quarta-feira, 27 de maio de 2015

SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE (ANO B – 31.05.2015)

A comunhão é o DNA e a vocação de todas as criaturas.

A solenidade de hoje nos convida a celebrar Deus como adorável mistério de amor. Todos alimentamos um pretensioso desejo de conhecer Deus e de falar sobre ele. Mas Deus estaria à nossa disposição e desprotegido frente à nossa ânsia de conhecer, manipular e dominar?  Conhecemos pregadores que falam de Deus como se soubessem tudo sobre ele, mas, na verdade, discorrem sobre seus próprios conceitos. A fala compulsiva sobre Deus é em geral uma defesa contra a verdadeira experiência de Deus, que é o único ponto de partida seguro para falar sobre o mistério divino...
Os arquétipos são imagens e valores que mexem com o ser humano em sua profundidade: ordenam ou confundem, escravizam ou libertam.  São o filtro mediante o qual olhamos tudos e vemos a nós mesmos. Ora, Deus é um dos arquétipos mais profundos e influentes da nossa vida. Se temos uma imagem de Deus deformada ou doentia, acabamos deformando-nos e adoecendo. Se desconfiamos muito de nós mesmos e temos a impressão de que sempre estamos errados, acabamos imaginando um Deus observador e desconfiado, pronto a pedir provas e julgar o ser humano...
A solenidade da Santíssima Trindade quer sublinhar que a imagem correta de Deus não é a de um sujeito solitário, absoluto, onipotente e onisciente, mas uma imagem que lembra comunhão no amor, convergência no ser-para-os-outros, abertura e acolhida. Deus é o arquétipo da perfeita comunhão, uma comunhão na qual cada qual recebe tudo do outro e se faz dom radical ao outro. Esta comunhão na acolhida do outro e na doação amorosa de si é também a vocação das criaturas. O Papa Francisco lembra que misericórdia é a palavra que melhor expressa o mistério da Santíssima Trindade, que do coração da Trindade flui uma grande e incessante torrente de misericórdia.
Nossa primeira atitude diante do Mistério de comunhão, que é a essência de Deus e das criaturas, mais que o espanto reflexivo, é a adoração agradecida. “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém!”  Adoração é a resposta própria de quem se descobre pequeno e impotente e, ao mesmo, destinatário de um amor que o faz capaz, digno e grande. O mistério de Comunhão e de Bondade nos põe de joelhos e nos leva a exclamar “Glória!” Assim, quando estão diante de Jesus ressuscitado, os discípulos ajoelham-se reverentes e obedientes...
Glorificar significa honrar e fazer brilhar, e nós glorificamos a Deus porque ele mesmo nos glorifica, dando-nos o título de filhos e filhas, conferindo-nos um explendor que nos assemelha a ele. Glorificamos a Deus quando desfazemos as imagens ameaçadoras que o identificam com um ditador onipotente, um juiz implacável, um doutor onisciente e um ser sem coração, e proclamamos com a boca e com a vida sua misericórdia, sua compaixão e seu amor pela justiça e pelo direito. “A glória de Deus é o ser humano vivo e a vida do ser humano é a visão de Deus”, ensina Santo Irineu de Lyon.
A experiência mística do amor de Deus nos compromete necessariamente com a missão de amar e de promover a vida plena das criaturas de Deus. “Vão e façam com que  todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês.” É uma missão que se abre a todas as nações, que desconhece fronteiras e muros que dividem, uma missão enraizada e focalizada no amor. Fazer discípulos significa acolher e congregar no amor aqueles que são diferentes, fazer-se próximo daqueles que estão longe.
O batismo, que sinaliza o discipulado e nele nos introduz, é a assinatura de uma nova lealdade, não mais aos doutores da lei e ao imperador, mas ao Deus Uno e Trino, à Divina Comunhão, da qual a Eucaristia é sacramento e celebração.  Nele expressamos nossa feliz condição: somos filhos e filhas do universo, irmãos e devedores às estrelas, à luz, ao ar e à terra, pois todos esses elementos habitam e cooperam em nós. Paulo sublinha essa realidade quando diz que somos filhos e herdeiros de Deus em Jesus Cristo. Não somos fragmentos isolados, mas filhos da comunhão que habita todas as coisas!
Deus amável, Mistério de Comunhão sem limites, regaço de onde partimos e para onde desejamos retornar: envia teu Espírito para que, em nós, ele grite e anuncie que és pai e mãe e nos ajude a proclamar que todas as criaturas são nossas irmãs. Amor paterno, materno e fraterno, abre o nosso ser à ação do teu Espírito de comunhão, a fim de que ele nos transforme em pessoas livres e solidárias, agentes da liberdade no mundo, anunciadoras e criadoras da comunhão que associa todas as criaturas e faz  brilhar nelas o teu insondável mistério de comunhão. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Deuteronômio 4,32-34.39-40 * Salmo 32 (33) * Carta Romanos 8,14-17 * Evangelho de Mateus 28,16-20)

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