quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Insatisfaçoes com o Papa Francisco

Cinzas sobre Brasas: a incapacidade de acolher o dom do Espírito

O pontificado de Francisco continua a provocar dificuldades e tensões em setores da igreja católica. Mais uma vez observamos a presença crítica de Vittorio Messori no Jornal Italiano Corriere della Sera, na véspera de natal (24/12/2014), lançando suas críticas ao papa Francisco. Tudo feito de forma bem programada, evitando ataques mais diretos, mas destilando suspeição sobre a ação pastoral de Francisco. Fiquei impressionado com esse artigo: “I dubbi sulla svolta di Papa Francesco”. Messori, sublinha que sua avaliação do pontificado titubeia entre a adesão e a perplexidade. Mas é claro que prevalece a PERPLEXIDADE. O que a ele mais causa espanto em Francisco é o que chama de IMPREVISIBILIDADE.
A seu ver, são as surpresas de Francisco que continuam “perturbando a tranquilidade do católico médio” (sic!). Para Messori, esse católico – a seu ver – estaria mais estabilizado com uma imagem mais tradicional de papa, e Francisco surpreende... Entre as reflexões de Francisco que provocam escândalo no colunista, a ideia expressa na entrevista com Eugenio Scalfari a respeito de Deus: “Eu creio em Deus. Não num Deus católico, não existe um Deus católico, existe Deus”. Para Messori, trata-se algo que não combina com a imagem sagrada da Ecclesia una, sancta, apostólica, romana. E ironiza a perspectiva mais aberta acenada por Francisco. E destila sua ironia: “Como se a Igreja una, santa, católica, apostólica, romana fosse algo opcional, como um acessório que se pudesse ligar ou não, segundo um gosto pessoal”. Como em outras vezes, o que mais irrita Messori em Francisco é o que identifica com um certo “populismo”, que capta um vasto interesse mas que se revela superficial e efêmero...

Reagindo ao texto de Messori, Leonardo Boff acaba de escrever, em 28/12/2014, uma resposta firme, com a intenção de publicá-la no mesmo periódico italiano: “Appogio ao Papa Francesco contro un scrittore nostálgico”. Daí ter saído o texto em italiano, antes mesmo de sua edição brasileira. O objetivo de Boff é reagir às oposições a Francisco que vão se firmando em muitos lugares. São reações críticas ao seu modo de agir pastoral, aberto, ecumênico e sintonizado com a causa dos pobres. Quem são esses “católicos médios” que se sentem abalados com a ação pastoral de Francisco? Responde Boff: “São, geralmente, católicos culturais habituados à figura faraônica de um Papa com todos os símbolos do poder dos imperadores pagãos romanos. E agora aparece um Papa ´franciscano` que ama os pobres, que não veste ´Prada`, que faz uma dura crítica ao sistema que produz miséria em grande parte do mundo, que abre a Igreja não só aos católicos, mas a todos aqueles que levam o nome de ´homens e mulheres`, sem que sejam julgados, mas acolhendo-os no espírito da ´revolução da ternura`”.

Para Boff, o artigo de Messori vem como encomenda de grupos críticos a Francisco, e ele se faz porta-voz desses segmentos nostálgicos. Boff sinaliza que leu o artigo de Messori com tristeza, e com a infelicidade de ser publicado na véspera do Natal. Sublinha três insuficiências no artigo de Messori, duas de natureza teológica e uma de compreensão da igreja do terceiro mundo. No âmbito teológico, a dificuldade de encontrar lugar para o Espírito Santo na igreja, aquele que vem identificado com “a fantasia de Deus”. Quando Messori reage à “imprevisibilidade” do papa, na base está uma dificuldade teológica de acolher o dom do Espírito. A igreja, sublinha Boff, deve estar sempre aberta à “irrupção do Espírito”. Outra dificuldade importante vem identificada por Boff com a dificuldade de Messori entender e captar a novidade eclesial que acompanha a emergência de uma igreja que respira os ares do Terceiro Mundo. Francisco ecoa uma perspectiva eclesial nova, de igrejas-fonte, com seus mártires, confessores e teólogos.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

SOLENIDADE DE SANTA MARIA, MÃE DE DEUS (ANO B – 01.01.2015)

Construamos a Paz com confiança, paciência e tenacidade.

Na celebração cristã do Novo Ano se entreleçam três temas: o começo de um novo ano civil, a maternidade de Maria e a Jornada Mundial pela Paz. Mesmo atordoados pelos fogos e champagnes da noite de ontem, não esqueçamos que um ano novo, marcado pela Paz, não costuma chegar da noite para o dia. As novidades promissoras e duradouras são gestadas sempre muito pacientemente no ventre profundo da história e das pessoas de boa vontade, daquelas que acolhem os dons e convites que vêm dos desertos, das periferias e das fronteiras; são dons que desestabilizam e põem a caminho.
Paulo recorda aos cristãos de Gálatas e de todos os tempos que Deus nos enviou seu Filho quando o tempo se cumpriu e chegou à maturidade. Nascendo de Maria, o Filho de Deus desceu e se igualou às criaturas marcadas pelas limitações. Mas também nos resgatou do domínio escravizador das leis e instituições e nos deu a adoção filial e a liberdade. Desde então, vivemos na liberdade dos filhos e filhas, e o Espírito derramado em nossos corações nos pacificou e nos deu a possibilidade de clamar a Deus como os filhos se dirigem ao pai e à mãe. Não somos mais escravos, mas filhos e herdeiros!
Acolhido por nós e no meio de nós, Jesus de Nazaré pacifica o mundo estabelecendo relações novas, baseadas na justiça e na fraternidade. E ele cumpre a promessa de Deus e a esperança humana através de cada um de nós, dos homens e mulheres de boa vontade, dos líderes autênticos e das organizações que não se resignam à paz aparente, à paz baseada no equilíbrio de forças ou no terrorismo estatal. “Deus te abençoe e te guarde! Deus mostre seu rosto brilhante e tenha piedade de ti! Deus mostre seu rosto e te dê a paz!” Falando assim, seremos princípios e príncipes da Paz.
Hoje contemplamos a chegada dos pastores à gruta Belém. Eles encontram Jesus no seio de uma família pobre e migrante. Ficam vivamente impressionados com o que vêem, e comparam com tudo aquilo que tinham ouvido. E conseguem compreender este mistério de um Deus a quem não apraz a força dos cavalos ou dos tanques, dos cortejos de acólitos, das doutrinas  e dos códigos de direito... Deus se alegra com o despojamento solidário de quem se faz próximo e peregrino com os deslocados e sem-lugar e, por isso, como os pastores, volta louvando e glorificando a Deus por tudo o que vê e ouve.
Jesus recebe o nome proposto pelo mensageiro de Deus a Maria no anúncio-convite. Ele se chama boa notícia da salvação: Deus salva seu povo do pecado. Estamos livres do pagamento do débito que temos conosco mesmos e com os outros por não conseguirmos realizar a utopia que realmente sonhamos. Estamos livres da culpa de termos ficado aquém ou errado o alvo. Deus não fica esperando que cheguemos heroicamente a ele. Ele mesmo vem decididamente ao nosso encontro. Ele é nossa Paz! E é claro que, sendo perdoados e pacificados, tornamo-nos agentes do perdão e operadores da paz.
Todos suspiramos pela Paz, que é t­ão necessária quanto urgente. Uma paz que não venha apaziguar superficialmente as relações humanas, passando ao largo das relações desiguais que precisam ser mudadas. Gememos e sofremos por uma Paz geral e profunda, que às vezes parece atrasada e até impossível. Lutamos por esta Paz em todas as frentes, a ponto de quase perdermos a paz. Mas tenhamos sempre presente que esta Paz não está apenas no fim do caminho, na plena confraternização entre lobos e cordeiros, serpentes e crianças: ela está no caminho, na caminhada, nos caminhantes.
A paz que buscamos sem sossego está nas pessoas inconformadas que ousam mudar, começar de novo, e isso a cada dia. Está nos homens e mulheres que sabem ver nas sementes as flores e os frutos que virão depois, que encarnam nas relações cotidianas os sonhos e utopias que, literalmente, parecem não ter um lugar. E, para os cristãos, o fundamento desta Paz é a relação de Jesus Cristo: nascido de mulher e sob a Lei, Jesus conduz à liberdade todas as pessoas, começando pelos últimos, pelas pessoas que são colocadas à margem. Nele, todos estamos em paz com Deus!
Deus querido, Pai e Mãe! Iniciando este ano que desejamos que seja Novo, te pedimos: faz que sejamos construtores de Paz. Ensina-nos a contemplar e compreender o anseio de Paz e de comunhão que pulsa no coração do mundo. Dá-nos a alegria de celebrar inclusive os pequenos avanços, como o reestalecimento das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos. Suscita em nós o canto que brota da nossa indestrutível dignidade de filhos e filhas. E dá-nos experimentar, como Maria e os pastores, a alegria de reconhecer a grandeza de Deus na pequenez e na fragilidade humana. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Livro dos Números 6,22-27 * Salmo 66 (67) * Carta de Paulo aos Gálatas 4,4-7 * Lucas 2,16-21)

