quinta-feira, 28 de agosto de 2014

22° DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A - 31.08.2014)

O caminho da vida plena passa pela doação de si mesmo!

A atitude contraditória de Pedro, mesmo depois de ter professado sua fé em Jesus e ter sido elogiado por ele, nos previne contra qualquer triunfalismo papal. Como Pedro, muitos de nós desejamos desesperadamente impedir que Jesus realize sua missão pelo caminho do serviço e da cruz e acabamos sendo uma pedra de tropeço na sua missão.  No domingo em que concluímos o mês vocacional e refletimos sobre a vocação das catequistas, descobrimo-nos todos aprendizes na escola de Jesus e chamados a não entrar na lógica excludente do mundo (cf. Rm 12,2).
A resposta de Pedro à pergunta de Jesus havia sido formalmente correta, e até corajosa: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Mas a salvação, a relização plena da pessoa humana e da história, não depende unicamente da formalidade e da ortodoxia. Por isso, assim que Pedro termina sua declaração e recebe o elogio, Jesus aparentemente muda o tom da conversa e começa a falar do seu futuro próximo: ele havia tomado a firme decisão de ir a Jerusalém, apesar dos riscos que isso representava; lá sofreria muito nas mãos das autoridades religiosas; acabaria sendo morto, mas depois ressuscitaria.
Com este anúncio, Jesus quer corrigir os resquícios de um certo messianismo triunfalista, do qual os próprios discípulos estavam imbuidos, e mostrar outra imagem de Messias: ele é o Servo que sofre solidariamente e o Profeta perseguido. É aqui que Pedro tropeça e faz tropeçar. Com uma ousadia sem precedentes, “levou Jesus para um lado e o repreendeu. Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” A tradução ameniza um pouco as palavras duras de um Pedro atordoado que intima, adverte e ameaça Jesus, afirmando que não é essa a vontade de Deus.
O que Pedro não consegue admitir é um Messias sem poder e crucificado, um Messias pobre e rejeitado, humano e servidor. O que ele não consegue aceitar é uma Igreja sem glórias e sem sucesso, chamada a correr o risco da profecia; uma Igreja que ao invés de se aliar aos poderes sofre nas mãos deles. Também aqui Pedro é porta-voz dos discípulos de todos os tempos. Como é difícil pensar as coisas de Deus e como é fácil, cômodo e atraente pensar as coisas dos homens!... Coisas de Deus são a compaixão, a solidariedade e o serviço; coisas dos homens são a indiferença, o sucesso e o poder.
Há um discernimento que sempre desafia os discípulos e discípulas de Jesus. A cruz não é simplesmente uma imposição à qual Jesus não pode escapar, mas a um caminho que todos devemos trilhar. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga.” E tomar a cruz significa, em primeiro lugar, assumir a condição das pessoas desprezadas e colocadas à margem, assim como daquelas que resistem e enfrentam os poderes que as marginalizam e oprimem; e em segundo lugar, a possibilidade e a disposição de dar a vida, de sofrer a morte por amor.
A expressão “renuncie a si mesmo” não agrada a muita gente. Seria possível entender esse mandamento de modo positivo e emancipador, não como desprezo por tudo o que é original, pessoal e individual? Não se trata de negar o que há de mais pessoal em cada indivíduo, mas a ideologia de sucesso que nele se aninha. A questão é: negar os interesses mesquinhos, os sonhos infantis de sucesso e onipotência, ou negar o Messias, a compaixão? Pedro teve dificuldades de negar ou renunciar às suas próprias idéias de onipotência e de sucesso e acabou negando Jesus e sua proposta.
Isso não significa contrapor coisas materiais e coisas espirituais, vida terrena e vida eterna mas de de escolher o caminho do amor a si mesmo a ponto de excluir do nosso horizonte os outros e Deus, ou então trilhar o caminho do amor aos outros e a Deus a ponto de esquecer as vantagens pessoais. São dois amores, duas cidades, dois projetos de civilização, dois caminhos opostos de realização humana. É nesse horizonte que Paulo pede que evitemos a acomodação às estruturas deste mundo, que transformemos nossa maneira de pensar e prestemos culto a Deus mediante o dom da nossa vida.
Deus, pai e mãe, vida que se perde por amor. Salva-nos da ideologia religiosa, tão triunfalista quanto medrosa e subserviente frente aos esquemas do mundo. Suscita comunidades de homens e mulheres humanamente maduros, com corações, mentes e mãos conformadas a Jesus de Nazaré. Ansiamos por um tal fogo aceso no coração das pessoas e no coração do mundo. Desejamos seguir os passos do teu filho no despojamento de si e no serviço alegre e solidário aos últimos. É esta graça que vale mais que a vida. É isso que procuramos desde a aurora, e é isso que nos basta. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Profeta Jeremias 20,7-9 * Salmo 62 (63) * Carta aos Romanos 12,1-12 * Mateus 16,21-27)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Reflexões do Pe. Ceolin

A oração e a escuta da Palavra formam Cristo em nós.

Formar Cristo em nós significa conhecê-lo, amá-lo e segui-lo. E para alcançar isso precisamos dizer “Sim” a ele, deixar que ele entre em nossa vida, deixar-se amar por ele, reconciliar-se por ele (e, por ele, com o nosso passado), ouvi-lo (pois a Palavra de Deus atinge a nossa medula dos nossos ossos e transforma nosso coração, nossos pensamentos e sentimentos).
“Como crianças recém-nascidas, desejem o leite puro da Palavra” (1Pe 2,2). “Ouçam bem e escutem minha voz, prestem atenção e dêem ouvidos às minhas palavras” (Is 28,23). “Recebam com docilidade a Palavra que lhes foi plantada no coração e que pode salvá-los. Sejam praticantes da Palavra, e não apenas ouvintes, iludindo a si mesmos” (Tg 1,21-22). “Quem é de Deus, ouve a Palavra de Deus...”
Mas não podemos esquecer que a oração é também um dos mais importantes meios para formar Cristo em nós, lembrando que orar não significa repetir formalismos, falar consigo mesmo e “com seus botões”. Santa Teresa descreve a oração como tratar de amizade, estando a sós, muitas vezes, com aquele que nos ama.
Eis algumas atitudes e práticas importantes para uma boa e frutífera oração.
“Fechar o quarto”, ou seja: desligar-se do mundo barulhento e dos ruídos internos; amar o silêncio e buscá-lo com perseverança, pois quem não tolera o silêncio demonstra ter perdido a profundidade.
Fixar o olhar e o coração em Jesus, que é o mestre na arte de rezar: pedir com a simplicidade dos discípulos “ensina-nos a rezar” (cf. Lc 11,1-13), e repetir muitas vezes este pedido; observar como Jesus rezava, e rezar com ele; falar-lhe das nossas dificuldades, necessidades e desejos pessoais; ele e o Pai, e não nós, são o centro da oração.
Ter coragem de ser como uma criança em oração: ser natural, espontâneo, franco, aberto, transparente, simples; à medida em que deixamos de ser crianças, desaprendemos como orar...
Orar com fé e confiança: “Crês que eu posso te ajudar?...” Jesus não realizou nenhum milagre em Nazaré, porque o povo não acreditava nele... Quem confia em Jesus e no Pai a eles se abandona e entrega. Se até das pedras Deus pode fazer surgir filhos de Abraão, também tem o poder de nos transformar...
Orar em nome de Jesus: acompanhar a oração de Jesus ao Pai, por mim, pelos outros, pelo mundo; pedir que ele interceda ao Pai por nós, e ele pedirá exatamente aquilo que mais precisamos (cf. Jo 14,12-14; 16,23-24).
Rezar a vida: as alegrias e os sofrimentos, a convivência comunitária, a ação apostólica, as necessidades da Igreja e do mundo, os sentimentos e pecados, o desejo de conhecer, amar e seguir Jesus Cristo sempre mais e melhor.
Perdoar: Temos tanta coisa a perdoar... Mágoas, ressentimentos e tensionamentos não só dificultam a oração, como também diminuem seu poder e eficácia, atrapalham a ação do Espírito em nós. Precisamos aprender a perdoar através da própria oração: orando muitas vezes pelas pessoas de quem não gostamos, que nos ofenderam, ou que não gostam de nós.
Perseverar na oração: Ser como a mulher cananéia e a viúva da parábola (cf. Lc 18,1-8; Tg 1,5-8); programar e cumprir um tempo diário de oração pessoal. Sem isso, nem sonhar em ser discípulo e apóstolo do Amigo! A oração é o caminho para chegar à amizade com Cristo, o início da caminhada da vida cristã.

