sexta-feira, 30 de outubro de 2015

MEMÓRIA DOS FIÉIS DEFUNTOS (ANO B – 02.11.2015)

Deus aprecia e ama nossa vida, tão bela quanto breve!

Dia dos finados, dia de saudade, de reflexão e de esperança. Fazer memória dos finados da nossa família e da comunidade significa refletir sobre aquilo que dá sentido verdadeiro e duradouro à nossa vida, decidir responsavelmente sobre o modo de conduzir os dias que nos restam, expressar sem meneios a saudade que nos deixaram aqueles que partiram, muitos dos quais se foram sem pedir licença e sem avisar. No interior dos templos ou no descampado dos cemitérios, repletos de túmulos brancos ou cultivados como se fossem parques ou jardins, renovamos nossa resposta ao Senhor que nos pede: “Escolhe, pois a vida, e faz dela um dom aos teus irmãos e irmãs!”
Não dá para negar ou escamotear: a morte sempre é uma perda. A fé e a religião não podem ter a pretensão de oferecer soluções fáceis ou orações que funcionam como calmantes para o real fracasso que a morte representa. No momento em que a pessoa, no alto da sua maturidade, acumulou experiências, selecionou ensinamentos e provou a sabedoria, os amigos não podem mais contar com ela. E o que dizer quando um jovem, com toda a vida pela frente,  materialização dos nossos sonhos e utopias, nos é roubado brutalmente? É como a água que foge da palma da mão e corre entre os dedos...
O vazio deixado pelas pessoas queridas que se foram é tão grande e a certeza de que seguiremos o mesmo rumo desconhecido é tão desconcertante que procuramos desesperadamente domesticar e dar um sentido a isso que chamamos morte. Não descansamos antes de construir pontes de palavras e símbolos que sinalizam nossa comunhão com aqueles que estão no lado de lá: as flores, as velas, a oração de súplica e de agradecimento, as fotografias, a narração da vida de quem se foi, a visita ao cemitério...  Símbolos e gestos de saudade, reflexão e esperança.
As flores lembram a beleza inigualável das pessoas que tivemos a graça de amar e nos amaram gratuitamente. Não lembram propriamente pessoas perfeitas e puras, firmes e inabaláveis, mas seres que em sua insuperável ambiguidade nos ajudaram a sermos melhores. Mesmo quando têm seu brilho diminuído pela penetrante luz do sol, as velas que acendemos junto das sepulturas ou noutros lugares pretendem resgatar o suave brilho daqueles olhos e rostos quase apagados pelo tempo. Como nos parecem luminosos aqueles dias em que compartilhávamos a vida com as pessoas queridas...
Mas o dia dos finados não celebra apenas a saudade, pois acaba acendendo a esperança, mesmo que esta apareça apenas timidamente. As flores tão frágeis quanto belas e simples que carregamos pelas ruas e depositamos junto às sepulturas falam da nossa esperança de que a vida daqueles que nos deixaram seja semente que há de germinar. Falam também da esperança de que nossa própria vida poderá desabrochar numa beleza que hoje não conseguimos perceber. Falam da esperança de que um dia conseguiremos olhar menos para os defeitos e mais para a bondade que vai no nosso coração.
O dia dos Finados é também um oásis de reflexão no árido deserto da inconsciência e do ativismo. Todos sentimos necessidade de parar um pouco, avaliar nossas escolhas, fazer um balanço dos resultados obtidos, reordenar os valores que nos orientam, discernir o valor absoluto escondido em cada instante, desfrutar o gosto de paraíso de tantas experiências. Também aqui as flores nos ajudam: sendo belas e frágeis, elas nos falam da beleza e da vulnerabilidade da nossa existência; hoje estamos fortes e exuberantes, mas amanhã podemos murchar, secar e desaparecer.
Mas a nossa fé abre horizontes mais amplos e desconcertantes que a saudade, a reflexão e a esperança. Jesus Cristo nos ensina a crer e esperar a ressurreição dos que morrem doando sua própria vida e defendendo a vida dos outros. Ele mesmo, doando-nos sua vida no amor, venceu a morte e o medo paralisador que nasce dela. E desde então, cremos que a vida tem sempre a última palavra. E isso significa que quem rege nossa vida e nossas decisões não é o medo, nem seu irmão gêmeo, o egoísmo. Para quem crê, a morte perdeu sua força, e o comando passou ao amor, que é imortal.
Deus pai e mãe, origem e destino do nosso caminhar. Tua luz brilha na fragilidade da vela que se consome; teu amor é permanente na fragilidade e na beleza das flores; tua vitória sobre o absurdo se revela em cada manifestação de amor, de comunhão e de esperança. A morte dos nossos queridos arranca nossa pele e nos deixa em carne viva, mas nós cremos que nos vínculos que nos unem para além de qualquer interesse egoísta nós veremos teu rosto. Ajuda-nos a te encontrar nestas encruzilhadas nebulosas às quais a vida nos leva e a agradecer pelos amigos que já partiram. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Livro de Jó 19,1.23-27 * Salmo 236 * Carta aos Romanos 5,5-11 * Evangelho de São João 6,37-40)