domingo, 28 de dezembro de 2014

Em memoria dos Santos Inocentes

Estou profundamente incomodado com o mundo, com as pessoas...
Poderia ser eu, ou como diz Clarice, “é um pouco de mim que morre”...
“Esses tempo não estão pra ninharia.”
Para viver não basta apenas respirar, andar, conversar. Viver é mais que isso!...
(Paulo Henrique, postulante MSF, Recife)


A ti Deus, que morres assassinado...
Deus, o teu corpo está em putrefação 
nos terrenos baldios. 
Deus, que tens a vida por um fio, 
e, em busca de migalhas ,
roubas os abastados,
e, por isso, acabas sendo preso,
só por querer alimentar os teus.

Meu Deus, que  te encontras preso, 
atado a mais outros quinhentos dentro de uma cela. 
Deus conformado,
Deus com o corpo cheio de tiros, 
Deus preso ao poste,
Deus negro, Deus índio. 
Deus das palafitas,
Deus oprimido,
Deus violentado,
Deus morte de fome.
Deus proibido de ter dignidade, de ter família. 
Deus marginal, desregrado, desvalido.

Onde está Deus? 
Talvez morrendo, talvez nas ruas,
talvez perdido, ainda desaparecido. 

O seu trono está vazio, ele nunca esteve lá. 
O seu rosto é estampado todos os dias nas capas dos jornais, 
mas ninguém o reconhece.

A ti Deus, que morres assassinado, 
faço minha oração. 

Avante! 

sábado, 27 de dezembro de 2014

FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ (ANO B – 28.12.2014)

Na Sagrada Família se revela o dom de Deus à humanidade.

No dia em que festejamos a família de Jesus não podemos ceder à piedosa tentação de imaginar uma família idealizada e espiritualizada, alheia à realidade histórica e material. Do ponto de vista sociológico, a Sagrada Família é uma família judia absolutamente normal, tão normal que sequer despertou a atenção dos vizinhos e da sinagoga, a não ser depois do evento pascal de Jesus. Viveu os valores humanos e religiosos de uma família crente, freqüentando a sinagoga, meditando a Palavra dos profetas, peregrinando ao Templo, celebrando a liturgia doméstica, esperando a vinda do Messias.
É isso que vemos no evangelho de hoje. Maria e José cumprem a lei que pede que, depois do parto, as mulheres vão ao templo para se purificar. E apresentam Jesus ao Templo e ao povo. A Sagrada Família percorre o caminho que a levou da marginalidade de Belém ao centro de Jerusalém e nada de especial se percebe enquanto cumpre as leis prescritas pela sua tradição religiosa. O momento alto e revelador está centrado no encontro com Simeão e Ana, idosos, piedosos e profetas. E aqui tudo chama a atenção para o significado do filho que Maria e José carregam nos braços.
Simeão toma nos braços aquela criatura vulnerável e, com seu olhar transparente e penetrante, é capaz de discernir na fragilidade a presença libertadora de Deus. E trata-se de uma salvação que desborda as fronteiras étnicas e religiosas de Israel. “Meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos, luz para iluminar as nações e glória do teu povo, Israel”. Ana também “falava do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém”. Daqui brota o imperativo missionário de trabalhar para que todos os seres humanos sintam-se irmãos na única família do Pai.
Em Jerusalém, Maria e José experimentam um certo brilho e uma grande satisfação subjetiva. “Estavam maravilhados com o que diziam do menino”. Poucas coisas estavam claras, mas neles cresce a percepção de que o filho que lhes foi confiado é especial para todos os povos. Este entusiasmo, porém, logo é temperado pelas palavras misteriosas que Simeão dirige a Maria: “Eis que esse menino será causa de queda e elevação de muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Quanto a você, uma espada há de atravessar-lhe a alma. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações.”
Unidos pelos laços de um amor profundamente humano e dentro do horizonte das tradições do seu povo, José e Maria avançam no escuro da fé. Como Abraão, se lançam na estrada da fé sem saber onde chegarão. Ousaram acreditar, e isso lhes foi creditado como justiça. Tiveram que se abrir sempre mais à novidade que Deus manifestava através do filho que lhes fora confiado. E os evangelhos fazem questão de sublinhar que Nazaré da Galiléia é o lugar onde Jesus cresce, se fortalece e adquire sabedoria. José e Maria educam o filho longe do ambiente glorioso e sedutor do templo...
Para a Sagrada Família, morar em Nazaré significou assimilar a esperança cultivada pelo “resto de Israel”, pelo “broto das raízes de Jessé”. Significou também: não se afastar das raízes populares, do vínculo com os pobres; assumir resolutamente o caminho que leva à periferia, àqueles que estão longe; e privilegiar a encarnação no cotidiano que tece a vida normal de todas as pessoas. Jesus afunda raízes e obsorve a seiva das esperanças do seu povo a partir da periferia social e religiosa. Eis aqui uma perspectiva que os missionários jamais devem abandonar!
A convicção de Paulo e da comunidade cristã é que o amor é o vínculo da perfeição da vida cristã, e também da família. É no amor que as esposas podem ser solícitas aos seus respectivos maridos, e estes deixam de ser grosseiros com elas. É o amor que abre possibilidades para que a obediência dos filhos aos pais não atente contra a liberdade e a dignidade de ninguém, e que os pais jamais intimidem os filhos, mas os animem a caminhar rumo à maturidade solidária. É assim que nos revestimos de sincera misericórdia, bondade, humildade e mansidão, e tornamo-nos suportes uns para os outros.
Sagrada Família de Nazaré, nós te acolhemos como ambiente e proposta de encarnação e de crescimento, como manifestação do dom de Deus e resposta humana e generosa a este dom, como busca comum da vontade de Deus, ambiente de hospitalidade e amor recíproco e de construção incansável da única família do Pai. Ajuda e inspira nossas famílias a serem pequenas tendas da tua Palavra viva, escolas da comunhão e solidariedade que ultrapassam os laços de sangue e de fé, espaços de perdão e reconciliação, ensaios fugazes mas verdadeiros do Reino de Deus, no qual espelhaste tua vida. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Eclesiástico 3,3-7.14-17 * Salmo 127 (128) * Carta de Paulo aos Colossenses 3,12-21 * Lucas 2,22-40)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Reflexoes do Pe. Ceolin

