quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A Boa noticia, dia-a-dia: 31, quinta-feira

Chega ao fim o conturbado ano de 2015. Sim, agitado e conturbado, aqui no Brasil e alhures, e não apenas pelo atentado que feriu Paris e o orgulho ocidental. Acabo de receber um diapositivo conclamando a uma guerra – a terceira guerra mundial, diz ecplicitamente! – contra o islamismo e em defesa da França e da Europa. Um PPS eivado de ódio, xenofobia, medo e complexo de superioridade! Sim, estas insanidades circulam nas redes sociais e há quem nos convoque a estas cruzadas... Que ano, heim! E o próximo, quem nos assegura que será diferente, melhor? Haja maratona para garantir ao menos alguns lampejos de lucidez e compaixão neste velho mundo que, contraditoriamente, pede um ano novo!... A liturgia católica afirma hoje peremptoriamente que Deus estabeleceu a encarnação do seu Filho como princípio e plenitude de toda a religião... Sim, é preciso fazer com que as palavras, inclusive religiosas e teológicas, que frequentemente não conseguem romper os limites das idéias, desejos e interesses perigosamente egoístas e distantes do mundo dos viventes assumam a humana carne, entrem na difícil e complexa trama das relações humanas. Que as palavras e projetos políticos e sociais ousem armar tendas ou barracas na provisoriedade da existência e da história, evitando a tentação de enclausurarem-ãse em templos e palácios, mais sólidos mas também mais pesados e inamovíveis. É na aparente provisoriedade da compaixão e na fragilidade dos princípios que se fazem carne e concretude que contemplamos a glória de Deus, cheia de graça e verdade, promessa que ilumina a inteira e única humanidade. Quando embarcamos na compaixão viva e na vulnerabilidade da carne, também conhecemos e acolhemos a luz da verdade e começamos a percorrer, devagar mas firmemente, o caminho da convivência plural e solidária, única via que abraça a possibilidade de futuro, de um mundo e um ano verdadeiramente novos!... (Itacir Brassiani msf

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O texto do Evangelho para o dia 31.12

“O Verbo se fez carne e armou sua tenda no meio de nós” (Jo, 1, 1-18)
Embora sejamos muito mais familiarizados com as leituras de Lucas, referente ao nascimento do Salvador em Belém, o texto tirado do prólogo de João nos traz o sentido profundo dos eventos do primeiro Natal.
Ele gira ao redor do “Verbo” ou “Palavra”, “Logos” em grego.  Enquanto Marcos somente começa o seu relato do Evangelho de Jesus com o seu batismo e Lucas e Mateus remontam até a sua concepção, o quarto Evangelho liga Jesus à sua preexistência, desde o começo: “No princípio já existia a Palavra e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus... A Palavra se fez homem e armou sua tenda entre nós” ( 1, 1.14)
Mesmo que se expresse sobre Jesus em termos não tão familiares para nós (Verbo, ou Palavra), João se coloca bem na tradição do Antigo Testamento.  Embora use a palavra grega “Logos”, para expressar a identidade de Jesus como o Verbo, na sua mente não está uma discussão abstrata sobre o Logos dos filósofos gregos, mas muito mais o sentido teológico do termo hebraico “Dabar”, que indica a Palavra criadora, congregadora e libertadora de Deus, expressão do Deus de amor de libertação.
O projeto de Deus aconteceu quando essa palavra se fez humana, armou a sua tenda e acampou entre nós.  O verbo grego usado “eskênôsen” deriva do termo “skêne”, que significa uma tenda de campanha. Na visão do quarto Evangelho, a Palavra, o Verbo Divino, “armou sua tenda” no meio da humanidade, não “ergueu o seu Templo!” 
Templo é fixo, tenda é móvel, ou seja: aonde anda o povo, lá estará a Palavra Viva de Deus, encarnada na pessoa e projeto de Jesus de Nazaré.  Nele e por ele a Palavra Criadora age, operando a salvação aqui na terra.  Podemos afirmar que o mistério da Palavra tem agora como centro a Pessoa de Jesus Cristo, inseparável da sua missão e projeto.
Mas essa encarnação tornou-se o divisor das águas para a humanidade.  Pois “Veio aos seus e os seus não a acolheram”.  Assim o texto desafia qualquer acomodação que porventura possa existir entre os cristãos, pois "acolher” a Palavra encarnada não é em primeiro lugar uma crença intelectual, mas o assumir dum projeto de vida, o seguimento de Jesus de Nazaré.  É uma adesão radical à pessoa e missão de Jesus, continuada em nós hoje.  Como diz o Evangelho de Mateus, “nem todo aquele que me disser “Senhor, senhor!” entrará no reino de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do céu”(Mt 7,21).
O nosso texto nos anima para que não esfriemos no seguimento de Jesus, e nos diz: “Aos que o receberam, os tornou capazes de ser filhos de Deus, os que creram nele, os que não nasceram do sangue, nem do desejo da carne, nem do desejo do homem, mas de Deus” (Jo 1,12s).
Que a celebração de hoje nos confirme na fé nesse Deus que se encarnou entre nós, “tomando a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2, 7). E, como resultado dessa renovação espiritual, nos encoraje para continuarmos na luta para criar o mundo que Deus quer: de justiça, solidariedade e fraternidade, no caminho do Reino, onde “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). 
Como nos diz Hebreus:  "Corramos com perseverança na corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumidor da fé [...] Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus” (Hb 12, 1-3)
Thomas Hughes svd

ANO C – TEMPO DO NATAL – SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR – 03.01.2016

Todas as religiões podem ser caminhos que levam a Deus!


