quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A Palavra na vida

(Lc 13,31-35) Herodes quer acabar com Jesus. Não lhe bastava ter dado fim a João Batista?... Mas veja só!... Agora é um dos discípulos do profeta do deserto, o Nazareno, que não o deixa em paz. Os poderosos, de ontem e de hoje, sempre pretendem resolver os problemas da mesma maneira: acabando com aqueles que os provocam. Os métodos mudaram, mas a arrogância é a mesma. A resposta de Jesus é certeira: não será Herodes a decidir a hora da sua morte. Herodes não passa de uma raposa, de um insignificante instrumento no plano de Deus. Esta é a lógica divina: aqueles que se julgam poderosos e pensam deter o controle da situação são, na realidade, homens insignificantes, recordados apenas porque acabaram envolvidos com um obscuro asceta ou com um carpinteiro que se fez profeta. Diante de tanta hostilidade, o coração de Jesus sangra: com muita dor, ele reconhece que sua mensagem sofre violência, e o ódio contra ele vai se tornando insustentável. É claro que Jesus teria preferido um outro epílogo, não este que está para acontecer. Mas, em certas ocasiões, o único modo de revelar a verdade das coisas nas quais se acredita é ir a fundo nas próprias decisões... (Paolo Curtaz, Parola & Preghiera, outubro/2013, p. 200)

Dia dos Finados

A morte não têm poder sobre a vida de quem ama.
(Sb 4,7-15; Sl 102/103; 2Cor 5,1.6-10; Jo 11,17-27)
É possível celebrar a morte, o fim sem volta da existência humana? Não seria ela sempre uma tragédia, ou, ao menos, uma perda irreparável? É verdade que sempre procuramos desesperadamente construir pontes – com os tijolos das palavras, dos ritos, dos símbolos, do amor saboreado, da esperança utópica, da fé teimosa – sobre o abismo que separa os que estamos aqui e os que se foram. Mas a morte seria mesmo apemas um abismo entre duas terras firmes, o aqui e o além, ou o fim obscuro e lamentável da nossa bela, apesar de tudo, mas sempre precária existência? Que sentido tem esse dia no qual lembramos as pessoas queridas que partiram deixando marcas e vazios na nossa carne, uma jornada na qual meditamos sobre o que nos espera, ou sobre o que podemos esperar com honradez?
“Deus os transferiu para outro lugar...”
Não é muito comum lamentar a morte das pessoas que consideramos más, ou que não tiveram uma influência positiva sobre nós. Conhecemos gente que se dispõe a antecipar o fim da vida de pessoas a quem consideram inimigas, e até da própria vida, quando lhe parece difícil, triste, sem sentido e sem futuro. Nestes casos, a morte não tem sabor de perda, mas de vitória e de liberdade. Mas tudo muda de figura quando se trata de uma vida plena de sentido, de uma pessoa que queremos bem e nos é preciosa. A morte da pessoa considerada justa e a morte precoce das pessoas que nos são caras abrem as portas da crise e nos impulsiona na busca de sentido.
Tanto o sábio da primeira leitura como Marta, a irmã de Maria e de Lázaro, no Evangelho de João, cada qual do seu jeito e com os recursos culturais que tem à mão, procuram um sentido para a morte da pessoa justa, boa e querida, a morte que ceifa a vida antes do tempo. A sabedoria popular do judaísmo encontra consolo afirmando que o sentido da vida não está no grande número dos anos, nem na sobrevivência neste mundo mau. “Ainda que morra prematuramente, o justo encontrará descanso... Deus o transferiu para um outro lugar... Tendo alcançado em pouco tempo a perfeição, completou uma longa carreira...” Ou seja: a morte é o ponto de chegada de uma vida plenamente realizada.
“Todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais.”
A resposta oferecida por Jesus é mais complexa e radical. O ponto de partida é o lamento de Marta, com sabor de advertência e de reclamação à insensibilidade de Jesus: “Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido...” Afinal, Jesus tinha sido informado da enfermidade do amigo Lázaro, como nós não cansamos de lembrar a ele a doença e as necessidades das pessoas que queremos bem. Afinal, nada mais normal do que o desejo de prolongar e tornar menos difícil a vida das pessoas que amamos. Mas aqui o risco é reduzir a figura de Jesus a um curador, a um médico onisciente e onipotente.
Depois de cobrar a ausência de Jesus, Marta expressa confiança no seu poder de forçar Deus a anular a morte e prolongar a vida dor irmão querido. Jesus começa dizendo que Lázaro ressuscitará, mas Marta não consegue ir além da fé tradicional na ressurreição no final dos tempos, e essa crença lhe parece sem dinamismo e desprovida de significado no preciso momento em que seu irmão foi tragado pela morte. Mas Jesus lhe propõe algo absolutamente novo: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais.”
Por trás do diálogo tenso entre Jesus e Marta está uma questão muito importante e atual: o que esperamos de Jesus: cura, prolongamento da vida, reestabelecimento de uma situação do passado, ou vida plena, vida com uma densidade e uma força que nenhuma forma de morte pode estancar? Porque é Vida e caminho de amor e compaixão que a ela conduz, Jesus é ressurreição. Com seu modo de ser e de agir, com sua proposta de vida, ele suscita vita e, por isso, também a res-suscita. Para ele, e para aqueles/as que acreditam nele, o que importa não é uma vida sem enfermidade e sem limites, mas uma vida que tenha força de produzir e multiplicar vida.
“Crês nisso?”
Quem adere a Jesus Cristo, quem refaz o seu caminho, quem vive sob impulso do seu Espírito e por ele se deixa guiar, mesmo que tenha morrido, continua suscitando vida, e, nessa medida, vive. A vida de tais pessoas é mais que uma história a ser recordada, louvada ou lamentada: é percurso que continua aberto, travessia ainda em curso, beleza que continua atraindo, dinamismo que continua movendo e sustentando outras vidas de outras. E isso sem entrar na complicada questão de uma existência pós-histórica, em moldes semelhantes à nossa vida presente.
Mas Jesus afirma também que quem vive e crê nele, jamais morrerá. E isso tem sentido, porque nós morremos antes da morte – deixamos de gerar vida! – por causa do pecado, do fechamento em nós mesmos/as, do medo de perder a vida no despojamento e no serviço por amor. Aderir a Jesus Cristo significa assumir o último lugar, o lugar de quem serve por amor; significa perder o medo de morrer, acreditando que ele derrotou o poder assustador e destruidor da morte, e que a nossa vida está escondida com ele, em Deus. Quem vive em Jesus Cristo e nele acredita vence antecipadamente a morte, de modo que quando ela chega, é recebida como irmã, e não como ameaça.
A afirmação e a pergunta que Jesus dirigiu a Marta é dirigida também a nós. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês nisso?” Marta dá sua resposta pessoal, no horizonte cultural do seu tempo, com a fé embrionária que a movia. “Sim, eu creio firmemente que tu és o Cristo, o Filho de Deus, aquele que deve vir ao mundo.” Teria ela compreendido que, mais importante que ter de volta o irmão falecido, é que o Messias de Deus venha permanentemente para reerguer as pessoas subjugadas pelas sombras da morte e dirigir os nossos passos nos caminhos da paz? Aderindo a ele, perdemos tudo, recebemos tudo, e não temos necessidade de garantir nada.
“Enquanto moramos no corpo, somos peregrinos...”
Escrevendo aos coríntios, o apóstolo Paulo nos convida a compreender bem o sentido da existência em Cristo, e, nela, o sentido da morte. Ele reflete sobre a nossa vida histórica comparando-a a uma tenda, à habitação provisória de quem sabe que está aqui só de passagem. Enquanto habitamos nessa tenda, continuamos peregrinos, caminho para Deus, mesmo sabendo que em Jesus Cristo ele já veio definitivamente ao nosso encontro e o Reino de Deus já começou e está entre nós. Por isso, caminhamos cheios de confiança, e não lamentamos deixar essa tenda em vista do lar definitivo.
Não podemos cair no simplismo de ler estas palavras num horizonte dualista, opondo ou colocando lado a lado um certo mundo material e um suposto mundo espiritual, uma vida corporal e uma vida espiritual. Como cristãos, cremos que a vida humana, e todas as expressões da vida, é pascal, ou seja: é Travessia, Passagem, Caminho. A história – nas suas dimensões de passado, presente e futuro – e o corpo – nas suas dimensões de interioridade e exterioridade – são a paisagem, o chão e a expressão da vida, mas não a esgotam, nem a detém. Quem desiste de peregrinar rumo ao outro mundo possível, renega a fé em Jesus Cristo e morre definitivamente, mesmo que continue biologicamente vivo/a.
Tudo isso parece muito complicado, mas o testemunho de tantas pessoas amadas que nos já deixaram proclama essa fé de modo simples e eloquente. E aqui não é preciso recorrer às grandes figuras do passado, nomes que pontilham de vida nosso calendário santoral. Todos temos a alegria de conservar ‘no lado esquerdo do peito’ o nome e a imagem sagrada de pessoas, às vezes muito sofridas e cheias de limites, que viveram a vida como Travessia, caminhando cheias de confiança em Jesus Cristo, levando quase nada na bagagem, deixando tudo como sal que conserva e dá gosto, como fermento que faz crescer, como semente que germina e floresce. Essas pessoas jamais morrerão!
“Como a erva são os dias do homem...”
Jesus de Nazaré, Unigido do Pai para suscitar e ressuscitar a vida! Também tu viveste a fragilidade da vida humana e a amaste desmedidamente. Como a tua, também nossa existência é pó que o vento leva, é erva que o vento seca. Ajuda-nos a vivê-la em ti, no teu espírito, no dinamismo da tua compaixão humanamente divina e sem medo do nada da morte, pois a bondade tua e do teu e nosso Pai vêm desde sempre e dura para sempre. Ensina-nos a cumprir com alegre confiança e generosa compaixão a apaixonante Travessia do nosso viver. E que a saudosa lembrança daqueles/as cuja tenda corporal foi desfeita e entraram na morada definitiva ilumine, anime e perfume nossa estrada. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf

Um artigo do Pe. Ceolin

Para começar o mês dedicado às missões, publiqueicom prazer e emoção um texto do Pe. Ceolin. Com a mesma satisfação, encerro este mês oferecendo mais uma das suas oportunas e sábias meditações. Trata-se de um artigo que ele escreveu por ocasião do Centenário da Páscoa do Fundador, e que foi publicado em O Bertheriano (Ano XXVI, n° 102, Agosto/2009, p. 7. Como sempre, os destaques são dele).Boa leitura e bom proveito!
 O bom exemplo
Nós, Missionários da Sagrada Família, estamos atualmente debruçados sobre a figura do Servo de Deus, Pe. João Berthier. A celebração da sua páscoa para a vida definitiva, ocorrida há cem anos, vem oportunizando deveras um ‘ano da graça’ para nossa família religiosa. Os eventos celebrativos, o uso pessoal e comunitário da coletânea “O legado do Padre Berthier” vêm contribuindo para clarear nossa idendidade de Missionários da Sagrada Família e confirmar nossa pertença ao grupo dos discípulos do Pe. Berthier.
Nosso venerável Fundador passa a ser admirado não somente como incansável pioneiro e empreendedor de inúmeras obras. Ele passa a ser visto e desponta acima de tudo como modelo de vida. Ele mesmo não se apresenta assim. Propôs à nossa imitação o modelo da Sagrada Família. Mas estou convicto de que o Pe. Berthier poderia nos ter deixado o seguinte legado: “Sejam meus imitadores, como eu o sou de Cristo e da Sagrada Família!” (cf. 1Cor 11,1).
Contemplando a vida do nosso Fundador, sua inteira trajetória – na família, no seminário, na montanha da Salette, no ministério, etc. – percebemos que ele é digno de ser imitado. Sobretudo em Grave, ele nos encanta com seu modo de ser. Creio que ele poderia ter nos deixado mais essa recomendação: “Eu lhes dei um exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz!... Mesmo sendo o mestre e superior de vocês, fiz-me tudo para todos...” (cf. Jo 13,15).
Temos conhecimento de que alguns vocacionados, chegando a Grave, ficavam boquiabertos ao verem tamanha pobreza da casa e dos arredores. Alguns simplesmente davam meia-volta e retornavam à casa dos pais. Para outros, porém, a péssima impressão inicial causada pela velha caserna era desfeita depois de terem conhecido o Padre Berthier e experimentado sua grande bondade, sua cordialidade e simpatia. O contato com a pessoa do Fundador os animava a aceitar e abraçar a realidade, que alguns consideravam horripilante.
Hoje estamos nos perguntando a respeito do futuro da Congregação, e eu aceno para a resposta que temos no Diretório Geral: “Pelo exemplo e por uma vida merecedora de fé (ou seja, merecedora de crédito) e pelo entusiasmo no cumprimento da tarefa missionária, queremos estimular a comunidade dos fiéis... e preparar terreno propício ao florescimento de vocações...” (DG, 07).

Por vezes fico a perguntar-me: em vista da formação que tenho, da minha idade avançada, do fato de ser religioso e presbítero, venho servindo de bom exemplo para os fiéis e meus coirmãos? Dou-me conta de que não sou como deveria sê-lo, de que devo ter sempre em mente que eles têm o direito de esperar e de me cobrar postura de vida condizente à minha identidade. A mim cabe o dever de esforçar-me em servir de bom exemplo. Reconheço também que, vindo eu a ser motivo de escândalo e pedra de tropeço para os fiéis e coirmãos, a vergonha não será apenas minha: recairá também sobre toda a família e a instituição à qual pertenço.
Permita Deus que eu seja menos moralizador e supere a tendência em viver apontando os defeitos alheios sem aperceber-me dos meus. Que o bom Mestre não precise desmascarar-me com estas palavras: “Hipócrita, tire primeiro a trave do seu próprio olho, e então você exergará bem como tirar o cisco do olho do seu irmão!...” (Mt 7,5).