Exigências concretas do amor evangélico


Amar é adaptar-se, mudar.
A falta de adaptação gera angústia, repressão. Em nosso modo de agir, arestas pontiagudas e constantes podem estar voltadas para o nosso irmão. Arestas do nosso egoísmo, inveja, ciúme, ódio, competição, dominação, etc.  Para suavizar estas arestas, é mister adaptar-se aos irmãos, pôr-se de igual para igual, deixar-se questionar por eles.
É esta a atitude adulta, madura. A criança é inadaptada. Não satisfeita em seus caprichos, chora, esperneia, atira-se ao chão, agride... E nós, tornamo-noss mal-humorados, deprimidos, amargurados. Por quê?
Uma verdadeira vida de comunidade transforma o irmão. “Como fulano mudou!...” Afirmações como essa comprovam que não só ele mudou: a fraternidade também.
Amar é respeitar-se uns aos outros.
A falta de respeito chama-se vulgarmente intriga, crítica, murmuração. Na comunidade, estas são coisas que envenenam a atmosfera. Em tal clima, ninguém confia em ninguém. Não se fala com sinceridade. Vive-se na defensiva. Quando não sabemos construir, compensamo-nos destruindo.
Amar é não julgar. Amar é não condenar. São Francisco recomendava aos seus irmãos: “Respeitem-se com silêncio!” É necessário criar uma espécie de culto ao silêncio, no sentido de não falar mal, de guardar silêncio sagrado sobre as confidências, os defeitos e a singularidade dos irmãos.
Feliz a comunidade que tem ao menos uma ou duas pessoas amadurecidas, a quem se pode confidenciar tudo, seguros de que elas tudo guardam a sete chaves, e vão à sepultura com elas... Em vez de ser um condenador, é bem melhor ser um bom condecorador.
Amar é aceitar e compreender o outro.
Isso significa assumir, elevar e redimir o irmão. O “outro” é-nos um desconhecido. Estamos sempre diante do mistério do irmão. E mistério não se discute: aceita-se, contempla-se, admira-se, adora-se!
Pode ser que exista um irmão difícil, mas isso não significa que ele seja mau. Amar é perdoar gratuitamente. E é também agradecer.
Aceitar é sair de si, colocar-se no lugar do irmão, dentro dele, vê-lo a partir dele mesmo. É considerá-lo como um presente de Deus, abrir-se a ele em forma de serviço, atenção, estima, estímulo. É admiti-lo como alguém diferente de mim.
Amar é acolher e comunicar.
Acolher é abrir no meu íntimo um espaço, um lugar para o irmão, inclusive para o irmão antipático. É abrir as portas da intimidade, franquear as portas que dão entrada ao meu próprio santuário.
Comunicar é abrirmos as portas interiores uns para os outros, é acolher-se reciprocamente. Daí nasce a confiança e, depois, a alegria fraterna, sinal evidente de uma real fraternidade. A comunicação profunda, os encontros existenciais, as relações interpessoais, sempre vão muito além das palavras.
Amar é deixar-se amar.
Quantos de nós temos medo de ser amados?! A timidez vem do complexo de inferioridade, da insegurança, dos bloqueios emocionais gerados por experiências de frustração. É preciso entender e ajudar as pessoas tímidas, sem achatá-las ainda mais.
Por sentir-se fraca, a pessoa complexada pode tornar-se autoritária e escudar-se na autoridade, e até assumir postura segura e decisões inflexíveis. E sempre se defender, mesmo através da manipulação.
Amar é formar uma família.
Só serve para a Vida Religiosa quem é capaz de construir um lar feliz, quem serve para o matrimônio; e vice-versa! Quem não sabe amar não serve nem para uma nem para a outra.
Ninguém vive sem família. Deixamos a nossa família de sangue... Já constituímos nossa nova família? Ou só temos uma família jurídica? Nossa comunidade, nossa Congergação é nossa nova família? Se não for, por quê ainda não o é?
No matrimônio casam-se duas interioridades que se projetam uma para a outra, e o resultado é a intimidade. Onde, em vez de suas interioridades, forem cinco ou dez, todas saindo de si e projetando-se mutuamente, o resultado é a fraternidade. Esta é como uma nova criatura, que nasce da fecundidade do amor, da mútua doação. E então estaremos num lar feliz...
Amar é simplesmente amar.
Isso significa, ter um coração afetuoso no trato com os irmãos (cf. Rm 12,9-10), ser amável, bondoso, carinhoso. Por quê algumas pessoas, com o passar do tempo, vão se tornando arredias e até agressivas e azedas?
O amor cura, liberta, plenifica. Faltando o amor, o que vem é a morte! Para amadurecer, a fruta necessita do calor do sol; os filhotes de aves, precisam do calor da mãe. E nós?! Por quê será que, no fim da vida, São João só pregava o amor?!

Pe. Rodolpho Ceolin msf

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Natal: e se fizéssemos assim?!

