quinta-feira, 28 de maio de 2015

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE (ANO B – 31.05.2015)

A comunhão é o DNA e a vocação de todas as criaturas.

A solenidade de hoje nos convida a celebrar Deus como adorável mistério de amor. Todos alimentamos um pretensioso desejo de conhecer Deus e de falar sobre ele. Mas Deus estaria à nossa disposição e desprotegido frente à nossa ânsia de conhecer, manipular e dominar?  Conhecemos pregadores que falam de Deus como se soubessem tudo sobre ele, mas, na verdade, discorrem sobre seus próprios conceitos. A fala compulsiva sobre Deus é em geral uma defesa contra a verdadeira experiência de Deus, que é o único ponto de partida seguro para falar sobre o mistério divino...
Os arquétipos são imagens e valores que mexem com o ser humano em sua profundidade: ordenam ou confundem, escravizam ou libertam.  São o filtro mediante o qual olhamos tudos e vemos a nós mesmos. Ora, Deus é um dos arquétipos mais profundos e influentes da nossa vida. Se temos uma imagem de Deus deformada ou doentia, acabamos deformando-nos e adoecendo. Se desconfiamos muito de nós mesmos e temos a impressão de que sempre estamos errados, acabamos imaginando um Deus observador e desconfiado, pronto a pedir provas e julgar o ser humano...
A solenidade da Santíssima Trindade quer sublinhar que a imagem correta de Deus não é a de um sujeito solitário, absoluto, onipotente e onisciente, mas uma imagem que lembra comunhão no amor, convergência no ser-para-os-outros, abertura e acolhida. Deus é o arquétipo da perfeita comunhão, uma comunhão na qual cada qual recebe tudo do outro e se faz dom radical ao outro. Esta comunhão na acolhida do outro e na doação amorosa de si é também a vocação das criaturas. O Papa Francisco lembra que misericórdia é a palavra que melhor expressa o mistério da Santíssima Trindade, que do coração da Trindade flui uma grande e incessante torrente de misericórdia.
Nossa primeira atitude diante do Mistério de comunhão, que é a essência de Deus e das criaturas, mais que o espanto reflexivo, é a adoração agradecida. “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém!”  Adoração é a resposta própria de quem se descobre pequeno e impotente e, ao mesmo, destinatário de um amor que o faz capaz, digno e grande. O mistério de Comunhão e de Bondade nos põe de joelhos e nos leva a exclamar “Glória!” Assim, quando estão diante de Jesus ressuscitado, os discípulos ajoelham-se reverentes e obedientes...
Glorificar significa honrar e fazer brilhar, e nós glorificamos a Deus porque ele mesmo nos glorifica, dando-nos o título de filhos e filhas, conferindo-nos um explendor que nos assemelha a ele. Glorificamos a Deus quando desfazemos as imagens ameaçadoras que o identificam com um ditador onipotente, um juiz implacável, um doutor onisciente e um ser sem coração, e proclamamos com a boca e com a vida sua misericórdia, sua compaixão e seu amor pela justiça e pelo direito. “A glória de Deus é o ser humano vivo e a vida do ser humano é a visão de Deus”, ensina Santo Irineu de Lyon.
A experiência mística do amor de Deus nos compromete necessariamente com a missão de amar e de promover a vida plena das criaturas de Deus. “Vão e façam com que  todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês.” É uma missão que se abre a todas as nações, que desconhece fronteiras e muros que dividem, uma missão enraizada e focalizada no amor. Fazer discípulos significa acolher e congregar no amor aqueles que são diferentes, fazer-se próximo daqueles que estão longe.
O batismo, que sinaliza o discipulado e nele nos introduz, é a assinatura de uma nova lealdade, não mais aos doutores da lei e ao imperador, mas ao Deus Uno e Trino, à Divina Comunhão, da qual a Eucaristia é sacramento e celebração.  Nele expressamos nossa feliz condição: somos filhos e filhas do universo, irmãos e devedores às estrelas, à luz, ao ar e à terra, pois todos esses elementos habitam e cooperam em nós. Paulo sublinha essa realidade quando diz que somos filhos e herdeiros de Deus em Jesus Cristo. Não somos fragmentos isolados, mas filhos da comunhão que habita todas as coisas!
Deus amável, Mistério de Comunhão sem limites, regaço de onde partimos e para onde desejamos retornar: envia teu Espírito para que, em nós, ele grite e anuncie que és pai e mãe e nos ajude a proclamar que todas as criaturas são nossas irmãs. Amor paterno, materno e fraterno, abre o nosso ser à ação do teu Espírito de comunhão, a fim de que ele nos transforme em pessoas livres e solidárias, agentes da liberdade no mundo, anunciadoras e criadoras da comunhão que associa todas as criaturas e faz  brilhar nelas o teu insondável mistério de comunhão. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Deuteronômio 4,32-34.39-40 * Salmo 32 (33) * Carta Romanos 8,14-17 * Evangelho de Mateus 28,16-20)

