sexta-feira, 31 de julho de 2015

DÉCIMO OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO B – 02.08.2015)

Jesus nos pede uma mudança radical no modo de pensar.

A cultura popular continua viva para nos lembrar que o mês de agosto não costuma ser portador de bons presságios. No Sul do Brasil, as mudanças bruscas de temperatura abalam a saúde de muita gente, especialmente das pessoas idosas. Mas as comunidades católicas desdizem algumas crenças das tradições populares e consagram o mês de agosto às vocações eclesiais, dedicando uma semana às vocações ordenadas, uma semana aos pais e às famílias, uma semana à vida religiosa consagrada e uma semana às vocações à vida leiga, especialmente às catequistas. Hoje, tentemos compreender a vocação e a missão do padre à luz da Palavra que a Igreja sugere para o primeiro domingo de agosto.
Com a ajuda de Felipe, dos demais discípulos e de um menino anônimo, Jesus havia saciado a fome da multidão a partir de alguns pães e peixes. Depois de pedir que as sobras não fossem desperdiçadas, ele se retirara sorrateiramente, pois o povo entusiasmado queria entroná-lo como rei. Ainda chocados com o que Jesus havia feito, os próprios discípulos se surpreendem quando percebem que Jesus não está mais com eles. Desconcertados com o sinal realizado pelo mestre e com sua recusa do poder, tiveram que empreender sozinhos a travessia do lago, enfrentando o vento, a noite e a agitação do mar.
Confusos, os discípulos abandonaram o povo carente e sofrido. Mas, o dando-se conta de que Jesus e os discípulos haviam partido, o povo conseguiu vaga noutros barcos e foi procurar Jesus do outro lado do lago. Ele procura Jesus como uma última tábua de salvação, esperando que Jesus garanta seu humano direito à alimentação. Mas a atitude de Jesus diante da multidão parece rude e desconcertante. “Vocês estão me procurando, não porque viram os sinais, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos.” Sua discordância com as motivações que moviam o povo é mais do que clara.
Será que a compaixão de Jesus diante de um povo cansado e abatido se havia esgotado? Será que vem daqui a frieza com que recebemos o povo pobre que, alentado por sua fé tradicional, vem às nossas capelas, paróquias e santuários pedindo sacramentos e bênçãos? Não é isso! O que Jesus faz é chamar a atenção para algo mais fundamental que a simples ação de matar a fome de um dia: o empenho de todos numa prática social e econômica alternativa, a única capaz de garantir para todos um pão que não se corrompe. Jesus aponta para o projeto do Reino de Deus, centrado na partilha.
Jesus não se limita a reprovar o povo que conta com sua ajuda material e não consegue entender que ela apenas sinaliza algo mais importante e fundamental. E exorta: “Não trabalhem pelo alimento que se estraga; trabalhem pelo alimento que dura para a vida eterna... É este o alimento que Filho do Homem dará a vocês, porque é ele que Deus marcou com seu selo.” Jesus não veio distribuir o duro e amargo pão das sopas populares, mas aquele fermentado e assado pela Justiça, obra coletiva do povo organizado e seus apoiadores. E confia esta obra de Deus aos seus discípulos e discípulas...
Fazer a obra de Deus consiste essencialmente em acreditar naquele que enviou Jesus, dar crédito àquele que achou bem não enviar alguém sabido e poderoso, mas uma pessoa vulnerável, alguém que não pode oferecer pacotes de soluções, mas coloca sinais e dá o melhor de si pelos outros. O pão que não se estraga e dura para sempre é o dom de si mesmo, o dom da própria vida. E é essa é a obra que glorifica a Deus. Não podemos esquecer que doutrina religiosa dá segurança mas também escraviza, e que o alimento distribuído sem custos também embota a inteligência, acomoda e humilha.
Para aqueles que perguntavam a Jesus “qual é a tua obra?”, a dificuldade real era reconhecer na ação solidária e compassiva de um simples filho de homem a potente e transformadora ação de Deus. Na verdade, Jesus não está preocupado apenas distribuir pão para matar a fome. O sinal que ele oferece é a cooperação e a articulação dos dons e possibilidades que estão escondidas no próprio povo, inclusive nas pessoas aparentemente mais fracas e mais humildes. É aqui que reside o fermento que resulta num pão que não se estraga.
Jesus, mestre que fazes dos caminhos uma escola de vida, ajuda-nos a compreender os sinais que realizas, a começar pela Eucaristia. Não deixes que a transformemos em ritualismo mágico e intimista. Ajuda os ministros ordenados, generosos e limitados como todos nós, a continuar tua obra, tornando visíveis teus sinais de compaixão e de solidariedade; que eles sejam homens novos, transformados e regenerados na justiça que vem da verdade. E ajuda-nos a vencer a paixão enganadora, aquela que canoniza os poderes e poderosos e menospreza a mística do fermento e da semente. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Livro do êxodo 16,2-4.12-15 * Salmo 77 (78) * Carta aos Efésios 4,17.20-24* Evangelho de S. João 6,24-35)

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