quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Oitavo Domingo do Tempo Comum (Ano A - 2014)

Será que não valemos muito mais que os pássaros?
Somos pessoas do nosso tempo. Andamos ocupados com muitas coisas. O problema não é simplesmente a ocupação, mas a pre-ocupação. Preocupação é aquilo que monopoliza nossos interesses, que toma a nossa atenção e invade nossos sentimentos antecipadamente, produzindo ansiedade, insegurança e medo. É uma espécie de obsessão que sequestra o coração e a mente. Preocupam-nos a segurança, o que os outros pensam de nós, o futuro, e tanta coisa mais...
A palavra “preocupação” aparece cinco vezes no evangelho deste domingo. Jesus questiona nossa excessiva preocupaçao com a comida, a bebida e a segurança. Mas reagimos educadamente, dizendo que comida não cai do céu, bebida não costuma vir com a chuva, Deus ajuda quem cedo madruga... E em nome do necessário bom senso e da superação da passividade, cresce o número daqueles que guardam o Evangelho na gaveta das lembranças da primeira comunhão e tocam a vida sem ele.
Mas não podemos esquecer que, ao lado daqueles que pensam que o dinheiro é indispensável à felicidade, cresce uma multidão de gente que carece do mínimo para viver.  E Jesus nos lembra que estas questões fundamentais são sociais, e não podem ser resolvidas privadamente, numa luta predatória na qual os mais fortes e astutos derrotam e desfrutam tranquilamente dos mais fracos. Por isso, afirma de forma lapidar: “Vós não podeis servrir a Deus e ao dinheiro!”
Sem ceder à evasão e à ingenuidade, Jesus questiona a carência produzida pelas políticas sociais restritivas, que submetem os pobres à ‘ditadura da sobrevivência’. “A vida não vale mais que a comida? O corpo não vale mais que a roupa?” No centro de tudo deve estar o mistério irredutível da vida de cada pessoa e suas necessidades. Comida, bebida, casa, saúde e todos os bens econômicos e culturais estão a serviço da vida e da dignidade da pessoa, e não podem substituí-la.
Jesus desafia as pessoas que têm bens em abundânia e encoraja aquelas que têm pouco ou nada. Começa convidando a olhar para os passarinhos e para as flores para aprender as lições que nos ensinam: eles não conhecem a preocupação nem a ansiedade, mas não lhes falta alimento nem beleza. Deus provê a cada criatura aquilo que necessita. “Será que vocês não valem mais que os pássaros?... Deus fará muito mais por vocês!” Grands preocupações nada podem acrescentar à vida.
Mas é verdade que a certeza de que a nossa vida está nas mãos de Deus não nos dispensa de tomar iniciativas. E isso começa com o centramento dos nossos interesses e preocupações no Reino de Deus, não dividindo com nada e com ninguém mais esta entrega. E isso significa seguir Jesus Cristo, fazer-se discípulo dele, reproduzir na própria vida sua pró-existência, perder a vida para que todos tenham vida, assumir a causa dos pobres, desvalidos e oprimidos... E assim por diante.
Jesus insiste na inutilidade da preocupação obsessiva com as próprias necessidades, mas está longe de aceitar ou propor a indiferença diante das necessidades primárias dos outros. Nada mais contrário ao ensino e à prática de Jesus Cristo! A busca do Reino de Deus é exatamente o empenho pessoal em prol de um mundo justo e fraterno, que assegure a satisfação das necessidades de todas as pessoas. A necessidade material dos irmãos é para nós um desafio espiritual.
Paulo nos lembra que, na força do batismo, somos servidores e administradores dos dons que Deus concede à humanidade. Importa então cumprir esta missão com responsabilidade, fidelidade e criatividade. Não é hora de buscar segurança e elogios, pois, no momento oportuno, Cristo mesmo colocará tudo às claras, manifestará as intenções secretas e dará a cada um o louvor que lhe corresponde. O que se espera dos administradores é que sejam responsáveis e fiéis!
Voltamos nosso olhar a ti, Deus pai e mãe, e nas tuas mãos depositamos nossas necessidades, anseios e preocupações. Queremos servir somente a ti, e a nenhum outro senhor! Ajuda-nos a permanecer na escola do teu Filho, buscando com ele o teu Reino acima e antes de tudo. Ensina-nos a lição dos pássaros do céu e dos lírios do campo. Livra-nos da preocupação obsessiva com nossas próprias necessidades, pois isso é inútil e traz a morte. E não permite que sejamos seduzidos pelo reino de mammon, o terrível e sanguinário senhor da riqueza de uns poucos. E que as necessidades dos nossos irmãos e irmãs sejam a única preocupação capaz de tirar nosso sono. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Isaías 49,14-15 * Salmo 61 (62) * Primeira Carta aos Coríntios 4,1-5 * Mateus 6,24-34)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Reflexões do Pe. ceolin (6)

Vocês reviverão!


