança, como ele mesmo nos ensinava.
A Esperança renasceu no coração de muitos que experimentaram nesse imenso encontro-reencontro de irmãos e irmãs, o quanto a Igreja Povo de Deus, a Igreja dos Pobres está viva, presente e atuante na marcha da Libertação. Humilde e pobre, presente e anônima nas galiléias de nosso Brasil, seguimos firmes de olhos fixos em Jesus, nossa meta e nossa Esperança. Mas precisamos conhecer sempre mais o Jesus que se revela nos Evangelhos. E contar com a força do Espírito para atualizar a presença de Jesus em nosso mundo, em nossa sociedade, no chão onde vivemos e atuamos!
Querido padre José Comblin, obrigada pelo seu testemunho e pelos seus ensinamentos que nos alimentarão para sempre! Interceda por nós para que sejamos fiéis e perseverantes, que escutemos o clamor dos pobres e não nos calemos!

Monica Maria Muggler
24 de março de 2013
Martírio de Mons. Oscar Romero!

terça-feira, 26 de março de 2013

A mensagem da Semana-Santa


Como todos sabemos, a liturgia da Semana-Santa é riquíssima e muito inspiradora. Estes dias valem por um retiro. A liturgia escancara diante dos nossos olhos até onde pode chegar o amor apaixonado e a incansável fidelidade de um Deus humanizado ao povo que ele ama, e, ao mesmo tempo, a força das resistências, incompreensões tramas, e traições que se insinuam em nossos belos projetos e generosas promessas e acampam em meio às tendas que a nossa fé vai erguendo.

O Salmo 65/64, lido em uma perspectiva cristã, nos convida a ver aquilo que Deus está fazendo no meio de nós: “As nossas culpas pesam sobre nós, mas tu as perdoas... Com o prodígio da tua justiça, tu nos respondes, o Deus, nossa salvação, esperança dos confins da terra e dos mares distantes... Os habitantes dos extremos confins tremem diante dos teus prodígios; fazes gritar de alegria as portas do oriente e do ocidente. Visitas a terra e a regas, enchendo-as com tuas riquezas... Coroas o ano com  teus benefícios, à tua passagem goteja a fartura. Gotejam os pastos do deserto e as colinas se cingem de júbilo. Os prados se cobrem de rebanhos, com o trigo se douram os vales, tudo canta e grita de alegria.”

Em Jesus Cristo brilha e vige o perdão incondicional de Deus, a esperança dá colorido até aos lugares mais recônditos e distantes. Nele, todos os povos, a começar dos mais pobres e humilhados, têm direito e motivo para gritar de alegria. No mistério do seu amor crucificado, todas as humanas terras, por mais ressequidas que estejam, são abundantemente regadas e mostram uma preciosidade impagável; os desertos viram pastagens e as colinas escarpadas irrompem em harmoniosa sinfonia.

Tudo, sem nenhuma exceção, canta e grita de alegria, porque nada mais terá força que nos possa separar do amor gracioso de Deus. Na mesa da ceia pascal, Deus se inclina e, ajoelhado diante das suas criaturas, lava-lhes os pés. Do alto da cruz, que é também a mais clara expressão da humilhação humana solidariamente compartilhada, Deus pronuncia seu ‘sim’ incondicional e definitivo à humanidade, recapitulando todos os seus anseios e clamores. No silêncio pungente da vigília que se prolonga na história, Deus suscita milhares de pequenos e grandes gestos de ousada ternura e, assim, ressuscita num mundo que, inesperadamente e inexplicavelmente, vai se fazendo novo. O que era visto como pobre, torna-se precioso, o que era feio faz-se gracioso, o que era tratado como último torna-se príncipe, a pedra descartada sustenta todo o edifício...

Então, amigos e amigas de perto e de longe, leittores e leitoras conhecidos/as ou anônimos, vivamos uma boa e santa semana! E uma feliz e promissora páscoa!

