sexta-feira, 31 de julho de 2015

DÉCIMO OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO B – 02.08.2015)

Jesus nos pede uma mudança radical no modo de pensar.

A cultura popular continua viva para nos lembrar que o mês de agosto não costuma ser portador de bons presságios. No Sul do Brasil, as mudanças bruscas de temperatura abalam a saúde de muita gente, especialmente das pessoas idosas. Mas as comunidades católicas desdizem algumas crenças das tradições populares e consagram o mês de agosto às vocações eclesiais, dedicando uma semana às vocações ordenadas, uma semana aos pais e às famílias, uma semana à vida religiosa consagrada e uma semana às vocações à vida leiga, especialmente às catequistas. Hoje, tentemos compreender a vocação e a missão do padre à luz da Palavra que a Igreja sugere para o primeiro domingo de agosto.
Com a ajuda de Felipe, dos demais discípulos e de um menino anônimo, Jesus havia saciado a fome da multidão a partir de alguns pães e peixes. Depois de pedir que as sobras não fossem desperdiçadas, ele se retirara sorrateiramente, pois o povo entusiasmado queria entroná-lo como rei. Ainda chocados com o que Jesus havia feito, os próprios discípulos se surpreendem quando percebem que Jesus não está mais com eles. Desconcertados com o sinal realizado pelo mestre e com sua recusa do poder, tiveram que empreender sozinhos a travessia do lago, enfrentando o vento, a noite e a agitação do mar.
Confusos, os discípulos abandonaram o povo carente e sofrido. Mas, o dando-se conta de que Jesus e os discípulos haviam partido, o povo conseguiu vaga noutros barcos e foi procurar Jesus do outro lado do lago. Ele procura Jesus como uma última tábua de salvação, esperando que Jesus garanta seu humano direito à alimentação. Mas a atitude de Jesus diante da multidão parece rude e desconcertante. “Vocês estão me procurando, não porque viram os sinais, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos.” Sua discordância com as motivações que moviam o povo é mais do que clara.
Será que a compaixão de Jesus diante de um povo cansado e abatido se havia esgotado? Será que vem daqui a frieza com que recebemos o povo pobre que, alentado por sua fé tradicional, vem às nossas capelas, paróquias e santuários pedindo sacramentos e bênçãos? Não é isso! O que Jesus faz é chamar a atenção para algo mais fundamental que a simples ação de matar a fome de um dia: o empenho de todos numa prática social e econômica alternativa, a única capaz de garantir para todos um pão que não se corrompe. Jesus aponta para o projeto do Reino de Deus, centrado na partilha.
Jesus não se limita a reprovar o povo que conta com sua ajuda material e não consegue entender que ela apenas sinaliza algo mais importante e fundamental. E exorta: “Não trabalhem pelo alimento que se estraga; trabalhem pelo alimento que dura para a vida eterna... É este o alimento que Filho do Homem dará a vocês, porque é ele que Deus marcou com seu selo.” Jesus não veio distribuir o duro e amargo pão das sopas populares, mas aquele fermentado e assado pela Justiça, obra coletiva do povo organizado e seus apoiadores. E confia esta obra de Deus aos seus discípulos e discípulas...
Fazer a obra de Deus consiste essencialmente em acreditar naquele que enviou Jesus, dar crédito àquele que achou bem não enviar alguém sabido e poderoso, mas uma pessoa vulnerável, alguém que não pode oferecer pacotes de soluções, mas coloca sinais e dá o melhor de si pelos outros. O pão que não se estraga e dura para sempre é o dom de si mesmo, o dom da própria vida. E é essa é a obra que glorifica a Deus. Não podemos esquecer que doutrina religiosa dá segurança mas também escraviza, e que o alimento distribuído sem custos também embota a inteligência, acomoda e humilha.
Para aqueles que perguntavam a Jesus “qual é a tua obra?”, a dificuldade real era reconhecer na ação solidária e compassiva de um simples filho de homem a potente e transformadora ação de Deus. Na verdade, Jesus não está preocupado apenas distribuir pão para matar a fome. O sinal que ele oferece é a cooperação e a articulação dos dons e possibilidades que estão escondidas no próprio povo, inclusive nas pessoas aparentemente mais fracas e mais humildes. É aqui que reside o fermento que resulta num pão que não se estraga.
Jesus, mestre que fazes dos caminhos uma escola de vida, ajuda-nos a compreender os sinais que realizas, a começar pela Eucaristia. Não deixes que a transformemos em ritualismo mágico e intimista. Ajuda os ministros ordenados, generosos e limitados como todos nós, a continuar tua obra, tornando visíveis teus sinais de compaixão e de solidariedade; que eles sejam homens novos, transformados e regenerados na justiça que vem da verdade. E ajuda-nos a vencer a paixão enganadora, aquela que canoniza os poderes e poderosos e menospreza a mística do fermento e da semente. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Livro do êxodo 16,2-4.12-15 * Salmo 77 (78) * Carta aos Efésios 4,17.20-24* Evangelho de S. João 6,24-35)

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O pão da vida é um caminho!

