quinta-feira, 25 de setembro de 2014

26° DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A – 28.09.2014)

Da Palavra de Deus vem a sabedoria dos simples.
No horizonte das relações humanas, dar atenção à palavra significa valorizar a pessoa que fala. Mais importante que a palavra e o conteúdo é sempre a pessoa que fala. Assim também em relação à Palavra de Deus: a atenção à Palavra de Deus está a serviço da nossa relação com ele. Quando separamos a Palavra e Deus corremos o risco de reduzir a primeira a um discurso vazio, frio e estéril. E então a Palavra, que é viva e libertadora, pode se tornar doutrina pesada e letra que mata. Como nos recorda o salmista, a Palavra torna sábias as pessoas simples (cf. Sl 119/118,130).
O Concílio Vaticano II ensina que Deus fala depois de ouvir, que ele se revela dialogando, como amigo que se entretém conosco e nos convida a participar de sua intimidade. A palavra dialogal é sempre uma proposta que espera resposta. É um convite que espera ressonância. Mesmo quando se apresenta como ordem, a Palavra conta com a livre decisão do interlocutor. Uma palavra imperativa, que vem de cima e sabe somente dar ordens, que não se interessa com a resposta, que desconhece os tempos indicativo e subjuntivo, tem jeito de imposição, infantiliza e não constrói pessoas livres.
Jesus Cristo, a Palavra de Deus feita carne e história, é convite e apelo que traz a força dAquele que a pronuncia. Este convite tem autoridade e mobiliza porque vem de Alguém que se faz um de nós, se torna igual a nós em tudo, assume e pronuncia a palavra do simples ser humano, com seus sonhos e necessidades. “Vai trabalhar hoje na minha vinha...” Jesus é palavra que convoca à ação, a assumir a responsabilidade pela nossa própria emancipação, a assumir nossa responsabilidade no mundo e na história. E ele espera uma resposta que não seja apenas aparente e formal.
A crítica de Jesus aos fariseus, sacerdotes e doutores da lei é paradigmática, e nos coloca de sobreaviso. Aqueles que se sentem orgulhosamente os primeiros ouvintes e exemplares praticantes da Palavra de Deus na verdade são como filhos que dizem sim à ordem do pai mas se recusam a fazer o que ele pede. Creio que nós não estamos livres dessa tentação. Corremos o risco de ficar na superfície, na aparência. Não faltam homens e mulheres de igreja que estudam cientificamente a Palavra de Deus, conhecem o contexto e o texto, mas não conseguem passar do cérebro ao coração e às mãos...
E há outros que dizem não à Palavra de Deus, mas só aparentemente: alguns não frequentam muito assiduamente as celebrações; outros se opõem abertamente à Igreja e às religiões; muitos amargam experiências de pobreza, marginalização e exclusão... Mas tantos deles se empenham de corpo e alma na tarefa de humanizar o que lhes sobra de vida e de evitar que o mundo se corrompa ainda mais. Começam pelo círculo de pessoas que se congregam na família e militam em associações, movimentos, sindicatos e organizações solidárias. O não inicial e público deles se revela um sim prático e anônimo.
Mas há outras tantas pessoas que sequer conseguem crer em si mesmas. Não se consideram merecedoras de nada e parecem ser uma negação absoluta de tudo o que possa ser bom e desejável. São como as prostitutas e os publicanos do tempo de Jesus. A elas é o próprio Deus que diz um sim claro e retumbante: sim à sua dignidade, sim à sua inclusão, sim ao seu desejo de uma vida mínima. Jesus Cristo é o sim de Deus às aspirações profundas da humanidade, especialmente das diversas categorias de oprimidos! Essas pessoas são acolhidas na primeira classe do Reino!
Em Jesus de Nazaré, Deus se faz avalista dos sonhos de dignidade, igualdade e liberdade que nos habitam. Mas ele é também um sim ao Pai, e isso se expressa no esvaziamento de toda superioridade prepotente, na eliminação de todo distanciamente prudente, no movimento de fazer-se próximo e ocupar um lugar ao lado dos últimos.  Este esvaziamento não é uma ascese vazia que despreza a vida, mas um movimento de aproximação daquilo que é humano, de amor ativo e solidário, de verdadeira humanização. E Paulo hoje Paulo nos convida a assumir esta postura, este sentimento de Jesus...
Deus pai e mãe, através do teu filho e nosso irmão Jesus continuas dirigindo-nos tua palavra-convocação. Às vezes este palavra-convite nos desconcerta e inquieta. Teu filho parece exagerar quando afirma que as pessoas tratadas como pecadoras precedem as ‘pessoas de bem’ no teu Reino. Isso não nos parece justo. Que Ezequiel nos ensine que errados estamos nós, e não tu. Que os santos e santas, e a nuvem de testemunhas de ontem e de hoje, nos convençam de que a Justiça do Reino é um caminho possível, pois eles o percorreram. Que eles intercedam por nós e por toda a Igreja. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Profeta Ezequiel 18,25-28 * Salmo 24 (25) * Carta aos Filipenses 2,1-11 * Mateus 21,28-32)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Mitos eleitoreiros