Pe. Rodolpho Ceolin msf

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

21° DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A - 24.08.2014)

A fé em Jesus Cristo é o alicerce que sustenta a Igreja.

Jesus deixou a região marginal da Galiléia, onde revelara sua compaixão pela multidão faminta e tomara a iniciativa de alimentá-la, e chegou à região de Cesaréia de Filipe. No passado, esta região era famosa pelo santuário dedicado a Pã, divindade protetora dos rebanhos e pastores. Mais recentemente, o rei Filipe rebatizara a cidade com o nome de Cesaréia de Filipe, em homenagem a César Augusto. Este nome mexia com a questão da soberania e da submissão política de um povo.
A primeira pergunta que Jesus dirige aos discípulos, justamente neste lugar carregado de significado político, soa como uma espécie de enquete: “Quem dizem os homens que é o filho do homem?” E um elemento que não pode ser menosprezado é o apelativo que Jesus usa para referir-se a si mesmo. ‘Filho do homem’ destaca os vínculos de Jesus com os homens e mulheres comuns, e é o nome que ele mesmo prefere e usa com mais frequência. Jesus evita referir-se a si mesmo como Filho de Deus ou Messias...
Podemos imaginar que a resposta não saiu assim muito rapidamente. Entre os discípulos fez-se silêncio, e eles se esforçaram para recordar aquilo que o povo dizia depois de ter escutado e conhecido Jesus. As respostas que eles resumem vinculam Jesus claramente ao movimento profético. O povo identifica a ação e a pregação de Jesus com a missão dos grandes profetas da sua tradição, aqueles homens que falavam e agiam em nome de Deus e defendiam o direito dos oprimidos.
Mas parece que o interesse de Jesus não é fazer uma espécie de pesquisa de opinião... Ele escuta atentamente a resposta dos discípulos, mas não comenta a síntese que eles apresentam. Faz-se novamente silêncio. Então Jesus, olhando os dicípulos nos olhos, pergunta-lhes enfaticamente: “E vocês, quem dizem que eu sou?” O que interessa a Jesus são as fantasias e expectativas que povoam a mente e o coração dos homens e mulheres que seguem seus passos e escutam suas palavras.
A pergunta é séria e as respostas não estavam escritas em nenhuma cartilha. A tradição na qual os discípulos haviam sido formados oferecia possibilidades diversas e contrastantes de resposta. O chão que eles pisavam lembrava deuses pastores e impérios dominadores. A pergunta tocava direto nas expectativas que eles alimentavam sobre Jesus e colocava em questão a relação que tinham com ele. No fundo, Jesus perguntava “que lugar eu ocupo na vida, no projeto e nas opções de vocês?”
Tanto para aqueles discípulos com para nós, as respostas que ouvimos dos nossos pais, catequistas, padres e professores podem ajudar, mas são radicalmente insuficientes. A resposta à pergunta de Jesus deve vir da vida pessoal e eclesial; está inscrita nas nossas práticas, relacionamentos, opções e utopias; está oculta no tipo de relação que cultivamos com Cristo, no lugar que ele ocupa em nossa existência. Portanto, não pode ser uma resposta à flor da pele, na ponta da língua, irrefletida.
Pedro rompe o silêncio. Com voz insegura, mas com serenidade e até uma certa ousadia, fala, como sempre, em nome dos demais discípulos. É claro que ele é o porta-voz do grupo: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.” É uma afirmação de fé, porque nela Pedro reconhece que aquele ser humano concreto, aquele jovem galileu que se compadeceu da multidão faminta e elogiou a fé de uma mulher pagã, é o Ungido pelo Espírito Santo, o pastor de Israel, o enviado de Deus para realizar seu projeto. E Jesus rebatiza Simão como Pedro/Rocha, pois é sobre essa adesão de fé que ele confia a continuidade da sua missão. Esta adesão firme e fiel se torna chave que abre e fecha portas.
A resposta de Pedro não nasce dos medos ou desejos infantis de onipotência, nem é ensinada pelos doutores de plantão. O reconhecimento e a profissão de fé num Deus presente na carne humana é dom de Deus aos pequenos. Não precisamos de fé para aderir a um deus identificado com os poderosos e as grandes obras, mas ele é indispensável para reconhecer Deus na história e colaborar com sua missão libertadora. É nisso que se manifesta a profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus, como diz o apóstolo Paulo. Como são insondáveis as decisões e misteriosos os caminhos de Deus!... 
Deus pai e mãe! Teus caminhos são impenetráveis, tu andas pela contra-mão da história dos grandes. Oxalá nossa pregação não se apóie no poder do dinheiro, na força das armas e na persuasão da oratória. E que tua Igreja, inspirada na prática de Jesus de Nazaré, o missionário querido que enviaste ao mundo,  valorize e promova a vocação dos leigos e leigas, tanto na sociedade como na Igreja, reconhecendo sua fé como alicerce firme e evitando tratá-los como menores e dependentes. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Profeta Isaías 22,19-23 * Salmo 137 (138) * Carta aos Romanos 11,33-36 * Mateus 16,13-20)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Padres impostores?