Pe. Rodolpho Ceolin msf

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Os padres e o luxo

O escandaloso esbanjamento de eclesiásticos
Correu o mundo a notícia de que o Vaticano afastou do exercício do ministério episcopal o bispo Franz-Peter Tebartz-van da diocese de Limburg na Alemanha, por causa do seu esbanjamento ao construir sua residência. O bispo teria gasto 31 milhões de euros na construção de sua “modesta casinha” de pastor. Soma que convertida em reais, segundo a cotação do euro no dia em que comecei a escrever este artigo, seria igual a R$ 79.360.000,00.
A notícia causou impacto na grande mídia (sempre à procura de fofocas) e nas pessoas mais simples e honestas que ainda esperam dos ministros ordenados um testemunho de simplicidade e de pobreza, a exemplo de Jesus que “não tinha onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). Porém, para observadores atentos, o luxo, a ostentação e o esbanjamento de muitos padres e bispos é uma constante. Se analisarmos cuidadosamente o caso do Brasil, vamos ver que, nas devidas proporções, muitos aqui não ficam longe do bispo alemão. A seguir alguns exemplos ilustrativos.
Há quase dez anos, quando eu era professor de teologia no Instituto de Teologia de Ilhéus (BA), visitei uma comunidade de periferia na cidade de Itabuna (BA). Lá me deparei com o caso de um seminarista diácono, meu aluno, que estava para ser ordenado presbítero. O seminarista havia exigido daquela comunidade pobre, como presente de ordenação, uma casula no valor de três mil reais. Valor esse exorbitante para a época e para as pessoas daquele bairro pobre de periferia...
Tempos atrás um bispo auxiliar de uma grande arquidiocese, hoje arcebispo na região Sudeste do nosso país, costumava exibir publicamente seus esbanjamentos. Entre esses esbanjamentos estava o fato de que ele morava num condomínio de luxo da capital, cuja taxa de condomínio naquela ocasião era de dois mil reais. Outro bispo, de uma simples diocese do Centro-Oeste, esnobava nas reuniões da CNBB que havia gasto trezentos mil reais apenas com a construção e decoração do presbitério da nova catedral...
Uma arquidiocese está para construir uma nova catedral, cujo orçamento ultrapassa os cem milhões de reais. Recentemente o bispo de uma diocese do Nordeste brasileiro, encravada no polígono da seca, decidiu construir um luxuoso seminário para seus seminaristas, fora da própria diocese, onde os mesmos estudam filosofia e teologia. Para pagar as dívidas da construção decretou que cada paróquia deveria contribuir com determinada quantia. Passei na ocasião por algumas dessas paróquias e pude perceber o sofrimento do povo que, além dos problemas angustiantes provocados pela seca, tinha que se virar para arrecadar a quantia exigida pelo bispo.
Falando sinceramente, diante de todas essas extravagâncias praticadas num país pobre como o nosso, os gastos do bispo alemão não passa de simples “fichinha”. O que causa estranheza é o fato de que tudo isso aconteça após a realização do Concílio Vaticano II, o qual pediu que os ministros da Igreja, especialmente os bispos e padres, primassem pela simplicidade e pela pobreza, seguindo o exemplo de Jesus (PO, 17). Causa mais surpresa ainda saber que os esbanjadores eclesiásticos são ministros relativamente jovens, formados após o Vaticano II. O bispo de Limburg, afastado pelo Vaticano, tem 53 anos. Isso revela que a formação nos seminários e a formação permanente não estão conseguindo ajudar os pastores a viverem segundo o modelo de Cristo Pastor.
No caso do Brasil, as pesquisas apontam que a maioria absoluta dos seminaristas é originária de famílias pobres da zona rural ou das periferias das grandes cidades. No atual momento há uma prevalência de seminaristas provenientes das periferias urbanas. E talvez aqui esteja o motivo da tendência ao esbanjamento, ao luxo e à ostentação. Por serem oriundos de situações de extrema pobreza, os candidatos tudo fazem para sair da situação de miséria. Isso é uma coisa até certo ponto normal. Qualquer ser humano que tenha passado por uma situação de privação, ao ter uma oportunidade de sair dela, fará isso normalmente. Os seminaristas não são exceção à regra.
O que se deve questionar é a incapacidade do processo formativo de educar esses candidatos para uma vida simples e pobre. Os seminários e a formação permanente deveriam ser capazes de contribuir para que o seminarista pobre permanecesse pobre, mesmo depois de padre. Deveria ser capaz de ajudar o seminarista a entender que antes ele era pobre porque o sistema social e econômico injusto o impedia de ter o necessário para viver dignamente. Agora, como seminarista ou como padre, ele será ou permanecerá pobre por opção vocacional: para seguir Jesus Cristo pobre, o qual, ao assumir a condição humana se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (2Cor 8,9). A formação deveria ser capaz de ajudar o futuro ministro ordenado a não ter medo de permanecer pobre; de, por opção vocacional, voltar a passar por situações de privação vividas anteriormente.
Mas não é isso que vem acontecendo. A formação nos seminários aburguesa. Os seminaristas recebem tudo de graça, não precisam trabalhar para se manter. Têm à disposição deles casa, comida, roupa lavada, transporte, médico, remédio, estudos, livros etc. Em muitos seminários os seminaristas nem sequer colaboram com a limpeza dos pratos nos quais comem e da casa onde moram. São raros os seminários onde isso acontece.
Conheço seminários onde os seminaristas, depois do almoço, dormem a tarde toda e nem sequer leem os textos indicados pelos seus professores. Isso aconteceu muitas vezes com alunos meus. Eles não precisam se preocupar, pois há funcionários pagos pela diocese para trabalhar para eles. Pagos por um povo de bobos e de ingênuos, o qual ainda acredita piamente que ele tem obrigação de sustentar a mordomia de certos seminaristas, padres e bispos. Enquanto isso, a dona Maria e o seu José, funcionários do seminário, não conseguem tratar a saúde dos filhos e, menos ainda, pagar uma faculdade para eles, pois o salário minguado que recebem da diocese não é suficiente.
A medida drástica tomada pelo Vaticano contra o bispo alemão foi necessária, mas convém ressaltar que isso não resolverá o problema. É preciso, com urgência, mexer na estrutura eclesial viciada. Estrutura essa que trata os ministros ordenados como verdadeiros “príncipes da Igreja”, os quais se acham no direito de exigir do povo que sustente suas mordomias. É preciso rever todo o processo formativo, tornando-o mais leve, menos custoso e menos aburguesado. Sem desprezar o princípio bíblico de que o evangelizador tem direito a um salário digno (Mt 10,10), a Igreja precisa educar seus ministros ordenados a, como o apóstolo Paulo, trabalharem com as próprias mãos para o próprio sustento (At 18,3; 1Cor 9,13-15) e a se contentarem com aquilo que a comunidade pode oferecer para a manutenção deles (Lc 10,7-8).
Mas para se chegar a isso é fundamental romper com todo o esquema eclesiástico atual, pautado no amor ao dinheiro. Sem ruptura, continuaremos a pôr remendos e a colocar vinho novo em potes velhos (Mc 2,21-22). Os escândalos continuarão a acontecer, uma vez que “a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10).