DECRETOS DE NATAL
Frei Betto
Fica decretado que, neste Natal, em vez de dar presentes, nos faremos presentes junto aos famintos e excluídos, como propõe o papa Francisco. Papai Noel será malhado como Judas e, lacradas as chaminés,abriremos corações e portas à chegada salvífica do Menino Jesus.
Fica decretado que encantaremos as crianças de mistérios ao professar o Deus que se fez homem entre nós. Não mais recorreremos ao velho barbudo de sorriso ridículo, e sim aos relatos bíblicos que narram o mais singular de todos os fatos históricos: em Belém, Deus se tornou humano para que possamos nos tornar divinos.
Por trazer a muitos mais constrangimentos que alegrias, fica decretado que o Natal não mais nos travestirá no que não somos: neste verão escaldante, arrancaremos da árvore de Natal todos os algodões de falsas neves; trocaremos nozes e castanhas por frutas tropicais; renas e trenós por carroças repletas de alimentos não perecíveis; e se algum Papai Noel sobrar por aí, que apareça de bermuda e sandália.
Fica decretado que, cartas de crianças, só as endereçadas ao Menino Jesus, como a do meu sobrinho Lucas, de 6 anos, que escreveu a ele convencido de que Caim e Abel não teriam brigado se dormissem em quartos separados; e propôs ao Criador ninguém mais nascer nem morrer, e todos nós vivermos para sempre.
Fica decretado que as crianças, em vez de brinquedos e bolas, pedirão bênçãos e graças, abrindo seus corações para destinar aos pobres todo o supérfluo que entulha armários e gavetas. A sobra de um é a necessidade de outro, e quem reparte bens partilha Deus.
Fica decretado que, pelo menos um dia, desligaremos toda a parafernália eletrônica, inclusive o telefone celular e, recolhidos à solidão e ao silêncio, faremos uma viagem ao interior de nosso espírito, lá onde habita Aquele que, distinto de nós, funda a nossa verdadeira identidade. Entregues à meditação, fecharemos os olhos para ver melhor.
Fica decretado que, despidas de pudores, as famílias farão ao menos um momento de oração, lerão um texto bíblico, agradecerão ao Pai de Amor o dom da vida, as alegrias do ano que finda, e até dores que exacerbam a emoção sem que se possa entender com a razão.
Fica decretado que arrancaremos a espada das mãos de Herodes e nenhuma criança será mais condenada ao trabalho precoce, violentada, surrada ou humilhada. Todas terão direito à ternura e à alegria, à saúde e à escola, ao pão e à paz, ao sonho e à beleza.
Fica decretado que, nos locais de trabalho, as festas de fim de ano terão o dobro de seu custo convertido em cestas básicas a famílias carentes. E será considerado grave pecado abrir uma bebida de valor superior ao salário mensal da pessoa que a serve.
Como Deus não tem religião, fica decretado que nenhum fiel considerará a sua mais perfeita que a do outro, nem fará rastejar a sua língua, qual serpente venenosa, nas trilhas da injúria e da perfídia. O Menino do presépio veio para todos, indistintamente, e não há como professar que ele é “Pai Nosso” se o pão também não for de todos, e não privilégio da minoria abastada.
Fica decretado que toda dieta reverterá em benefício de quem tem fome, e que ninguém dará ao outro um presente embrulhado em bajulação ou mera formalidade. O tempo gasto em fazer laços seja muito inferior ao dedicado a dar abraços.
Fica decretado que as mesas de Natal estarão cobertas de afeto e, dispostos a renascer com o Menino, trataremos de sepultar iras e invejas, amarguras e ambições desmedidas, para que o nosso coração seja acolhedor como a manjedoura de Belém.

Fica decretado que, como os reis magos, haveremos de reverenciar, com a prática da justiça, aqueles que, como Maria e José, foram excluídos da cidade e, como uma família sem terra e teto, obrigados a ocupar um pasto, onde brilhou a esperança.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Palavras de salvaçao (19)

“Eis que já veio a plenitude dos tempos, em que Deus mandou à terra seu Filho!” (cf. Gl 4,4)Bem que estamos precisando da visita, prá ficar, de um Sol cujo brilho seja a Justiça e a Compaixão, pois a noite da indiferença e da empáfia nos ameaça constantemente enquanto Igrejas e Humanidade. Sem cair na tentação do pessimismo, precisamos admitir que ainda há muita gente – indivíduos e povos – que jaz nas sombras ameaçadoras da morte, física ou social. E a meta da Paz, que às vezes nos parece uma tênue luz no fim do túnel, não consegue seduzir muita gente, nem fecundar e dirigir nossos passos tortuosos. Com o velho Zacarias, que abre os ouvidos e solta a língua diante do frágil fruto da sua ancianidade, diante dos olhos surpresos e jubilosos de Isabel e de Maria, anunciamos que Deus fez surgir para nós uma força libertadora em forma de crianças, usando de misericórdia para conosco. Assim, sustentados pela frágil força desses santos Meninos, sentimo-nos livres do medo que nossos inimigos nos impunham: nossas mãos, nossos pés e nossa língua se soltam e somos impulsionados a servir, em santidade e justiça, todos os dias, o Reino que se insinua em pequenos sinais, nas grutas, periferias, estrebarias, vales e montanhas... E, como Natã ensina a Davi, somos dispensados de construir templos, pois nosso Deus gosta mesmo é de morar conosco. Mas continuamos pedindo, confiantes, porque de fato necessitamos: “Apressai-vos e não tardeis, Senhor Jesus, para que a vossa chegada renove as forças dos que confiam em vosso amor.” (Itacir Brassiani msf)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

FESTA DO NASCIMENTO DE JESUS CRISTO (ANO B – 25.12.2014)

No Presépio vemos a Palavra, a Vida, a Graça e a Glória!