O CORAÇÃO DO CRISTIANISMO

As pessoas necessitam de Jesus e procuram-no. Há algo Nele que as atrai, mas todavia não sabem exatamente por que e para quê o procuram. Segundo o evangelista, muitos fazem-no porque no dia anterior distribuiu-lhes pão para saciar a sua fome.
Jesus começa a conversar com eles. Há coisas que convêm aclarar desde o princípio. O pão material é muito importante. Ele mesmo os ensinou a pedir a Deus «o pão de cada dia» para todos. Mas o ser humano necessita de algo mais. Jesus quer oferecer-lhes um alimento que possa saciar para sempre a sua fome de vida.
As pessoas intuem que Jesus lhes está a abrir um horizonte novo, mas não sabem que fazer, nem por donde começar. O evangelista resume as suas interrogações com estas palavras: «e que obras temos que fazer para trabalhar no que Deus quer?». Há neles um desejo sincero de acertar. Querem trabalhar no que Deus quer, mas, acostumados a pensar tudo a partir da Lei, perguntam a Jesus que obras, práticas e observâncias novas têm que ter em conta.
A resposta de Jesus toca o coração do cristianismo: «a obra (no singular!) que Deus quer é esta: que acrediteis Naquele que foi enviado». Deus só quer que creiam em Jesus Cristo, pois é a grande dádiva que Ele enviou ao mundo. Esta é a nova exigência. Nisto têm de trabalhar. O resto é secundário.
Depois de vinte séculos de cristianismo, não necessitaremos de descobrir de novo que toda a força e originalidade da Igreja estão em crer em Jesus Cristo e segui-Lo? Não necessitamos passar da atitude de adeptos de uma religião de «crenças» e de «práticas», a viver como discípulos de Jesus?
A fé cristã não consiste primordialmente em ir cumprindo corretamente um código de práticas e observâncias novas, superiores às do antigo testamento. Não. A identidade cristã está em aprender a viver um estilo de vida que nasce da relação viva e confiada em Jesus, o Cristo. Vamo-nos fazendo cristãos na medida em que aprendemos a pensar, sentir, amar, trabalhar, sofrer e viver como Jesus.
Ser cristão exige hoje uma experiência de Jesus e uma identificação com o Seu projecto que não se requeria anos atrás para ser um bom praticante. Para subsistir no meio da sociedade laica, as comunidades cristãs necessitam cuidar mais que nunca da adesão e do contacto vital com Jesus, o Cristo.

José Antonio Pagola

terça-feira, 28 de julho de 2015

O discurso de Jesus sobre o pao da vida

Quem vem a mim nunca mais terá fome!  (João 6,22-40)

Situando
Neste discurso do Pão da Vida (Jo 6,22-71), por meio de um conjunto de sete diálogos, o evangelista explica para os leitores e as leitoras o significado profundo da multiplicação dos pães como símbolo da Ceia Eucarística. É um diálogo bonito, mas exigente. O povo fica chocado com as palavras de Jesus. Mas Jesus não cede nem muda as exigências. O discurso parece um funil. Na medida em que avança, é cada vez menos gente que sobra para ficar com Jesus. No fim, só sobram os doze, e nem assim pode confiar em todos eles.
Quem lê o Quarto Evangelho superficialmente pode ficar com a impressão de que João repete sempre a mesma coisa. Lendo com mais atenção, perceberá que não se trata de repetição. O Quarto Evangelho tem um jeito próprio de repetir o mesmo assunto, mas é num nível cada vez mais alto ou mais profundo. Parece uma escada em caracol. Girando você volta ao mesmo lugar, mas num nível mais alto. Assim é o discurso sobre o Pão da Vida. É um texto que exige toda uma vida para meditá-lo e aprofundá-lo. Por isso, não se preocupe se não entender logo tudo. Um texto assim devemos ler, meditar, ler de novo, repetir, ruminar, como se faz com uma bala gostosa. Vai virando e virando na boca, até se gastar.

