sexta-feira, 12 de julho de 2013

Um homem autentico (Pe. Rodolpho Ceolin msf)

"Parar, acomodar-se, contentar-se com o que se obteve 
é  falta de amor a si, ao outro e a Deus"

Na postagem anterior, disse que guardava duas antigas cartas que recebi do Pe. Ceolin. Dei a conhecer a primeira, com a respectiva resposta (http://itacir-brassiani.blogspot.com.br/2013/07/licoes-do-velho-e-bom-mestre-rodolpho.html). Hoje partilho a segunda carta, escrita no dia 16 de abril de 1991. Nela transparece a singela alegria do nosso amigo por um simples cartão postal, que ele recebe como oportunidade de saber um pouco mais sobre o lugar onde eu vivia. Sem falar na delicadeza de receber uma carta três ou quatro dias depois de recebê-la...

Pe. Ceolin celebrando 25 anos de ministério, em 1981
Mas gostaria de ressaltar outro aspecto, muito revelador da sua estatura espiritual. Comentando as escaramuças de um jovem coirmão que, depois de pouco mais de um ano de consagração perpétua, ‘queimava’ a maioria dos coirmãos e procurava uma saída pessoal, o Pe. Ceolin escrevia: “Eu pouco sei acerca dos planos dele... Não sei dos seus objetivos e decisões. Ita, eu temo e desconfio da autenticidade evangélica dos fanáticos, dos intransigentes, dos queimadores de irmãos (como se fazia na Igreja com os hereges), etc. Temo acerca da sanidade mental e psíquica daqueles que se canonizam donos da verdade e fazem xixi sobre o passado, com a maior irreverência. Neles operam forças estranhas. Agem de modo inconsciente. Não conseguem fazer auto-crítica convenientemente, não vêm a si mesmos, não têm identidade elaborada e consistente.” Mas depois conclui, como sabedoria, humildade e capacidade de auto-crítica: “O caso do X é de lamentar e pensar. Não podemos jogar-lhe pedras. Meus erros na vida não os considero menores que os dele.”

Um segundo elemento que considero muito relevante, e que ele expressa nessa carta, é alegria pelos progressos no processo de libertação pessoal que ele fazia, assim como a clara consciência de que jamais poderia parar e descansar nos passos dados. “Percebo e sinto em mim o quanto mudou em mim, ou o quanto mudei. Eu estou em paz com a vida... gerado que fui cercado de fatos fúnebres. Canto feliz a re-opção de ser de Cristo e para o Reino. Já não me sinto frustrado existencialmente. Mas... parar, estagnar, acomodar-se, contentar-se com o que se obteve e ficar por aí, é uma terrível falta de amor a si, ao outro e a Deus. É a infidelidade ao Espírito Santo.”

“Meus erros não são menores que os dele...”

“Mui estimado Ita!
Recebi ontem tua carta amiga, de 11.04, acompanhada do encantador postal do Bairro da Universidade, onde você mora. Bonito, não é? Quanto verde! É bom admirar, cultivar, proteger o verde, o mar, a fauna. Voltando às origens talvez os Homens se redescubram e voltem a respeitarem-se... Já que está difícil aceitar-nos em nossa ‘condição divina’, o jeito encontrado foi o virar bicho!...
Mas gostei de receber o postal. Assim tenho uma pálida idéia onde vives, dedicado ao
A alegria de celebrar 50 anos de ministério (2006)
estudo, pesquias, etc. Admiro-te por buscares os papeleiros de rua como irmãos de caminhada cristã. Aqui também são tantos: homens, mulheres, crianças. Algo por eles vem sendo feito, mas é ainda insignificante. Os nossos pobres são cada dia mais pobres e em maior quantidade. A revolução dos pobres está em marcha. Não assaltam palácios do governo nem os quartéis. Os assaltos são feitos contra quem tem dinheiro e pão em demasia, apodrecendo.
Itacir, falas-me sobre o nosso coirmão X. Eu pouco sei acerca dos planos dele. Ouvi dizer que ele viajou para Y. Não sei dos seus objetivos e decisões. Ita, eu temo e desconfio da autenticidade evangélica dos fanáticos, dos intransigentes, dos queimadores de irmãos (como se fazia na Igreja com os hereges), etc. Temo acerca da sanidade mental e psíquica daqueles que se canonizam donos da verdade e fazem xixi sobre o passado, com a maior irreverência. Neles operam forças estranhas. Agem de modo inconsciente. Não conseguem fazer auto-crítica convenientemente, não vêm a si mesmos, não têm identidade elaborada e consistente. O caso do X é de lamentar e pensar. Não podemos jogar-lhe pedras. Meus erros na vida não os considero menores que os dele.
Amigo, torces por mim, para que eu avance no processo de libertação. Percebo e sinto em mim o quanto mudou em mim, ou o quanto mudei. Eu estou em paz com a vida... gerado que fui cercado de fatos fúnebres. Canto feliz a re-opção de ser de Cristo e para o Reino. Já não me sinto frustrado existencialmente. Mas é como dizes: “... seu processo de libertação se afirme e desenvolva...” Parar, estagnar, acomodar-se, contentar-se com o que se obteve e ficar por aí, é uma terrível falta de amor a si, ao outro e a Deus. É a infidelidade ao Espírito Santo.
Unidos sempre! Vamos em frente! Meu abraço muito cordial. Pe. Rodolpho