A festa da noite de ontem se prolongou madrugada adentro, e na manhã de hoje tudo está mais silencioso. Aproveite-mos, pois, para compreender o sentido do Natal colocando entre parênteses os apelos e ofertas do mercado e pedindo ajuda aos primeiros cristãos. Por trás do hino do do Evangelho segundo João e dos primeiros versículos da carta aos Hebreus está uma experiência concreta e uma profissão de fé amadurecida numa busca longa e intensa, em meio a conflitos e perseguições. O coração desta Boa Notícia é a manifestação da glória de Deus na vulnerabilidade da carne humana.
Tudo parte da gruta de Belém e nela se sustenta. Mas não menos viva é a memória da vida inteira de Jesus, seu anúncio e sua ação polêmica e libertadora, sua condenação e morte na cruz dos proscritos. João tem isso presente quando nos fala da Palavra que estava junto de Deus e que era Deus, que é a Luz que brilha e vence as trevas, que se faz Carne e vem habitar entre nós, que torna visível o Deus invisível. Na carta aos Hebreus, a comunidade cristã dá seu testemunho de que em Jesus, nascido na pobreza e perseguido pelos poderes políticos e religiosos, Deus nos falou de modo definitivo.
Os conceitos e imagens que aparecem no poema-resumo do evangelho de João são vários e complementares. Prestemos atenção a quatro deles: Palavra, Vida, Graça e Glória. Enquanto Palavra, Jesus é a exteriorização da interioridade de Deus, e esse mistério não é uma lei, uma advertência ou uma doutrina, mas uma boa notícia que produz felicidade porque gera e sustenta processos de liberdade. A Palavra de Deus assume a carne humana e a vida histórica e corporal de Jesus como tenda na qual os homens e mulheres podem encontrar, tocar e acolher o próprio mistério de Deus.
O mesmo Jesus, filho de Maria e de José, que nasceu em Belém e viveu como carpinteiro em Nazaré, que reuniu discípulos e foi por eles abandonado em Jerusalém, é portador da Vida plena e eterna,  do bem viver que os povos buscam sem descanso. Nele, o bem viver ou a Vida, é revelada e doada como comunhão profunda com o mistério de Deus, comunhão solidária com todas os pobres e as vítimas e comunhão graciosa com todas as criaturas. Em Jesus de Nazaré a Vida mostra sua cara e sua força: na sua vida não há lugar para o egocentrismo que amordaça, domina e mata.
Na pessoa e no caminho histórico de Jesus de Nazaré, vislumbramos também a Graça de Deus, graça manifestada e encarnada. Nele fica claro que Deus não é um cobrador de dívidas ou um juiz frio e calculista, mas um irmão e um hóspede que encarna a gratuidade e pelo dom. A lei e a cobrança implacáveis vêm das velhas instituições, mas a Graça e a Verdade nós as recebemos por Jesus Cristo. Ele é a gratuidade de Deus em pessoa! Por isso Paulo pode escreves aos Hebreus: “Ele é o explendor da glória do Pai, a expressão do seu ser.”
Em hebraico, a palavra glória (kabôd) expressa a importância e o valor interior de uma pessoa, que se revela nas ações e requer o respeito dos outros. Por isso, manifestar a glória de Deus significa testemunhar sua ação salvífica e libertadora, reconhecer sua santidade nos acontecimentos históricos.  A metáfora da luz e da glória é frequentemente usada para materializar a glória de Deus, como aparece no relato do nascimento de Jesus (cf. Lc 2,9).  E Jão afirma: “Nós vimos a sua (da Palavra feita carne) glória, glória como do Filho único da parte do Pai”.
A tradição cristã afirma com ousadia que a glória de Deus se manifesta de modo incomparável e insuperável na crucifixão de Jesus, na sua fidelidade radical e amorosa à humanidade oprimida. Sendo a cruz o desfecho de uma inteira vida de amor, podemos dizer que na humanidade de Jesus vemos a glória de Deus. E os discípulos de Jesus são glorificados na medida em que participarm do dinamismo do seu amor ou paixão pelo mundo. Eis nosso brilho, nosso peso, nosso valor. Mas tudo isso não pode ser sermão monótono, doutrina abstrata ou ideologia escravizadora...
Diante da tua pequenez gloriosa, Deus Menino, ajoelhamo-nos eternamente agradecidos. É desta tua glória que todos necessitamos. É este brilho que todos buscamos de forma inconsciente e quase desesperada. É desta Vida que se expande e multiplica que temos fome. Queremos que esta graça nos plenifique e nos torne benfeitores da humanidade. Tu nos ensinas que é armando a tenda dos nossos sonhos e palavras em meio à humanidade peregrina que alcançamos a liberdade e a plena realização. Obrigado por esta lição pronunciada na nossa carne. Queremos ser filhos desta luz. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profeta Isaías 52,7-10 * Salmo 97 (98) * Carta aos Hebreus 1,1-6 * Evangelho de João 1,1-18)

FESTA DO NASCIMENTO DE JESUS CRISTO (ANO B – 24.12.2014)

Jesus Cristo é a Paz de Deus para todas as criaturas.

Percorremos as quatro semanas vigiando, preparando, desgustando e escutando. O dia chegou e estamos com o coração leve, acolhedor e generoso. Com os olhos limpos e os ouvidos abertos, estamos prontos a reconhecer e acolher a Presença de Deus que se manifesta do seu próprio jeito: na carne humana, nas estrebarias e periferias, no silêncio de um inocente que nos olha nos olhos e desperta em nós o que há de mais nobre: a capacidade de se enternecer e de cuidar; a generosidade de fazer-se dom e presente; o dinamismo que vence o fechamento em nós mesmos e na fugacidade do presente...
O nascimento de Jesus ocorre no mundo dos pobres, à margem dos poderes romanos e judaicos, na periferia daquele mundo que dizia garantir a paz recorrendo ao medo. Os decretos oficiais põem José e Maria outra vez na estrada: garantem a cobrança dos impostos mas não a tiram a Família de Nazaré de sua pobreza. Aquela humilde família percorre um caminho em direção às raizes das esperanças populares e messiânicas: a família e origem do pastor Davi. Em Belém, os proscritos pastores põem sua atenção nesta familia de nela identificam a esperança que os encoraja e alegra.
Para os pastores, naquela estrebaria ignota há mais luz que no brilho de Jerusalém e na sabedoria da Lei. Os anjos, mensageiros de Deus, não estão presos ao Templo, mas junto àqueles que, estando longe de tudo, vigiam os rebanhos, inclusive à noite. E anunciam a boa noticia: o Salvador nasceu na “periferia do mundo”. Indicam o sinal de que isso aconteceu: um bebê deitado numa cocheira para animais, envolto em pobres panos. O sinal da “grande alegria para todo o povo” não são os anjos, nem a luz que os envolve, nem a música melodiosa que ressoa no céu; é a fragilidade de uma criança!
Para aqueles que crêem, o nascimento de Jesus é mais que um acontecimento do passado. Não se resume também a uma revelação que aponta para uma dimensão “sobrenatural” da vida ou a  para um evento que tem sentido apenas para o coração. Com a ajuda do profeta Isaías, descobrimos que a encarnação do Filho de Deus refulge como luz para quem caminha na escuridão, como a alegria da colheita para os camponeses, como a vitória dos fracos sobre o medo e a violência. O Natal é a passagem da opressão à liberdade, do medo à confiança, da dependência à emancipação.
O romantismo e a beleza da música nos envolve e nos inspira: “Pobrezinho nasceu em Belém. Eis na lapa Jesus, nosso bem. Dá-nos paz, ó Jesus!” Pois é verdade que o natal é a festa da paz. Paz entre as nações. Paz entre as Igrejas. Paz nas comunidades. Paz entre nas famílias. Paz na relação entre os seres humanos e as demais criaturas. Paz entre o céu e a terra. Paz onde há guerra e paz onde falta confiança, no norte e no sul, no oriente e no ocidente. Os Papas nos lembram que a paz se chama desenvolvimento, e que o caminho para a paz é a superação da pobreza através da justiça.
Nossos povos originários também nos ensinam com sabedoria que a paz não se reduz ao equilíbrio de forças políticas ou a um sentimento interior. A paz se situa no coração da utopia ancestral de bem viver (sumak kawsay), que se realiza na convivência harmoniosa e equilibrada da pessoa com sua dimensão de interioridade e exterioridade, das pessoas entre si e das pessoas com a natureza como um todo. O bem ou o mal de uma espécie ou parte é sempre o bem ou o mal do conjunto todo. Infelizmente, dos centros de poder, mais cedo ou mais tarde, quase sempre nascem e se expandem crises perseguçiões.
A paz que não tem fim passa também pela comunidade eclesial. Nela nos encontramos com pessoas diferentes, descobrimos que somos membros diversos num único corpo e escutamos a Palavra sempre vive e criadora de Deus. Uma Palavra que nos confirma como filhos e filhas que não perdem essa dignidade por motivo nenhum. Uma Palavra que nos ajuda a compreender sempre de novo que a divindade se esconde na humanidade e com ela se identifica, nos pobres que foram acostumados a calar e sofrer. O caminho da paz passa por Belém, pela estrebaria, pela manjedoura.
Deus Menino, vivo na nossa frágil carne, filântropo do gênero humano: viemos te procurar e te encontramos repousando sob o olhar humano e cuidadoso de um casal humilde e surpreso. Parece que te faltam tantas coisas, mas, pobre, nos ensinas a bem viver. Por isso, o que nos resta é apenas trocar presentes: tu nos dás a felicidade, a dignidade e a solidariedade que há muito perdemos nos corredores dos shopings, e nós te oferecemos a palha da nossa pequenez, a luz do nosso olhar e o calor que ainda resta nas nossas entranhas e no meio das pessoas que amamos. Acolhe nossos dons... Amém! Assim seja!