Desfazendo mitos eleitoreiros

Mais uma vez nos encontramos em período eleitoral. E nesta época sempre aparecem os “mitos”, uma vez que os brasileiros costumam discutir política não com a razão, mas com a emoção, com a mesma paixão que discutem futebol nos botequins das esquinas. Neste período, assim como acontece na discussão sobre futebol, aparecem 200 milhões de “cientistas políticos”, cada um pretendendo arrogantemente entender de política mais do que os outros.
Não se trata de não colocar paixão na reflexão de um tema que permeia toda a vida da nação e afeta cada um de nós brasileiros. Como já dizia o poeta e dramaturgo alemão, Bertold Brecht, tudo em nossa vida depende da política: a comida, o transporte, a educação, a saúde, a roupa, o calçado etc. etc. Que bom seria que em todos os espaços, em todos os lugares, em todos os ambientes se discutisse com muita seriedade o tema da política. Mas a questão está exatamente na forma como discutimos. De um modo geral fazemos isso sem consciência crítica, sem discernimento e sem nem mesmo saber do que estamos falando. Vamos muito pelo que diz a grande mídia, envolvida e totalmente comprometida com a elite e a burguesia brasileira, as quais querem manter seus privilégios às custas do sacrifício da maioria da população brasileira. Para defender os interesses dos poderosos, a grande mídia, geralmente controlada por eles, inventa e divulga alguns “mitos” que terminam confundindo a cabeça do eleitor desavisado, levando a acreditar e a votar exatamente em quem ele nunca deveria crer e votar. Vejamos agora alguns dos “mitos” inventados pela nossa mídia.
O primeiro deles é passar a impressão de que um candidato “ficha limpa” é um anjo, alguém sem nenhum defeito, sem nenhuma mácula. Ora, isso, além de ser falso, é irreal. Há milênios as grande culturas e as grandes experiências religiosas detectaram que “todo homem é mentiroso, todo homem”. Não há, pois, candidatos genuinamente puros, totalmente revestidos de uma lisura ímpar. Quem ainda acredita nisso é um iludido, é um idiota que não se dá conta da realidade concreta do ser humano. Como já diziam os grandes filósofos gregos, em cada um de nós habita pelo menos um anjo e um demônio. Pensar que há alguém desprovido de seu lado demoníaco é pura idiotice. O que resta fazer, então? É procurar pessoas, candidatos equilibrados, ou seja, pessoas nas quais o lado demoníaco não prevaleça. E como isso dá trabalho e as pessoas se recusam a fazer como Zaratustra, o personagem de Nietsche, saindo pelas ruas com uma tocha acesa, em pleno dia claro, à procura desses candidatos equilibrados, terminam por aderir e votar nos que aparentam ser totalmente anjos. Aliás, uma das artimanhas dos demônios é exatamente criar a ilusão de que eles são anjos puríssimos. E com o marketing em alta, isso é possível ser feito sem maiores problemas.
Um segundo “mito”, também criado intencionalmente pela mídia “golpista”, é pensar e acreditar que “todo político é igual”, que “todos os partidos políticos são iguais”. E isso não só é falso como é profundamente enganador. No Brasil existem partidos políticos cujos programas estão totalmente voltados para os interesses das elites brasileiras. O passado destes partidos, as figuras que os compõem hoje, representam o que há de mais nojento na política brasileira. Pode-se dizer, sem medo de errar, que esses partidos hoje são bem representados pelo PSDB, pelo DEM e pelos partidos nanicos que gravitam em torno deles e a eles são subservientes. Todo eleitor crítico, consciente, ciente não vota nestes partidos. Mas há ainda bons partidos e bons políticos, cujos programas são sérios e bem significativos para o país. Mas devido ao assédio da mídia corrupta estes partidos e essas pessoas terminam permanecendo na penumbra ou sendo totalmente ignorados.
Outro “mito” que afeta a política brasileira é pensar que a solução de todos os problemas do país passa pela eleição do poder executivo. Assim, se elegermos o presidente da República, o governador do Estado e o prefeito do município, todas as questões serão resolvidas num toque de mágica. Esse mito está tão impregnado em nossa cultura política que, neste período eleitoral, se fazem somente debates públicos com os candidatos ao executivo. Deixamos de lado e não nos importamos com a eleição dos membros do poder legislativo. Estes, porém, são aqueles que fazem as leis e porque não há debate sério sobre eles, as pessoas terminam votando em elementos não comprometidos com o bem público. Basta dar uma olhada na atual bancada da Câmara e do Senado para perceber que a maioria dos que lá estão não poderia e nem deveria ter sido eleita.
Recentemente as elites, com o apoio da mídia a elas subservientes, criaram outro “mito”: o de que o Partido dos Trabalhadores (PT) é o único partido corrupto do Brasil. Tiveram a ajuda de um Judiciário parcial, que usando métodos questionados por eminentes juristas, tudo fizeram para massacrar algumas figuras do PT. Não se defende aqui a inocência dos membros do PT que foram acusados e condenados. O que se questiona é o fato de que a mídia e o Judiciário não tenham usado da mesmaseveridade com outros partidos e outros políticos. Por que, por exemplo, não puniram com o mesmo rigor o PSDB, envolvido até o pescoço na lama da privataria tucana e noescândalo do metrô de São Paulo, cujas empresas ligadas ao dito escândalo continuam descaradamente patrocinando as campanhas dos candidatos suspeitos? Por que os políticos da “Caixa de Pandora” do Distrito Federal, pegos repartindo polpudas propinas, continuam impunes até agora? Alguns deles inclusive concorrendo, no momento, a cargos políticos ou obrigados a renunciar por serem “fichas sujas”, mais porcos do que “pau de galinheiro”. Percebe-se, então, que tudo não passou de uma armadilha, com o objetivo explícito de desviar a atenção dos verdadeiros corruptos. O próprio Ministério Público, por exemplo, não quis “cortar na própria carne”. Deixou impune até agora um dos seus membros, o ex-senador Demóstenes Torres, moleque de recado do bandido Carlinhos Cachoeira no Senado. Não se pode acreditar na seriedade de um poder judiciário que prende “ladrões de galinha” e deixa solto este tipo bandido de alta periculosidade para o povo, para a nação e para o país. Este tipo de judiciário já perdeu por completo a sua credibilidade juntos às pessoas sérias, dotadas de cérebro pensante e que raciocinam com espírito crítico.
Por fim um outro mito: a do messianismo político, ou seja, da figura do salvador da pátria. De repente, no cenário político, surge alguém com ideias mirabolantes, com a história de única alternativa possível, teatralizando, como sendo a salvação da pátria. E boa parte dos brasileiros fica encantada com o discurso bonito, com o espetáculo teatral bem montado, e se deixa enganar. Não percebe que se trata de alguém que não traz nenhuma novidade concreta. Pegou carona com outros partidos, aproveitou-se do espaço que lhe foi dado, comportou-se de maneira desleal com os seus aliados de outrora, e, de repente, se apresenta como a grande alternativa. Mas basta prestar atenção para se ver que, na prática, não há nada de novo. Mesmo porque os grandes problemas da nação não se resolvem nos palanques e com palavrórios bonitos dos programas políticos.
Portanto, se queremos votar bem temos que desfazer todos esses “mitos”, refletir com seriedade, usando a razão e não apenas a emoção. Há candidatos sérios, comprometidos com o bem comum. Temos que nos dar ao trabalho de procurá-los e de encontrá-los. Temos que recusar veementemente os “clichês” fabricados pela grande mídia. Temos que nos reunir para conversar, deixando de lado paixões desenfreadas, guiando-nos pela lógica, pela objetividade e pela racionalidade. Do contrário seremos apenas marionetes e terminaremos por votar em quem nunca deveríamos votar. Mas para fazer tudo isso temos que agir com humildade, escutando os outros, aprendendo com os outros e com a história e até abrindo mão de visões deturpadas, parciais, que até então carregávamos conosco. Convém jamais esquecer de que, na prática, a teoria é outra, especialmente na política. Quem chega com ideias mirabolantes, com chavões ultrapassados, fazendo teatro para chamar a atenção sobre si, prometendo resolver tudo num toque de mágica, é um mentiroso, um falso político, um hipócrita. Este sujeito não merece a confiança do eleitor sério e honesto.

José Lisboa Moreira de Oliveira

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

25° DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A – 21.09.2014)

A Palavra de Deus alarga nossos critérios de justiça.