Viver nosso credo com alegria renovada

O ESSENCIAL DO CREDO

Ao longo dos séculos, os teólogos cristãos elaboraram profundos estudos sobre a Trindade. No entanto, muitos cristãos dos nossos dias não conseguem captar o que tem que ver com as suas vidas essas admiráveis doutrinas.
Ao que parece, hoje necessitamos de ouvir falar de Deus com palavras humildes e simples, que toquem o nosso pobre coração, confuso e desalentado, e reconfortem a nossa fé vacilante. Necessitamos, tal vez, recuperar o essencial do nosso credo para aprender a vivê-lo com alegria nova.
“Creio em Deus Pai, criador do céu e da terra”. Não estamos sós ante os nossos problemas e conflitos. Não vivemos esquecidos, Deus é nosso «Pai» querido. Assim O chamava Jesus e assim O chamamos nós. Ele é a origem e a meta da nossa vida. Criou-nos a todos só por amor, e espera a todos com coração de Pai no final da nossa peregrinação por este mundo.
O Seu nome é hoje esquecido e negado por muitos. Os nossos filhos vão-se afastando Dele, e os crentes, não sabemos contagiá-los com a nossa fé, mas Deus continua a olhar a todos com amor. Mesmo que vivamos cheios de dúvidas, não temos de perder a fé num Deus Criados e Pai pois teríamos perdido a nossa última esperança.
“Creio em Jesus Cristo, Seu único Filho, nosso Senhor”. É o grande presente que Deus fez ao mundo. Ele contou-nos como é o Pai. Para nós, Jesus nunca será um homem mais. Olhando para Ele, vemos o Pai: em nossos gestos captamos a Sua ternura e compreensão. Nele podemos sentir o Deus humano, próximo, amigo.
Este Jesus, o Filho amado de Deus, animou-nos a construir uma vida mais fraterna e ditosa para todos. É o que mais quer o Pai. Indicou-nos, também, o caminho a seguir: “Sejam compassivos como o vosso Pai é compassivo”. Se esquecemos a Jesus, quem ocupará o Seu vazio? Quem nos poderá oferecer a Sua luz e a Sua esperança?
“Creio no Espírito Santo, Senhor e dador da vida”. Este mistério de Deus não é algo longínquo. Está presente no fundo de cada um de nós. Podemos captá-lo como Espírito que alenta as nossas vidas, como Amor que nos leva até aos que sofrem. Este Espírito é o melhor que há dentro de nós.

José Antonio Pagola

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Manifesto pela Reforma Politica

Igrejas e Organismos conclamam população a assinar manifesto pela Reforma Política

Estimadas/os amigas/os.
Estamos chegando à fase mais importante da atual etapa de lutas pela Reforma Política Democrática.
A correlação de forças na Câmara dos Deputados aponta para um possível retrocesso. Em função disto necessitamos ampliar a denúncia contra a tentativa de constitucionalizar o financiamento de campanhas por empresas e contra a aprovação do chamado "Distritão". Devemos, ainda, continuar a coleta de assinaturas físicas e virtuais de apoio ao projeto de Reforma Política Democrática da Coalizão. Quanto maior o número de assinaturas, tanto físicas como virtuais,mais força ganha a nossa proposta.  A assinatura de apoio pela internet pode ser feita pelo site Avaaz (http://www.avaaz.org/po/brasil_eleicoes_limpas_lkcd/?slideshow)

Por outro lado, a pressão direta sobre os parlamentares, em seus respectivos estados, é de fundamental importância. A experiência política indica que as pressões sobre os parlamentares, em suas respectivas bases eleitorais, exercem forte influência sobre os mesmos.
A hora é de intensificar a luta contra o retrocesso e pela Reforma Política Democrática!
Brasília/DF, 25 de maio de 2015.
Executiva da Coalizão pela Reforma Política Democrática e Eleições Limpas
OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)
CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)
Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura)
CTB Nacional (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil)
CUT Brasil (Central Única dos Trabalhadores)
MCCE (Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral)
Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político
UNE (União Nacional dos Estudantes)

Em reação às propostas sugeridas por setores conservadores do Congresso Nacional, igrejas e organizações da sociedade civil, incluindo a CNBB, a OAB e o MCCE (Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral), conclamam a população a reforçar o abaixo assinado Reforma Política Democrática e Eleições Limpas.
“A hora é de intensificar a luta contra o retrocesso e pela Reforma Política Democrática!”, afirmam as entidades: “É notório que o financiamento por empresas nas campanhas eleitorais é uma das principais origens da corrupção no Brasil. Empresa não ‘doa’, não vota, empresa ‘investe’. Por isso, está em nossas mãos uma oportunidade única para acabar com a corrupção nas eleições de uma vez por todas. Propostas que constitucionalizam o financiamento empresarial das campanhas, criam o ‘voto distritão’ para a eleição de deputados e vereadores e aprofundam a influência do poder econômico nas eleições não contribuem para o fortalecimento da democracia e para o combate da corrupção”
A assinatura de apoio pela internet pode ser feita pelo site Avaaz (http://www.avaaz.org/po/brasil_eleicoes_limpas_lkcd/?slideshow)

Colabore! Assine! Divulgue!

Carta ao povo brasileiro

Carta em defesa do Brasil, da Democracia e do Trabalho
O pacto político e social da Constituição de 1988 está sob um ataque de exceção. Contra a política, contra os partidos, especialmente do campo da esquerda, contra os movimentos sociais. Este ataque representa a maior ofensiva organizada pelas forças políticas da direita e pelo oligopólio da mídia conservadora, desde 1968. 
A luta contra a corrupção, que deveria atingir de forma indistinta e igual quem viola a legalidade e desmoraliza a política e o Estado, está sendo instrumentalizada por setores conservadores e foi colocada a serviço de um projeto autoritário de restauração de uma democracia restrita e de redução das funções públicas do Estado. 
Parte da direita não hesita em clamar pela intervenção militar, como se o Brasil fosse uma república bananeira, e as nossas forças armadas fossem feitoras dos interesses do capital financeiro. Promovem a contra-reforma política para manter o financiamento empresarial de campanhas eleitorais e partidos políticos e buscam terceirizar o Banco Central, pretendendo sua “independência” em relação ao Estado e sua submissão total à especulação globalizada. Agendam a redução da maioridade penal e organizam ataques às conquistas das mulheres, negros e homossexuais. Incitam o ativismo judicial seletivo, antidemocrático, para desestabilizar o pacto político de 1988.
A direita e o grande empresariado promovem agora uma reforma penosa aos trabalhadores, para universalizar a terceirização, com um ataque severo às conquistas laborais do século passado. Aprovada, terá como efeito mais grave maior precarização das relações de trabalho e a redução de salários.