Comentando
1º Diálogo: O povo procura Jesus porque quer mais pão (João 6,22-27) 
O povo viu o milagre, mas não o entendeu como um sinal de algo mais alto ou mais profundo. Parou na superfície: na fartura de comida. Buscou pão e vida, mas só para o corpo. Para o povo, Jesus fez o que Moisés tinha feito no passado: deu alimento farto para todos. Indo atrás de Jesus, queria que o passado se repetisse. Mas Jesus pediu que o povo desse um passo. Além do trabalho pelo pão perecível, deveria trabalhar também pelo alimento não perecível. Este novo alimento é que traz a vida que dura para sempre.
2º Diálogo: Jesus pede para o povo trabalhar pelo pão verdadeiro (João 6,28-33) 
O povo pergunta: “O que fazer para realizar este trabalho (obra) de Deus?” Jesus responde: “Acreditar naquele que Deus enviou!”, isto é, crer em Jesus. O povo reage: “Então, dê-nos um sinal para a gente saber que você é o enviado de Deus! Nossos pais comeram o maná que foi dado por Moisés!” Para eles, Moisés é o grande líder do passado, no qual acreditam. Se Jesus quer que o povo acredite nele, deve fazer um sinal maior que o de Moisés... Jesus responde que o pão dado por Moisés não era o pão verdadeiro, pois não garantiu a vida para ninguém. Todos morreram. O pão verdadeiro de Deus é aquele que vence a morte e traz vida. Jesus tenta ajudar o povo a se libertar dos esquemas do passado. Para ele, fidelidade ao passado não significa fechar-se nas coisas de antigamente e recusar a renovação. Fidelidade ao passado é aceitar o novo que chega como fruto da semente plantada no passado.
3º Diálogo: O pão verdadeiro é fazer a vontade de Deus (João 6,34-40)
O povo pede: “Senhor, dá-nos sempre desse pão!” Pensavam que Jesus estivesse falando de um pão especial. Então Jesus responde claramente: “Eu sou o pão da vida!” Comer o pão do céu é o mesmo que crer em Jesus e aceitar o caminho que ele ensinou, a saber: “O meu alimento é fazer a vontade do Pai que está no céu!” (Jo 4,34). Este é o alimento verdadeiro que sustenta a pessoa, dá rumo e traz vida nova.
4º Diálogo: Quem se abre para Deus aceita Jesus e a sua proposta (João 6,41-51) 
A conversa se torna mais exigente. Agora são os judeus, os líderes do povo, que murmuram: “Esse não é Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como é que ele pode dizer que desceu do céu?” Eles pensam conhecer as coisas de Deus. Na realidade, não é nada disso. Se fossem realmente abertos e fiéis a Deus, sentiriam dentro de si o impulso de Deus atraindo-os para Jesus e reconheceriam que Jesus vem de Deus (Jo 6,45). Na celebração da Páscoa, os judeus lembravam o pão do deserto. Jesus os ajuda a dar um passo. Quem celebra a Páscoa, lembrando só o pão que os pais comeram no passado, vai acabar morrendo como todos eles. O verdadeiro sentido da Páscoa não é lembrar o maná que caiu do céu, mas sim aceitar Jesus como o Pão da Vida e seguir pelo caminho que ele ensinou. Não é comer a carne do cordeiro pascal, mas sim comer a carne de Jesus, que desceu do céu para a vida do mundo!
5º Diálogo: Carne e sangue: expressão da vida e da doação total (João 6,52-58) 
Os judeus reagem: “Como esse homem pode dar-nos a sua carne para comer?” Eles não entenderam as palavras de Jesus, porque tomaram tudo ao pé da letra. Era perto da Páscoa. Dentro de poucos dias, todos iam comer o cordeiro pascal na celebração da noite da páscoa. Comer a carne de Jesus significava aceitar Jesus como o novo Cordeiro Pascal, cujo sangue os libertaria da escravidão. Por respeito à vida, o AT proibia comer sangue (Dt 12,16.23; At 15,29). Sangue era o sinal da vida. Beber o sangue de Jesus significava assimilar a mesma maneira de viver que marcou a vida de Jesus. O que traz vida não é celebrar o maná do passado, mas sim comer este novo pão que é Jesus, a sua carne e o seu sangue. Participando da Ceia Eucarística, assimilamos a sua vida, a sua doação e entrega.
6º Diálogo: Sem a luz do Espírito não se entendem estas palavras (João 6,59-66) 
Aqui termina o discurso de Jesus na sinagoga de Cafarnaum. Muitos discípulos achavam que Jesus estava indo longe demais, que acabava com a celebração da Páscoa, que se colocava no lugar mais central de nossa religião. Por isso, muita gente se desligou da comunidade e não ia mais com Jesus. Jesus reagiu dizendo: “É o espírito que dá vida, a carne para nada serve. As palavras que vos disse são espírito e vida.” Não devem tomar ao pé da letra as coisas que ele diz. Só mesmo com a ajuda da luz do Espírito Santo é possível entender o sentido pleno de tudo que Jesus falou (Jo 14,25-26; 16,12-13).
7º Diálogo: Confissão de Pedro (João 6,67-71)
No fim sobram só os doze. Jesus diz a eles: “Se quiserem, podem ir embora!” Jesus não fazia questão de ter muita gente. Nem mudava o discurso quando a mensagem não agradava. Jesus falava para revelar o Pai e não para agradar a quem quer que fosse. Preferia permanecer só do que estar acompanhado por pessoas que não se comprometiam com o projeto do Pai. A resposta de Pedro foi bonita: “A quem iremos? Você tem palavras de vida eterna!” Mesmo sem entender tudo, Pedro aceitou Jesus e creu nele. Apesar de todos os seus limites, Pedro não era como Nicodemos que queria ver tudo bem claro de acordo com as suas próprias ideias. E, mesmo assim, entre os doze havia gente que não aceitava a proposta de Jesus.
Alargando
O Sinal do Novo Êxodo
O sinal da multiplicação dos pães aconteceu próximo da Páscoa (Jo 6,4). A Festa da Páscoa era a memória perigosa do Êxodo, a libertação do povo das garras do faraó. Assim, todo o episódio narrado neste capítulo tem um paralelo com os episódios relacionados com a Festa da Páscoa, tanto com a libertação do Egito quanto com a caminhada do povo no deserto em busca da terra prometida. Apresentaremos este paralelo nos pequenos blocos que formam o capítulo 6 do Evangelho de João:
A multiplicação dos pães (Jo 6,1-15)
Jesus tem diante de si a multidão faminta e o desafio de garantir o alimento para todos. Da mesma maneira, Moisés enfrentou este desafio durante a caminhada do povo pelo deserto (Ex 16,1-35; Nm 11,18-23). Depois de comer, a multidão saciada reconhece Jesus como o “Profeta que devia vir ao mundo” (Jo 6,14) dentro do que pede a Lei da Aliança (Dt 18,15-22).
Jesus caminha sobre o mar (Jo 6,16-21)
Para o povo da Bíblia, o mar era o símbolo do abismo, do caos, do mal (Ap 13,1). No Êxodo, o povo faz a travessia para a liberdade enfrentando e vencendo o mar. Deus divide o mar com seu sopro, e o povo atravessa com pé enxuto (Ex 14,22). Em outras passagens, a Bíblia mostra Deus vencendo o mar (Gn 1,6-10; Sl 104,6-9; Pr 8,27). Vencer o mar significa impor-lhe os seus limites e impedir que ele engula toda a terra com suas ondas. Nesta passagem, Jesus revela sua divindade, dominando e vencendo o mar, impedindo que a barca de seus discípulos seja tragada pelas ondas.
O discurso sobre o Pão da Vida (Jo 6,22-58)
Este longo discurso feito na sinagoga de Cafarnaum está relacionado com o capítulo 16 do livro do Êxodo. Vale a pena ler todo este capítulo de Êxodo, percebendo as dificuldades que o povo teve que enfrentar na sua caminhada, para podermos compreender os ensinamentos de Jesus aqui no capítulo 6 do Evangelho de João. Quando Jesus fala de “um alimento que perece” (Jo 6,27), ele está lembrando Ex 16,20. Da mesma forma, quando os judeus “murmuram” (Jo 6,41), fazem a mesma coisa que os israelitas no deserto, quando duvidaram da presença de Deus junto com eles durante a travessia (Ex 16,2; 17,3; Nm 11,1). A falta de alimentos fazia com que o povo duvidasse que Deus estivesse com eles, de que Deus fosse Javé, resmungando e murmurando contra Deus e contra Moisés. Aqui também os judeus duvidam da presença de Deus em Jesus de Nazaré (Jo 6,42).
Carlos Mesters, Francisco Orofino e Mercedes Lopes 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Multiplicar e repartir o pao!