Avançamos setembro adentro e continua vivo e atraente oconvite e dar atenção à Palavra de Deus. “Lâmpada para os meus passos é tua Palavra!” (Sl 119/118,105). Numa época em que a discussão sobre os direitos humanos, sociais, culturais, econômicos e ambientais continua sem consenso, Jesus Cristo nos propõe uma Justiça que não se orienta pela meritocracia e estabalece firmemente o direito dos sem-direito. A Palavra de Deus alarga nossos critérios de julgamento. É mesquinha a justiça que se contenta em dar a cada pessoa aquilo que lhe é devido.
A parábola do chefe de família que trata com igualdade seus diferentes empregados está literariamente situada logo após o episódio do jovem rico (cf. Mt 19,16-26), aquele que não aceitara a proposta de partilha inerente ao Reino de Deus e que provocara o desabafo de Jesus: “Dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus...” (19,23). Jesus avança e nos propõe um horizonte mais amplo e um exemplo concreto: na parábola de hoje, o chefe de família garante aos diaristas uma moeda de prata por jornada, ou aquilo que é justo, aquilo que um trabalhado necessita para viver.
Alguns trabalhadores contratados começam a trabalhar bem cedo, outros às nove horas, outros ao meio-dia, alguns às três, e outros somente às cinco horas da tarde. A todos, o chefe de família promete um pagamento justo. Enquanto uns labutam um dia inteiro, outros empenham apena s algumas horas da tarde. E o patrão dá ao administrador a ordem de começar o pagamento por aqueles que haviam trabalhado um tempo mais curto. Aqueles que haviam sido contratados às cinco da tarde se aproximam, e cada um recebe uma moeda de prata...
Assistindo ao acerto de contas, e vendo o valor recebido pelos peões que haviam trabalhado apenas algumas horas, aqueles que haviam começado nas primeiras horas da manhã se animam, pensando que receberiam mais. E não ficam satisfeitos quando recebem o mesmo pagamento dado aos primeiros. À primeira vista o protesto parece justo, e nosso desejo é fazer coro com eles. Afinal, fazer justiça não significa dar a cada um aquilo aquilo que merece? Não nos parece justo desconsiderar a diferença entre quem suportou o cansaço e o calor do dia inteiro e quem trabalhou apenas uma hora...
“Tu os igualaste a nós!” Este é o protesto daqueles que se acham no direito de receber mais. A questão não é se precisam ou não, se haviam combinado ou não um pagamento maior. A igualdade não lhes parece  uma coisa justa. Não conseguem aceitar uma ética que tem como princípio estabelecer a igualdade fundamental de todos os seres humanos e garantir-lhes a vida mínima. Mas a verdadeira Justiça considera que cada pessoa tem direito a  receber aquilo que necessita para viver. Uma pessoa jamais perde a dignidade e o direito de ser respeitada e tratada como como sujeito de direitos.
O evangelho de hoje deixa uma pergunta no ar: os peões que se consideram os primeiros e têm dificuldade de aceitar que os últimos sejam igualados a eles não estariam com ciúme da generosidade de Deus? Deus age guiado pela sua bondade e não pelos nossos mesquinhos merecimentos. Deus trata cada uma das suas criaturas segundo aquilo que necessitam, e não segundo estreitas leis que ditam o que elas fizeram por merecer. É muito forte ainda hoje a tendência de imaginar um Deus que age com violenta frieza e pune os mais fracos, um reflexo das nossas relações excludentes e violentas.
 Jesus Cristo não deixa dúvidas: Deus dá absoluta prioridade àqueles que as sociedades costumam colocar em último lugar. “Comecem pelos últimos...” Este é o caminho que devem seguir os administradores públicos, privados e pastorais! Este ensinamento parece muito duro, contrário à corrente das nossas convicções. Desafia frontalmente as hierarquizações e os sistemas construídos sobre o princípio do mérito, sempre prontos a premiar algumas poucas pessoas bem-sucedidas e a culpabilizar as maiorias, condenando-as violentamente a uma vida que nem merece esse nome.
Deus pai e mãe, bom e compassivo com todas as criaturas: que teu Espírito regue a semente da tua Palavra a fim de que germine e frutifique em nós! Que a tua justiça generosa ilumine os julgamentos dos cristãos e das Igrejas. Que a inversão das prioridades em função dos últimos se faça verdade em todos os níveis. Que nós não poupemos esforços para defender os direitos dos humanos e de toda a criação. Oxalá aprendemos de vez que que para os cristãos a posse de bens é licita somente quando está em função da generosidade que dá a cada pessoa aquilo que necessita.  Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Profeta Isaías 55,6-9 * Salmo 144 (145) * Carta aos Filipenses 1,20.24-27 * Mateus 20,1-16)

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Reflexões do Pe. Ceolin

Ideais sem força
É inegável que da descoberta de valores, mormente quando vividos e experienciados, emanam convicções, certezas e motivações que levam a traçar ideais consistentes e suscitam uma forte mística, capaz de imprimir dinamismo invulgar no ser humano. Os avanços em qualquer dimensão da nossa vida dependem de ideiais fortes, e para estabelecer tais ideais é necessária a descoberta de valores. A eleição e a decisão por determinados valores supõe e requer que estes sejam discernidos com suficiente conhecimento (coleta de informações), com reflexão crítica e com objetividade (valores objetivos), e que sejam significativos para a pessoa (valores subjetivos).
Para buscar, definir e, especialmente, abraçar tais valores é necessário, primeiro: ter a coragem de administrar a própria vida, de ser autônomo (independente) frente ao julgamento alheio; de assumir a responsabilidade pessoal na condução da própria vida e de pagar o preço pelas opções feitas. Em segundo lugar: superar o medo à liberdade, este medo instalado no nosso inconsciente e que pode nos tolher a coragem de assumir valores transcendentes (a entrega de si mesmo a Deus e ao próximo, o amor solidário, etc.) e gerar o medo frente às exigências aparentemente excessivas dos valores e dos compromissos definitivos.
A emancipação e o rompimento com todas as formas de dependência nos comprometem profundamente, exigem a coragem de “ser quem somos”, de assumir a própria identidade, de enterrar posturas de ódio, de superar individualismos, narcisismos e egoísmos, de pôr fim a apegos e dependências que nos dão a falsa sensação de segurança interior e nos levam a evitar a mudança e a conversão.
O fato é que não nascemos livres, mas tornamo-nos livres, somos chamados à liberdade. A liberdade não é apenas um direito de cada pessoa: antes, é uma tarefa, um processo de libertação, de autonomia, de construção de uma personalidade adulta, consciente, emancipada, responsável. Quanto mais livres formos, mais capazes seremos de assumir valores exigentes e de administrar a própria vida segundo os valores eleitos. Tudo isso, porém, é condicionado e ameaçado pelo medo inconsciente à liberdade. Por isso, as opções e ideais de vida podem tornar-se anêmicos, podem perder a força, tornarem-se inconsequentes e inconsistentes, expostos à mercê dos ventos e marés das nossas emoções, das paixões incoscientes.
Seria viável uma vida consagrada sem um ideal forte e maduro? Creio que somente um forte ideal torna possível uma autêntica vida religiosa: uma vida celibatária pobre, casta e obediente; o zelo e o ardor pastoral e a disponibilidade missionária; a presença solidária e a atuação junto aos excluídos; a inserção evangélica como pobre e com os pobres; a dioturna fidelidade ao projeto pessoal e comunitário de vida; a busca e a aceitação de entreajuda fraterna; a vivência do discipulado no seguimento apaixonado de Jesus Cristo.
Quando nossos ideiais não têm ou perdem sua força, nossa vida corre o risco de tornar-se vazia de sentido; passamos a viver sem ânimo, sem brilho nos olhos, sem alegria no rosto; a pastoral se torna cansativa, simples obrigação e ofício; a vida religiosa vira um mar de amargas renúncias, uma frustração existencial; o auto-cultivo e o PV (Projeto de Vida) parecem uma imposição externa, e o PEP (Plano Estratégico da Província) dá a sensação de ser uma intromissão indesejável na nossa vida.
Então, o que fazer para que assim não seja, e para que sejamos pessoas com ideais com grande força, capazes de mover montanhas? O que fazer para recuperar o vigor dos nossos ideais de vida?
Pe. Rodolpho Ceolin msf