Evangelho dominical

ACREDITAR NO CÉU

Nesta festa cristã de «Todos os Santos», quero dizer como entendo e trato de viver alguns aspectos da minha fé na vida eterna. Quem conhece e segue Jesus Cristo entender-me-á.
Acreditar no céu é para mim resistir a aceitar que a vida de todos e de cada um de nós é apenas um pequeno parêntesis entre dois imensos vazios. Apoiando-me em Jesus, intuo, pressinto, desejo e creio que Deus está a conduzir para a sua verdadeira plenitude o desejo de vida, de justiça e de paz que se encerra na criação e no coração da humanidade.
Acreditar no céu é para mim rebelar-me com todas as minhas forças a aceitar que essa imensa maioria de homens, mulheres e crianças, que só conheceram nesta vida miséria, fome, humilhação e sofrimentos, fique enterrada para sempre no esquecimento. Confiando em Jesus, creio numa vida onde já não haverá pobreza nem dor, ninguém estará triste, ninguém terá que chorar. Por fim poderei ver aos que vivem nas barcas chegar à sua verdadeira pátria.
Acreditar no céu é para mim aproximar-me com esperança a tantas pessoas sem saúde, doentes crônicos, inválidos físicos e psíquicos, pessoas afundadas na depressão e na angústia, cansadas de viver e de lutar. Seguindo Jesus, creio que um dia conhecerão o que é viver com paz e saúde total. Escutarão as palavras do Pai: “Entra para sempre no gozo do teu Senhor.”
Não me resigno a que Deus seja para sempre um «Deus oculto», de quem não podemos conhecer jamais o Seu olhar, a Sua ternura e os Seus abraços. Não posso imaginar não me encontrar nunca com Jesus. Não me resigno a que tantos esforços por um mundo mais humano e ditoso se percam no vazio. Quero que um dia os últimos sejam os primeiros e que as prostitutas nos precedam. Quero conhecer aos verdadeiros santos de todas as religiões e de todos os ateísmos, os que viveram amando no anonimato e sem esperar nada.
José Antonio Pagola

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS E SANTAS (ANO B – 01.11.2015)

A verdadeira santidade é o dom solidário de si pelos outros.

Hoje a festa é de todos os santos e santas. Como poderíamos esquecer que a verdadeira santidade é aquela que se manifesta na vida das pessoas que ousam sair do estreito limite dos seus próprios  interesses e se aproximar solidariamente dos últimos; que vão aos rincões mais distantes para levar a bandeira da paz; que são movidas por uma insaciável sede de justiça; que choram as dores dos povos de todas as cores e provam o fel da violência da perseguição; que transformam a terra pela mansidão...? Celebremos a alegria de participar de uma imensa caravana de homens e mulheres de todas as raças, nações e línguas que nos precedem, nos acompanham e nos seguem.
A festa de todos os santos faz memória dos santos esquecidos, daqueles que não têm um dia especial, nem um nome conhecido, que gastaram a vida no anonimato e cujos milagres não cabem nas estreitas regras canônicas; de gente como Sepé Tiarajú, Padre Cícero, Dom Romero, e Ir. Dorothy; e mesmo de gente que não rezou pelo nosso catecismo, como Lutero, Martin Luther King, Gandhi, Betinho e tantos outros. Nesta festa celebramos a memória daqueles que nos antecederam na fé e cujo testemunho mantém a Igreja no caminho certo, apesar das suas resistências e ambivalências.
Mas a celebração de todos os santos e santas não olha somente para o passado. É oportunidade e provocação para refletir sobre a vocação fundamental de todos os cristãos. É verdade que a santidade é um caminho estreito e uma vocação exigente, mas isso não significa que seja reservada a alguns grupos especiais de cristãos. Há mais de 50 anos o Concílio Vaticano II proclama de forma clara e inequívoca, contra a idéia predominante nas Igrejas, que a santidade não é privilégio dos sacerdotes e religiosos. Muito antes, a história já havia comprovado o que foi proclamado solenemente.
Na passagem do milênio, João Paulo II nos provocava a não contentarmo-nos com pequenas medidas, vôos rasantes e ideais nanicos, e pedia que aspirássemos nada menos e nada mais que à santidade. A vocação que é de todos precisa se transformar em desejo pessoal e em decisões e ações concretas. Como diz São João, nós somos chamados filhos de Deus e já o somos desde agora, mas o desafio é crescer na identificação com Jesus Cristo, gravar no corpo e na mente as marcas de Jesus Cristo. “Seremos semelhantes a ele...” E isso deve ser mais que um simples sentimento.
Jesus Cristo é o verdadeiro e perfeito santo de Deus e, ao mesmo tempo, o caminho para a santidade. Não há santidade à margem do seguimento de Jesus Cristo, mesmo que tal seguimento seja implícito. Trata-se então de refazer o caminho prático trilhado por Jesus: “amar como Jesus amou; sonhar como Jesus sonhou; pensar como Jesus pensou; viver como Jesus viveu; sentir como Jesus sentia...” Este é o caminho para que, no meio ou no fim do dia e no no meio ou no fim da vida, sejamos felizes. O caminho para santidade, percorrido pelo próprio Jesus Cristo, são as bem-aventuranças.
A bela mensagem das bem-aventuranças apresenta os sinais que indicam claramente o caminho da santidade. Jesus não fala de oito grupos específicos de pessoas, mas de oito características daqueles que percorrem este caminho. Esta via sagrada começa com a pobreza e termina com a perseguição, que não representa um obstáculo, pois o Reino de Deus é antes de tudo dos pobres e dos perseguidos. A consolação é para os aflitos, a terra é para os mansos, a saciedade é para os famintos, a misericórdia é para os compassivos, a visão de Deus é para os puros e a filiação divina é para os promotores da paz.
Passa longe do Evangelho uma santidade que se resume em práticas de piedade. Está distante da essência humana uma felicidade baseada no sucesso pessoal, indiferente à sorte dos semelhantes. As pessoas que se vestem de branco e trazem palmas nas mãos são aquelas que vieram da grande tribulação, que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro, que encarnaram o Evangelho no mundo e na própria vida. Felicidade não significa ausência de dificuldades, mas realização plena e profunda do ser humano. Mais que perfeição, santidade é perseverança no amor e no serviço.
Deus pai e mãe, fonte de toda santidade. Dá-nos a graça de permanecer sempre de pé diante do teu Filho, rodeados pela nuvem de testemunhas anônimas oriunda de todas as nações, tribos, raças e línguas. Ajuda-nos a superar a tentação de separar, catalogar e hierarquizar católicos e evangélicos, cristãos e não-cristãos. Fica conosco e caminha à nossa frente, para que estejamos sempre prontos a amar e servir. E que a inexplicável alegria em meio às intermináveis lutas seja nossa arma e nosso triunfo. E então estaremos vivendo em comunhão com aqueles que louvam no céu e na terra. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf


Um caminho para a felicidade

As bem-aventuranças como caminho de santidade (Mateus 5,1-12)

Felizes os que são pobres no espírito,
porque deles é o Reino dos Céus 
(Mt 5,3)
 
1 Todas as pessoas são chamadas à santidade
Na Boa-nova das bem-aventuranças, Jesus propõe um caminho de santidade. No mundo católico romano, o dia escolhido para celebrar a vida de todos os santos é 1º de novembro, ao passo que o dia 2 de novembro é um dia especial para fazer memória das pessoas bem-aventuradas e que já se encontram na glória do Pai. Para nós, que ainda temos uma missão a cumprir neste mundo, Jesus propõe um caminho de santidade e que já começa nesta vida. Conforme a comunidade de Mateus, as oito bem-aventuranças são esse caminho. 
Todas as pessoas são chamadas à santidade, a fim de serem felizes. “Sede santos, porque eu, Javé vosso Deus, sou santo” (Levítico 19,2). Mateus faria uma releitura desse chamado da seguinte forma: “Sede perfeitos, como o Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48). Coerente com sua experiência com o Deus compassivo, Lucas formula assim o mesmo convite: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).

2 Jesus, o novo mestre da justiça, nos ensina o caminho da santidade
Quando Mateus apresenta Jesus fazendo cinco grandes discursos (Mt 5-7; 10; 13,1-52; 18; 24-25), sua intenção é apresentá-lo como o novo Moisés, a quem eram atribuídos os cinco livros da lei, o Pentateuco. 
A lei era considerada a expressão da vontade de Deus. No tempo de Jesus, muitos fariseus estavam preocupados em viver as leis do Pentateuco em todos os seus pormenores. Jesus, porém, vive e anuncia essa vontade de Deus indo além da letra da lei. Diz que, mais que a letra, é o espírito da lei que importa. Disse ainda que o espírito da lei consiste na vivência do amor a Deus e ao próximo como a si mesmo (Mt 22,34-40). Assim, o amor passa a ser a orientação fundamental para o nosso agir (cf. Mt 12,1-8; 23). Mateus chama essa vontade de Deus de justiça do Reino (cf. Mt 6,33). Se Moisés era o antigo mestre da lei, Jesus é o novo mestre da justiça a nos ensinar o caminho de Deus, o caminho da santidade no amor.

3 Bem-aventuranças: a porta de entrada ao Sermão da Montanha
No primeiro discurso, no Sermão da Montanha (Mt 5-7), o mestre da justiça ensina um conjunto de orientações para a boa convivência na comunidade, chamada a viver as relações do Reino. Tal como Moisés escrevera as palavras da lei encontrando-se sobre um monte, Jesus dá as novas orientações também numa montanha (Êxodo 34,28; Mt 5,1).
As bem-aventuranças são a porta de entrada ao Sermão da Montanha (Mt 5-7). Elas são um programa de vida para trazer felicidade plena a quem adere à Boa-nova de Jesus. São orientações para seguir no caminho de santidade.

4 Bem-aventuranças: as atitudes no caminho de santidade 
A justiça do Reino dos Céus, isto é, a vontade de Deus, é o carro-chefe das bem-aventuranças. Convém lembrar que, em Mateus, “Céus” é sinônimo de “Deus” (cf. Lucas 6,20). É importante que tenhamos isso presente para superarmos a tentação de transferir o Reino para depois da morte. Para Jesus de Nazaré, seu projeto do Reino é para esta vida, que é eterna. Ele não diz que os pobres “serão” felizes. Porém, afirma: “porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3.10). E, ao anunciar a plataforma do Pai, Jesus diz que o Reino está próximo. Estar perto no sentido temporal quer dizer que é para breve e não para um futuro distante. Ao mesmo tempo, o Reino está perto no sentido espacial, isto é, ele já está presente entre nós na vida de Jesus, de um lado, e, de outro, em todos os gestos de solidariedade e de partilha.
O Reino é o projeto na primeira e na oitava bem-aventurança (Mt 5,3.10). E, no centro, estão a busca da justiça (do projeto do Reino) e a busca da misericórdia (ter o coração voltado para quem está na miséria). Uma vez realizada a justiça de Deus, os empobrecidos deixarão de ser oprimidos, pois haverá partilha e solidariedade. Por isso, Jesus os declara felizes.

5 Felizes os pobres no espírito
A primeira bem-aventurança é a mais importante. As demais são desdobramentos desta. Qual é a porta de entrada para o Reino? Quem são os pobres no espírito? São aquelas pessoas nomeadas nas demais bem-aventuranças, ou seja, as que choram, as que são humildes e não têm terra (cf. Salmo 37,11), as que têm fome, as que são misericordiosas, as puras de coração, aquelas que promovem a paz e as que são perseguidas por causa da justiça. Observemos que tanto em relação aos pobres no espírito (primeira bem-aventurança), como aos perseguidos por causa da justiça (oitava), fala-se do mesmo prêmio: deles já é o Reino dos Céus (verbo no presente). Trata-se do mesmo grupo de pessoas.
E quais são as dádivas para esses empobrecidos ou para quem com eles é solidário? Jesus anima a sua esperança anunciando-lhes o Reino para o tempo presente. E os seus frutos serão: consolo, terra partilhada, fartura, misericórdia, contemplação de Deus e filiação divina. E ser filha e filho de Deus é agir à sua imagem e semelhança, isto é, ter as mesmas atitudes de Deus.