Itacir Brassiani msf
(Profeta Isaías 9,1-6 * Salmo 95 (96) * Carta a Tito 2,11-14 * Lucas 2,1-14)

Palavras de salvaçao (18)

“Nascerá para nós um pequenino: ele será chamado Deus e forte...” (Is 9,6) Esta afirmação do profeta, antífona de entrada da liturgia de hoje, é paradoxal: como é que uma criança pode ser chamada Deus, e como é que um pequenino pode ser apresentado como forte? Mas o Deus em quem os cristãos acreditamos é assim mesmo: absolutamente paradoxal. O profeta Malaquias (cf. 3,1-24) parece se enganar, ao menos ao descrever os traços do Messias esperado: ele seria como o fogo da forja e o sabão das lavadeiras, como um dominador ou um chefe dos exércitos; ninguém ousaria enfrentá-lo ou resistir a ele; ele nos purificaria e refinaria como ouro e prata na fornalha, e então seríamos aceitáveis aos olhos de Deus... Não é por nada que a maioria dos hebreus do início da nossa era, inclusive o próprio João Batista, precursor do “dia do Senhor, grande e terrível”, teve dificuldades de reconhecer no carpinteiro de Nazaré o Messias esperado, pobre e justo. Como nós, que ainda temos a tentação de depositar nossas esperanças em líderes solitários e potentes, chamem-se eles Obama, Putin, Aécio, Chaves ou Dilma... Os caminhos revelados por Deus são outros: passam por Nazaré, por Zacarias e Isabel, por Maria e José, pela estrebaria de Belém... Estando a dois dias do Natal, aprendamos com a velha e honrada Isabel a defender teimosamente nossas utopias e experiências e a dar nome àquilo que cremos: Deus é compaixão e misericórdia, e fica melhor nas fraldas de um bebê que na farda e na arrogância e na violência dos chefes de exércitos! Creio que é esta experiência, profunda e desconcertante, que pode realmente soltar nossa língua e esuscitar a palavra que desvela o sentido das coisas e dos acontecimentos. Alegremo-nos com e como Isabel e Zacarias, e espalhemos esta notícia usando todos os meios que temos. E façamo-lo sem demora! ”Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir, eu entrarei e cearemos juntos...” (Ap 3,20)(Itacir Brassiani msf)

Natal com amor

Hino ao Amor em tempos de Natal

Se eu decorar minha casa perfeitamente com luzes e bolas brilhantes,
mas não demonstrar amor  pela minha família,
serei somente um competente decorador.

Ainda que eu me escravize na cozinha fazendo doces e biscoitos,
prepare uma comida requintada e organize uma bela mesa,
se eu não demonstrar amor pela minha familia,
serei somente um bom cozinheiro.

Ainda que eu trabalhar dando sopa para os pobres,
visitar o asilo de idosos e doar tudo que tenho para caridade,
se eu não demonstrar amor pelo meu próximo,
isso de nada me adiantará.

Se eu costurar e tricotar,
atender festas natalinas,
cantar com o coro a cantata de Natal,
mas não concentrar-me em Cristo,
terei perdido o objetivo.

O amor pára de cozinhar para abraçar os filhos e filhas.
O amor pára de decorar para beijar a namorada(o) ou esposa(o).
O amor é gentil: mesmo quando está apressado e cansado,
sempre encontra tempo para auxiliar alguém.

O amor não inveja a casa dos vizinhos que tem porcelanas,
talheres de prata, toalhas bordadas
e carro novo na garagem.

O amor não grita com os filhos ou com a namorada(o) ou esposa(o)
para não atrapalharem o seu trabalho.

O amor não dá presentes somente para aqueles que podem retribuir,
mas se alegra em dar para os que nada têm.

O amor carrega todas as coisas, acredita em todas as coisas,
espera e suporta todas as coisas.

O amor nunca falha!
Videogames se quebram,
telefones celulares são superados,
colares de pérolas se perdem,
carros ficam velhos,
mas o dom do amor  permanecerá eternamente.


(Inspirado na 1ª. Carta aos Coríntios 13,1-13)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Mistérios do Natal

O VERBO DE DEUS CRIANÇA

E eis-nos novamente aqui, como todo ano, esperando por uma criança que vai nascer. Algo tão usual, tão ocorrente e recorrente. Pelas ruas, as mulheres andam, caminham e passeiam com suas barrigas cheias de vida que pulsa; cheias de um embrião que cresce e vai adquirindo a forma humana, com os olhos claros da mãe, a testa larga do pai, o temperamento forte da família... Nas maternidades, hospitais ou nas casas, o tempo vem a termo e das barrigas, antes grávidas, nasce a criança que todos esperavam. E há choro, lágrimas, gritos de dor e de alegria.
E, no entanto, aqui estamos nós, arrumando presépios, preparando ritos, distribuindo votos e presentes... como se fosse a coisa mais extraordinária do mundo. Uma criança que nasce... tão ordinário e, ao mesmo tempo, tão extraordinário... parece que tudo começa de novo... recomeça... volta ao começo, àquele começo que no final do século I da nossa era um evangelista descreveu assim: “No Princípio era o Verbo...”
Ora, o que tem algo tão corriqueiro e usual como o nascimento de uma criança a ver com essa sofisticada redação? Parece-me, ao contrário, que tem tudo a ver. Porque o evangelista continua: “E o Verbo estava junto de Deus. E o Verbo era Deus.” E, não satisfeito, diz mais adiante: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.”