(Pelas referências ao PV e ao PEP, assim como o fenômeno da falta de ideiais fortes, estas notas manuscritas parecem ter sido preparadas pelo Pe. Ceolin para a formação dos junioristas, no início da década passada.)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

FESTA DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ (ANO A - 14.09.2014)

O amor transforma uma arma de morte em Árvore da Vida!
À primiera vista, parece coisa de mau gosto exaltar a cruz e dedicar a ela uma festa litúrgica. Afinal, a cruz lembra sofrimento, tortura, violência, morte. Não dá pra esquecer que a cruz era instrumento mediante o qual o império romano torturava e aplicava a pena de morte aos rebeldes políticos e aos escravos fugitivos. Mas na cruz foi torturado e executado também Jesus de Nazaré, a quem chamamos Cristo, e desde então ela adquiriu um sentido radicalmente novo: nela o amor de Deus alcançou o que era inalcançável e reverteu o que era irreversível. É expressão de liberdade e solidariedade.
A partir disso, a cruz se fez presente por todo o lado. Feita de ouro, prata ou madeira, ela pende do pescoço de muitos de nós. Imponente e solitária, está plantada em muitos lugares altos e é vista de longe. Discreta e consoladora, está nos quartos de muitos hospitais. Embelezada e solene, ocupa um lugar central em nossos templos. Estilizada, esquecida e às vezes escarnecida, pende nas paredes dos tribunais e parlamentos. É por isso, e porque o sentido da cruz nunca foi unívoco, que precisamos sempre de novo elaborar o sentido de sua presença nesses lugares e em nossa vida.
Como já disse, a cruz foi sinal de condenação daqueles que o império romano julgava rebeldes e perigosos. Para os judeus, era o sinal trágico da maldição e do abandono por parte de Deus. Mas para os cristãos, é memória de Jesus, prova irrefutável do amor de Deus. “Deus amou de tal forma o mundo que entregou seu filho único para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna.” À luz do que aconteceu com Jesus Cristo, o sentido da cruz não pode ser a afirmação de um poder nem um apelo à submissão: é um convite à resistência e à rebeldia frente aos poderes que oprimem.
Não é humana e nem cristã a doutrina que ensina que Jesus morreu na cruz para pagar nossa dívida com Deus. Um Deus que exigisse o sangue do próprio filho não seria Deus mas um ídolo violento e sanguinário. Deus não pediu o sangue do Filho, mas confiou a ele a missão de mostrar de um modo irrefutável e definitivo a fidelidade do seu amor compassivo pelas criaturas, especialmente pelos fracos e sofredores. No amor do Filho o amor do Pai se faz digno de crédito. A cruz imposta ao Filho é também assumida pelo Pai. Nele, com ele e por ele Deus chega à forma extrema do amor.
Para nós cristãos, a cruz não é vazia: o próprio Deus foi pregado nela e se oferece pro nós. Sabemos que a forma extrema e pura do amor é a compaixão, e é isso que vemos em Jesus crucificado. Na cruz ecoa a Palavra viva de Deus que grita silenciosamente: “Eu não condeno ninguém! Eu amo cada uma das minhas criaturas, e meu amor não tem limites. Todos são meus filhos e filhas, e jamais perderão essa dignidade!” Mas nela Deus também proclama em forma de advertência e orientação: “Não haverá mudança duradoura nem liberdade verdadeira senão mediante a compaixão e solidariedade.”
É profundamente belo o hino paulino que escutamos hoje na liturgia. Jesus Cristo não se apegou a privilégios nem hierarquias: apresentou-se como simples pessoa humana, sem nenhum título; assumiu o lugar dos últimos, dos escravos; não fugiu diante da ameaça da morte violenta e desceu ao inferno mais profundo, escuro e degradante. Mas é importante ressaltar que ele não percorreu esse caminho por razões filosóficas ou ascéticas. Foi o amor compassivo e soliário que o conduziu por esse caminho de descida e esvaziamento. E esta é uma Palavra viva e vivificadora, forte e confortadora.
O amor esvazia quem o pratica, aproxima, trata o outro como igual, suscita e sustenta o serviço. E nessa situação, na qual normalmente vemos humilhação e anulação, Deus revela sua plenitude e sua glória. Na cruz está a glória de Deus porque nela temos a expressão máxima de sua pró-existência, do seu amor. A exaltação de Jesus ocorre já sua crucifixão, e não um momento posterior. Sem essa expressão máxima de humanidade e compaixão a ressurreição teria sido indigna de Deus, afirmação de poderes e privilégios. A ressurreição é uma outra forma de proclamar essa verdade.
Deus Vivo, despojado por compaixão, crucificado por amor! Diante de ti caímos de joelhos, não porque nos sintamos humanamente anulados, mas porque sabemos que estamos diante do que pode haver de mais belo, profundo e verdadeiro a respeito de ti e de nós mesmos. Tu és a realização plena daquilo que todos somos chamados a ser. Proclamamos que tu, semelhante a nós, esvaziado e solidário, servo e crucificado, és Senhor, porque nenhum outro merece nossa adesão, nenhum outro pode dar-nos lições que libertam e constroem. Bendito aquele que vem e age em nome do Senhor! Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf

(Livro dos Números 21,4-9* Salmo 77 (78) * Carta aos Filipenses 2,6-11 *João 3,13-17)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Reflexões do Pe. Ceolin