José Lisboa Moreira de Oliveira

Solenidade de Todos os Santos e Santas

Todos os homens e mulheres são chamados à santidade.
(Ap 7,2-4.9-14; Sl 23/24; 1Jo 3,1-3; Mt 5,1-12)
O primeiro dia (ou o primeiro domingo) do mês de outubro, a Igreja católica o dedica à festa de todos os santos e santas. Como esquecer que a verdadeira santidade é aquela que se manifesta na vida das pessoas que ousam sair do estreito limite dos próprios interesses e se aproximam solidariamente dos últimos; que tecem pacientemente os fios que fazem do mundo inteiro uma única família; que vão aos rincões mais distantes ou exigentes para levar a bandeira da paz; que são movidos por uma insaciável sede de justiça; que choram as dores dos povos de todas as cores e provam o fel da violência da perseguição; que transformam a terra pela mansidão?... Celebremos e festejemos a alegria de participar de uma imensa caravana de homens e mulheres de todas as raças, nações e línguas que nos precedem, nos acompanham e nos seguem. E renovemos o desejo e o compromisso de levar em nosso corpo as marcas de Jesus Cristo.
“Gente de todas as nações, tribos, povos e línguas...”
No último dia 30 recordávamos os 34 anos do assassinato de Santo Dias da Silva, líder cristão e operário, e 466 anos da páscoa de Martinho Lutero, religioso católico e reformador da Igreja. Dois homens sensíveis ao próprio tempo que, em diferentes lugares e circunstâncias, e também com métodos diversos, sonharam e lutaram por uma sociedade mais justa e uma Igreja mais fiel a Jesus Cristo. Dois cristãos que tinham fome e sede de justiça e sofreram perseguição. Será que eles não fazem parte da imensa multidão de servos de Deus, cujas frontes foram marcadas com o sinal do Cordeiro?
A festa de todos os santos e santas faz memória dos/as santos/as esquecidos/as, daqueles/as que não têm um dia especial e um nome conhecido; daqueles/as que gastaram a vida no anonimato e cujos milagres não podem ser contabilizados pelas regras canônicas; de gente como Sepé Tiarajú, Padre Cícero, Dom Romero, e Ir. Adelaide, e mesmo de gente quem não rezou pelo nosso catecismo, como Lutero, Luther King, Gandhi e tantos outros; celebra a memória daqueles/a que nos antecederam na fé e cujo testemunho mantém a Igreja no caminho certo, apesar das suas resistências e ambivalências.
“Desde agora já somos filhos de Deus...”
Mas a celebração de todos os santos e santas não olha somente para o passado. Ela é oportunidade e provocação para refletir sobre a vocação fundamental de todos os/as cristãos. Sendo verdade que a santidade é um caminho estreito e uma vocação exigente, isso não significa que seja reservada a alguns grupos especiais de cristãos. Há mais de quarenta anos o Concílio Vaticano II proclamava de forma clara e contundente, contra a idéia predominante, que a santidade não é privilégio dos sacerdotes e religiosos/as. Muito antes, a história já havia comprovado o que então era proclamado solenemente.
Na passagem do milênio, o saudoso João Paulo II provocava os cristãos a não se contentarem com pequenas medidas, com vôos rasantes, com ideais nanicos, e pedia que aspirassemos nada menos e nada mais que à santidade. A vocação de todos precisa se transformar em desejo pessoal e em decisões e ações concretas. Como diz São João, nós somos chamados filhos/as de Deus e já o somos desde agora, mas o desafio é crescer na identificação com Jesus Cristo, gravar no corpo e na mente as marcas de Jesus Cristo. “Seremos semelhantes a ele...” E isso deve ser mais que um simples sentimento.
“Felizes os pobres no espírito...”
Jesus Cristo é o verdadeiro e perfeito santo de Deus e, ao mesmo tempo, o caminho para a santidade. Não há santidade à margem do seguimento de Jesus Cristo, mesmo que tal seguimento seja implícito. Trata-se então de refazer o caminho prático trilhado por Jesus: “amar como Jesus amou; sonhar como Jesus sonhou; pensar como Jesus pensou; viver como Jesus viveu; sentir como Jesus sentia...” Este é o caminho para que, no meio ou no fim do dia e no no meio ou no fim da vida, sejamos felizes. No ‘sermão da montanha’, Jesus nos propõe o caminho de santidade que ele mesmo percorreu.
A bela mensagem de Jesus que denominamos bem-aventuranças apresenta as diversas setas que indicam claramente o caminho da santidade. Ele não fala propriamente de oito grupos específicos de pessoas, mas de oito características daqueles/as que percorrem este caminho. O caminho começa com a pobreza e termina com a perseguição, mas isso não é obstáculo, pois o Reino de Deus é antes de tudo – e no presente! – dos pobres e dos perseguidos. A consolação para os aflitos, a herança para os mansos, a saciedade para os famintos, a misericórdia para os compassivos, a visão de Deus para os puros e a filiação divina para os promotores da paz, são promessas para o futuro, mas a alegria sem fim do Reino é experiência concreta dos pobres em espírito e dos perseguidos já no tempo presente.
A santidade à qual todos/as somos chamados/as tem fisionomia de discípulado, de despojamento solidário; o coração dos/as que se afligem e choram compassivamente as dores dos outros; o ritmo inquieto dos/as que anseiam e pela justiça plena e universal; o olhar terno da misericórdia; a transparência de quem evita a duplicidade e as segundas intenções; a ousadia daqueles/as que promovem a paz; a indestrutível alegria de quem assume os custos de ser livre e libertador.
“Felizes os que têm fome e sede de justiça...”
Embora o conceito não goze de muita estima entre nós, os/as santos/as são chamados de beatos/as. Isso quer dizer que o caminho da santidade e o caminho para a felicidade coincidem. Santidade não rima com tristeza ou com fechamento em si mesmo, mas com felicidade e abertura aos outros. O caminho de Jesus Cristo, assim como a vida e a espiritualidade cristãs, são propostas de uma felicidade que coincide com a realização da mais profunda vocação humana, que, por isso, é duradoura.
O caminho que nos conduz à santidade feliz e à felicidade santa está longe de ter as características da passividade ou do afastamento do mundo. Pelo contrário, passa pelo empenhativo distanciamento dos interesses individuais ou de pequenos grupos; pela partilha da dor e da humilhação dos outros; pela mortificante e vivificante fome e sede de justiça; pela prática perseverante da atenção aos mais frágeis; pela superação das palavras e ações ambíguas; pela ativa semeadura da paz em todas as relações; pela firmeza serena nas perseguições.
Está longe do Evangelho uma santidade que se resuma em práticas de piedade. Está distante da essência humana uma felicidade baseada no sucesso pessoal e na indiferença em relação à sorte dos semelhantes. Aqueles/as que se vestem de branco e trazem palmas nas mãos são os/as vieram da grande tribulação, que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro, que recriaram sua ação libertadora, que encarnaram o Evangelho no mundo e na própria vida. Felicidade não significa ausência de dificuldades, mas realização plena e profunda da vocação humana. Mais que perfeição, santidade é perseverança no amor e no serviço.
“Seremos semelhantes a ele...”
Jesus é o verdadeiro santo. A ele devemos o louvor, a glória, a sabedoria, a honra, o poder, a força e a ação de graças. A santidade que brilha no rosto, que atua nas mãos e pulsa no coração da multidão incontável que nos antecede e nos rodeia é fruto do Espírito de santidade e de verdade que Jesus Cristo derrama sobre a comunidade daqueles/as que o seguem. Se somos filhos/as e herdeiros/as, o somos por adoção e graça, e não por mérito pessoal ou direito adquirido.
A provocação pessoal de Jesus Cristo e o estímulo dessa multidão de vestes brancas que caminha alegre e jubilosa nos coloca e nos mantém no caminho da santidade. Que nossas roupas de marca, que diferenciam hierarquizam, sujas pela impureza do nosso pensar e pela ambigüidade do nosso agir, se assemelhem às roupas do Cordeiro no talhe, na cor e no uso. Que nossas roupas sejam o hábito de quem serve, sejam como as vestes de Jesus de Nazaré.
Jesus de Nazaré, Santo de Deus e testemunha fiel! Pedimos-te a graça de permanecer de pé diante de ti, que és o Cordeiro imolado, rodeados pela  nuvem de testemunhas anônimas de todas as nações, tribos, raças e línguas. Ajuda-nos a superar a doce tentação de separar, catalogar e hierarquizar católicos e evangélicos, cristãos e não-cristãos. Fica conosco e caminha à nossa frente, para que estejamos sempre prontos/as para a travessia e para a luta. Que a nossa incrível capacidade de sofrer e nossa inexplicável alegria em meio às intermináveis lutas sejam nossas armas e nosso triunfo. E então estaremos viverendo em comunhão com os santos e santas que te rodeiam e te louvam no céu. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A Palavra na vida