A democracia: reforma política e dos meios de comunicação 
No Brasil, a luta pela democratização da política assume, hoje, duas formas principais. Primeiro, a luta contra o financiamento empresarial de campanhas eleitorais e dos partidos políticos. Segundo, a luta contra o controle plutocrático dos meios de comunicação, desrespeitando dispositivo constitucional que veda o monopólio e oligopólio. 
Contra a decadência do sistema político, as esquerdas e as forças comprometidas com a democracia e com o avanço social precisam se unir em torno da reforma política e pela democratização dos meios de comunicação. Unir-se pela verdadeira liberdade de imprensa, que implica no direito à livre circulação da opinião, normalmente censurada pelos oligopólios, e pela transparência e democratização das concessões para rádios e TVs, que hoje são feitas no subsolo da política nacional.  As duas reformas são fundamentais para controlar o papel que o dinheiro exerce como agente corruptor da democracia.

No que concerne à reforma política, o principal mecanismo de democratização de campanhas eleitorais e prevenção contra a corrupção é o bloqueio do financiamento empresarial de campanhas e partidos políticos. No que tange à reforma dos meios de comunicação, para limitar o poder do dinheiro é necessário limitar a propriedade e o controle, em uma mesma área, de órgãos de comunicação controlados por um mesmo grupo empresarial. O controle de grupos milionários e de políticos sem escrúpulos sobre meios de comunicação confere vantagens políticas que pervertem a cláusula democrática e deformam as eleições. 
A agenda destas reformas nos unifica, imediatamente, no seguinte: a) proibição do financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais por empresas; b) a limitação do número de veículos de comunicação, por grupo empresarial, em uma mesma área geográfica.

A democratização do desenvolvimento econômico e a rejeição da austeridade 

Apesar da crise global, os defensores do projeto neoliberal não desanimam na defesa dessa utopia direitista e dos interesses que ela atende. Seu ataque quer atingir o que diferenciou, no mundo, o desenvolvimento brasileiro na última década: a expansão de salários e direitos sociais; a formação de um mercado interno ampliado pelo aumento do consumo popular; a recuperação de alguma capacidade de planejamento estatal; a rejeição do projeto de integração subordinada à globalização neoliberal. 
A direita emparedou o Governo da Presidenta Dilma Rousseff em função da dominação que o dinheiro exerce na formação da opinião, por meio dos oligopólios da mídia, aproveitando os erros cometidos na formação dos preços públicos, na manutenção de alguns subsídios, combinados com a elevação das taxas de juros e a retração do investimento público. 
Todo ajuste ortodoxo de corte neoliberal se assenta em dois pilares: juros elevados e restrições orçamentárias para investimentos em infraestrutura e para programas de combate às desigualdades sociais e regionais. O “ajuste” como proposto no Brasil - não toca nas desigualdades de patrimônio e renda, penaliza principalmente os trabalhadores e camadas sociais vulneráveis, fragiliza as forças progressistas diante do avanço das forças conservadoras. 
O nosso “ajuste” deve ser outro. Deve garantir o crescimento com a ampliação dos investimentos para combater desigualdades sociais, regionais e gargalos produtivos. Deve potencializar um projeto de nação democrática e justa: a democratização da estrutura tributária brasileira é essencial para que o desenvolvimento soberano e inclusivo receba a contribuição dos que podem contribuir mais. 
Nesse sentido, o Imposto de Renda deve ser reduzido para trabalhadores e camadas médias, mas majorado, progressivamente, para grandes salários e lucros distribuídos. A tributação da riqueza acumulada deve contar com Imposto sobre as Grandes Fortunas e Grandes Heranças.  Finalmente, deve ser veementemente repelida a proposta de eliminar a independência do Banco Central em relação aos bancos que deve regular. 
Depois do repúdio do povo brasileiro durante a campanha presidencial à proposta de um Banco Central “Independente” (em relação ao governo eleito), reavivá-la no Congresso Nacional é uma atitude que denota um enorme afastamento dos representantes do povo em relação aos interesses da maioria da nação. 
A agenda mínima de reformas que nos unifica, imediatamente, quanto ao desenvolvimento, fundamenta-se no seguinte: rejeição da austeridade que é inepta para a retomada do crescimento; redução das taxas de juros; retomada do investimento público; reestruturação imediata do Imposto de Renda, com aumento das alíquotas para os muito ricos; taxação de Grandes Fortunas e Grandes Heranças; programa de largo alcance e qualidade técnica para combater a sonegação de impostos, políticas que devem ser debatidas na cena pública democrática, tanto no Parlamento como na relação direta do Governo com a sociedade.

Participação direta da cidadania nas decisões sobre políticas públicas 
A Constituição Brasileira abre a possibilidade de participação direta da cidadania (art. 14) e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LC 101/1999) recomenda que os governos procedam discussões públicas sobre o Orçamento. 
Esses preceitos ainda não se materializam em instituições e práticas efetivas. Consultas públicas, plebiscitos e referendos não devem ser eventos raros em uma democracia ampliada. 
É necessário construir mecanismos que efetivem a participação direta e desenvolvam a democracia na definição de políticas públicas, prioridades orçamentárias e formas de financiá-las que ampliem a justiça social.

Pela defesa da democracia, do trabalho e da soberania nacional 
Diante do avanço da direita, é necessário pensar hoje não apenas na estabilidade e na governabilidade democrática, mas na defesa de um programa mínimo que unifique as forças sociais comprometidas com a defesa da democracia, do trabalho e da soberania nacional. 
Para construir, debater e defender esse programa, é fundamental a constituição gradual de uma Frente Democrática pelas Reformas Populares. Uma Frente que aponte, nos processos eleitorais e nas lutas sociais, para uma nova governabilidade com base programática. A formação desta Frente é uma tarefa política de toda a esquerda, com participação ampla da sociedade civil não organizada em partidos e membros de partidos. 
Lutamos há décadas pela democracia contra as mesmas forças do atraso que, hoje, querem voltar a limitá-la. Lutemos em conjunto para que a democracia brasileira supere a nova ameaça reacionária, e atenda progressivamente aos anseios do povo brasileiro por menores desigualdades, mais direitos e oportunidades de vida digna. 

