domingo, 30 de junho de 2013

Fatos & Personagens: Juana Manso

Nasceu uma incomodadora

Hoje foi batizada, em 1819, em Buenos Aires, Juana Manso. As águas sagradas a iniciaram no caminho da mansidão, mas Juana Manso nunca foi mansa.

Contra ventos e marés, ela fundou, na Argentina e no Uruguai, escolas laicas e mistas, onde se misturavam meninas e meninos, e o ensino da religião não era obrigatório, e o castigo físico era proibido.

Escreveu o primeiro texto escolar da história argentina e várias obras mais. Entre elas, um romance que batia duro na hipocrisia conjugal.

Fundou a primeira biblioteca popular do interior do país. E se divorciou quando o divórcio nem existia.

Os jornais de Buenos Aires se deleitavam insultando-a. Quando morreu, a Igreja negou-lhe sepultura.


(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 210)

sexta-feira, 28 de junho de 2013

13° Domingo do Tempo Comum

Fomos libertados para viver o Amor e a Justiça.
(1Rs 19,16.19-21; Sl 15/16; Gl 5,1.13-18; Lc 9,51-62)

Os jogadores de futebol, assim como todos os demais atletas que se preparam para uma Olímpiada ou Copa do Mundo, sabem muito bem o que isso custa: muitas semanas e meses de treinamento e de exercícios exigentes; disciplina física, sentimental e moral; distanciamento momentâneo da família; respeito e obediência ao treinador; enfrentamento leal com os adversários esportivos; empenho para dar o melhor e tudo de si por um êxito coletivo... De modo semelhante, o seguimento de Jesus Cristo supõe uma decisão firme, tomada no passado e mantida no presente, e a disposição para tomar distância de tudo aquilo que, mesmo sendo bom, possa comprometer a liberdade fundamental. As cenas narradas no livro dos Reis e no evangelho deste domingo, assim como a exortação de Paulo, querem nos orientar nesta disputa que dura uma vida e vale uma eternidade.
“Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém...”
Professar e viver a fé cristã hoje supõe uma decisão pessoal e refletida. Uma decisão que não tem como única referência os próprios desejos e sonhos, mas toma a sério uma meta: seguir e imitar Jesus na sua paixão pela humanidade, na sua solidariedade com os últimos, no seu enfrentamento com os poderes que se opõem ao projeto de um mundo onde todas as criaturas tenham seu lugar. Entre o amor a Deus e a ação para melhorar o mundo não se interpõe um ‘ou’ excludente mas um ‘e’ conjuntivo.
Ser discípulo/a de Jesus Cristo numa sociedade líquida, que rejeita referências sólidas e duradouras, enrijece a lógica que tudo transforma em mercadoria, assimila a exclusão como destino inexorável e estabelece a indiferença como sinônimo de liberdade, é uma atitude que pede uma decisão firme. É paradimático que, frente à tentação do integralismo e à discussão sobre quem dos discípulos era o maior e (cf. Lc 9,46-50), “Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém”.
Esta decisão de Jesus é uma referência indireta à palavra escutada outrora pelo profeta Ezequiel: “Filho do homem, volta o teu rosto para Jerusalém e vaticina contra o santuário deles, profetiza contra a terra do Israel” (Ez 21,7). Como Jesus, a decisão que se pede aos cristãos de hoje não é de voltar os olhos ao céu ou contemplar extasiados o explendor dos impérios, mas perceber e denunciar com sabedoria e ousadia suas contradições e suas injustiças. Fomos libertados para a prática do amor e da justiça.
“Mas os samaritanos não o queriam receber...”
Perseverar com coerência e criatividade no caminho de Jesus Cristo exige renovada coerência com o Evangelho, imbatível firmeza diante das resistências e ânimo indestrutível frente às possíveis decepções. Como os discípulos daquele tempo, somos enviados à frente de Jesus como mensageiros/as que também se ocupam de preparar-lhe um lugar, cientes das possíveis resistências “Mas os samaritanos não o queriam receber, porque mostrava estar indo para Jerusalém.”
Esta reação dos samaritanos - um grupo social que recebe uma atenção privilegiada de Jesus – é  compreensível diante de um anúncio possivelmente insuficiente por parte dos discípulos. Assim como os discípulos haviam proibido o trabalho daqueles que faziam o bem mas não estavam com eles, é possível que tenham anunciado aos samaritanos um Jesus nacionalista, identificado com os poderes e doutrinas que diminuíam e excluíam os samaritanos, omitindo que Jesus estava subindo a Jerusalém para enfrentar a rejeição e o martírio.
Não seria exatamente esta a principal causa da resistência que o mundo ocidental e moderno opõe ao cristianismo? Será que não temos identificado demasiadamente Evangelho e poder? Será que não temos renegado culpavelmente a defesa humilde e decidida dos direitos de todos os humanos? Será que não temos esquecido perigosamente a profecia e o martírio? Pouco adianta ameaçar os ateus e as (indevidamente chamadas) seitas com o fogo que desce do céu ou sobe do inferno. O que precisamos mesmo é de conversão ao Evangelho de Cristo, abandonando a pretensão do monopólio da verdade.
 “Eu te seguirei aonde quer que vás...”
Aceitemos a advertência de Jesus e partamos para outros povoados e periferias, cientes de que seguir Jesus Cristo nos caminhos da história de hoje é a vocação de todos os homens e mulheres que aderem ao cristianismo. Se nosso caminho tiver uma direção clara e permanece fiel à prática de Jesus, é possível que muitas pessoas, pertencentes tanto dos setores sociais mais abastados como aos grupos populares,  se sintam fortemente interpaladas ao discipulado também hoje.
É verdade que aqueles que procuram nossas comunidades cristãs trazem as contradições e ambivalências das quais nem a Igreja e seus prelados conseguem se livrar. O Evangelho de hoje apresenta três casos paradigmáticos de discipulado (dois se aproximam espontaneamente e um é chamado por Jesus). E isso nos lembra que Jesus atrai discípulos, inclusive num ambiente desprezado e suspeito de heresias como a Samaria. Essa gente não é menos perfeita que os demais discípulos...
Mas estes três casos são simbólicos e oferecem a oportunidade para uma reflexão séria a todos aqueles/as  que se colocam no caminho com Jesus Cristo. Firme na decisão de subir para Jerusalém e mostrar um Messias humano e servo, Jesus apresenta claramente as consequências da opção de estar com ele. À exortação a não ter medo e à promessa de fazer do discípulo um pescador de gente (cf. Lc 5,10), Jesus já acrescentara prudentemente a bem-aventurança da perseguição (cf. Lc 6,22) e a prevenção contra o aparente sucesso (cf. Lc 6,26). Agora avança na exposição da ética do seguimento.
“É para a liberdade que Cristo nos libertou!”
As rupturas e renúncias que Jesus propõe a quem o segue são uma pedagogia da liberdade. Assim como exigira um distanciamento consciente e decidido do fanatismo – pois o fanatismo é sempre um fechamento que filtra perigosamente a Palavra de Deus e distorce a imagem do outro – agora Jesus pede uma ruptura com alguns costumes que, mesmo conservando um certo valor, podem limitar a liberdade, e enfatiza a prioridade absoluta e a urgência de engajar-se no advento do Reino de Deus.
Pedir e celebrar o batismo expressa a decisão de seguir Jesus Cristo, ou seja: compartilhar sua utopia, reinventar sua prática, imitar sua forma de vida e compartilhar seu destino. E aqui devemos evitar o erro de imaginar um Jesus vitorioso, elevado aos céus, indiferente e distante em relação às lutas e dilemas humanos. A história de Jesus é essencial para o/a discípulo/a,e  ela nos mostra que Jesus vive sem estabilidade alguma, na incerteza e na precariedade, sujeito ao desprezo, à perseguição e à morte.
O que Jesus enfatiza no Evangelho de hoje é que o seguimento dos seus passos e o compromisso com o Reino de Deus deve estar acima de todos os demais deveres, lealdades e atividades. Ele pede que ponderemos bem as consequências, pois não promete sucesso, mas confronto. Até mesmo as lealdades próprias do âmbito familiar e os deveres religiosos tradicionais estão subordinados à urgência das ações que constroem um mundo mais humano e inclusivo. Trata-se daquela liberdade vivida e anunciada por Paulo: somos vocacionados à liberdade para livremente colocarmo-nos a serviço dos irmãos e irmãs.
 “O Senhor é minha parte na herança e meu cálice.”
Aqui também o que está em jogo é o verdadeiro tesouro, o único que os ladroões não podem roubar e a ferrugem não pode arruinar: o Reino de Deus (cf. Lc 12,33). Este foi o sonho que deu sentido e razão à vida de Jesus e que deve ser o único absoluto na vida dos seus discípulos e discípulas. Se é um tesouro precioso, os esforços para conquistá-lo devem provocar mais alegria que tristeza. Como diz o salmo, esta é a mais bela herança que podemos desejar e administrar responsavelmente.
Com palavras diferentes, Paulo repete este ensinamento de Jesus: “Toda a lei se resume neste único mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Eis a liberdade bela e preciosa à qual somos chamados e à qual não podemos renunciar sem descer ao nível dos mortos: não a autonomia, a indiferença e a superioridade mas o respeitoso reconhecimento da dignidade do próximo e o livre serviço às suas necessidades. Nisso consiste a razoável obediência devida a Deus e o amor maduro que de nós ele tem direito a esperar. Fomos libertados para a prática do amor e da justiça.
Jesus de Nazaré, peregrino que caminha decidido a enfrentar o poder, mestre de exigentes lições: queremos caminhar contigo, aprender aquilo que realmente conta e alcançar a liberdade profunda e radical. Queremos aprender de ti e dos profetas que te precederam e seguiram a profecia e o ardor pelos direitos de Deus. Dá-nos a coragem e a disciplina para romper com todos os compromissos que reduzem ou adiam nossa autêntica liberdade.  E que nada nos impeça de caminhar contigo. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Festa de S. Pedro e S. Paulo

