terça-feira, 31 de março de 2015

TRÍDUO PASCAL: PAIXÃO E MORTE DE JESUS (ANO B – 03.04.2015)

“Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão!”

O comércio não sabe o que fazer com esta sexta-feira, e um clima estranho envolve pessoas e cidades. Até as pessoas mais indiferentes intuem que algo inexplicável aconteceu e acontece nesse dia. Uma multidão se reúne nos templos. É gente experimentada na dor, gente que percebe que neste dia se revela o que há de mais profundo no ser humano e que há de mais belo no coração de Deus. O mistério do mal atinge sua força mais terrível. A humanização de Deus atinge seu ponto mais luminoso. A entrega do ser humano a Deus se expressa em seu grau máximo.
Como todos os escravos e servos, Jesus não tem aparência e beleza que possa atrair os olhares. Ele é como uma raiz em terra seca, como um indivíduo do qual escondemos o rosto. “Não parecia gente, tinha perdido a aparência humana.” Mas sua vida é semente, tem futuro! O Servo fiel não perde sua vida, pois a dá livremente e, por isso, prolonga sua existência. Ele carrega nas costas a exclusão e o desprezo de muitos, e, por isso, a luz brilha em seu rosto e em todo seu corpo de servo. Ele confia seu destino nas mãos daquele que é o segredo da vida e assim vive naqueles que servem.
Nós conhecemos muito bem as tramas e traições que levaram à prisão e condenação de Jesus. São opções e atitudes que revelam o mistério da iniquidade e sua força nas pessoas e nas estruturas sociais. É um mal nada abstrato, que se expressa nos costumes, nas leis, nos medos, em todas as formas de ambição. Um mal que assume feições de cinismo, como quando as autoridades religiosas, tendo decidido matar Jesus, não entram no palácio do governador para não se tornrarem impuras...  É este inexplicável mistério da iniquidade que faz com que seja noite às três horas da tarde...
Jesus não parece disposto a defender-se. Tem cosciência de que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para tornar palpável e digno de crédito o amor fiel de Deus pelas pessoas negadas em sua dignidade. Pilatos manda torturá-lo e, depois, o apresenta ao povo: “Eis o homem!” Fixemos o olhar neste personagem que realiza em grau pleno a vocação de todo ser humano. Nele descobrimos que a pessoa humana atinge sua plenitude quando não recua no propósito de dar a vida e de servir, quando não abre mão da solidariedade com as pessoas negadas em sua dignidade.
O ser humano maduro e liberto não é o ‘amigo de César’, a pessoa age sem autonomia, nem a autoridade religiosa, que ordena por medo, mas Aquele que transcende os interesses individuais e se põe a serviço de Deus e do seu projeto. Por isso, do alto da cruz, Jesus diz que, no seu corpo feito dom, a criação chega ao seu ápice: “Tudo está consumado.” Nele Deus chega ao máximo de si mesmo e se supera no esvaziamento. Nele o ser humano vence todos os limites e se faz dom e semente fecunda nas mãos de Deus. Nada há de mais amável e desejável que isso! Bendito seja Deus!
 “O que é que vocês estão procurando?”, perguntou Jesus aos primeiros discípulos (Jo 1,38). E hoje, nesta sexta-feira da paixão, o que buscamos nós? Aqui só é licito buscar forças para caminhar na fé e perseverar no seguimento de Jesus, o amigo e servidor da humanidade. Do alto da cruz ele se dirige a Maria e lhe confia João: “Mulher, eis aí teu filho!” E, dirigindo-se ao discípulo, diz: “Eis aí tua mãe!” Assim, aos pés da cruz  nasce uma nova família, não mais restrita aos laços de sangue ou de interesses mesquinhos, mas servidora de todos os humanos seres que querem viver e promover a vida.
É por isso que nesta santa sexta-feira nossa oração se abre numa universalidade que não deveria estar ausente de nenhuma celebração: rezamos pela Igreja, pelo papa e todos os ministros, mas também pela união das diferentes Igrejas cristãs, pelos judeus e pelos não cristãos, pelos que não acreditam em nada, pelas autoridades e pela humanidade sofredora. Diante do crucificado, filho da humanidade e filho de Deus, aprendemos que os muros e fronteiras religiosas, políticas, econômicas e culturais não fazem o menor sentido e virarão ruínas. Pertencemos à humanidade, temos um destino comum.
Diante de ti, Irmão da humanidade sofredora e servidora, prostramo-nos agradecidos e comprometidos. Nossas chagas e culpas pesam sobre teus ombros, mas o dom do teu amor sem fronteiras nos regenera. Tua mãe e teu amigo nos acolhem numa comunidade-semente de um mundo novo, e a água que brota do teu lado aberto nos livra de todos os medos. Beijamos enternecidos tuas chagas, pedindo que teu Espírito impeça que este beijo seja de traição. E assim seremos capazes de beijar, abraçar e acompanhar a imensa caravana dos sofredores e servidores que só podem esperar em ti. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Profeta Isaías 52,13-53,12 * Salmo 30 (31) * Carta aos Hebreus 4,14-15; 5,7-9 * Ev. de João 18,1-19,42)

segunda-feira, 30 de março de 2015

TRÍDUO PASCAL: CEIA DE JESUS (ANO B – 02.04.2015)

“Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado!”