Espiritualidade vivida no dia-a-dia

É mais fácil entregar a vida num gesto heróico do que na fidelidade diária, na obscuridade do anonimato e das pequenas coisas de cada dia. É mais fácil amar as grandes causas do que encarná-las em nosso compromisso diário. “É mais fácil conquistar a liberdade do que administrá-la cada dia”, dizia Simón Bolívar.
A espiritualidade libertadora não é um espírito de libertinagem, de anarquia. Essa seria uma falsa libertação. A nossa espiritualidade é disciplina. Vive-se no dia-a-dia. Disciplina nos horários, dando tempo a cada coisa: ao trabalho, ao estudo, ao descanso, à convivência, à oração...
É impossível alcançar a autenticidade sem disciplina, sem auto-controle. A ascese do controle de si, da maturidade psíquica, da harmonia nos relacionamentos: família, grupo de trabalho, pastoral, militância sindical e política, ecumenismo, descanso e lazer... Este é um requisito necessário para a veracidade e a autenticidade de toda pessoa, para a santidade de todo cristão. É ascese manter-se aberto à crítica, à democracia no modo de trabalhar e conviver com o povo e com o próprio grupo.
No dia-a-dia é que é mais difícil superar as incoerências pessoais, o egoísmo na convivência, a falta de co-responsabilidade nas pequenas coisas (como a gula, a imaturidade sexual, o álcool, as atitudes viciosas, o desejo de protagonismo e personalismo, o orgulho, a utilização dos outros, a irresponsabilidade). A harmonia pessoal pede coerência interior estrutural da pessoa: uma profunda harmonia e coesão entre a opção fundamental, as atitudes fundamentais e os atos concretos. Somente quando há coerência entre estes três planos é que existe harmonia, autenticidade e veracidade na pessoa.
O dia-a-dia é o teste mais confiável para mostrar a qualidade de nossa vida e o espírito que a inspira: “ser o que se é; falar o que se crê; crer no que se prega; viver o que se proclama, até as últimas consequências e nos detalhes de cada dia”. O dia-a-dia é uma das principais formas de ascese de nossa espiritualidade. O heroísmo do cotidiano, do doméstico, do rotineiro, da fidelidade até nos detalhes obscuros e anônimos. A espiritualidade engloba todo o viver cotidiano, e não somente o tempo destinado à oração, à meditação da Palavra de Deus, à celebração da Eucaristia, às atividades pastorais, aos encontros e reuniões dos grupos de militantes, etc.
A espiritualidade do dia-a-dia inclui, e dela fazem parte: o horário de levantar e a higiene matinal; o estender a cama, a ordem no quarto de dormir; o “Bom dia!” que se dá aos companheiros de casa, de escola e de trabalho; o modo de abrir e fechar as janelas e portas; a maneira de caminhar na casa; a limpeza do banheiro, da pia e da cozinha; o modo de servir-se e de servir à mesa; o jeito de saborear os alimentos; o modo de assumir o estudo, a oração, o trabalho e o lazer do grupo; o jeito de passar a roupa, a vassoura e o pano pela casa; o modo de trabalhar a horta, o jardim; a iniciativa de pôr um cartaz ou uma flor na sala, no refeitório ou na capela; o empenho em preparar a oração e as liturgias do grupo... Tudo isso faz parte do “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei!” São gestos gratuitos de solidariedade às pessoas de casa e de fora. São as obras, os gestos concretos di dia-a-dia.
Espiritualidade não é apenas tratar de ser coerente com aquilo que somos diante de Deus e dos homens: discípulo de Jesus, batizado, votos religiosos, estado matrimonial, etc. Espiritualidade é fazer tudo – do levantar-se ao deitar-se – não por rotina, mas estando bem presente e atento ao que se diz e faz, ao que se fala, se sente, se ouve, pois “tudo o que fizerdes ao menor dos irmãos, é a mim que o fazeis”. E ninguém é mais próximo do que aquele que comigo vive. Este é, no dia-a-dia, o meu irmão, a minha irmã!
Pe. Rodolpho Ceolin msf

(Estas notas manuscritas são um resumo e uma adaptação de um capítulo do livro Espiritualidade da Libertação, de Dom Pedro Casaldáliga, preparadas pelo Pe. Ceolin para a formação dos junioristas, no início da década passada.)

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Voto & cidadania

voto, urna e cidadão
Ninguém em sã consciência ousaria negar que o voto constitui um instrumento secreto e decisivo do cidadão. Mas também ninguém em sã consciência afirmaria que o simples ato de votar, a cada dois anos, esgote em si mesmo os “direitos e deveres” de uma verdadeira cidadania. Esta, quando real e eficaz, inclui outros compromissos bem mais complexos e empenhativos que o fato de depositar o voto na urna. Fato que, nas chamadas democracias ocidentais, em lugar de uma participação livre, consciente e decisiva, cumpre não raro uma função meramente simbólica e emblemática.
É assim que entre as três formas de voto – voto de cabresto, voto de transferência e voto consciente – podemos dizer que enquanto a primeira vai diminuindo e a última crescendo, prevalece ainda a segunda forma de voto. Isto é, muitos eleitores votam e voltam para casa, como se a urna fosse o lugar para transferir aos representantes eleitos o exercício da própria cidadania. Cidadania é coisa que não se transfere: embora o político eleito, pelo fato de sê-lo, adquira maior visibilidade na administração pública, compete a cada eleitor buscar espaços alternativos de participação.
Isso porque toda democracia está impregnada de certa ambiguidade, contra a qual é preciso estar alerta. Se é verdade que o sufrágio universal é uma forma de escolher os candidatos representativos através da vontade da maioria, não é menos certo que o eleitor sofre previamente, por parte da mídia, um bombardeamento de informações sobre os mesmos. Quem garante a idoneidade das fontes e, consequentemente, o valor veraz de semelhantes informações? Não é à toa que os meios de comunicação adquirem a fama de “quarto poder”! Ao lado da possibilidade de manipular e maquear os dados sobre os candidatos elegíveis, exercem um fascínio e um poder da sedução nada desprezíveis.
Tal poder pode ser utilizado de duas maneiras opostas e complementares. Em termos negativos, o uso incontrolado e incontrolável das palavras, imagens e efeitos especiais serve muitas vezes para desfigurar o perfil dos adversários, diminuindo-lhes a possibilidade de autodefesa. Do ponto de vista positivo, os mesmos recursos servem para envernizar e engrandecer artificialmente a figura do candidato que possui melhores condições de pagamento. Quem paga escolhe o cardápio – diz o provérbo popular! Em breves palavras, como em outros âmbitos da vida social, também nas eleições o binômio poder/riqueza constitui a verdadeira força motriz do processo de escolha. Por mais informado que esteja o cidadão e por mais que procure se defender da avalanche publicitária, torna-se difícil (senão impossível) separar o real da falso, o joio do trigo.
Tudo isso se agrava com a força do marketing e da propaganda eleitoral. Bem sabemos que, hoje em dia, os “marqueteiros” exercem uma função de alta importância e inegável incidência no decorrer da campanha eleitoral. Da mesma forma que às mercadorias estrategicamente expostas nas vitrines, podem sim fazer com que a embalagem dissimule um produto medíocre, reciclado ou de baixa qualidade. Como nos filmes,  a expressão “luz-câmera-ação” torna-se uma espécie de varinha mágica que reveste o candidato de uma luminosidade sorridente e colorida, falseando-lhe a trajetória e os feitos concretos. Não sem razão, o marqueteiro constitue atualmente uma das profissões mais bem remuneradas.
Feitas esas ressalvas, retomemos os compromissos da cidadania. O primeiro deles tem um alcance limitado e local, mas de forma alguma negligenciável. E a pergunta é muito simples: em que maneira cada cidadão acompanha a administração pública de sua rua, de seu bairro, de seu município? Qual o estado da escola local, do sistema de saúde e de segurança, do transporte coletivo e de outros serviços públicos. Em poucas palavras, o Estado, em seus mais variados órgãos e instâncias, se faz presente no cotidiano da vida?
Num segundo momento, e sempre em articulação com o primeiro, faz-se necessário ampliar o raio de ação. Outras perguntas tomam lugar no cenário da atividade política: como se comportam as pessoas públicas eleitas, seja no âmbito do poder executivo (municipal, estadual e nacional), seja nas atividades do poder legislativo, como vereadores, deputados e senadores? Em geral, no programa do partido notar-se-á sempre uma discrepância entre as “promesas do candidato” durante a campanha eleitoral e a “realizações do político” eleito no exercício do mandato. Até que ponto vai esse desequilíbrio: permanece minimamente suportável ou foi elevado a um grau irreconhecível? Até onde vai a distância entre o “antes” e o “depois” das eleições?  Há possibilidades de diminuí-la através da pressão popular? Até que ponto o político mantém os pés firmes na realidade social que o projetou ou, ao contrário, criou asas e decolou da vida com seus problemas e clamores?
Por fim, mas não em último lugar, chegamos à tarefa mais exigente da cidadania numa efetiva prática democrática. Além de escolher os candidatos através do voto e fiscalizar a presença (ou não) do poder público na vizinhança, todo cidadão tem “o direito e o dever” de acompanhar de perto a ação múltipla e plural do Estado. O que significa participar ativamente das decisões que orientam os destinos do país, especialmente no que se refere à sua política econômica, social e cultural? Aqui a informação e a formação correta exercem um papel de fundamental importãncia. Em síntese, político representativo, de um lado, e eleitor cidadão, do outro, constituem duas faces da mesma moeda, dois pólos da prática política. São portanto indissociáveis, indivorciáveis!
Em síntese, não basta o voto puro e simples. Não basta a visita periódica à urna, seguida de um “lava-mãos”: fiz a minha parte, os políticos que façam o resto! Não basta a fidelidae do eleitor. É preciso que o cidadão o seja de fato, assumindo o direito e o dever de exercer a cidadania. Nessa perspectiva, faz-se necessário criar e/ou fortalecer outros canais, instâncias e mecanismos de participação popular. São instrumentos que podem ajudar não somente no controle sobre o comportamento público dos eleitos, mas também no acompanhamento das finanças públicas. Concretamente, no controle efetivo do orçamento do município, do estado e da União. E mais, na pressão consciente e organizada para implementar ou melhorar os serviços públicos.
Convém não esquecer, a esse propósito, que a atividade política (como outras, de resto) tende à inércia e à comodidade do continuísmo. A descupa vem em geral do futebol: “em time que ganha não se mexe!” Num país onde esse esporte tem ampla divulgação e aceitação, o argumento torna-se tanto mais forte quanto mais perigoso. Por isso é que a pressão popular no sentido de “ocupar ruas e praças por liberdade e direitos”, como lembra o lema da 20ª edição do Grito dos Excluídos (2014), em sintonia com o Plebiscito por uma Constituinte Soberana e pela reforma política, tem a função primordial de sacudir, despertar e impulsionar as autoridades responsáveis para as mudanças mais urgentes e necessárias.
É esse o papel, por exemplo, dos Conselhos Populares, sempre que não estejam manipulados pela mão visível ou invisóvel do prefeito e outros políticos e oligarcas de plantão; das consultas populares feitas à população, sobre temas referentes a decisões que envolvem o futuro de tudo e de todos; dos partidos políticos, se e quando não se deixam instrumentalizar por idelogias centralizadoras, autoritárias e excludentes; dos movimentos e lutas sociais, no esforço por buscar melhores condições de trabalho e vida; das campanhas, mobilizações, organizações não governamentais; de entidades que exercem destacada influência na sociedade, tais como Igrejas, escolas e universidades, a OAB, entre um punhado de ouras, do trabalho de base, em termos de sensibilidade e conscientização, bem como de uma infinidae de iniciativas populares... Enfim, de tantas outras formas de participação viva e ativa. Vale deixar aberta a pergunta: além de votar e de assistir pela telinha o desenrolar dos fatos políticos, você participa ativamente de algum tipo de organização?