Dentro do belo tempo do Natal, neste primeiro domingo do ano somos convidados a participar da festa da manifestação de Jesus Cristo como caminho de salvação aberto a todos os povos. Nele, todos os povos são reconhecidos como legítimos herdeiros, e todas as religiões são estabelecidas como válidos caminhos que levam à vida. Ademais, Jesus Cristo não é propriedade exclusiva dos católicos, nem dos cristãos: ele está acima dessas divisões. É claro que não podemos menosprezar a religião cristã, mas isso não significa cair na ideologia que condena e descarta as outras como erro e pecado.
Na tentativa de falar sobre Deus, a teologia não consegue abandonar as velhas imagens de poder e de realeza, e faz um esforço inútil para aplicá-las a Jesus Cristo. Mas, como ocorreu com os três magos, quem encontra realmente Jesus Cristo e o reconhece, precisa mudar também seu caminho teórico e tentar inventar uma nova linguagem para falar sobre Deus, uma linguagem que parte do presépio e da cruz. Diante de um Deus em fraldas, somos interpelados a mudar nossas idéias sobre Deus...
Aproximemo-nos do estábulo de Belém, reconheçamos e acolhamos o rei-servo que nos faz livres e nos conduz ao melhor de nós mesmos, que nos leva para fora do estreito círculo dos interesses mesquinhos e dos medos disfarçados. Contemplemos a glória de Deus que brilha nas suas criaturas e deixemos aos seus pés nossos melhores dons: o desejo de uma humanidade tecida de infinitos gestos de aproximação e solidariedade, inclusive entre aqueles não pertencem à mesma nação ou religião.
A liturgia nos sugere acolher a manifestação de Jesus Cristo num horizonte de resgate da esperança e da alegria de viver, e isso n­ão apenas para quem acredita nele e tem carimbada sua ficha de batismo. Os povos e religiões estranhas e estrangeiras também têm lugar nesta alegria. Todos nasceram igualmente para brilhar. A razão desta alegria é o Deus Menino que, na sua insuperável proximidade e inigualável simplicidade, justifica todos os seres humanos e restaura a paz entre os povos.
Homens de outros pagos e diferentes crenças, os magos chegam a Jerusalém vindos do Oriente, guiados por um sinal. Eles batem às portas dos chefes políticos e líderes religiosos e pedem ajuda para decifrar os sinais e descobrir o caminho. Os escribas mostram seu saber, mas são incapazes de se mover. Herodes fica sabendo das coisas, mas é assaltado pelo medo de perder o poder. Os magos descobrem que Aquele que merece honra e reverência não está nos palácios e nas capitais...
É em direção a Belém que os magos seguem, e é lá que encontram a alegria com feições de um menino, deitado numa manjedoura, sob o olhar cuidadoso de uma mãe. Herodes aconselhara que eles fossem a Belém em busca de informações, mas eles caminham levando presentes, e não cadernos de anotações... A estrela-sinal cumpre um papel transitório, pois o sinal de que a humanidade tem um novo líder é o “menino deitado na manjedoura”. Os magos reconhecem a realeza do Menino e lhe oferecem ouro; proclamam sua divindade, oferecendo-lhe incenso; prenunciam sua morte oferecendo-lhe mirra.
Nem o medo de Herodes e suas estratégias de espionagem, nem a indiferença dos líderes religiosos, nem o medo do rei submisso ao império, nem o paradoxo da estrebaria intimidam estes buscadores de Deus. Que prova para uma fé pouco robusta!... Eles compreendem que a estrebaria é a morada mais adequada para quem vem abater os poderosos e elevar os humildes. Este é o núcleo da fé que professamos: Deus sente-se bem assumindo a carne humana e vivendo na periferia!
Paulo nos fala de um mistério até então desconhecido e finalmente a revelado: que todos os povos e religiões participam da mesma herança do Reino de Deus e são membros do corpo de Cristo em igual dignidade com os judeus. Com isso, questiona os muros que hierarquizam e separam, e atrai a desconfiança de muitos compatriotas. Em nome de Deus, Paulo nega toda espécie de superioridade religiosa. Na raiz da nossa fé está também esta alegre descoberta da igualdade, sem privilégios: igualdade entre homens e mulheres, cristãos e não-cristãos, analfabetos e graduados, clero e leigos...
Dirigimo-nos a ti, Deus dos Humildes, Deus envolto em faixas, destino e refúgio de quem peregrina nas estradas de um mundo desigual. Dá-nos palavras e sinais que guiem nossos passos inseguros no rumo certo. Não deixes que nos detenhamos nos palácios que escondem prisões, nem nas doutrinas que se transformam em arpões. Ajuda-nos a reconhecer tua presença na Belém de todos os homens e mulheres, e a ver as diversas religiões como caminhos que conduzem ao encontro contigo. Caminha à nossa frente, e ajuda-nos a não deixar sempre aos outros a iniciativa da comunhão ecumênica. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaías 60,1-6 * Salmo 71(72) * Carta aos Efésios 3,2-6 * Evangelho de Mateus 2,1-12)

ANO C – TEMPO DO NATAL – SOLENIDADE DE MARIA, MÃE DE DEUS – 01.01.2016

A Paz só será possível mediante a superação da indiferença!