6 É suficiente ser pobre?
Não. Ser pobre não é suficiente. Está claro que os empobrecidos são os preferidos de Deus, justamente porque ele não pode ver nenhum de seus filhos e nenhuma de suas filhas passando por necessidades. Ainda mais, quando a pobreza é fruto da injustiça humana. A preferência de Deus é sua misericórdia para com seus filhos que sofrem violência, como vítimas de seus próprios irmãos. É interessante notar que esta mesma bem-aventurança, no Evangelho segundo Lucas, reza assim: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6,20). 
Quando a comunidade de Mateus acrescentou “no espírito” à primeira bem-aventurança de Jesus, também estava preocupada com o fato de que há pobres que têm corações e mentes possessos pelo espírito de rico, buscando o sentido mais profundo para a vida na riqueza, no prestígio e no poder. Por isso, Mateus quis deixar bem claro que não basta ser pobre, mas que é preciso ser “pobre no espírito”, isto é, viver de acordo com o espírito do próprio Deus. Ser pobre também por dentro, interiormente. É provável que a comunidade de Mateus, ao acrescentar na parábola do banquete a presença de um homem sem a veste nupcial (Mt 22,1-14; comparar com Lc 14,16-24), queira justamente referir-se à necessidade de também ser pobre no espírito, ou seja, livre de tudo que escraviza. Ser pobre no espírito também é a opção pelo projeto da justiça e da misericórdia, é viver na total confiança e dependência de Deus, é confiar na partilha, na vida simples e na fraternidade. 
Aliás, são justamente as pessoas que buscam a felicidade no consumismo, na acumulação e no individualismo que perseguem aos que lutam pela justiça do Reino, pela paz e pela partilha. Foi assim que, no passado, os poderosos perseguiram os profetas (Mt 5,10-12) e, ainda hoje, caluniam e perseguem a quem luta por um Brasil em que também as pessoas excluídas possam fazer, pelo menos, três refeições ao dia.

7 A felicidade proposta pelo capitalismo e a felicidade do Reino de Deus
Faz alguns anos, o padre Renzo Flório, celebrando conosco na comunidade São Judas Tadeu, em São Leopoldo, confrontou as bem-aventuranças com as promessas de felicidade da sociedade consumista. Em sua reflexão, Flório disse mais ou menos como segue.
Enquanto a ideologia capitalista declara felizes os que acumulam, Jesus anuncia a bem-aventurança para os pobres no espírito, para as pessoas totalmente livres e desapegadas de qualquer riqueza idolatrada.
O projeto mundano proclama feliz quem vive em festanças, ao passo que Jesus afirma que bem-aventuradas são as pessoas que agora choram, uma vez que irão superar as suas aflições.
Para o sistema do capital, felizes são os donos de grandes extensões de terra. Para Jesus, no entanto, bem-aventurados são os pobres que não têm terra, pois irão conquistá-la para nela viver e trabalhar.
Enquanto a mentalidade do projeto deste mundo diz que são felizes as pessoas que praticam a injustiça, Jesus atesta que bem-aventurados são os que têm fome e sede de justiça, lutando para que essa fome e essa sede sejam saciadas.
A mística do capital declara felizes os individualistas voltados somente para seus próprios interesses, ao passo que Jesus anuncia que bem-aventuradas são as pessoas misericordiosas, solidárias.
Na propaganda de quem defende o poder financeiro, são felizes os desonestos e falsos, os cínicos e debochados. Para Jesus, porém, são bem-aventurados os puros de coração, as pessoas transparentes, sinceras, autênticas.
O sistema deste mundo proclama felizes os que alcançam o que querem através da violência e da guerra. Jesus afirma que bem-aventurado é quem promove a paz.
Por fim, os poderosos dizem que feliz é quem calunia e persegue aqueles que lutam por vida digna para todos. Jesus, contudo, declara felizes os perseguidos por causa de seu engajamento na luta pela justiça.
Hoje, Jesus renova o convite para nós: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33). E o caminho da justiça do Reino, o caminho da santidade, está na prática, não da letra da lei, mas do espírito da lei proposto nas orientações fundamentais para a vida, e que Jesus sintetiza nas bem-aventuranças. É um projeto que abrange a vida toda, envolvendo as relações com os bens, com as pessoas, conosco mesmos e com Deus.
Quem é verdadeiramente feliz? Qual a verdadeira felicidade?
Ildo Bohn Gass