Eles permaneceram firmes como se vissem o invisível
(At 12,1-11; Sl 33/34; 2Tm 4,6-8.17-18; Mt 16,13-19)

Para coroar este mês recheado de memórias de santos populares, temos a festa de São Pedro e São Paulo. Como sempre, é preciso escutar o testemunho das Escrituras e chegar à vida real, com suas possibilidades e desafios. Se é verdade que Pedro é o primeiro líder dos cristãos e Paulo é o apóstolo dos povos, não podemos esquecer que ambos, cada um a seu modo, foram discípulos de Jesus e passaram por sucessivas crises e dificuldades, provaram a prisão e foram martirizados. Eles fazem parte daquela ‘nuvem de testemunhas’ da qual fala a Carta aos Hebreus (12,1). Eles viveram e morreram firmes na fé, como se vissem o invisível (cf. Hb 11,13.27). Acolhamos com reverência o testemunho destas colunas que sustentam e vidas que interpelam as comunidades cristãs de hoje.
 “Enquanto Pedro era mantido na prisão...”
O primeiro Papa foi presidiário! Esqueçamos por um instante a cena contada por Mateus e centremos nossa atenção no acontecido narrado nos Antos dos Apóstolos. Herodes maltratava os cristãos e mandara matar à espada Tiago. Percebendo que isso agradava aos judeus, aproveitou para aumentar sua baixa popularidade e mandou prender Pedro, providenciou uma guarda competente e de confiança e permitiu-se festejar tranquila e cinicamente a páscoa judaica.
Para que serviam as chaves prometidas por Jesus Cristo se não ajudavam a soltar as algemas que o prendiam ou abrir a porta da prisão, mantida sob rigorosa vigilância? Pedro estava imerso na penumbra destas e outras perguntas quando uma luz iluminou a cela, uma mão tocou seu ombro e uma voz ordenou que se levantasse depressa. As algemas que o prendiam caíram no chão, os guardas que vigiavam não viram nada e as portas que separavam a cela da cidade se abriram sozinhas...
Em vez de centrar nossa atenção nos aspectos miraculosos, fixemo-nos na condição de vida de Pedro e dos demais irmãos na fé. Acusados publicamente, apedrejados nas praças, trancafiados nas prisões, degolados a fio de espada... Mas nada disso tinha o poder de calar a voz ou deter a ação. Que diferença de uma Igreja que faz o sucessor de Pedro desfilar no papa-móvel sob aclamações como ‘Cristo venceu, Cristo reina, Cristo impera’ e procura protegê-lo hermeticamente das críticas da imprensa... Às vezes penso que o sucessor de Pedro é prisioneiro da própria Cúria e suas tradições...
“Chegou o tempo da minha partida...”
Paulo, por sua vez, foi denunciado, perseguido, encarcerado e finalmente executado. Depois de ter sido um fariseu zeloso e violento e de ter acumulado muitos méritos e honras por causa disso, ele fez a experiência de ser conquistado por Jesus Cristo e, diante do bem supremo desta acolhida gratuita e imerecida, considerou tudo como lixo e déficit na contabilidade da vida (cf. Fil 3,1-14) e se lançou incansavelmente no anúncio desta boa notícia, especialmente às pessoas de origem pagã.
O zelo e o ardor que Paulo demonstrara pelo judaísmo se transformou em zelo pela fé em Jesus Cristo. Mas isso provocou desconfiança por parte dos próprios cristãos e ódio por parte dos seus irmãos judeus. Para resumir esta história que conhecemos bem, depois de sucessivos enfrentamentos e perseguições, Paulo também acabou na prisão. Sendo cidadão romano, exigiu o direito de ser julgado decentemente em Roma, e para lá foi conduzido.
Mas ninguém conseguiu colocar sob algemas aquilo que o fazia livre: a Boa Notícia de Jesus Cristo. “Por ele, eu tenho sofrido até ser acorrentado como um malfeitor. Mas a Palavra de Deus não está acorrentada” (2Tm 2,9). Paulo sabia muito bem em quem colocara sua confiança, não se envergonhava de compartilhar a sorte dos encarcerados e pedia que ninguém se envergonhasse dele e de testemunhar a favor de Jesus Cristo, que também foi preso e condenado (cf. 2Tm 1,8).
“A Igreja orava continuamente a Deus por ele.”
Pedro e Paulo são filhos, irmãos e pais da fé numa Igreja que confirmou com a vida aquilo que anunciou com as palavras. De um lado, Pedro, Paulo e os demais cristãos detidos mantinham contato com as suas comunidades de base, inclusive através de cartas às suas principais lideranças; de outro, as comunidades não ficavam indiferentes, apesar da crise de fé provocada por uma perseguição feita em nome de Deus e da religião e dos riscos políticos e sociais que que estas relações implicavam.
O vínculo entre a comunidade dos discípulos e discípulas e seus líderes presos se mostra de um modo singelo e comovente no relato dos Atos dos Apóstolos. “Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja orava continuamente por ele.” Um pouco antes, quando Pedro e João haviam sido liberados da prisão, a comunidade pedia em oração: “Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem, e concede que teus servos anunciem corajosamente a tua Palavra” (At 4,29). Pedia coragem, e não tranquilidade.
Pedro faz a profunda experiência da presença fiel de Deus na prisão. Saindo do cárcere, vai à casa da mãe de João Marcos, onde a comunidade estava reunida em oração. Quando Rosa, a mãe de Marcos, abriu a porta e viu que era Pedro, foi tomada de tamanha alegria que o deixou plantado do lado de fora e foi anunciar à comunidade reunida, a qual pensou que Rosa estava doida. Aberta a porta, Pedro entrou e contou entusiasmado o que havia acontecido, e depois recolheu-se num lugar escondido.
“Tu és o Messias, o Cristo, o Filho do Deus vivo!”
O que sustenta as Igrejas e comunidades cristãs é o encontro com Deus em Jesus Cristo. O que o evangelho de hoje nos propõe é substancialmente isso. Num lugar marcado pela influência e pelo domínio estrangeiro (a cidade se chamava Cesaréia e depois Neronias), Jesus faz uma pergunta que é central no terceiro bloco narrativo de Mateus (11,2-16,20). E esta é a primeira vez que um discípulo o reconhece e proclama Messias, embora um pouco antes, depois da tempestade acalmada, todos os discípulos haviam proclamado, de joelhos: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus” (Mt 14,33).
Não esqueçamos que, mesmo sem rejeitar a confissão de Pedro e dos demais discípulos, Jesus chama a si mesmo Filho do Homem, e não  Filho de Deus (cf. Mt 11,19; 12,8; 12,32), acentuando assim seus vínculos com a humanidade. Só quem está aberto e sintonizado com a lógica de Deus pode reconhecer a presença de Deus nas ações e palavras deste filho da humanidade e irmão de todos os seres humanos, e esta é a base sólida sobre a qual Jesus Cristo constrói a comunidade cristã, literalmente, a assembléia dos chamados. “Não foi um ser humano que te revelou isso...”
Da experiência de fé e de adesão a Jesus Cristo brota a missão. As lideranças e comunidades que conseguem dar este passo recebem as chaves do Reino de Deus, ou seja: a missão de continuar a tarefa libertadora de Jesus. A imagem das chaves e a metáfora ligar-desligar estão relacionadas a esta missão de construir o Reino de Deus na perspectiva das Escrituras e do caminho trilhado e proposto por Jesus Cristo, enfrentando conflitos mas jamais sucumbindo. Quem recebe as chaves da porta do Reino de Deus não teme as portas do inferno. Até a prisão se torna uma oportunidade de evangelização.
“O Senhor veio em meu auxílio e me deu forças.”
Crer, confiar, partilhar e anunciar: estes são os verbos essenciais da gramática dos cristãos. Só chega à meta estabelecida quem conjuga estes verbos em todos os tempos e pessoas e percorre estas etapas. Escrevendo a Timóteo desde a cela da prisão, Paulo faz um balanço da sua vida, e suas palavras são eloquentes e comoventes: “Chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.” Um pouco antes ele havia escrito: “Estou suportando também os sofrimentos presentes, mas não me envergonho. Sei em quem acreditei” (2Tm 1,12).
Os santos e santas são filhos da Igreja, os mais belos entre seus muitos frutos: profetas, mártires, confessores/as, construtores/as de uma terra renovada na qual a Justiça faz morada (cf. 2Pd 3,13). Mas são também pais e mães da Igreja, gente que aceita gerar no sofrimento e na alegria uma assembléia de irmãos e irmãs, de homens e mulheres convocados/as e convocadores/as, amigos/as entre si e solidários/as com todas as vítimas e sofredores, em permanente ritmo de missão.
A glória dos santos e santas não vem das honras e aplausos encomendados, mas do Deus vivo, e por isso os humildes que os vêm podem se alegrar. Quem reconhece o Filho de Deus encarnado na humanidade não está livre das dificuldades, mas sabe que “o anjo de Deus acampa em volta dos que o temem”, como diz o Salmo. Por isso, feliz quem nele crê e espera: viverá firme e forte, como quem vê o invisível.