O NOSSO GRANDE PECADO

O episódio da multiplicação dos pães teve grande popularidade entre os seguidores de Jesus. Todos os evangelistas o recordam. Seguramente, comovia-os pensar que aquele homem de Deus se tinha preocupado em alimentar uma multidão que tinha ficado sem o necessário para comer.
Segundo a versão de João, o primeiro que pensa na fome daquele gente que foi escutá-Lo é Jesus. Esta gente necessita de comer; tem de se fazer algo por eles. Assim era Jesus. Vivia pensando nas necessidades básicas do ser humano.
Filipe faz-Lhe ver que não têm dinheiro. Entre os discípulos, todos são pobres: não podem comprar pão para tantos. Jesus sabe disso. Os que têm dinheiro não resolverão nunca o problema da fome no mundo. É necessário algo mais do que dinheiro.
Jesus vai ajudá-los a vislumbrar um caminho diferente. Antes de mais nada, é necessário que ninguém acumule o seu para si mesmo se há outros que passam fome. Os Seus discípulos terão que aprender a por à disposição dos que têm fome o que têm, mesmo que só seja «cinco pães de cevada e um par de peixes».
A atitude de Jesus é a mais simples e humana que podemos imaginar. Mas, quem nos vai ensinar a nós a partilhar, se só sabemos comprar? Quem nos vai libertar da nossa indiferença ante os que morrem de fome? há algo que nos possa fazer mais humanos? Produzir-se-á algum dia esse «milagre» da solidariedade real entre todos?
Jesus pensa em Deus. Não é possível acreditar Nele como Pai de todos, e viver deixando que os Seus filhos e filhas morram de fome. Por isso, toma os alimentos que recolheram no grupo, «levanta os olhos ao céu e diz a ação de graças». A Terra e tudo o que nos alimenta recebemos de Deus. É uma oferta do Pai destinado a todos os Seus filhos e filhas. Se vivemos privando outros daquilo que necessitam para viver é porque o esquecemos. É o nosso grande pecado apesar de quase nunca o confessarmos.
Ao partilhar o pão da eucaristia, os primeiros cristãos sentiam-se alimentados por Cristo ressuscitado, mas, ao mesmo tempo, recordavam o gesto de Jesus e compartiam os seus bens com os mais necessitados. Sentiam-se irmãos. Não tinham todavia esquecido o Espírito de Jesus.

José Antonio Pagola

quinta-feira, 23 de julho de 2015

DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO B – 26.07.2015=

Uma pessoa que morre de fome é uma pessoa assassinada!

Há uma lei que não está escrita na Constituição nem na Bíblia, mas nos é ensinada em lições que vão do berço à sepultura: “Cada um pra si e Deus por todos”. Um complemento mais violento ensina que “quem pode mais, chora menos”. Não é difícil perceber que este princípio vai sendo assimilado tranquilamente na arena política, no sistema econômico, na área cultural e até no âmbito da religião. Basta prestar atenção às Igrejas que prometem bênçãos em forma de imediata prosperidade econômica e apresentam exemplos de gente que enriquece dando as costas aos necessitados.
No evangelho de hoje João nos apresenta Jesus em plena ação missionária. Já havia realizado três sinais para demonstrar a chegada dos tempos esperados, da utopia do Bem-viver, da Vida plena e gratuita para todos: transformara água em vinho numa festa de casamento fadada ao fracasso; curara o filho de um funcionário do rei e um paralítico que há três décadas não abandonava a esperança de recuperar a saúde e a plena cidadania. Impactada por esses sinais, uma grande multidão seguia Jesus. O povo intuía que da periferia e da pobreza poderia nascer a novidade.
O evangelista subentende, mas não diz, que Jesus sente compaixão pelo povo. A compaixão é filha da fraqueza, da humana vulnerabilidade, das periferias anônimas, pois os palácios se sustentam sobre o poder e o medo. No entardecer das possibilidades de ajuda, quando as leis do mercado revelam que não têm coração, Jesus percebe a fome do povo e desperta os discípulos da indiferença que os envolvia inteiramente. Para ver o povo e resgatar a compaixão ativa e redentora as Igrejas também precisam migrar para as periferias, deixar as discussões abstratas e estéreis, sair da própria barca...
Os discípulos não conseguiam ver saída para o drama do povo fora da lógica do império. “Onde vamos comprar pão para eles comerem?” Sem um plano alternativo, constatam desolados que estavam num beco sem saídas: “Nem meio ano de salário bastaria...” Avaliando suas próprias possibilidades, descobrem que entre eles há alguém que tem cinco pães e dois peixes que providenciara para as necessidades da comunidade. “Mas o que é isso para tanta gente?”, questionam-se. Parece que eles querem disfarçar o egoísmo elitista próprio de quem pensa apenas nas próprias necessidades...
Como está longe de Jesus uma Igreja feita apenas de palavras e de ritos religiosos, que se compraz em lavar as mãos diante das tragédias que se abatem sobre o povo... Basta de instituições que entregam seus membros à implacável lógica dos impérios! E não nos desculpemos perguntando o que representam cinco pães e dois peixes para uma multidão de famintos... “O pouco com Deus é muito; o muito sem Deus é nada”, ensina a sabedoria popular. Jean Ziegler, ex-relator da ONU, diz que, num mundo que produz alimentos de sobra, a morte anual de milhões de pessoas por causa da fome é o escândalo do nosso século. “Uma criança que morre de fome é uma criança assassinada”, afirma ele.
A saída não é simples, mas certamente não é cada um cuidar de si, nem considerar povo faminto um simples objeto de caridade. O povo é soberano, e as autoridades devem colocar-se a seu serviço. E não se trata de povos nacionais, mas de um único povo, aquele que congrega todos os homens e mulheres. Paulo enfatiza que há um só corpo e um só espírito, uma só fé, uma só esperança, um só batismo, um só Senhor... Ou seja: todas as divisões são arbitrárias e fadadas a desaparecer. Certamente a luta pelo pão na mesa de todos não pode ser estranha à unidade do gênero humano...
A solução para a crise alimentar sistêmica não está ao alcance de um país ou de uma Igreja particular. O caminho de saída começa com a adoção de um consumo moderado pelos ricos e com a erradicação da exploração comercial por parte dos países poderosos. E prossegue na defesa da soberania alimentar dos povos e na pressão para que os organismos multilaterais tomem medidas concretas para garantir o acesso universal aos alimentos. E isso não é algo estranho à fé! A comida suficiente aparece quando Jesus assume o protagonismo e os discípulos se associam à sua ação...
Jesus de Nazaré, peregrino incansável no santuário das dores humanas, Deus compassivo e próximo de todos os sofredores, sonhadores e construtores de um mundo outro! Dá-nos olhos abertos e lucidez intelectual para encontrarmos os recursos necessários para evitar as tragédias que golpeiam teus irmãos e irmãs. Dá-nos um coração humanamente sensível, que nos leve ao encontro deles para servi-los com tudo o que somos e temos. Dá-nos um coração forte, enamorado de ti, um coração que não nos permita aceitar ou pregar doutrinas escapistas ou soluções violentas para a tragédia da fome. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(2° Livro dos Reis 4,42-44 * Salmo 144 (145) * Carta aos Efésios 4,1-6 * Evangelho de São João 6,1-15)