Na celebração cristã do novo ano entreleçam-se três comemorações: o início de um novo ano civil, a festa da maternidade de Maria e a jornada mundial pela Paz. Para começar, não esqueçamos que um ano novo, marcado pela novidade regeneradora da Paz, não costuma chegar da noite para o dia, ao ritmo de fogos de artifício. As novidades promissoras e duradouras são gestadas muito pacientemente no ventre profundo da história e das pessoas de boa vontade, daquelas que acolhem os dons e convites que vêm dos desertos, das periferias e das fronteiras, dons que desestabilizam e põem a caminho.
Iniciamos o novo ano no clima espiritual do Natal. A liturgia continua convidando-nos a penetrar mais profundamente o mistério da encarnação de Deus. Hoje, contemplamos a chegada dos pastores à gruta ou estábulo de Belém. Ali eles encontram Jesus no seio de uma família pobre e migrante. Ficam vivamente impressionados com o que vêem, e comparam com tudo aquilo que tinham ouvido. É possível imaginar a pergunta que ressoa na cabeça deles: Como pode uma criatura tão frágil ser portadora da Paz a todos os homens e mulheres de boa vontade?
Nascido e acolhido também por nós e no meio de nós, Jesus de Nazaré pode pacificar o mundo estabelecendo relações novas, baseadas na justiça e no combate à indiferença. E ele cumpre a promessa de Deus e a esperança humana através de cada um de nós, de homens e mulheres de boa vontade, de líderes autênticos e de organizações que não se resignam à paz aparente,  à paz que se edifica e sustenta sobre a indiferença e o equilíbrio de forças ou o terrorismo, seja aquele promovido pelos grupos radicais ou aquele sustentato pelos Estados prepotentes.
Parece que os pastores conseguiram compreender o mistério de um Deus que não se compraz na força dos cavalos ou dos tanques, nos cortejos de acólitos, nas doutrinas e nos códigos de direito, nem tampouco nos kamikazes ou homens-bomba. Deus se alegra com o despojamento voluntário e solidário de quem se faz próximo e peregrino com os deslocados e, por isso, vive louvando e glorificando a Deus por tudo o que vê e ouve. O próprio nome de Jesus é boa notícia da salvação: Deus salva seu povo do pecado. Ele age libertando, perdoando, e isso é motivo de profunda e agradecida alegria.
Em Jesus de Nazaré, na encarnação, missão e paixão do Filho de Deus, somos libertados do débito que temos conosco mesmos e com os outros por não conseguirmos realizar a utopia que realmente sonhamos. Estamos livres da culpa de termos ficado aquém ou errado o alvo. Deus não espera que cheguemos heroicamente a esta meta. Ele mesmo vem decididamente ao nosso encontro e, tomando-nos pela mão, nos conduz e sustenta nesse caminho. Ele é nossa Paz! Paz entre pessoas, religiões, classes, nações, partidos. Paz entre vencidos e vitoriosos. Paz também entre a humanidade e a criação.
Suspiramos por esta Paz que é t­ão necessária quanto urgente. Uma paz que não venha apaziguar superficialmente as relações humanas, passando à margem das relações desiguais que precisam ser mudadas. Gememos e sofremos por uma Paz geral, concreta e profunda, que parece atrasada e até impossível. Lutamos por esta Paz em todas as frentes, a ponto de quase perdermos a paz. Sem esquecer que, na sua mensagem para a Jornada Mundial pela Paz, celebrada universalmente no dia de hoje, o Papa Francisco  pede que construamos a Paz vencendo a indiferença.
É do ventre da dor humana assumida solidariamente que o Espírito desperta a dignidade de todas as criaturas e o grito em coro: “Abbá, pai querido!” Nascido de mulher e sob a Lei, Jesus conduz à liberdade todas as pessoas, começando pelos últimos, pelas pessoas que são colocadas à margem. Ele confirma que  Deus reconhece todos como filhos, e nos convida a superar relações pautadas pelo medo e pela dominação. Como filhos, somos também herdeiros do Reino de Deus, da “shalom” que proporciona o “tudo de bom” que repetimos nestes dias de passagem, o convívio sadio que tem sua base na compaixão que vence a indiferença e na justiça que destrói a desigualdade.
Deus querido, Pai e Mãe! Neste ano que se inicia, faz com que sejamos construtores de Paz. Ensina-nos a contemplar e compreender o anseio de Paz e de comunhão que pulsa no coração do mundo, e a superar a indiferença que tende a se propagar como se fosse sabedoria e boa notícia. Suscita em nós o canto que brota da dignidade de filhos e filhas que teu Filho concedeu. Faz de nós e das nossas comunidades incansáveis construtores da Paz. E dá-nos experimentar, como o concedeste a Maria e aos pastores, a alegria de reconhecer a grandeza de Deus na pequenez e na fragilidade humana. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Livro dos Números 6,22-27 * Salmo 66 (67) * Carta aos Gálatas 4,4-7 * Lucas 2,16-21)

Perguntas para um começo de ano

PREGUNTAS DE ANO NOVO

Hoje começamos um «ano novo». Como será? Que espero eu do novo ano? Que desejo de verdade? Que é que eu necessito? A que dedicarei o meu tempo mais precioso e importante? Que seria para mim algo realmente novo e bom neste ano que hoje começa?
Viverei de qualquer maneira, passando de uma ocupação a outra, sem saber exatamente o que quero nem para que vivo, ou aprenderei a distinguir o importante e essencial daquilo que é secundário? Viverei de forma rotineira e aborrecida, ou aprenderei a viver com espírito mais criativo?
Seguirei este ano afastando-me um pouco mais de Deus ou começarei a procurá-Lo com mais confiança e sinceridade? Seguirei um ano mais mudo ante Ele, sem abrir os meus lábios nem o meu coração, ou brotará por fim da minha alma maltratada uma invocação pequena, humilde mas sincera?
Viverei também este ano preocupado só com o meu bem-estar ou saberei preocupar-me alguma vez em fazer felizes os outros? De que pessoas me aproximarei? Semearei nelas alegria, ou contagiarei desalento e tristeza? Por onde eu passe, será a vida mais suave e menos dura?
Será um ano mais, dedicado a fazer coisas e mais coisas, acumulando egoísmo, tensão e nervosismo ou terei tempo para o silêncio, o descanso, a oração e o encontro com Deus? Irei fechar-me apenas com os meus problemas ou viverei procurando fazer um mundo mais humano e habitável?
Seguirei com indiferença as notícias que dia a dia me chegaram desde os países da fome? Contemplarei impassível, os corpos destroçados das pessoas do Iraque, da Síria ou os afogados das barcas? Continuarei a olhar com frieza e preconceito os que veem até nós procurando trabalho e pão? Quando aprenderei a olhar os que sofrem com coração responsável e solidário?
O «novo» deste ano não nos chegará de fora. A novidade só pode brotar do nosso interior. Este ano será novo se aprendo a acreditar de forma nova e mais confiate, se encontrar gestos novos e mais amáveis para conviver com os meus, se despertar no meu coração uma compaixão nova para com os que sofrem.
José Antonio Pagola

A Boa noticia, dia-a-dia: 30, quarta

“Enquanto um profundo silêncio envolvia o universo e a noite ia no meio do seu curso, desceu do céu, ó Deus, do seu trono real, a vossa palavra onipotente…” (cf. Sb 18,14ss). É com esta bela antífona que iniciamos as celebrações de hoje. Mal sabiam os sábios judeus que a Palavra de Deus romperia o silêncio silenciosamente, e abdicaria da onipotência para se tornar, definitivamente, humana carne no carpinteiro de Nazaré. Lucas faz questão de assinalar que, depois do breve e transitório brilho em Jerusalém, Jesus volta a Nazaré, com seus pais. É ali, naquele fim-de-mundo desconhecido e desprezado, que, enraizado nas esperanças populares, ele cresce e se torna forte, cheio de sabedoria e graça. Quem disse que a gente cresce galgando um a um ou de vez os degraus da fama, do estudo e da riqueza?! Oxalá a Palavra permaneça e se faça carne também em nós, produzindo frutos, como nos pede João na sua carta. Longe de nós o anseio pela ostentação e pela riqueza, que não vem do Pai mas do mundo, e é passageira, apesar da sua cara de estabilidade. Como Ana, profetiza do novo testamento, tenhamos olhos para reconhecer Deus e o Homem no Menino e em todos os  humildes e pequenos, e anunciar isso a todos os que buscam libertação e  vida. (Itacir Brassiani msf)

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A Boa noticia, dia-a-dia: 29, terça

