quinta-feira, 30 de outubro de 2014

CELEBEAÇÃO DOS FIÉIS DEFUNTOS (ANO A – 02.11.2014)

A morte não têm nenhum poder sobre a vida de quem ama.

É possível celebrar a morte, o fim sem volta da existência humana? Não seria a morte sempre uma tragédia, uma perda irreparável? É verdade que procuramos desesperadamente construir pontes – com os tijolos das palavras e dos ritos e dos símbolos, do amor saboreado e da fé teimosa – sobre o abismo que separa os que estamos aqui e as pessoas queridas que se foram. Mas a morte seria mesmo apemas um abismo ou um muro entre duas terras firmes, o aqui e o além, o fim obscuro e lamentável da nossa bela, apesar de tudo, mas sempre precária existência?
Não lamentamos a morte das pessoas que consideramos más, ou que não tiveram uma influência positiva sobre nós. Conhecemos gente que se dispõe a antecipar o fim da vida de pessoas a quem consideram inimigas, e até da própria vida, quando lhes parece difícil, triste, sem sentido e sem futuro. Mas tudo muda de figura quando se trata do fim de uma vida plena de sentido ou de uma pessoa que queremos bem e nos é preciosa. A morte das pessoas que nos são caras abre as portas da crise e nos chama à busca de sentido. Se a morte não assusta, ao menos entristece.
No evangelho de hoje, Maria, irmã de Marta e Lázaro, procura em Jesus um sentido para a morte de uma pessoa justa, boa e querida. Começa cobrando a demora e o aparente descaso de Jesus: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido!...” Jesus tinha sido informado da enfermidade do amigo Lázaro, e o desejo de prolongar e tornar menos difícil a vida das pessoas que amamos é muito normal. Jesus se comove com a dor de Maria, de Marta e dos amigos e amigas que as acompanham. Sua comoção e suas lágrimas suscitam admiração. “Vejam o quanto era amigo dele!...”
Mas, na boca de outros, aparece um questionamento que também nos ronda, especialmente quando da partida mais ou menos trágica dos nossos entes queridos: “Se ele curou os cegos e os mudos, se ele nos ama de verdade, porque permite que isso aconteça?” Jesus começa perguntando onde colocaram Lázaro, mas Maria o adverte que já está se decompondo e cheirando mal. Então é a vez de Jesus questionar: “Eu não lhe disse que, se acreditar, você verá a glória de Deus?” Não é o milagre que nos leva a crer; é a fé que abre nossos olhos e nossas mãos para uma dimensão indestrutível da vida!
Por trás do diálogo tenso entre Jesus e Maria está uma questão muito importante e atual: o que esperamos de Jesus? Cura, prolongamento da vida, reestabelecimento de uma situação do passado, ou vida plena, vida com uma densidade e uma força que nenhuma forma de morte pode estancar? Porque é Vida e caminho de amor e compaixão que a ela conduz, Jesus é ressurreição, é expressão da glória de Deus e caminho de vida plena. Com seu modo de ser e de agir, com sua proposta de vida, ele suscita vida e, por isso, também a re-suscita. Nele encontramos a vida saborosa e intensa que desejamos.
Como Láazaro, quem adere a Jesus Cristo e escuta sua Palavra, quem refaz o seu caminho, quem vive sob impulso do seu Espírito e por ele se deixa guiar, sai para fora, não se deixa amarrar por nada, continua suscitando vida. A vida de tais pessoas é mais que uma história a ser recordada, louvada ou lamentada: é percurso que continua aberto, Travessia ainda em curso, beleza que continua atraindo, dinamismo que continua movendo e sustentando outras vidas. E isso sem entrar na complicada questão de uma existência pós-histórica, em moldes semelhantes à nossa vida presente.
Como cristãos, cremos que a vida humana, e todas as expressões da vida, é pascal, ou seja: é Travessia, Passagem, Caminho. A história – nas suas dimensões de passado, presente e futuro – e o corpo – nas suas dimensões de interioridade e exterioridade – são a paisagem, o chão e a expressão da vida, mas não a esgotam, nem a detém. Quem desiste de peregrinar rumo ao outro mundo possível, renega a fé em Jesus Cristo e morre definitivamente, mesmo que continue biologicamente vivo. Mas uma vida doada pela Vida não pode ser tragada pela morte.

Jesus de Nazaré, Unigido do Pai para suscitar e ressuscitar a Vida! Também tu viveste a fragilidade e amaste desmedidamente. Como a tua, também nossa existência é pó que o vento leva, é erva que o vento seca. Ajuda-nos a vivê-la em ti, no teu espírito, no dinamismo da tua compaixão humanamente divina e sem medo do nada da morte, pois a bondade tua e do teu e nosso Pai vem desde sempre e dura para sempre. Ensina-nos a cumprir a apaixonante Travessia do nosso viver, e que a lembrança daqueles que entraram na morada definitiva ilumine e perfume nossa estrada. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf
(Isaías 25,6-9* Salmo 114 (115) * Carta aos Filipenses 3,20-21 * João 11,32-45)

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS (ANO A – 01.11.2014)