Pe. Itacir Brassiani msf

terça-feira, 25 de junho de 2013

Fatos & Personagens: Li Po

A lua

O poeta chinês Li Po morreu no ano de 762, na noite do dia 25 de junho. Morreu afogado. Caiu da barca quando resolveu abraçar a Lua, refletida nas águas do rio Yangtzé.Li Po já tinha procurado a Lua em outras noites.

“Bebo sozinho. / Nenhum amigo está por perto. / Alço minha taça, / convido a Lua / e a minha sombra. / Agora somos três. / Mas a Lua não sabe beber / e a minha sombra só sabe me imitar.”


(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 205)

domingo, 23 de junho de 2013

Festa do Nascimento de São João Batista

João: o profeta que veio preparar a estrada
(Is 49,1-6; Sl 138/139; At 13,22-26; Lc 1,57-66.80)

A festa de São João está profundamente arraigada na cultura do povo brasileiro. Em algumas regiões tornou-se até atração turística, e é explorada como ocasião para ganhar dinheiro ou consolidar votos. Mas esta é uma festa que só aparentemente se distanciou do seu nascedouro bíblico e profético, pois a alegria simples e inocente que a caracteriza brota da certeza de que Deus não esquece a aliança que fez conosco, visita e liberta seu povo, e envia profetas e profetizas que preparam caminhos novos. Por isso, celebremos este dia com trajes e comidas que nos aproximam do povo simples, mas também com a alegria que brota da liberdade que virá, e com a coragem profética que João nos deixa como herança.
“E alegraram-se com ela...”
A festa de hoje não exige uma mega-produção. Bastam uma pequena fogueira e fogos de artifício, algumas roupas simples e baratas, uma banda improvisada e capaz de tocar a alma popular, alimentos que custam pouco e tém sabor de intimidade, bandeirinhas coloridas nos varais e balões levados ao sabor do vento, gente boa e amável que se despe dos trajes que demarcam fronteiras, consolidam hierarquias e impõem honrarias.
Os degraus do poder são substituídos pela roda que a todos iguala nas mãos dadas. A seriedade sisuda dos comandantes e a resignação calada de quem deve obedecer o ritmo de produção ditado pela sede de lucro dá lugar a uma alegria que não há como esconder, uma alegria que lança raízes no passado bíblico que nos pertence e se embebeda das luzes de um mundo novo que está por vir. De repente, os operários viram artistas, os camponeses se revelam bailarinos, os coadjuvantes são protagonistas.
“Os vizinhos e parentes ouviram quanta misericórdia o Senhor lhe tinha demonstrado.”
A alegria, assim como a irreverência, têm força revolucionária e raízes bíblicas. Não se trata da alegria forçada pelas drogas lícitas ou ilícitas, nem da felicidade histérica daqueles que se deleitam com os bens subtraídos aos homens e mulheres que os produzem, da alegria produzida artificialmente por líderes religiosos sequiosos de domínio e de riqueza, ou estrelas políticas e midiáticas que seduzem incautos mas duram pouco mais que uma noite.
Trata-se da alegria que brota da descoberta de que Deus olha para as mãos calejadas, para os rostos sofridos, para os corpos vergados e os corações partidos e os vê e proclama cheios de graça, plenos de charme. “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo! Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,28.42). A notícia de que Deus nos ama desde sempre e para sempre faz pular de alegria até os bebês que ainda estão nos úteros. “Feliz aquela que acreditou!” (Lc 1,45).
Como Maria na casa de Isabel, alegramo-nos em Deus porque ele olhou para a humilhação dos seus filhos e filhas; porque sua misericórdia se estende de geração em geração; porque ele mostra a força do seu braço derrubando os poderosos dos tronos e elevando os humildes; porque enche a mesa dos pobres e despede os ricos de mãos vazias; porque acolhe o seu povo e não esquece o compromisso jurado aos nossos antepassados.
“Que vai ser este menino?”
Assim, a alegria inocente e despojada das festas juninas têm raízes na história da salvação, que atravessa e supera a história da opressão que está ainda hoje em curso. Antes de mais nada, o nascimento de João representa a delicadeza de um Deus que levanta o manto da vergonha e da dor que, numa sociedade machista, pesa sobre uma mulher idosa e sem filhos (cf. Lc 1,25). E quando o menino nasce, a vizinhança toda se alegra com esta demonstração da misericordia de Deus. É essa alegria atravessou a história e chegou até os mais recônditos rincões do Brasil.
E a razão dessa alegria vem sacramentado no próprio nome dado àquele prodígio nascente: João significa literalmente ‘Deus age com misericórdia’. Ao dar este nome ao filho, Zacarias e Isabel rompem com a tradição e renunciam a fazer do filho um espelho dos desejos do pai, um sacerdote como ele. João não será sacerdote mas profeta. Nas palavras que voltam aos lábios de Zacarias em forma de canção, ele será ‘profeta do Altissimo’, porque irá à frente do Senhor, ‘preparando os seus caminhos, dando a comhecer ao seu povo a salvação, com o perdão dos pecados, graças ao coração misericordioso do nosso Deus’ (cf. Lc 1,76-78).
Segundo os evangelhos, João despertará a ira de Herodes ao denunciar seu casamento com a cunhada (cf. Mc 6,17-18). Mas este homem frágil e intrépido é muito mais que um pregador preocupado com a moralidade das relações e vínculos matrimoniais. João é um autêntico profeta, na linha dos grandes profetas de Israel, que exige mudanças radicais tanto o âmbito pessoal como na esfera social. Eias sua voz: “Preparai os caminhos do Senhor; endireitai as veredas para ele. Produzi frutos que mostrem vossa conversão. Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo...”
 “Desde o seio materno, o Senhor me chamou...”
A liturgia de hoje nos convida a refletir sobre a fonte da profecia, assim como foi experimentada e descrita por Isaías. A profecia nasce da descoberta de ser chamado pelo nome desde um tempo imemorial, desde o seio materno. Não é o indivíduo que decide ser profeta. É Deus que o elege. “Tu és meu servo, é em ti que vou brilhar.” E isso leva leva a duras batalhas, a confiar somente no Deus que chama e que vai à frente, a descobrir-se mais servo que senhor, mais aprendiz que professor.