No Bertheriano de março de 1999 (Ano XVII, N° 61, p. 16-17), foi inserido um artigo meu entitulado “Senhor, estamos morrendo!” Ao escrevê-lo, tinha em mente os cuidados que devo ter para não pôr em risco a vocação religiosa e ministerial. E, consequentemente, minha permanência ou afastamento de tantos coirmãos de ontem e de hoje, personagens importantes em minha história. Publiquei o citado artigo pensando também na Província, em todos nós.
Não sou mais nem menos que ninguém dos coirmãos para passar-lhes conselhos moralizantes. Sou alguém que observa, reflete sobre algumas situações de vida, minha e da Província. Sofro e entristeço-me toda vez que ouço: “Mais um se foi!...” Mais um acaba de deixar-nos! Que pena! Por que veio isso a acontecer? Tal desfecho poderia ter sido evitado?...
No estudo recente que todos fizemos acerca da conjuntura da nossa Província, foram levantados alguns dados deveras alarmantes. Existem dificuldades e resistências em romper com o senso comum (“Deixa como está! Assim está mais que bom! Por que nos perturbam com inovações?”). Nossa conjuntura aponta muitas marcas de individualismo e interesses pessoais sobrepondo-se ao comunitário. Fala-se em fragmentação. E isso não é de meter medo? Não é coisa de assustar? Tal realidade não estaria a dizer-nos: “Abram os olhos! Gente, o barco de vocês corre perigo! Estão esperando que a Província se afunde ainda mais?”
De uns anos para cá, porém, um sopro novo do Espírito é perceptível em nossa Província. Acontece algo semelhante com o episódio descrito pelo profeta Ezequiel (37,1-14). Diante de um vale cheio de ossos ressequidos, Javé manda Ezequiel dizer-lhes: “Vou infundir um espírito, e vocês reviverão!” Enquanto ele profetizava, “ouviu-se um barulho e os ossos começaram a movimentar-se, começaram a aproximar-se um do outro. Foram aparecendo nervos, sendo cobertos de carne e de pele.” Ezequiel profetizou novamente: “Espírito, venha dos quatro ventos e sopre nesses cadáveres, para que revivam!” O Espírito penetrou neles e reviveram, colocando-se de pé. Era um exército imenso.”
Recordemo-nos, irmãos, das vezes tantas em que ressoou, nos encontros que fizemos, o brado seguinte: “Ah, uma vez tínhamos métodos de cultivo!... Está na hora de encontrar e implantar um método novo!” Era a voz do Espírito! Nós permanecemos surdos por algum tempo. Um belo dia (estamos ainda lembrados?) ezequieis da Província levaram-nos a refletir sobre nossa vida e compromisso, a tríplice aliança: aliança com Deus (consagração, discipulado); aliança com os coirmãos (comunhão); aliança com os pobres (missão). Era o Espírito a soprar mais forte. Ele levou-nos a refletir também sobre a refundação da vida religiosa e missionária. O Espírito continuou soprando. E não vai parar de fazê-lo, até que nos coloquemos de pé, redivivos.
Perguntemo-nos agora: o Espírito Santo esteve presente no XIX Capítulo Provincial (julho de 1998)? Não seria esse um prenúncio de um novo pentecostes na Província? Até mais do que simples prenúncio: quando nos reunimos em cenáculo, para rezar e avaliar em profundidade nossas vidas e nossas práticas; quando cada um se debruça para traçar seu Projeto de Vida; quando os grupos de vida e de trabalho se põem a labutar arduamente no seu Plano Político-Pedagógico; quando a Província inteira se empenha em delinear o Plano Estratégico para os próximos anos...; tudo isso, meu irmão, juntamente com o Plano de Formação já em andamento, é ou não é um pentecostes entre nós?
Ouço, neste momento, uma voz insistente, cada vez mais forte a dizer: “Vocês reviverão!” Um vento, a esta altura já impetuoso, como em Jerusalém, atravessa a Província em todas as direções. Já não há mais como detê-lo. Vejo labaredas de fogo pousando sobre as cabeças de sempre mais gente nossa... Agora, já dispondo de valioso instrumental de cultivo pessoal e comunitário, um método de cultivo como pedíamos, passaremos algum tempo nos apropriando racionalmente dele, tratando de entender seu conteúdo. A apropriação racional não será suficiente e não satisfaz. É preciso também se apropriar com o coração. E isso acontecerá.

Concluindo, faço um apelo à Coordenação Provincial e aos Conselhos locais: vocês foram eleitos por nós não apenas para tratar de nossas transferências; não apenas para ouvir nossos queixumes; nem só para dirimir questiúnculas entre nós e apagar incêndios nas comunidades... Nós os elegemos, antes de tudo, para a missão de fomentar o zelo religioso e apostólico; incentivar a cooperação e fortalecer a confiança entre os irmãos, a fim de que as comunidades e todos os coirmãos cheguem à unidade em Cristo, que é o centro (cf. Const. 115).