Todas somos chamados à bem-aventurada santidade!
A verdadeira santidade é aquela que se manifesta na vida dos missionários, das pessoas que ousam sair do estreito limite dos seus próprios  interesses e se aproximam solidariamente dos últimos; que tecem pacientemente os fios que fazem do mundo inteiro uma única família; que vão aos rincões mais distantes ou periféricos para levar a bandeira da paz; que são movidas por uma insaciável sede de justiça; que choram as dores dos povos de todas as cores e provam o fel da violência da perseguição; que transformam a terra pela mansidão...
No dia 30 de outubro recordávamos os 35 anos do martírio de Santo Dias da Silva, líder cristão e operário, e, ontem, a páscoa definitiva de Martinho Lutero, ex-monge católico e reformador da Igreja. Dois homens sensíveis ao próprio tempo que, em diferentes circunstâncias, e também com métodos diversos, sonharam e lutaram por uma sociedade mais justa e uma Igreja mais fiel a Jesus Cristo. Dois cristãos que tinham fome e sede de justiça e sofreram perseguição. Será que eles não fazem parte da imensa multidão de servos de Deus, cujas frontes foram marcadas com o sinal do Cordeiro?
A festa de todos os santos faz memória dos santos esquecidos, daqueles que não têm um dia especial nem um nome conhecido, que gastaram a vida no anonimato e cujos milagres não cabem nas estreitas regras canônicas; de gente como Sepé Tiaraju, Padre Cícero, Dom Romero, e Ir. Adelaide; e mesmo de gente que não rezou pelo nosso catecismo, como Lutero, Luther King, Gandhi e tantos outros. Nesta festa, celebramos a memória daqueles que nos antecederam na fé e cujo testemunho mantém a Igreja no caminho certo, apesar das suas resistências e ambivalências.
Na passagem do milênio, o hoje santo João Paulo II provocava os cristãos a não se contentarem com pequenas medidas, com vôos rasantes, com ideais nanicos, e pedia que aspirássemos nada menos e nada mais que a santidade. Mas esta vocação de todos precisa se transformar em desejo pessoal e em decisões e ações concretas. Como diz São João, nós somos chamados filhos de Deus e já o somos desde agora, mas o desafio é crescer na identificação com Jesus Cristo, gravar no corpo e na mente as marcas do sonho que mobilizou e deu sentido à vida dele. “Seremos semelhantes a ele...”
Jesus Cristo é o verdadeiro e perfeito santo de Deus e, ao mesmo tempo, o caminho para a santidade. Não há santidade à margem do seguimento de Jesus Cristo, mesmo que tal seguimento seja implícito. Viver a vocação à santidade é refazer o caminho prático trilhado por Jesus: amar como Jesus amou; sonhar como Jesus sonhou; pensar como Jesus pensou; viver como Jesus viveu... Este é o caminho para que, no meio ou no fim do dia e no no meio ou no fim da vida, sejamos felizes. Nas bem-aventuranças Jesus propõe o caminho de santidade e da felicidade que ele mesmo percorreu.
As bem-aventuranças apresentam os sinais que indicam o caminho da santidade. São oito características de quem percorre este caminho. Esta via começa com a pobreza e termina com a perseguição. O Reino de Deus é dos pobres e dos perseguidos. A consolação para os aflitos, a herança para os mansos, a saciedade para os famintos, a misericórdia para os compassivos, a visão de Deus para os puros e a filiação divina para os promotores da paz é promessa para o futuro, mas a alegria sem fim do Reino é experiência concreta dos pobres e dos perseguidos já no presente!
A santidade à qual todos somos chamados tem a fisionomia do discipulado missionário, do despojamento solidário; o coração dos que se afligem e choram compassivamente as dores dos outros; o ritmo inquieto dos que anseiam e pela justiça plena e universal; o olhar terno da misericórdia; a transparência de quem evita a duplicidade e as segundas intenções; a ousadia daqueles que promovem a paz; a indestrutível alegria de quem assume o custo de ser livre e libertador. Os santos são beatos, o caminho da santidade e o caminho para a felicidade coincidem.
Deus pai e mãe, fonte de toda santidade e de todo bem: aqui viemos te pedir a graça de permanecer de pé diante do teu Filho, rodeados de testemunhas de todas as nações, tribos, raças e línguas. Ajuda-nos a superar a doce tentação de separar, catalogar e hierarquizar católicos e evangélicos, cristãos e não-cristãos. Que nossa incrível capacidade de sofrer e nossa inexplicável alegria em meio às intermináveis lutas sejam nossas armas e nosso triunfo. E que tratemos os santos e santas como testemunhas de um amor sem limites, e não como mediadores dos nossos interesses mesquinhos. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Apocalipse de São João 7,2-4.9-14* Salmo 23 (24) * 1ª Carta de João 3,1-3 * Mt 5,1-12)