A alegria de tê-lo como amigo e de estar discretamente ao lado dele

Ao receber esta carta, expressão inequívoca de uma amizade sincera e de uma pessoa que assumiu plenamente a responsabilidade pelo próprio crescimento e emancipação, eu registrava nas minhas anotações o que segue (os destaques são de hoje).

“Recebi hoje (17.04.1991) rcebi esta carta do Pe. Ceolin. Eu a guardo com carinho, leio e releio emocionado. Não é de hoje a minha admiração por ele. Sem querer canonizá-lo como modelo em tudo, desde o já distante ano de 1980 o conheço como um homem de coração e de sofrimento.
Ele tem uma capacidade quase infinita de ouvir e compreender, mas poucos passaram, como ele, por tantas depressões. Os doze anos à frente da coordenação provincial podem ser um indicativo do seu modo responsável e cativante de ser.
Como mestre de noviços, foi um dos grandes responsáveis pelo meu amadurecimento. Quando fui ordenado presbítero, muito honrado, convidei ele para fazer a homilia da minha primeira missa solene, reconhecendo que muito do que eu era devia a ele...
Mas desde aquele ano de 1987 ele foi definhando, envolvido numa série de dificuldades pessoais, e caiu numa acentuada depressão. Mas teve lucidez e maturidade suficientes para buscar ajuda e dar um tempo a si mesmo. Mais de uma vez ele testemunhou a dureza dessa busca. Teve que abandonar todas as muletas e tentar andar sozinho, com passos inseguros e por caminhos incertos. Quase dois anos de luta e busca o levaram a um porto mais seguro, onde os ventos são menos ameaçadores. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Com os/as ministros/as, em Santo Augusto (RS)
Minha profunda amizade e admiração pelo Ceolin me levaram a vencer uma série de percalços e escrever-lhe regularmente. Especialmente a partir de 1987, escrevo-lhe seguidamente. Esperei três anos para receber a primeira resposta. É claro que a esperava e desejava. Mas sentia-me satisfeito simplesmente por tê-lo como amigo, confrade e companheiro, e por ser uma presença discreta mas real nessa sua via-sacra.
Somente no ano passado recebi sua primeira carta. Nela, contava suas dores, sua busca desesperada. Depois, no mês de agosto, veio a carta com a proclamação da alegre boa notícia: se não ainda havia chegado ao porto, ao menos o mar estava menos bravio e ele vislumbrava a direção para a qual deveria remar. Me emocionei e louvei o Senhor, como o faço também hoje, ao receber mais uma carta sua. Que Deus o acompanhe e sustente na sua misericórdia.
E eu me sinto feliz comigo mesmo por não ter desanimado em nenhum instante. Graças a Deus, mantive o ânimo para fazer-me presente de diversas formas nos diferentes momentos da sua escuridão. Se isso não contribuiu para o discernimento e o seu crescimento, pelo menos me fez mais sincero, mais amigo e mais capaz de compaixão. Bendito seja Deus!”


Itacir Brassiani msf

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