Parece que o assombro cresce e a questão se complica. Pois Aquele que era desde o princípio, que estava junto de Deus e era Deus...como entra no tempo e se faz carne? Como? Da maneira como todos nós entramos no mundo: no ventre de uma mulher, a semente divina cresceu, desenvolveu-se e quando se consumaram os dias de sua gestação, a mãe deu à luz seu filho.
Assim entrou Deus na história: criança, bebê, rompendo caminho pelo corpo da mãe afora, vindo à luz, chorando para abrir os pulmões, mamando para alimentar-se. Uma criança... uma simples criança. Aos reis magos que perguntaram como reconheceriam o sinal de Deus de que o Messias havia chegado, foi-lhes dito apenas este fato tão banal: encontrareis uma criança... encontrareis um menino envolto em faixas e deitado em uma manjedoura.
Um bebê que não sabe alimentar-se sozinho... não sabe valer-se sozinho... precisa dos outros para tudo... E, sobretudo, que não sabe falar. Apenas chorar. Mas como? O Verbo de Deus não sabe falar? A Palavra que foi pronunciada sobre o caos e criou o mundo não fala? Por quê? Por que não pode? Por que não sabe? Sim, não pode, não sabe, pois se entrou na carne humana, segue todo o caminho que esta carne segue para seu crescimento e desenvolvimento. E, assim, o Verbo que foi pronunciado sobre tudo... não sabe falar... ainda.
Mais tarde aprenderá a falar. Será poeta de parábolas, que ensinarão muitos a viver. Todo o povo permanecerá suspenso do que sai de seus lábios. Falará, pregará, dirá palavras de alegria, de esperança, de alívio, de consolo para tantos e tantas... Mas, no momento, não fala. Alimenta-se, chora, dorme... vive a rotina de um recém-nascido, que deve ser introduzido na vida pela mãe que o gerou, pelo pai que o acompanha, pelos outros que cruzarão seu caminho.
Por isso, esperamos com tanto ardor por essa criança. Ela é semelhante a todas, porque não quer diferenciar nem destacar-se em nada. Quer justamente assumir a condição humana e aprender a ser humano. Por isso, aprenderá a falar... a andar... a mover-se... a amar... a sofrer... a viver enfim. E crescerá e se tornará adulto... e entenderá sua missão... e se entregará a ela até o fim.
A festa do Natal tem em seu centro uma criança... impotente, indefesa, pobre, frágil, vulnerável. Diante dela nos inclinamos, atentos, humildes, reverentes... pois nela pulsa o mistério maior que é o mistério da vida. E, no caso desta criança, da vida que nos salvará da morte e nos levará ao país da alegria pura e sem término. Nesta criança é Deus mesmo que aprende a ser humano.
Enquanto isso, contemplamos as mulheres que passam com suas barriguinhas redondas e cheias de vida; e as crianças que choram, mamam, dormem e vivem intensamente; e as crianças que não puderam nascer; ou as que nasceram e não puderam viver; e as crianças que nascerão e a todos nos dirão palavras de vida. Em toda criança, já nascida ou esboçada no ventre da mãe, o Natal acontece. O Verbo de Deus se faz criança. E em seu silêncio bendito... fala.
Que possamos acolhê-lo em nosso colo, em nosso lar, em nossa vida. Que seu mistério de graça e pobreza nos conquiste o coração. Que aceitemos que quem nos salva não é um poderoso e violento chefe militar, ou um rei coroado e cheio de poder, mas uma criança indefesa, que ainda não sabe falar, mas cuja pureza nos ensina o que é o amor.

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Palavras de salvaçao (17)

“Minha alma glorifica o Senhor... O poderoso fez em mim grandes coisas!” O cântico profético e alegre de Maria na casa de Isabel é um convite a entrar nessa exultação, pois a misericórdia demonstrada em favor do seu povo e de Maria se estende de geração em geração. Muitos séculos antes da Menina de Nazaré, Ana, a mãe de Samuel, já o havia comprovado pessoalmente. Tendo atravessado um longo período de estirilidade física e humilhação social, e depois de se derramar em lágrimas no templo sob o olhar desconfiado e condenatório do sacerdote, ela se sente em condições de elevar a cabeça e desafiar seus rivais. E canta: “O arco dos fortes foi quebrado, mas os fracos se vestiram de vigor. Os saciados se empregaram por um pão, mas os pobres e famintos se saciaram. Muitas vezes deu a luz a que era estéril, mas a mãe de muitos filhos definhou. O Senhor ergue do pó o homem fraco, e do lixo ele retira o indigente, para fazê-los assentar-se com os nobres num lugar de muita honra e distinção” (1Sam 2). Partindo da condição feminina, humilhada numa sociedade patriarcal, ela anuncia uma profunda revolução social, cujo sinal é a afirmação concreta da dignidade dos pobres. Os acontecimentos e esperanças celebrados no Natal de Jesus estão longe de se resumirem a expectativas de consumo ou de “paz no coração”. O “velhinho rechonchudo” fica meio sem lugar. Não há como esperar e celebrar de forma cristã o nascimento de Jesus sem inseri-lo no teimoso e generoso sonho de uma revira-volta na história, de uma profunda transformação social, inclusive nas questões de gênero. E eu, sentado meditando a Palavra de salvação sentado confortavelmente na poltrona, fico a me perguntar: Como posso evitar a tentação de propor aos amigos e leitores algo que não vivo pessoalmente? O que preciso fazer para entrar no horizonte de Ana e de Maria e viver o Natal em chave utópica? “Fazei, Senhor, que ao proclamar humildemente o mistério da encarnação, entremos em comunhão com o Redentor”. Por isso, acolho como dirigida a mim e a meu modo o apelo do salmista, inserido como antífona de entrada na liturgia de hoje: “Ó portas, levantai vossos frontões! Levantai-vos portas eternas: que ele entre, o peregrino glorioso!”

(Itacir Brassiani msf)