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Evangelho dominical

CURAR-NOS DA CEGUEIRA


Que podemos fazer quando a fé se vai apagando dos nossos corações? É possível reagir? Poderemos sair da indiferença? Marcos narra a cura do cego Bartimeu para animar os seus leitores a viver um processo que pode mudar as suas vidas.
Não é difícil reconhecer-nos na figura de Bartimeu. Vivemos por vezes como «cegos», sem condições de ver a vida como a via Jesus. «Sentados», instalados numa religião convencional, sem forças para seguir os Seus passos. Desencaminhados, «à beira do caminho» que leva até Jesus, sem o ter como guia das nossas comunidades cristãs.
Que podemos fazer? Apesar da sua cegueira, Bartimeu «toma conhecimento» que Jesus está passando pela sua vida. Não pode deixar escapar a oportunidade e começa a gritar: «Tem compaixão de mim». Isto é sempre o início: abrir-se a qualquer chamada ou experiencia que nos convida a curar a nossa vida.
O cego não sabe recitar orações feitas por outros. Só sabe gritar e pedir compaixão porque se sente mal. Este grito humilde e sincero, repetido desde o fundo do coração, pode ser para nós o início de uma vida nova. Jesus não passará ao largo.
O cego continua no chão, longe de Jesus, mas escuta atentamente o que lhe dizem os Seus enviados: «Ânimo! Levanta-te. Está chamando você!». Primeiro, anima-se abrindo um pequeno resquício à esperança. Logo, escuta a chamada de levantar-se e reage. Por fim, já não se sente só: Jesus chama-o. Isto muda tudo.
Bartimeu dá três passos que vão mudar a sua vida. «Atira o manto» porque o estorva para se encontrar com Jesus. Logo, apesar de todavia se mover entre trevas, «dá um salto» decidido. Desta forma «aproxima-se» de Jesus. É o que necessitamos muitos de nós: liberar-nos de correntes que afogam a nossa fé; tomar, por fim, uma decisão sem deixar para mais tarde; e colocar-nos ante Jesus com confiança simples e nova.
Quando Jesus lhe pergunta o que quer Dele, o cego não tem dúvidas. Sabe muito bem o que necessita: «Mestre, que eu possa ver». É o mais importante. Quando se começa a ver as coisas de uma nova forma, a sua vida transforma-se. Quando uma comunidade recebe a luz de Jesus, converte-se.
José Antonio Pagola

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

TRIGÉSIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO B – 25.10.2015)

Sigamos Jesus, com olhos abertos e coração generoso!

Avançamos no mês que a Igreja dedica à animação missionária. Irmãos e irmãs extraordinários nos acompanham: Santa Teresinha, São Francisco, Santa Teresa, São Lucas, Santo Inácio de Antioquia... Eles nos estimulam a discernir nossa vocação na Igreja e assumir nossa missão no mundo. Como cristãos, não podemos ficar sentados à beira da estrada. Diante da Palavra de Deus que chama, precisamos levantar com coragem, deixar de lado aquilo que nos amarra, pedir que se abram nossos olhos, e pôr o pé na estrada, a fim de que todas as pessoas sejam reconhecidas em sua dignidade.
Somos movidos pelo desejo, não importa o nome com o qual o batizamos. O desejo insaciável de plenitude faz com que a pessoa humana se coloque a caminho e com ele se identifique. Apagar este desejo, ou substituí-lo pela rasteira satisfação proporcionada pelo consumo de bens fugazes, equivale a começar a morrer. O ser humano só fica sentado à beira da estrada quando ainda não alcançou sua própria maturidade ou quando tem roubada a sua dignidade. Só quem ousa caminhar para além da situação presente é capaz de recusar uma vida sustentada por migalhas de bem-estar.
O desejo mobilizador e criador é também o lugar do encontro com Deus. Quem busca Deus fora desta insaciável sede de plenitude acaba encontrando ou fabricando ídolos que só fazem amedrontar os viventes e devorar vidas. É Deus quem nos fez assim, misturando o pó da terra ao sopro divino. E é nessa abertura radical e que nada pode preencher que ele costuma vir ao nosso encontro, acolhendo-a não como sinal de nossos limites, mas como expressão do infinito que nos habita. É também do adorável fundo desta condição de criaturas desejantes que brota a verdadeira oração.
Não esqueçamos que é na oração que revelamos nossos verdadeiros e mais profundos desejos. O que é que andamos pedindo nas orações pessoais e celebrações comunitárias? Dirigimo-nos a Deus como se ele fosse um substituto do falido sistema de saúde, pedindo que não deixe que a doença se hospede em nós ou nos nossos familiares? Confiamos a ele a frágil economia da nossa família e imploramos que dê segurança às nossas poupanças? Talvez cheguemos até a pedir paz, segurança e sucesso à nossa Igreja na concorrência com as demais denominações, que tratamos como concorrentes...
Pobres desejos esses!... Não passam de necessidades, reais ou fantasiosas, geradas no ventre do medo. Por isso, quando se trata de oração, não é suficiente pedir com insistência: é preciso desejar e pedir com ousadia e corretamente grandes coisas! Venha a nós o vosso Reino! Seja feita a vossa vontade! Renova a face da terra!... O cego Bartimeu, que pede esmolas à margem do caminho, começa pedindo compaixão àquele que carrega nas próprias entranhas as esperanças dos pequenos. Antes de manifestar propriamente um desejo, expressa sua própria condição de dor e alienação.
Apesar da contrariedade dos que o circundam e seguem, Jesus pára e se dirige ao cego e mendigo: “O que você quer que eu faça por você?” Encorajado pelos discípulos, Bartimeu balbucia um pedido que vem do fundo da condição humana, que espanta todos os medos e exorciza as limitações: “Mestre, eu quero ver de novo!” Neste pedido, ele resume todas as suas necessidades e desejos: ver claramente as coisas, avaliar com retidão os acontecimentos, vislumbrar o Reino de Deus chegando como graça, reconhecer a presença de Deus nos pequenos e grandes gestos de serviço solidário...
Pouco antes, um jovem rico havia voltado atrás, entristecido, porque era refém dos próprios bens (cf. Mc 10,17-22), e os filhos de Zebedeu expressaram seus sonhos de poder. Mas Bartimeu se livra do único meio de sobrevivência que possui e se aproxima de Jesus. E é essa fé ativa e dinâmica que abre seus olhos. “Pode ir, a sua fé curou você!” E ele não volta para casa, como seria de se esperar, mas põe-se a seguir Jesus. É muito diferente do jovem rico, que voltou atrás desiludido, e de João e Tiago, que desejam os primeiros lugares. Os primeiros são os últimos, e os últimos são os primeiros!
Jesus de Nazaré, peregrino no santuário das dores e sonhos humanos! Escuta o grito que brota das entranhas da terra e abre os nossos olhos para podermos reconhecer-te passando por nossos caminhos. Desamarra nossos pés, para que sigamos teus passos. Converte a  tua Igreja, para que ela não ignore os desejos e sonhos que movem a humanidade, e desperta nela novas formas de cooperação missionária. E que ninguém cale em nós o grito desse desejo, mais forte que todas as razões, mais glorioso que todas as luzes, mais vivo que todas as cores, mais nobre que todas as honras. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
(Profeta Jeremias 31,7-9 * Salmo 125 (126) * Carta aos Hebreus 5,1-6 * Evangelho de São Marcos 10,46-52)