Solenidade de Todos os Santos

Mateus 5,1-12: As bem-aventuranças como caminho de santidade


1 Todas as pessoas são chamadas à santidade
Na boa nova das bem-aventuranças, Jesus propõe um caminho de santidade. No mundo católico romano, o dia escolhido para celebrar a vida de todos os santos é 1º de novembro, ao passo que o dia 2 de novembro é um dia especial para fazer memória das pessoas bem-aventuradas e que já se encontram na glória do Pai. Para nós, que ainda temos uma missão a cumprir neste mundo, Jesus propõe um caminho de santidade e que já começa nesta vida. Conforme a comunidade de Mateus, as oito bem-aventuranças são esse caminho. 
Todas as pessoas são chamadas à santidade, a fim de serem felizes. “Sede santos, porque eu, Javé vosso Deus, sou santo” (Levítico 19,2). Mateus faria uma releitura desse chamado da seguinte forma: “Sede perfeitos, como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Coerente com sua experiência com o Deus compassivo, Lucas formula assim o mesmo convite: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).
2 Jesus, o novo mestre da justiça, nos ensina o caminho da santidade
Quando Mateus apresenta Jesus fazendo cinco grandes discursos (Mt 5-7; 10; 13,1-52; 18; 24-25), sua intenção é apresentá-lo como o novo Moisés, a quem eram atribuídos os cinco livros da lei, o Pentateuco. 
A lei era considerada a expressão da vontade de Deus. No tempo de Jesus, muitos fariseus estavam preocupados em viver as leis do Pentateuco em todos os seus pormenores. Jesus, porém, vive e anuncia essa vontade de Deus indo além da letra da lei. Diz que, mais que a letra, é o espírito da lei que importa. Disse ainda que o espírito da lei consiste na vivência do amor a Deus e ao próximo como a si mesmo (Mt 22,34-40 - Evangelho do domingo passado). Assim, o amor passa a ser a orientação fundamental para o nosso agir (cf. Mt 12,1-8; 23). Mateus chama essa vontade de Deus de justiça do Reino (cf. Mt 6,33). Se Moisés era o antigo mestre da lei, Jesus é o novo mestre da justiça a nos ensinar o caminho de Deus, o caminho da santidade no amor.
3 Bem-aventuranças: a porta de entrada ao Sermão da Montanha
No primeiro discurso, no Sermão da Montanha (Mt  5-7), o mestre da justiça ensina um conjunto de orientações para a boa convivência na comunidade, chamada a viver as relações do Reino. Tal como Moisés escrevera as palavras da lei encontrando-se sobre um monte, Jesus dá as novas orientações também numa montanha (Êxodo 34,28; Mt 5,1).
As bem-aventuranças são a porta de entrada ao Sermão da Montanha (Mt 5-7). Elas são um programa de vida para trazer felicidade plena a quem adere à boa nova de Jesus. São orientações para seguir no caminho de santidade.
4 Bem-aventuranças: as atitudes no caminho de santidade 
A justiça do Reino dos Céus, isto é, a vontade de Deus, é o carro-chefe das bem-aventuranças. Convém lembrar que, em Mateus, “Céus” é sinônimo de “Deus” (cf. Lucas 6,20). É importante que tenhamos isso presente para superarmos a tentação de transferir o Reino para depois da morte. Para Jesus de Nazaré, seu projeto do Reino é para esta vida, que é eterna. Ele não diz que os pobres “serão” felizes. Porém, afirma: “porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3.10). E, ao anunciar a plataforma do Pai, Jesus diz que o Reino está próximo. Estar perto no sentido temporal quer dizer que é para breve e não para um futuro distante. Ao mesmo tempo, o Reino está perto no sentido espacial, isto é, ele já está presente entre nós na vida de Jesus, de um lado, e, de outro, em todos os gestos de solidariedade e de partilha.
O Reino é o projeto na primeira e na oitava bem-aventurança (Mateus 5,3.10). E, no centro, estão a busca da justiça (do projeto do Reino) e a busca da misericórdia (ter o coração voltado para quem está na miséria). Uma vez realizada a justiça de Deus, os empobrecidos deixarão de ser oprimidos, pois haverá partilha e solidariedade. Por isso, Jesus os declara felizes. 
5 Felizes os pobres no espírito
A primeira bem-aventurança é a mais importante. As demais são desdobramentos desta. Qual é a porta de entrada para o Reino? Quem são os pobres no espírito? São aquelas pessoas nomeadas nas demais bem-aventuranças, ou seja, as que choram, as que são humildes e não têm terra (cf. Salmo 37,11), as que têm fome, as que são misericordiosas, as puras de coração, aquelas que promovem a paz e as que são perseguidas por causa da justiça. Observemos que tanto em relação aos pobres no espírito (primeira bem-aventurança), como aos perseguidos por causa da justiça (oitava), fala-se do mesmo prêmio: deles já é o Reino dos Céus (verbo no presente). Trata-se do mesmo grupo de pessoas.
E quais são as dádivas para esses empobrecidos ou para quem com eles é solidário? Jesus anima a sua esperança anunciando-lhes o Reino para o tempo presente. E os seus frutos serão: consolo, terra partilhada, fartura, misericórdia, contemplação de Deus e filiação divina. E ser filha e filho de Deus é agir à sua imagem e semelhança, isto é, ter as mesmas atitudes de Deus.
6 É suficiente ser pobre?
Não. Ser pobre não é suficiente. Está claro que os empobrecidos são os preferidos de Deus, justamente porque ele não pode ver nenhum de seus filhos e nenhuma de suas filhas passando por necessidades. Ainda mais, quando a pobreza é fruto da injustiça humana. A preferência de Deus é sua misericórdia para com seus filhos que sofrem violência, como vítimas de seus próprios irmãos. É interessante notar que esta mesma bem-aventurança, no Evangelho segundo Lucas, reza assim: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6,20). 
Quando a comunidade de Mateus acrescentou “no espírito” à primeira bem-aventurança de Jesus, também estava preocupada com o fato de que há pobres que têm corações e mentes possessos pelo espírito de rico, buscando o sentido mais profundo para a vida na riqueza, no prestígio e no poder. Por isso, Mateus quis deixar bem claro que não basta ser pobre, mas que é preciso ser “pobre no espírito”, isto é, viver de acordo com o espírito do próprio Deus. Ser pobre também por dentro, interiormente. É provável que a comunidade de Mateus, ao acrescentar na parábola do banquete a presença de um homem sem a veste nupcial (Mt 22,1-14; comparar com Lc 14,16-24), queira justamente referir-se à necessidade de também ser pobre no espírito, ou seja, livre de tudo que escraviza. Ser pobre no espírito também é a opção pelo projeto da justiça e da misericórdia, é viver na total confiança e dependência de Deus, é confiar na partilha, na vida simples e na fraternidade. 
Aliás, são justamente as pessoas que buscam a felicidade no consumismo, na acumulação e no individualismo que perseguem aos que lutam pela justiça do Reino, pela paz e pela partilha. Foi assim que, no passado, os poderosos perseguiram os profetas (Mt 5,10-12) e, ainda hoje, caluniam e perseguem a quem luta por um Brasil em que também as pessoas excluídas possam fazer, pelo menos, três refeições ao dia.
7 A felicidade proposta pelo capitalismo e a felicidade do Reino de Deus
Faz alguns anos, o padre Renzo Flório, celebrando conosco na comunidade São Judas Tadeu, em São Leopoldo, confrontou as bem-aventuranças com as promessas de felicidade da sociedade consumista. Em sua reflexão, Flório disse mais ou menos como segue.
Enquanto a ideologia capitalista declara felizes os que acumulam, Jesus anuncia a bem-aventurança para os pobres no espírito, para as pessoas totalmente livres e desapegadas de qualquer riqueza idolatrada.
O projeto mundano proclama feliz quem vive em festanças, ao passo que Jesus afirma que bem-aventuradas são as pessoas que agora choram, uma vez que irão superar as suas aflições.
Para o sistema do capital, felizes são os donos de grandes extensões de terra. Para Jesus, no entanto, bem-aventurados são os pobres que não têm terra, pois irão conquistá-la para nela viver e trabalhar.
Enquanto a mentalidade do projeto deste mundo diz que são felizes as pessoas que praticam a injustiça, Jesus atesta que bem-aventurados são os que têm fome e sede de justiça, lutando para que essa fome e essa sede sejam saciadas.
A mística do capital declara felizes os individualistas voltados somente para seus próprios interesses, ao passo que Jesus anuncia que bem-aventuradas são as pessoas misericordiosas, solidárias.
Na propaganda de quem defende o poder financeiro, são felizes os desonestos e falsos, os cínicos e debochados. Para Jesus, porém, são bem-aventurados os puros de coração, as pessoas transparentes, sinceras, autênticas.
O sistema deste mundo proclama felizes os que alcançam o que querem através da violência e da guerra. Jesus afirma que bem-aventurado é quem promove a paz.
Por fim, os poderosos dizem que feliz é quem calunia e persegue aqueles que lutam por vida digna para todos. Jesus, contudo, declara felizes os perseguidos por causa de seu engajamento na luta pela justiça.
Hoje, Jesus renova o convite para nós: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33). E o caminho da justiça do Reino, o caminho da santidade, está na prática, não da letra da lei, mas do espírito da lei proposto nas orientações fundamentais para a vida, e que Jesus sintetiza nas bem-aventuranças. É um projeto que abrange a vida toda, envolvendo as relações com os bens, com as pessoas, conosco mesmos e com Deus.

Ildo Bohn Gass

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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O amor a Deus e o amor ao proximo