Hoje nos reunimos para celebrar a Aliança nova, terna e eterna de Deus conosco, filhas e filhos queridos, família na qual seu Filho se faz irmão. A mesa está pronta, a toalha está linda, há flores coloridas e o alimento é saboroso. E há lugar para todos, inclusive para pecadores como nós. O próprio Jesus de Nazaré nos diz que preparou e desejou ardentemente celebrar este momento conosco (cf. Lc 22,15). E não recusamos o convite porque intuímos que não temos outra honra senão trazer em nossos sonhos, projetos, ações e relacionamentos as marcas da cruz de Cristo, do seu amor sem fronteiras.
Na mesa que reúne as pessoas que desejam ardentemente viver uma fraternidade sem fronteiras, fazemos memória, recordamos. Esta celebração é um memorial dos êxodos e travessias que somos convidados a empreender: travessias de um eu fechado em si mesmo para uma comunidade aberta e solidária; de uma mesa grande e vazia para uma mesa farta e partilhada; de projetos estreitos e ancorados no sucesso pessoal para utopias coletivas; de lutas empreendidas contando apenas conosco mesmos para alianças muito mais que estratégicas.
A ceia eucarística é a memória de Jesus e dos discípulos que, tendo atrás as memoráveis experiências das refeições partilhadas com toda sorte de pecadores e à frente a ameaça dos poderes que não toleram mudanças, compartilham suor e sangue, vinho e pão. A eucaristia é o alimento de quem está na estrada. Celebramos esta ceia e aceitamos a aliança que Deus nos oferece ainda “na terra do Egito”. Celebramos esta refeição prontos para a travessia que urge: com cintos que diminuem os embaraços; com sandálias que agilizam os passos; com cajados que nos sustentam nos vales escuros.
No centro não está um cordeiro, mas um corpo feito inteiramente dom Jesus Cristo oferece a totalidade concreta da sua vida como dom e partilha. É sua vida inteira que ele nos dá sem reservas e sem impor condições. E o faz numa ceia ordinária, numa refeição marcada pelo afeto fraterno, num contexto de ameaça de morte, pedindo insistentemente que façamos o mesmo para manter viva sua memória. “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado...” A eucaristia faz da Igreja uma comunidade aberta em dom àqueles que estão fora ou estão “longe”.
Jesus ilustra o sentido da sua vida feita aliança no gesto de lavar os pés. Ele havia dito e repetido que viera para servir e não para ser servido, como Servo e não como Senhor. Demonstrara isso numa dedicação sem cansaço aos últimos. Pois agora, depois de repartir pão e vinho, deixa a mesa e assume o serviço próprio de mulheres e crianças, lavando os pés daqueles que estavam à mesa. É o próprio Deus que se inclina diante da humanidade e, de joelhos, lava nossos pés. E não o faz para demonstrar humildade, mas para desfazer as hierarquias e afirmar a absoluta igualdade de todos.
Pedro reage diante da lição de Jesus. Não lhe parece bem mudar as coisas assim tão radicalmente: para ele, senhores e superiores devem ser honrados; servos e inferiores devem ser desfrutados; esta é a ordem e nada deve ser mudado. Parece-lhe difícil aceitar que esta não é a ordem querida por Deus, que participar da eucaristia implica em fazer-se memória viva da vida de Jesus Servo... Como custa à Igreja e a cada um de nós assimilar esta lição: Deus não se identifica com o soberano, mas com o servo; somente quem hipoteca sua vida pelos outros a ganha verdadeiramente.
A lição é difícil e nada óbvia. É por isso que, depois de comer e de lavar os pés dos discípulos, Jesus nos interroga: “Vocês compreenderam o que eu acabei de fazer?” E para não deixar dúvidas, explica: “Eu lhes dei um exemplo... E vocês serão felizes se o puserem em prática...” Precisamos passar da memória e do gesto teatral à vida: “fazei isso...”; “se puserem em prática...” É preciso dar conteúdo e concretude à eucaristia no dom cotidiano pelos outros, no serviço despojado a todos, mesmo àqueles que aparentemente não o merecem. “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado...”
Jesus, Filho de Deus e da Humanidade, peregrino nas estradas de um mundo desigual, arauto de um tempo novo e promissor. Ajuda-nos a não deixar no interior do templo o avental que nos dás como hábito e identidade. Abre nossa mente e nossas mãos para que o serviço aos irmãos e irmãs não se limite à intenção, mas se realize nas estradas e esquinas do mundo. Faz que superemos os ritos e transformemos teu gesto em prática cotidiana. Guia e sustenta a Igreja no caminho do esvaziamento que a faz livre e capaz de servir, sem outra parcialidade senão a preferência pelos últimos. Amém! Assim seja!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Livro do Êxodo 12,1-14 * Salmo 115 (116) * 1ª Carta aos Críntios 11,23-26 * Evangelho de João 13,1-15)

sexta-feira, 27 de março de 2015

A entrada de Jesus em Jerusalém

Marcos 11,1-11:
Jesus, o empregado de todas e de todos, vem montado num animal de carga 