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

Paulo Henrique

Amor "Fati"

Conservei em mim o índio, o primata,
Aquele que toca os pés no chão e 
leva na bagagem o necessário,
Aquele que caminha entre a bondade e a crueldade
sem temeridade.

A civilização é uma cólera que asfalta a alma humana
tornando-a impermeável, inexprimível, escassa,
Emudece as colisões e embates com utopias.

Conservei em mim o índio, 
Não conheço o pecado. 
Pecado é coisa de branco.
Apenas desejo andar pela vida, 
como os pássaros voam no céu, 
e dar boas gargalhadas da 
embriaguez dos infelizes.

Quão enrijecidos são os rostos dos civilizados...
Suas faces são apenas areia e fungos, 
que apodrecem seus sepulcros chamados vida.

E eu, dançando entre a bondade e a crueldade, 
conservei o índio que há em mim.

Paulo Henrique

(Postulante MSF – Recife)

domingo, 7 de setembro de 2014

A dança de Deus

Um Deus dançarino

Vi Deus dançando.
Me assustei com tamanha visão,
pois haviam me falado que Deus era triste,
pálido e imóvel.

Ao ver a própria imensidão
mergulhada nos embalos dançantes,
conclui que Deus não é triste,
aliás, fizeram-no triste.
Sua boca era toda sorriso, gargalhadas, anedotas.

Como Deus é engraçado,
Como ri do que dizem Dele.
Como era bonito vê-lo consumido
em tamanha alegria, sem tantas regalias,
Apenas música e passos ousados.

De repente, houve um motim no salão,
Um barulho aterrador de pura maldade e hipocrisia,
Não entendia o porquê de tamanho alvoroço.
Logo percebi que haviam pegado Deus,
amarram os seus pés , amordaçaram o seu sorriso e torturaram-no até a morte.

As vozes dos torturadores da vida gritavam:
“Como pode um Deus dançar?
Queremos a volta do Deus triste,
Ele não pode ser alegre!”

Fiquei atônito com tamanhas navalhas
em forma de frases que cortavam o elo entre o divino e a vida.

Após a morte do Deus alegre,
Esconderam seu corpo e apagaram os seus escritos.
Agora, dizem que Ele é triste e não sorri.
Desde então, as palavras acerca Dele encarceram-no.
E eu, não posso acreditar em um Deus que não sorri.


Paulo Henrique

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A moral sexual na campanha politica

A obsessão pela sexualidade
Assim como no tempo de Jesus, a marginalização moral continua estreitamente vinculada à sexualidade. A diversidade de atitudes, explicações e práticas em torno deste tema não admite neutralidade nem pode ser ocultada. Existem inumeráveis formas de abordagem.
De fato, a sexualidade é uma das dimensões que mais se presta à instrumentalização para fins políticos, ideológicos, econômicos e religiosos. Na moral católica, o campo da sexualidade foi invadido por uma série de tabus, intolerâncias e interditos pautados por um rigorismo exacerbado. Durante séculos, o catolicismo foi caldo de antissexualismo moralizante, motivado por pretensas razões teológicas.
Atualmente, a sexualidade continua sendo o calcanhar de Aquiles da moral vatólica. Existe uma certa obsessão por tudo o que se refere à sexualidade e ao sexto mandamento. Como comprova a história do cristianismo, os pecados sexuais geralmente são definidos com termos ameaçadores (abomináveis, inomináveis). Já os pecados sociais (reter o salário do trabalhador, desviar a verba da saúde, por exemplo) costumam ser tratados com certa tolerância. Ora, os pecados sociais seriam menos graves que os pecados sexuais? Não estaríamos engolindo camelos e filtrando mosquitos?
A religião tem uma força considerável na formação das idéias e na moldagem dos comportamentos, sobretudo no campo da sexualidade. Precisamos nos convencer da urgência de desdramatizar e corrigir a visão distorcida com tudo o que se relaciona com o sexo. Jesus trata a condição humana, da qual a sexualidade faz parte, com liberdade.
Pe. Elio Gasda SJ