Os impostores do Ministério da Ordem

O meu amigo, Pe. José Antônio, do clero da arquidiocese de Mariana (MG), com quem tive a grata satisfação de trabalhar no Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999-2003), em recente artigo divulgado na internet, levantava a pergunta acerca do principal medo do papa Francisco. A pergunta poderia ser muito bem invertida para evidenciar quais são as pessoas que, na Igreja Católica, mais temem as audaciosas propostas de renovação apresentadas pelo papa Francisco, e que, a meu ver, estão condensadas na sua exortação Evangelli Gaudium. Quem, na Igreja Romana, teria medo de propostas como esta: “Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades” (EG, 33)?
Com certeza estariam em primeiro lugar os grupos católicos ultraconservadores, bem representados pela Fraternidade São Pio V, fundada pelo bispo cismático Lefebvre. Porém, os conservadores católicos não causam tanto medo ao papa e nem o papa lhes provoca medo. Reagir a toda mudança na Igreja está no DNA desses grupos, os quais acreditam piamente que o único modelo histórico de Igreja é aquele construído a partir do Concílio de Trento, ou, pior ainda, a partir do espírito da Contrarreforma.
Quem, então, causaria medo ao papa Francisco, ou, melhor dizendo, quem tem medo das propostas do papa Francisco? Pe. José Antônio, sem rodeios, afirma que é o “clero camaleônico”, ou seja, aqueles padres que vendo o ministério ordenado como status, como profissão bastante rentável, como pedestal para a fama e o sucesso, temem um papa que insiste em dizer que o ministério ordenado é serviço e que os padres precisam “sentir o cheiro das ovelhas”.
Prosseguindo em sua reflexão, o Pe. José Antônio alerta para um particular assustador: a quase totalidade desse “clero camaleônico” é formada por padres jovens e por seminaristas, futuros padres, que já se comportam como se fossem ministros ordenados. É assustador porque era de se esperar que padres jovens e seminaristas, formados depois do Concílio Vaticano II, fossem capazes de acolher com entusiasmo e paixão a proposta de renovação da Igreja apresentada pelo papa Francisco. Mas não é isso que estamos vendo. Boa parte deste clero permanece indiferente ao que o papa Francisco vem dizendo. Sinal claro dessa indiferença é a falta de divulgação, de conhecimento, de estudo e de aplicação pastoral da exortação Evangelli Gaudium. Pude constatar isso pessoalmente em recente assessoria a um grupo numeroso de pessoas, na sua quase totalidade formada por leigos, sobre a exortação papal. A queixa geral era de que os padres não falam da Evangelli Gaudium. Constatou-se inclusive o caso de padres que nem sequer sabiam da existência da exortação. Há poucos dias uma senhora de uma paróquia do interior da Bahia perguntava ao jovem pároco de sua cidade porque na sacristia da igreja paroquial ainda não tinha sido colocada a fotografia do papa Francisco. Queria saber porque tudo tinha parado na foto do papa Bento XVI. O pároco respondeu-lhe que a razão era o fato de que os vidraceiros da cidade estavam sem moldura. Conversa essa que não colou, pois a senhora, do alto da sua experiência de idosa, percebeu que o pároco estava mentindo.
Mas há também aquele grupo de padres e de seminaristas que faz de conta que acolhe as propostas do papa Francisco. Age, porém, como camaleão, por mero oportunismo e para continuar levando vantagem em tudo, visando não perder as benesses oferecidas pelo acesso ao ministério ordenado. Este grupo de clericais externamente faz de conta que aderiu ao papa Francisco, mas, na prática, sempre que pode, oculta, desvirtua e desvia os ensinamentos papais, não permitindo que o povo tome conhecimento daquilo que o papa Francisco está propondo com certa insistência.
Diante do que acabamos de expor vem de imediato a pergunta: o que leva padres e seminaristas a agir desta forma? Por que temem o papa Francisco? Por que agem com indiferença ou fazendo de conta que acolhem a palavra do bispo de Roma?
Inúmeros estudos publicados nos últimos anos explicam de modo suficiente este problema. São estudos com dados incontestáveis, baseados em pesquisas sérias. A própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Organização dos Seminários e Institutos do Brasil (OSIB) e a Comissão Nacional de Presbíteros (CNP) patrocinaram alguns desses estudos,
Duas causas estariam por trás desse comportamento. A primeira delas é a visão de vocação presbiteral como sendo a vocação por excelência. Ser padre é “dez”, é estar acima de qualquer coisa. Chegar a ser padre é colocar-se acima de tudo e de todos os mortais. A segunda causa seria o desejo das dioceses de suprir a falta de padres, levando-as a admitir nos seminários e no presbitério verdadeiros impostores que olham para o ministério ordenado como a forma mais fácil de adquirir poder, status, fama e dinheiro. A tais pessoas não lhes importa o serviço ao povo, mas as vantagens que vão ter com o acesso ao ministério ordenado.
A filósofa, socióloga e teóloga Arlene Denise Bacarji realizou recentemente um estudo sobre essa questão, baseando-se em dados de pesquisas feitas em diversas partes do mundo por eminentes pesquisadores. O próprio título do seu estudo é, por si mesmo, bem sugestivo: A impostura no Ministério da Ordem. Transtornos de personalidade e perversão no Clero à luz da psicanálise e da psiquiatria. O estudo acaba de ser publicado pessoalmente pela autora. É lamentável que ela não tenha encontrado uma editora católica capaz de assumir a publicação, obrigando-a a fazer uma edição privada. Essa recusa não deixa de trazer um grande prejuízo para a própria Igreja Católica.
Em seu estudo, depois de analisar a origem do problema da impostura no Ministério da Ordem, a autora se detém cuidadosamente na reflexão sobre os transtornos e as perversões dentro dos quadros da Igreja, particularmente entre o clero. Fala dos desvios institucionais, de personalidade antissocial, narcisista patológica e sobre as perversões propriamente ditas. No final aponta algumas possibilidades de saída do impasse.
Arlene Bacarji mostra como a natureza hierárquica, uma falsa compreensão da misericórdia, a segurança que o ministério ordenado proporciona e o celibato visto como um modo de não se relacionar em profundidade com ninguém atraem com muita facilidade pessoas com transtorno de personalidade e muita gente perversa. A pessoa com essas patologias “sempre consegue um bispo desavisado, misericordioso, confiante em sua remissão, que o acolherá” (p. 36). Bacarji lembra que o sistema eclesiástico favorece tais pessoas, uma vez que “elas aprendem rapidamente como subir em postos de poder, como fazer para serem elevados a bispos, cardeais” (p. 43).
A autora apresenta o perfil do impostor no Ministério da Ordem: “O poder, o brilho, o sucesso, só dependem de sua eloquência no altar, de sua capacidade de sedução e poder de atração, e de sua capacidade retórica, persuasão, de introjetar os sentimentos e emoções na sua fala de modo que impressione o público, para que seja admirado, endeusado e adorado. O altar se torna um palco. Pois a oficialização desse poder já está dada. A impostura no Ministério da Ordem por estas personalidades todas que tratamos neste livro se caracteriza pela grandessíssima capacidade da pessoa de fazer ‘teatro’. Elas representam muito bem” (p. 43). E representam tão bem que são capazes de camuflar a aversão ao papa Francisco e ao que ele propõe, bastando para tanto apenas um “discurso bonito” (p. 44), ou seja, aquele discurso lacunar, através do qual a pessoa fala um monte de baboseira que seduz os desprovidos de senso crítico, mas que não diz absolutamente nada.
O que fazer? Existem saídas? É claro que sim. O problema é saber se os bispos estão dispostos a coloca-las em prática. Eu aponto pelo menos três. A primeira delas é desmistificar a figura do padre, retirando dele toda auréola sacral que o envolve. Apresentá-lo como um homem comum, normal, igual aos outros, chamado por Deus a ser diákonos, ou seja, mero servidor dos demais. Homem sinal sacramental de Cristo servo de todos, que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,35-45). Nessa perspectiva o acento deve ser colocado sobre a vocação comum batismal, como nos lembrou o Vaticano II na Lumen Gentium. O importante não é ser padre, mas discípulo, seguidor de Jesus, missionário, como enfatiza diversas vezes o Documento de Aparecida.
Uma segunda saída seria a revisão do atual modelo de ministério ordenado, focado excessivamente no padre celibatário que passa entre oito e nove anos no seminário e que sai de lá bastante treinado para ser “aparentemente normal”, mas que, na prática, é uma pessoa cindida, tendendo para a mentira crônica (Bacarji, p. 45-64). Não há como resolver o problema da impostura no ministério ordenado enquanto não se fizer uma reforma séria no ministério ordenado, incluindo nele novas formas de ministérios que descentralizem o poder e quebrem o monopólio e o autoritarismo dos padres.
A terceira proposta de saída é a mudança de comportamento com relação a essas pessoas. Bacarji lembra “que Cristo e o Evangelho não são tolerantes com a hipocrisia e com a falsidade” (p. 45). Por isso, ela afirma que “a misericórdia com estas pessoas deve ser pensada em outros moldes que não a habitual. Talvez seja mais misericordioso impedi-las de terem oportunidade de vivenciar suas perversões e patologias anti-sociais ou narcisistas, fazendo mal às pessoas da Igreja, à própria Igreja, a Deus e a si” (p. 67). Isso significa que a formação inicial dos candidatos aos ministérios ordenados precisa ser mais séria, capaz de identificar possíveis impostores e impedindo-os de chegar à ordenação. Mas para isso é preciso que à frente dos seminários estejam pessoas equilibradas e não seres transtornados e perversos.
Por fim, é preciso dizer que a maioria dos padres é formada por homens honestos, sérios, simples e inteiramente doados ao povo. E isso é uma grande consolação. Mas, na maioria das vezes, esses padres não são valorizados, não são apresentados pela mídia católica, sendo sobrepujados pelos impostores, geralmente midiáticos e “carismáticos” que se apresentam ao povo como os únicos modelos de presbíteros. Com isso o estrago está feito, pois o povo, iludido por “lobos vestidos com peles de ovelhas” (Mt 7,15), acaba deixando-se seduzir. “As batinas, hábitos, clergyman, para estas pessoas, representam poder e também especialidade em relação aos outros mortais, por isso muitos deles fazem questão dessas coisas já desde o seminário” (Bacarji, p. 62). Precisamos, pois, estar muito atentos, pois a impostura no ministério ordenado “costuma confundir muitos superiores e a todos nós” (Ibid., p. 70).