Levando o Menino ao templo, José e Maria fazem mais que cumprir as leis: eles mostram um novo jeito de obedecer a lei, ou seja, ultrapassá-la pelo dom de si e pelo amor; isso ficará mais claro quando o Menino crescer e iniciar sua missão. Tomando o Menino nos braços cansados, Simeão faz bem mais que um vovô gosta de fazer com seus netos: seu olhar quase apagado é capaz de ver longe, de identificar a salvação sendo oferecida a todos os povos, uma luz iluminando todas as nações, uma missão profética que estará longe de ser unanimidade, não obstante a fragilidade da criatura que está nos seus braços. E José e Maria ficam admirados com tudo o que se diz do amado e já surpreendente Menino que lhes foi dado. Oxalá também nós possamos sempre nos admirar dos inéditos e belos caminhos que Jesus nos sugere com sua vida e seu ensinamento, que o Evangelho jamais ressoe como algo já conhecido e trivialmente rotineiro. Caminhemos na luz e permaneçamos com Jesus, amando ativamente nosso próximo, sem tropeçar no egoísmo que teima em ocupar nossa vida. Quem permanece em Jesus Cristo também procede como ele procedeu, ensina João evangelista! (Itacir Brassiani msf)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Mensagem do Papa para o Ano Novo

Mensagem do Papa Francisco para o 49º Dia Mundial da Paz
(1º de janeiro de 2016)