Qual é o mandamento maior da lei?
Os poderosos armam ciladas contra quem está com o povo
No evangelho para este final de semana, a comunidade de Mateus apresenta-nos Jesus ensinando o mandamento maior no templo de Jerusalém (cf. Mateus 21,23; 24,1). Auxiliado pela sinagoga, o templo era o pilar de um sistema que garantia o ensino e o cumprimento das leis, bem como a aplicação das penas para quem não as cumprisse. 
Nesse templo, mais uma vez, alguns fariseus procuram Jesus para “pô-lo à prova” (Mateus 22,35). Assim já haviam feito ao armarem, junto com herodianos, uma cilada em torno do pagamento dos impostos aos imperadores de Roma, a fim de “apanhá-lo por alguma palavra” (Mateus 22,15). Este relato foi o evangelho do domingo passado, quando, tanto representantes da religião oficial de Jesus (fariseus) bem como do império romano (partidários de Herodes), já haviam se dado conta de quanto o projeto de Jesus era perigoso para os seus privilégios. Ainda mais depois que Jesus também “fechara a boca dos saduceus” (Mateus 22,34). Os saduceus compunham o partido judaico mais poderoso naquele momento. Eles juntavam os que controlavam a religião a partir do templo, os sacerdotes, e os que detinham o poder sobre o comércio em Jerusalém, os anciãos. Hoje, diríamos que é o partido do capital financeiro com apoio da grande mídia empresarial.
O conflito entre diferentes projetos de vida leva-nos a perceber que a plataforma do Reino de Deus revoluciona todos os sistemas, de ontem e de hoje, grandes ou pequenos, dentro ou fora de nós. No momento eleitoral que estamos vivendo no Brasil, vemos claramente esse conflito ainda presente. Apesar de todos os limites impostos por um sistema político e econômico intrinsecamente injusto, quem não percebe que ainda hoje os poderosos armam golpes contra quem procura melhorar a vida do povo, especialmente dos mais pobres, chamados por eles de “menos informados”, ignorantes?
No tempo de Jesus, não era diferente, como percebemos na narrativa da liturgia deste final de semana. Fariseus partem pra cima de Jesus com uma nova armadilha: “Mestre, qual é o mandamento maior da lei?” (Mateus 22,36). Em resposta, Jesus faz memória da centralidade do amor nas Escrituras de seu povo. Dessa forma, ao colocar o amor como motivação maior para todo o nosso agir, Jesus torna relativas todas as leis, doutrinas e tradições. Elas somente estão conforme a vontade de Deus, caso tiverem, como fonte primeira, o amor. 
Jesus acusa esses fariseus de traírem o projeto de Deus ao colocarem a letra acima do espírito da lei. Incomodados pela acusação de Jesus, ficaram sem resposta e silenciaram. Porém, como podemos ler na narrativa seguinte ao nosso texto, novamente eles se reuniram. Seria para preparar outro golpe? (Mateus 22,41). No entanto, segundo o relato de Mateus, a partir de agora é Jesus quem passa a desmascará-los, fazendo perguntas (Mateus 22,42) e acusações fortes contra fariseus, incluindo também doutores da lei (Mateus 23,1-36), de modo que “ninguém podia responder-lhe nada. E a partir daquele dia, ninguém se atreveu a interrogá-lo” (Mateus 22,46). Estavam nus, totalmente desmascarados.
Jesus resgata o espírito da lei
Em que parte das Escrituras Jesus busca o espírito da lei, o princípio do amor? Para o primeiro mandamento, ele recorre a um dos livros da lei judaica, o Deuteronômio (6,4-5): “Amarás o Senhor, teu Deus...”. É um amor intenso, isto é, com todo o nosso ser: coração e alma, força vital e mente. 
O segundo, ele o encontra em outro escrito do Pentateuco, o livro do Levítico (19,18): “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Também esse é um amor profundo, pois é amar o próximo tanto quanto amamos a nós próprios. Segundo o sermão da montanha (Mateus 5-7), Jesus diz o mesmo em outras palavras, resumindo a lei e os profetas, isto é, todas as Escrituras: “Tudo que desejais que as pessoas vos façam, fazei-o vós a elas” (Mateus 7,12). Jesus vai além do senso comum que dizia: “Não faça às outras pessoas o que não queres que te façam”. Ele propõe um amor mais intenso. E amar intensamente é acolher de coração. É cuidar com corpo e com alma. É escutar com mente aberta. É solidariedade, força de vida...
O amor é o centro da vida nutrida em Deus, pois Deus é amor (1 João 4,8.16). Segundo o apóstolo Paulo, se andamos no caminho de Deus, vivemos o amor que gera vida, “pois toda a lei se resume neste único mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gálatas 5,14; Romanos 13,9). Portanto, “o amor é o cumprimento pleno da lei” (Romanos 13,10). Ao dizer que “toda lei e os profetas dependem desses dois mandamentos” (Mateus 22,40), Jesus torna todas as Escrituras relativas. Elas têm sentido somente quando estão em relação ao amor e dele dependem. Somente o amor é absoluto e dá sentido às Escrituras. O amor, portanto, é critério para reler qualquer texto da Bíblia.
Os judeus mais piedosos haviam catalogado todas as leis do Pentateuco. Chegaram a relacionar 613 leis. Dessas, 365 eram proibições como, por exemplo, “não matarás” (Êxodo 20,13). E 248 eram leis afirmativas como “lembra-te de santificar o dia de sábado” (Êxodo 20,8). Uma quantidade tão grande de leis era difícil para o povo cumprir. De um lado, por não saber ler e, por isso, não conhecer as leis em seus detalhes. De outro, por não ter, na luta cotidiana pela sobrevivência, condições de cumprir a lei em todos os seus pormenores.

Conforme uma informação que encontramos no evangelho segundo João, fariseus diziam que “esse povinho que desconhece a lei, são uns malditos” (cf. João 7,47-49). Segundo essa postura preconceituosa e intolerante de fariseus, as pessoas “menos informadas” sobre a lei e, em consequência, não a cumprindo, seriam amaldiçoadas por Deus. E essa era a situação da maioria do povo pobre daquele tempo. Apenas uma minoria considerava-se abençoada por Deus pelo fato de ser “mais informada” e cumprir a lei, bem como as tradições orais sobre o puro e o impuro. 
Ao dar valor relativo às inúmeras prescrições e ao colocar o amor como único princípio no cuidado e promoção da vida, Jesus abre a possibilidade aos pobres de também fazerem parte das bênçãos do Pai. Para muitos fariseus, por considerarem os pobres “menos informados” sobre a lei, estes estariam excluídos dessas bênçãos de Deus. Somente eles achavam ter esse privilégio. No entanto, em sua prática, Jesus derruba os muros que impediam o acesso dos pobres ao Reino. E mais. Alegra-se porque são justamente eles que acolheram a boa nova, enquanto os que se achavam “os mais informados”, porém, prisioneiros de inúmeras regrinhas e preconceitos, fecharam-se ao projeto de Deus (Mateus 11,25). Assim, diante da dificuldade para cumprir tantas leis, Jesus propõe um caminho alternativo, o caminho do amor.