Criminalizaçao dos menores carentes


A errônea análise do crime exclusivamente sob o prisma dos seus efeitos, sem nenhuma consideração pelos fatores que o desencadeiam, tem como exemplo eloquente a questão do menor abandonado, que, com o passar dos anos, se tornou infrator e, depois dos 18 anos, um criminoso.
Tal questão jamais foi vista pelas elites e pelos governos como um problema social e humanitário, a exigir de todos empenho e solidariedade. Nada foi feito, e as crianças cresceram ao nosso redor sem que nós dispensássemos a elas um mínimo de atenção, mas, ao contrário, nossa atitude sempre foi de desinteresse e de omissão.
Demos-lhes as costas, ao invés de saúde, educação, teto e afeto. A presença desses menores sempre nos causou certa repulsa e medo. A atitude concreta adotada sempre foi a de fechar o vidro dos carros, para evitar qualquer tipo de contato. Agora, após anos de desprezo, foi encontrada a solução cômoda, ineficiente e predatória da prisão. Prenderemos o maior de 16 anos e deixaremos como está o menor carente, até que ele, com aquela idade, se torne um criminoso. Quando isso ocorrer, também o prenderemos.
Esquece-se, no entanto, de que um dia eles sairão das nossas cadeias, serão egressos do nosso abominável sistema penitenciário e aí estarão aptos a cometer ainda maiores atrocidades contra nós, que os encarceramos. Esse cruel e burro círculo vicioso não vai terminar nunca? Prendemos, soltamos e nos tornamos de novo vítimas de nossa conduta, de nossa irresponsável e autofágica conduta. Estupidez pura.
É óbvio que não deveremos deixar o menor infrator impune. No entanto, vamos reagir contra o crime do menor (infração) com um mínimo de inteligência, se não por um dever social, de solidariedade e de humanismo, pelo menos por egoísmo e autopreservação.
Ninguém duvide de que o sistema prisional brasileiro não evita o crime, ao contrário, ele o estimula. Não há quem não saiba que ele age no sentido contrário dos interesses da própria sociedade, pois não recupera, mas atua como um eficiente fator criminógeno.
Não se desconhece que um coro retumbante se ergueu do seio da sociedade clamando pela redução da maioridade penal. Esse clamor é emocional e não provém da análise das causas do fenômeno criminal e das consequências da medida apregoada. Trata-se de uma grita irracional, impulsionada e avolumada por uma cultura punitiva divulgada pela mídia e incrustada no íntimo das pessoas, sem maiores indagações e reflexões.
Lembre-se de que o homem de hoje, o homem midiático, perdeu o senso crítico, pouco raciocina. A imagem divulgada não passa pela razão, porque vai direto à emoção, provocando amor ou ódio. No caso do menor infrator, provoca o ódio.
Prega-se a diminuição da idade da responsabilidade penal porque os maiores de 16 anos estão praticando infrações. Assim, cabe uma indagação: e os de 15 anos, de 14 anos ou os de 13 anos que também as praticam? Se a solução é a prisão, por que não encarcerar todo e qualquer infrator menor, considerando-o criminoso?
Uma matéria do dia 15 de julho do jornal O Estado de S. Paulo mostrou que menores de 12 anos a 17 anos estão cometendo mais delitos do que os de 16 a 18 anos. Portanto, tendo a cadeia como solução, deverão ser colocados nas prisões, junto com experientes criminosos, os menores a partir dos 12 anos.
Bem se vê que a solução da diminuição da idade da responsabilidade penal não passa de demagogia, pura insensatez, ausência de seriedade, verdadeira cortina de fumaça para iludir a sociedade. Basta prender e nada mais deverá ser feito.
Pergunta-se: há quem creia em que os menores serão recuperados no cárcere? Ou, ao contrário, a prisão estimulará o aumento de sua periculosidade, e irá prepará-lo adequadamente para trilhar com eficiência e êxito os caminhos do crime?
Não se espantem se surgir uma corrente que pregue o isolamento, em lugares distantes, dos menores considerados potencialmente perigosos, em face do meio em que vivem, das pessoas com as quais convivem e da "cara" que possuem. Essa corrente terá como objetivo riscar esses menores dos nossos mapas urbanos...
Deve-se notar que nós estamos nos preocupando com o menor abandonado apenas e na medida em que ele nos está agredindo, pois, estivesse em silêncio, amargando as suas carências debaixo dos viadutos, sem nos incomodar, continuariam a ter o nosso desprezo. A sociedade brasileira não soube ou não quis criar uma cumplicidade entre os seus membros para cuidar do menor carente. Ocorreu, sim, a cumplicidade com o abandono.
A propósito, significativos porcentuais de infratores (total de 23 mil no País, em 2013) têm algum tipo de carência social, que certamente contribuiu para a prática delituosa. Assim, 51% não frequentam a escola; 49% não trabalhavam quando foram recolhidos; e 66% pertencem às famílias de extrema pobreza (dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, divulgados pelo jornal Valor Econômico de 13/7).
Vamos fazer, agora, o que não fizemos durante séculos. Cuidar do menor. Recolher o infrator, porém tornar o recolhimento não o da cadeia, mas o de instituições apropriadas, algo construtivo, edificante. Ampliar o prazo de recolhimento previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e utilizá-lo como medida pedagógica e humanitária, para suprir as carências, que vão da educação ao afeto, passando pela saúde, pela assistência psicológica e pela profissionalização.
Vamos estender as mãos para o menor infrator, para que ele não volte a delinquir e para que o menor abandonado não se torne infrator. Digamos não à prisão, pois a prisão de hoje leva ao crime de amanhã.
ANTÔNIO CLÁUDIO MARIZ DE OLIVEIRA
Advogado criminalista