Abrir os olhos para ver
Esse texto fala da grande manifestação popular em favor de Jesus no Domingo de Ramos. Sentado num jumento, animal de carga, Jesus entra em Jerusalém, capital do seu povo. Os discípulos, as discípulas e povo romeiro, vindos da Galileia, o aclamam como messias. Mas o povo da capital não participa. Apenas assiste, e as autoridades nem aparecem. A romaria termina na praça do Templo, a praça dos poderes. Parece uma passeata que termina diante da catedral e do Palácio do Planalto. Também hoje há manifestações populares. As suas reivindicações revelam o sofrimento do povo e a sua indignação frente às injustiças. Nem todos participam, pois têm medo. A maioria apenas assiste.
Situando
Finalmente, após uma longa caminhada de mais de 140 quilômetros, desde a Galileia até Jerusalém, a romaria está chegando ao seu destino. A cena se passa em Jerusalém, símbolo central da religião (Sl 122,3). No início do bloco, está o gesto simbólico de Jesus: aclamado pelo povo peregrino, ele entra na cidade montado num jumentinho, animal de carga.
A caminhada de Jesus e seus discípulos era também a caminhada das comunidades no tempo em que os evangelistas escreviam o seu evangelho: seguir Jesus, desde a Galileia até Jerusalém, desde o lago até o calvário, com a dupla missão de denunciar os donos do poder que preparam a cruz para quem os desafia e de anunciar ao povo sofrido a certeza de que um mundo novo é possível. Esta mesma caminhada continua até hoje.
Comentando 
A chegada em Jerusalém
Jesus vem caminhando, como romeiro no meio dos romeiros! O ponto final da romaria é o Templo, onde mora Deus! Em Betânia ele faz uma parada. Betânia significa Casa da Pobreza. Era um povoado pobre fora da cidade, do outro lado do Monte das Oliveiras. De lá, Jesus organiza e prepara a sua entrada na cidade. Ele manda os discípulos buscar um jumentinho, um jegue, animal de carga, para poder realizar um gesto simbólico.
A ajuda dos discípulos e das discípulas
Os discípulos fazem como Jesus tinha mandado, e tudo acontece conforme o previsto. Eles encontram o jumentinho e o levam até Jesus. E alguns dos que ali se encontravam perguntaram: "Por que vocês estão soltando o jumentinho?" E eles responderam: "Jesus está precisando!" Todos nós somos como o jumentinho, animal de carga. Jesus precisa de nós.
A entrada solene na Cidade Santa
Jesus monta o jumentinho e entra na cidade, aclamado pela multidão de peregrinos e pelos discípulos. Na cabeça deles está a ideia do messias rei glorioso, filho de Davi! Eles acreditam que, finalmente, o Reino de Davi tenha chegado e gritam: "Bendito o Reino que vem de nosso pai Davi!" Jesus aceita a homenagem, mas com reserva. Montado no jumentinho, ele evoca a profecia de Zacarias que dizia: "Teu rei vem a ti, humilde, montado num jumento. O arco de guerra será eliminado" (Zc 9,9-10). Jesus aceita ser o messias, mas não o messias rei glorioso e guerreiro que os discípulos imaginavam. Ele se mantém no caminho do serviço, simbolizado pelo jumentinho, animal de carga. Jesus ensina agindo. Os discípulos, que procurem entender o gesto de Jesus, mudem de ideia e se convertam!
Alargando 
As romarias do povo e os salmos de romaria  
As romarias para Jerusalém eram feitas três vezes ao ano, nas três grandes festas: Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos (cf. Ex 23,14 e 17). Dos lugares mais distantes os romeiros vinham caminhando. Alguns faziam cinco, seis ou mais dias de viagem. Vinham para Jerusalém, a capital, "a cidade grande e bela, para onde tudo converge" (cf. Sl 122,3-4). As romarias eram momentos de confraternização e de muita alegria: "Fiquei foi contente, quando me disseram: Vamos para a Casa do Senhor!" (Sl 122,1). Nestas longas viagens, o povo rezava e cantava os Salmos de Romaria. Jesus também os rezou, junto com os peregrinos da Galileia, nesta sua última romaria para a Casa de Deus, em Jerusalém.
Os "Salmos de Romaria" formam uma coleção de 15 salmos dentro do saltério, do Salmo 120 até o Salmo 134. São salmos pequenos. O povo que rezava quando subia para o Templo de Jerusalém em peregrinação. Por isso, chamados "Cânticos das Subidas". Eles diziam: "Vinde! Vamos subir ao Monte de Javé!" (Is 2,3). "Vamos subir a Sião, a Javé, nosso Deus!" (Jr 31,6).
Apesar de pequenos, os Salmos de Romaria possuem uma grande riqueza. São uma amostra de como o povo rezava e se relacionava com Deus. Eles ajudam o povo a perceber os traços de Deus nos fatos da vida. Transformam tudo em prece, mesmo as coisas mais comuns da vida de cada dia. De um jeito bem simples, revelam a dimensão divina do quotidiano. Ajudam a perceber e a rezar a dimensão divina do humano.
Também eram chamados "Cânticos dos Degraus". Provavelmente por causa da majestosa escadaria de 15 degraus que dava acesso ao Templo de Jerusalém. Daí, talvez, a razão de a coleção ter exatamente 15 salmos.
A subida pelos 15 degraus da escadaria do Templo era uma imagem e um resumo da própria romaria, desde o povoado até Jerusalém. E ambas, tanto a subido como a romaria, eram um símbolo ou uma imagem da caminhada de cada pessoa em direção a Deus.
Quando, finalmente, após longa caminhada, o romeiro chega ao Templo e experimenta algo da presença de Deus, as palavras já não bastam para dizer o que se vive. Então, o gesto das mãos completa o que falta nas palavras. Isto transparece nos Salmos de Romaria. Assim, no último salmo, gesto e palavra se unem para expressar o que se vive: "Levantem as mãos para o santuário e bendigam a Javé!" (Sl 134,2).
Ao longo dos salmos de romaria, os mesmos pensamentos e sentimentos aparecem e reaparecem, do começo ao fim. Eles indicam a direção da oração, o rumo do Espírito. Eis uma lista que pode servir como chave de leitura para nós.
1.        O pano de fundo que percorre estes salmos é a experiência libertadora do Êxodo e do Exílio;
2.        São orações em que agricultores expressam e rezam a sua vida e os seus problemas;
3.        Transparece nas imagens usadas uma situação de violenta opressão e de exploração do povo;
4.        Em alguns destes salmos, se passa do eu para o nós, o que revela a integração na comunidade;
5.        Neles se expressa a alegria intensa da confraternização dos romeiros em Jerusalém;
6.        O Templo ocupa um lugar importante na vida do povo, lugar de encontro com Deus;
7.        A ambivalência da monarquia e da cidade de Jerusalém: centro que atrai e que oprime;
8.        Um grande desejo de paz e de liberdade percorre quase todos estes salmos;
9.        Não usam ideias rebuscadas, mas transformam em prece as coisas comuns da vida;
10.   No centro de tudo, no começo e no fim, está a fé em "Javé que fez o céu e a terra".