Caminhemos pela estrada do amor
O caminho do amor é um novo jeito de caminhar, é uma nova prática. Sua vivência não é algo abstrato, teórico, mas é um amor bem concreto. Antes de procurar um próximo para amar, importa tornar-se próximo de quem precisa de solidariedade. É isso que a comunidade de Lucas quer-nos lembrar ao acrescentar, à narrativa em que revela o mandamento do amor, a parábola do samaritano misericordioso (Lucas 10,29-37). Conforme a comunidade de Mateus, Jesus lembra-nos das principais atitudes de solidariedade: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a criação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era sem teto e me acolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me” (Mateus 25,34-36). Definitivamente, o caminho do amor é o caminho da solidariedade.
As comunidades de João, diferentemente das de Mateus, Marcos e Lucas, não separam o mandamento de Jesus em dois: amar a Deus, de um lado, e o próximo, de outro. Elas vão mais fundo e identificam o amor a Deus com o amor ao próximo: “Se alguém disser: ‘amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1 João 4,20). 
Ademais, essas comunidades consideram insuficiente “amar o próximo como a si mesmo”. É preciso ir além: “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (João 13,34; 15,12.17). O amor deve ser sem limites, tal como Jesus mesmo amou, isto é, sendo fiel ao projeto do Pai até as últimas consequências. E sabemos que essa fidelidade lhe custou a vida. Porém, ela também é a razão fundamental porque ele continua vivo, presente na luta de quem o segue pelo caminho da justiça do Reino.
Ó Deus de ternura e de bondade,
diante da crise em que este mundo se encontra,
permite-nos que teu amor nos conduza
na superação de todas as estruturas de morte
que ameaçam a vida no planeta. Amém!
Ildo Bohn Gass

http://www.cebi.org.br/noticias.php?secaoId=1&noticiaId=5189

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

30° DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A – 26.10.2014)

O amor a Deus e ao próximo são duas faces da mesma moeda.

Quem não gosta de celebrações criativas, belas, envolventes? E quem não se encanta com a aventura de mergulhar cada vez mais profundamente no antigo e sempre novo, fascinante e terrível Mistério de Deus? Quem não se sente chamado irresistivelmente a amá-lo como é amado?... Mas essa experiência sedutora de um Deus que nos ama incondicionalmente não pode fazer-nos indeferentes à sorte dos nossos irmãos e irmãs. Jesus unifica o amor a Deus e o amor ao próximo.
No Evangelho de hoje, Mateus nos relata o esforço quase desesperado dos fariseus para fazer que Jesus tropece em algum ponto da correta doutrina do judaísmo. Eles já o haviam provocado com a questão dos impostos devidos ao império romano. Tinham notícia também de como Jesus havia enfrentado a armadilha preparada pelos saduceus, em torno da questão da ressurreição dos mortos. E agora voltam com uma questão de doutrina religiosa e de espiritualidade.
É claro que os fariseus não querem aprofundar seu conhecimento sobre Deus e seu Reino. O que eles procuram insistentemente é um motivo para rejeitar o ensino de Jesus e tirá-lo de circulação. E quando perguntam qual é o maior mandamento da lei querem dar a entender que os mandamentos são muitos, e a definição do mais importante é uma operação teológica complicada e arriscada. Os mandamentos seriam vários e não teriam um eixo que os move e em torno do qual giram.
Jesus não se intmida, e responde à pergunta provocadora com serenidade e clareza. “Ame o Senhor seu Deus com todo teu coração, com toda tua alma e com todo tua inteligência. Este é o primeiro e grande mandamento.” Com isso parece que Jesus se conforma à expectativa de todos seus interlocutores e opositores, não deixando margem para qualquer crítica ou desconfiança. Mas, mais que uma resposta estratégica, esta é uma afirmação que vai ao centro da questão religiosa.
Trata-se de amar a Deus, mas não de qualquer maneira. Jesus não propõe um amor sentimental ou voluntarista. Ele sublinha um amor lúcido, racionalmente orientado (com toda tua mente); um amor encarnado na vida e nos gestos cotidianos (com toda tua alma); e um amor decidido, sensível e humano (com todo teu coração). Este amor está a quilômetros de distância de um mero sentimento que se desfaz em lágrimas diante das catástrofes mas mergulha na indiferença diante da opressão.
O que Jesus nos propõe com este mandamento ‘primeiro e central’ é uma vida integralmente centrada em Deus e na sua vontade. E isso é mais que amar a Deus como um entre os muitos objetos ou sujeitos que podem realizar nossos desejos. Significa ter Deus e o seu Reino como a referência absolutamente central das nossas opções, práticas e projetos. Deus não pode ser simplesmente mais uma pedra na construção, mas a arquitetura que a define e o alicerce que a sustenta.
Mas Jesus não se detém na resposta aprovada pela ortodoxia e esperada pelos líderes religiosos. Ele surprende a todos dizendo que há um segundo mandamento, com o mesmo valor e inseparável do mandamento primeiro e central: “Ame o seu próximo como a si mesmo.” Esse mandamento era conhecido pelos fariseus e doutrores da lei, mas eles – como muitos de nós – jamais o colocariam no mesmo nível de importância do amor a Deus. Isso soaria como uma heresia horizontalista...
Para não deixar dúvidas, Jesus afirma lapidarmente que todas as escrituras se resumem e realizam nesses dois princípios. A vontade de Deus, aquela vontade que em cada oração do Pai-Nosso pedimos que seja realizada, se concretiza num amor terno, lúcido e firme dirigido ao mesmo tempo a Deus e aos nossos semelhantes, especialmente àqueles que se encontram socialmente e humanamente mais fragilizados. E é daqui que parte também toda profecia, missão hoje tão urgente quanto complexa.
Deus pai e mãe, amor que envia e sustenta missionários que dedicam a própria vida para recordar que o amor a ti e ao próximo vão sempre de mãos dadas: te agradecemos porque, em todos os tempos, suscitas pessoas que, reconciliadas e sustentadas por teu amor, dão o melhor de si mesmos para que teu nome seja engrandecido e os mais pobres possam viver dignamente. Que teu santo Espírito ajude a Igreja a recriar e anunciar teu Evangelho como boa notícia que aproxima e anima todos os seres humanos. E que ela não transforme este dom precioso em lei que obriga ou em doutrina que divide. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Livro do Êxodo 22,20.26 * Salmo 17 (18) * 1ª Carta aos Tessalonicenses 1,5-10 * Mateus 22,34-40)