Que disso todos tenhamos consciência, prontos estejamos a colaborar, pois não queremos ser insensíveis e surdos à ação do Espírito, neste tempo de graça e de misericórdia de nosso Deus, que nos pede: “Não extingais o Espírito!” Ele nos grita bem alto: “Vocês já estão revivendo! Coragem! Estou com vocês!” Se eu e você, meu irmão, formos fiéis ao Espírito, dificilmente de nós será dito: “Eh, mais um se foi!...”
Pe. Rodolpho Ceolin msf


(Reflexão publicada em O Bertheriano, Ano XVII, N° 62, Junho/1999, p. 23-24)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Desafios atuais à Vida Religiosa (6)


Desafio 6: Viver a minoridade com alegria e convicção

O Evangelho é um caminho que, quando percorrido com fidelidade lúcida e criativa, nos leva a descer, a ceder o lugar, a servir, a deixar os primeiros e ocupar os últimos lugares. E assim foi desde o início, desde Jesus, e nas melhores páginas que o cristianismo escreveu na história e nas testemunhas mais verdadeiras que gerou. Como no episódio do batismo de Jesus, quando Deus contempla seus filhos e filhas no meio da multidão pecadora mas desejosa de preparar estradas para o Messias, ele fala: “Estes são os filhos e filhas que eu amo e que me dão prazer!”

Infelizmente o cristianismo ocidental, e com ele a vida religiosa, adquiriu status e importância social e política. A hegemonia estatística entre os movimentos religiosos, temperada pelo elitismo dos seus membros, pouco a pouco levou o cristianismo e a vida religiosa ao sentimento e à postura de superioridade, de grandeza. Mesmo depois da devastadora crise do século XVIII, a vida religiosa conheceu um renascimento espiritual e numérico que confirmou sua ilusão de potência social e eclesial que ainda hoje é recordado entre suspiros e saudades.

Por aqui podemos compreender o sentimento de angústia e a preocupação que anda tirando o sono e o vigor dos religiosos e religiosas, especialmente da Europa e das Américas, diante da vertiginosa queda numérica que vem experimentando a partir da segunda metade do século passado. Mesmo quando não ocupa a agenda prioritária dos seminários e encontros, o tema costuma estar presente nas rodas de conversa e se insinua numa espécie de busca desesperada de vocações, de qualquer tipo e em qualquer lugar.

Mas um segundo fruto deste resvalo para caminhos paralelos ao Evangelho é a nem sempre bem disfarçada luta por espaços entre os/as religiosos/as e a hierarquia eclesiástica, entre dioceses e institutos religiosos. Esta disputa tem muito a ver com a busca de relevância e de poder, ou seja, de visibilidade e de influência na Igreja e na sociedade. Tudo como se o reconhecimento e o poder fossem salvo-condutos e garantes para a autenticidade e a fecundidade da vida religiosa, como se sua condição fosse a de senhora e não a de serva e como seu o seu lugar fosse entre os maiores e não entre os menores, entre os primeiros e não entre os últimos.

O mar não está para peixes grandes... O tempo que se chama hoje não está para triunfalismos. E isso não apenas por uma questão de respeito à sensibilidade social, mas principalmente por fidelidade ao Evangelho, a Regra suprema da vida religiosa. A vida religiosa é desafiada a recuperar criativamente sua condição de servidora da humanidade e seu lugar entre os menores e despojados de poder, inclusive na Igreja. Sem nenhum maniqueísmo, seu lugar é mais caminhando junto dos leigos e leigas que inclinada aos pés da hierarquia ou dos altares. Se não resgatar esse espírito, perderá sua capacidade e missão de fermento e sal.

Discutindo as crises e possibilidades da vida religiosa apostólica, o Pe. Carlos Palacios nos interpela, com sua costumeira capacidade provocativa:  “Somos capazes de aceitar que a pobreza do ser a que está reduzida sob muitos aspectos a vida religiosa apostólica possa ser uma palavra que Deus nos dirige hoje, tenha um sentido e possa ser fecunda? Podemos conceber e acolher em paz que a situação humilhada da vida religiosa apostólica hoje pode nos aproximar do evangelho e de Jesus mais que o triunfalismo histórico da vida religiosa apostólica no passado? E que a diminuição quantitativa possa ser o caminho para crescer em qualidade e para uma maior vitalidade espiritual?”

Itacir Brassiani msf

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Sétimo Domingo do Tempo Comum (Ano A - 2014)