Mercedes Lopes e Carlos Mesters

http://www.cebi.org.br/noticias.php?secaoId=1&noticiaId=5515

quinta-feira, 26 de março de 2015

DOMINGO DE RAMOS (ANO B – 29.03.2015)

O Messias humilde e servidor é o caminho da Igreja.

Depois de cinco semanas de preparação, abrem-se as portas de uma semana que vale uma vida. Com ramos, flores e cânticos, caminhamos pelas ruas e reunimo-nos nos templos, não para gritar impropérios contra a presidenta ou para pedir a volta da ditadura militar, mas para aclamar nosso líder manso e humilde. “Bendito aquele que vem em nome do Senhor!” Sabemos que só alguém infinitamente grande é capaz de fazer-se tão pequeno e tão próximo. Ele nos oferece generosamente sua vida desdobrada em serviço, bebe o cálice num só golpe e realiza plenamente a vontade do Pai.
Para entender a entrada de Jesus em Jerusalém precisamos dispensar as imagens e fantasias de poder. Não há nada de triunfal. Jesus vem da Galiléia e entra na capital do seu país montado num jumento. Nada de cortejos de honra, de generais e de cavalos vistosos. Jesus chega a Jerusalém como sempre foi: um servidor, um simples homem, esvaziado de interesses escusos e obediente às necessidades dos outros. O povo da periferia da capital o aclama como filho e herdeiro de Davi, mas isso contrasta com a fria acolhida por parte do povo da capital e com o medo dos próprios discípulos...
A escolha do jumento é uma provocação aos líderes militares, conhecidos no passado ou esperados para o futuro. O povo que acompanha Jesus na sua entrada em Jerusalém aclama o despontar do reino messiânico inspirado em Davi e a chegada do líder enviado por Deus. Jesus, porém, não realiza as ações poderosas que eles esperavam: chega ao templo, olha tudo e se retira em Betânia sem fazer nada.  Ele é o ouvinte da Palavra do qual fala o profeta Isaías, e dessa escuta obediente brota uma palavra que desperta os adormecidos e encoraja os acorrentados pela doença e pelo medo.
O entusiasmo suscitado naquele pequeno grupo de gente que vinha do interior não se sustentará por muito tempo. Os gritos de ‘hosana’ – Deus salva agora! – logo serão substituídos pelo insolente pedido ‘crucifica-o’, fruto da frustração das esperanças populares e da manipulação interesseira das autoridades. Os próprios discípulos, que haviam acompanhado Jesus e frequentado suas lições, sentem-se irremediavelmente desoriantados e defraudados em suas expectativas. Mas nem a divisão que se cria entre os discípulos, nem a real possibilidade da traição, não fazem Jesus mudar de plano...
É verdade que Jesus sente-se abatido e chega a perguntar-se sobre o rumo que deve seguir. No momento crucial, depois da festa de acolhida e da ceia de despedida, Jesus enfrenta um discernimento difícil. Pede aos discípulos que fiquem com ele e vigiem. “Tudo é possível para ti. Afasta de mim este cálice... ” Essa experiência permanece como um alerta para os discípulos e discípulas que esperam facilidades. “Vigiem e rezem para não caírem em tentação.” Para Jesus, oração é o momento de confronto profundo com a vontade do Pai, com a missão escrita em caracteres confusos e exigentes.
Os discípulos não entendem nada e temem, e Pilatos escolhe o caminho mais fácil: lavar as mãos, fazer a vontade da maioria e assim receber o apoio popular que faltava ao seu poder despótico. É o fácil caminho da indiferença diante da dor dos outros, da rápida incriminação dos lutadores, da alegre bajulação dos poderosos, da arrogante pretensão de ser o único artífice do próprio bem-estar. Aquele que o povo simples havia saudado na entrada da cidade como quem vinha e agia em nome de Deus, permanece fiel e acaba preso, abandonado pelos próprios discípulos, condenado e pregado na cruz.
A cruz era considerada um lugar absolutamente vazio da presença de Deus, a negação mais absoluta de qualquer forma de liderança, sinônimo de horror, de fracasso, de culpa, de impotência, de abandono. Tanto para os fiéis judeus como para os soldados romanos, mas até para os discípulos, a crucifixão representava a completa negação do ser humano, a mais radical falta de sentido. Por isso, a provocação dos soldados faz sentido: “O Messias, o rei de Israel... Desça agora da cruz para que vejamos e acreditemos”. Ele não desce, porque não veio para ser servido e bajulado, mas para servir...
Deus Pai-Mãe, compasivo e misericordioso. Nós te louvamos e agradecemos pelo dom da vida, pelo amor com que cuidas de toda a criação. Em sua misericórdia, teu filho se fez servidor dos empobrecidos e sofredores, e despertou neles a esperança de vida plena e exuberante. Envia-nos teu Espírito. Que ele guie a tua Igreja e a converta, a fim de que ela seja sempre mais anunciadora e ouvinte da tua Palavra, servidora e missionária. E não se furte de dar sua contribuição para que sejamos um país civilizado e justo, uma nação na qual todos os cidadãos sejam reconhecidos em sua dignidade. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Profeta Isaías 50,4-7 * Salmo 21 (22) * Carta aos Filipenses 2,6-11 * Evangelho de Marcos 11,1-10)

quarta-feira, 25 de março de 2015

SOLENIDADE DA ANUNCIAÇÃO (ANO B – 25.03.2015)

Deus reconhece e aprecia nossa graciosidade!