O mistério de Paulo

O mistério que foi revelado

Escrevendo aos cristãos de Éfeso, Pauo fala que com entusiasmo da graça que ele e os demais santos apóstolos e profetas tiveram de conhecer o “mistério de Cristo”. E descreve o conteúdo deste mistério: os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa e têm a liberdade de se aproximar de Deus com toda a confiança (cf. Ef 3,2-12).
Mas o que isso significa, concretamente? Significa que o muro teológico e moral que as religiões, culturas  ideologias ergueram para separar crentes e não crentes, praticantes e não praticantes, cumpridores da lei e libertários, perdeu o sentido. Jesus não pratica a lei estritamente, e se mostra libertário, crítico e anárquico, chegando a afirmar que pessoas consideradas modelo de pecado – como as prostitutas e os publicanos – são mais apreciadas por Deus que os fariseus e doutores da lei...
O que Paulo intuiu – e mais tarde os evangelhos, que nasceram no ventre da fé das comunidades cristãs, deixarão claro – é que a humanidade de Jesus e dos seus irmãos e irmãs é o lugar do encontro com Deus, ou seja, do encontro com a liberdade solidária e emancipadora. Infelizmente a maioria de nós nem se dá conta, e muito menos se assusta, com o ensino de Jesus, que não pede que, à espera da sua volta, multipliquemos celebrações e novenas, mas que estejamos à frente – ou aos pés?! – dos nossos irmãos e irmãs para dar-lhes de comer na hora certa. Ou seja: servimos a Deus e resgatamos nossa verdadeira identidade humana no amor agradecido a Deus e no amor solidário e emapncipador aos nossos irmãos.
Nossos amigos e amigas que não chegaram à graça da fé, ou que a perderam por causa da ambiguidade do nosso testemunho, não são necessariamente piores ou mais culpáveis que nós. Se eles se posicionarem ao lado ou aos pés dos seus semelhantes e os servirem nas suas necessidades, encontraram Deus e realizaram sua vocação. Há dois mil anos esse mistério foi desvelado e, graças a Paulo e às primeiras gerações de cristãos, chegou ao nosso conhecimento. E o conhecimento gera responsabilidade. E é de novo o próprio Jesus que nos adverte: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido” (Lucas 12,48).
No horizonte do mês missionário, somos convidados a anunciar isso com ênfase e clareza: as divisões caducaram; a pretensa supremacia dos crentes e religiosos perdeu a base; as hierarquias ruíram. A salvação se tornou acessível a todos os povos e culturas, e é encontrada e realizada na compaixão, na misericórdia e na solidariedade. É isso que significa a afirmação de não é pela prática da lei (que separa e hierarquiza) que alcançamos a salvação, mas pela fé em Jesus Cristo (que aproxima e solidariza).

Itacir Brassiani msf

sábado, 18 de outubro de 2014

Dia Mundial das Missões

A alegria de ser missionário


Ainda hoje há tanta gente que não conhece Jesus Cristo. Por isso, continua a revestir-se de grande urgência a missão ad gentes, na qual são chamados a participar todos os membros da Igreja, pois esta é, por sua natureza, missionária: a Igreja nasceu «em saída».
A alegria é a marca da missão
Narra o evangelista que o Senhor enviou, dois a dois, os setenta e dois discípulos a anunciar, nas cidades e aldeias, que o Reino de Deus estava próximo, preparando assim as pessoas para o encontro com Jesus. Cumprida esta missão de anúncio, os discípulos regressaram cheios de alegria: a alegria é um traço dominante desta primeira e inesquecível experiência missionária.
O divino Mestre disse-lhes: «Não vos alegreis, porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu. Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: “Bendigo-te, ó Pai...”. Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: “Felizes os olhos que vêem o que estais a ver”» (Lc 10, 20-21.23).
A alegria brota do amor realizado
Os discípulos estavam cheios de alegria, entusiasmados com o poder de libertar as pessoas dos demónios. Jesus, porém, recomendou-lhes que não se alegrassem tanto pelo poder recebido, como sobretudo pelo amor alcançado, ou seja, «por estarem os vossos nomes escritos no Céu» (Lc 10, 20). Com efeito, fora-lhes concedida a experiência do amor de Deus e também a possibilidade de o partilhar. E esta experiência dos discípulos é motivo de jubilosa gratidão para o coração de Jesus.
Este momento de íntimo júbilo brota do amor profundo que Jesus sente como Filho por seu Pai, Senhor do Céu e da Terra, que escondeu estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelou aos pequeninos (cf. Lc 10, 21). Deus escondeu e revelou, mas, nesta oração de louvor, é sobretudo a revelação que se põe em realce.
O que foi que Deus revelou e escondeu? Os mistérios do seu Reino, a consolidação da soberania divina de Jesus e a vitória sobre satanás. Deus escondeu tudo isto àqueles que se sentem demasiado cheios de si e pretendem saber já tudo. De certo modo, estão cegos pela própria presunção e não deixam espaço a Deus.
A fonte primeira da alegria é o amor de Deus por nós
«Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado» (Lc 10, 21). Jesus exultou, porque o Pai decidiu amar os homens com o mesmo amor que tem pelo Filho. Além disso, Lucas faz-nos pensar numa exultação idêntica: a de Maria. «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lc 1, 46-47).
Ao ver o bom êxito da missão dos seus discípulos e, consequentemente, a sua alegria, Jesus exultou no Espírito Santo e dirigiu-Se a seu Pai em oração. Em ambos os casos, trata-se de uma alegria pela salvação em ato, porque o amor com que o Pai ama o Filho chega até nós e, por obra do Espírito Santo, envolve-nos e faz-nos entrar na vida trinitária.
«A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (Evangelii gaudium, 1).
De tal encontro com Jesus, a Virgem Maria teve uma experiência totalmente singular e tornou-se «causa da nossa alegria». Os discípulos, por sua vez, receberam a chamada para estar com Jesus e ser enviados por Ele a evangelizar (cf. Mc 3, 14), e, feito isso, sentem-se repletos de alegria. Porque não entramos também nós nesta torrente de alegria?
Um mundo ameaçado pela tristeza individualista

«O grande risco do mundo atual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada» (Evangelii gaudium, 2). Por isso, a humanidade tem grande necessidade de dessedentar-se na salvação trazida por Cristo.
Os discípulos são aqueles que se deixam conquistar mais e mais pelo amor de Jesus e marcar pelo fogo da paixão pelo Reino de Deus, para serem portadores da alegria do Evangelho. Todos os discípulos do Senhor são chamados a alimentar a alegria da evangelização.
A alegria do Evangelho brota do encontro com Cristo e da partilha com os pobres. Por isso, encorajo as comunidades paroquiais, as associações e os grupos a viverem uma intensa vida fraterna, fundada no amor a Jesus e atenta às necessidades dos mais carecidos.
Deus ama a quem dá com alegria
Onde há alegria, fervor, ânsia de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas, nomeadamente as vocações laicais à missão. Na realidade, aumentou a consciência da identidade e missão dos fiéis leigos na Igreja, bem como a noção de que eles são chamados a assumir um papel cada vez mais relevante na difusão do Evangelho. Por isso, é importante uma adequada formação deles, tendo em vista uma acção apostólica eficaz.
Não nos deixemos roubar a alegria da evangelização! Convido-vos a mergulhar na alegria do Evangelho e a alimentar um amor capaz de iluminar a vossa vocação e missão. Exorto-vos a recordar, numa espécie de peregrinação interior, aquele «primeiro amor» com que o Senhor Jesus Cristo incendiou o coração de cada um; recordá-lo, não por um sentimento de nostalgia, mas para perseverar na alegria. O discípulo do Senhor persevera na alegria, quando está com Ele, quando faz a sua vontade, quando partilha a fé, a esperança e a caridade evangélica.
(Resumo da mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões de 2014)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

29° DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A – 19.10.2014)

A justiça e a promoção humana estão no coração da missão.