Mostramos com a vida que somos filhos de Deus?
Jesus nos apresenta um caminho inusitado mas seguro para  felicidade,  para a plena realização das aspirações humanas mais profundas, para a santidade. Trata-se de buscar a perfeição ou o jeito de ser do próprio Deus, evitando a tentação de construir uma idéia de Deus à nossa imagem e semelhança, delimitado pelos nossos medos e interesses. Embora este caminho nos pareça um pouco estranho e dissonante, o próprio Jesus o viveu em primeira pessoa.
No evangelho de hoje Jesus começa respondendo à nossa pergunta sobre ‘como reagir frente às situações de violência e seus agentes’? Ele conhecia bem a lei judaica que, para limitar uma violência reativa e desproporcional à violência sofrida, propunha não passar do “olho por olho” e do “dente por dente”. Mas Jesus nos surpreende apontando os limites deste preceito: pagar com a mesma moeda não erradica a violência que ofende, machuca e mata.
Jesus pede para não reagirmos com violência à ação dos violentos. Mas vai adiante, ilustrando e concretizando sua proposta de não-violência ativa em três situações: o tapa na cara, ato de humilhação considerado um direito dos superiores; o processo de penhora da roupa de um pobre endividado, visto como direito dos credores; a obrigação de acompanhar a marcha dos soldados imperiais, carregando às costas as armas que se voltavam contra o próprio povo.
A proposta de Jesus não tem nada de submissão passividade. Oferecer a outra face significa permanecer senhor de si e desafiar a legalidade de um sistema projetado para humilhar. Dar o manto a quem penhora a túnica (desnudar-se publicamente) significa revelar a humanidade que a todos irmana e  denunciar a avareza dos credores. Caminhar o dobro do que o soldado determinou significa não aceitar o jogo do império, questionar a hierarquia, tomar a iniciativa e decidir a ação.
O caminho proposto por Jesus tem como meta eliminar o círculo vicioso que liga as ações e reações violentas. O fato é que sempre classificamos as pessoas e dividimos o mundo em amigos e inimigos, amamos e respeitamos os que estão próximos e alimentamos suspeitas e somos indiferentes em relação aos estranhos. É aqui que entra o mandamento de Jesus: nosso amor não pode ser restritos aos iguais, aos próximos, mas deve chegar aos estranhos e distantes, até aos inimigos.
Sabemos que a figura do próximo abrange uma certa diversidade de gênero, riqueza, parentesco e etnia, e que a imagem do inimigo não se limita aos adversários nacionais ou aos membros de outras religiões, mas se estende aos oponentes pessoais e até à gente da própria família. Hoje colocaríamos entre os inimigos (reais ou potenciais) as pessoas e grupos que ameaçam nosso bem-estar e nossos privilégios ou questionam nossa supremacia em termos de competência, gênero, religião, cultura, etc.
Pedindo que amemos nossos inimigos e até rezemos por aqueles que nos perseguem, Jesus está sublinhando que condição social, a etnia, o gênero e a religião não podem ser limites que restringem o dinamismo do nosso amor. O amor entre os iguais pode ser egoísmo! Mas o próprio Jesus mostra que este amor não é sinônimo de gentileza nem isento de conflitos. Rezar por quem nos persegue significa também clamar pelo fim da opressão e das estruturas que as sustentam!
Jesus resume sua proposta ética e espiritual numa frase:  “Sejam perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito.” A perfeição do Pai faz com que a chuva beneficie tanto os justos como os injustos e o sol ilumine tanto os bons quanto os maus. Ser perfeito/a como o Pai celeste significa não impor condições nem ter reservas, ser inteiro/a e verdadeiro/a em tudo e com todos/as, pois, como nos lembra Paulo, todos – nós, os outros, a comunidade eclesial e a comunidade humana! – somos templos do Espírito Santo.
Jesus, mestre e servidor da liberdade, de todas as liberdades: ajuda tua Igreja a vencer o terrível medo da liberdade e da verdade que viveste e ofereceste a todos/as. Faz que nossas comunidades sejam laboratórios nos quais as pessoas de boa vontade se exercitem no respeito e na promoção da dignidade de todos os teus filhos e filhas, inclusive no amor aos inimigos. E dá-nos a sábia loucura que espanta os doutores mas seduz as pessoas que não sacrificaram sua humanidade no altar do egoísmo predatório. Queremos ser filhos/as do Pai celeste! Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Levítico 1,2.17-18 * Salmo 102 (103) * Primeira Carta aos Coríntios 3,16-23 * Mateus 5,38-48)

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

As linguas maternas

(Angela Loij - http://manodemandiocacine.blogspot.it/
2012/03/ona-people.html)

O mundo enconlhe

Hoje, 21 de fevereiro, é o dia das línguas maternas.

A cada duas semanas, morre um idioma. O mundo diminui quando perde seus humanos dizeres, da mesma forma que enconlhe quando perde a diversidade de suas plantas e bichos.

Em 1974 morreu Angela Loij, uma das últimas indígenas onas da Terra do Fogo, lá no fim do mundo; e a última que falava a sua língua.

Angela cantava sozinha, cantava para ninguém, nessa língua que ninguém mais lembrava: “Vou andando pelas pegadas / daqueles que já se foram. / Estou perdida.”

Nos tempos idos, os onas adoravam vários deuses. O deus supremo se chamava Pemaulk. Pemaulk significa palavra.

(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 69)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Desafios atuais à Vida Religiosa (5)


Desafio 5: Inserir-se com naturalidade na vida e missão da Igreja

A Vida Religiosa nasceu eclesial e encontra na comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus seu ambiente natural, o ecossistema no qual interage com outras formas de vida, dando e recebendo. Somente nos momentos em que esteve gravemente doente, a Vida Religiosa se sentiu e agiu como um mundo à parte, como uma seita especial, como um corpúsculo situado fora ou acima do corpo eclesial. O Vaticano II situa a vida religiosa exatamente no coração da Igreja, como uma espécie de comunidade liminar, cuja missão é expressar o essencial e inegociável do seu ser e da sua missão no mundo.