A celebração da Anunciação recorda que Deus é substancialmente dom que se faz carne e corpo e assume o ser humano como sua morada. Assumindo a corporeidade humana, o Filho entende cumprir a vontade (e não apenas uma vontade) do Pai. A Deus não agradam sacrifícios e holocaustos, que eliminam carne e corpo, mas uma vida capaz de amar no corpo e na carne. Deus e humanidade estão absolutamente e desde sempre comprometidos e imbricados um com o outro.
O anúncio do mensageiro de Deus é dirigido a Maria, mas não termina nela: inclui a humanidade inteira. Maria representa a humanidade, querida por Deus como sua morada e sua parceira. As palavras do anjo nos asseguram que, aos olhos de Deus, a humanidade é cheia de graça, bonita e charmosa. Por isso, não podemos nos contentar com coisas de pequena monta, projetos acanhados e interesses mesquinhos. Deus tem grandes planos para realizar por nós e através de nós!
É claro que às vezes o medo limita nossas iniciativas e não sabemos bem como fazer as coisas. O que o mensageiro divino pede é que saibamos confiar na força criadora do Espírito de Deus, pois ele transforma montes de ossos secos e vales áridos em comunidades vivas e roças abundantes. Quando a humanidade se mantém aberta à iniciativa de Deus, nada é impossível. Quando estamos convictos de que Deus aposta em nós, nossa capacidade de iniciativa se multiplica e tudo é possível.
A carta aos Hebreus nos apresenta um diálogo entre Jesus e o Pai. Segundo esta carta, a encarnação é uma resposta generosa que substitui sacrifícios e ofertas. Assim, assumir a condição humana com suas possibilidades e debilidades, fazer-se próximo e irmão é mais agradável a Deus que qualquer oferenda ou ato litúrgico. A encarnação não se dá em vista dos socrifícios mas para substituí-los! O corpo não deve ser sacrificado mas assumido, já seu valor supera os sacrifícios.
A encarnação expressa, ao mesmo tempo, a resposta humana e divina diante de Deus. “Eis-me aqui para fazer a tua vontade.” Trata-se de assumir a corporeidade histórica, assim como as relações humanas e as estruturas sociais, para realizar a vontade de Deus. Ser corpo, permanecer no corpo, humanizar os corpos é um meio para realizar a vontade de Deus e uma expressão do seu cumprimento. Em primeiro lugar, os corpos dos outros...
A encarnação traz consigo a afirmação de que para Deus nada é impossível. Maria representa a comunidade eclesial e a humanidade, e o que o anjo afirma é que não há limites para a ação divina. O desejo profundo de Zacarias e de Isabel, a esperança viva de Maria e de José, e a radical expectativa do Reino por parte dos oprimidos abrem possibilidades de uma intervenção transformadora de Deus na história mediante a encarnação. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena...
O ‘sim’ discreto e comprometido de Maria abre possibilidades inauditas para toda a humanidade. Para fazer-se carne, Deus bate à porta das  criaturas e fica à espera da sua resposta. Acolhendo a proposta divina, Maria nos mostra que a atitude que melhor contribui para a realização da vontade de Deus não é a de ser senhora e patroa, mas humilde servidora. Aquele que eleva os humildes e rebaixa os orgulhosos escolhe servos e parceiros aos quais confia sua obra libertadora.
Mas é claro que a postura de servidora assumida por Maria não tem nada de ingenuidade ou de passividade. No seu cântico, Maria mostra que servir o Senhor e cumprir sua vontade significa discernir a ação na Deus na elevação dos humilhados e no atendimento das necessidades dos famintos, assim como na limitação do poder dos poderosos e dos bens dos ricos. Em Maria e na vida dos cristãos, o serviço solidário não vai de mãos dadas com a ausência de crítica social e teológica.
Celebrando esta solenidade tão feminina e tão grávida de alegria e de esperança, somos convidados a rezar com as primeiras comunidades cristãs, em cujas palavras transparecem a surpreza, a gratidão e o profetismo. “Alegra-te, tu que és o trono do Rei. Alegra-te, pois carregas aquele que tudo carrega. Alegra-te, estrela que revelas o sol. Alegra-te, útero da divina encarnação. Alegra-te, pois por meio de ti a encarnação se renova. Alegra-te, porque por meio de ti o Criador se faz criatura, o Senhor se faz servo, o grande se faz criança. Alegra-te, Maria, cheia de graça! O Senhor está contigo! Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre, Jesus!”

Pe. Itacir Brassiani msf
(Profeta Isaías 7,10-14.8,10 * Salmo 39 (40) * Carta aos Hebreus 10,4-10 * Lucas 1,26-38)

quinta-feira, 19 de março de 2015

QUINTO DOMINGO DA QUARESMA (ANO B – 22.03.2015)

Viver bem é doar a própria vida na luta pela vida dos outros.