Itacir Brassiani msf

Sexta-feira Santa


Você também é discípulo/a deste homem?
(Is 52,13-53,12; Sl 30/31; Hb 4,14-15; 5,7-9; Jo 18,1-19,42)
O comércio não sabe o que fazer com esta sexta-feira, e um clima estranho envolve a todos/as. Até as pessoas mais indiferentes intuem que algo profundamente significativo aconteceu e acontece nesse dia. Tudo é diferente, inclusive a liturgia. Em nenhuma parte do mundo se celebra missa, e começamos o encontro ajoelhados ou prostrados, sem canto, sem sinal da cruz. Uma multidão, talvez maior do que na festa da páscoa, se reúne nos templos. Em geral, são pessoas experimentadas na dor. Todos intuem que nesta sexta-feira se revela o que há de mais profundo no ser humano e de mais belo no coração de Deus. O mistério do mal atinge sua força mais terrível. A humanização de Deus atinge seu ponto mais luminoso. A entrega do ser humano a Deus se expressa em seu grau máximo. O amor a Deus brilha na entrega despojada e solidária a serviço do ser humano despojado de poder e de honra.
“Vejam o meu servo!”
Na vida de Jesus de Nazaré, o Messias e Filho de Deus, se revela de forma pessoal uma experiência universal. Isaías expressou com uma profundidade inigualável a opção e o destino daqueles/as que mantém a fidelidade em situações de risco e de controvérsia; daqueles/as que procuram manter sua identidade de Servidores/as de Deus e de relativização, venha o que vier; daqueles/as que não aceitam acender uma vela a Deus e outra aos diabólicos interesses pessoais ou de grupo.
Assim como todos os Servos e apesar das pinturas e imagens que querem desmenti-lo, Jesus não tinha aparência e beleza que pudessem atrair os olhares. Era como uma raíz em terra seca, como um indivíduo do qual escondemos o rosto. “Não parecia gente, tinha perdido a aparência humana.” Como diz o salmista, provocava nojo aos vizinhos e terror aos amigos. Foi esquecido como um morto ou como um objeto perdido. Não parecia humano e muito menos divino. Fez orações e súplicas em alta voz e com lágrimas e foi cortado da terra dos vivos.
Mas sua vida se tornou semente. Nós é que estávamos enganados e perdidos. O Servo fiel não perde sua vida, pois a doa livremente, e por isso prolonga sua existência. Ele carrega nas costas os pecados e sofrimentos de muitos, e por isso a luz brilha em seu rosto. Ele confia seu destino nas mãos daquele que é o segredo da vida, e assim vive naqueles/as que servem. Eis o rosto de Deus: é um rosto de Servo. Eis o ser humano realizado em seu máximo grau: chegou à maturidade e à estatura de irmão e irmã. Eis o caminho para chegar a Deus e à humanização.
“Eles mesmos não entraram no palácio para não se contaminarem.”
Conhecemos as tramas, traições e intrigas que levaram à prisão, condenação, tortura e morte de Jesus. São opções e atitudes que revelam o mistério do mal e sua força nas pessoas e nas estruturas. Um mal nada abstrato, que se expressa nos costumes, nas leis, nos sistemas econômicos, nos medos, em todas as formas de ambição. Um mal que assume feições de cinismo, como quando as autoridades religiosas, tendo decidido matar Jesus, não entram no palácio do governador para não se tornrarem impuras. As ditaduras de todos os quadrantes criam leis iníquas que as justificam e purificam.
Aqueles/as que, consentindo ou não, fazem dos seus interesses e ambições um ídolo intocável, cedo ou tarde acabam identificando como diabólicos e ameaçadores todas as pessoas, grupos ou movimentos que pensam diferente e propõem uma ordem alternativa. E criam estratégias para eliminá-los sem sujar as mãos, dentro dos quadros da lei, sem se tornarem impuros. Quantas leis – escritas nos códigos ou na alma dos povos – não passam de artifícios para disfarçar o domínio e a violência dos mais fortes sobre os mais fracos, na tentativa de empedir que vivam plenamente?
É este mistério inexplicável da iniquidade que faz com que a noite venha às três horas da tarde. Uma iniquidade que começa não se sabe bem onde e se expressa na afirmação de si mesmo/a à custa dos outros, na busca sem fim de vantagens, no desprezo de quem é diferente, no fechamento a toda e qualquer mudança, no uso do poder cultural e religioso para abusar de menores, enfim: na defesa da ordem desordenada que protege os vencedores e poderosos. Descrevendo este dinamismo maldito nos fere, o salmista diz: “Eis que na culpa fui gerado, no pecado minha mãe me concebeu.”