Como sabemos, a Vida Religiosa nasceu leiga, masculina e feminina, apesar do ambiente eclesiástico masculinizante e do processo de clericalização então em curso. E até hoje, seu lugar não é uma espécie de limbo eclesiástico, entre o clero e os leigos, mas o mundo do povo de Deus, dos leigos e leigas, dos discípulos e discípulas ungidos/as pelo Espírito de Deus. Se hoje a maior parte dos religiosos (masculinos) são presbíteros, deve-se sublinhar que isso não é um componente essencial, mas acidental. Alguns mestres antigos ensinavam que os religiosos devem estar sempre preparados para enfrentar as pressões e tentações, venham elas dos poderes armados ou das luvas e mitras...

Precisamos evitar a tentação de baixar a guarda para que, tanto no âmbito individual como institucional, não caiamos na tentação do isolamento eclesial. Nossos carismas pertencem ao povo de Deus, e são reconhecidos pelas pessoas que na Igreja detém a autoridade. Os carismas não são patrimônio privados dos nossos institutos. Daí a urgência de levantar as cancelas que os interditaram aos leigos e leigas por um tempo longo demais. Daí também a necessidade de inserir nossos projetos e instituições no âmbito das comunidades eclesiais e da missão que elas desempenham no mundo. Sem esquecer que, como dizem Antonieta Potente e Giséle Gómez, acolher um carisma significa aceitar de novo o mistério da encarnação: algo muito grande que se faz pequeno, se esconde nas história e se revela no espaço da precariedade e no cotidiano.

Neste aspecto, um desafio especial é refazer os fios teóricos de uma teologia que define a identidade e a missão da Vida Religiosa no confronto com o clero, discutindo poderes e espaços de independência. A Vida Religiosa faz parte da dimensão carismática da Igreja, é núcleo dinamizador da vocação de toda a Igreja à santidade. Por isso, é também importante e necessário evitar a redefinição da inserção apostólica dos institutos femininos na Igreja local através da simples e perigosa migração da área social ou espiritual para o ministério da animação paroquial, como uma espécie de suplência para a falta presbíteros, cujo crescimento o atual modelo de ministério não deixa vingar. O espaço paroquial já é uma dourada prisão e fator de dupla pertença para os religiosos masculinos, e a vida religiosa feminina precisa se livrar desta arapuca.

Itacir Brassiani msf

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Reflexoes do Pe. Ceolin (5)

Capítulo Provincial, uma bela experiência de Deus?!
“Onde dois ou mais se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles”. Esta promessa de Jesus foi sentida e experienciada durante o XVIII Capítulo Provincial (celebrado em junho de 1995),  ao qual compareceram todos os capitulares e o Pe. Hermeto, como representante do Conselho Geral.
A ausência por todos lastimada do nosso timoneiro, Pe. Euclides, serviu para que buscássemos apoio em Deus e uns nos outros. Embora ausente, por razões de saúde, foi uma presença constante, por nós lembrada a cada instante.
Na missa de abertura, as sementes, as alianças e a pasta capitular ao Euclides destinadas foram levadas ao altar no momento do ofertório. Depois, à sala capitular. Estes símbolos nos serviam para manter-nos unidos a ele e sentir a sua presença entre nós.
Na celebração eucarística de abertura, ousei afirmar que este capítulo, como o anterior, significam a nossa volta, a retomada do carisma fundante de Berthier. É a volta à fidelidade a ele, às nossas origens. É a conquista da nossa identidade congregacional. Está se delineando aos poucos o nosso rosto, o jeito MSF de ser.
Um Capítulo precedido de tanta oração, celebrado e rezado em torno do carisma e da espiritualidade, que avaliou o nosso ser e o nosso agir sob o prisma da fidelidade à tríplice aliança (com Deus, com os coirmãos e com o povo), só podia dar no que deu: um pentecostes!
O compromisso final de todos os Capitulares, subscrito de próprio punho, disso é comprovação inconteste: “Nós, Missionários da Sagrada Família participantes do XVIII Capítulo da Província Brasil Meridional, confirmamos nossa aliança com Deus e a sua vontade, com todos os coirmãos e sua identidade, com os pobres e suas necessidades, pois entendemos que é esta a convocação que nos dirige a Palavra de Deus neste momento especial da história.”
“Reafirmamos também que assumimos as prioridades e projetos aprovados no XVIII Capítulo como sendo a expressão do carisma de Berthier para nosso tempo e nosso contexto. Contamos com a presença materna da Mãe da Salette, com a intercessão de João Berthier, com a inspiração da Sagrada Família e, fundamentalmente, com o dinamismo transformador do Espírito Santo de Deus.”
“Estar mais perto do quem está longe. Viver unidos com quem está perto. Seguir Jesus na história de hoje. Fazer da vida um caminho aberto... Vão pelo mundo e sejam uma luz que sempre brilha! Missionários da Sagrada Família.”
Capítulo celebrado em tal clima e contando com gabaritada assessoria e o empenho responsável dos Capitulares, a tarefa de presidi-lo não foi penosa. Desempenhei-a com o pensamento e o coração voltados para o futuro da Província. Muito em particular voltados para o companheiro Euclides, com quem tive a graça de conviver ultimamente. Quase ao apagar das luzes do seu fecundo mandato, pode ele colher já alguns frutos daquilo que semeou na Província.
Concluo afirmando que, neste Capítulo, fizemos uma bela experiência de Deus! Por certo, esta terá prosseguimento no XXIII Encontro dos Irmãos, de 1 a 7 de setembro, em Santo Ângelo. Para lá iremos às pressas e em massa, ansiosos por abraçar os irmãos e com eles celebrar o ano da graça do nosso centenário! Até lá, portanto!
Pe. Rodolpho Ceolin msf
(Artigo publicado no Bertheriano, Ano XV, N° 46, junho/1995, p. 5-6)

Fatos & Personagens: as putas, as dignas

(http://paginalusofona.blogspot.it/)

A festa que não houve

Os peões dos campos da Patagônia argentina tinham entrado em greve contra os salários curtíssimos e as jornadas longuíssimas, e o exército foi encarregado de restabelecer a ordem.