 José Lisboa Moreira de Oliveira

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Reflexões do Pe. Ceolin

O que significa ser discípulo de Jesus Cristo?

Este texto é sequência de outro, já publicado anteriormente (http://itacir-brassiani.blogspot.com.br/2014/07/um-ano-sem-o-pe-ceolin.html) 
Ser discípulo de Jesus significa, antes de tudo, colocar-se a caminho e aprender do seu modo de viver. O seguimento de Jesus e o discipulado compreendem algumas atitudes fundamentais: conhecer Jesus; amar Jesus; seguir os passos de Jesus; fazer aleiança com Jesus.
Ser discípulo significa conhecer Jesus
Conhecer Jesus não significa decorar textos, datas e fatos da vida dele. Conhecê-lo significa antes de tudo, encontrá-lo. Trata-se de um encontro pessoal com a pessoa de Jesus. “Meus olhos viram a salvação/o salvador...” (Lc 2,29). “No dia seguinte, João vê Jesus que vem ter com ele e diz: eis o Cordeiro de Deus...” (Jo 1,29). “Que procurais?... Mestre, onde moras?... Vinde e vede!... Eles foram e viram onde ele morava e ficaram com ele...” (Jo 1,38). “Encontramos o Messias!... Pode vir coisa boa de Nazaré?... Vem e vê!...” (Jo 1,41-46).
Conhecer Jesus significa também escutá-lo, ouvi-lo. “Ouve, Israel, o Senhor, teu Deus!” (Dt 6,4). “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” (Lc 14,35). “Quem é de Deus, ouve a palavra de Deus” (Jo 8,47). “Ide contar a João o que vistes e ouvistes...” (Mt 11,4). “Maria, aos pés do Senhor, ouvia a sua palavra...” (Lc 10,39). “Vinde ver um homem que disse tudo o que eu fiz!... Nós cremos, pois nós próprios ouvimos...” (Jo 4,29). “Bem-aventurada você, que acreditou no que lhe foi dito!...” “Eu te bendigo ó Pai, porque revelaste estas coisas aos pequeninos...” “E vós, quem dizeis que eu sou?...”
Para conhecer experiencialmente a Jesus é preciso achegar-se a ele, tornar-se íntimo dele, desejá-lo como amigo e confidente, no silêncio. “Vou seduzir-te... Vou levantar-te ao deserto e conquistar teu coração” (Os 2,16). Este conhecimento de Cristo é dom de Deus, dom do Espírito Santo: é preciso pedi-lo com fé e sinceridade. José e Maria são os que melhor o conheceram. Eles podem nos ajudar!..
Em nossa vida, por vezes, achamos que o sucesso na pastoral nos virá através de muitos cursos de especialização, e esquecemos que o sucesso virá mesmo é do entusiasmo por Jesus Cristo, pela sua causa, pelo seu projeto.
Ser discípulo significa amar Jesus
Para amá-lo, precisamos efetuar a conversão do nosso coração (centro e lugar das decisões). É preciso que nosso coração seja sempre mais habitado por Cristo. É mister desenvolver em nós os sentimentos de Cristo, não ter medo de sentir afeto e ternura por ele, pela pessoa dele.
“Assim como o Pai me amou, eu também amei vocês” (Jo 15,9). É para a pessoa dele, para si mesmo que ele aponta. “Segue-me!... Quem ama seu pai e sua mãe mais que a mim, não é digno de mim...”
“Pedro, tu me amas?” (Jo 21,15). O discipulado é para toda a vida. A aprendizagem não tem fim. Precisamos chegar ao ponto de ele nos cativar, de apaixonarmo-nos por ele. Para tanto, ajuda-nos contemplá-lo, ouvi-lo, observar o que ele faz e como age nas cenas dos evangelhos.
Ser discípulo significa seguir os passos de Jesus
Ser discípulo é seguir Jesus com alegria, e não com desalento. Não serei eu o primeiro a deixar pai e mãe, bens, barcos e redes para segui-lo por amor e fé. Tantos fá o fizeram antes de mim! Uma vez conhecido e amado, tendo-o encontrado como amor maior da minha vida (tesouro escondido e pérola preciosa!), sorei capaz de ir com ele até à cruz!
“As aves do céu têm ninhos, as raposas tem covas, mas o filho do homem não tem onde reclinar a cabeça... Eu nasci numa estrebaria, sou de Nazaré, de classe humilde... Sou manso e humilde de copração... Queres seguir-me de verdade?!”
Ser discípulo significa fazer aliança com Jesus
Jesus é a maior manifestação do amor de Deus. “Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho... Tendo Jesus amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim...” Reconhecendo que isso ocorreu por pura gratuidade, por misericórdia sem limites, e vendo que Jesus, da encarnação à cruz, solidarizou-se conosco e, apesar das nossas fidelidades, nos perdoou e redimiu, brota em nós uma resposta totalizante: a fé e o amor.
Desta resposta de fé e de amor, do conhecimento interno da pessoa de Jesus, brota expontaneamente a adesão à aliança de amor que ele nos oferece e que buscamos viver no discipulado, na vivência da comunhão fraterna segundo seus ensinamentos e seu exemplo. E, como consequência do amor a ele, engajamo-noss no projeto do Reino, que é Vida e Liberdade para todos .
Assim vivendo, com os olhos  do coração fixos em Jesus Cristo, e deixando-nos conduzir com docilidade pelo Espírito Santo, se realizará em nós a humanização, a cristificação, a divinização: seremos filhos e filhas tal como o Pai sempre sonhou. É assim que chegaremos a formar Cristo em nós!