VENCE A INDIFERENÇA E CONQUISTA A PAZ!
1. Deus não é indiferente; importa-Lhe a humanidade! Deus não a abandona! Com esta minha profunda convicção, quero, no início do novo ano, formular votos de paz e bênçãos abundantes, sob o signo da esperança, para o futuro de cada homem e mulher, de cada família, povo e nação do mundo, e também dos chefes de Estado e de governo e dos responsáveis das religiões. Com efeito, não perdemos a esperança de que o ano de 2016 nos veja a todos firme e confiadamente empenhados, nos diferentes níveis, a realizar a justiça e a trabalhar pela paz. Na verdade, esta é dom de Deus e trabalho dos homens; a paz é dom de Deus, mas confiado a todos os homens e a todas as mulheres, que são chamados a realizá-lo.
Conservar as razões da esperança
2. Embora o ano passado tenha sido caracterizado, do princípio ao fim, por guerras e atos terroristas, com as suas trágicas consequências de sequestros de pessoas, perseguições por motivos étnicos ou religiosos, prevaricações, multiplicando-se cruelmente em muitas regiões do mundo, a ponto de assumir os contornos daquela que se poderia chamar uma «terceira guerra mundial por pedaços», todavia alguns acontecimentos dos últimos anos e também do ano passado incitam-me, com o novo ano em vista, a renovar a exortação a não perder a esperança na capacidade que o homem tem, com a graça de Deus, de superar o mal, não se rendendo à resignação nem à indiferença. Tais acontecimentos representam a capacidade de a humanidade agir solidariamente, perante as situações críticas, superando os interesses individualistas, a apatia e a indiferença.
Dentre tais acontecimentos, quero recordar o esforço feito para favorecer o encontro dos líderes mundiais, no âmbito da Cop21, a fim de se procurar novos caminhos para enfrentar as alterações climáticas e salvaguardar o bem-estar da terra, a nossa casa comum. E isto remete para mais dois acontecimentos anteriores de nível mundial: a Cúpula de Adis-Abeba para arrecadação de fundos destinados ao desenvolvimento sustentável do mundo; e a adoção, por parte das Nações Unidas, da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, que visa assegurar, até ao referido ano, uma existência mais digna para todos, sobretudo para as populações pobres da terra.
O ano de 2015 foi um ano especial para a Igreja, nomeadamente porque registou o cinquentenário da publicação de dois documentos do Concílio Vaticano II que exprimem, de forma muito eloquente, o sentido de solidariedade da Igreja com o mundo. O Papa João XXIII, no início do Concílio, quis escancarar as janelas da Igreja, para que houvesse, entre ela e o mundo, uma comunicação mais aberta. Os dois documentos – Nostra aetate e Gaudium et spes – são expressões emblemáticas da nova relação de diálogo, solidariedade e convivência que a Igreja pretendia introduzir no interior da humanidade. Na Declaração Nostra aetate, a Igreja foi chamada a abrir-se ao diálogo com as expressões religiosas não-cristãs. Na Constituição pastoral Gaudium et spes – dado que «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo» –, a Igreja desejava estabelecer um diálogo com a família humana sobre os problemas do mundo, como sinal de solidariedade, respeito e amor.
Nesta mesma perspectiva, com o Jubileu da Misericórdia, quero convidar a Igreja a rezar e trabalhar para que cada cristão possa maturar um coração humilde e compassivo, capaz de anunciar e testemunhar a misericórdia, de «perdoar e dar», de abrir-se «àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática», sem cair «na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói».
Variadas são as razões para crer na capacidade que a humanidade tem de agir, conjunta e solidariamente, reconhecendo a própria interligação e interdependência e tendo a peito os membros mais frágeis e a salvaguarda do bem comum. Esta atitude de solidária corresponsabilidade está na raiz da vocação fundamental à fraternidade e à vida comum. A dignidade e as relações interpessoais constituem-nos como seres humanos, queridos por Deus à sua imagem e semelhança. Como criaturas dotadas de inalienável dignidade, existimos relacionando-nos com os nossos irmãos e irmãs, pelos quais somos responsáveis e com os quais agimos solidariamente. Fora desta relação, passaríamos a ser menos humanos. É por isso mesmo que a indiferença constitui uma ameaça para a família humana. No limiar dum novo ano, quero convidar a todos para que reconheçam este facto a fim de se vencer a indiferença e conquistar a paz.
Algumas formas de indiferença
3. Não há dúvida de que o comportamento do indivíduo indiferente, de quem fecha o coração desinteressando-se dos outros, de quem fecha os olhos para não ver o que sucede ao seu redor ou se esquiva para não ser abalroado pelos problemas alheios, caracteriza uma tipologia humana bastante difundida e presente em cada época da história; mas, hoje em dia, superou decididamente o âmbito individual para assumir uma dimensão global, gerando o fenômeno da «globalização da indiferença».
A primeira forma de indiferença na sociedade humana é a indiferença para com Deus, da qual deriva também a indiferença para com o próximo e a criação. Trata-se de um dos graves efeitos dum falso humanismo e do materialismo prático, combinados com um pensamento relativista e niilista. O homem pensa que é o autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade; sente-se auto-suficiente e visa não só ocupar o lugar de Deus, mas prescindir completamente d’Ele; consequentemente, pensa que não deve nada a ninguém, excepto a si mesmo, e pretende ter apenas direitos. Contra esta errônea compreensão que a pessoa tem de si mesma, Bento XVI recordava que nem o homem nem o seu desenvolvimento são capazes, por si mesmos, de se atribuir o próprio significado último; e, antes dele, Paulo VI afirmara que «não há verdadeiro humanismo senão o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma vocação que exprime a ideia exacta do que é a vida humana».
A indiferença para com o próximo assume diferentes fisionomias. Há quem esteja bem informado, ouça o rádio, leia os jornais ou veja programas de televisão, mas o faz de maneira entorpecida, quase numa condição de rendição: estas pessoas conhecem vagamente os dramas que afligem a humanidade, mas não se sentem envolvidas, não vivem a compaixão. Este é o comportamento de quem sabe, mas mantém o olhar, o pensamento e a ação voltados para si mesmo. Infelizmente, temos de constatar que o aumento das informações, próprio do nosso tempo, não significa, de por si, aumento de atenção aos problemas, se não for acompanhado por uma abertura das consciências em sentido solidário. Antes, pode gerar uma certa saturação que anestesia e, em certa medida, relativiza a gravidade dos problemas. «Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios males, os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e pretendem encontrar a solução numa “educação” que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os excluídos vêem crescer este câncer social que é a corrupção profundamente radicada em muitos países – nos seus governos, empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos governantes».
Noutros casos, a indiferença manifesta-se como falta de atenção à realidade circundante, especialmente a mais distante. Algumas pessoas preferem não indagar, não se informar e vivem o seu bem-estar e o seu conforto, surdas ao grito de angústia da humanidade sofredora. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de sentir compaixão pelos outros, pelos seus dramas; não nos interessa ocupar-nos deles, como se aquilo que lhes sucede fosse responsabilidade alheia, que não nos compete. «Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem».
Vivendo numa casa comum, não podemos deixar de nos interrogar sobre o seu estado de saúde, como procurei fazer na Carta encíclica Laudato si’. A poluição das águas e do ar, a exploração indiscriminada das florestas, a destruição do meio ambiente são, muitas vezes, resultado da indiferença do homem pelos outros, porque tudo está relacionado. E de igual modo o comportamento do homem com os animais influi sobre as suas relações com os outros, para não falar de quem se permite fazer noutros lugares aquilo que não ousa fazer em sua casa.Nestes e noutros casos, a indiferença provoca sobretudo fechamento e desinteresse, acabando assim por contribuir para a falta de paz com Deus, com o próximo e com a criação.
A paz ameaçada pela indiferença globalizada
4. A indiferença para com Deus supera a esfera íntima e espiritual da pessoa individual e investe a esfera pública e social. Como afirmava Bento XVI, «há uma ligação íntima entre a glorificação de Deus e a paz dos homens na terra». Com efeito, «sem uma abertura ao transcendente, o homem cai como presa fácil do relativismo e, consequentemente, torna-se-lhe difícil agir de acordo com a justiça e comprometer-se pela paz». O esquecimento e a negação de Deus, que induzem o homem a não reconhecer qualquer norma acima de si próprio e a tomar como norma apenas a si mesmo, produziram crueldade e violência sem medida.