As comunidades católicas rezam hoje pelas missões, pelos missionários e missionárias. Estes homens e mulheres abrasados pela fé, fortalecidos pela esperança e seduzidos pelo desafio de ultrapassar fronteiras não são entidades de outro planeta ou de outra dimensão, nem pessoas moralmente ou espiritualmente superiores a nós. Como Jesus, os missionários são pessoas que não fazem diferenças entre as pessoas em favor dos familiares, compatriotas ou partidários. São criaturas que têm lucidez e coragem para relativizar as pretensões dos poderosos e defender os direitos dos pequenos.
Depois da parábola do banquete, na qual Jesus afirma que os principais de Israel recusam o convite gratuito de Deus, esta elite não parece interessada em responder ou discutir: retira-se para conspirar e planejar um ataque fulminante contra Jesus. Com ironia, hipocrisia e cinismo, os doutores da lei, escribas e herodianos preparam uma armadilha para enrolar e surpreender Jesus e, assim, fabricar as provas que necessitam para a condenação que já está decidida. A ironia e o cinismo ficam evidentes nos elogios dirigidos a Jesus pelos emissários das elites judaicas.
Sem querer, nos elogios irônicos e cínicos que dirigem a Jesus, os próprios adversários de Jesus apresentam seu perfil verdadeiro e inatacável. Jesus não se sente inibido na sua opção pelos pobres nem diante da pressão dos poderosos. Não abandona os caminhos de Deus, mesmo diante das alternativas que oferecem sucesso e êxito. Não foge das questões espinhosas, nem apela a uma mal dita neutralidade política, a uma indefinida vida interior ou às coisas da alma. Ele sabe distinguir o reconhecimento e a adesão humilde à sua proposta dos elogios falsos, interesseiros e enganadores...
O que está em discussão no evangelho deste domingo não é a simples questão de pagar ou não pagar impostos. O que as elites, do judaímo e de todos os tempos, querem saber é se, diante do império romano, Jesus é colaborador ou subversivo; se ele mantém sua profecia ou abaixa a cabeça e cala a boca, deixando os fracos à sua própria sorte; se o projeto de Deus mergulha na história ou se dirige apenas ao coração e a uma fé privatizada e intimista. De qualquer modo, a questão não é a autonomia dos poderes político e religioso, as a relação entre fé e política.
O tributo imposto e cobrado dos povos colonizados pelo império romano era um meio de subjugá-los, e a própria moeda servia como estratégia de propaganda do imperador e de afirmação do seu status divino. Para os judeus mais piedosos, a simples apresentação da imagem do imperador cunhada na moeda provocava indignação, pois era um sinal da sua divinização. Diante da prova da moeda, Jesus não se submete à fàcil solução de separar fé e política, poder temporal e crítica profética. Sua resposta sábia e corajosa é um caminho: “Devolvam a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”
A conclusão de que, com esta resposta, Jesus estaria afirmando que a fé não tem nada a dizer sobre a esfera política, mesmo sobre um poder ditador e opressor, é puro preconceito e ideologia escapista, sem nenhuma base exegética. O que Jesus faz é pedir que se devolva ao imperador a moeda, instrumento de propaganda e de exploração, e que se reserve a Deus a vida e do seu povo. Partindo do valor absoluto e transcendente do Reino de Deus, ele condena as pretensões absolutistas do imperador e suas práticas de exploração dos povos por ele subjugados.
Assim, Jesus contextualiza e relativiza o poder colonialista e a lealdade às autoridades. Sem recorrer à violência e falando em nome de Deus, exercita a profecia e subverte a ordem estabelecida sobre a desordem ética. Isso nos lembra que profecia, a justiça e a promoção humana são intrínsecas à missão.  Graças a Deus, em muitas comunidades, temos discípulos missionários com coração grande para amar e forte para lutar. Com Paulo, dizemos: “Nos lembramos sempre da fé viva, do amor capaz de sacrifícios e da firme esperança de vocês... Sabemos que vocês foram escolhidos por Jesus Cristo...”
Deus pai e mãe, dá-nos coragem e sabedoria para relativizar todos os poderes, inclusive os poderes  religiosos, e subordiná-los ao serviço à vida. Ajuda tua Igreja a assumir, sem medo e sem reticências, a missão de encarnar o Evangelho do teu Filho na política, na economia e na sociedade, colaborando na edificação de um país solidário. E não permite que teus filhos se cansem de testemuhar com clareza, de servir com amor, de dialogar com humildade e de  anunciar o Evangelho com intrepidez. Assim seja!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Profeta Isaías 45,1.4-6 * Salmo 95 (96) * 1ª Carta aos Tessalonicenses 1,1-5 * Mateus 22,15-21)
Confira também: http://www.cebi.org.br/noticias.php?secaoId=1&noticiaId=5176 

sábado, 11 de outubro de 2014

Razões para não votar em Dilma?