(Lc 13,18-21) O Reino de Deus é como uma semente de mostarda, como o fermento que, misturado à farinha, faz a massa crescer. Ou seja: o Reino é pouca coisa, nem mesmo se faz notar, desaparece na terra, se esconde na farinha. Pequeno, mas cheio de energia própria, o Reino cresce sem que percebamos, transforma as consciências, fecunda as sociedades, plasma novos modos de pensar. Pequeno mas eficaz, presente mas não invasivo, capaz de mudar e transfigurar tudo. Mas se é assim, por que nós estamos tão preocupados com os números e estatísticas? Por que contamos as pessoas que vêm às missas ou às reuniões e lamentamos a escarsa participação? Por que às vezes damos a péssima impressão de querer que toda a massa seja fermento, de desejar infestar o mundo com a nossa semente em vez de ser uma presença minoritária mas significativa? Talvez os duríssimos tempos que estamos vivendo nos chamem exatamente a esta verdade: não importa quantos/as somos, importa quem somos e como anunciamos o Evangelho: com quanta coerência, com quanta luz, com quanto amor. Deixemos os resultados ao Senhor, a ele que vê o coração e não as estatísticas. Não importa quantos cristãos vivem no seu bairro, mas o quanto somos cristãos. (Paolo Curtaz, Parola & Preghiera, outubro/2013, p. 188)

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Catequese inculturada

“A boa nova das culturas indígenas acolhe a boa nova de Jesus.”
Foi com esse lema que a Diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM) realizou,  de 22 a 25 de outubro, um  encontro de estudos sobre a relação entre a ação evangelizadora da Igreja através da catequese e o respeito e diálogo com as tradições indígenas do  Rio Negro. O encontro aconteceu como um desdobramento do I  Seminário sobre a Catequese indígena inculturada, que ocorreu na Diocese de 1º a 4 de maio de 2013, assessorado pelo Pe. Eleazar Lopez Hernandez, do México.
As dez paróquias, com seus párocos e a representação de quatro catequistas, foram motivadas pela leitura de um texto elaborado pelo padre salesiano indígena Justino Rezende. O texto serviu de base para pensar valores da cultura nativa que poderiam servir de ponto de referência para os conteúdos da catequese tradicional.
O objetivo do encontro foi estabelecer os conteúdos e a metodologia própria para o ministério catequético, realizado com tanto afinco e esperança por inúmeros catequistas nas mais distantes comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas e nas três cidades que compõem a diocese.  A missionária leiga, Maria Soares de Camargo, enviada pelas Igrejas do Regional Sul I da CNBB para trabalhar três anos na Diocese, participou e colaborou no evento.
Dia após dia, verificou-se um comprometimento bastante significativo do grupo em produzir e partilhar os frutos dos trabalhos realizados nas paróquias, além de grande esforço em buscar elementos para avançar rumo ao ideal almejado.
Como resultado desse trabalho, a Diocese colheu a sistematização de sete encontros refletidos e preparados durante a semana de estudos, e ainda restaram outros sete temas a serem elaborados nas paróquias até o próximo dia 01 de dezembro. No início de fevereiro, após a celebração da ordenação presbiteral do indígena Gaudêncio Gomes Campos, um grupo se reunirá para retrabalhar os roteiros, que serão aplicados experimentalmente nas diferentes comunidades durante o ano de 2014.
Foram agendados também para o ano de 2014 encontros de formação intensiva, com a duração de uma semana, em cada uma das paróquias da diocese. Para tanto, a equipe diocesana de catequese, acompanhada pessoalmente pelo bispo Dom Edson Damian, visitará cada sede paroquial, procurando ajudar as comunidades a avançar ainda mais a composição do diálogo entre fé cristã e cultura indígena.
No último dia de trabalhos do Encontro, além do planejamento das próximas atividades e composição da equipe diocesana de formação catequética, o encontro contou também com uma exposição acerca de ações do Papa Francisco e a leitura e discussão de sua reveladora entrevista dada à Revista Civittá Católica, publicada em 19 de setembro último.

Os participantes foram unânimes em agradecer a Deus e às equipes pelo árduo  trabalho, que, fecundado pelo Espírito,  levou a atingir e mesmo a superar os objetivos propostos para concretizar o principio norteador da catequese inculturada: “ A  boa nova das culturas indígenas acolhe a Boa Nova de Jesus”.

(Texto enviado por e-mail Dom Edson Damian, Bispo de S. Gabriel da Cachoeira)

domingo, 27 de outubro de 2013

A Palavra na vida

(Lc 18,9-14) Os fareiseus eram devotos da lei, crentes empenhados no combate contra o relaxamento religioso do povo de Israel e na observância escrupulosa até das mais minuciosas ordens ou mandamentos atribuídos a Deus. O elenco de virtudes que o fariseu apresenta diante de Deus é aparentemente correto: observante zeloso, o fariseu paga, como todos os demais fiéis, o dízimo das suas rendas, mas vai além e dá ao templo o dízimo até dos temperos que cultiva e colhe na própria horta! Então, qual é o problema do fariseu? Muito simples: ele está de tal modo seguro de sua identidade espiritual, tão orgulhoso da própria bravura, tão cheio do próprio ego (do ego espiritual, que é o mais difícil de vencer), que Deus não encontra um cantinho onde possa se abrigar. E, o pior: ao invés de se confrontar com o projeto que Deus tem sobre ele, o fariseu se compara com quem, no seu ponto de vista, é pior que ele, no caso, com aquele publicano que, parado lá no fundo, não deveria nem mesmo ousar entrar no templo... Esse é o miolo da questão: sendo verdade que nos colocamos, com sinceridade, à procura de Deus, às vezes não conseguimos criar um espaço interior suficientemente aberto para que ele possa se manifestar. Com a cabeça e o coração entulhados de preocupações, desejos, pensamentos, invejas, méritos e comparações com os outros, não conseguimos abrir um espaço para acolher Deus. (Paolo Curtaz, Parola & Preghiera, outubro/2013, p. 176)

Testemunho sobre o Pe. Ceolin msf

Quem foi o Pe. Ceolin?