A nível individual e comunitário, a indiferença para com o próximo – filha da indiferença para com Deus – assume as feições da inércia e da apatia, que alimentam a persistência de situações de injustiça e grave desequilíbrio social, as quais podem, por sua vez, levar a conflitos ou de qualquer modo gerar um clima de descontentamento que ameaça desembocar, mais cedo ou mais tarde, em violências e insegurança.
Neste sentido, a indiferença e consequente desinteresse constituem uma grave falta ao dever que cada pessoa tem de contribuir – na medida das suas capacidades e da função que desempenha na sociedade – para o bem comum, especialmente para a paz, que é um dos bens mais preciosos da humanidade.
Depois, quando investe o nível institucional, a indiferença pelo outro, pela sua dignidade, pelos seus direitos fundamentais e pela sua liberdade, de braço dado com uma cultura orientada para o lucro e o hedonismo, favorece e às vezes justifica ações e políticas que acabam por constituir ameaças à paz. Este comportamento de indiferença pode chegar inclusivamente a justificar algumas políticas econômicas deploráveis, precursoras de injustiças, divisões e violências, que visam a consecução do bem-estar próprio ou o da nação. Com efeito, não é raro que os projetos econômicos e políticos dos homens tenham por finalidade a conquista ou a manutenção do poder e das riquezas, mesmo à custa de espezinhar os direitos e as exigências fundamentais dos outros. Quando as populações vêem negados os seus direitos elementares, como o alimento, a água, os cuidados de saúde ou o trabalho, sentem-se tentadas a obtê-los pela força.
Por fim, a indiferença pelo ambiente natural, favorecendo o desflorestamento, a poluição e as catástrofes naturais que desenraízam comunidades inteiras do seu ambiente de vida, constrangendo-as à precariedade e à insegurança, cria novas pobrezas, novas situações de injustiça com consequências muitas vezes desastrosas em termos de segurança e paz social. Quantas guerras foram movidas e quantas ainda serão travadas por causa da falta de recursos ou para responder à demanda insaciável de recursos naturais?
Da indiferença à misericórdia: a conversão do coração
5. Quando, há um ano – na Mensagem para o Dia Mundial da Paz intitulada «já não escravos, mas irmãos» –, evoquei o primeiro ícone bíblico da fraternidade humana, o ícone de Caim e Abel (cf. Gn 4, 1-16), fi-lo para evidenciar o modo como foi traída esta primeira fraternidade. Caim e Abel são irmãos. Provêm ambos do mesmo ventre, são iguais em dignidade e criados à imagem e semelhança de Deus; mas a sua fraternidade de criaturas quebra-se. «Caim não só não suporta o seu irmão Abel, mas mata-o por inveja». E assim o fratricídio torna-se a forma de traição, sendo a rejeição, por parte de Caim, da fraternidade de Abel a primeira ruptura nas relações familiares de fraternidade, solidariedade e respeito mútuo.
Então Deus intervém para chamar o homem à responsabilidade para com o seu semelhante, precisamente como fizera quando Adão e Eva, os primeiros pais, quebraram a comunhão com o Criador. «O Senhor disse a Caim: “Onde está o teu irmão Abel?” Caim respondeu: “Não sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irmão?” O Senhor replicou: “Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim”» (Gn 4, 9-10).
Caim diz que não sabe o que aconteceu ao seu irmão, diz que não é o seu guardião. Não se sente responsável pela sua vida, pelo seu destino. Não se sente envolvido. É-lhe indiferente o seu irmão, apesar de ambos estarem ligados pela origem comum. Que tristeza! Que drama fraterno, familiar, humano! Esta é a primeira manifestação da indiferença entre irmãos. Deus, ao contrário, não é indiferente: o sangue de Abel tem grande valor aos seus olhos e pede contas dele a Caim. Assim, Deus revela-Se, desde o início da humanidade, como Aquele que se interessa pelo destino do homem. Quando, mais tarde, os filhos de Israel se encontram na escravidão do Egito, Deus intervém de novo. Diz a Moisés: «Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspetores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel» (Ex 3, 7-8). É importante notar os verbos que descrevem a intervenção de Deus: Ele observa, ouve, conhece, desce, liberta. Deus não é indiferente. Está atento e age.
De igual modo, no seu Filho Jesus, Deus desceu ao meio dos homens, encarnou e mostrou-Se solidário com a humanidade em tudo, excepto no pecado. Jesus identificava-Se com a humanidade: «o primogênito de muitos irmãos» (Rm 8, 29). Não se contentava em ensinar às multidões, mas preocupava-Se com elas, especialmente quando as via famintas (cf. Mc 6, 34-44) ou sem trabalho (cf. Mt 20, 3). O seu olhar não se fixava apenas nos seres humanos, mas também nos peixes do mar, nas aves do céu, na erva e nas árvores, pequenas e grandes; abraçava a criação inteira. Ele vê sem dúvida, mas não se limita a isso, pois toca as pessoas, fala com elas, age em seu favor e faz bem a quem precisa. Mais ainda, deixa-se comover e chora (cf. Jo 11, 33-44). E age para acabar com o sofrimento, a tristeza, a miséria e a morte.
Jesus ensina-nos a ser misericordiosos como o Pai (cf. Lc 6, 36). Na parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 29-37), denuncia a omissão de ajuda numa necessidade urgente dos seus semelhantes: «ao vê-lo, passou adiante» (Lc 10, 32). Ao mesmo tempo, com este exemplo, convida os seus ouvintes, e particularmente os seus discípulos, a aprenderem a parar junto dos sofrimentos deste mundo para os aliviar, junto das feridas dos outros para as tratar com os recursos de que disponham, a começar pelo próprio tempo apesar das muitas ocupações. Na realidade, muitas vezes a indiferença procura pretextos: na observância dos preceitos rituais, na quantidade de coisas que é preciso fazer, nos antagonismos que nos mantêm longe uns dos outros, nos preconceitos de todo o género que impedem de nos fazermos próximo.
A misericórdia é o coração de Deus. Por isso deve ser também o coração de todos aqueles que se reconhecem membros da única grande família dos seus filhos; um coração que bate forte onde quer que esteja em jogo a dignidade humana, reflexo do rosto de Deus nas suas criaturas. Jesus adverte-nos: o amor aos outros – estrangeiros, doentes, encarcerados, pessoas sem-abrigo, até inimigos – é a unidade de medida de Deus para julgar as nossas ações. Disso depende o nosso destino eterno. Não é de admirar que o apóstolo Paulo convide os cristãos de Roma a alegrar-se com os que se alegram e a chorar com os que choram (cf. Rm 12, 15), ou recomende aos de Corinto que organizem coletas em sinal de solidariedade com os membros sofredores da Igreja (cf. 1 Cor 16, 2-3). E São João escreve: «Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?» (1 Jo 3, 17; cf. Tg 2, 15-16).
É por isso que «é determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia. A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo. E, deste amor que vai até ao perdão e ao dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto dos homens. Por isso, onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia».
Deste modo, também nós somos chamados a fazer do amor, da compaixão, da misericórdia e da solidariedade um verdadeiro programa de vida, um estilo de comportamento nas relações de uns com os outros. Isto requer a conversão do coração, isto é, que a graça de Deus transforme o nosso coração de pedra num coração de carne (cf. Ez 36, 26), capaz de se abrir aos outros com autêntica solidariedade. Com efeito, esta é muito mais do que um «sentimento de compaixão vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas, próximas ou distantes». A solidariedade «é a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos», porque a compaixão brota da fraternidade.
Assim entendida, a solidariedade constitui a atitude moral e social que melhor dá resposta à tomada de consciência das chagas do nosso tempo e da inegável interdependência que se verifica cada vez mais, especialmente num mundo globalizado, entre a vida do indivíduo e da sua comunidade num determinado lugar e a de outros homens e mulheres no resto do mundo.
Fomentar uma cultura de solidariedade e misericórdia para se vencer a indiferença
6. A solidariedade como virtude moral e comportamento social, fruto da conversão pessoal, requer empenho por parte duma multiplicidade de sujeitos que detêm responsabilidades de carácter educativo e formativo.