(CRB, A paixão e o reino em tempos complexos, 2011, p. 99-100)

A Palavra na vida

Estamos no mês dedicado mais intensamente à Palavra de Deus. O testemunho de Paulo na liturgia da Palavra proposta para hoje me comove. Sendo apóstolo e doutor das nações, ele não se conforma com as divisões que ameaçam o cristianismo nascente, deixa-se iluminar pela Boa Noticia de Jesus Cristo e proclama a sabedoria de Deus, que escolhe o que é fraco e desprezível para destruir a prepotência dos fortes. Para ele, a sabedoria e a força transformadora e libertadora de de Deus se mostra na cruz, na fragilidade e na compaixão solidária de Jesus de Nazaré. “Pois a savedoria deste mundo é insensatez diante de Deus”. Para si mesmo, Paulo não reivindica nada mais que a paridade com os demais apóstolos, poisnada pertence a ele, ninguém pode reivindicar mérito algum, e tudo pertence aos que crêem: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a moprte, o presente, o futuro... “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus...” Diante de Jesus, a multidão se aperta ao seu redor “para ouvir a Palavra de Deus”. Jesus pede licença a Pedro, entra na sua barca cheia de vazio e, desde dentro da sua frustração e da sua impotência, apoiado no seu instrumento cotidiano de trabalho, “ensina as multidões”. E Pedro, por sua vez, relativiza a própria experiência de pescador, esquece o cansaço e a frustração de uma noite inteira mal-sucedida e, “em atenção à tua Palavra” lança as redes de novo, toma distância da superficialidade e “avança para águas mais profundas”. O espanto que o envolve depois da pesca abundante, feita “por causa da Palavra”, cede logo lugar à confiança que Jesus mostra nele: “Não tenhas medo! Tu serás pescador de homens...” Ou seja: Pedro é chamado a deixar seus barcos e redes e, partindo da sua experiência e da confiança na Palavra, reunir homens e mulheres para a liberdade e para a vida, congregando-os no novo Povo de Deus. Louvado seja Deus pelo seu constante diálogo criativo e emancipador conosco. Bendito seja Deus pela sua Palavra, conversa amistosa que nos convida e acolhe na sua intimidade.

Itacir Brassiani msf

23° DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A - 07.09.2014)

Faze-nos discípulos missionários que vivam tua Palavra!

Não se diz com todas as letras, mas o sentimento generalizado é que o ‘outro’ é o nosso inferno. Hoje, o ideal parece ser viver, sofrer e vencer sozinho, sem ninguém por perto para perturbar, ou dividir o prêmio. A experiência do inferno parece não estar ligada à consciência de ter errado mas ao terror de ser corrigido. É proibido importar-se com a vida do ‘outro’, pois isso pode trazer incômodos. Cada um decide e age com absoluta autonomia, e ninguém pode contestar sua decisão e sua ação. O inferno parace abrir suas portas somente quando alguém questiona nosso comportamento, atitude ou ação.
Depois de ter dito que o caminho que nos leva ao Reino de Deus é a acolhida aos pequenos e a atitude de criança; que é preciso evitar comportar-se como pedras no caminho dos pequenos; que Deus age como um pastor que, movido pelo amor pastoral, deixa em segundo lugar as noventa e nove ovelhas que estão protegidas e sai à procura daquela que está em siatuação de risco, no evangelho deste domingo Jesus oferece à comunidade dos discípulos uma proposta para enfrentar os erros e defecções internas. “Se o teu irmão pecar, vá e mostre o erro dele...”
Estamos lembrados do que Jesus disse a Pedro: “O que você ligar na terra será ligado no céu...” Sabemos que este ministério é extensivo a todos aqueles que o reconhecem como Messias e seguem seus passos. Trata-se de continuar sua missão de recriar os laços, de aproximar as pessoas entre si e de Deus, de criar e fortalecer alianças, de renovar a face da terra na força do seu Espírito. Por isso, o objetivo da correção não é punir quem erra ou construir a fama de quem denuncia, mas a conversão e a reconciliação das pessoas e dos grupos sociais que experimentam tensões e divisões.
O que Jesus nos propõe não é um procedimento jurídico mas uma pedagogia, um caminho. E o primeiro passo desse caminho é tomar a iniciativa de procurar discretamente aquele que nos atingiu ou prejudicou, fazendo isso com a atitude do pastor que vai ao encontro da ovelha que se perdeu e, quando a encontra, se alegra mais com ela que com as noventa e nove que não cometeram nenhum erro (cf. Mt 16,12-14). “Se ele lhe der ouvidos, você terá ganho seu irmão.” Mas quando essa iniciativa não é bem sucedida, não há razão para desistir. Jesus propõe um segundo passo...
O segundo passo é voltar ao irmão que pecou com uma ou duas pessoas que ajudarão a convencê-lo do erro e servirão de testemunhas. Se, mesmo assim, ele não aceitar este segundo passo da correção fraterna, há uma terceira possibilidade: comunicar à comunidade eclesial, pois ela recebeu a responsabilidade ligar e desligar (cf. Mt 16,13-20). Se a ruptura se mantiver, há um último recurso: “Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos.” E isso não quer dizer lavar as mãos e, muito menos ainda, discriminar ou condenar!
Para os discípulos de Jesus Cristo, pagãos e pecadores são terreno de missão, e tanto a conversão como o perdão supõem um dinamismo ou uma base de sustentação. E este dinamismo se chama oração. A conversão – a nossa e a dos outros! – deve ser cultivada no coração e buscada na oração. Acima de qualquer poder de ligar e desligar, ou de qualquer vontade de punir aqueles que erram, deve estar sempre o desejo concórdia, o amor fraterno. Nada está acima disso: nem a doutrina das Igrejas, nem seus interesses. “Quem ama o próximo cumpriu plenamente a lei”, diz São Paulo.
Sabemos por experiência que algumas mudanças, aquelas que tocam a vida mais profundamente, são muito exigentes e demoradas. Mas não são impossíveis. Por isso, Jesus conclui sua proposta pedagógica de correção fraterna sublinhando a importância da convergência de interesses e projetos na oração. “Se dois de vocês na terra estiverem de acordo sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está no céu.” Daí a necessidade de percorrer todos os passos indicados. Uma comunidade baseada na concórdia descobre sua força de reconciliação.
Deus pai e mãe, tu inclinas o ouvido para ouvir nossos clamores e orientar nossos passos. Somos membros do teu povo, ovelhas do teu rebanho. Tua Palavra é luz que dá cor às nossas buscas e lâmpada no nosso caminhar. Por ela tu nos confias o dinamismo da reconciliação e nos ensinas que o amor à nossa ‘pátria amada’ não pode ser colocado acima da sede de justiça e da concórdia, que estão acima das fronteiras nacionais e políticas. Abre nossos ouvidos a esta Palavra e faz da tua Igreja uma comunidade completamente empenhada na reconciliação da humanidade tão dividida. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Profeta Ezequiel 33,7-9 * Salmo 94 (95) * Carta aos Romanos 13,8-10 * Mateus 18,15-20)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Reflexões do Pe. Ceolin