domingo, 21 de dezembro de 2014

Natal: é preciso compreender melhor

Natal: comemoramos, mas não entendemos
Conhecemos a origem da festa cristã do Natal. Ela remonta aos tempos da chegada do cristianismo à capital do império romano. Ao chegar a Roma os cristãos encontram, por volta do dia 25 de dezembro, uma festa ao deus Sol. Tratava-se de uma celebração para comemorar o solstício de inverno do polo norte. A partir dessa data os dias começavam a ser mais longos, o frio ia diminuindo, o calor aumentando. A terra ia ficando aquecida e favorecendo o plantio. Numa tentativa de inculturação, o cristianismo vai substituindo essa festa pela comemoração do nascimento de Jesus, considerado a “luz do mundo”, ou “a luz da vida” (Jo 8,12).
Embora significativa, a festa do Natal não entrou de imediato no calendário litúrgico cristão, voltado inicialmente, e quase que exclusivamente, para a celebração da Páscoa, memorial da morte e da ressurreição de Jesus. Com o passar do tempo a celebração do nascimento de Jesus foi sendo misturada com a comemoração de São Nicolau, santo que teria vivido no IV século, um velhinho bondoso que, segundo a tradição, distribuía esmolas e presentes para as pessoas, especialmente para as crianças. Aos poucos acontece a “noelização” do Natal, ou seja, a substituição do Menino Jesus por Papai Noel. A comemoração do nascimento do Menino Jesus cede lugar ao velhinho de barbas brancas que, na noite de Natal, sai deslizando pela neve com o seu trenó, a fim de levar presentes para as pessoas.
De acordo com uma tradição, São Francisco de Assis teria feito uma tentativa de resgate do significado cristão do Natal, armando o primeiro presépio da história. Ele queria expressar plasticamente a singeleza, a pobreza, a ternura e a humildade do Filho de Deus. Buscava, assim, retornar às fontes evangélicas e dar outro sentido àquela celebração. Mas, também depois disso, a celebração do Natal não conseguiu encarnar na prática o que ela devia significar. Os presépios se sofisticaram e aquela que deveria ser a festa da singeleza do nascimento do Filho de Deus virou uma comemoração qualquer, praticamente desvestida do seu sentido cristão mais profundo.
Com a chegada do capitalismo deu-se a comercialização do Natal. Este passou a ser uma festa do consumo. Houve um distanciamento total do Menino Jesus, o qual foi substituído por personagens e símbolos insignificantes e sem sentido. No hospital onde estou fazendo tratamento, por exemplo, já foi feita a decoração do Natal. Não há nenhum símbolo e nenhuma figura que lembre aquela criança que, segundo o evangelho de Lucas, teria nascido pobre, numa manjedoura, na periferia de uma cidade periférica da periferia do império romano. Uma rede de lojas aqui do Distrito Federal está fazendo uma propaganda intitulada “Natal sem estresse”. As pessoas podem ficar despreocupadas, pois essa rede possui mais de cinco mil produtos à disposição da clientela e ninguém precisa ficar estressado, pois as lojas vão garantir produtos em quantidade suficiente para todos fazerem suas compras natalinas.
Ora, tudo isso mostra que nós celebramos o Natal, mas não entendemos nada da sua mensagem cristã. Num país como o Brasil, onde os que se declaram cristãos chegam a quase 90% da população, isso é muito triste e revela a fragilidade desse cristianismo, incapaz de entender e, sobretudo, de viver de sua essência. Ao mesmo tempo revela a responsabilidade desses cristãos, particularmente de suas lideranças, diante do que acontece. De fato, a comercialização do Natal é apenas um dos aspectos de um cristianismo que, em nosso país, foi perdendo progressivamente a sua capacidade profética de sacudir as consciências, principalmente dos próprios cristãos.
Recentemente o teólogo Renold Blank, através de seu livro Deus e sua criação (Paulus, 2013), nos ajudou a repensar o Natal numa perspectiva mais cristã, ou seja, mais evangélica. Partindo do dado fundamental da fé, o qual afirma que, através de sua encarnação, Jesus nos revelou a verdadeira identidade de Deus (Jo 14,9), Blank nos convida a refazer nosso modo de celebrar o Natal. Diz ele: “Somente na religião cristã veneramos um Deus que se revela na pequenez de uma criança, em sua impotência e fraqueza, mas também em sua carência de amor. Costumes natalinos desenvolvidos ao longo de séculos expressaram esse saber em imagens que são, em parte, folclóricas. Todas elas, porém, permaneceram, por assim dizer, na superfície do evento” (p. 189).
Eis a melhor definição para a atual celebração natalina, mesmo por parte dos cristãos: pura superficialidade. E isso por várias razões. Em primeiro lugar porque, ao fomentar o consumo, esse tipo de celebração se distancia daquele que é a razão de sua existência, o Menino Jesus, nascido pobre e simples na periferia de uma cidade insignificante. Em segundo lugar, porque ao se apresentar como uma criança totalmente desprotegida, necessitada de tudo, inclusive de carinho e de amor, o Natal deveria revelar a verdadeira face de Deus. Não um Deus onipotente, poderoso, castigador, dominador, mas um Deus humilde e simples e que quer ser venerado assim. Mas os cristãos não entenderam até hoje esta lição do Natal e continuam adorando um Deus distante, poderoso e até mesmo aterrorizador. Um Deus general, controlador, fiscal, e que fica cobrando de nós um monte de dívidas. Por fim, o Natal se tornou uma festa superficial porque não afeta os nossos relacionamentos. Há troca de presentes, congratulações, lágrimas etc., mas deixamos tudo como está. Como cristãos não nos importamos como o que está acontecendo. Não nos importamos com as injustiças, com a miséria, com as desigualdades, com os males que afetam uma sociedade, que se orgulha de ser cristã.
Blank afirma que no Natal, “Deus mostra que ele não está interessado no poder. Em vez disso, ele vai ao encontro dos seres humanos no sorriso de uma criança. De uma criança, porém, ninguém tem medo [...]. Um Deus que se manifesta na forma de uma criança necessitada de proteção, esse Deus pode ser amado porque não precisamos ter medo dele” (p. 190-191). Disso se conclui que o verdadeiro espírito de Natal não está nas lojas, nas ceias e nem mesmo nas celebrações sofisticadas ou, às vezes, tediosas que se fazem nas igrejas. Celebrar o Natal de verdade, dentro da dinâmica da encarnação de Jesus, é amar um Deus que rejeitou todas as formas de poder e de dominação. Mas é, acima de tudo, renunciar a todos os “mecanismos do poder, seja no plano político, seja no plano religioso ou privado. Diante de uma história secular de poder do cristianismo, isso deve ser ressaltado com toda clareza” (p. 191-192).
O Natal nos revela que Deus não quer ser visto, venerado, adorado como rei potente, todo-poderoso, vingativo, castigador, rico e amigo dos ricos. Ele quer ser acolhido, amado, adorado como um Deus fraco, que escolhe a fraqueza e os fracos; que escolhe o caminho da insignificância, da pequenez, da pobreza. Ele quer ser visto pelos cristãos e pelas cristãs como o Deus dos pobres, dos pequenos, dos humildes e dos simples. Um Deus-criança que suscita ternura, desperta carinho, alegria e do qual não é preciso ter medo.
O fato de ainda continuarmos vendo Deus de outra forma, e vivendo de maneira diferente daquela através da qual ele se manifestou, prova que não entendemos nada do Natal. Celebramos, gastamos, enfeitamos ruas e casas, mas não percebemos a mensagem essencial desta festa. Revela a nossa responsabilidade de cristãos e de cristãs em reverter essa situação. Precisamos retornar com urgência ao espírito original do Natal. Àquele verdadeiro espírito que o evangelista Lucas quis nos comunicar quando registrou que o Filho de Deus foi colocado “na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro de casa” (Lc 2,7).
Precisamos fazer o Natal voltar a ser a festa do nascimento do Menino Jesus. Precisamos desvestir o Natal de toda caricatura neoliberal, comercial e exploradora. Os cristãos e as cristãs precisam voltar a ser discípulos do menino de Belém. Um bebê pobre, indefeso, carente, pequeno e bem humano. Precisam mudar suas concepções e suas experiências do Deus de Jesus. Melhor dizendo, os cristãos e as cristãs precisam mudar de deus, deixando de ser idólatras, adoradores de um falso deus. Nós, como o menino de Belém, precisamos aprender a amar de verdade, pois somente o amor verdadeiro revoluciona o espírito do Natal. É claro que isso não é fácil, pois, “de repente fica menos fácil cantar os antigos hinos de Natal, sem começar ao mesmo tempo a amar as pessoas, abrir-lhes o coração e responder suas perguntas com amor” (Blank, p. 195).
Não podemos celebrar o Natal sem responder às grandes perguntas que a humanidade de nossos dias, especialmente o mundo dos pobres e excluídos, coloca para o cristianismo. Não há outro caminho para devolver ao Natal o seu espírito cristão senão aquele de um Deus incômodo que nos desestabiliza por completo ao se apresentar como uma criança que “toma inequivocamente partido pelos escravos e contra o sistema de dominação político-econômico” (Blank, p. 199). Um Deus que, na manjedoura de Belém, opta decididamente pelos derrotados, pelos excluídos e pelos marginalizados.

José Lisboa Moreira de Oliveira