Penso em primeiro lugar nas famílias, chamadas a uma missão educativa primária e imprescindível. Constituem o primeiro lugar onde se vivem e transmitem os valores do amor e da fraternidade, da convivência e da partilha, da atenção e do cuidado pelo outro. São também o espaço privilegiado para a transmissão da fé, a começar por aqueles primeiros gestos simples de devoção que as mães ensinam aos filhos.
Quanto aos educadores e formadores que têm a difícil tarefa de educar as crianças e os jovens, na escola ou nos vários centros de agregação infantil e juvenil, devem estar cientes de que a sua responsabilidade envolve as dimensões moral, espiritual e social da pessoa. Os valores da liberdade, respeito mútuo e solidariedade podem ser transmitidos desde a mais tenra idade. Dirigindo-se aos responsáveis das instituições que têm funções educativas, Bento XVI afirmava: «Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de diálogo, coesão e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irmãos. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia após dia a caridade e a compaixão para com o próximo e de participar activamente na construção duma sociedade mais humana e fraterna».
Também os agentes culturais e dos meios de comunicação social têm responsabilidades no campo da educação e da formação, especialmente na sociedade atual onde se vai difundindo cada vez mais o acesso a instrumentos de informação e comunicação. Antes de mais nada, é dever deles colocar-se ao serviço da verdade e não de interesses particulares. Com efeito, os meios de comunicação «não só informam, mas também formam o espírito dos seus destinatários e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educação dos jovens. É importante ter presente a ligação estreitíssima que existe entre educação e comunicação: de fato, a educação realiza-se por meio da comunicação, que influi positiva ou negativamente na formação da pessoa». Os agentes culturais e dos meios de comunicação social deveriam também vigiar por que seja sempre lícito, jurídica e moralmente, o modo como se obtêm e divulgam as informações.
A paz, fruto duma cultura de solidariedade, misericórdia e compaixão
7. Conscientes da ameaça duma globalização da indiferença, não podemos deixar de reconhecer que, no cenário acima descrito, inserem-se também numerosas iniciativas e ações positivas que testemunham a compaixão, a misericórdia e a solidariedade de que o homem é capaz.
Quero recordar alguns exemplos de louvável empenho, que demonstram como cada um pode vencer a indiferença, quando opta por não afastar o olhar do seu próximo, e constituem passos salutares no caminho rumo a uma sociedade mais humana.
Há muitas organizações não-governamentais e grupos sócio-caritativos, dentro da Igreja e fora dela, cujos membros, por ocasião de epidemias, calamidades ou conflitos armados, enfrentam fadigas e perigos para cuidar dos feridos e doentes e para sepultar os mortos. Ao lado deles, quero mencionar as pessoas e as associações que socorrem os emigrantes que atravessam desertos e sulcam mares à procura de melhores condições de vida. Estas ações são obras de misericórdia corporal e espiritual, sobre as quais seremos julgados no fim da nossa vida.
Penso também nos jornalistas e fotógrafos, que informam a opinião pública sobre as situações difíceis que interpelam as consciências, e naqueles que se comprometem na defesa dos direitos humanos, em particular os direitos das minorias étnicas e religiosas, dos povos indígenas, das mulheres e das crianças, e de quantos vivem em condições de maior vulnerabilidade. Entre eles, contam-se também muitos sacerdotes e missionários que, como bons pastores, permanecem junto dos seus fiéis e apoiam-nos sem olhar a perigos e adversidades, em particular durante os conflitos armados.
Além disso, quantas famílias, no meio de inúmeras dificuldades laborais e sociais, se esforçam concretamente, à custa de muitos sacrifícios, por educar os seus filhos «contracorrente» nos valores da solidariedade, da compaixão e da fraternidade! Quantas famílias abrem os seus corações e as suas casas a quem está necessitado, como os refugiados e os emigrantes! Quero agradecer de modo particular a todas as pessoas, famílias, paróquias, comunidades religiosas, mosteiros e santuários que responderam prontamente ao meu apelo a acolher uma família de refugiados.
Quero, enfim, mencionar os jovens que se unem para realizar projetos de solidariedade, e todos aqueles que abrem as suas mãos para ajudar o próximo necessitado nas suas cidades, no seu país ou noutras regiões do mundo. Quero agradecer e encorajar todos aqueles que estão empenhados em ações deste gênero, mesmo sem gozar de publicidade: a sua fome e sede de justiça serão saciadas, a sua misericórdia far-lhes-á encontrar misericórdia e, como obreiros da paz, serão chamados filhos de Deus (cf. Mt 5, 6-9).
A paz, sob o signo do Jubileu da Misericórdia
8. No espírito do Jubileu da Misericórdia, cada um é chamado a reconhecer como se manifesta a indiferença na sua vida e a adoptar um compromisso concreto que contribua para melhorar a realidade onde vive, a começar pela própria família, a vizinhança ou o ambiente de trabalho.
Também os Estados são chamados a cumprir gestos concretos, atos corajosos a bem das pessoas mais frágeis da sociedade, como os reclusos, os migrantes, os desempregados e os doentes.
Relativamente aos encarcerados, urge em muitos casos adotar medidas concretas para melhorar as suas condições de vida nos estabelecimentos prisionais, prestando especial atenção àqueles que estão privados da liberdade à espera de julgamento, tendo em mente a finalidade reabilitativa da sanção penal e avaliando a possibilidade de inserir nas legislações nacionais penas alternativas à detenção carcerária. Neste contexto, desejo renovar às autoridades estatais o apelo a abolir a pena de morte, onde ainda estiver em vigor, e a considerar a possibilidade duma amnistia.
Quanto aos migrantes, quero dirigir um convite a repensar as legislações sobre as migrações, de modo que sejam animadas pela vontade de dar hospitalidade, no respeito pelos recíprocos deveres e responsabilidades, e possam facilitar a integração dos migrantes. Nesta perspectiva, dever-se-ia prestar especial atenção às condições para conceder a residência aos migrantes, lembrando-se de que a clandestinidade traz consigo o risco de os arrastar para a criminalidade.
Desejo ainda, neste Ano Jubilar, formular um premente apelo aos líderes dos Estados para que realizem gestos concretos a favor dos nossos irmãos e irmãs que sofrem pela falta de trabalho, terra e teto. Penso na criação de empregos dignos para contrastar a chaga social do desemprego, que lesa um grande número de famílias e de jovens e tem consequências gravíssimas no bom andamento da sociedade inteira. A falta de trabalho afeta, fortemente, o sentido de dignidade e de esperança, e só parcialmente é que pode ser compensada pelos subsídios, embora necessários, para os desempregados e suas famílias. Especial atenção deveria ser dedicada às mulheres – ainda discriminadas, infelizmente, no campo laboral – e a algumas categorias de trabalhadores, cujas condições são precárias ou perigosas e cujos salários não são adequados à importância da sua missão social.
Finalmente, quero convidar à realização de ações eficazes para melhorar as condições de vida dos doentes, garantindo a todos o acesso aos cuidados sanitários e aos medicamentos indispensáveis para a vida, incluindo a possibilidade de tratamentos domiciliários.
E, estendendo o olhar para além das próprias fronteiras, os líderes dos Estados são chamados também a renovar as suas relações com os outros povos, permitindo a todos uma efetiva participação e inclusão na vida da comunidade internacional, para que se realize a fraternidade também dentro da família das nações.
Nesta perspectiva, desejo dirigir um tríplice apelo: apelo a abster-se de arrastar os outros povos para conflitos ou guerras que destroem não só as suas riquezas materiais, culturais e sociais, mas também – e por longo tempo – a sua integridade moral e espiritual; apelo ao cancelamento ou gestão sustentável da dívida internacional dos Estados mais pobres; apelo à adoção de políticas de cooperação que, em vez de submeter à ditadura dalgumas ideologias, sejam respeitadoras dos valores das populações locais e, de maneira nenhuma, lesem o direito fundamental e inalienável dos nascituros à vida.
Confio estas reflexões, juntamente com os melhores votos para o novo ano, à intercessão de Maria Santíssima, Mãe solícita pelas necessidades da humanidade, para que nos obtenha de seu Filho Jesus, Príncipe da Paz, a satisfação das nossas súplicas e a bênção do nosso compromisso diário por um mundo fraterno e solidário.
Vaticano, no dia da Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria e da Abertura do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, 8 de Dezembro de 2015.
FRANCISCUS