Treze razões para não votar em Dilma
Depois do primeiro turno, acrescentei três razões à minha lista para que não se vote em Dilma. Vai mal o Brasil. Essa primeira razão fala por si. Temos o menor desemprego dos últimos 12 anos. Uma vergonhosa taxa de 5%. Culpa do PT. Só no Brasil mesmo. É mais uma jabuticaba brasileira. Qualquer país europeu civilizado tem o dobro disso. A taxa média de desemprego na Europa anda pelos 10,5%.
A segunda razão para não se votar em Dilma é que a taxa de mortalidade infantil entre nós caiu 77% entre 1990 e 2012. Como se vê, o petismo nada tem com isso. Talvez tenha até atrapalhado.
A terceira razão para não se votar em Dilma é que, entre 2001 e 2012, a pobreza extrema no país foi reduzida em 75%, segundo a ONU, e a pobreza em 65%. Como se fez tão pouco! Por que não se reduziu a zero a pobreza extrema? É muita incompetência.
A quarta razão para querer tirar Dilma do poder é o bolsa família. Esse famigerado programa assistencialista e populista mantém cerca de 16 milhões de crianças na escola, arrancou quase dois milhões de famílias da miséria e dá acesso ao mercado interno de mais 50 milhões de pessoas. É inadmissível. Os beneficiados ficam contentes e irracionalmente tendem a votar no governo que os ajuda. Um comportamento racional os levaria a recusar esse benefício ou a votar pelos que o rotulam de bolsa preguiça.
A quinta razão para se fugir de Dilma é ProUni. O ProUni é um programa devastador. Botou, em dez anos, dois milhões de jovens pobres em instituições privadas. Está acabando com uma das mais caras noções da meritocracia branca e rica: a universidade para poucos, o curso superior como uma distinção de elite. Onde vamos parar? As universidades agora têm alunos de todas as classes e cores. A educação é um dos maiores problemas do Brasil. Está cada vez mais inclusiva e multirracial.
A sexta razão vem das cotas raciais. Mais um mecanismo devastador. De repente, não tem mais só brancos nas salas de aulas de instituições antes tão homogêneas. O preservador das tradições se assusta e grita: “É um racismo às avessas”. O liberal repete seu mantra: “O importante é ter as mesmas condições no ponto de partida”. Obviamente que isso nunca existiu e, se depender de alguns, nunca existirá.
A sétima razão para não se votar em Dilma é que os governos petistas criaram 14 novas universidades públicas e centenas de extensões no interior dos país. Isso é lamentável, pois diminui a importância das grandes cidades, estimula os jovens a não migrarem mais para as metrópoles e, com o Enem, desvaloriza os vestibulares tradicionais.
A oitava razão é que, apesar do crescimento baixo, a inflação, considerada altíssima,  estourou o teto da meta uma vez. A oitava razão para se votar em qualquer um, menos em Dilma, é que a taxa Selic, que chegou a 45% num dos governos de FHC, só está em 11% atualmente.
A nona razão para não se votar em Dilma é que tudo isso não passa de uma estratégia para desviar a atenção da corrupção, a maior que já vimos, exceto pelo que aconteceu nos últimos 500 anos, mas não foi noticiado, salvo nos governos de Getúlio e Jango, por não ser do interesse dos donos da mídia ou dos discretos generais ditadores que detestavam escândalos e amavam o Maluf.
A décima razão é que Dilma ganha no nordeste. Tem o voto dos pobres. E pobre, como todo mundo sabe, especialmente FHC, vota por interesse, com o estômago e com o bolso. Só rico vota por racionalidade, desinteresse e idealismo como provam os lacerdinhas, os coxinhas e todos os que recebem bolsas como o bolsa moradia dos togados.
A décima primeira razão para não votar em Dilma é que ele pode continuar fazendo o que fez até agora. Por exemplo, aumentar o salário mínimo, essa irresponsabilidade que produz inflação e compromete os ganhos de empresários.
A décima segunda razão para não votar em Dilma é que ela é odiada pela mídia de Rio de Janeiro e de São Paulo, que, como todos sabem, é uma mídia imparcial, neutra, objetiva e tucana só quando não lhe sobra alternativa, ou seja, sempre.
Até dá para desconsiderar isso tudo e votar. O problema é a décima terceira razão: nunca se aparelhou tanto o Estado. Por exemplo, na educação. Eu não perdoo. Nem esqueço. Sei que isso é o mais importante. O resto é pura perfumaria. Anularei o meu voto. Na margem de erro, acerto um ponto fora da curva.

Postado por Juremir Machado /  Correio do Povo em 10 de outubro de 2014

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sinodo sobre a Familia

SÍNODO: A ESPERANÇA DE UMA ABERTURA

A primeira fase do Sínodo da família iniciou-se em Roma ao mesmo tempo em que o Brasil fervilhava com o primeiro turno das eleições. O clima tenso e agressivo não permitia pensar em nada mais. Agora, uma vez apuradas as urnas e enquanto se respira para começar a peleja do segundo turno – que promete ser pior do que o primeiro – há tempo para voltar os olhos para o Vaticano, onde se realiza tão importante reunião.
A família é há muito tempo uma pedra no sapato da Igreja. Embora seja a célula mater da evangelização, a pastoral familiar encontra-se há anos, sobretudo, eu diria, desde os anos 60, lutando com obstáculos e impedimentos que dificultam à Igreja um diálogo franco e aberto com os fiéis sobre as questões da vida familiar.
Entre as mais polemicas está certamente a da volta à vida sacramental dos casais em segunda união. A norma da indissolubilidade do matrimônio tira do horizonte dos fiéis a possibilidade de um novo casamento se o primeiro fracassa. E o fato é que desde que a libertação sexual explodiu como uma bomba atômica nos anos 1960, muitos casais católicos optaram por separar-se de seus cônjuges e ingressar em uma segunda união. Mais: muitas vezes esta segunda união tem muito mais evidentes características do que deveria ser um matrimônio cristão que a primeira: amor, desprendimento, desvelo pelo outro, etc.
Mais evidente ainda fica essa questão se se considerarem as realidades cruéis e desumanas que tantas vezes a relação conjugal fracassada traz para a vida das pessoas e sobretudo dos filhos, se os há. No entanto, a moral católica tem sempre afirmado, insistentemente, a excomunhão dos recasados, proibidos de participar efetivamente do sacramento da Eucaristia. Essa atitude um tanto inflexível – que como tal tem sido denunciada inclusive por autoridades da estatura do Cardeal alemão Walter Kasper – leva o novo casal a ver-se declarado em pecado e, pior do que isso, sem perdão. Ou seja, em uma situação pior do que um assassinato, já que neste caso, se o assassino se arrepende, é perdoado e pode aproximar-se novamente da comunhão eucarística.
No Brasil, a situação do matrimônio é bem grave. O Censo do IBGE de 2010 mostra que as uniões consensuais – ou seja, não sacramentais nem legais civilmente – são da ordem de 36,4%, ou seja, mais de 1/3 do universo de casais. E todos esses casais – de acordo com as respostas – desejam participar da Eucaristia, receber a absolvição e a comunhão.
Não admira que a expectativa em relação ao Sínodo e suas conclusões seja enorme. Está em questão uma nova maneira de conceber a pastoral familiar, o trato e a relação da Igreja com as famílias católicas. Mas, pode-se esperar que seja efetivada alguma mudança real quanto a este ponto? Uma tradição tão arraigada na vida eclesial pode realmente mudar?
Pessoalmente, creio que há razão para ter esperanças. O Papa Francisco, ao abrir o Sínodo, deixou claro o que esperava dos seus membros: sinceridade para falar, respeito, humildade para escutar. E uma atitude pastoral que seja realmente dedicada e misericordiosa para com os fiéis.
Um grande bispo teólogo, Monsenhor Bruno Forte, afirmou, em entrevista, que os aspectos doutrinais não podem ser minimizados, mas que a doutrina não tem valor abstrato em si mesma nem pode ser uma arma pesada. Pelo contrário, pode e deve ser sempre uma mensagem de salvação. Pois seu centro é o amor de Deus, a misericórdia. Isso é a fé da Igreja e esta, sim, é imutável. Uma fé que deve expressar-se olhando a realidade das pessoas concretas, reais, não como juízo inclemente, mas como amor e misericórdia em ato.
Tomara que o sentir de Monsenhor Bruno Forte seja certeiro e corresponda realmente às conclusões e resultados deste Sínodo, que apenas começa e ainda tem outra etapa para o ano que vem. Certamente será de extrema importância para que os casais em segunda união e as famílias que formaram se sintam acolhidas, acompanhadas e bem-vindas, e não rejeitadas e marginalizadas como se fossem criminosas.
Para que isso aconteça, confiemos no Espírito Santo, que nunca abandona a Igreja e está certamente presidindo os trabalhos deste sínodo. Amém.

Maria Clara Lucchetti Bingemer