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Sergio Macaco

SÉRGIO MACACO: O HOMEM QUE FEZ A DIFERENÇA

Dia 12 de junho de 1968, o capitão aviador Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, servindo no PARASAR, foi convocado a uma reunião, foi recebido no gabinete do ministro da Aeronáutica pelos brigadeiros Hipólito da Costa e João Paulo Burnier, que viria a se tornar conhecido como torturador e assassino.
Sérgio era admirado por indianistas como os irmãos Vilas-Boas e o médico Noel Nutels. Foi amigo de caciques como Raoni, Kremure, Megaron, Krumari e Kretire. Os índios o chamavam "Nambiguá caraíba" (homem branco amigo). Aos 37 anos, Sérgio Macaco (como era conhecido na Aeronáutica) já tinha seis mil horas de vôo e 900 saltos em missões humanitárias, de resgate e socorro em geral. Todavia, o tipo de tarefa que lhe seria proposta ali pelos oficiais não era nem um pouco digna ou solidária.
- O senhor tem quatro medalhas por bravura, não tem? - indagou Burnier.
Sérgio respondeu afirmativamente. Então o brigadeiro continuou:
- Pois a quinta, quem vai colocar no seu peito sou eu. - Fez uma pausa.
- Capitão, se o gasômetro da avenida Brasil explodir às seis horas da tarde, quantas pessoas morrem?
Achando que a pergunta se referia apenas à remota hipótese de um acidente na cidade do Rio de Janeiro, Sergio respondeu:
- Nessa hora de movimento, umas 100 mil pessoas.
Foi nesse momento que os dois brigadeiros começaram a explicar um terrível plano terrorista das Forças Armadas e qual deveria ser a participação de Sérgio. Os dois propuseram que ele, acompanhado por outros membros do PARASAR, colocasse bombas na porta da Sears, do Citibank, da embaixada americana, causando algumas mortes. Em seguida, viria a grande carnificina: queriam que dinamitasse a Represa de Ribeirão das Lajes e, simultaneamente, explodisse o gasômetro. As cargas, de efeito retardado, seriam colocadas pelo capitão Sérgio, que depois ficaria aguardando, no
Campo dos Afonsos, o surgimento duma grande claridade. Aí, ele decolaria de helicóptero e aportaria no local da tragédia posando de bonzinho, prestando socorro a milhares de feridos e recolhendo mortos vítimados pela ação da própria Aeronáutica.
Colocariam a culpa nos grupos esquerdistas que lutavam contra a ditadura. Sérgio seria tido como herói por salvar as supostas vítimas dos "comunistas" e receberia sua quinta medalha, enquanto a ditadura teria um pretexto para aumentar a repressão a socialistas e democratas.
O capitão se negou a participar de uma ação tão vil. Declarou corajosamente aos bandidos fardados:
- O que torna uma missão legal e moral não é a presença de dois oficiais-generais à frente dela, o que a torna legal é a natureza da missão.
Outros em seu lugar simplesmente encolheriam os ombros e obedeceriam aos superiores, iriam se desculpar dizendo que estavam apenas "cumprindo ordens". Mas Sérgio era ético, íntegro, não tinha obediência cega a ninguém: seguia, acima de tudo, sua consciência e valores. Era um homem de verdade: denunciou o plano diabólico e evitou aquela que seria a maior tragédia da nossa história.
Foi perseguido pela ditadura, discriminado, removido para o Recife, reformado na marra aos 37 anos, cassado pelo AI-5 e pelo Ato Complementar 19, curtiu prisão... só não puderam quebrar-lhe integridade e honra, sua firmeza de ser humano. Sérgio se recusou a ser anistiado.
"Anistia-se a quem cometeu alguma falta", costumava dizer. "Não posso ser anistiado pelo crime que evitei".
Em 1970, necessitando de um tratamento de coluna, aconselharam-no a não se internar em unidade militar, pois certamente seria assassinado lá dentro. Graças ao jornalista Darwin Brandão, com auxílio do médico Sérgio Carneiro, o capitão acabou sendo tratado clandestinamente no Hospital Miguel Couto.
Nos anos 90, o Supremo Tribunal Federal determinou indenização e promoção de Sérgio a brigadeiro. Tal sentença dependia, porém, da assinatura de Itamar Franco. Itamar, como se sabe, não é nenhum modelo de virtude e, não por acaso, foi vice do corrupto Fernando Collor de Mello, que foi prefeito biônico de Maceió durante a ditadura e se criou politicamente graças ao regime militar...
Por seis meses, o presidente Itamar Franco, mesmo sabendo que Sérgio estava acometido de um câncer terminal no estômago, guardou, na gaveta, a sentença do STF favorável ao capitão. Só a assinou três dias depois da morte do herói, ocorrida em 4 de fevereiro de 1994.
Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho (cuja história é narrada no documentário "O Homem que disse Não" do diretor francês Olivier Horn) foi enterrado no cemitério São Francisco Xavier no Caju sem honras militares. É lembrado, entretanto, por todos aqueles que valorizam vida, ética, honestidade, coragem. Sérgio provou que, ao contrário do que muitos dizem, uma pessoa pode mudar a História: cada um de nós faz diferença no mundo.

Movimento de Justiça e Direitos Humanos/Brasil

Sérgio Macaco

Capitão Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, Sérgio Macaco
Era uma vez um homem, um militar completo, um herói que vivia na selva, comandando o PARASAR, abrindo fronteiras e salvando vidas. A selva era a sua casa, com tamanha desenvoltura que lhe valeu o apelido carinhoso de “macaco” entre seus companheiros. Os índios o chamavam de Nhambiguá Caraíba, homem branco bom. Seu nome era Sérgio e era capitão, quando o mal lhe cruzou o caminho.
A Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, guerreiro sem medo, pediram que matasse inocentes, que derramasse sangue. Um brigadeiro assassino ordenou-lhe que explodisse um gasômetro, trucidasse estudantes, atentados terroristas que desencadeariam um verdadeiro massacre em resposta a um suposto golpe atribuído a “comunistas”.