Bartimeu, o cego que via longe...

Bartimeu, o cego de Jericó, discípulo modelo para todos nós (Mc 10,46-52)


COMENTANDO
Finalmente, após longa travessia, chegam a Jericó, última parada antes da subida para Jerusalém. O cego Bartimeu está sentado à beira da estrada. Não pode participar da procissão que acompanha Jesus. Mas ele grita, invocando a ajuda de Jesus: "Filho de Davi! Tem dó de mim!" O grito do pobre incomoda. Os que vão à procissão tentam abafá-lo. Mas "ele gritava mais ainda!" E Jesus, o que faz? Ele escuta o grito, para e manda chamá-lo! Os que queriam abafar o grito incômodo do pobre, agora, a pedido de Jesus, são obrigados a ajudar o pobre a chegar até Jesus.
Bartimeu larga tudo e vai até Jesus. Não tem muito. Apenas um manto. Mas era o que tinha para cobrir o seu corpo (cf. Ex 22,25-26). Era a sua segurança, o seu chão! Jesus pergunta: "O que você quer que eu faça?" Não basta gritar. Tem que saber por que grita! "Mestre, que eu possa ver novamente!" Bartimeu tinha invocado Jesus com ideias não inteiramente corretas, pois o título "Filho de Davi" não era muito bom.
O próprio Jesus o tinha criticado (Mc 12,35-37). Mas Bartimeu teve mais fé em Jesus do que nas suas ideias sobre Jesus. Assinou em branco. Não fez exigências como Pedro. Soube entregar sua vida aceitando Jesus sem impor condições. Jesus lhe disse: "'Tua fé te curou!' No mesmo instante, o cego recuperou a vista". Largou tudo e seguiu Jesus no caminho para o Calvário (10,52).
Sua cura é fruto da sua fé em Jesus (Mc 10,46-52). Curado, Bartimeu segue Jesus e sobe com ele para Jerusalém. Tornou-se discípulo modelo para Pedro e para todos os que queremos "seguir Jesus no caminho" em direção a Jerusalém: acreditar mais em Jesus do que nas nossas ideias sobre Jesus! Nesta decisão de caminhar com Jesus estão a fonte da coragem e a semente da vitória sobre a cruz. Pois a cruz não é uma fatalidade, nem uma exigência de Deus. Ela é a consequência do compromisso assumido com Deus de servir aos irmãos e de recusar o privilégio.
ALARGANDO
A fé é uma força que transforma as pessoas
A Boa Nova do Reino anunciada por Jesus era como um fertilizante. Fazia crescer a semente da vida que estava escondida no povo, escondida como fogo em brasa debaixo das cinzas das observâncias sem vida. Jesus soprou nas cinzas e o fogo acendeu, o Reino desabrochou e o povo se alegrou. A condição era sempre a mesma: crer em Jesus.
A cura de Bartimeu (Mc 10,46-52) esclarece um aspecto muito importante da longa instrução de Jesus aos discípulos. Bartimeu tinha invocado Jesus com o título messiânico "Filho de Davi" (Mc 10,47). Jesus não gostava deste título (Mc 12,35-37). Porém, mesmo invocando Jesus com ideias não inteiramente corretas, Bartimeu teve fé e foi curado.
Diferentemente de Pedro (Mc 8,32-33), acreditou mais em Jesus do que nas ideias que tinha sobre Jesus. Converteu-se, largou tudo e seguiu Jesus no caminho para o Calvário (Mc 10,52). A compreensão plena do seguimento de Jesus não se obtém pela instrução teórica, mas sim pelo compromisso prático, caminhando com ele no caminho do serviço, desde a Galiléia até Jerusalém.
Quem insiste em manter a ideia de Pedro, isto é, do Messias glorioso sem a cruz, nada vai entender de Jesus e nunca chegará a tomar a atitude do verdadeiro discípulo. Quem souber crer em Jesus e fazer a "entrega de si" (Mc 8,35), aceitar "ser o último" (Mc 9,35), "beber o cálice e carregar sua cruz" (Mc 10,38), este, como Bartimeu, mesmo tendo ideias não inteiramente corretas, conseguirá enxergar e "seguirá Jesus no caminho" (Mc 10,52). Nesta certeza de caminhar com Jesus estão a fonte da coragem e a semente da vitória sobre a cruz.
Carlos Mesters e Mercedes Lopes

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

DIA MUNDIAL DAS MISSÕES 2015

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO 
PARA O DIA MUNDIAL DAS MISSÕES 2015