A Boa noticia, dia-a-dia: 28, segunda-feira

“Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento... Do Egito chamei meu filho…” Desde sempre, antes mesmo de sua Palavra criadora chamar pessoas, animais, plantas e coisas à existência, Deus é aquele que ouve clamores e gritos, e jamais se faz de surdo. Assim também em relação às crianças inocentes de Belém, da Síria, da Líbia, do Iraque, de Madagascar, do Rio de Janeiro, da Amazônia... Ah, se o Senhor não estivesse ao nosso lado: os opressores teriam-nos devorados vivos; as águas impetuosas nos teriam sepultado; a correnteza nos teria arrastado... Mas Ele arrebenta os laços e arapucas que são armadas contra nós! Nosso auxílio está no nome do Senhor, que fez o céu e a terra... Ele continua nos chamando a sair do Egito, continua tratando-nos como filhas e filhos amados, preciosos. Por isso, hoje nossas palavras sejam... escuta delicada, profunda, inteira, da voz de Deus no sofrimento dos inocentes. Mesmo à noite, enquanto dormimos, sejamos ouvintes e videntes ao estilo de José: escutemos a Palavra que nos pede para pegar no colo ou pela mão o Menino – todos os meninos e meninas! – e, mesmo que seja noite, buscar caminhos e espaços de vida e segurança... para eles! (Itacir Brassiani msf)

ANO C – TEMPO DO NATAL – MEMÓRIA DOS SANTOS INOCENTES – 28.12.2015


Proclamemos com a própria vida nossa fé em Jesus de Nazaré! 
As luzes natalinas continuam acesas, ainda há doces que esperam pela nossa degustação, mas a festa do natal parece terminar em tragédia anunciada: no dia 26 fizemos memória do primeiro mártir cristão (Santo Estêvão) e no  dia 28 recordamos (e festejamos!) o martírio das crianças de Belém pelas mãos do fraco, prepotente e sanguinário Herodes. Na festa dos Santos Inocentes, somos chamados a proclamar com a vida aquilo que professamos com os lábios; convidados a participar da eucaristia com um coração simples e puro, com uma fé feita mais de ações que com palavras e promessas.
São João nos diz que Deus é Luz e que nele não há trevas. O evangelista também nos convida a caminhar na luz de Cristo, que significa assumir serenamente nossos limites e pecados e viver em comunhão com nossos irmãos e irmãs. Mediante a comunhão viva e ativa com próximo, que é pecador como nós somos pecadores, abrimo-nos solidariamente a eles, o sangue de Jesus Cristo purifica os nossos pecados e sua luz resplandece em nosso corpo. “Se caminhamos na Luz, então estamos em comunhão com os outros”.
O evangelho nos ensina que, nos sonhos, José reforça a consciência da própria vocação: tomar conta da vida do Menino e protegê-lo ante todos os riscos e ameaças. A vida, em todas as suas formas e expressões, é santa e precisa ser cuidada. A vida dos pobres e pequenos é mais santa ainda, e merece um cuidado redobrado. Em vista disso, precisamos estar prontos a arriscar nossa própria vida em favor de quem de nós necessita e a desprezar as aparentes e frágeis seguranças. Nisso José, Maria e (mais tarde) Jesus são mestres, desde sempre.
Mateus nos mostra também que José, o carpinteiro de Nazaré e marido de Maria, se inspira noutro José, aquele que fora vendido pelos próprios irmãos aos comerciantes do Egito. É dele que o carpinteiro de Nazaré aprendeu a sonhar. As preocupações e esperanças experimentadas durante o dia se transformam em sonhos noturnos. Mediante os sonhos, o pai e protetor de Jesus toma consciência da urgência das situações, mostra-se pronto e faz-se obediente à vontade de Deus. “José levantou-se, de noite, com o menino e a mãe, e retirou-se para o Egito.”
O risco escondido no ventre das posições de poder é o obscurecimento da mente e a idéia de que a coisa mais transcendente a ser feita é assegurar a sua própria continuidade. Assim o fez Herodes e muitos outros que o seguiram, nos palácios reais ou eclesiásticos, nas cúrias de todos os nomes e em todas as latitudes. Herodes fica furioso porque os magos o fazem de bobo. Acostumado a se impor pelo medo, não consegue admitir que alguém o desobedeça suas. A fúria que dorme sob o disfarce da complacência é acordada pelo mais simples sinal de insubmissão.
A raiva contra de Herodes os magos acaba se voltando contra as crianças. Com medo de um concorrente ao trono, ele opta pelo extermínio dos inocentes. Não importam tanto os acontecimentos históricos, mas a serena constatação de que o medo e a prepotência dos poderosos sempre fazem vítimas, e as crianças são atingidas em primeira linha, tanto pela fuga, pela fome, pela morte  ou pela orfandade como por outras consequências da violência. Como diz o evangelista, citando o profeta Jeremias, a violência sofrida pelos inocentes é um grito que brada aos céus.
A Igreja acolhe o testemunho das crianças anônimas de Belém e as reconhece como mártires. Elas nem mesmo haviam conhecido Jesus e, menos ainda, tinham aderido ao seu caminho. Mas tiveram a vida estraçalhada por causa de Jesus Cristo. Mesmo sem dizer uma só palavra, eles confessaram com o sangue a chegada do Filho de Deus, abriram com seus pequenos corpos os caminhos do Reino de Justiça e de Paz, e testemunharam a violência mórbida e desumanizadora de Herodes. Mas, apesar das aparências contrárias, a liturgia de hoje não é um lamento, mas um convite à confiança, e o salmista deixa isso suficientemente claro.
Deus pai e mãe das vítimas, dos migrantes, dos órfãos e das viúvas: no Menino da manjedoura mostraste ao mundo a glória da compaixão, e na fuga para o Egito partilhaste o destino de todos os  perseguidos por causa do teu Nome. Aprendemos do livro santo que é da boca dos pequeninos que recebes o perfeito louvor. As anônimas crianças de Belém anunciaram com o próprio sangue  a glória de teu Filho nascido na manjedoura. Faz com que nossa vida, tanto nos grandes momentos como nas práticas cotidianas, testemunhe  nossa fé em Jesus de Nazaré e na aurora invencível do teu Reino. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(1ª. Carta de João 1,5-2,2* Salmo 123 (124) * Evangelho de São Mateus 2,13-18)