Estamos entrando na última etapa da nossa caminhada de preparação para a grande festa da vitória da da solidariedade sobre a indiferença, do serviço sobre a prepotência, do servo sobre o senhor. Como o grupo de gregos do evangelho deste domingo, nas quatro semanas que passaram ouvimos falar de Jesus, e agora pedimos com insistência: “Queremos ver Jesus!” Estejamos pois muito atentos, sintonizemos bem nossos ouvidos e fixemos nosso olhar no mistério profundo que se desvelará progressivamente na semana-santa. O segredo de Deus se assemelha ao dinamismo da semente...
Jesus recém havia realizado um sinal impressionante, devolvendo a vida ao amigo Lázaro. Quando voltou a Betânia, Marta, Maria e o próprio Lázaro ofereceram-lhe um jantar de agradecimento, e Maria ungiu seus pés com um perfume precioso, sob o olhar reprovador de Judas e dos fariseus. Em seguida, Jesus foi a Jerusalém e entrou na cidade montado num jumento, acompanhado de uma multidão que o aclamava como Messias libertador. “Todo mundo vai atrás de Jesus”, constatavam contrariados os fariseus. De fato, as autoridades religiosas estavam preocupadas com a crescente fama de Jesus.
É nesse contexto que alguns crentes pagãos, excluídos da plena cidadania de Israel, chegando a Jerusalém para a festa da páscoa, afastam-se do templo e manifestam a Filipe o desejo de ver Jesus. Filipe não se sente em condições de dizer “vem e vê” (cf. Jo 1,46), e procura André. Juntos, Filipe e André comunicam a Jesus o desejo daquele grupo de estrangeiros. Enquanto as autoridades, que se consideravam os verdadeiros adoradores de Deus, procuram um jeito de prender Jesus (cf. Jo 11,57), os pagãos, tratados como crentes de segunda classe, manifestam o desejo de conhecê-lo...
É interessante notar a reação de Jesus frente ao pedido daqueles pagãos que desejam conhecê-lo. Ele poderia aproveitar a oportunidade para aumentar sua fama. Mas, ao contrário, desfruta do momento para desenvolver uma catequese profunda e exigente sobre o messianismo que ele assume. Jesus responde declarando que sua Hora está próxima e que logo mais sua Glória será plenamente conhecida. Essa Hora é a meta da sua vida, mas está envolta em mistério e provoca medo. A assinatura da nova aliança visualizada por Jeremias tem um custo que assusta o próprio Jesus.
A glória do Filho do Homem – assim como a glória dos filhos e filhas de Deus – está muito longe de se identificar com a fama e o sucesso. O brilho de Deus se assemelha ao mistério da semente. “Eu garanto a vocês: se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto.” A conquista da fama e do poder de comadar e ordenar, em vez de ser portadora de glória, é caminho para a estirilidade e a solidão. Só o dinamismo de um amor que leva à doação de si mesmo a fundo perdido tem futuro e é digna de louvor. Mas este caminho nunca foi e não é fácil...
O que impressiona é que, no exato momento em que sua fama ultrapassa os estreitos limites do judaísmo, Jesus acenba para o mistério da semente, abre-nos seu coração e nos revela sua vulnerabilidade. “Agora estou muito perturbado. E o que vou dizer? Pai, livra-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, manifesta a glória do teu nome.” A possibilidade do martírio desestabiliza o próprio Filho de Deus, mas esse é o testemunho inequívoco de amor e o ápice da vida cristã. Este é o caminho que nos conduz à liberdade e a uma vida plena de sentido.
O Messias é vulnerável, e assumindo essa condição comum aos seres humanos, nos salva. A carta aos Hebreus diz sem titubeios: “Durante sua vida na terra, Cristo fez orações e súplicas a Deus em alta voz e com lágrimas ao Deus que o podia salvar da morte.” A assunção dessa condição humana foi sua obediência e sua perfeição. E é assim que ele se torna fonte na qual também nós podemos beber liberdade, salvação e vida plena. Jesus Cristo é o Messias de Deus que, inspirado no mistério da semente, mergulha fundo na debilidade humana e a assume como caminho de humanização.
Jesus de Nazaré: também nós desejamos te ver de perto, ouvir tua palavra, seguir teus passos. Tu és um profeta que se entrega sem reservas ao sonho de mudar o mundo e revelar o rosto de um Deus que é pai e mãe. Por isso, assumes a vulnerabilidade e a conflitividade, desces ao fundo da condição humana e aceitas ser elevado na cruz, entre criminosos desprezados. Imprime tua força em nosso coração. Renova tua aliança conosco. Ajuda-nos a sermos semente que aceita corajosamente a morte para frutificar abundantemente. Ensina-nos o que realmente significa obedecer ao Pai. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Profeta Jeremias 31,31-34 * Salmo 50 (51) * Carta aos Hebreus 5,7-9 * Evangelho de João 12,20-33)

Queremos ver Jesus?

Atraídos pelo crucificado
Um grupo de «gregos», provavelmente pagãos, aproximou-se dos discípulos com uma petição admirável: «Queremos ver Jesus». Quando lhe comunicam, Jesus responde com um discurso vibrante em que resume o sentido profundo da Sua vida. Chegou a hora. Todos, judeus e gregos, poderão captar em breve o mistério que se encerra na Sua vida e na Sua morte: «Quando for elevado sobre a terra, atrairei todos para mim».
Quando Jesus for erguido numa cruz e apareça crucificado sobre o Golgota, todos poderão conhecer o amor insondável de Deus, darão de conta que Deus é amor e só amor para todo o ser humano. Sentir-se-ão atraídos pelo Crucificado. Nele descobrirão a manifestação suprema do Mistério de Deus.
Para isso necessita-se, desde logo, algo mais que ter ouvido falar da doutrina da redenção. Algo mais que assistir a algum ato religioso da Semana Santa. Temos de centrar o nosso olhar interior em Jesus e deixar-nos comover, ao descobrir nessa crucificação o gesto final de uma vida entregue dia a dia por um mundo mais humano para todos. Um mundo que encontra a sua salvação em Deus.
Mas, provavelmente a Jesus, começamos a conhecê-lo verdadeiramente quando, atraídos pela Sua entrega total ao Pai e à Sua paixão por uma vida mais feliz para todos os Seus filhos, escutamos mesmo que debilmente a Sua chamada: «O que queira servir-me que me siga, e onde esteja Eu, ali estará também o Meu servidor».
Tudo se inicia num desejo de «servir» Jesus, de colaborar na Sua tarefa, de viver só para o Seu projeto, de seguir os Seus passos para manifestar, de múltiplas formas e com gestos quase sempre pobres, como nos ama Deus a todos. Então começamos a converter-nos em Seus seguidores.
Isto significa partilhar a Sua vida e o Seu destino: «onde esteja Eu, ali estará o Meu servidor». Isto é ser cristão: estar onde estava Jesus, ocupar-nos do que se ocupava Ele, ter as metas que Ele tinha, estar na cruz como esteve Ele, estar um dia à direita do Pai onde está Ele.
Como seria uma Igreja «atraída» pelo Crucificado, impulsionada pelo desejo de «servi-lo» só a Ele e ocupada com as coisas em que se ocupava Ele? Como seria uma Igreja que atraísse as pessoas para Jesus?