O Fórum 21, organização da sociedade civil constituída em dezembro de 2014, organizou uma Carta em defesa de temas caros a todos nós. A comissão final de redação foi formada por Luiz Gonzaga Belluzzo, Ladislau Dowbor, Leda Paulani, Reginaldo Moraes e por Pedro Paulo Zahluth Bastos. A Carta tem apoio dos movimentos sociais abaixo listados que também apoiaram o manifesto lido no Senado Federal na semana do dia 18 de maio de 2015 pelo Sendor Lindberg Farias. A Carta amplia os temas do manifesto para discutir outras reformas populares e conclama as forças de esquerda para formar uma frente para defendê-las.


Adere (Articulação dos Empregados Rurais de Estado de Mg)
Associação de Mulheres de Viamão Maria Quitéria - Presidenta: Joice Dutra
CUT Nacional – Central Única dos Trabalhadores – Executiva Nacional
Coletivo Brasil de Comunicação Social Intervozes
Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé
Consulta Popular
Federação das Mulheres Gaúchas - FMG - Presidenta: Adriana Damasceno
Feremg (Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de Minas Gerais
Levante Popular da Juventude
Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo –MTC
MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
Nação Hip Hop Brasil
Observatório da Mulher
Sindicato dos Assalariados Rurais da Região Sul De Minas Gerais
Sindicato dos Assalariados Rurais de Conceição Do Rio Verde Mg
Sindicato dos Assalariados Rurais de Guapé
Sindicato dos Assalariados Rurais de Tres Corações Mg
Sindicato dos Assalariados Rurais e Eloi Mendes
Sindicatos dos Assalariados Rurais de Carmo de Minas
UNE – União Nacional dos Estudantes 

O domingo da Trindade

Mateus 28,16-20: A Trindade Santa

Cada ano, após Pentecostes, desde o século XIV, nós celebramos a festa da Trindade Santa: a festa de Deus, o Deus único e trino, o Deus em pessoas. Eu lia o comentário de Gérard Sindt na revista Signes d’aujourd’hui, que dizia: “O nosso Deus é um Deus pessoal. Em Cristo, nós descobrimos Deus em pessoas (no plural), que nos ensina a nossa personalidade relacional” e – eu acrescentaria – comunional.
De fato, Deus é relação e comunhão com a sua criação, conosco. E por que isso? Simplesmente porque Deus é Amor. No Ângelus do dia 22 de maio de 2005, o Papa Bento XVI convidava as pessoas a reconhecer que Deus é único, que ele é Pai, Filho e Espírito Santo, que ele não é solidão, mas comunhão perfeita, pois Deus é Amor. Eis aí a grande revelação que Cristo nos trouxe: o Ser de Deus é o Amor em estado puro.
Então, Deus não poderia fazer outra coisa senão amar. De fato, o amor não existe se não for movimento, reciprocidade, dom, acolhida, relação e comunhão. Na história, Deus não cessou de se revelar e ele continua a fazê-lo hoje, pois se é Deus ele não pode ser e não pode existir mais que como Fonte de Amor, o amor criado que dá a vida, que se multiplica, que se expande e nos faz descobrir sempre mais Deus.
Para falar em Deus, precisamos defini-lo como relação, dom, partilha, comunicação, intercâmbio, comunhão. A única maneira de alcançar a totalidade é necessariamente três pessoas em Deus, porque o Amor tem isto de particular: é preciso que exista um terceiro: “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,12).
O Amor não volta àquele que ama; se dá a outro, daí seu crescimento e a sua fecundidade. Também, o Amor não se fusiona; ele estabelece uma relação interpessoal. É o que faz dizer ao padre francês Léon Paillot: “Deus, nosso Deus é essencialmente relação, intercâmbio. Mas é preciso uma terceira pessoa para que todos os Eu se tornem um Nós”.
Não podemos falar de um Deus Pai sem que haja uma relação de amor com um dos filhos gerados por ele. E se não houvesse nada além do que o Pai e o Filho, poderíamos pensar que eles se bastariam a si próprios: o Pai dá a vida e o Filho a recebe... Porém, isso faria um Deus limitado, centrado em si próprio. E, portanto, diz o teólogo Gérard Sindt: “Deus, na Bíblia, tende ao descentramento de si próprio, e é o Espírito que é o operador. Ele é a fecundidade operacional de Deus, a sua feminilidade e a sua maternidade. A feminidade, ela própria, é experiência de Deus”.
E Gérard Sindt acrescenta: “Quando se fala de pessoas em Deus, é sempre o Espírito que é mais difícil de expressar. Ele representa aqui a terceira pessoa, isto é, “nós”. Nós estamos envolvidos, portanto, do mistério de Deus, da Trindade. Também, para que haja comunhão, é preciso três pessoas; se não houvesse mais do que duas, seria simplesmente uma relação. Assim, o Espírito assegura a fecundidade do Amor do Pai ao seu Filho que partilha conosco.
Mas o que nos dizem as três leituras de hoje sobre Deus?
Deuteronômio 4,32-40: Estamos no Antigo Testamento, a Antiga Aliança, e o autor do Deuteronômio se maravilha diante deste Deus diferente dos outros deuses; não é uma força escura ou impessoal como os outros deuses: Deus está, juntamente, longe e perto: “Javé é o único Deus, tanto no alto do céu, como aqui em baixo, na terra” (Dt 4,39). Ele fala ao homem (Dt 4,33) e ele se escolheu um povo (Dt 4,34).