Pe. Rodolpho Ceolin msf

A vida religiosa no Brasil

A alegria de servir é missionária!

O Papa Francisco inicia sua exortação sobre a evangelização no mundo atual afirmando que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”, porque este encontro liberta do pecado, da tristeza, do vazio interior e do isolamento. E, depois de lembrar que o dinamismo que nos leva a “sair” da própria comodidade para alcançar todas as periferias está muito presente na Palavra de Deus, conclui: “A alegria do Evangelho, que enche a vida da comunidade dos discípulos, é missionária” (n° 21).
O Papa destaca que a alegria cristã tem sua fonte no amor maior de Deus, no encontro vivo com ele em Jesus Cristo. É graças a estre encontro, que se converte em amizade feliz, que superamos o isolamento e a autorreferencialidade e chegamos a ser realmente humanos (cf. EG, n° 7-8). “A  alegria do Evangelho é tal que nada e ninguém no-la poderá tirar” (EG, n° 84). E esta é uma alegria profunda, que brota da certeza de que o Evangelho dá respostas às necessidades mais profundas da pessoa humana (cf. EG, n° 265).
Mas faz parte deste encontro regenerador anunciar Aquele que encontramos e convidar outros a fazer a mesma experiência. E isso não por causa de um imperativo externo, mas por fidelidade a nós mesmos. “Sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem. (...) O ideal cristão convidará a sempre superar a suspeita, a desconfiança permanente, o medo de sermos invadidos, as atitudes defensivas que nos impõe o mundo atual. (...) O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o outro...” (EG, n° 87-88).
Longe de se reduzir a um conjunto de mandamentos e proibições e de nos fechar em nós mesmos/as, o Evangelho nos convida a responder a Deus que nos ama e salva, “reconhecendo-o nos outros e saindo de nós mesmos/as para procurar o bem de todos”. E este convite não pode ser considerado secundário! “Se tal convite não refulge com vigor e fascínio, o edifício moral da Igreja (e também a VRC como um todo) corre o risco de se tornar um castelo de cartas” e estaremos anunciando apenas algumas ênfases morais e doutrinais que derivam de nossas opções ideológicas (cf. EG, n° 39).

Eis o caminho para que a VRC reencontre a fascinante alegria que contagiou multidões em diferentes momentos da história. É a alegria de quem se sente amado/a, acolhido/a e enviado/a a amar e servir, começando pelo serviço aos últimos da escala social, passando pelo serviço àqueles/as que se congregam no mesmo corpo e chegando a todas as pessoas. É a alegria de quem faz a mística experiência da beleza e da bondade que pulsa nas veias do mundo; daqueles/as que se descobrem chamados/as a pronunciar uma Palavra profética de Deus sobre o mundo; quem reconhece que o Evangelho é mais testemunho que doutrina; das pessoas que ousam ensaiar formas de fraternidade, por mais frágeis que sejam; de gente que experimenta o prazer espiritual de ser povo; de cristãos que vivem intensa e radicalmente a graça da minoridade; de gente que se arrisca na construção de tendas provisórias e leves para os Sonhos que a faz viver.
Itacir Brassiani msf

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Vida Religiosa no Brasil

Jesus de Nazaré, aquele que veio para servir.


Seguir os passos de Jesus de Nazaré e imitar seu modo de viver é o que os religiosos e religiosas nos propomos. Nem mais, nem menos, apenas isso, e sempre! Mas, para realizar este ousado projeto que nos envolve inteiramente como pessoas e instituição, precisamos “permanecer com Jesus, que caminha conosco e faz arder o coração”. É no encontro com ele e na adesão ao horizonte absoluto que deu sentido à sua vida e sua ação – o Reino de Deus – que poderemos vislumbrar o “núcleo identitário da Vida Religiosa Consagrada”.
Nesta perspectiva, é importante não esquecer que, no episódio de Emaús, a Palavra que Jesus anuncia aos discípulos que caminham desencantados é aquela que os ajuda a compreender que o Filho do Homem ungido e enviado ao mundo para conduzi-lo à vida plena realiza sua missão assumindo a figura de Servo, de Cordeiro. Ele veio para dar sua vida em resgate por muitos, veio para servir, e não para ser servido!
Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus: Ele estava na forma de Deus, mas renunciou ao direito de ser tratado como Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo e tomou a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens. E encontrado na figura de homem, rebaixou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fil 2,5-8). Eis aqui o núcleo identitário da vida religiosa: dar a vida para que todos tenham vida; inclinar-se diante da humanidade para lavar os pés dos homens e mulheres, e isso tanto pessoalmente como comunitariamente.
A atitude e a ação de Jesus como Servo está plasticamente representada no gesto do lava-pés (Jo 13,1-20). Colocando-se aos pés dos discípulos, Jesus desfaz a idéia de um Deus celeste e soberano e nos revela um Deus servidor da humanidade. Ele não age de cima para baixo, como quem dá uma esmola, mas de baixo para cima, elevando os homens e mulheres ao seu próprio nível. Com este gesto, Jesus deslegitima as hierarquias e inaugura uma comunidade na qual todos as pessoas são ao mesmo tempo servas e senhoras. Jesus não se rebaixa; ele simplesmente não reconhece nenhuma espécie de hierarquia e desigualdade entre as pessoas. Na comunidade inaugurada por Jesus a diferença não significa hierarquia, as funções e responsabilidades não justificam nenhuma superioridade. Nenhuma pretensão de superioridade pode se pretender legítima, porque colocar-se acima de uma pessoa significa colocar-se acima de Deus.
O papa e agora santo João Paulo II escrevia: “Ao lavar os pés (aos discípulos), Jesus revela a profundidade do amor de Deus pelo homem: nele, o próprio Deus se põe ao serviço dos homens! Mas revela ao mesmo tempo o sentido da vida cristã e, com maior razão, da vida consagrada, que é vida de amor oblativo, de serviço concreto e generoso. No seguimento do Filho do Homem, que “não veio ao mundo para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28), a vida consagrada, pelo menos nos períodos melhores da sua longa história, caracterizou-se por este ‘lavar os pés’, ou seja, pelo serviço sobretudo aos mais pobres e necessitados” (Vita Consecrata, 75). E, no final da exortação, convidando-nos a olhar para o futuro: “Fazei da vossa vida uma ardente expectativa de Cristo, indo ao encontro dele como virgens prudentes que vão ao encontro do Esposo. (...) Desse modo, sereis renovados por ele, dia após dia, para construir com o Espírito comunidades fraternas, para com ele lavar os pés aos pobres e dar a vossa insubstituível contribuição para a transfigração do mundo” (n° 110).
A propósito, expondo as linhas fundamentais de uma espiritualidade missionária, o Papa Francisco fala do “prazer espiritual de ser povo” (cf. Evangelii Gaudium, 268-274): é preciso desenvolver o prazer espiritual de estar próximo da vida das pessoas e descobrir que isso é fonte de uma alegria superior. “Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros”, que superemos a tentação de uma prudente distância das chagas de Jesus (n° 270). “É claro que Jesus não nos quer como príncipes que olham desdenhosamente, mas como homens e mulheres do povo” (n° 271). “É maravilhoso ser povo fiel de Deus. E ganhamos plenitude quando derrubamos os muros e o coração se enche de rostos e nomes!” (n° 274).
Lembro aqui também a bela oração de Charles de Foucauld, que pode ser considerada uma síntese da sua espiritualidade e um programa de vida para os consagrados e consagradas: “Dai-me, Senhor, a graça de aproveitar da vossa lição. Fazei que me considere sempre servidor de todos, servidor das almas e dos corpos, para fazer a cada um o maior bem possível; servidor que serve sempre que a ocasião se apresenta; servidor que toma o último lugar; servidor que não se faz servir pelos outros; servidor que em qualquer situação procura servir os outros, como vós me ensinastes. Vós que, sendo Deus e Senhor, quisestes viver entre nós como aquele que serve. Amém!”
É verdade que, salvo algumas exceções, sempre temos declarados em alto e bom som que nossa meta é servir a Deus, servir à Igreja, servir o povo. Ocorre que tendemos a fazer isso assumindo ares de professores e capitães, como indivíduos que ensinam e mandam. Agrada-nos mais um Cristo com jeito e privilégios de senhor que um Jesus Servo; um Cristo com vestes e postura de rei e juiz que um Jesus sentado à  mesa junto com os pecadores e pobres. Com que frequência ficamos discutindo o que a VRC tem a mais ou em que é superior aos demais estados de vida, esquecendo-nos de que, do ponto de vista evangélico, ela só pode ser superior ao nosso próprio estilo de vida anterior; que ela é um caminho que nos chama a uma conversão mais radical e mais permanente...
O desafio real e urgente não é apresentarmo-nos como Servos/as, mas encontrar expressões concretas e compreensíveis de serviço. Muitas iniciativas e projetos, inicalmente ousados e generosos, com o passar do tempo vão perdendo sua meta, tornando-se obras potentes e rígidas, e muitas vezes acabam fazendo o contrário daquilo que as fez nascer. Como estabelecer a prioridade da busca de uma maior e necessária leveza institucional que esteja a serviço da missão, ou seja: que ajude visibilizar nossa condição e nossa vocação de Servos/as dos pobres, de servidores do Reino de Deus? Aqui não é o lugar para indicar caminhos concretos, mas o que não podemos é fazer de conta que servir seja apenas um verbo a mais, como crescer, sobreviver, ensinar e acumular.
A estas alturas, outras perguntas perguntas me inquietam e fazem pensar: Que lugar pode ocupar a VRC em uma sociedade que é fruto de um processo emancipador e em uma Igreja que ousa se pensar como povo de Deus, profético e peregrino no mundo, todo inteiro chamado à santidade? Quais são os principais desafios diante dos quais as pessoas consagradas e seus institutos não podem desviar o olhar ou esconder a cabeça na areia? Como viver com autenticidade e alegria o seguimento de Jesus Cristo Servo em tempos tão críticos e tão pleno de encruzilhadas?