É importante ter presente que Zacarias parece inicialmente não entender ou não aceitar a vocação profética do filho. Seu ouvido se fecha e sua boca se cala. Sua língua se solta e seus ouvidos se abrem somente quando ele se liberta das malhas da tradição sacerdotal e reconhece que a vocação de João é mostrar a misericórdia de Deus em favor do povo e defendê-los dos inimigos. Oxalá todos os pais e mães possam dar o melhor de si para que seus filhos e filhas descubram e realizem sua vocação na Igreja e no mundo de hoje, antecipando isso no próprio nome que escolhem para eles!
“Quero fazer de ti uma luz para as nações...”
O perdão gratuito dos pecados que João pregará será uma senha que abrirá as portas da vida a todos os excluídos, tanto judeus como pagãos. À luz de Isaías, podemos dizer que a profecia autêntica não se deixa limitar pelas paixões nacionalistas. “É muito pouco seres o meu servo só para resutaurar as tribos de Jacó, só para trazer de volta os israelitas que escaparam. Quero fazer de ti uma luz para as nações, para que minha salvação chegue até os confins do mundo.”
As comunidades cristãs reúnem homens e mulheres que descobriram sua vocação de derrubar muros, de ultrapassar fronteiras – geográficas, sociais, políticas e culturais – para abrir estradas e edificar pontes capazes de unir diferentes grupos humanos. Sem esquecer que nossa vocação também é superar as estreitas fronteiras eclesiais e doutrinais, procurando levar a semente perigosa e promissora do Evangelho aos âmbitos econômico, político e cultural. A boa profecia não se detém na proposta de uma reforma dos costumes.
“A mão do Senhor estava com ele...”
No clima alegre e singelo das festas juninas não posso deixar de mencionar o testemunho profético de um jovem que nos deixou tragicamente há poucos anos. Ele se chamava Pedro Fukuyei Yamaguchi Ferreira, tinha 27 anos e era advogado, filho de Paulo Teixeira Ferreira (deputado federal pelo PT-SP) e da advogada Alice Yamaguchi Ferreira. Pedro renunciou a uma promissora carreira advocatícia em São Paulo foi a São Gabriel da Cachoeira (AM) como missionário leigo e advogado popular a serviço dos indígenas. Morreu afogado no rio Negro alguns meses depois.
O Bispo de São Gabriel da Cachoeira, testemunha a seu respeito: “Como os índios das vinte e três etnias do Rio Negro se consideram parentes, Pedro já tinha sido adotado como parentes deles. Era alegre, comunicativo, bem humorado, apaixonado por samba e futebol...” Recentemente Pedro escrevera aos amigos: “Tenho trabalhado bastante. As pessoas têm me procurado bastante, e ficam aliviadas quando sabem que eu não cobro pelo trabalho... Eu quero trabalhar para mostrar que cadeia não funciona e que temos de achar outras soluções, sobretudo com os Povos Indígenas, que têm peculiaridades culturais próprias.” Vivam sempre a alegria, a coragem e a liberdade proféticas!

Pe. Itacir Brassiani msf

Fatos & Personagens: Fogueira de São João?

Fogos juninos

À meia-noite de hoje, ardem os fogos. A multidão se reúne ao redor das altas fogueiras.

Nesta noite, limpam-se as casas e as almas. São jogados no fogo os trastes e os velhos desejos, coisas e sentires gastos pelo tempo, para que o novo nasça e encontre lugar.

Do norte do mundo, esse costume se difundiu por todo lado. Sempre foi uma festa pagã. Sempre, até que a Igreja católica decidiu que essa seria a noite de São João...


(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 203)

sábado, 22 de junho de 2013

Os movimentos que agitam o Brasil

Carta aberta à presidenta Dilma Rousseff
São Paulo, 19 de junho de 2013

Cara Presidenta, 

O Brasil presenciou nesta semana mobilizações que ocorreram em 15 capitais e centenas cidades. Concordamos com suas declarações que afirmam a importância para a democracia brasileira dessas mobilizações, cientes que as mudanças necessárias ao país passarão pela mobilização popular.

Mais que um fenômeno conjuntural as recentes mobilizações demonstram a gradativa retomada da capacidade de luta popular. É essa resistência popular que possibilitou os resultados eleitorais de 2002, 2006 e 2010. Nosso povo insatisfeito com as medidas neoliberais votou a favor de um outro projeto. Para sua implementação esse outro projeto enfrentou grande resistência principalmente do capital rentista e setores neoliberais que seguem com muita força na sociedade.

Mas enfrentou também os limites impostos pelos aliados de última hora, uma burguesia interna que na disputa das políticas de governo impede a realização das reformas estruturais como é o caso da reforma urbana e do transporte público.

A crise internacional tem bloqueado o crescimento e com ele a continuidade do projeto que permitiu essa grande frente que até o momento sustentou o governo.

As recentes mobilizações são protagonizadas por um amplo leque da juventude que participa pela primeira vez de mobilizações. Esse processo educa aos participantes permitindo-lhes perceber a necessidade de enfrentar aos que impedem que o Brasil avance no processo de democratização da riqueza, do acesso a saúde, a educação, a terra, a cultura, a participação política, aos meios de comunicação.

Setores conservadores da sociedade buscam disputar o sentido dessas manifestações. Os meios de comunicação buscam caracterizar o movimento como anti Dilma, contra a corrupção dos políticos, contra a gastança pública e outras pautas que imponham o retorno do neoliberalismo. Acreditamos que as pautas são muitas, como também são as opiniões e visões de mundo presentes na sociedade. Trata-se de um grito de indignação de um povo historicamente excluído da vida política nacional e acostumado a enxergar a política como algo danoso à sociedade.

Diante do exposto nos dirigimos a V. Ex.a para manifestar nosso pleito em defesa de políticas que garantam a redução das passagens do transporte público com redução dos lucros das grandes empresas. Somos contra a política de desoneração de impostos dessas empresas.