José Antonio Pagola

domingo, 15 de março de 2015

Dom Oscar R. Romero

OSCAR ROMERO: MÁRTIR DA AMÉRICA LATINA


Nessa terça-feira, 03 de fevereiro, o Papa Francisco declarou que Mons. Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, sofreu martírio por “ódio contra a fé” e que não foi assassinado simplesmente por razões políticas.
A palavra do Papa, quase 35 anos depois que o arcebispo foi baleado e morto, a 24 de março de 1980, enquanto celebrava a missa na capela do Hospital da Divina Providência em São Salvador, abre o caminho para sua rápida beatificação e canonização.
O processo encontrava-se bloqueado em Roma por aqueles que classificavam sua morte como resultado de suas opções políticas e não por causa do seu profético e evangélico testemunho em favor dos pobres e pequenos. O papa já dera um primeiro passo nessa direção quando logo após sua eleição, a 21 de abril de 2013, ordenara a reabertura de seu processo na Congregação das Causas dos Santos.
Para centenas de milhares de comunidades cristãs do continente, Oscar Romero foi desde o dia do seu martírio considerado santo e invocado como São Romero da América Latina, num profundo e certeiro reconhecimento do “sensus fidelium”de sua santidade e do sentido de sua morte: seu empenho em favor da paz, sua luta contra a pobreza e a injustiça e sobretudo a declarada oposição à infame guerra de “baixa intensidade”. A guerra, no pequeno El Salvador, na época, com pouco mais de 5 milhões de habitantes deixou mais de 70.000 mortos e 1,5 milhão de refugiados, a maior parte exilados nos Estados Unidos.
Mercedes Sosa, na conhecida canção latino-americana, “Solo le pido a Dios”, canta com paixão: “Sólo le pido a Dios / Que la guerra no me sea indiferente / Es un monstruo grande y pisa fuerte / Toda la pobre inocencia de la gente”. E prossegue nas outras estrofes: “Sólo le pido a Dios / Que el dolor no me sea indiferente / … Sólo le pido a Dios / Que lo injusto no me sea indiferente / Sólo le pido a Dios / Que el futuro no me sea indiferente...” Romero não foi indiferente nem à dor da pobre gente, nem à guerra, nem à injustiça, nem à falta de futuro e esperança que se abatia sobre seu povo.
O bispo poeta de São Felix do Araguaia, Dom Pedro Casaldaliga, no dia seguinte ao assassinato de Oscar Romero, associou prontamente sua morte ao martírio e ao sangue derramado pelo próprio Cristo na cruz, para terminar invocando-o, sem nenhuma hesitação: “San Romero de América, pastor y mártir nuestro”. Reproduzo na sequência a significativa página do seu diário, “En Rebelde Fidelidad” do mês de março de 1980:
Día 25: Ayer murió, matado, Monseñor Oscar Romero, el buen pastor de El Salvador. Mientras celebraba la eucaristía. Su sangre se ha mezclado para siempre con la sangre gloriosa de Jesús y con la sangre, todavía profanada, de tantos salvadoreños, de tantos latinoamericanos. Romero, flor de una paz que parece imposible en esa Centroamérica sufrida. La impresión que se tiene, sin posible duda, es que lo ha matado el Imperio. Su muerte es una muerte a sueldo, a divisa, a dólar. Era demasiado poderosa y libre su voz y había que apagarla. El lo sabía y estaba preparado para este sacrificio. Ha sido en la víspera de la Anunciación. El ángel del Señor se ha anticipado para anunciar, con esta muerte, la llegada de un tiempo de vida para El Salvador, para América Central, para todo el Continente. San Romero de América, pastor y mártir nuestro. Clara lección para todos los pastores... No es posible que el Dios de los pobres no recoja esta oblación.”
Outras Igrejas não esperaram este tardio reconhecimento romano para incluir Oscar Romero no seu próprio calendário litúrgico, como mártir, exemplo de vida e santidade e inspiração para seus fieis. Assim, a Igreja Anglicana da Inglaterra arrolou Romero como mártir, no calendário do seu “Common Worship”. O mesmo aconteceu com a Igreja Luterana da Alemanha.
Quando Bento XVI a 17 de setembro de 2010, adentrou, como primeiro papa a fazê-lo, o imponente portal oeste da Abadia de Westminster de Londres, teve que passar por sob a estátua de Oscar Romero perfilada ao lado do pastor batista Martin Luther King, de Ghandi e de outros mártires do século XX, ali representados.
Artistas renomados e artesões populares não tardaram a retratar Romero como santo. Adolfo Perez Esquivel, o prêmio Nobel da Paz (1980), ao pintar a Via Sacra latino-americana e o grande painel do “novo céu e a nova terra” para a Campanha quaresmal da Igreja da Alemanha, retratou o Cristo Ressuscitado caminhando à frente da multidão daqueles que lavaram suas vestes no sangue do cordeiro, capitaneados por Oscar Romero e por Enrique Angelleli, o bispo mártir de La Rioja na Argentina seguidos pelo cortejo de leigos e leigas, sacerdotes e religiosas, que derramaram seu sangue pela fé e pela justiça na América Latina, nos anos de chumbo das ditaduras militares.
O artista da libertação Cerezo Barredo ao pintar em 1986, o painel por detrás do altar da Igreja dos Mártires da Caminhada em Ribeirão Cascalheira, local do martírio do Pe. Penido Burnier, SJ, o coloca ao lado de Romero e do Ressuscitado e junto com os lavradores assassinados pelo latifúndio, de suas mulheres torturadas pela polícia e de tantos outros mártires anônimos da Igreja latino-americana. Noutro painel de Romero, Cerezo reproduz as palavras proféticas do arcebispo, pouco antes do seu assassinato: “Se me matam, ressuscitarei no povo salvadorenho”.
Cláudio Pastro, que vem ilustrando a Basílica de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e sede da V Conferência do Episcopado Latino-americano, em 2007, incluiu no painel de azulejo azul e branco que cobre o coro da entrada principal do templo, ao lado dos mártires dos tempos passados, os de hoje, entre os quais o índio Márçal Guarani, o arcebispo Romero e a Ir. Dorothy Stang, missionária norte-americana assassinada 12 de fevereiro de 2005 na Amazônia brasileira. Irmã Dorothy foi morta por pistoleiros, por defender pequenos lavradores de um projeto de agricultura sustentável, contra a devastação das grandes madeireiras. Estas, sob o olhar complacente quando não conivente das autoridades, abatem as árvores para alimentar o lucrativo comércio da exportação ilegal de madeira para a Europa.
Os artistas e o sentimento e piedade popular se antecipam no reconhecimento de novas formas de santidade que vão da luta em favor da vida dos pequenos e injustiçados, da denúncia da ganância do capital e dos impérios, até a defesa intransigente da água, da terra, das florestas, como bens comuns necessários à vida e não apenas “mercadorias” a mais, a serviço do lucro.
Quando o jovem bispo de Ivrea, Betazzi, então bispo auxiliar de Bologna, interveio no Vaticano II, sob nutrido aplauso da Aula conciliar, para pedir a canonização imediata de João XXIII pelos padres conciliares, estava querendo consagrar todo um programa, um projeto e um sonho de nova Igreja e nova humanidade. Nesse sentido, comentou o Cardeal Lercaro, que essa proposta da imediata canonização de João XXIII pelo Concílio representava a acolhida das decisões conciliares na vida da Igreja. A proclamação da santidade de João XXIII não era apenas a de “uma santidade exemplar (igual a de outros santos), e sim de uma santidade programática de uma nova época da Igreja, individualizada no santo pastor, doutor e profeta reconhecido como seu antecipador”.
A santidade de Romero é também uma santidade programática que remete à evangélica opção preferencial pelos pobres, a uma fé atuante no mundo e à profecia como inarredável tarefa dos pastores e de todos os batizados, num continente nominalmente cristão, que convive em aparente indiferença, com as seculares desigualdades e injustiças que marcam nossas sociedades dos tempos coloniais até hoje.