Itacir Brassiani msf

domingo, 17 de agosto de 2014

Vida Consagrada no Brasil

A Vida Religiosa Consagrada do Brasil em questão
Assembléia da CRB Minas Gerais - 16.08.2014
No mês de julho de 2013, os religiosos e religiosas do Brasil concluíram um ano inteiro de reflexão e discernimento, constatando que, como os discípulos de Emaús, “estamos numa encruzilhada da nossa história, pois aconteceram coisas que não esperávamos”. Concluíram também, que algumas expectativas não se realizaram “e nos perguntamos por nossa identidade e missão”.
Ao mesmo tempo, reunidos/as em assembléia, afirmavam com convicção: “Jesus Ressuscitado caminha conosco, aquece o nosso coração e nos convida, por sua Palavra, a viver a radicalidade do seguimento com alegria e esperança”. Por isso, diziam estar prontos/as a se levantar com entusiasmo renovado para “ir às fronteiras da missão”, ouvindo os gritos, compartilhando as dores e abraçando a causa dos pobres e dos jovens.
Para fazer as contas com o caminho percorrido e concretizar este propósito caracterizado como horizonte iluminador para a caminhada dos próximos anos, os religiosos e religiosas reunidos em Assembléia estabeleceram quatro prioridades: (1) Reapropriar-se do núcleo identitário da Vida Religiosa Consagrada; (2) Intensificar a presença missionária e a atuação profética nas situações de fronteira e periferia;  (3) Fortalecer a Inter-congregacionalidade e a partilha de carismas e experiências, em vista da missão; (4) Qualificar o processo formativo em todas suas etapas e dimensões.
Precisamos ser cautos, e não dar por descontada a assimilação destas constatações e propósitos pelos institutos religiosos e seus membros. Aproveitando a oportunidade desta Assembléia Anual da CRB Minas Gerais, no contexto dos 60 anos de história da CRB, poderíamos parar um momento para perguntar e responder a nós mesmos/as:
Qual é mesmo a encruzilhada na qual estamos, e quais são os caminhos que se cruzam: os caminhos que nos fazem avançar, os caminhos que podem ser desvios e atalhos, caminhos que podem nos levar a recuar?
Contemplando os últimos cinquenta anos da nossa história e o momento em que vivemos, o que é mesmo que não esperávamos que acontecesse conosco e tem acontecido, e o que esperávamos que ocorresse e não ocorreu?
Cremos de fato que o Senhor ressuscitado caminha conosco e que sua Palavra, que precede e excede as escrituras sagradas, ressoa vivamente nos  gritos e dores dos pobres e jovens, a quem somos chamados/as a escutar?
É verdade que estamos dispostos/as a levantarmo-nos, a sacudir a poeira, a deixar a tentadora segurança das nossas casas e obras, outrora eficazes e socialmente relevantes, para ir às fronteiras da missão e ser presença profética?
Em que medida cremos realmente que em Jesus de Nazaré, que vem ao nosso encontro e nos acompanha como forasteiro e servidor, despojado de poderes, honras e privilégios, se esconde o núcleo identitário da Vida Religiosa Consagrada (VRC)?
A VRC, com suas intuições e instituições, faz parte dos nossos sonhos mais preciosos ou dos pesadelos que nos atordoam? Ela tem nos ajudado a experimentar a alegria de ser servo/a, e não príncipe ou princeza?
Estamos verdadeiramente dispostos/as a aprender uns/mas com os/as outros/as, a juntar forças, a pensar e atuar de forma intercongregacional? Qual é o grau da nossa disponibilidade pessoal e institucional para assumir funções na CRB?

Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA (ANO A - 2014)

Maria é uma imagem da humanidade liberta e solidária.