É difícil estabelecer o valor da vida de uma pessoa. Alguns dizem que este valor é determinado por aqueles que ficaram para trás. Outros crêem que seja determinado pela fé, ou pelo amor. Há também aqueles que dizem que a vida não tem nenhum significado. Particularmente acreditamos que o valor da vida de uma pessoa seja determinado pela quantidade e qualidade daqueles que a admiram. Pe. Rodolpho Ceolin viveu intensamente sua vida e, no final, mais intensamente do que a maioria o consegue durante uma vida inteira. Sabemos que o Ceolin, ao morrer, fechou os olhos, mas seu coração e sua alma permaneceram abertos, e assim estarão por toda a eternidade.
Não podemos nem queremos perder de vista o contingente de coirmãos Missionários da Sagrada Família que partiram nos últimos anos. A dedicação à Congregação e à Igreja e virtudes pessoais de todos eles também fazem jus a homenagens e consideração. No entanto, dedicamos ao Pe. Ceolin especial admiração e reconhecimento, considerando as excepcionais oportunidades de tê-lo tido como Superior Provincial, orientador, mestre de noviços e coirmão. Essas circunstâncias nos ofereceram afinidade apurada, amizade duradoura e exemplo de pessoa, sobretudo nos pontos que vamos descrever.
“Quem foi o Pe. Rodolpho Ceolin?” é a pergunta que tentamos responder nesta data que lembra os trinta dias de sua passagem para o “outro lado”, como ele mesmo dizia, ao findar seus dias “neste lado”. Sinceramente, a primeira impressão que nos vem à mente é que todo o grande homem já nasce propenso a tal. Ou seja: a grandeza da alma, do caráter e o temperamento que coordenam as atitudes, acrescidos sempre de uma história dedicada ao bem, à honestidade, a abnegação, tfaz pensar em algo congênito. E, no caso do Pe. Ceolin – sem dúvida, um grande homem – o acréscimo de uma vida dedicada à Igreja, à Congregação, à AMISAFA, às pessoas, completaram a magnífica arte que o esculpiu como um ser humano precioso e incomum.
Para aferir o valor e a grandeza de uma pessoa é importante ouvir o que os outros dizem a respeito dela ainda enquanto está viva. Sim, pois após a morte, todos, até os seres mais insignificantes, viram pessoas “santas” aos olhos daqueles que aqui permanecem. Ao Pe. Ceolin, ainda enquanto vivia, as pessoas se referiam reiteradamente com sentimentos de apreço, respeito e admiração. Muitos consideravam-no como pessoa admirável, tranquila, serena, segura, que vivia e agia com cautela, equilíbrio e bom senso nas mais diversas circunstâncias.
Pe. Ceolin foi um homem de humildade e simplicidade evangélicas. Ele nunca teve como meta o poder, o lucro ou a posse, mas o serviço e a doação em prol de quem estivesse próximo. Seu alvo sempre foi servir. Ele sabia discernir com clareza o que é verdadeiramente importante à vida, e viveu em conformidade com os valores duradouros, sempre receptivo e acolhedor, indistintamente.
Todo o grande homem é silenciosamente bom, e o Pe. Ceolin o foi. Foi genial sem sentir a necessidade de exibir sua genialidade. Foi poderoso em inteligência e sabedoria, eloquente no falar, altaneiro no postar-se, exuberante na ação, mas nunca se elevou sobre seus súditos. Sua grandeza se refletia na vida cotidiana, trabalhando por uma causa, ocupado com as pessoas. Aliás, a ninguém tratava como súdito, senão como igual, amigo, irmão a quem sempre voltava seu olhar fraterno. Seus dons e seu poder foram colocados a serviço dos outros.
Como homem verdadeiramente sábio, o Pe. Ceolin não dizia tudo que pensava, mas pensava tudo quanto dizia. Sábio sim, pois seu método “não-diretivo” de se relacionar e de orientar o levava mais a perguntar do que responder. E suas considerações finais sempre eram sinceras, objetivas, carregadas de amor e compreensão. Estas atitudes e este método o Pe. Ceolin as teve como sacerdote, como Superior Provincial, como mestre de noviços, como orientador educacional. Ele sabia responder quando perguntado, mas a perspicácia de suas perguntas surpreendiam pela profundidade e sapiência. Como orientador, pautou sua missão com uma postura ponderada e sensata. Soube encarar os desafios, transpor os obstáculos e guiar a todos os que nele buscaram orientação e aconselhamento com equilíbrio e peculiar serenidade, sempre acenando e alertando para o mais adequado, para o certo, para o ético, para o que é de Deus.
O Pe. Ceolin foi uma pessoa continuamente ocupada em expandir sua mente e suas capacidades. Uma pessoa aberta ao novo, conhecedora profunda de si própria e dos mecanismo da mente do ser humano. Foi um investigatigador dos traumas causadores de comportamentos mesquinhos e desequilíbrios. Orientava-se com humildade, consciente dos próprios entraves, contra os quais lutava com o intuito de tornar-se um homem “liberto e novo.” Foi uma pessoa sempre vigilante em relação aos próprios sentimentos e emoções, preocupações e deficiências, corajoso no reconhecimento e confessão das próprias falhas e limitações.  Foi um homem que, mesmo diante dos limites da vida pessoal, soube ter humildade suficiente para admitir seus erros, desperto o bastante para tirar proveito deles e forte o suficiente para corrigi-los, ajustar suas condutas e dirigir sua vida e sua vocação com sentido altruísta.
O Pe. Ceolin relacionava-se com equilíbrio e profundo respeito ao ser do outro, conduzindo as relações com confiança e segurança, mantendo a humildade e, por vezes, disseminando senso de humor inteligente, deixando à vontade quem nele buscava orientação. Por isso, foi um grande amigo, um coirmão autêntico, fidedigno, companheiro de verdade, com infinita capacidade de amar e compreender, de espírito fraterno, capaz de estabelecer relações humanas de qualidade. Cultivava suas amizades através de visitas, telefonemas, cartas, bilhetes, mensagens, cartões de aniversário...
O Pe. Ceolin empreendeu uma jornada extraordinária. Foi um ser humano admirável, um homem de fé e oração. Profundo, um poço de sabedoria! Dava a impressão de possuir o dom de estar aqui e no além ao mesmo tempo, tamanha era a serenidade que transluzia no conversar, no orar e no trabalhar. Foi um missionário autêntico, com a mística do Fundador João Berthier, que com sua obra propiciou o surgimento de vocações divinas, dentre as quais o Pe. Rodopho Ceolin.
Muito mais do que isso! O Pe. Ceolin foi um bertheriano que imitou seu Fundador no amor a Sagrada Família e na devoção a Nossa Senhora da Salete. Homem de fé e oração, soube como poucos, inspirar-se na Sagrada Família e Nossa Senhora da Salette, pregando a boa notícia do Evangelho. Soube dinamizar e motivar o carisma missionário nos coirmãos, a quem se referia sempre com espírito fraterno. Isso tudo ele viveu intensamente como religioso, formador, superior, orientador espiritual e sacerdote, consagrando a vida à Congregação e à Igreja.
Foto de 1980: Pe. Ceolin (ao alto,o primeiro  à esquerda)
e Antonio Luiz Mariani (ao alto, o quarto da esquerda para a direita)
Assim foi o Pe. Ceolin! E dizê-lo faz-se necessário para assegurar o assentamento das suas virtudes às gerações vindouras, pois todos os que o conhecemos e convivemos com ele, sem dúvida, intimamo-nos como testemunhas e sentimo-nos privilegiados por termos sido companheiros de viagem de um homem tão precioso quanto o foi Pe. Ceolin na concisa mas completa passagem por este mundo. Para um homem assim extraordinário, a morte não é mais do que a completa recompensa, a passagem à paz, “o descanso pleno do bravo guerreiro, após a épica batalha vencida com muita glória”.
Se pudéssemos falar pessoalmente a ele, diríamos: “Pe. Ceolin! Após teres cumprido com brilhantismo e vivacidade tua nobre missão, partiste para o merecido repouso, “para o outro lado”, como tu mesmo dizias, para te juntares à Sagrada Família e aos coirmãos que te precederam. Partiste para desfrutar com eles do descanso e da merecida felicidade, no aguardo dos que aqui permanecemos. Concluíste tua vida discorrendo sobre a vida. Agora estás “do lado de lá”, na presença dEle – Começo, Meio, Razão e Fim! – mas estás concomitantemente conosco, “do lado de cá”, onde a vida continua bela como sempre foi.
Antônio Luiz e Terezinha A. Mariani

(Colaboradores da AMISAFA, ex-prefeito de Anchieta – SC)

sábado, 26 de outubro de 2013

A tragédia de Lampedusa

Prá não esquecer a tragédia de Lampedusa
O grupo dos promotores de Justiça, Paz e Intregridade da Criação (JPIC), ligado às Uniões dos Superiores Gerais, promove, na última sexta-feira de dada mês, um encontro de oração em torno de uma situação concreta de violação da justiça, da paz e da integridade da criação. Estes encontros são realizados na igreja São Marcelo, no centro de Roma.