A proposta desse assassino fardado não era nova nem original. Já funcionara na Alemanha, sob o nazismo, quando atrocidades inomináveis foram cometidas e justificadas por militares e civis sob a alegação de estar apenas “cumprindo ordens”.
Sergio era de outra estirpe. Com a coragem, determinação e desassombro de quem tem alma e caráter disse não ao criminoso e evitou o que poderia ter sido a maior tragédia humana de nossa História. A ira dos criminosos no poder caiu sobre ele como um raio. Tiraram-lhe quase tudo. Não adiantou figuras históricas como o Brigadeiro Eduardo Gomes, lutarem por ele e tomarem a sua defesa. O arbítrio e o crime mandavam naquele triste Brasil dos anos de chumbo.
Sérgio perdeu a farda, o trabalho e a alegria. Só não puderam quebrar sua integridade e honra, sua firmeza de homem e soldado, um soldado que dizia preferir a pior das democracias à melhor das ditaduras.
Sérgio jamais pleiteou anistia por considerar que anistia é esquecimento, perdão, e julgava – com absoluta razão – que seu gesto de resistência, sua desobediência a uma ordem criminosa eram exemplos a serem seguidos.
Exemplos de predomínio do bem e da consciência sobre o crime e a cegueira. Se ao longo da história, tivéssemos tido mais Sérgios quantos crimes não teriam sido evitados? Só os grandes homens tem coragem de resistir como ele resistiu.
Sergio lutou incansavelmente e até o final de sua vida pela justiça que lhe era divida. Foi derrotado pela doença e morreu sem poder ver a sua vitória, devido à pequenez de um presidente da república: Itamar Franco, que – mesmo sabendo que o capitão estava ferido de morte, acometido de um câncer terminal – e tendo o decreto promovendo-o a brigadeiro sobre a sua mesa, esperou a morte do herói para assiná-lo. Tal é a pequenez de alguns homens deste grande país.
É este grande homem, Sérgio, este brasileiro ímpar, este companheiro de todos nós que estamos homenageando aqui hoje. Homens como o brigadeiro Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho, o imortal Sérgio Macaco, estarão para sempre vivos nos corações e mentes da nação brasileira. Saudemos o glorioso capitão da vida. Capitão Sérgio Presente!


Movimento de Justiça e Direitos Humanos/Brasil

Ser missionario no Amazonas

NOTÍCIAS MISSIONÁRIAS DE ITAMARATI

Depois de um bom período sem dar notícias. Estive por um bom período em Manaus para cuidar da saúde fazendo exames e consultas. Saí dia 04 e voltei 24 de junho. Já consegui fazer boa parte dos exames necessários e algumas consultas, mas após a Assembléia Pastoral da Prelazia de Tefé, voltarei a Manaus para mais uma semana de consultas. Graças a Deus estou bem, mas como dependo do SUS, as coisas são um pouco mais demoradas. Porém, quando tinha plano de saúde no Rio de Janeiro, as coisas não eram muito diferentes.
Lá em Manaus fui acolhido na casa de formação das Irmãs Catequistas Franciscanas: Irmã Fátima Lima, Ir. Nadilza, Ir. Fátima Pádua e formandas, no bairro Cidade Nova, na área missionária São Lucas, onde pude ajudar dando palestra para catequistas e celebrando algumas missas nas comunidades Nossa Senhora do Carmo e São João Batista. Também esteve em Manaus a Irmã Márcia, que trabalha em Itamarati. Ela participou de um curso da Secretaria de Saúde, onde trabalha como enfermeira, e me ajudou nesta fase de tratamento de saúde.
Obrigado a todos pelo apoio, também à Província, na pessoa de nosso ecônomo Ir. Lauri que, em nome da Província, foi solícito em custear as passagens para Manaus. Obrigado ao Pe. Moisés, nosso coordenador local, que sempre telefonava para saber como eu estava. O conjunto todo cooperou para que eu me recuperasse melhor e mais cedo.
Senti como se tivesse fazendo uns dias de férias. Não me organizei para tal, mas Deus me deu. Voltei bem mais fortalecido e tranquilo em relação a Itamarati. Esta parada me deu mais paz em relação ao trabalho e à nossa vivência neste lugar de difícil acesso. Para ter uma ideia, fui fazer um cadastro no site da TIM e o CEP de Itamarati está como inexistente! Porém, mais do que nunca, estou convicto de aqui Deus me plantou e aqui devo florescer.
Voltando a Itamarati, graças a Deus encontrei a paróquia caminhando a pleno vapor com animação do Ir. Wanderson, das Irmãs Cristina e Márcia, dos Ministros da Palavra D. Raimunda e Zezinho e das outras demais lideranças. Experimentei uma grande alegria em saber que cada um assumiu o seu trabalho, que contou também com a ajuda do estagiário França que veio de Carauari para fazer companhia para Ir. Wanderson e ajudar dentro de suas possibilidades.
Tínhamos pela frente a festa de São Pedro na comunidade São Braz. Saímos de Itamarati por volta das 13:00 horas de sábado, dia 27 de junho. Passamos na comunidade do Quiriru para fazer celebração e batizados. Chegando lá, porém, estavam membros do IDAM (Instituto de Desenvolvimento da Amazônia) para fazer reunião com a comunidade. Esperamos por volta de uma hora e percebendo que estava ficando tarde para irmos adiante, combinamos que na volta, na segunda feira, faríamos a celebração e os batizados, uma vez que seria dia de São Pedro, e o povo não iria trabalhar pois guardavam o dia do santo pescador.
Na comunidade São Braz foi um dia bem agitado. Já durante a noite de sábado chegaram caravanas das comunidades vizinhas para participar das festividades. Esta festa de São Pedro começou com uma promessa feita senhor Pedro Rodrigues de Oliveira e quando este veio a falecer, sua esposa Celeste Taveira e família mantiveram a promessa de realizar uma novena de preparação, missa e jantar para todos os convidados. A festa foi ficando grande e agora já completou 51 anos. Foi muito bom. Bastante movimento de gente: campeonato de futebol, procissão, missa, grande jantar e festa toda a noite. Na manhã seguinte só se via os pequenos botes saindo rumo às suas comunidades.
Saímos por volta das 8:00 da manhã e celebramos a missa e batizamos 5 crianças na comunidade Quiriru. Por volta das 13:00 horas viemos embora debaixo de um sol muito quente, mas felizes pelo dever cumprido.
Esta semana estamos nos preparativos para participar da Assembleia Pastoral da Prelazia de Tefé, nos dias 8 a 12 de julho. Sairemos na segunda, dia 6 para Carauari de avião, Ir. Cristina, Manuel e eu. Na terça-feira seguiremos no barco da paróquia Nossa Senhora da Conceição, de Carauari. Viajaremos por volta de dois dias e lá participaremos deste importante evento da Prelazia. No domingo irei de voadeira para Manaus, onde, já na segunda e também na sexta farei consultas e o tratamento necessário. Com uma ajudinha da medicina, Deus vai providenciando para que possamos realizar a tarefa que ele nos confiou.
Quanto ao barco que nos dará acesso às demais comunidades da paróquia ainda, não foi possível viajar com ele. O casco e algumas portas já foram reparadas, mas ainda precisa de mais cuidados de pintura e que o motor funcione, pois já já parado há um bom tempo...
Que possa ser recuperado plenamente nosso principal instrumento de trabalho no atendimento às comunidades ribeirinhas! Já está na água, com portas trocadas, mas ainda precisa de alguma ajuda da Providência Divina para ser colocado a serviço do atendimento às comunidades. Ademais, estamos trabalhando para que o barco passe do nome das Irmãs de Santa Catarina, que fizeram a doação para a paróquia São Benedito, ou mais propriamente para a Prelazia de Tefé. Segundo informações que nosso secretário Joaquim Brito obteve junto à Capitania dos Portos, que esteve aqui em nossa cidade, de posse dos documentos, especialmente do termo de doação, é possível fazer esta transferência aqui mesmo em Itamarati.
Só agora vamos poder realizar o arraial de São José. As águas baixaram e a rua que dá acesso à comunidade foi urbanizada de tal forma que poderemos festejar São José com um pouco de atraso mas, no local onde está a comunidade. Ontem dia 30 de junho realizamos um mutirão para pintura da Capela. Não saiu coisa de profissional mas, a participação de muitos membros da comunidade foi bonito de ver. São José, rogai por nós!
Seguimos aqui na graça de Deus, contando com as orações dos amigos, amigas e coirmãos, realizando a tarefa que o Senhor nos confiou junto a este povo tão bom da cidade de Itamarati, AM. Que Deus abençoe a todos! Fraternalmente,