A Assunção de Nossa Senhora é uma festa mariana que, para as comunidades católicas do Brasil, está ligada à semana dedicada à vocação à vida religiosa. Mas aquilo que cremos sobre Maria não tem a ver exclusivamente com os religiosos e religiosas: de alguma forma se refere a todos os homens e mulheres, à comunidade eclesial, ao povo de Deus. A glorificação de Nossa Senhora, a plena realização de sua vida e sua vocação em Deus é uma interpelação e uma promessa extensivas a toda a Igreja e a todos os homens e mulheres. E isso é preanunciado na imagem que João vê aparecendo no céu.
Lucas a apresenta Maria como uma mulher que sabe ouvir a Palavra viva de Deus e que está pronta a dar o melhor de si para que esta Palavra se realize na história. É alguém que ousou acreditar na força da Palavra e na fidelidade daquele que a pronuncia. Deus pôde realizar grandes coisas nela e através dela porque encontrou nela base humana indispensável. Não fazemos bem quando idealizamos e desumanizamos, tirando-a da história. Para fazer-se humano o Filho de Deus precisou de uma pessoa fundamentalmente humana, não de uma criatura angélica!
Depois da experiência de ser amada e de receber a tarefa de dar à luz aquele que é a Luz do mundo, Maria vai apressadamente à casa de Isabel. Busca um sinal que confirme a parceria de Deus com os humildes e sua aliança com os pobres. A discípula se faz serva, a serva se mostra peregrina e a peregrina experimenta a hospitalidade na casa de Isabel. Lá, duas mulheres louvam a Deus e profetizam. A discípula, serva e peregrina se transforma em profetiza destemida. Maria contempla a história do seu povo e proclama a intervenção libertadora de Deus.
É importante não esquecer que Maria, esta mulher assunta ao céu, não é apenas uma humilde trabalhadora do lar, uma pessoa discreta que acredita em Deus, uma doce e recatada esposa de um carpinteiro. Deus assume em corpo e alma e eleva à glória do céu uma mulher que rompe com os costumes que menosprezam a mulher e a mantêm calada, que diz uma palavra profética na arena pública, que proclama uma revolucionária intervenção de Deus sobre a história. Ela já havia usurpado o título masculino de “Servo de Deus” e agora abre a boca e profetiza.
Maria simboliza uma Igreja com traços femininos. Nela e com ela, a Igreja é chamada a construir-se como corpo que acolhe, aquece, alimenta, ensina, respeita e favorece o crescimento e o amadurecimento dos filhos e filhas. Uma Igreja institucionalmente rígida, fechada, autoritária, legalista e doutrinária não tem pouca relação com a figura feminina de Maria. Com Maria e suas companheiras mulheres é possível construir uma Igreja que vive intensamente a alegria do Evangelho, que deixa de ser alfândega e tribual para ser lar e enfermaria que acolhe e cuida, como quer o Papa Francisco.
Inspirada em Maria, a Igreja precisa criar espaços e condições favoráveis ao desenvolvimento de homens e mulheres maduros, livres, despojados, solidários e comprometidos com a salvação do mundo. Um corpo ou uma instituição que se impõe pelo medo e pela lei está condenado à esterilidade e nunca terá a graça de sentir os filhos e filhas saltarem de alegria no seu ventre. Seria um corpo incapaz de conhecer a felicidade, um túmulo de homens e mulheres que não chegam a nascer verdadeiramente. Deus nos livre de uma Igreja com nome feminino mas com estruturas masculinas!
Na origem da vocação à vida consagrada está a experiência de um Deus que olha nos olhos e, sorrindo, chama pelo nome. Ou uma experiência como aquela de Maria e de Isabel: “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo!” E então os pés percorrem caminhos e o corpo estremece de alegria por receber inesperadamente a visita de Deus na própria casa. A vocação à vida religiosa não é primariamente um caminho de purificação moral ou de desprezo do mundo, mas de plenitude de uma graça que não cobra méritos: dar de graça aquilo que de graça se recebeu.
Maria, profetiza corajosa, mãe amorosa e discípula fiel do teu Filho: intercede junto a ele para que as pessoas que se consagram a Deus sejam ouvintes da Palavra, cresçam no serviço aos pobres e amadureçam na profecia. Que sejam fiéis ao chamado de proclamar com a vida e com palavras que nada pode ser colocado acima do amor pessoal a Jesus Cristo e aos pobres nos quais ele vive. Assim, ajudarão Jesus a vencer a morte que ameaça seus irmãos, que não se reduz à luta contra o aborto. E que se façam ativa e corajosamente presentes nos desertos, nas periferias e nas fronteiras. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Apocalipse 11,19; 12,1-6 * Salmo 44 (45) * Primeira Carta aos Coríntios 15,20-27 * Lucas 1,39-56)

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

19° Domingo do Tempo Comum (Ano A - 2014)

O Senhor nos acompanha em todas as travessias.
A vida é uma travessia e viver é caminhar. As travessias costumam ser arriscadas e causam medo. Há aqueles que preferem evitá-las sempre, pois estão convictos de que o risco não compensa. São pessoas que fecham os ouvidos a todo todo e qualquer chamado; padres que desempenham sua missão pastoral como uma atividade qualquer ou até como uma carreira; pais e famílias que se recusam a avançar na tarefa de repensar a forma de realizar essa exigente missão; fiéis que preferem as velhas e potentes imagens de Deus ao desafio de descobri-lo na brisa leve da luta pela justiça.
Mas a revelação de Deus é experimentada mais claramente nos movimentos de passagem que na estabilidade dos templos e dos lugares-comuns: do Egito para a terra prometida; do centro para a periferia; do eu para o nós; da aparente segurança das cavernas para o descampado estimulante da montanha; do poder para o serviço; da auto-suficiência para a entre-ajuda; do peso das estruturas eclesiásticas para a leveza e a criatividade do Espírito. Parece que Deus não gosta de se estabelecer. A Deus agrada mais o campo aberto e as estradas que os templos, imitem ou não o de Salomão...
Como nos foi lembrado no domingo passado, os discípulos de Jesus imaginavam um Deus indiferente às necessidades dos famintos ou suficientemente poderoso para resolver sozinho todas as dificuldades do povo. Esta é a imagem de Deus que predomina nas diversas religiões e em amplos setores do povo católico ainda hoje. Mas Jesus revela-se um Deus compassivo com os pobres, um Deus que tem necessidade da nossa colaboração – nem que seja apenas cinco pães e dois peixes! – na sua ação libertadora. E é ele que nos convida a superar o medo e confiar na sua presença em todas as travessias.
Porém, apesar dos séculos de pregação, as imagens de um Deus poderoso e ameaçador, ou então nacionalista e ligado aos interesses de pequenos grupos, ainda não se apagaram da nossa memória. Ensinaram-nos que Deus se revela no poder destruidor dos terremotos, no fogo devorador das ideologias totalitárias, no mistério aterrador dos furacões, nos pesados decretos que condenam, na dura punição aos que erram. Segundo essa ideologia religiosa, Deus seria onipotente, onisciente e onipresente, e quanto mais poder ou saber alguém possui, mais se pareceria com ele...
Diante de um Deus com estas características, caímos por terra ou gritamos de medo. E do ventre do medo não costuma nascer o amor que se faz dom, mas a agressividade da autodefesa ou da dominação. Um Deus com tais traços é um fantasma, uma fantasia que se abriga nas pessoas que não superaram o desejo infantil de onipotência. E este fantasma, via de regra, está a serviço das diversas formas de dominação e de infantilização religiosa, econômica e política. Parecemo-nos com Pedro, que tenta caminhar sobre as águas, revelando seu desejo de participar da presumida onipotência de Deus...
É o medo dos ventos contrários, das diferenças e dos questionamentos que gera a dúvida e nos leva a afundar, tanto em termos humanos como espirituais. O medo não nasce da verdadeira experiência de Deus, mas de uma imagem parcial ou confusa de Deus. É isso que percebemos nos discípulos no episódio da travessia do mar: a força do vento e das ondas que fustiga a barca como a tirania dos poderosos, somada à idéia de um Deus que caminha indiferente sobre as ondas, arranca-lhes gritos de pavor. E esta dúvida sobre a divindade de um Jesus frágil e compassivo leva Pedro a afundar apavorado.
Paulo lamenta que seus irmãos de raça e sangue tenham se apegado às leis, à religião, às instituições e às promessas como se fossem um privilégio que os colocam acima dos demais seres humanos ou povos e fora das peripécias e exigências da história. Talvez seja esse o maior obstáculo aos acordos de paz, tão necessários à vida mínima de israelenses e palestinos. Isso nos lembra que filiação é um dom e uma graça que carregamos como tesouro em um vaso de barro, e jamais um mérito ou uma propriedade. Nem todos aqueles que ostentam o título de cristãos o são de fato...
Deus, pai e mãe, presença amorosa e encorajadora em todas as humanas travessias: Tu conheces a generosidade e a ambiguidade, a coragem e o medo de cada um de nós. A tentação continua nos levando a te procurar no fogo, no terremoto, na ventania, nos acontecimentos que impressionam. Vem ao nosso encontro como calmaria! Socorre nossa pouca fé e cura as dúvidas do nosso coração e os desvios do nosso afeto. Ensina os pais a cuidar dos filhos e filhas, colocando-se entre eles e guiando-os como modelos de vida, e não como patrões e senhores. E que nossas famílias sejam escolas de comunhão. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(1° Livro dos Reis 19,9-13 * Salmo 84 (85) * Carta aos Romanos 9,1-5 * Mateus 14,22-33)