Ontem o encontro fez memória e clamor do trágico destino dos migrantes que tentam entrar na Europa, recordando especialmente o terrível naufrágio que vitimou 400 dos mais de 500 refugiados provindos da Eritréia e da Somália, no último 3 de outubro. A igreja estava lotada, especialmente de religiosas, mas o número era dezenas de vezes menor que multidão de religiosos/as que dominicalmente vai à Praça de São Pedro participar da oração do Angelus...

Como sabemos, uma frágil embarcação, manobrada por aproveitadores e criminosos que exploram o desespero humano, transportava mais de 500 homens, mulheres e crianças, migrantes desesperados que fizeram uma viagem de mais de 4.000 quilômetros, fugindo da guerra na Somália ou da opressão na Eritréia. Mas os números desta tragédia não são novidade, pois fatos como este se repetem todos os dias e não recebem mais que algumas linhas nos jornais.

Faz tempo que a Europa fechou suas portas aos imigrantes “ilegais”. E continua dizendo claramente que eles não são bem vistos nem bem vindos. Recusando os pedidos de visto na origem, os governos fizeram uma espécie de acordo informal com os estados do Norte de África: a estes compete fazer o trabalho sujo, fazendo de tudo para que os navios não cheguem às costas da Europa. Assim, milhares de africanos subsaarianos giram sem rumo pelas cidades costeiras de países como Marrocos e Argélia, depois de terem percorrido milhares de quilômetros, perdido as raízes e gasto tudo...

A União Européia investe milhões de euros num dispositivo quase militar para vigiar suas fronteiras e evitar o que chama de “invasão de migrantes”. Através da agência Frontex, a Europa intercepta os migrantes nas fronteiras terrestres ou marítimas e os devolve aos países de origem por via aérea. E parece pouco se importar com os direitos humanos, como o direito de asilo, a um tratamento digno e à integridade física. Tudo ocorre como se os imigrantes pertencessem a uma classe inferior de cidadãos...

Depois de terem arriscado a vida numa travessia incerta, os imigrantes que conseguem chegar às fronteiras européias acabam detidos por meses e meses por causa de problemas burocráticos, sem direitos essenciais, como, por exemplo, assistência sanitária. São publicamente difamados e acusados de roubar o trabalho dos cidadãos europeus e de ameçar seus bons hábitos. Na Grécia, na Holanda e na Noruega existem partidos políticos que se opõem de forma aberta e violenta aos imigrantes. Tudo isso, dizem, para proteger o estado de bem-estar, como se o bem-estar de alguns devesse ser pago pelos outros...

Estas multidões, “indecisoes cordões” vivem à beira do desespero, pois arriscaram e perderam tudo. Se houvesse a possibilidade de pedir asilo político nos países de destino nas embaixadas de um terceiro país, os imigrantes não seriam forçados a longas e perigosas viagens, diminuiria o risco de caírem nas mãos de grupos mafiosos e se evitaria a necessidade de chegarem via marítima a um lugar que garanta proteção internacional.

A desgraça de Lampedusa (03.10.2013) provocou uma inesperada e estranha explosão de demonstrações de luto por parte da comunidade internacional e dos governos de vários países europeus. Entretanto os países membros da União Européia mantém com outros países acordos sobre a migração que contradizem as condolências expressas publicamente. Não é uma questão de impotência ou falta de recursos, mas de cinismo e de prepotência.

Este cinismo chegou ao grau máximo quando o governo italiano anunciou que todas as vítimas fatais do naufrágio do dia 3 de outubro obteriam a cidadania italiana. Mas no mesmo dia, o Ministério Público de Agrigento (Sicília), acusava os 144 sobreviventes de terem cometido crime de imigração clandestina, que pode ser punido com multa de até cinco mil euros e expulsão do território italiano... Imigrante bom é imigrante morto?


Itacir Brassiani msf

A Palavra na vida

(Lc 13,1-9) A dor do inocente é a única verdadeira objeção que se pode levantar à bondade de Deus. Mas, neste caso, a Bíblia não oferece soluções fáceis ou atalhos atraentes: o sofrimento permanece um mistério incompreensível. Uma das respostas a este enigma – muito comum ainda hoje! – consiste em atribuir o sofrimento humano à vontade punitiva (ou ao menos à permissão) de Deus: quem peca deve descontar sua culpa. Mesmo que o livro de Jó tivesse já desmontado radicalmente esta suposição – Jó sofre mesmo sendo santo! – no tempo de Jesus muita gente estava convencida de que as desgraças eram consequência dos pecados das próprias vítimas. Mas Jesus insiste que não é assim! A culpa pela morte dos dezoito judeus sepultados sob os escombros da torre de Siloé não deve ser atribuída a eles mesmos, nem a Deus, mas à imperícia do engenheiro e à irresponsabilidade dos construtores. Da mesma forma, a morte violenta dos devotos assassinados pelos romanos na área do templo deve ser debitada na conta de Pilatos e ao seu modo de exercer o poder, e não aos supostos pecados deles mesmos. Portanto, diante dos acontecimentos difíceis, não descarreguemos a responsabilidade sobre Deus. Consideremos estes fatos como uma oportunidade de reflexão e de conversão, como uma ocasião a mais para produzir frutos. Como se os imprevistos fossem o adubo que nos ajuda a ir ao essencial... (Paolo Curtaz, Parola & Preghiera, outubro/2013, p. 170)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

30° Domingo do Tempo Comum

Façamos resplandecer a boa vida do Evangelho.
(Eclo 31,15-17.20-22; Sl 33/34; 2Tm 4,6-8.16-18; Lc 18,9-14)