O momento é propício para que o governo faça avançar as pautas democráticas e populares, e estimule a participação e a politização da sociedade. Nos comprometemos em promover todo tipo de debates em torno desses temas e nos colocamos à disposição para debater também com o poder público.

Propomos a realização com urgência de uma reunião nacional, que envolva os governos estaduais, os prefeitos das principais capitais, e os representantes de todos os movimentos sociais. De nossa parte estamos abertos ao diálogo, e achamos que essa reunião é a única forma de encontrar saídas para enfrentar a grave crise urbana que atinge nossas grandes cidades.

O momento é favorável. São as maiores manifestações que a atual geração vivenciou e outras maiores virão. Esperamos que o atual governo escolha governar com o povo e não contra ele.


Assinam: ADERE-MG, AP, Barão de Itararé, CIMI, CMP-MMC/SP, CMS, Coletivo Intervozes, CONEN, Consulta Popular, CTB, CUT, Fetraf, FNDC, FUP, Juventude Koinonia, Levante Popular da Juventude, MAB, MAM, MCP, MMM, Movimentos da Via Campesina, MPA, MST, SENGE/PR, Sindipetro – SP, SINPAF, UBES, UBM, UJS, UNE, UNEGRO.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

12° Domingo do Tempo Comum

O caminho de Jesus Cristo não é garantia de sucesso fácil
(Zc 12,10-11; 13,1;  Sl 62/63; Gl 3,26-29; Lc 9,18-24)

Em 2010, no encerramento do Ano Sacerdotal, os 15.000 padres vindos de todo o mundo e reunidos em Roma, na praça São Pedro, foram interpelados a cantar: “Cristo vence! Cristo reina! Cristo impera!” Em seguida,Bento XVI adentrou na praça lotada, circulou triunfalmente pelos estreitos caminhos a bordo do tradicional papamóvel e sentou-se no trono para ele preparado, entre vivas e salves. Constrangido por tais manifestações de poder intrinsecamente heterodoxas – e evangelicamente heréticas! – eu me perguntava o que isso tinha a ver com o Filho do Homem, o Verbo de Deus que se fez carne em Belém e morreu martirizado na cruz. Nada a ver com um Cristo rei, imperador e vencedor! Todos – padres, bispos, papa e leigos/as – precisamos levar a sério a pergunta “e vós, quem dizeis que eu sou?”, assim como as sérias advertências de Jesus que se seguem às nossas respostas aprendidas de memória.
“Jesus estava orando a sós, e os discípulos estavam com ele.”
O retiro e a oração de Jesus neste momento denotam a encruzilhada ou momento forte no qual ele e seus discípulos se encontram. O que está em jogo é a missão e a identidade de Jesus e dos seus discípulos. A pergunta estava no ar e na cabeça de todos. Jesus havia saciado a fome das multidões, curara doentes, e havia enviado os discípulos para alargar sua ação. Mas estes se perguntavam: “Quem é este que dá ordem aos ventos e à água, e lhe obedecem?” (Lc 8,25). E até Herodes, desejoso de conhecer Jesus, se interrogava: “Quem será este homem, sobre quem ouço falar estas coisas?” (Lc 9,9)
Ao que parece, o conteúdo da pregação de Jesus e o testemunho forte das suas ações eram suficiented para que os discípulos intuíssem claramente sua identidade e sua missão. Mais: a tendência geral era entendê-lo dentro do horizonte da ideologia nacionalista, que vivia a ardente expectativa da vinda de um messias identificado com a tradição monárquica, cuja tarefa seria libertar Jerusalém do domínio do exército romano. É para tomar distância deste perfil de líder popular  nacionalista e consolidar sua vocação diante do Pai que Jesus se retira em oração.
 “Que dizem as multidões que eu sou?”
Depois de aprofundar a consciência sobre a missão que o Pai lhe confia, Jesus retoma a conversa com os discípulos propondo um balanço das opiniões sobre ele. “Quem dizem as multidões que eu sou?” Na verdade, o povo não apenas levantava perguntas. Alguns arriscavam afirmações aproximativas sobre a pessoa de Jesus: ele poderia ser João Batista redivivo; ou Elias que retornava para resgatar a ordodoxia da fé; ou então um outro profeta importante.
Num primeiro balanço do pensamento do povo, Jesus aparece claramente identificado com a tradição profética. Ele mesmo acenara para isso na sinagoga de Nazaré quando, percebendo o desconcerto que sua mensagem provocara, dissera que “nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra...” E diante da cura do filho da viúva de Naim o povo dizia: “Um grande profeta surgiu entre nós...” E não esqueçamos também a contestação do fariseu que o recebera em sua casa para uma refeição: “Se este homem fosse profeta, sabedia quem é esta mulher que está tocando nele...”
“E vos, quem dizeis que eu sou?”
Mas não podemos nos deter nas respostas que estão na boca do povo ou que aprendemos de cor e bóiam na superficialidade das fórmulas pouco consequentes. Afinal, que ressonâncias concretas têm em nossa vida e em nossos projetos fórmulas ortodoxas e estirilizadas como Messias, Filho de Deus, Redentor, Salvador, Senhor...? São conceitos desgastados e, frequentemente, envoltos em práticas de dominação, muito bem sintetizadas no velho refrão romano: “Cristo vence! Cristo reina! Cristo impera!”
A pergunta que Jesus dirige aos discípulos exige que eles se definam, chama a tomar posição. “E vós, quem dizeis que eu sou?” Os piedosos que me desculpem, mas eu tenho sérias dúvidas sobre a correção da resposta de Pedro. O que está por trás da fórmula “Cristo de Deus”? Não seria exatamente a idéia de um messianismo de natureza estritamente teocrática e nacionalista, que alimentava a expectativa de uma intervenção poderosa para liberar o território do domínio romano e reinstalar a monarquia?
Fundamento para minhas dúvidas eu encontro na reação do próprio Jesus à resposta de Pedro. Ele simplesmente adverte os discípulos – e não apenas Pedro! –que não anunciem uma coisa dessas ao povo. Jesus esconjura ou ameaça os discípulos como fizera com os maus espíritos que dominavam os doentes. Fica a impressão de que, através da resposta de Pedro, os discípulos revelam que estão possessos por uma ideologia que os fanatiza desvia do caminho. Para falar de si mesmo, sua missão e o modo de realizá-la Jesus prefere e propõe a expressão ‘Filho do Homem’.
“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me.”
Nas imagens e conceitos que usamos para falar de Jesus está embutido aquilo que esperamos dele e aquilo que pensamos sobre a pessoa humana. Os próprios chefes do judaísmo dão a entender que há uma idéia de poder e de sucesso conexa com o conceito “Cristo de Deus” (cf. Lc 23,35). Não é por nada que, mesmo depois de acompanhar Jesus no seu caminho até Jerusalém e de participar da sua ceia sacramental, os discípulos ainda discutem qual deles devia ser considerado o maior (cf. Lc 22,14-30).
Consciente disso, Jesus passa a falar do caminho do Filho do Homem: sofrimento (prisão, julgamento, tortura, morte) e rejeição por parte da aristocracia religiosa (sacerdotes), leiga (anciãos) e intelectual (escribas). Não se trata de uma fatalidade histórica da qual Jesus não teria como fugir, nem de um suicício premeditado, mas efetivamente do jeito escolhido por Deus para plantar a liberdade no coração do mundo: a via da compaixão e do dom de si pelos mais fracos.
Mas nesta estrada Jesus não vai sozinho. Esta não é apenas a sagrada via de Jesus, mas também o santo caminho de todos os seus discípulos e discípulas. “Jesus começou a dizer a todos:  se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me.” Para o/a discípulo/a, a cruz não está ligada apenas aos grandes momentos de testemunho, mas à cotidianidade do despojamento de si em favor dos outros. Sem isso não há verdadeiro discipulado.
“Todos vós sois filhos de Deus pela fé no Cristo Jesus.”
Precisamos ter consciência de que, para quem ousa seguir Jesus, as coisas não irão sempre bem. Ele não promete sucesso ou facilidades. Não é verdade que Cristo e a Igreja sempre vencem, reinam e imperam. Esta é mais uma tentação que uma verdade!... O fracasso, a falência e o menosprezo livremente aceitos são o único caminho capaz de nos levar à liberdade e à maturidade verdadeiras. “Pois quem quiser salvar sua vida a perderá, e quem perder a sua vida por causa de mim a salvará.”
Entretanto, neste caminho de uma fé em Jesus Cristo e como Cristo, é mais importante aquilo que fazemos do que aquilo que dizemos. Paulo ensina que é pela fé em Cristo Jesus – e não no ‘Cristo de Deus’! – que nos tornamos filhos/as de Deus. E a fé é bem outra coisa que repetição de fórmulas dogmáticas ou adesão intelectual a elas. A fé é força que ajuda a resistir às ideologias e projetos de poder e a agir movido pela compaixão e pela solidariedade.
“Vos revestistes de Cristo...”
Precisamos mudar nossos hábitos, trocar os velhos trajes que trazem as marcas de reinos, impérios e ideologias de péssima memória. Paulo lembra que o nosso batismo significa exatamente isso: revestir-se de Cristo.  E isso implica na eliminação dos muros – arquitetônicos ou dogmáticos – que separam e hierarquizam crentes e não crentes, ricos e pobres, cultos e incultos, homens e mulheres, sacerdotes e leigos, etc.  “Todos vós sois um só, em Cristo Jesus”, insiste o Apóstolo das nações. Fiéis a esta verdade porque não proclamar o início de um ano solene e sem fim do Povo de Deus?
Partindo da história concreta e completa de Jesus – que inclui sua rejeição e seu fracasso em Jerusalém – podemos responder com temor e tremor à sua pergunta: Jesus de Nazaré, carpinteiro como teu pai e ouvinte assíduo da Palavra, sendo filho da humanidade e nosso irmão maior, tu és o Ungido de Deus, o Pai dos pobres. Olhando para teu corpo trespassado, te reconhecemos como um dos nossos e, por isso, como início do Ano Novo (que os indígenas celebram no dia 21/06) e Caminho que nos leva à plena liberdade. Esta liberdade vale mais que a vida. Exultamos de alegria à sombra das asas da ta cruz e tomamos a nossa, cada dia. Com vozes de alegria nossa boca te canta louvores. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Palavra & Polêmica: Mateus 5,27-32