Pe. Francisco, msf

O papa Francisco e a Ecologia

O EXAME DE CONSCIÊNCIA PROPOSTO POR FRANCISCO

Os que conhecem a espiritualidade inaciana sabem que para Santo Inácio o exame de consciência é uma peça-chave. Modo de orar curto, constituído por cinco pontos e um colóquio. Assim foi proposto pelo fundador da Companhia de Jesus como algo que deve ser feito pelo exercitante ao término de cada dia da experiência dos Exercícios Espirituais.

Porém, não se limita à duração de trinta dias dos Exercícios ou a suas adaptações em versões menores (8, 10 ou mesmo 3 dias) a prática do exame de consciência. Santo Inácio pretende que seja feita por aqueles que são formados em sua escola spiritual, notadamente os jesuítas, mas também outros religiosos e leigos de ambos os sexos. Chega mesmo a considerar peça-chave para o discernimento da vontade de Deus em cada ocasião, a ponto de afirmar nas Constituições da Companhia de Jesus que o jesuíta formado poderia ficar dispensado da oração diária se a missão assim o exigisse. Mas nunca do exame de consciência.
O exame ajuda a não perder o pulso da realidade, a olhar para a própria vida com visão crítica, reconhecer as falhas e ver como pode corrigi-las. Ajuda igualmente a ter uma atitude humilde diante de si mesmo, tomando consciência da própria limitação. E ajuda, finalmente, a fazer projetos e propósitos para reverter o que se percebeu como deficiente na própria vida, agradecendo a graça divina que nunca falta e sempre socorre quem para Deus se volta com coração humilde.
Isso pretende o Papa ao propor, em discurso na Bolívia aos movimentos sociais, que reconheçam que algo tem que mudar, não só localmente, mas universalmente. Não se pode aceitar que existam ainda pessoas sem trabalho, sem teto, sem-terra no continente mais cristão do planeta. Da mesma forma, as coisas não andam bem quando há pelo mundo tantas guerras sem sentido, violência fratricida ceifando vidas às centenas e aos milhares aqui e em outros pontos do planeta.
E apontando para sua última encíclica, Francisco insere em seu exame de consciência o convite ao reconhecimento de que as coisas não andam bem na maneira como tratamos a Mãe Terra, “quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob constante ameaça”. Reconhecer que as coisas não estão bem impõe uma conversão: assim não se pode continuar. Há que mudar o rumo dos ventos, dos fatos. Há que converter-se.
E convida seus ouvintes a dizer sem medo: queremos mudança, mudança real, mudança estrutural. Este sistema já não se aguenta. Não o aguentam os camponeses, os trabalhadores, as comunidades, os povos... e a terra. Ninguém aguenta mais este sistema. E nós, surpresos e maravilhados, ouvimos talvez pela primeira vez da boca de um Papa, da autoridade máxima da Igreja Católica, a condenação explícita do sistema vigente, ou seja, do capitalismo liberal em todas as suas versões mais radicais e mais mitigadas.
Sem adoçar as palavras, o Pontífice chamou o domínio do capital e a ganância do dinheiro de “sutil ditadura”. Essa ditadura nos rouba a liberdade que, como filhos de Deus, recebemos como o mais gracioso e encantador presente. Converte o capital em ídolo e dirige por caminhos tortuosos as opções dos seres humanos. A avidez por dinheiro que ela provoca tutela todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, escraviza o ser humano, destrói a fraternidade, coloca povo contra povo e põe em risco a casa comum que é o planeta.
Se queremos mudança no sentido de mais justiça, mais vida para todos, mais fraternidade e convivência, há que reconhecer humildemente que essa “sutil ditadura” tem poder sobre nós e procurar encetar o caminho de conversão que nos libertará dela e nos devolverá a liberdade.
Para andar neste caminho que não é fácil, Francisco sabe que precisamos de guias, de mestres, de líderes. E em seu discurso institui como líderes, os pobres. Falando com os membros dos movimentos populares, cuja maioria é gente humilde, trabalhadora e sofrida, disse-lhes: o futuro da humanidade está, em grande medida, em suas mãos, em sua capacidade de organizar-se, de promover alternativas criativas...
Dizendo isso aos pobres, dizia a todos nós: olhem para eles, vejam suas vidas, suas iniciativas. Vejam seu sofrimento e vejam como o superam. Olhem, vejam, atuem. Não há conversão que não passe por uma aliança de vida e coração com os mais pobres, com as vítimas da sutil ditadura do capital. O exame de consciência que o Papa propôs na Bolívia certamente nos ajudará a compreender que somente uma atenção amorosa aos desafios da realidade e à vida dos pobres poderá recolocar-nos no caminho que leva à verdadeira vida.
Maria Clara Bingemer