 “Eis o homem!”
Diante das autoridades, Jesus não parece disposto a debater nem se defender. Ele tem cosciência de que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para tornar palpável e digno de crédito o amor fiel de Deus pelas pessoas negadas em sua dignidade. Pilatos manda torturá-lo, transforma-o numa paródia de líder e o apresenta ao povo: “Eis o homem!”
Esta é mais que a apresentação de um homem procurado pelas forças da ordem. Fixemos o olhar nesse personagem que realizou em grau pleno a vocação de todo ser humano. Não, o ser humano não é chamado apenas a sofrer e padecer, nem essencialmente a gozar e mandar. Em Jesus descobrimos que a pessoa humana atinge sua plenitude quando não recua no propósito de dar a vida, quando não abre mão da solidariedade com as pessoas negadas em sua verdade e em sua dignidade. “Eis o homem!”
O ser humano maduro não é o amigo de César, que age sem autonomia e sem autoridade e que ordena por medo, mas a pessoa que transcende os interesses individuais e institucionais e se abre ao horizonte da vontade de Deus e do seu reino. Por isso, do alto da cruz, Jesus diz que no seu corpo doado inteiramente a criação chega ao seu ápice: “Tudo está consumado.” Nele Deus chega ao máximo de si mesmo e se supera no esvaziamento. Nele o ser humano vence todos os limites e se faz dom e semente fecunda nas mãos de Deus e na terra dos Homens.
“A quem procurais?”
Esta pergunta dirigida por Jesus aos soldados que o procuravam retoma a pergunta feita aos primeiros discípulos: “O que é que vocês estão procurando?” (Jo 1,38). E aqui ela se dirige a todos/as nós, reunidos/as para celebrar a paixão de Jesus Cristo e acolher sua cruz. O que nós esperamos de Jesus e o que buscamos nesta celebração? Consolação nos sofrimentos inexplicáveis? Confirmação dos nossos interesses e projetos? Inteligência para conciliar a submissão à lógica do ‘cada um pra si’?
Numa igreja que nasce e se edifica sobre a fé em Jesus crucificado, só é licito buscar forças para caminhar na fé e perseverar no seguimento de Jesus, amigo e servidor da humanidade. Do alto da cruz ele se dirige a Maria e lhe confia João: “Mulher, eis aí teu filho!” E, dirigindo-se ao discípulo, diz: “Eis aí tua mãe!” Aos pés da cruz  nasce uma nova família, não mais presa aos laços de sangue ou de interesses mesquinhos, mas aberta e servidora de todos os humanos seres que querem viver e promover a vida.
É por isso que nesta sexta-feira santa nossa oração se abre numa universalidade que não deveria estar ausente de nenhuma celebração: rezamos pela Igreja, pelo papa e todos os ministros, mas também pela união das diferentes Igrejas cristãs, pelos judeus e pelos não cristãos, pelos que não acreditam em nada, pelas autoridades e pela humanidade sofredora. Diante do crucificado, filho da humanidade e filho de Deus, aprendemos que os muros e fronteiras religiosas, políticas, econômicas e culturais não fazem o menor sentido.
“Lá havia um jardim, no qual ele entrou com os seus discípulos.”
Num jardim Jesus foi preso e num jardim foi sepultado. Estes dois jardins nos levam a um outro, aquele do Édem. Esse Jesus que nos ama até o fim é o novo Adão, o ser humano que não caiu em tentação porque aceitou carregar o peso dos irmãos, servindo assim unicamente a Deus. A cruz, sendo expressão da fidelidade de Deus e da doação maior do ser humano, é a nova árvore da vida, alimento perene e incomparável do qual todos/as nos podemos servir abundantemente. Maria é a nova Eva, a mãe dos viventes e sobreviventes.
Na caminhada para o Calvário, Pedro havia sido interrogado por uma empregada do Sumo Sacerdote: “Não pertences tu também aos discípulos deste homem?” Sem disposição e coragem para assumir riscos, Pedro negou. Mas, aos pés da cruz, há uma pequena comunidade corajosa e perseverante. O discípulo amado nos representa na nova família que nasce do Espírito derramado, à qual foi entregue a missão de renovar a criação.  Diante da prova da proximidade e do amor de Deus, respondamos com palavras e com a vida: “Sim, eu sou discípulo/a deste homem!” E aproximemo-nos e adoremos este que nos ama sem medida com um beijo que não é de traição, mas de agradecido reconhecimento.
Pe. Itacir Brassiani msf