Os moralistas adoram o texto de Mateus que é proposto pela liturgia oficial da Igreja para o dia de hoje (Mt 5,27-32). À primeira vista, Jesus dá razão àqueles que insistem dia e noite sobre a indissolubilidade incondicional do matrimônio e sobre a impureza e o pecado até dos pensamentos. “Todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração... Todo aquele que despedir sua mulher, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher que foi despedida comete adultério...” E se juntamos estas palavras àquelas que Jesus diz em Mt 19,1-12, está feito o angu. Mas as coisas não são tão simples assim! Primeiro, porque o próprio Jesus mantém uma possibilidade de separação: o caso das uniões ilícitas (mas evita entrar nos detalhes que tantos desejaríamos). Segundo, porque se quisermos levar ao pé da letra e moralizar o que ele diz aqui, devemos também arrancar o olho e cortar a mão que nos levam a provocar escândalos. Terceiro, porque se quisermos enrijecer a boa notícia de Jesus e transformá-la em lei, façamo-lo com todas as suas sentenças, inclusive estas, que vêm um pouco antes: “Quem tratar seu irmão com raiva, será acusado perante o tribunal... Quem chamar seu irmão de louco será condenado ao fogo do inferno... Quando estiveres levando tua oferta ao altar e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão.” (Mt 5,21-24). Por favor, não caiamos na tentação de reduzir o Evangelho libertador de Jesus a uma moralzinha de escravos! Estas palavras de Jesus fazem parte do sermão da montanha, que começa com a proclamação da felicidade em benefício de quem sempre é culpabilizado por todos os males e carrega nas costas muitos fardos. Jesus enfatiza a interioridade do mal exatamente para evidenciar a ambiguidade de quem acusa o pecado dos pobres e humildes. E, além do mais, tenhamos em conta que a moral cristã não se reduz ao âmbito familiar e à dimensão sexual. É um pecado triste e imperdoável estirilizar a força libertária do Evangelho de Jesus e fazê-lo refém de uma moralzinha burguesa, ambígua e interesseira.

Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Os descontentes começam a murmurar e temer

O medo do Papa e dos pobres
É um fato que há muita gente na Igreja que não gosta do Papa Francisco. Mais ainda, é um fato também que há, na Igreja, pessoas que têm medo deste Papa. Esse medo se explica, não apenas porque Francisco é um homem que não se ajusta aos costumes e ao modo “normal” de proceder dos Papas que conhecemos, mas, além disso, porqueFrancisco não para de falar de um assunto que, pelo visto, deixa não poucas pessoas nervosas. Refiro-me à questão dos pobres.
Eu não sei o que os necessitados têm, que, quando esse assunto aparece, somos muitos (me incluo também, evidentemente) os que nos sentimos mal, sobretudo quando isso nos é apresentado em profundidade, com todas as suas causas e todas as suas consequências. Além disso – e isto é o mais grave –, este Papa não se limita a nos recordar o amor que devemos ter pelos necessitados, mas que, além disso e sobretudo a propósito disso, sem papas na língua, aos funcionários da religião que não fazem o que têm que fazer, que se mostram como carreiristas que querem colocar-se em postos de importância, ganhar dinheiro e viver bem. E Francisco até chegou a denunciar publicamente as mafiosas batinas. Não estávamos acostumados com esta linguagem nos “augustos lábios do Pontífice”, segundo costumava expressar-se o L’Osservatore Romano até os tempos de João XXIII, que aboliu semelhante estupidez na forma de falar.
Não estou exagerando. E menos ainda inventando coisas que não são verdade. Na semana passada, estive na Itália para dar algumas conferências. E ali me contaram sobre pessoas de renome e de alta categoria, nos ambientes eclesiásticos e clericais, que estão descontentes. Temem ser transferidos? Temem ser rebaixados? Têm medo de não alcançar o que já acreditavam estar tocando com a ponta dos dedos? Qualquer um sabe! Seja o que for, o que parece não admitir dúvida é que se está reproduzindo exatamente o que insistentemente os Evangelhos repetem: os sumos sacerdotes do tempo de Jesus, junto com as outras autoridades religiosas, senadores e letrados, “tinham medo” (Mt 21, 26.46; Lc 20, 19; Mc 11, 18; Lc 22, 2; Mc 11, 32; 12, 12). Medo de quem? Das pessoas, do povo, dos pobres. Assim dizem os textos dos Evangelhos. Como dizem também que Jesus jogou na sua cara que haviam convertido o Templo em uma “cova de ladrões” (Mt 21, 13; cf. Jr 7, 11). Por isso, o Papa não teve receio de repetir, referindo-se a determinados clérigos atuais, que são “ladrões”. E Francisco acrescentava: “está no Evangelho”.
Há aqueles que se queixam de que este Papa não toma decisões. Porque não tira uns e coloca outros nos cargos mais importantes da Cúria. Ninguém sabe o que o Papa Francisco pensa fazer. O que sabemos é o que já disse. E, pelo menos até agora, fez duas coisas que estão à vista de todos: 1) Adotou uma forma de viver que não é a que estamos acostumados a ver nos papas até agora. 2) Colocou-se decididamente a favor dos pobres e fala muito duro contra os ricos e os carreiristas que buscam poder e privilégios.
Vai ficar nisso? Penso que não. Estamos começando, nada mais que começando. E é isso que mais medo causa a alguns. Mas, em qualquer caso, não será mal recordar que Jesus fez o mesmo que até agora vem fazendo este Papa: levar uma vida austera e ter uma liberdade para falar e fazer certas coisas, que exasperam justamente os mesmos que exasperaram a conduta de Jesus. Francisco traz de cabeça os mais observantes de não poucas tradições que nos setores mais tradicionais da Igreja se consideravam intocáveis. E veja que as duas coisas que Francisco já colocou em marcha – que são as duas coisas que Jesus colocou em marcha – foram (e seguem sendo) o motor de mudança na história: 1) uma forma de viver simples e solidária; 2) e uma opção preferencial pelos pobres, que destrona os privilegiados e importantes, até colocá-los no último lugar.
Papa Francisco não nomeou cargos nem tomou decisões clamorosas. Limitou-se a colocar no centro de suas preocupações o mesmo que Jesus colocou: o sofrimento dos pobres. E isso meteu medo naqueles que desejavam um papado com outras pretensões. As pretensões dos carreiristas e a ambição da observância que bem pode ocultar uma ética duvidosa, talvez contraditória com a conduta das pessoas honradas. E concluo: garanto-lhes que para mim é indiferente se o Papa é progressista ou conservador. O que me importa realmente é que o Papa Francisco centrou-se e concentrou-se no Evangelho. Não para falar de Jesus, do que fez e disse. Independentemente da ideologia que tiver, se estiver identificado com Jesus me sinto espontaneamente identificado com o Papa. Nem mais nem menos que isso.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