Fuzilar cansa. Na noite do dia 17 de fevereiro de 1922, os soldados, exaustos de tanto matar, foram ao prostíbulo de San Julián, atrás de sua merecida recompensa.

Mas as cinco mulheres que trabalhavam lá bateram a porta no nariz deles, e puseram todos para correr ao grito de “assassinos, assassinos, fora daqui!”

Osvaldo Bayer guardou seus nomes. Elas se chamavam Consuelo García, Angela Fortunato, Amália Rodriguez, Marua Juliache e Maud Foster.

As putas. As dignas.

(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 65)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sexto Domingo do Tempo Comum (Ano A - 2014)

A Justiça do Reino de Deus é radicalmente humanizadora

A pedagogia libertadora de Jesus desvela o sentido profundo e as implicâncias concretas das Escrituras. Jesus propõe uma justiça mais séria e mais humana que aquela ensinada e praticada pelos escribas e fariseus. “Não penseis que eu vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para cumprir.” Diante de João Batista, Jesus já havia antecipado sua visão da lei e dos costumes: “Devemos cumprir toda a justiça!” (3,16). Paulo chama isso de “misteriosa sabedoria de Deus, sabedoria escondida”, sabedoria que nenhum dos poderosos deste mundo conheceu...
No evangelho deste domingo, Jesus propõe duas ênfases na leitura e interpretação das Escrituras Sagradas. A primeira é a vinculação das Escrituras ao sonho de Deus, ao seu projeto de vida abundante para todos, com prioridade aos últimos. Quando este vínculo é rompido ou enfraquecido, as Escrituras podem produzir o contrário daquilo que Deus quer transmitir: justificação do poder dos poderosos; ocultamento das relações de opressão; aumento do fardo que penaliza os mais fracos da sociedade; afirmação orgulhosa dos crentes diante do próprio Deus.
A segunda ênfase proposta por Jesus é a estreita ligação entre ensinar e praticar as Escrituras. Para ele, estava claro que os escribas e fariseus tinham se apropriado da compreensão das Escrituras mas não estavam dispostos a fazer a passagem da compreensão intelectual à ação responsável. E esta continua sendo a grande tentação que ronda os teólogos e dirigentes religiosos. A advertência de Jesus Cristo é clara e inequívoca: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus.”  E Jesus passa a alguns exemplos concretos.

Um primeiro exemplo da radicalização da Lei e da concretização das bem-aventuranças está no campo das tensões nas relações interpessoais. Esta questão era já contemplada pelo mandamento “Não matarás!” Mas, para Jesus, o conteúdo desta lei não se resume em evitar o homicídio. O projeto de Deus é muito mais amplo, e passa pela pela pacificação das relações, pela superação das posturas raivosas e da linguagem eivada de desprezo, preconceito e violência, como aquela usada recentemente pela jornalista Rachel Sheherazade, comentando uma tentativa de linchamento...

Uma segunda área de demonstração é a liturgia. Jesus critica o culto que ignora as rupturas nas relações humanas e não impulsiona à reconciliação. Para ele, a vida concreta é mais importante que os ritos religiosos, e a percepção das tensões e rupturas relacionais tem primazia sobre a ortodoxia. “Deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão.” E que ninguém se engane, sentindo-se justificado/a por não ter matado ninguém ou postergando para um futuro indefinido a reconciliação: é preciso fazê-lo antes de chegar ao tribunal do incerto fim da vida...
Jesus prossegue com duas novas exemplificações da ética do Reino, agora no âmbito das relações homem-mulher. O primeiro exemplo focaliza a questão do adultério, e afirma que a lei tem a função de educar para uma relação que não seja possessiva. “Quem olhar para uma mulher com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério...” Jesus sabe que o dinamismo que sustenta comportamentos sexuais descontrolados é sutil: passa do olhar viciado e interesseiro, que não reconhece a dignidade da pessoa, à mão que se apossa e manipula. Jesus insiste que é preciso cortar o mal pela raiz...
Ainda nerste âmbito, Jesus reprova a dominação masculina sobre a mulher, mesmo quando vem sancionada pela cultura e pela lei. Dizer que a lei permite ou que é costume não desculpa nem  justifica. Este é o horizonte da proposta de Jesus no caso do divórcio. A permissão legal do divórcio legitimava o descompromisso do marido com a ex-companheira e garantia ao primeiro o direito de maltratá-la e execrá-la publicamente, e a ética do Reino de Deus restringe o poder ilimitado e violento dos homens. E Jesus prossegue, com exemplos no âmbito da comunicação...
Jesus Cristo, mestre na formação de nova mentalidade e na construção de um mundo mais humano: ensina-nos a colocar as leis e tradições no seu devido lugar e a não transformá-las em instrumentos de opressão. Guia as tuas igrejas a uma justiça maior que o cinismo e a ostentação herdadas do farisaísmo. Que teu ensino e teu exemplo desenvolvam em nós relações pacificadoras, igualitárias e solidárias. E que teu Espírito suscite em nossas comunidades a criatividade livre e a liberdade fiel, sendas que levam à uma justiça radical e humananizadora. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Eclesiástico 15,16-21 * Salmo 118 (119) * Primeira Carta aos Coríntios 2,6-10 * Mateus 5,17-37)