Essas duas coisas fazem parte da sua singularidade. Poderíamos ter pensado que Deus é incomunicável, que o mundo dos homens e o mundo de Deus não se encontram nunca, que eles não falam a mesma língua... Mas não! É tudo o contrário: com Deus existe uma comunicação possível, uma proximidade admirável, e não morremos! (Dt 4,33). Deus liberou seu povo da escravidão (Dt 4,34), e ele quer a felicidade dos seres humanos que ele escolheu (Dt 4,40).
Esse antigo texto do Deuteronômio não conhecia certamente o Deus Trino tal como o conhecemos hoje e que foi definido pela Igreja do século IV. Mas já podemos entrever sinais da Trindade, nos versículos 35-38, que o lecionário infelizmente cortou na liturgia deste domingo: fala-se da Palavra, do Verbo (segunda pessoa da Trindade), e do Fogo, do Espírito (terceira pessoa da Trindade). É uma antecipação do Deus relação e comunhão, tal como hoje é confessado.
Romanos 8,14-17: Na sua carta aos Romanos, São Paulo nomeia as três pessoas em Deus, sem mesmo conhecer o conceito da Trindade. Além do mais, ele nos integra na família trinitária: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rom 8,14). É o Espírito que segura o vínculo entre Deus e nós; ele nos tira dos nossos medos e das nossas escravidões, e nos faz reconhecer Deus como Pai (Rom 8,15).
Além disso, diz São Paulo, nós somos como Cristo: “E se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus, herdeiros junto com Cristo” (Rom 8,17). E São Paulo acrescenta: “uma vez que, tendo participado dos seus sofrimentos, também participaremos da sua glória” (Rom 8,17).
Mas atenção para não cair na teologia do martírio como necessidade de salvação! O que São Paulo quer dizer é que nas nossas experiências humanas de libertação e de sofrimento, nós somos como Cristo; assemelhamo-nos a ele. Assim como ele, nós também devemos assumir a nossa condição humana até o fim, isto é, até a morte, para ressuscitar como Cristo.
É evidente que no momento em que São Paulo escreve a sua carta, a perseguição cristã fazia parte do programa. Mas, hoje, como não é mais o caso, nós não devemos inventar silícios, como parecem propô-lo algumas correntes conservadoras cristãs. Nós não devemos levar mais do que os silícios que a vida nos impõe: os nossos limites humanos, as nossas capacidades, a doença, o sofrimento e a morte. A Sexta-Feira Santa precede sempre o Domingo de Páscoa. Foi o caso de Jesus de Nazaré e será o caso para nós também.
Mateus 28,16-20: Em nenhum lugar da Bíblia nós encontramos uma fórmula trinitária tão explícita e elaborada como no final do Evangelho de Mateus, onde assistimos ao envio missionário dos apóstolos, na noite da Páscoa: “Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28,19).
Segundo os exegetas, essa fórmula se constituiu na liturgia do batismo, no final do século I. Isso não quer dizer que o evangelista Mateus conhecia o Deus Trino como o conhecemos hoje; ele utiliza simplesmente o nome de Deus, revelado na história, como um Pai, por Jesus Cristo seu Filho, no Espírito de Cristo que nos habita. Devemos salientar que para Mateus o batismo não está reservado a um povo em particular; ele é universal: “todos os povos” (Mt 28,19).
A missão consiste, então, em batizar, em fazer discípulos. Não aderindo a uma doutrina, mas sim entrando numa comunidade de fé que se enraíza em Deus, pelo Espírito Santo que nos habita. É evidente que a pessoa que ensina é importante, mas ele diz respeito aos mandamentos que Cristo nos deu: “ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês” (Mt 28,20)... Porém, de fato, estes mandamentos se resumem num só: “Amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,12).
O nosso Amor deve ser fecundo, voltado aos outros, para que ele produza frutos, e que ele revele outros rostos do Deus Amor, outras pessoas em Deus, pelo Espírito Santo. Apesar das dúvidas que surgem e que persistem sobre Deus, da parte desses próximos (Mt 28,17), Cristo nos confirma a sua presença, pois ele mora em nós pelo seu Espírito: “ensinando-os a observar tudo o que ordenei avocês. Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).
Concluindo, eu gostaria simplesmente de propor a vocês esta bela reflexão do exegeta francês Jean Debruynne sobre o evangelho desse domingo: “Trata-se de fazer discípulos e fazer discípulos não é recrutar mão-de-obra ou procurar fiéis. Antes de qualquer coisa, trata-se de ir. Ir é partir, é sair. É ser livre. Ir é o contrário de estar fechado na verdade, e prisioneiro dos seus princípios. Ir é caminhar para a frente, e não de ré. Ir é um sinal de confiança. Vá! É uma decisão. Trata-se de aprender a guardar os mandamentos e não guardá-los na geladeira. O único mandamento é amar!”.
Raymond Gravel