Pilares para uma sólida espiritualidade cristã

Os fundamentos ou pilares para a construção de uma sólida espiritualidade cristã me parecem ser cinco: humildade, verdade, perdão, perseverança, liberdade, experiência de amor e missão. Vejamos brevemente cada uma delas.
Humildade (simplicidade, docilidade)
Os bem-aventurados são aqueles que têm um coração de pobre! “Se não se converterem e não se tornarem como as crianças, não entrarão no Reino dos céus” (Mt 18,3). “Aquele que entre todos vocês for o menor, será grande” (Lc 9,46). “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38). “José, não temas receber Maria como esposa...” E José fez como o anjo mandara (cf. Mt 1,20).
E aqui poderíamos recordar ainda a humildade de Jesus, celebrada por Paulo no hino da carta aos Filipenses (2,1-11), assim como sua oração densa no Getsêmani: “Faça-se a tua vontade, e não a minha...” E também a verdadeira sabedoria, descrita por São Tiago (cf. Tg 3,13-18). “Escutem o Espírito Santo... Não endureçam o coração como no deserto...” (Hb 3,7-11).
Verdade (sabedoria, autenticidade)
João nos convida a viver na verdade (cf. 3Jo 3-8). “Eu sou a verdade! Quem me segue não anda nas trevas”, diz Jesus (Jo 8,12). “O Espírito da verdade... ensinará a vocês todas as coisas e lembrará a vocês tudo o que eu lhes tenho dito” (Jo 14,17.26). é nele que encontraremos respostas para as perguntas mais importantes: Quem sou eu? Quais são os valores essenciais e o sentido da vida? Qual o caminho que eu devo seguir?
“Ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tg 1,18). “A verdade vos libertará!” (Jo 8,32). “Ninguém vos engane!...” (1Jo 3,7; 4,1-3). “Se dizemos que estamos em comunhão com Deus, e no entanto andamos nas trevas, somos mentirosos e não praticamos a verdade... Se dizemos que não temos pecado, nos enganamos a nós mesmos e a verdade não está em nós” (1Jo 1,6.8).
Liberdade (adesão pessoal, não coagida)
“Se queres ser perfeito..., venda tudo o que você tem, distribua aos pobres..., depois venha e me siga” (Lc 18,22). “Quem vem a mim e não deixa em segundo plano seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,26). “É para a liberdade que Cristo nos libertou!.. Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade!” (Gl 5,1.13), para a vida segundo o Espírito (cf. Gl 6,7-10; Rm 8,1-17; Rm 12,1-2).
Nós somos livres em Cristo (cf. Col 2,16-23; 3,1-4). Fomos libertados para uma vida nova (1Pe 1,13-2,20). E no amor não há temor. A aliança é de amor, nasce dele, mas é livre, sem coação nem ameaças; aderimos por livre e espontânea vontade.
O seguimento de Jesus, o discipulado, é sempre uma opção livre. Abraçamos a vida fraterna e comunitária, o amor fraterno, abraçamos a missão, o projeto de Jesus, sempre por opção pessoal e livre. Deus nos quer filhos, e não escravos! Jesus nos quer amigos, e não uma espécie de soldadinhos! “Vocês são meus amigos!... Eu escolhi vocês!...” (Jo 15,16).
Perdão (reconciliação, misericórdia)
Jesus nos lembra que o perdão é um dinamismo que gera amor (cf. Lc 7,36-49). “Não sejam daqueles que agem baseados no olho por olho e dente por dente; ao contrário...” (cf. Mt 5,38-48). “Portanto, rezem assim...: perdoa-nos as nossas dívidas, como nós perdoamos aos que nos devem... Se vocês perdoarem as faltas das pessoas, também seu Pai celeste perdoará vocês” (Mt 6,12). “Na cruz, Cristo matou o ódio...” (Ef 2,16). “Afastem de vocês toda amargura, ira, cólera, gritaria, difamações e todo tipo de maldade. Sejam bons e misericordiosos uns com os outros, como também Deus perdoou vocês em Cristo” (Ef 4,31-32).
Ressentimentos, ciúmes e invejas endurecem o coração, obnubilam a mente, obstaculizam a ação de Deus, dificultam tremendamente a abertura ao amor de Deus e ao amor dos irmãos.
Persistência (paciência, perseverança, esperança)
Estejam firmes, cingidos com o cinturão da verdade, a couraça da justiça, os pés calçados com o zêlo, mantendo na mão o escudo da fé, para propagar o Evangelho da paz! (cf. Ef 6,14-20). “Combati o bom combate!... Guardei (vivi) a fé...” (2Tm 4,6-8). “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fil 4,13). “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6).
“Confiem a Deus toda a sua preocupação, pois é ele quem cuida de vocês... Depois de vocês terem sofrido um pouco, o Deus de toda graça, que por Cristo os chamou à sua glória eterna, ele os reestabelecerá, firmará, fortalecerá e tornará vocês inabaláveis” (Tg 5,7-11).
“Corramos com perseverança a corrida que nos espera, com os olhos fixos em Jesus, que iniciou e realizou a fé. Jesus, em vez da alegria que lhe foi proposta, sofreu a cruz, desprezou a humilhação, e sentou-se à direita do trono de Deus” (Hb 12,1-2). “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não serve para o Reino de Deus” (Lc 9,62).
Seguindo a orientação de Jesus, devemos pedir e pedir, sem cansar (cf. Lc 11,5-13). E temos também o exemplo da viúva frente ao juiz indiferente... (cf. Lc 18,1-8)
Experiência do amor de Deus em Jesus
Trata-se da experiência pessoal do amor preferencial, da misericórdia  ou do amor de Deus em Jesus Cristo, um amor primeiro e gratuito. “O que existia desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com nossos olhos, o que temos contemplado e nossas mãos têm apalpado: a Palavra da Vida (porque a Vida foi manifestada, nós a temos visto, e estamos dando testemunho e anunciando a vocês a vida eterna, que estava junto do Pai e foi manifestada a nós); isso que temos visto e ouvido, estamos anunciando a vocês, para que vocês estejam em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com seu Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1,1-3).
“Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou seu filho único ao mundo, para podermos viver por meio dele. É nisto que está o amor: não é que nós tenhamos amado a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou seu Filho para expiação de nossos pecados” (1Jo 4,10).
Missão, fruto do amor e da amizade
“Simão, filho de João, você me ama mais do que estes outros?... Sim, Senhor, tu sabes que sou teu amigo!... Alimente os meus cordeiros..., minhas ovelhas...” (Jo 21,15). Jesus não perguntou a Pedro se ele sabia falar grego ou latim, se sabia onde ficava Roma, se entendia de filosofia... Jesus perguntou se Pedro sabia amar como ele o amava! E, a partir disso, pediu: “Alimente os meus (não os teus) cordeiros...”
O amor de Deus é fundamentalmente misericórdia. É um amor que nos precede, a iniciativa é dele, ele é o Emmanuel. É um amor gratuito, pois nos ama sem considerar se merecemos ou não, sem impor condições, sem exigir retorno. É um amor que a tudo e a todos perdoa. É este amor que pede, fundamenta e dinamiza a nossa missão.
Pe. Rodolpho Ceolin msf