11° Domingo do Tempo Comum

Não existe santo sem passado, nem pecador sem futuro
(2Sm 12,7-13; Sl 31/32; Gl 2,16-21; Lc 7,36-8,3)

Na cela da prisão na qual viveu durante muitos anos, condenado pelo regime comunista, o bispo vietnamita Dom François van Thuan sentiu-se tocado por uma frase escrita desajeitadamente na parede: “Não existe santo sem passado, nem pecador sem futuro.” Na sua meditação durante os sombrios e prolongados anos da sua prisão, este autêntico santo do nosso tempo viu nesta frase um resumo do Evangelho. E eu penso que esta é também uma boa chave de leitura para o trecho do Evangelho proclamado neste 11° domingo do tempo comum. Um santo – como todos os cristãos – não nasce santo, mas é uma pessoa que, tocada pelo amor de Deus, entra num permanente processo de conversão. Igualmente, diante de Deus nenhuma pessoa está presa às culpas do passado ou às contradições do presente, por maiores que sejam seus limites pessoais ou sua tragédi.
“Por que desprezaste a Palavra do Senhor, fazendo o que lhe deagrada?”
Como cristãos não somos superiores a ninguém, não ocupamos o centro de nada, nem devemos nos separar das pessoas comuns. Mas as tentações são muitas, persistentes e potentes. Não é verdade que os católicos nos sentimos indiscutivelmente superiores aos cristãos pentecostais? E que os padres e religiosos/as nos sentimos um pouco melhores e superiores frente aos demais membros da comunidade? E que muitos que são bem-sucedidos na vida se sentem mais dignos e meritórios que os demais? Que os brancos se sentem superiores aos negros e os homens mais dignos que as mulheres?
No ventre desta postura de superioridade vai tomando corpo um distanciamento, uma força que separa e traça fronteiras intransponíveis. Os muros que hoje separam israelitas e palestinos em Jerusalém, mexicanos e norte-americanos nos EUA, cristãos e muçulmanos em Chipre são apenas símbolos de tantos outros muros, invisíveis mas sólidos: muros que separam ricos e pobres, cultos e analfabetos, brancos e negros, cidadãos e excluídos, clero e leigos, justos e pecadores, economia e ética...
Na base deste dinamismo destruidor está a presunção de que somos o centro em torno do qual tudo deve girar: o ser humano é o centro e a medida de todas as coisas; a Europa é o centro gravitacional do ocidente; o Estado é o centro propulsor da nação; o clero é o núcleo vivificador da Igreja; a auto-realização é a pedra-de-toque da vida... E até a fé e a religião acabam sendo colocadas a serviço desta ideologia apresentada com cores e sabores de evangelho.
“Se este homem fosse profeta...”
E acabamos sempre buscando um Messias que confirme nossas idéias, projetos e práticas. Assim também Simão, do grupo dos fariseus, convida Jesus para partilhar da sua mesa, convicto de que ele partilha também da sua ideologia religiosa separatista e exlcudente. Presunçosos e separados, os fariseus erguem um muro que separa tudo entre puro e impuro. Estão seguros de ser o verdadeiro povo de Deus, graças à prática minuciosa das leis da pureza. São justos graças a si mesmos.
Simão observa escandalizado que Jesus não toma distância frente a uma reconhecida pecadora que, entrando indevidamente na sala de refeições, lava seus pés com as lágrimas e os enxuga com os cabelos. Isso só confirma sua suspeita: Jesus não é um profeta que age e fala em nome de Deus, mas um “comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores” (Lc 7,35). Para este fariseu autêntico, Deus não poderia senão confirmar a ideologia farisaica. Como muitos ainda pensam hoje: Deus só pode confirmar a superioridade do primeiro sobre os outros mundos; do cristianismo sobre as demais religiões; dos homens sobre as mulheres e homossexuais...
“Pequei contra o Senhor!”
Acontece que os profetas começam por desvelar os pecados que escondemos ou maquiamos com nossas belas e ambíguas doutrinas. O profeta Natã faz isso diante do aparentemente ortodoxo e poderoso Davi que, ao que parece, toma consciência das próprias iniquidades e se arrepende. Frente a um Deus que conhece nossa verdade e – apesar ou por causa disso? – nos trata com bondade e compaixão, começamos por reconhecer nossa condição de pecadores/as.
A noção de pacado está ligada mais à experiência de errar ou não alcançar ao na meta desejada do que à transgressão de leis objetivas. Todos experimentamos uma certa incapacidade de realizar plenamente a acolhida, a compreensão e a solidariedade que sinceramente desejamos. E quem não fez a experiência de, por ceder à lei do menor esforço ou por fazer escolhas inadequadas, se desviar destas metas objetivamente boas? Essa é a condição de pecado, que está no DNA da vida humana.
O salmista traduz  esta experiência universal nas palavras sinceras de uma oração: “Reconheço a minha iniquidade. Eis que na culpa fui gerado, no pecado minha mãe me concebeu. Afasta o olhar dos meus pecados. Renova em mim um espírito resoluto” (Sl 50/51). E segundo a parábola contada por Jesus, diante das metas absolutas que nos colocamos todos somos devedores insolventes. Se esta é a comum condição humana na história, como sustentar uma ideologia que divide tudo em bons e maus, puros e impuros, competentes e incompetentes, meritórios e culpados, superiores e inferiores?
“O Filho de Deus me amou e se entrgou por mim.”
O que nos sustenta no seguimento de Jesus Cristo é a experiência de que ele nos ama pessoalmente e se entregou por nós. É isso que faz com que Paulo considere todos os méritos acumulados no horizonte do judaísmo como lixo desprezível. É isso que leva a mulher anônima a vencer todas as barreiras, a ultrapassar os muros levantados pela hipocrisia farisaica e irromper na própria casa daqueles que a condenam. “O Filho de Deus me amou e se entregou por mim...” Não há pecador sem futuro!
Paulo elabora a seu modo os princípios fundamentais deste Evangelho da gratuidade da salvação. Não atingimos a maturidade e a plenitude da liberdade observando prescrições, que acabam sempre fortalecendo nosso ego ou nossas instituições, mas acolhendo o amor de Deus que nos é oferecido como graça e como tarefa em Jesus Cristo. A lei é uma via superada que deve ser descartada, enquanto que a fé é um caminho de vida, uma via pascal. Trata-se de assumir o espírito de Cristo como orientação pessoal de vida. “Eu vivo, mas não sou eu: é Cristo que vive em mim!”
“Qual deles o amará mais?”
Diante de tamanha bondade e gratuidade não há como não ser agradecido. O fariseu não demonstra gratidão e hospitalidade porque pensa que é merecedor da salvação, que é credor diante de Deus. A presunção de mérito nunca se dá bem com a gratidão, uma vez que eleva, incha, distancia, despreza, condena, exige. E cobra até o último centavo, inclusive do próprio Deus. Esta é uma lógica terrivelmente mortal que acaba desumanizando tanto quem a assume como aqueles com quem se relaciona.
A proposta cristã é uma vida agradecida. “Eu não anulo a graça de Deus”, diz Paulo. Isso significa reconhecer que somos pecadores/as acolhidos/as gratuitamente por Deus, mas implica também em fazer da gratuidade e da acolhida sem discriminação o princípio regente das nossas práticas e projetos, tanto individuais como comunitários e institucionais. Longe de nós a fria superioridade do fariseu, incapaz de qualquer gesto de hospitalidade para com Jesus. Precisamos entrar ritmo de Jesus Cristo, que derrubou os muros que separavam e fez nascer um único povo (cf. Ef 2,14).
“É Cristo que vive em mim...”
Somos uma comunidade de pecadores/as redimidos/as gratuitamente. Se às vezes choramos, é por casa da alegria das portas abertas e dos muros derrubados. Para espanto daqueles/as que até hoje questionam quem somos nós para desconhecer os muros erguidos em nome da segurança dos puros e separados, respondemos com a vida que não perdemos a paz, e que é a nossa fé em Jesus Cristo que nos faz pensar e agir assim. Não há santo sem passado, nem pecador sem futuro.
Jesus de Nazaré, coração sem fronteiras, amor lúcido que prioriza os marginalizados, perdão que redime e devolve a dignidade aos pecadores! Somos tua Igreja, uma comunidade de pecadores/as reconciliados/as a serviço da reconciliação da humanidade. Queremos manter as portas abertas a todas/as as pessoas tratadas como últimas. Não totalmente estamos livres das ideologias que discriminam e classificam, mas isso não impede que continuemos a sonhar ser uma Igreja que acolha e promova a diaconia feminina, a partilha de bens e a eliminação dos muros. Assim seja! Amém!