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O saque continua

Amazônia: Velhos e novos instrumentos do saque
No inicio da invasão europeia os índios eram tolerados porque os portugueses e espanhóis necessitavam deles para localizar as riquezas de seu interesse e como mão-de-obra para explorá-las. Mas na medida em que o invasor foi criando os seus próprios instrumentos para localização e exploração das mesmas, foi dispensando os donos da casa e ficou agressivo, criando leis e instrumentos de dominação. Dentre as leis a injusta lei da propriedade privada da terra é simplesmente arrasadora para os povos indígenas.
A brutalidade contra os povos indígenas vem crescendo desde o início da colonização até hoje. No início atingia as comunidades enquanto retirava principalmente os homens das aldeias para escravizá-los aos interesses de exploração das riquezas descobertas e nas fazendas. No período moderno uma classe desses descendentes europeus procura simplesmente despojar os povos indígenas de seus territórios tirando-lhes todas as condições de sobrevivência, cultural e física.
Em meados do século XX todos os rios já haviam sido explorados e foi preciso ir território adentro para descobrir e espoliar os últimos depósitos das riquezas amazônicas. Agora os espoliadores já dispõe de todos os instrumentos, leis favoráveis, mapeamento das riquezas e maquinário para explorar o território, dispensando qualquer colaboração autóctone para transpor os obstáculos que se apresentam.
Assim todos os governos, ditatoriais e democráticos, começam a romper as florestas e o alto dos rios e igarapés como se fossem “vazios demográficos”. A entrega dos empreendimentos novos na Amazônia a empresas, ficções criadas pelo homem e por isso, sem consciência e sem responsabilidade, alivia, aparentemente, a ciência congênita ou consciência dos mandantes dos crimes atuais. E o almoxarifado da Amazônia começa a ser conhecido e saqueado em todas as suas dimensões: terra, rios, peixes, seixo, minerais, madeira, plantas medicinais, fontes energéticas... A gente que está aí, “não existe mais” e se existe não deveria existir, porque é apenas “estorvo do desenvolvimento”! A Zona Franca de Manaus, “vaca sagrada” dos governantes de hoje, foi um dos instrumentos modernos mais eficazes criados para desapropriar o povo Amazônida.
Em 1976, acompanhei o drama das populações, indígena e seringueira do Acre, quando a Ditadura Militar entregou os seringais a empresários sulistas, dispensando a mão-de-obra das famílias e comunidades ali existentes e pressionando-as a saírem sem rumo. Em longa caminhada entre o alto rio Purus e o Envira e na margem dos mesmos, encontrei famílias perplexas e sem destino. Tentei convencê-las sobre os seus direitos. No dia seguinte o barquinho do “marreteiro” em que viajava foi cercado por jagunços dos novos donos do Seringal Califórnia, já transformado em fazenda. Armados ameaçavam com xingamentos e apelavam para as novas leis criadas através da SUDAM para o (des)envolvimento da Amazônia.
Dias depois, quando numa favela de Feijó, formada por famílias seringueiras já expulsas, contava das frutas que havia comido na minha passagem por seringais abandonados por eles, todos caíram em pranto. Um ano depois subindo outro rio, o Juruá, me defrontei com dezenas de canoas com tolda improvisada, descendo o rio rumo Manaus. O refúgio final de toda esta gente foi a Zona Franca de Manaus.  Ali, já despejados de seus direitos, ficaram meros “invasores”. 90% dos bairros de Manaus foram criados por famílias despejadas do território da Amazônia. Vi as barracas desses “invasores” formando bairros como Compensa, Alvorada, Flores, até os mais recentes.
Muitos manauaras, descendentes dessas vítimas, que vivem hoje sobre o asfalto e o cimento e da “nova” educação imposta pelas autoridades, ainda não se deram conta a que serviu a Zona Franca, projeto espoliador dos direitos de seus pais e cremadora do seu futuro, achando que a sua expulsão do interior foi um benefício que as ditaduras lhes prestaram. Simultaneamente, com a Zona Franca, instalou-se por todo o território amazônico o agronegócio devastador da biodiversidade pela monocultura eurocêntrica e contaminadora do território mediante o uso de agrotóxicos.
As hidrelétricas começaram a barrar os rios. A população remanescente, já exígua, se tornou impotente para resistir à esses “monumentos da insanidade humana”: Balbina, Belo Monte, Girau, Santo Antonio... e hoje já são poucas as comunidades que dão respaldo aos Munduruku em sua resistência contra os projetos hidrelétricos ameaçadores do mais belo sistema fluvial do mundo: o Tapajós.
Mineradoras e garimpos ferem por toda a parte o ecossistema e agridem as leis do país, invadindo territórios indígenas e saqueando sem controle as riquezas minerais e ameaçando a gente que resiste em seus domínios. A propósito leia-se: “Mineração e violações de direitos: O Projeto Ferro Carajás S11D, da VALE SA. Relatório da Missão de Investigação e Incidência”, de Cristiane Faustino e Fabrina Furtado. Apontem-nos pelo menos um posto ou centro sério de controle mineral em toda a região amazônica.
Hoje a grande preocupação dos mandantes da Amazônia é a construção de mais e mais portos para acelerar o saque. Estive há poucas semanas em Santarém, hoje um dos alvos principais, e constatei in loco, a virulência dos saqueadores para acelerar a construção de portos para a exportação de commodities: madeira, soja, minérios. E eles vêm do mundo inteiro. A Cargill já controla o principal porto da cidade.
Mas o mais ousado projeto é dos chineses, que pretendem construir em Santarém, além de um porto, uma estrada de ferro Santarém-São Paulo. Desde o Império praticamente não se construiu mais nenhuma estrada de ferro de interesse do povo brasileiro, para sua locomoção e para transporte de seus produtos. Mas quando se trata de saquear a Amazônia, há dinheiro para tudo. Está aí a estrada de ferro Carajás-São Luiz, de propriedade da Vale do Rio Doce, ex-estatal, praticamente doada pelo Governo FHC a donos privados.
Para incentivar este modelo de exportação de commodities, modernizam-se portos, constroem-se hidrelétricas e linhões que conduzem a energia rumo aos centros onde se articula a entrega da região ao poder multinacional. E toda essa modernização, apoiada pelas autoridades locais e distantes, só tem uma finalidade: agilizar o saque do almoxarifado Amazônia.
Os interesses das grandes empresas vão prevalecendo com muito custo econômico para o país e sem os consequentes benefícios sociais. Todos estes empreendimentos são construídos sem consulta séria à população afetada, no caso, comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas e sem atender a proteção ambiental. Aos pobres atingidos por estes projetos, como ao povo do Antigo Testamento, em sua impotência, resta apenas pedir a maldição de Deus para as pessoas que comandam empresas iníquas e constroem obras da maldade. Segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), responsável pela autorização da atividade portuária, “70% da movimentação de embarcações na Amazônia hoje é para o transporte de minério de ferro, seguido dos produtos metalúrgicos e da soja”.
Em todo esse processo, de 1540 até hoje, uma coisa permanece constante: o perfil espoliador de todos os mandantes, dos colonos portugueses aos dirigentes atuais. Nada construíram realmente visando o povo local e regional. Suas cabeças continuam poluídas com o mesmo sentimento da Família Real Portuguesa: saquear, saquear, exportar e exportar. Veja a mais recente descoberta. O Governador do Amazonas José Melo descobriu que a água da Amazônia também pode servir como mercadoria de exportação.
Enquanto isto, o seixo dos rios, necessário para a sobrevivência da vida subaquática foi espoliada para a construção dos arranha-céus da Zona Franca de Manaus. E a alimentação, fácil e sadia, das comunidades amazônicas vai desaparecendo. Nos últimos 40 anos o peixe diminuiu em tamanho e quantidade. Da mesma forma as florestas. As deliciosas frutas restantes na floresta devastada que antes alegravam grandes e pequenos e eram acessíveis, sem dinheiro, agora viraram mercadoria, sumindo paulatinamente da mesa do povo empobrecido da Amazônia. 
Casa da Cultura do Urubuí, 15 de maio de 2015,