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O aborto na campanha politica

Sobre a ideológica obsessão por algumas questões morais na campanha eleitoral.
No último domingo (dia 03 de agosto), publiquei no facebook algumas linhas sobre a exploração politiqueira e oportunista do projeto de discriminilazição do aborto. Comecei afirmando que a legalização do aborto é indefensável do ponto de vista ético e cristão (mesmo que a discussão não seja exatamente sobre a legalização, mas sobre a discriminalização em algumas situações bem específicas), e questionei a postura de cristãos (?!) que acusam o PT e o governo Dilma de abortistas como forma disfarçada de chamar os cristãos e católicos e votar nos outros candidatos.
E perguntava:  “Trata-se de militância “pro-life” ou de postura “pro-forbes”, “pro-money” e “pro-elites”?” Confessava também minha tristeza e minha preocupação ao ver “membros do clero e da hierarquia eclesiástica assumindo posturas tão ingênuas, e rezo para que sejam apenas ingênuas, e não maliciosas e interesseiras, eivadas de desprezo por tudo o que é popular e venha em benefício de um povo livre e soberano...” Isso porque, salvo engano, os que levantam estas bandeiras seriam “os mesmos que se calam diante do trabalho escravo, da grilagem de terras, dos fundos-abutres, das arbitrariedades dos EUA no mundo, da idolatria do capital em todos os cantos, do roubo dos territórios e do genocídio dos indígenas, das guerras promovidas e sustentadas para alimentar o comércio de armas...
Discutindo minha postagem, o  amigo Léo Löw (de Ijuí – RS) escrevia: “Um Padre jamais pode apoiar um partido que incentiva o aborto, as uniões homossexuais e a ‘forçação de barra’ com nossas crianças para que sejam gays, a corrupção intensa e os interesses dos bancos como faz o PT. O PSDB é péssimo também, mas não incentiva o aborto e a homossexualidade. Somente isso já proíbe um Padre de apoiar o PT, mesmo que façam outras coisas boas... Nada justifica...” (os destaques são dele).
Sem entrar na questão da análise dos programas e práticas dos partidos que postulam o governo do Brasil, quero apenas fazer duas considerações. A primeira é que o PT não é o criador da cultura hegemônica e globalizada, que tem suas ambiguidades, mas também afirma, com acerto, a diversidade e o pluralismo como valor e a dignidade inalienável da pessoa humana, inclusive dos negros, gays, indígenas, mulheres, migrantes, enfim, daqueles que a ideologia do mercado trata como impessoas (Noam Chomsky). E tenho dificuldades de encontrar fundamentos na afirmação de que o PT está forçando a barra para gayficar nossas crianças. E na questão de favorecimento dos bancos, o PT não tem feito outra coisa que manter, impondo pequenos e insuficientes limites, a execrável política implementada por FHC e o PSDB. O silêncio interesseiro sobre a questão dos gays e o aborto não o faz melhor e mais aceitável que p PT!
A segunda consideração é sobre meu apoio ao PT e a dita contradição com a fé que professo e me orienta. Reconhecendo que que o ensino do Papa Francisco é amplo e não pode ser manipulado, repito com ele: “Com sou eu para julgar os gays?” E acresento dois pensamentos que ele nos propõe na exortação Evangelii Gaudium. “Uma pastoral em chave missionária não está obsessionada pela transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de insistir. Quando se assume um objetivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem exceções nem ex­clusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário” (n° 35).
O Papa diz também que a hierarquia das verdades da fé e a unidade orgânica entre as virtudes nos impedem de excluir qualquer uma delas do ideal cristão. “Quando a pregação é fiel ao Evan­gelho, manifesta-se com clareza a centralidade de algumas verdades e fica claro que a pregação mo­ral cristã não é uma ética estóica, é mais do que uma ascese, não é uma mera filosofia prática nem um catálogo de pecados e erros.” Segundo o Papa Francisco, o Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e salva, e a reconhecê-lo nos outros, saindo de nós mesmos para procurar o bem de todos.
Baseado nesse princípio, o Papa afirma: “Este convite não há-de ser obscurecido em nenhuma circunstância! Todas as virtudes estão ao serviço desta resposta de amor. Se tal convite não refulge com vigor e fascínio, o edifício moral da Igreja corre o risco de se tornar um castelo de cartas, sendo este o nosso pior perigo; é que, então, não estaremos propriamente a anunciar o Evangelho, mas algumas acentuações doutrinais ou morais, que derivam de certas opções ideoló­gicas” (n° 39). Infelizmente, alguns militantes católicos chamados pro-life não escondem esta obsessão doentia por alguns temas moralizantes, silenciando propositalmente princípios mais centrais e relevantes...
Refletindo sobre o papel da catequese na evangelização, o Papa diz ainda que “é oportuno indicar sempre o bem desejável, a proposta de vida, de maturidade, de realização, de fecundidade, sob cuja luz se pode entender a nossa denúncia dos males que a podem obscurecer. Mais do que como peritos em diagnósticos apocalípticos ou juízes sombrios que se comprazem em detectar qualquer perigo ou desvio, é bom que nos pos­sam ver como mensageiros alegres de propostas altas, guardiões do bem e da beleza que resplan­decem numa vida fiel ao Evangelho” (n° 168).

Itacir Brassiani msf