Pe. Itacir Brassiani msf

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Maria vem lembrar o que seu Filho fez e falou

Lourdes: a preferência de Deus pelos insignificantes

Quando Nossa Senhora se manifestou aqui em Lourdes a Maria Bernadette Soubirous, naquele 11 de fevereiro de 1858 (quatro anos após a proclamação do dogma da Imaculada Concieção!), Bernadette tinha apenas quatorze anos de idade. Da mesma faixa de idade era Melânia (quatorze anos) e Maximino (onze anos, videntes aos quais Maria se havia manifestado em 1846, doze anos antes, nas montanhas da Salette (sempre em território francês).

Mas o que me intriga não é apenas a pouca idade dos videntes. Como se não bastasse o desafio que representa aos adolescentes a missão de testemunhar a um mundo adulto e reticente diante dos assuntos religiosos que Maria havia se manifestado a eles, trata-se, em ambos os casos, de adolescentes sem nenhuma formação cultural e religiosa: Maria Bernadette não sabia ler nem escrever, e também não havia feito a primeira comunhão; Maximino e Melânia também não haviam feito a primeira comunhão e, a duras penas, haviam aprendido algo em termos de leitura...

Maria Bernadette, que veio ao mundo no dia 7 de janeiro de 1844, filha de François e Louise Soubirous. Há aproximadamente dez anos antes da manifestação de Nossa Senhora na gruta de Massabielle, às margens do rio Gave, sua família havia migrado para Lourdes, aos pés dos Pirineus, e administrava um pequeno moinho. Em 1854 a família havia entrado numa situação de miséria: num acidente, François ficou cego de um olho; depois veio a falência do moinho; e, como se não bastasse, foi acusado de roubo e, por causa disso, levado à prisão.

Em 1857 esta situação dramática levou a família a mudar de residência: passou a morar numa antiga prisão, num espaço de dezesseis metros quadrados! Naquela mesma época, um surto de cólera se abateu sobre a cidade de pouco mais de quatro mil habitantes, fazendo trinta e oito vítimas. Nessa época, a própria Maria Bernadette foi contagiada pela cólera e adoeceu de tuberculose, fato que deixou profundas sequelas na sua saúde, que doravante seria sempre muito frágil.

Confesso que me intriga essa preferência de Maria pelas pessoas simples e insignificantes nas suas manifestações. Será que é porque nós, os adultos e letrados, nos habituamos a coisas grande e lógicas, fomos picados pela ‘mosca azul’ e não conseguimos perceber e aceitar os sinais da presença de Deus e sua mãe? Será que esta ‘opção preferencial’ de Maria é mais uma manifestação da gramática de Deus, que escreve direito por linhas tortas e vem ao nosso encontro pela contra-mão?

Escrevo as linhas e verbalizo estas perguntas ainda em Lourdes, onde vim como peregrino e estou passando dois dias. O certo é que, ao que parece, Maria sempre se manifesta onde há dor e sofrimento, e nessas situações procura lembrar que Deus é bom e próximo, mas também pede mudanças pessoais e estruturais a fim de que tais sofrimentos sejam amenizados. Por trás de tudo, está sempre uma boa notícia: o sofrimento não é definitivo nem absurdo; o mundo tem jeito e pode mudar; Deus não está com quem provoca a dor, mas com que a sofre e com quem ajuda a amenizá-la.

E aqui em Lourdes, uma das coisas que me impressionaram mais profundamente, foi a imensa caravana de doentes que chegam ao santuário conduzidos por mãos solidárias, em suas cadeiras-de-rodas ou macas. Nem mesmo a chuva e o frio, como ocorreu ontem à noite, impede que estes doentes participem dos atos religiosos. Que força misteriosa os move e sustenta? Simplesmente a esperança de uma cura milagrosa? Creio que não, pois a maioria absoluta dos doentes volta à sua casa sem um milagre físico. Mas algo acontece, e faz com que essa gente siga adiante, mesmo sem ter com quem contar...

Aqui em Lourdes as estruturas e os números são grandes e até espantam, como em todos os centros de peregrinação: mais de seis milhões de peregrinos por ano; um complexo de três basílicas (uma subterrânea, com capacidade para acolher mais de doze mil peregrinos) e várias igrejas e capelas menores; uma enorme rede hoteleira e demais serviços para acolher e atender essa multidão a caminho... Chego até a temer que a grandiosidade de tudo isso, assim como o comércio que gira em torno do Santuário, faça com que o verdadeiro mistério de Lourdes seja colocado em segundo lugar.

Mas o desafio da fé é sempre esse: distinguir entre o fogo ou o sopro divino – sua manifestação sempre concreta mas também precária e incompleta – e as tendas, casas ou estruturas (físicas, linguísticas, rituais ou doutrinais) que construímos para abrigar essa manifestação. A beleza litúrgia da missa internacional da qual participei na manhã de hoje, com sua preparação impecável e os cantos e mensagens em diversas línguas, não pode perder sua razão de ser: a manifestação do amor de Deus aos pequenos e insignificantes e, através deles, a todas as pessoas de boa vontade, para que os sofredores tenham vida em abundância.

Itacir Brassiani msf