Egydio Schwade

Semana de Oração pela Unidade Cristã (8)

REFLEXÕES BÍBLICAS E ORAÇÕES (8)


Testemunho: Muitos tinham acreditado por causa da palavra damulher... (João 4,39)
Textos: Ex 3,13-15; Salmo 30; Rm 10,14-17; Jo 4,27-30.39-40 
Comentário
Com o coração transformado, a mulher samaritana parte em missão. Ela anuncia a seu povo que tinha encontrado o Messias. Muitos acreditaram em Jesus “por causa da palavra da mulher” (João 4,39). A força do seu testemunho vem da transformação de sua vida, causada por seu encontro com Jesus. Graças à sua atitude de abertura, ela reconheceu naquele estrangeiro “uma fonte que jorrará para a vida eterna” (João 4,14).
A missão é um elemento chave da fé cristã. Todo cristão é chamado a anunciar o nome do Senhor. O papa Francisco disse aos missionários: “onde quer que vocês possam ir, seria bom pensar que o Espírito de Deus sempre vai à nossa frente”. Missão não é proselitismo. Aqueles que verdadeiramente anunciam Jesus se aproximam dos outros em diálogo amoroso, abertos a uma aprendizagem mútua, e respeitando a diferença. Nossa missão exige de nós que aprendamos a beber da água viva sem nos apossarmos do poço. O poço não nos pertence. Nós ganhamos vida a partir desse poço, o poço de água viva que nos é dado por Cristo.
Nossa missão precisa ser um trabalho tanto de palavra como de testemunho. Buscamos viver o que proclamamos. O falecido arcebispo brasileiro D. Helder Câmara disse certa vez que muitos se tornaram ateus porque ficaram desiludidos com pessoas de fé que não praticam o que pregam. O testemunho da mulher levou sua comunidade a acreditar em Jesus porque seus irmãos e irmãs viram coerência entre as palavras dela e a própria transformação que ela demonstrava.
Se nossa palavra e nosso testemunho são autênticos, o mundo ouvirá e acreditará. “Como creriam nele, sem o terem ouvido?” (Rm 10,14)
Questões
1.    Que relação existe entre unidade e missão?
2.    Você conhece pessoas em sua comunidade cuja história de vida é um testemunho de unidade?
Oração

Deus, fonte de água viva, transforma-nos em testemunhas de unidade tanto através de nossas palavras como de nossas vidas.Ajuda-nos a entender que não somos os donos do poço e dá-nos a sabedoria para acolher a mesma graça uns nos outros. Transforma nossos corações e nossas vidas para que possamos ser verdadeiros portadores da Boa Nova. E leva-nos sempre ao encontro com o outro, como um encontro contigo.  Isso te pedimos em nome de teu Filho Jesus Cristo. na unidade do Espírito Santo. Amém.

domingo, 24 de maio de 2015

Semana de Oração pela Unidade Cristã (7)

REFLEXÕES BÍBLICAS E ORAÇÕES (7)


Testemunho: Dá-me de beber! (João 4,7)
Textos: Nm 20,1-11; Salmo 119,10-20; Rm 15,2-7; Jo 4,7 
Comentário
Os cristãos deveriam estar confiantes de que a atitude de encontrar e partilhar experiências com o outro, mesmo com outras tradições religiosas, pode nos transformar e nos ajudar a mergulhar nas profundezas do poço. O ato de nos aproximarmos daqueles que para nós são estrangeiros, com o desejo de beber de seu poço, nos abre para as “maravilhas de Deus” que proclamamos. No deserto, o povo de Deus ficou sem água e Deus enviou Moisés e Aarão para tirar água da rocha. Da mesma maneira, Deus muitas vezes atende a nossas necessidades através de outros. Quando pedimos ao Senhor em nossas necessidades, como fez a samaritana ao pedir a Jesus “Senhor, dá-me desta água”, talvez o Senhor já tenha respondido a nossas preces colocando nas mãos daqueles que  estão próximos aquilo que pedimos. Assim, precisamos também nos voltar para eles e pedir “Dá-me de beber”.
Às vezes a resposta a nossas necessidades já está na vida e na boa vontade das pessoas à nossa volta. Do povo guarani do Brasil aprendemos que, em sua língua, não existe palavra equivalente ao termo “religião” como algo separado do resto da vida. A expressão que eles costumam usar significa literalmente “nosso bom modo de ser” (“ñande teko katu”). Essa expressão se refere ao sistema cultural por inteiro, o que inclui a religião. A religião, portanto, é parte do sistema cultural guarani, bem como o seu modo de pensar e ser (teko).Isso se relaciona com tudo que melhora e desenvolve a comunidade e conduz ao seu “bom modo de ser” (teko katu). O povo guarani nos faz lembrar que o cristianismo no início foi chamado “o Caminho” (Atos 9,2). “O caminho” ou “nosso bom modo de ser” é o modo de Deus trazer harmonia a todas as partes da nossa vida.
Questões
1.    Como sua compreensão e sua experiência de Deus têm sido enriquecidas pelo encontro com outros cristãos?
2.    O que as comunidades cristãs podem aprender da sabedoria indígena e de outras tradições religiosas em sua região?
Oração
Deus da vida, que cuidas de toda a criação e nos chamas para a justiça e a paz, que a nossa segurança não venha das armas, mas do respeito. Que a nossa força não seja de violência, mas de amor. Que a nossa riqueza não esteja no dinheiro, mas na partilha. Que o nosso caminho não seja o da ambição, mas o da justiça. Que a nossa vitória não venha da vingança, mas do perdão. Que a nossa unidade não esteja na busca por poder, mas no vulnerável testemunho da tua vontade. Com abertura e confiança, possamos defender a dignidade de toda a criação, partilhando, hoje e sempre, o pão da solidariedade, da justiça e da paz. Isso te pedimos em nome de Jesus, teu santo Filho, nosso irmão, que, como vítima de nossa violência, mesmo do alto da cruz, deu a nós todos o perdão. Amém.