Um indígena é ordenado sacerdote

 “Sei em quem coloquei a minha confiança...”  (2Tm 2,4)
Homilia de Dom Edson Tasquetto Damian na missa de ordenação presbiteral do Pe. Gaudêncio Gomes Campos, SDB
(São Gabriel da Cachoeira, AM, 9 de fevereiro de 2014)

Gaudêncio, teu nome contém um rico simbolismo e indica também uma importante missão. Gaudêncio vem de “gaudium”, alegria. Expressa a alegria que está sempre estampada no teu belo rosto indígena Desano. És um índio feliz porque manténs viva tua identidade e tua cultura e soubeste integrá-las com a Boa Nova de Jesus.
“A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”, assim inicia a Exortação Apostólica do Papa Francisco. Guadêncio, por tanto, tem tudo a ver com a Evangelii Gaudium, a profética carta programática do Papa Francisco. Até hoje nenhum papa tinha apresentado um programa de reformas tão profundas para a Igreja e para a Sociedade. E a partir de seus gestos, atitudes, testemunho e palavras, o Bispo de Roma está mostrando como deve ser a nossa vida e ação de discípulos missionários de Jesus de Nazaré em pleno século XXI, na periferia do Brasil, aqui no coração da Amazônia.
Neste tempo de nova e surpreendente primavera, o Papa nos convoca para construir uma Igreja pobre para os pobres, convertida a Jesus e vestida de Evangelho, misericordiosa e missionária, que vai às periferias geográficas e existenciais, descentralizada, aberta, servidora, Igreja da inclusão, do encontro, da ternura. “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida, enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49).
Mas, não basta que o Papa se converta. Precisamos nos converter com ele, arregaçar as mangas e partir para a ação. Gaudêncio, tua vida e ministério já tem um rumo bem traçado e comprometedor. És trabalhador da primeira hora para ajudar a concretizar as propostas renovadoras e exigentes de nosso amado Papa Francisco.
Voltemo-nos agora para a Palavra de Deus que escolheste para este dia. Assumes tua missão como o profeta Isaias: “Assim diz o Senhor. Aquele que te criou, que te formou desde o útero e te protege: “Não temas, meu servo, a quem escolhi. Derramarei água em terra seca, igarapés no terreno ressecado, derramarei meu Espírito sobre os teus descendentes. E eles crescerão como mato à beira d`água, como salgueiros ao longo dos córregos. Um dia dirás: pertenço ao Senhor” ( Is 4,2-3).
Como não perceber aqui saudosas recordações de tua infância às margens do Umari igarapé, em Pari Cachoeira, onde nasceste no dia 06 de outubro de 1986? Filho do casal Leonardo e Cecília, foste o primogênito entre nove irmãos. Depois, com tua família, navegaste as incontáveis curvas do rio Tiquié, entraste no Uaupés, passaste por Taraquá, por Yauaretê e foste morar em Taraquá do Alto Uaupés, perto da perigosa Caruru Cachoeira. Já falavas Tukano e brincando com as crianças Wanano aprendeste também a língua  Cótiria. E viste tua família aumentar. Depois de ti nasceram: Maria dos Anjos, Leomar, Leandro, Adelson, Leonísio, Reginaldo, Lucélia e Daiane. Cresceste “como mato à beira d`água, como salgueiro ao longo dos rios”, escutando a voz de Deus que te chamou deste o ventre materno e tinha escrito em tua mão: “Eu sou do Senhor”. Descobriste que pertences ao Senhor e não tiveste medo de lhe entregar a vida.
O Evangelho (Jo 21, 15-19) que escolheste revela a radicalidade de tua entrega. A caridade pastoral, marca registrada da espiritualidade do presbítero tem dupla face: amor apaixonado por Jesus, e misericórdia e serviço aos irmãos que o Bom Pastor confia ao teu ministério. A pergunta direta e, ao mesmo tempo, carinhosa de Jesus a Pedro indica que amar a ele é condição primeira para ser pastor de seu rebanho.
E por que Jesus lhe perguntou três vezes? Existe um evangelho apócrifo que nos ajuda a compreender este episódio. Quando Jesus fez o anúncio de sua morte, Pedro lhe disse que daria a vida para defendê-lo. “Darás a vida por mim? Perguntou-lhe Jesus. E continuou: “Antes que o galo cante, três vezes me negarás” (Jo 13, 38). Quando esta a previsão se realizou, Pedro saiu e pôs-se a chorar amargamente (Lc 22,62).  E desde aquela hora,  acompanhou Jesus de longe para não ser mais identificado por ninguém. Quando viu Jesus morrer na cruz, Pedro, caiu em profundo desespero e começou a perambular sem rumo pelas ruas desertas de Jerusalém. De repente viu ao longe alguém caminhando em sua direção. Tentou desviar-se seguindo outra rua. Mas aquele que vinha, reconheceu Pedro e correu ao seu encontro.