Queridos irmãos e irmãs,
Neste ano de 2015, o Dia Mundial das Missões tem como pano de fundo o Ano da Vida Consagrada, que serve de estímulo para a sua oração e reflexão. Na verdade, entre a vida consagrada e a missão subsiste uma forte ligação, porque, se todo o batizado é chamado a dar testemunho do Senhor Jesus, anunciando a fé que recebeu em dom, isto vale de modo particular para a pessoa consagrada. O seguimento de Jesus, que motivou a aparição da vida consagrada na Igreja, é reposta à chamada para se tomar a cruz e segui-Lo, imitar a sua dedicação ao Pai e os seus gestos de serviço e amor, perder a vida a fim de a reencontrar. E, dado que toda a vida de Cristo tem carácter missionário, os homens e mulheres que O seguem mais de perto assumem plenamente este mesmo carácter.
A dimensão missionária, que pertence à própria natureza da Igreja, é intrínseca também a cada forma de vida consagrada, e não pode ser transcurada sem deixar um vazio que desfigura o carisma. A missão não é proselitismo, nem mera estratégia; a missão faz parte da «gramática» da fé, é algo de imprescindível para quem se coloca à escuta da voz do Espírito, que sussurra «vem» e «vai». Quem segue Cristo não pode deixar de tornar-se missionário, e sabe que Jesus «caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa missionária» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 266).

A missão é uma paixão por Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, uma paixão pelas pessoas. Quando nos detemos em oração diante de Jesus crucificado, reconhecemos a grandeza do seu amor, que nos dignifica e sustenta e, simultaneamente, apercebemo-nos de que aquele amor, saído do seu coração trespassado, estende-se a todo o povo de Deus e à humanidade inteira; e, precisamente deste modo, sentimos também que Ele quer servir-Se de nós para chegar cada vez mais perto do seu povo amado (cf. Ibid., 268) e de todos aqueles que O procuram de coração sincero. Na ordem de Jesus – «Ide» –, estão contidos os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja. Nesta, todos são chamados a anunciar o Evangelho pelo testemunho da vida; e, de forma especial aos consagrados, é pedido para ouvirem a voz do Espírito que os chama a partir para as grandes periferias da missão, entre os povos onde ainda não chegou o Evangelho.
O cinquentenário do Decreto conciliar Ad gentes convida-nos a reler e meditar este documento que suscitou um forte impulso missionário nos Institutos de Vida Consagrada. Nas comunidades contemplativas, recobrou luz e eloquência a figura de Santa Teresa do Menino Jesus, padroeira das missões, como inspiradora da íntima ligação que há entre a vida contemplativa e a missão. Para muitas congregações religiosas de vida ativa, a ânsia missionária surgida do Concilio Vaticano II concretizou-se numa extraordinária abertura à missão ad gentes, muitas vezes acompanhada pelo acolhimento de irmãos e irmãs provenientes das terras e culturas encontradas na evangelização, de modo que hoje pode-se falar de uma generalizada interculturalidade na vida consagrada. Por isso mesmo, é urgente repropor o ideal da missão com o seu centro em Jesus Cristo e a sua exigência na doação total de si mesmo ao anúncio do Evangelho. Nisto não se pode transigir: quem acolhe, pela graça de Deus, a missão, é chamado a viver de missão. Para tais pessoas, o anúncio de Cristo, nas múltiplas periferias do mundo, torna-se o modo de viver o seguimento d’Ele e a recompensa de tantas canseiras e privações. Qualquer tendência a desviar desta vocação, mesmo se corroborada por nobres motivações relacionadas com tantas necessidades pastorais, eclesiais e humanitárias, não está de acordo com a chamada pessoal do Senhor ao serviço do Evangelho. Nos Institutos Missionários, os formadores são chamados tanto a apontar, clara e honestamente, esta perspectiva de vida e acção, como a discernir com autoridade autênticas vocações missionárias.
Dirijo-me sobretudo aos jovens, que ainda são capazes de testemunhos corajosos e de empreendimentos generosos e às vezes contracorrente: não deixeis que vos roubem o sonho duma verdadeira missão, dum seguimento de Jesus que implique o dom total de si mesmo. No segredo da vossa consciência, interrogai-vos sobre a razão pela qual escolhestes a vida religiosa missionária e calculai a disponibilidade que tendes para a aceitar por aquilo que é: um dom de amor ao serviço do anúncio do Evangelho, nunca vos esquecendo de que o anúncio do Evangelho, antes de ser uma necessidade para quantos que não o conhecem, é uma carência para quem ama o Mestre.
Hoje, a missão enfrenta o desafio de respeitar a necessidade que todos os povos têm de recomeçar das próprias raízes e salvaguardar os valores das respectivas culturas. Trata-se de conhecer e respeitar outras tradições e sistemas filosóficos e reconhecer a cada povo e cultura o direito de fazer-se ajudar pela própria tradição na compreensão do mistério de Deus e no acolhimento do Evangelho de Jesus, que é luz para as culturas e força transformadora das mesmas.
Dentro desta dinâmica complexa, ponhamo-nos a questão: «Quem são os destinatários privilegiados do anúncio evangélico?» A resposta é clara; encontramo-la no próprio Evangelho: os pobres, os humildes e os doentes, aqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, aqueles que não te podem retribuir (cf. Lc 14, 13-14). Uma evangelização dirigida preferencialmente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer: «existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 48). Isto deve ser claro especialmente para as pessoas que abraçam a vida consagrada missionária: com o voto de pobreza, escolhem seguir Cristo nesta sua preferência, não ideologicamente, mas identificando-se como Ele com os pobres, vivendo como eles na precariedade da vida diária e na renúncia ao exercício de qualquer poder para se tornar irmãos e irmãs dos últimos, levando-lhes o testemunho da alegria do Evangelho e a expressão da caridade de Deus.
Para viver o testemunho cristão e os sinais do amor do Pai entre os humildes e os pobres, os consagrados são chamados a promover, no serviço da missão, a presença dos fiéis leigos. Como já afirmava o Concílio Ecumênico Vaticano II, «os leigos colaboram na obra de evangelização da Igreja e participam da sua missão salvífica, ao mesmo tempo como testemunhas e como instrumentos vivos» (Adge ntes, 41). É necessário que os consagrados missionários se abram, cada vez mais corajosamente, àqueles que estão dispostos a cooperar com eles, mesmo durante um tempo limitado numa experiência ao vivo. São irmãos e irmãs que desejam partilhar a vocação missionária inscrita no Batismo. As casas e as estruturas das missões são lugares naturais para o seu acolhimento e apoio humano, espiritual e apostólico.
As Instituições e as Obras Missionárias da Igreja estão postas totalmente ao serviço daqueles que não conhecem o Evangelho de Jesus. Para realizar eficazmente este objetivo, aquelas precisam dos carismas e do compromisso missionário dos consagrados, mas também os consagrados precisam duma estrutura de serviço, expressão da solicitude do Bispo de Roma para garantir de tal modo a koinonia que a colaboração e a sinergia façam parte integrante do testemunho missionário. Jesus colocou a unidade dos discípulos como condição para que o mundo creia (cf. Jo 17, 21). A referida convergência não equivale a uma submissão jurídico-organizativa a organismos institucionais, nem a uma mortificação da fantasia do Espírito que suscita a diversidade, mas significa conferir maior eficácia à mensagem evangélica e promover aquela unidade de intentos que é fruto também do Espírito.
A Obra Missionária do Sucessor de Pedro tem um horizonte apostólico universal. Por isso, tem necessidade também dos inúmeros carismas da vida consagrada, para dirigir-se ao vasto horizonte da evangelização e ser capaz de assegurar uma presença adequada nas fronteiras e nos territórios alcançados.
Queridos irmãos e irmãs, a paixão do missionário é o Evangelho. São Paulo podia afirmar: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1 Cor 9, 16). O Evangelho é fonte de alegria, liberdade e salvação para cada homem. Ciente deste dom, a Igreja não se cansa de anunciar, incessantemente, a todos «O que existia desde o princípio, O que ouvimos, O que vimos com os nossos olhos» (1 Jo 1, 1). A missão dos servidores da Palavra – bispos, sacerdotes, religiosos e leigos – é colocar a todos, sem excluir ninguém, em relação pessoal com Cristo. No campo imenso da atividade missionária da Igreja, cada batizado é chamado a viver o melhor possível o seu compromisso, segundo a sua situação pessoal. Uma resposta generosa a esta vocação universal pode ser oferecida pelos consagrados e consagradas através duma vida intensa de oração e união com o Senhor e com o seu sacrifício redentor.
Ao mesmo tempo que confio a Maria, Mãe da Igreja e modelo de missionariedade, todos aqueles que, ad gentes ou no próprio território, em todos os estados de vida, cooperam no anúncio do Evangelho, de coração concedo a cada um a Bênção Apostólica.
Vaticano, 24 de Maio – Solenidade de Pentecostes – de 2015.