Que o Espirito Santo nos guie! (7)

Invocações ao Espírito Santo

Espírito Santo,
Tu, que és a ebulição das águas no início da criação, dá ao universo o dinamismo que o faz faz crescer e chegar à plenitude do seu desenvolvimento.
Tu, que deste a Abraão a coragem de partir rumo a uma terra desconhecida, faz de cada um dos nossos dias uma nova partida rumo ao Reino de Deus.
Tu, que conduziste Moisés e seu povo através do deserto, sê a Nuvem luminosa que ilumina nossa peregrinação nesta terra.

Espírito Santo,
Tu, que destes a fé e a audácia a Davi frente ao gigante Golias, dá-nos as armas espirituais para vencer as forças do mal.
Tu, que destes Sabedoria e inteligência ao rei Salomão, faz de nós pedras vivas do novo Templo espiritual de Jesus Cristo.
Tu, que interpelaste os profetas a defender o estrangeiro, a viúva e o órfão, dá-nos a coragem de lutar contra toda forma de injustiça social.
Tu que, apesar das derrotas e deportações, mantiveste a esperança dos exilados, sê a esperança de todos aqueles/as que devem deixar sua casa e sua pátria.

Espírito Santo,
Tu, que enviaste João Batista a preparar os caminhos do Senhor, faz de nós testemunhas que abram os corações e mentes à vinda do Senhor.
Tu, que cobriste a Virgem Maria com tua Sombra para que ela concebesse o Salvador do mundo, envolve-nos com tua Presença, a fim de que possamos encarnar o Evangelho.
Tu, que conduziste Jesus ao deserto para enfrentar o Adversário, ensina-nos, pela oração e pelo jejum, a vencer as tentações do Maligno.

Espírito Santo,
Tu, que empurravas Jesus ao silêncio para encontrar o Pai, sê a fonte e o dinamismo do nosso diálogo filial.
Tu que, na montanha da transfiguração, abriste os olhos dos apóstolos, sê a Nuvem luminosa que ilumina e fecunda o silêncio das nossas orações.
Tu, que inspiraste o apóstolo Pedro a confessar sua fé no Cristo Senhor, dá-nos a inteligência do coração para reconhecer em Jesus o Verbo de Deus.

Espírito Santo,
Tu, que és o Consolador prometido por Jesus a todos aqueles/as que acreditam nele, atualiza em nós sua Palavra e conduze-nos à Verdade.
Tu, que és a seiva do Amor que vivifica toda a Igreja, vinha de Cristo, fecunda nossas ações e nossa comunhão com nossos irmãos e irmãs.
Tu que, na luz da Páscoa, ressuscitaste Jesus dentre os mortos, faz com que cresçam em nós as sementes da vida nova que recebemos no batismo.
Tu, que moveste os apóstolos a escancarar as portas do cenáculo, ajuda-nos a enfrentar com coragem os novos desafios do mundo de hoje.


(Michel Hubaut, Prières à l’Esprit Saint, Desclée de Brouwer, 199, p. 110-112)

sábado, 23 de maio de 2015

Uma súplica ao Espírito Santo

INVOCAÇÃO AO ESPÍRITO



Vem Espírito Santo!
Desperta a nossa fé débil, pequena e vacilante.
Ensina-nos a viver confiando no amor insondável de Deus nosso Pai a todos os Seus filhos e filhas, estejam dentro ou fora da Tua Igreja.
Se se apaga esta fé em nossos corações, depressa morrerá também em nossas comunidades e Igrejas.

Vem Espírito Santo!
Faz que Jesus ocupe o centro da Tua Igreja.
Que nada nem ninguém O suplante nem O obscureça.
Não vivas entre nós sem atrair-nos para o Teu Evangelho e sem converter-nos para O seguir.
Que não fujamos da Sua Palavra, nem nos desviemos do Seu mandato de amor.
Que não se perca no mundo a Sua memória.

Vem Espírito Santo!
Abre os nossos ouvidos para escutar as Teus chamamentos, os que nos chegam hoje, desde as interrogações, sofrimentos, conflitos e contradições dos homens e mulheres dos nossos dias.
Faz-nos viver abertos ao Teu poder para gerar a fé nova que necessita esta sociedade nova.
Que, na Tua Igreja, vivamos mais atentos ao que nasce que ao que morre, com o coração suportado pela esperança e não minado pela nostalgia.

Vem Espírito Santo!
Purifica o coração da Tua Igreja.
Coloca verdade entre nós.
Ensina-nos a reconhecer os nossos pecados e limitações.
Recorda-nos que somos como todos: frágeis, medíocres e pecadores.
Liberta-nos da nossa arrogância e falsa segurança.
Faz que aprendamos a caminhar entre os homens com mais verdade e humildade.

Vem Espírito Santo!
Ensina-nos a olhar de forma nova a vida, o mundo e, sobretudo, as pessoas.
Que aprendamos a olhar como Jesus olhava aos que sofrem, aos que choram, aos que caem, aos que vivem sós e esquecidos.
Se muda o nosso olhar, mudará também o coração e o rosto da Tua Igreja.
Os discípulos de Jesus, irradiaremos melhor a Sua proximidade, a Sua compreensão e solidariedade para com os mais necessitados.
Iremos parecer-nos mais ao nosso Mestre e Senhor.

Vem Espírito Santo!
Faz de nós uma Igreja de portas abertas, coração compassivo e esperança contagiosa.
Que nada nem ninguém nos distraia ou desvie do projeto de Jesus:
fazer um mundo mais justo e digno, mais amável e ditoso, abrindo caminhos ao reino de Deus.

José Antonio Pagola