Era José de Arimatéia e lhe disse: “Pedro, obtive uma permissão de Pôncio Pilatos e preciso de tua ajuda para tirar Jesus da cruz e sepultá-lo antes que o sol se ponha”. Pedro teria respondido: “Nem me fale mais a respeito deste homem. Sou culpado pela morte dele. Disse que daria a vida para defendê-lo e fui um traidor, negando três vezes que nem o conhecia. Tudo acabou. Estou perdido para sempre”. Mas, José de Arimatéia lhe disse: “Pedro, não importa o que fizeste com Jesus. Tu és testemunha da coisa mais linda deste mundo: do amor de Jesus por ti, da confiança que depositou em ti. E isto tu deves anunciar ao mundo inteiro”.
Não sabemos se isto realmente aconteceu. O que importa é tirarmos uma lição para nunca mais esquecer. Apesar de nossas covardias, traições e infidelidades, o amor de Jesus por nós é irrevogável, irreversível, sem arrependimento. O Papa Francisco confirma: “Como faz bem voltar para o Senhor quando nos perdemos! Insisto mais uma vez: Deus nunca se cansa de nos perdoar, somos não que nos cansamos de pedir a sua misericórdia. Aquele que nos convidou a perdoar “setenta vezes sete” dá-nos o exemplo: ele perdoa setenta vezes sete. Volta uma vez ou outra a carregar-nos aos seus ombros. Ninguém nos pode tirar a dignidade que esse amor infinito e inabalável nos confere” ( EG 3). E conclui: “O verdadeiro missionário, que nunca deixa de ser discípulo, sabe que Jesus caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa missionária. Se uma pessoa não O descobre presente no coração mesmo de sua entrega missionária, depressa perde o entusiasmo e deixa de estar seguro do que transmite, faltam-lhe força e paixão” (EG 266).
Por fim, escolheste da carta aos Colossenses a passagem que tem tudo a ver com a “força revolucionária da ternura e do afeto” (EG 88 e 288) na qual insiste o Papa Francisco. “Como eleitos de Deus, santos e amados, revesti-vos com sentimentos de compaixão, com bondade, humildade, mansidão, paciência: suportai-vos uns aos outros e, se um tiver motivo de queixa contra o outro, perdoai-vos mutuamente como o Senhor vos perdoou. Sobretudo, revesti-vos do amor, que une a todos na perfeição” (Cl 3,12-14).
Ao escolheres esta carta de Paulo para orientar tuas relações e atividades percebeste que ela ilumina o carisma salesiano de Dom Bosco e dos seus missionários e missionárias que há 100 anos evangelizam os Povos Indígenas do Rio Negro. Na festa de Dom Bosco, 31 de janeiro, recebi a mensagem de um amigo com uma carta escrita por este santo: 
Sempre trabalhei com amor. Quantas vezes, meus filhinhos, no decurso de toda a minha vida, tive de me convencer desta grande verdade! É mais fácil encolerizar-se do que ter paciência, ameaçar um jovem do que persuadi-lo. Direi mesmo que é mais cômodo, para nossa impaciência e nossa soberba, castigar os que resistem do que corrigi-los, suportando-os com firmeza e suavidade... Consideremos como nossos filhos aqueles sobre os quais exercemos certo poder. Coloquemo-nos a seu serviço, assim como Jesus, que veio para obedecer e não para dar ordens; envergonhemo-nos de tudo o que nos possa dar aparência de dominadores; e se algum domínio exercemos sobre eles, é para melhor servirmos... Assim procedia Jesus com seus apóstolos; tolerava-os na sua ignorância e rudeza, e até mesmo na sua pouca fidelidade. A afeição e a familiaridade com que tratava os pecadores eram tais que em alguns causava espanto, em outros escândalo, mas em muitos infundia a esperança de receber o perdão de Deus. Por isso nos ordenou que aprendêssemos dele a ser mansos e humildes de coração.”

Querido irmão Gaudêncio, dentro de instantes receberás o Sacramento da Ordem e a força do Espírito Santo para exerceres este ministério com o amor e a misericórdia de nosso divino e adorável Bom Pastor.  Não tenhas medo.  A Mãe de Deus e nossa, a Auxiliadora, juntamente com os santos e santos que invocaremos na ladainha te acompanharão a vida inteira. E para manifestar-te nossa solidariedade fraterna e a certeza de nossa oração vamos repetir contigo o teu lema sacerdotal: “Sei em quem coloquei a minha confiança” (2Tm 2,4). O que se seguirá em tua vida, a partir de hoje, será amadurecimento e colheita de tua entrega definitiva, amorosa, confiante e fiel nas mãos do Senhor. E serás um índio Desano presbítero feliz na vida e missão neste chão!