FRANCISCO

Evangelho dominical

NADA DISSO ENTRE NÓS


A caminho de Jerusalém, Jesus adverte os Seus discípulos do destino doloroso que O espera e aos que sigam os Seus passos. A inconsciência dos que o acompanham é incrível. Todavia hoje continua a repetir-se.
Tiago e João, os filhos de Zebedeu, afastam-se do grupo e aproximam-se sozinhos de Jesus. Não necessitam dos outros. Querem ficar com os lugares mais privilegiados e ser os primeiros no projeto de Jesus, tal como eles o imaginam. A sua petição não é uma súplica mas uma ridícula ambição: «Queremos que faças o que te vamos a pedir». Querem que Jesus os coloque acima dos outros.
Jesus parece surpreendido. «Não sabeis o que pedis». Não entenderam nada. Com grande paciência convida-os para a se perguntar se são capazes de partilhar o Seu destino doloroso. Quando se apercebem do que se passa, os outros dez discípulos enchem-se de indignação contra Tiago e João. Também eles têm as mesmas aspirações. A ambição os divide e eles se confrontam. A procura de honras e protagonismos rompe sempre a comunhão da comunidade cristã. Também hoje. Que pode ser mais contrário a Jesus e ao Seu projeto de servir a libertação das pessoas?
O fato é tão grave que Jesus «reúne-os» para deixar claro qual é a atitude que deve caracterizar sempre os Seus seguidores. Conhecem bem como atuam os romanos, «chefes dos povos» e «grandes» da terra: tiranizam as pessoas, submetem-nas e fazem sentir a todos o peso do seu poder. Pois bem, «vós não fareis nada disso».
Entre os Seus seguidores, tudo tem de ser diferente: «O que queira ser grande, seja servidor; e o que queira ser o primeiro, seja escravo de todos». A grandeza não se mede pelo poder que se tem, o cargo que se ocupa ou os títulos que se ostentam. Quem ambiciona estas coisas, na Igreja de Jesus, não se faz maior mas mais insignificante e ridículo. Na realidade, é um estorvo para quem quer promover o estilo de vida pretendido pelo Crucificado. Falta-lhe um traço básico para ser seguidor de Jesus.
Na Igreja todos temos de ser servidores. Temos de nos colocar na comunidade cristã, não de cima para baixo, desde a superioridade, o poder ou o protagonismo interesseiro, mas desde baixo desde a disponibilidade, o serviço e a ajuda aos outros. O nosso exemplo é Jesus. Não viveu nunca «para ser servido, mas para servir». Este é o melhor e mais admirável resumo do que Ele foi: servir.
José Antonio Pagola