Pe. José Oscar Beozzo

sexta-feira, 13 de março de 2015

Nota da CNBB sobre a realidade atual do Brasil

“Pratica a justiça todos os dias de tua vida e não sigas os caminhos da iniquidade” (Tobias 4, 5)


O Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunido em Brasília-DF, nos dias 10 a 12 de março de 2015, manifesta sua preocupação diante do delicado momento pelo qual passa o País. O escândalo da corrupção na Petrobras, as recentes medidas de ajuste fiscal adotadas pelo Governo, a crise na relação entre os três Poderes da República e manifestações de insatisfação da população são alguns dos sinais de uma situação crítica que, negada ou mal administrada, poderá enfraquecer o Estado Democrático de Direito, conquistado com muita luta e sofrimento.
Esta situação clama por medidas urgentes. Qualquer resposta, no entanto, que atenda antes ao mercado e aos interesses políticos que às necessidades do povo, especialmente dos mais pobres, nega a ética e desvia-se do caminho da justiça. Cobrar essa resposta é direito da população, desde que se preserve a ordem democrática e se respeitem as instituições da comunidade política.
Diante das suspeitas de corrupção na gestão do patrimônio público, manifestamos nossa firme convicção de que a justiça e a ética requerem uma cuidadosa apuração dos fatos e a responsabilização, perante a lei, de eventuais corruptos e corruptores. Enquanto a moralidade pública for olhada com desprezo ou considerada um empecilho à busca do poder e do dinheiro, estaremos longe de uma solução para a crise vivida no Brasil. A solução passa também pelo fim do fisiologismo político que alimenta a cobiça insaciável de agentes públicos, comprometidos com a manutenção de interesses privados. Urge, ainda, uma profunda reforma política que renove em suas entranhas o sistema político em vigor.
Comuns em épocas de crise, as manifestações são um direito democrático que deve ser assegurado a todos pelo Estado. O que se espera é que sejam pacíficas. “Nada justifica a violência, a destruição do patrimônio público e privado, o desrespeito e a agressão a pessoas e instituições, o cerceamento à liberdade de ir e vir, de pensar e agir diferente, que devem ser repudiados com veemência. Quando isso ocorre, negam-se os valores inerentes às manifestações, instalando-se uma incoerência corrosiva que leva ao seu descrédito” (Nota da CNBB 2013).
Nesta hora delicada e exigente, a CNBB conclama as Instituições e a sociedade brasileira ao diálogo. Na livre manifestação do pensamento, no respeito ao pluralismo e às legítimas diferenças, este momento poderá contribuir para a paz social e o fortalecimento das Instituições Democráticas.
Deus, que acompanha seu povo e o assiste em suas necessidades, abençoe o Brasil e dê a todos força e sabedoria para contribuir para a justiça e a paz. Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, interceda pelo povo brasileiro.
Brasília, 12 de março de 2015

Dom Raymundo Cardeal Damasceno Assis, Arcebispo de Aparecida – SP
Presidente da CNBB
Dom José Belisário da Silva, OFM, Arcebispo de São Luis do Maranhão – MA
Vice Presidente da CNBB
Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM, Bispo Auxiliar de Brasília

Secretário Geral da CNBB