Há mais de 80 anos, a Igreja católica do Brasil dedica o mês de outubro à oração pelas missões. Somos convidados/as a celebrar a memória do Senhor e a ouvir sua Palavra sintonizando o bater do coração, o ritmo dos passos e o olhar da fé com a missão. Que nossa oração evite a presunção da superioridade e brote da humilde consciência de que, infelizmente, o coração de nossas comunidades ainda não bate suficientemente forte e alegre ao ritmo da missão. Mas, acima de tudo, confirmemos nosso engajamento para que, como diz o Papa Francisco na sua mensagem para o Dia Mundia das Missões, resplandeça hoje e urgentemente a vida boa do Evangelho, mediante o anúncio e o testemunho, começando no interior da própria Igreja.
“O Senhor é um juiz que não faz discriminação de pessoas.”
Por mais que se queira negar ou maquiar, nosso mundo está estruturalmente dividido. Não é necessário viajar além-fronteiras para perceber que, em termos gerais, os países do hemisfério Norte, outrora denominados Primeiro Mundo, vivem na abundância de bens e oportunidades, enquanto que os países do hemisfério Sul são condenados a digerir a miséria à qual a secular expropriação os condenou. Esta divisão se mantém hoje através das barreiras legais impostas aos migrantes que fogem do Sul, muitos dos quais morrem no próprio caminho que os levaria a uma vida melhor.
Existem também divisões entre pessoas e grupos sociais. Não se trata apenas de diferença – que é um valor e um direito a ser defendido – entre pessoas, etnias e grupos, mas de divisão que hierarquiza e exclui muita gente e muitas culturas e países. Basta lembrar da primazia que a cultura e os meios de comunicação dão às pessoas e grupos ocidentais, brancos, masculinos, cultos e ricos. É evidente que os orientais, os negros e índios, as mulheres, os analfabetos e os pobres são tratados como inferiores.
Quando sublinhamos a evidência desta divisão, vozes se levantam acusando-nos de filo-marxistas, tendenciosos e interesseiros. Mas é preciso lembrar que a Palavra de Deus não põe panos quentes nem faz olho grande frente a esta divisão. Ao contrário, a bíblia inteira, especialmente os escritos proféticos e os evangelhos, mostram que Deus denuncia essa divisão como inaceitável e toma partido em favor das pessoas e grupos mais fracos: os escravos e estrangeiros, as viúvas e os órfãos, os pobres e os excluídos.
“Dois homens subiram ao templo para rezar.”
Será que esta nefasta divisão existe também no interior das nossas igrejas? Infelizmente, devemos responder dizendo que sim. Para confirmar, basta dar uma olhada atenta à primazia conferida às Igrejas européias – à teologia, ao direito e à liturgia por elas elaboradas – no confronto com as Igrejas do (mal dito) Terceiro Mundo. Não obstante a notável ajuda econômica que as primeiras versam nos cofres vazios das segundas, não é raro ouvir ainda hoje de altos hierarcas que todos os cristãos devem assimilar a fé na sua versão européia.
E tem mais. Não podemos esquecer aquela profunda e dolorida divisão – que às vezes se transforma em oposição e em condenação recíproca – entre as próprias comunidades cristãs: ortodoxos e romanos, católicos e protestantes, igrejas clássicas (católicas e evangélicas) e igrejas pentecostais, etc. Como pode ser agradável a Deus um culto no qual membros desta ou daquela igreja se gloriam por não serem como os outros: idólatras, mal-intencionados, interesseiros, exploradores da fé do povo?
A este propósito é impressionante o testemunho do apóstolo Paulo. Ele combate com tenacidade a postura de superioridade dos judeus e dos novos cristãos de origem judaica em relação aos pagãos ou aos cristãos vindos do paganismo. Quando escreve, em forma de testamento, que combateu o bom combate, completou a corrida e guardou a fé, está se referindo à sua convição de que Cristo é nossa paz, pois de dois povos fez um só povo, derrubando o muro da inimizade que os separava (cf. Ef 2,14).
“A prece do humilde atravessa as nuvens...”
No centro do evangelho deste domingo está a questão da correta atitude de quem reza. Se, no último domingo, Jesus nos pedia para não desistir de rezar, hoje ele nos pede atenção sobre como rezamos. Em forma de parábola, Jesus confronta a postura de dois personagens bem conhecidos: o fariseu, cioso de sua superioridade e perfeição, isolado das pessoas comuns, ostensiva e exteriormente piedoso; o publicano, cobrador de impostos, colaborador do poder estrangeiro, impuro e execrável aos olhos dos judeus nacionalistas, excluído da vida social e religiosa que gira em torno do templo.
Desejoso de ser visto e reconhecido, o fariseu reza de pé e olha os demais de cima para baixo. Sua oração é uma espécie de auto-elogio e, ao mesmo tempo, desprezo e condenação dos demais. É como se o próprio Deus fosse obrigado a agradecê-lo por ser tão bom e correto. O publicano praticamente não entra no templo e, sem coragem mesmo de levantar os olhos, bate no peito reconhecendo sua condição ambivalente e pedindo que Deus se compadeça dele.
É bem possível que estas diferentes posturas na oração não seja um problema somente do judaísmo. Se Lucas nos traz esta questão é porque ela estava presente também nas comunidades cristãs. A ostentação e a pretensão de superioridade, sempre acompanhadas de uma agressiva discriminação, contaminaram também os cristãos e infelizmente resistem, como erva daninha difícil de erradicar, até os nossos dias. E quase sempre vêm revestidas com a atraente roupagem da piedade.
 “O pobre clama a Deus e ele escuta...”
Desde a parábola de Abel e Caim , sentimo-nos incomodados diante da imagem de um Deus que não trata a todas as pessoas do mesmo modo. Imaginamos um Deus com os olhos vedados, como a clássica imagem da justiça. Como diante da lei todos seriam iguais, a justiça não poderia ter preferências... Mas Deus não é assim. “Ele não é parcial em prejuízo do pobres, mas escuta, sim, as súplicas dos oprimidos; jamais despreza a súplica do órfão, nem da viúva, quando desabafa suas mágoas.”
A humanidade que queremos única começa a ser gerada exatamente quando, em nome de Deus, evitamos a parcialidade que relega os fracos a um sofrimento contínuo e assumimos a luta pelos seus direitos não reconhecidos ou não atendidos. A sonhada humanidade chamada a ser única família não será uma realidade enquanto insistirmos numa igualdade apenas formal das pessoas, uma igualdade negada descaradamente pelas escandalosas desigualdades econômicas, sociais, culturais e religiosas.
Voltemos a Abel e Caim (cf. Gn 4,1-16). Abel é pastor, não tem terra, vive como migrante, numa insegurança estruturalmente provocada. Caim é agricultor, administra uma propriedade, goza de estabilidade. Não há porque estranhar quando o texto sagrado diz que “o Senhor olhou para Abel e sua oferta, mas não deu atenção a Caim com sua oferta”. O que Caim era realmente acaba vindo à tona logo em seguida: se mostra absolutamente indiferente e mortalmente violento em relação ao seu irmão.
“Ele fez com que a mensagem fosse anunciada integralmente...”
A humanidade tem como vocação ser uma só família. A interdependência dos povos e nações é já um fato objetivo, mas precisa se tornar um valor assimilado subjetivamente e garantido estruturalmente. Sabemos que um acontecimento econômico relevante nos EUA repercute em todo o globo, e que uma crise política no Oriente Médio agita todas bolsas de valores e, interferindo na cotação do petróleo, penaliza os produtores dos mais remotos rincões do mundo. A interdependência é um fato.
Mas o desafio – e nisso a missão dos cristãos pode contribuir enormemente! – é transformar esta solidariedade objetiva e estrutural num valor a ser positivamente buscado e assegurado em favor de todos. A dignidade da pessoa humana independe de sua origem étnica, pertença religiosa, nacionalidade, convicção política, identidade sexual ou grau de instrução. Estas diferenças não dividem, nem hierarquizam; apenas distinguem, complementam e enriquecem.
 “Combati o bom combate, completei a corrida...”
Deus Pai-Mãe, tu fazes a prece do humilde atravessar as nuvens. Despoja-nos de todo orgulho arrogante e de toda competição infantil. Ajuda-nos a anunciar teu Evangelho integralmente e a fazer resplandecer, pelo anúncio e pelo testemunho, a boa notícia e a boa vida que ele nos traz. E isso até que a humanidade seja de fato uma família, na qual todos os membros são queridos e respeitados. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf