domingo, 31 de janeiro de 2016

O evangelho dominical

NÃO NECESSITAMOS PROFETAS?


«Um grande profeta surgiu entre nós». Assim gritavam nas aldeias da Galileia, surpreendidos pelas palavras e os gestos de Jesus. No entanto, não é isso o que acontece em Nazaré quando se apresenta perante os Seus vizinho como ungido como Profeta dos pobres.
Jesus observa primeiro a sua admiração e depois a sua recusa. Não se surpreende. Recorda-lhe um conhecido refrão: «Asseguro-vos que ninguém é profeta na sua terra». Depois, quando o expulsam para fora da aldeia e tentam acabar com Ele, Jesus abandona-os. O narrador diz que «abriu caminho entre eles e afastou-se». Nazaré ficou sem o Profeta Jesus.
Jesus é e atua como profeta. Não é um sacerdote do templo nem um mestre da lei. A Sua vida é marcada na tradição profética de Israel. Diferentemente dos reis e sacerdotes, o profeta não é nomeado nem ungido por ninguém. A sua autoridade provém de Deus, empenhado em alentar e guiar com o seu Espírito o seu povo querido quando os dirigentes políticos e religiosos não o sabem fazer. Não é casual que os cristãos confessem a Deus encarnado num profeta.
Os traços do profeta são inconfundíveis. No meio de uma sociedade injusta onde os poderosos procuram o seu bem-estar silenciando o sofrimento dos que choram, o profeta atreve-se a ler e a viver a realidade desde a compaixão de Deus pelos últimos. Toda a Sua vida se converte em «presença alternativa» que critica as injustiças e chama à conversão e à mudança.
Por outra parte, quando a mesma religião se acomoda a uma ordem de coisas injusta e os seus interesses já não correspondem aos de Deus, o profeta sacode a indiferença e o auto engano, critica a ilusão da eternidade e absoluto que ameaça toda a religião e recorda a todos que só Deus salva. A Sua presença introduz uma esperança nova pois convida a pensar no futuro desde a liberdade e o amor de Deus.
Uma Igreja que ignora a dimensão profética de Jesus e dos Seus seguidores corre o risco de ficar sem profetas. Preocupa-nos muito a escassez de sacerdotes e pedimos vocações para o serviço presbiterial. Porque não pedimos que Deus suscite profetas? Não os necessitamos? Não sentimos necessidade de suscitar o espírito profético nas nossas comunidades?
Uma Igreja sem profetas, não correrá o risco de caminhar surda às chamadas de Deus à conversão e à mudança? Um cristianismo sem espírito profético, não terá o perigo de ficar controlado pela ordem, a tradição ou o medo à novidade de Deus?
 José Antonio Pagola

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

ANO C – QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 31.01.2016

Se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão!
O Papa São João Paulo II ensinava que a profecia nasce da intimidade com a Palavra de Deus. A pessoa que acolhe e escuta a Palavra sente a voz de Deus queimar como brasa e não consegue ficar indiferente diante das práticas de exploração, opressão e de discriminação. O próprio Jesus confirma isso: depois de ler e acolher a palavra do profeta Isaías, se propõe a cumpri-la fielmente, esquecendo-se dos próprios parentes e compatriotas e priorizando as pessoas mais pobres necessitadas. Rompendo com as expectativas do seu povo e sua família, Jesus terá que enfrentar sua oposição e perseguição.
A vocação profética é essencial na vida cristã. A Igreja é uma comunidade profética, sacerdotal e de serviço. Mas ninguém é instituído profeta, nem aprende este ofício num seminário ou numa escola de teologia... A profecia é dom do Espírito, dom que recebemos com temor e tremor. Ela nasce e se desenvolve no ventre de uma comunidade que se coloca à escuta da Palavra de Deus. Quem não se fecha à voz de um Deus que fala e interpela, sente a Palavra queimar suas entranhas e não consegue viver indiferente frente à causa de Deus, que é a causa dos pobres, das vítimas, dos excluídos.
Uma comunidade que ouve e medita a Palavra acaba também avançando e amadurecendo no serviço à Boa Notícia de Deus. Vemos isto na experiência de Jeremias. Ele tem a sensação de que a Palavra que o chama é anterior ao seu próprio nascimento. “Antes de formar-te no seio de tua mãe, eu já contava contigo. Antes de saíres do ventre, eu te consagrei e fiz de ti profeta para as nações.” É isto que percebemos também no próprio itinerário de Jesus: depois de ler e acolher a palavra do profeta Isaías na sinagoga de Nazaré, ele conecta irreversivelmente a sua vida com a causa dos oprimidos.
Às vezes escutamos falar da solidão que experimentam as pessoas que exercem o poder. Tanto na sociedade como na Igreja, parece que as pessoas estabelecidas em autoridade experimentam um certo distanciamento dos seus semelhantes. Talvez aqui se misturem sentimentos de superioridade quase divina por parte das autoridades e temores um pouco infantis e doentios por parte dos outros. Mas há também uma solidão que nasce da fidelidade ao Evangelho: na medida em que descobre que sua missão não é delimitada pela família ou pela própria raça, o profeta acaba frustrando as expectativas dos próprios compatriotas e familiares e sendo isolado.
Um olhar atento aos evangelhos nos leva a perceber como Jesus foi experimentando esta progressiva marginalização. Houve um momento em que sua fama se espalhava por toda a região e todos o elogiavam (Lc 4,14-15). Enquanto lia as escrituras, todos tinham os olhos fixos nele e testemunhavam a seu favor, maravilhados com as palavras cheias de graça que saíam da sua boca (Lc 4,22). Mas o entusiasmo logo se transformou em fúria e desejo de eliminá-lo (Lc 4,28-30), quando ele questionou a ideologia do privilégio dos judeus frente aos pagãos.  Elias e Eliseu lhe serviram de paradigma...
A profecia tem seu preço, e tanto a pessoa como a instituição que a encarnam devem estar dispostas a pagá-lo. Jesus recorre a um provérbio da sabedoria popular e diz que nenhum profeta bem recebido em sua própria terra. Mas este é apenas um lado da medalha. O outro lado é o seguinte: nenhum profeta que sente a compaixão de Deus queimar suas entranhas consegue permanecer preso aos estreitos muros da raça, da nação, da religião ou de qualquer instituição. O profeta é um incansável transgressor de fronteiras, um incurável construtor de brechas.
É na debilidade que somos fortes, diz Paulo. Escrevendo aos cristãos de Corinto, ele chama a atenção para a centralidade do amor e a relatividade de todas as funções e instituições. Se a profecia deslizar para o discurso enraivecido, incoerente e acusatório, será pouco mais que nada. O que dá consistência e verdade à profecia é o amor, este dinamismo que reconhece a dignidade do outro como outro e o serve em suas necessidades. A profecia que brota do amor, orienta-se pelo amor e conduz a um amor que não reconhece fronteiras. E o amor está acima de todo conhecimento e até acima da fé...
Jesus de Nazaré, profeta de um mundo sem fronteiras nem hierarquias, amigo dos pequenos e oprimidos! Cura nossos ouvidos, e faz que se abram à tua Palavra. Que nossa resposta à Palavra que chama, forma e envia seja breve e envolvente: “Hoje esta palavra se cumprirá em mim!... Eis-me aqui, Senhor!...” Ajuda-nos a acolher a missão profética que nos confiaste ainda no seio materno e que devemos continuar, apesar das nossas fraquezas. Abre nossos olhos e nossas mãos ao amplo e diverso mundo a ser construído, um mundo que desconhece e os estreitos muros das culturas, nações e religiões. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

ANO C – TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 24.01.2016

Que a Palavra ouvida se torne Palavra vivida!

A própria Sagrada Escritura nos apresenta belas e abundantes passagens que sublinham a importância da Palavra de Deus e elogiam sua fecundidade. O Salmo 18 (19) recorre a várias metáforas para ilustrar seu dinamismo: os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; seus mandamentos são como luz que orienta; as decisões do Senhor são verdadeiras e justas; seus projetos são preciosos como o ouro e doces como o mel... Graças a Deus, a atenção à Palavra de Deus tem crescido em nossas comunidades, e a Bíblia é hoje uma das principais fontes da espiritualidade cristã e da ação pastoral.
Na pessoa de Jesus Cristo, Espírito e Palavra coincidem com exatidão. Pregação e ação, promessa e presença se identificam. Depois do batismo, conduzido pelo Espírito, Jesus vai ao deserto, enfrenta e vence as tentações, deixa o deserto e se se insere nas lutas e tradições do seu povo. Ele inicia sua vida pública nas sinagogas dos povoados da Galiléia. “Ele ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam.” Sua ação é como de um mestre e reformador eloqüente e experimentado. Mas ele não pretende simplesmente negar as instituições da sua religião e começar tudo de novo.
Jesus freqüenta a sinagoga junto com seu povo, e isso é um hábito, e não algo que faz esporadicamente. O evangelista diz que este era um costume de Jesus. Isso revela uma atitude de discípulo. Como qualquer pessoa que se põe nos caminhos de Deus, Jesus necessita de um horizonte e de uma referência para sua vida e sua missão. Sedento e faminto das promessas de Deus, ele busca orientação na Palavra de Deus. Num sábado, procura diligentemente e encontra a passagem na qual o profeta Isaías tenta suscitar a esperança num povo radicalmente desesperançado.
Como Esdras no passado, Jesus lê a palavra que Deus suscitara mediante o profeta “para todos os homens e mulheres e todos os que tinham uso da razão”. Mas a lê também para si mesmo, buscando nela uma orientação pessoal para melhor entender sua missão. “Anunciar a Boa Notícia aos pobres; para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; libertar os oprimidos, e para proclamar um ano da graça do Senhor.” O Espírito e a Palavra enviam seus ungidos a uma missão historicamente engajada e relevante, sempre em favor dos últimos. Estes não são indiferentes ou estranhos ao povo de Deus, mas membros legítimos e preciosos, e como tal devem ser tratados.
Jesus desenvolveu sua missão evangelizadora num tempo em que a gratuidade não estava em alta. Os invasores romanos exigiam tributos, mesmo às custas da miséria do povo, e os sacerdotes do templo cobravam a reparação ritual até das faltas mais irrelevantes. Para o judaísmo, pobres, presos, cegos e oprimidos eram pecadores e, por isso, devedores. Para eles, os pecados e impurezas do povo deveriam ser pagos sem descontos. A pregação do perdão pelo arrependimento era coisa muito recente e suspeita, sustentada apenas pelo profeta que batizava nas margens do rio e poucos outros...
Jesus vai à Sinagoga para resgatar uma esperança popular enraizada na própria escritura e para questionar a pregação oficial. Ele entende que sua missão é anunciar que chegou o tempo do jubileu, do cancelamento de todas as dívidas, da remissão de todos os pecados: enfim, um tempo de misericórdia, e não de sacrifícios. Para Jesus, Deus não é nem delegado de polícia, nem agente do Serviço de Proteção ao Crédito. O Evangelho é, literalmente, uma boa notícia. Por isso, não pode ser reduzido a uma pesada e sofisticada doutrina moral, imposta a um povo já cansado e abatido.
A ‘homilia’ que Jesus fez sobre a profecia que acabara de ler foi breve e concreta. “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir.” A comunidade, que estava como que suspensa diante da proclamação da Palavra e tinha os olhos fixos no jovem pregador, foi por ele chamada ao presente concreto. Como ouvinte habitual da Palavra de Deus, Jesus percebe que o tempo está maduro e que Deus se dirige a ele. O filho amado é também o profeta e reformador esperado. Quando a profecia não se realiza no engajamento nas lutas e movimentos de libertação, é apenas meia-palavra.
Jesus de Nazaré, ouvinte da Palavra viva do pai e Palavra que se faz carne para que toda carne se torne Palavra: ensina-nos a levar sério o alimento do teu Evangelho e a jamais menosprezar tua Boa notícia. Com Paulo, teu apaixonado missionário, descobrimos que teu corpo é formado de muitos e diversos membros, unificados por teu Espírito. Ajuda-nos a reconhecer nos pobres membros que precisam ouvir boas notícias; nos oprimidos, membros que necessitam da tua liberdade; nas pessoas dependentes e endividadas, gente que tem o direito à gratuidade. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Neemias 8,2-10 * Salmo 18 B (19 B) * 1ª Carta aos Coríntios 12,12-30 * Evangelho de Lucas 1,1-4; 4,14-21)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O evangelho das bodas da Cana

O início dos novos tempos tão esperados [Jo 2,1-11]

A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo por passo, revelam quem é Jesus, e qual é a Sua missão. Embora algumas bíblias traduzam o termo grego que João usa por “milagre”, a tradução mais acertada é “Sinal”.
O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o texto de hoje. Como todo o Evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente, para nos levar além da aparência das coisas, numa caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus.
Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da “hora” de Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas a hora de glorificação de Jesus por sua morte e ressurreição. Em resposta ao pedido feito por sua mãe (João nunca se refere a ela pelo nome, mas pelo título “mulher”). Usando de uma maneira até estranha este termo para a sua mãe, João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, para reservar para ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe dos seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste Evangelho: ao pé da cruz, onde ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento de Filho e Mãe. Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor, ou seja, nós hoje.
Apesar da tradição piedosa mariana, é importante não reduzir a ação da Maria no texto à de uma incomparável intercessora. Embora seja comum esta interpretação na devoção popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre a Sua expectativa e a visão d’Ele, ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar n’Ele.
O simbolismo da água tornada vinho é também importante. Não era qualquer água - era a água da purificação dos judeus. Com essa história, João quer mostrar que doravante os ritos judaicos de purificação estão superados, pois a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente, para uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Caná, Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, algo que vai continuar ao longo do Evangelho de João.
A quantidade de vinho chama a atenção: 600 litros! O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos, e, na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa messiânica se realiza em Jesus. As talhas transbordantes simbolizam a graça abundante que Jesus traz. A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como os serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa, não sabia, enquanto estes, sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo que não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos que acreditaram n’Ele.
Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicos, ligados à purificação e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus.
O ponto culminante do relato está no v. 11: “Foi em Caná que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulos acreditaram n’Ele”. A fé deles não é intelectual ou teórica, mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos de amor. Passo a passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome” (Jo 20, 31). 
Pe. Thomas Hughes

O evangelho dominical

LINGUAGEM DE GESTOS

O evangelista João diz-nos que Jesus fez «milagres» e «prodígios». Ele chama-lhes «sinais», porque são gestos que apontam em direção a algo mais profundo do que podem ver os nossos olhos. Em concreto, os sinais que Jesus realiza orientam para a Sua pessoa e mostram-nos a Sua força salvadora.
O sucedido em Caná da Galileia é o começo de todos os sinais. O protótipo dos que Jesus irá levando a cabo ao longo da Sua vida. Nessa «transformação da água em vinho» é-nos proposta a chave para captar o tipo de transformação salvadora que opera Jesus e o que, em Seu nome, hão-de oferecer os Seus seguidores.
Tudo ocorre durante um casamento, a festa humana por excelência, o símbolo mais expressivo do amor, a melhor imagem da tradição bíblica para evocar a comunhão definitiva de Deus com o ser humano. A salvação de Jesus Cristo tem de ser vivida e oferecida pelos Seus seguidores como uma festa que dá plenitude às festas humanas quando estas ficam vazias, «sem vinho» e sem capacidade de encher o nosso desejo de felicidade total.
O relato sugere algo mais. A água só pode ser saboreada como vinho quando, seguindo as palavras de Jesus, é «retirado» de seis grandes tinas de pedra, utilizadas pelos judeus para as suas purificações. A religião da lei escrita em tábuas de pedra está exaurida. Não há água capaz de purificar o ser humano. Essa religião há-de ser liberta pelo amor e a vida que comunica Jesus.
Não se pode evangelizar de qualquer forma. Para comunicar a força transformadora de Jesus não bastam as palavras, são necessários os gestos. Evangelizar não é só falar, pregar ou ensinar; menos ainda, julgar, ameaçar ou condenar. É necessário atualizar, com fidelidade criativa, os sinais que Jesus fazia para introduzir a alegria de Deus tornando mais ditosa a vida dura daqueles camponeses.
A muitos contemporâneos a palavra da Igreja deixa-os indiferentes. As nossas celebrações aborrecem-nos. Necessitam conhecer mais sinais próximos e amistosos por parte da Igreja para descobrir nos cristãos a capacidade de Jesus para aliviar o sofrimento e a dureza da vida.
Quem quererá escutar hoje o que já não se apresenta como notícia gozosa, especialmente se se faz invocando o evangelho com tom autoritário e ameaçador? Jesus Cristo é esperado por muitos como uma força e um estímulo para existir, e um caminho para viver de forma mais sensata e gozosa. Se só conhecem uma «religião aguada» e não podem saborear algo da alegria festiva que Jesus contagiava, muitos continuarão a afastar-se.
José Antonio Pagola

ANO C – SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 17.01.2016

Jesus nos proporciona vida e algeria em abundância.

Depois de ter sido batizado no rio Jordão, Jesus não tirou férias! O batismo marcou o amadurecimento da sua consciência messiânica e o início da missão de libertar as pessoas, setores sociais e povos oprimidos. Jesus deixou a Judéia e voltou para a sua região periférica e, na pequena vila chamada Caná, na Galiléia, realizou aquele que, segundo o evangelista João, foi o primeiro sinal da chegada do Reino de Deus: transformou a carência em abundância, a tristeza em festa, a água em vinho bom e abundante. A festa de casamento mostra que Deus se importa com as necessidades do seu povo e faz com ele uma aliança definitiva, e o vinho expressa a alegria dos novos tempos que se iniciam.
É mais que tempo de perceber e de dizer com clareza e coragem que o modelo de vida promovido pelo capitalismo ocidental fracassou, que o vinho acabou no meio da festa, que as talhas de pedra estão frias, pesadas e vazias. Precisamos buscar novos caminhos, inventar novas regras, sonhar novos mundos. É necessário também superar a tentação de buscar a saída para trás, de ressuscitar tradicionalismos e autoritarismos mortos e embalsamados. É tempo de abrir os ouvidos às vozes profeticamente femininas que há tempo vêm denunciando: ‘Eles não têm mais vinho...’
A saída não é fazer aquilo que o mercado está ditando ou aquilo que a cultura ocidental ensina há séculos. Não basta obedecer às vozes que mandam ‘faça alguma coisa!’ Não basta manter a receita que produziu a tragédia. Por mais atraentes que sejam, as receitas que pedem austeridade não trazem a marca do Reino!... É preciso descobrir a orientação correta e fazer a coisa certa. E aqui entra de novo aquela lucidez que só o feminino resistente e ousado consegue preservar: ‘Façam o que ele mandar!’ Eis a indicação: acolher a Palavra e seguir o caminho aberto pelo jovem de Nazaré.
E Jesus começa pedindo para que mudemos o rumo e o conteúdo da nossa vida. As talhas velhas e pesadas não têm mais o que fazer com a purificação, até porque Deus não está interessado nestes ritos. Entre Deus e seus filhos e filhas não existe um muro alto e sólido, construído com blocos de leis e prescrições. Deus ama, é essencialmente amor e misericórdia, e nada pode aproximar-nos dele a não ser a prática do amor e da misericórdia recíproca. E para evitar sobrecargas inúteis, ele mesmo toma a iniciativa e nos assume como parceiros numa aliança indestrutível. Mas o que ele nos pede pra fazer?
Como a Nicodemos, Jesus nos diz que precisamos nascer de novo, e isso supõe desaprender. Como à mulher samaritana, ele nos pede adoração em espírito e verdade, e isso significa derrubar os muros que separam povos e religiões. Como ao jovem André, ele pede que partilhemos os pães e peixes, para que as multidões tenham o alimento que necessitam e a dignidade inviolável. Aos canonistas e legalistas ele pede que acolham os pecadores e só atirem pedras se eles mesmos não tiverem limite ou pecado. A todos ele ordena: ‘Amem-se uns aos outros como eu amei vocês.’
Aderir a Jesus Cristo é entrar num caminho de permanente transformação. É verdade que existem pessoas – e até líderes religiosos – que, mesmo tendo provado a qualidade do vinho novo, não se dão conta da sua origem, e simplesmente continuam a festa de poucos. Não percebem que a lei divide e exclui, que a aliança com os poderes é estéril e caduca, que a repetição de práticas de piedade não é suficiente, que mudar o rótulo e embelezar o pacote não muda o conteúdo da fé. Pobres mestres-sala, que estranham a transformação da água em vinho e pensam que tudo deve continuar como antes...
Na Carta aos Coríntios, Paulo nos convida a celebrar a novidade e a diversidade queridas por Deus: diversidade de dons e serviços, de pessoas e funções, de Igrejas e culturas... Essa diversidade faz parte dos tempos de abundância, inaugurados por Jesus Cristo nas bodas de Caná e expandidos pelo Espírito Santo. As capacidades são diferentes, mas o Espírito é o mesmo. Os serviços são diversos, mas o Senhor é o mesmo. As ações são múltiplas, mas o sujeito da atividade é sempre o mesmo Deus. O que ninguém pode esquecer é que todos somos chamados trabalhar para que a ninguém falte o vinho...
Jesus de Nazaré, conviva ativo na festa de Caná, presença desejada em todas as festas da vida! Ajuda-nos a perceber a diferença entre os caminhos e práticas de quem acredita em ti, escuta tua Palavra e segue teus passos e a postura daqueles que continuam apostando nas leis e sistemas que discriminam. Dá-nos também sabedoria e humildade para reconhecer os diferentes dons e iniciativas que procedem do mesmo espírito. E ensina as comunidades católicas a prestar a reverência que Maria realmente merece através da prática do seu conselho de fazer tudo aquilo que Jesus nos pede. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaías  62,1-5 * Salmo 95 (96) * 1ª Carta aos Coríntios 12,4-11 * Evangelho de João 2,1-11)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A boa noticia, dia-a-dia: 11 de janeiro, segunda-feira

O belo e especial tempo de natal chegou ao fim. O comércio e o turismo agora investem no Carnaval, que vem aí. Nós, cristãos, entramos no tempo comum, que de comum não tem nada. É tempo de generosa semeadura, de paciente cultivo, de anônimo e discreto crescimento. Segundo o evangelho de hoje, ao saber da prisão de João Batista, Jesus não se deixa intimidar. Ele se retira sim a região da Judéia, onde fora batizado, e busca a Galiléia, mais distante e abandonada, para desenvolver sua missão partindo da periferia. Para ele, e para a lógica do Reino de Deus, a prisão de João não é o fim, mas o começo, e a periferia não é o último mais o primeiro lugar. “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo!” E Jesus não permanecerá muito tempo sozinho. Dois pescadores e dois artesãos deixam barcos e redes e, sem temer o risco de terem o mesmo fim de João, fazem-se seguidores do jovem galileu. Para eles, este caminho não representava risco de prisão mas possibilidade de uma liberdade libertadora. Como para nós, que vivemos noutros tempos e noutras latitudes, mas fomos seduzidos pelas mesmas palavras: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo!... Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens!” E aqui estamos nós, buscando esta liberdade que nos seduz, ensaiando uma solidariedade que nos torna humanos. “Que poderei retribuir ao Senhor Deus por tudo aquilo que ele fez em meu favor? Elevo o cálice da minha salvação, invocando o nome santo do Senhor.” (Itacir Brassiani msf)

domingo, 10 de janeiro de 2016

Indignação crítica e cidadã (3)

Ah, como suportar a miopia jornalística mancomunada com o estrabismo político, esse olhar intencionalmente distorcido que vê os fatos e publica versões interesseiras?! Há alguns dias, no final de 2015, a rede Globo editou e veiculou várias vezes nos seus telejornais uma reportagem sobre a emigração de cubanos aos Estados Unidos. Até aqui, tudo normal. O que me surpreendeu e indignou é a expressão que a Globo usou reiteradamente para qualificar estes migrantes que, por motivos econômicos, tentam entrar nos Estados Unidos: chamou-os de refugiados! Gente, eles estão fugindo de que? São perseguidos por quem? Se há alguém que limita e ameaça a liberdade deles são as leis de imigração dos Estados Unidos e dos países por onde passam (Nicarágua, Costa Rica e México)... São migrantes econômicos, gente que sai em busca de melhoria de vida. A propósito: eram refugiados os alemães e italianos que apotaram em terras brasileiras aos milhões no final do século XIX? E são refugiados os milhares de brasileiros que passaram a fronteira e se estabeleceram em terras paraguaias? E são refugiados os mais de um milhão de brasileiros que trocaram o paraíso do futebol pelo paraíso do consumo, o Brasil pelos Estados Unidos? E por que estes pseudojornalistas resistem em qualificar como refugiados essa gente que compõe a massa humana que deixa a Africa e o Oriente Médio e adentra no paraíso europeu e notros países? Haja analfabetismo político... Haja miopia jornalística! Haja ideologia travestida de informação cândida e neutra!... Até você, Chico Pinheiro?! (Itacir msf)

A Boa noticia, dia-a-dia: 10 de janeiro, domingo

Fui dado à luz na oitava de natal, na memória dos Santos Inocentes. E levaram-me à pia batismal no dia do batismo do Senhor, no dia 10 de janeiro de 1960. Bendito seja Deus! Hoje, 56 anos de vida cristã... Obrigado, Gema e Segundo, meus pais, e Celeste e José, meus padrinhos! 56 anos de aprendizado do que significa ser discípulo de Jesus... Somente hoje dou-me conta de que a passagem da profecia de Isaías que ilumina esta festa foi a mesma que escolhi para a celebração da minha ordenação presbiteral!... “Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como centro de aliança com o povo...” Simples coincidência?! Ou será uma intuição profunda daquilo que me cabe ser?! Com 56 anos de caminhada cristã, 32 anos de vida religiosa e 29 anos de ministério, peço a Deus a graça de descer com Jesus ao Rio Jordão para, em meio ao povo que deseja endireitar caminhos e aplainar colinas, possa ver o céu aberto e escuta as palavras que o Altíssimo que se abaixou diz aos seus amados: “Tu és meu filho amado, em ti ponho o meu benquerer!” Possa perceber a missão que se abre à minha frente: ser fator de aliança... Envolvido e renovado pelo Espírito, possa eu também andar por toda parte, fazendo o bem e curando. Assim seja! Amém! (Itacir Brassiani msf)

sábado, 9 de janeiro de 2016

A Boa noticia, dia-a-dia: 9 de janeiro, sabado

Às margens do rio Jordão, João havia apresentado o jovem galileu aos seus discípulos, dizendo que ele é o Cordeiro de Deus, o bode expiatório que carrega às costas o pecado do mundo. O próprio João o batizara, entre outros pecadores. E alguns dos seus discípulos o deixaram para seguir o Cordeiro. Agora, comunicam a João que Jesus também batiza e atrai muita gente, fazendo sombra ao profeta do deserto. João não esboça nenhum sinal de inveja, mas se alegra profundamente, como o amigo do noivo na festa do seu casamento. Não disputa com ele a noiva, e está convicto de que é necessário que Jesus cresça e que ele diminua... Que bela lição de vida, num tempo em que algumas igrejas olham com inveja para o crescimento das outras, e fazem tudo para aumentar seu próprio número de fiéis e desqualificar as demais. Ou quando padres e pastores “pop stars” não medem esforços para aumentar aos milhares seus fãs, como se isso garantisse a qualidade evangélica dos seus shows e da própria carreira... (Itacir Brassiani msf)o

Indignação crítica e cidadã (2)

Quando a miopia jornalística faz aliança com o estrabismo político a informação vira deformação ou difamação... Tenho vontade de rir – porque esbravejar não levaria a nada – quando ouço os cândidos comentários, digo, as cândidas leituras dos jornalistas de plantão explicando a causa das repetidas enchentes no Sul e da longa estiagem no Norte do Brasil. O que explicaria esse desequilíbrio ou loucura climática seria o fenômeno batizado como El Niño, provocado pelo aquecimento das águas dos oceanos. Até aqui, tudo bem! O problema é a informação omitida, ou a interrogação silenciada. O que faz com que os oceanos resolvam aquecer as águas? Seriam eles temperamentais e imprevisíveis? O que os jornalistas míopes e o estrabismo político das empresas de comunicação se recusam é reconhecer que isso é consequência do aquecimento global, fruto de um consumismo irracional e de uma economia profundamente doente. Haja tolerância diante de tamanha e tão duradoura hipocrisia! (Itacir msf)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Indignação crítica cidadã (1)

É no mínimo revoltante a miopia jornalística de mãos dadas com o estrabismo político que se apresenta, sem pudor todo dia, em nossos meios de comunicação pouco sociais. Há mais de um ano assistimos cuidadosas e estirilizadas notícias da falta de água em São Paulo induzindo o cidadão a pensar que a culpa é unicamente da falta de chuva, enquanto que a SABESP aparece como empresa ilibada, empenhada em proteger o cidadão de uma catástrofe maior. Há mais de dois meses, a mesma imprensa amasiada com o capital nos oferece informações fragmentadas e politicamente esterilizadas da catástrofe promovida pela SAMARCO, como se fosse uma fatalidade e induzindo o cidadão a culpar o governo federal por falta de fiscalização e previsão das consequências. A multinacional Vale do Rio Doce é docemente poupada, como se não fosse proprietária da metade da empresa. Imaginem o auê dessa gente se a Vale fosse estatal... Acordem, “jornalistas”!  Desperte cidadão! (Itacir msf)


A Boa noticia, dia-a-dia: 8 de janeiro, sexta-feira

O ateísmo está longe de ser o principal obstáculo à fé cristã. Ele continua sendo um desafio a ser levado a sério, e os ateus, assim como os indiferentes religiosos, são interlocutores que merecem nossa atenção e nosso respeito. Creio que o que coloca a fé cristã em risco são outras correntes e posturas: aquelas que reduzem a fé em Jesus a uma espécie de pronto-socorro para todas as doenças; aquelas que a circunscrevem a um negócio metafísico, que só tem a ver com a alma e o coração; além daquelas que a rebaixam a um espetáculo televisivo 24 horas por dia. No tempo de Jesus, a lepra era uma enfermidade física, social e cultural, muito temida e objeto de proibições e exclusões. Por isso, o evangelista diz que o leproso foi purificado, não simplesmente curado. A enfermidade pode ser curada, mas somente a purificação remove o manto da exclusão que, por motivos religiosos e culturais, acompanhava e encobria o leproso. Tanto que, o homem considerado impuro por causa da lepra, cujo acesso aos espaços sociais e públicos era cuidadosamente interditado, uma vez purificado é enviado ao espaço público por exelência, ou seja, ao templo. Purificando os leprosos, Jesus remove o manto da exclusão que os encobre e torna proscritos, e re-estabelece a plena cidadania deles. E o não faz reivindicando protagonismo, nem ao vivo em cadeias de TV’s, como amam fazer alguns milagreiros pentecostais e católicos... Evangelho e protagonismo midiático costumam não ser parceiros. Jesus prefere se retirar a lugares solitários e se entregar à oração, exatamente para dar à sua revolucionária ação o necessário caráter libertador, sem perder o respeito aos humildes beneficiados. (Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Evangelho dominical

UMA NOVA ESPIRITUALIDADE

«Espiritualidade» é uma palavra desafortunada. Para muitos só pode significar algo inútil, afastado da vida real. Para que pode servir? O que interessa é o concreto e prático, o material, não o espiritual.
No entanto, o «espírito» de uma pessoa é algo valorizado na sociedade moderna, pois indica o mais profundo e decisivo da sua vida: a paixão que a anima, a sua inspiração última, o que contagia os outros, o que essa pessoa vai colocando no mundo.
O espírito alenta os nossos projetos e compromissos, configura o nosso horizonte de valores e a nossa esperança. Segundo o nosso espírito, assim será a nossa espiritualidade. E assim será também nossa religião e a nossa vida inteira.
Os textos que nos deixaram os primeiros cristãos mostram-nos que eles vivem a sua fé em Jesus Cristo como um forte «movimento espiritual». Sentem-se habitados pelo Espírito de Jesus. Só é cristão quem foi batizado com esse Espírito. «O que não tem o Espírito de Cristo não lhe pertence». Animados por esse Espírito, vivem-No todo de forma nova.
O primeiro que muda radicalmente é a sua experiência de Deus. Não vivem já com «espírito de escravos», cansados pelo medo a Deus, mas com «espírito de filhos» que se sentem amados de forma incondicional e sem limites por um Pai. O Espírito de Jesus faz gritar-lhes do fundo do seu coração: Abbá, Pai! Esta experiência é o primeiro que todos deveriam encontrar nas comunidades de Jesus.
Muda também a sua forma de viver a religião. Já não se sentem «prisioneiros da lei», das normas e dos preceitos, mas libertos pelo amor. Agora conhecem o que é viver com «um espírito novo», escutando a chamada do amor e não com «a letra velha», ocupados em cumprir obrigações religiosas. Este é o clima que entre todos temos de cuidar e promover nas comunidades cristãs, se queremos viver como Jesus.
Descobrem também o verdadeiro conteúdo do culto a Deus. O que agrada ao Pai não são os ritos vazios de amor, mas que vivamos «no espírito e na verdade». Essa vida vivida com o espírito de Jesus e da verdade do Seu evangelho é para os cristãos o seu autêntico «culto espiritual».
Não temos de esquecer o que Paulo de Tarso dizia às suas comunidades: «Não apagueis o Espírito». Una igreja apagada, vazia do espírito de Cristo, não pode viver nem comunicar a sua verdadeira Natividade. Não pode saborear nem contagiar a sua Boa Nova. Cuidar da espiritualidade cristã é reavivar a nossa religião.

José Antonio Pagola

ANO C – TEMPO DO NATAL – FESTA DO BATISMO DE JESUS – 10.01.2016

Jesus é aliança entre os povos e pessoas, luz para o mundo!

Bem ou mal, o batismo faz parte da tradição cultural do nosso povo. Seu sentido original perde-se no tempo e na inconsciência, mas no batismo se esconde um valor antropológico nem sempre explicitado. Mais que um rito de passagem, o batismo é um rito de pertença a um povo, a uma nação. Numa sociedade que desarticula os vínculos e fragmenta a vida dos mais pobres, o batismo ainda representa a oportunidade de estabelecer algumas alianças de sobrevivência com vizinhos, compadres e comadres. E não deixa de ser um ato de fé na força da vida, sempre severina e precária.
No evangelho de hoje, Lucas registra que ‘todo povo foi batizado’, mas não oferece nenhuma descrição ou detalhe de um batismo especial de Jesus, nem dá informações sobre sua origem e identidade. Em apenas uma frase e dois versículos, dá por terminada a descrição do batismo de Jesus! O tempo no qual ocorre não é propriamente especial em relação ao batismo dos demais habitantes da região da Judéia que confessam seus pecados: aquele tempo e aquele lugar reúnem os pecadores, e Jesus entra na fila, anonimamente. Ninguém vê nada de especial durante o batismo de Jesus, nem mesmo João Batista...
Mas, depois do batismo, estando Jesus recolhido em oração, o céu se abre e o Espírito Santo desce sobre ele em forma de pomba. No céu aberto ressoa uma voz: “Tu és meu filho amado; em ti encontro o meu agrado.” E nada mais. Nenhuma reação. Nenhuma aclamação ou comentário. Tudo transcorre como se fosse um fato absolutamente normal. Tanto que logo Jesus segue sozinho para o deserto, anônimo, firme na busca de luzes para entender sua identidade e sua missão. Mas o que o batismo de João significava mesmo, e como Jesus o teria vivido?
O batismo de João representava o cancelamento dos débitos do povo frente ao judaísmo, desobrigava o fiel frente às estruturas do sistema judaico, representado pelos sacerdotes e encarnado no templo. Expressava essa liberdade, e também o desejo de endireitar as estradas, de preparar os caminhos para o encontro com Deus, e a expectativa de que algo novo estava por acontecer. Nele, Jesus entende que é o filho querido e ungido que se opõe aos poderosos da terra (cf. Sl 2), o agrado do Pai, o servo fiel que tira o pecado do mundo (cf. Is 42,1-7), o broto promissor na terra ressequida (cf. Is 11,1-2)...
No batismo, Jesus cresce na consciência de que uma nova criação está em gestação. Trata-se de um processo de alargamento da consciência, que antecede o próprio momento do batismo e prossegue depois dele. Ao participar de um rito que proclama o cancelamento dos pecados e débitos cobrados pelo templo, que torna o povo livre frente aos seus valores e leis discriminadoras, Jesus se descobre uma pessoa livre, um ‘fora de lei’. Sua lealdade não é com o sistema religioso mantido pelos sacerdotes, mas com Deus Pai. Para ele, não há mais judeu ou grego, homem ou mulher, escravo ou livre...
E é por aqui que começa a nova criação, simbolizada pelo céu aberto e pela descida da pomba, pois o pecado não é a ação contra ou fora da lei, mas o cumprimento das leis que hierarquizam, discriminam e condenam pessoas e povos. Os doutores da lei e os sacerdotes pecavam porque cumpriam os detalhes da lei e esqueciam a compaixão e a misericórdia. A nova sociedade e a nova criação começam exatamente com a renúncia a esta velha, opressora e corruptorta ordem. Jesus enfrentará este sistema nas tentações que virão em seguida ao batismo e durante toda a sua vida.
No batismo de Jesus, o Espírito que desce ‘em forma corpórea, como pomba’ entra em cena para recordar o Espírito que pairava sobre as águas e presidiu a primeira criação. Ele se faz presente em Jesus e, posteriormente, nos discípulos, para que eles façam a passagem da minoridade que limita e da escravidão que amedronta para a maioridade e a liberdade de filhos e filhas, nos quais o próprio Deus se reconhece e se compraz. Ele  suscita testemunhas e sustenta a prática do bem e da justiça, tanto em Jesus como nos discípulos. Da força do Espírito emerge um povo livre, articulado e maduro que, como Jesus, percorre o mundo fazendo o bem...
Jesus de Nazaré, filho amado do Pai, visita peregrina e benfazeja, irmão querido da humanidade, servo da paz e da justiça! No dia em que recordamos tua entrada na fila dos pecadores para receber o batismo de João, pedimos por tua Igreja: que ela não seja leal senão a ti e não procure agradar senão ao teu e nosso Pai. Sendo e procurando ser uma comunhão articulada de batizados, que ela se revele um ensaio geral da nova ordem, na qual as desigualdades sejam eliminadas e a dignidade de cada criatura seja afirmada sem mas nem porém. E que seus filhos e filhas vivamos para fazer o bem! Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaías 42,1-7 * Salmo 28(29) * Atos dos Apóstolos 10,34-38 * Evangelho de Lucas 3,15-16.21-22)

A Boa noticia, dia-a-dia: 7 de janeiro, quinta-feira

Desde aquela noite luminosa, quando Deus falou eloquentemente no choro de uma criancinha acomodada numa coxeira de animais, e, mais ainda, desde aquela sexta-feira escura/gloriosa em que seu corpo torturado pendeu da cruz, vivemos o permanente hoje da nossa liberdade, da maioridade na fé: hoje nasceu para nós o Salvador; hoje a salvação entrou na nossa casa; hoje a Palavra/promessa se cumpre em nossa nazaré... Com Jesus de Nazaré, a liberdade, a maioridade e a emancipação começam nos pobres, nos cativos, nos oprimidos; começam e se espalha como graça absoluta, sem cobranças e exigências, sem nenhuma espécie de “mas” ou “porém”... Voltando a Nazaré, Jesus vai à casa da Palavra e busca na profecia de Isaías o “script” para sua missão, estabelecendo a Palavra de Deus como roteiro indispensável de toda missão. Mas ele também faz questão de assegurar que esta Palavra não é prisioneira do passado, nem se esvai em futuros incertos: ela se faz hoje em nós e através de nós, cheia de encanto e fonte de admiração, ou não é de Deus. Por isso, nosso amor e nossa fidelidade a Deus passa pela “prova dos nove” no amor ao próximo. “Quem não ama seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê!” Quem ama o Pai, ame também os filhos e filhas! Na vida cristã, não há lugar para meio-termo, indiferença ou ódio. Que o Espírito pouse sobre nós, dinamize nosso ser inteiro, nos envie e nos sustente... (Itacir Brassiani msf)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A Boa noticia, dia-a-dia: 6 de janeiro, quarta-feira

A cena não saía da cabeça dos discípulos e a Palavra de Jesus retinia nos ouvidos deles: cinco mil pessoas famintas sendo alimentadas com os poucos pães e peixes que eles pensavam ser propriedade destinada ao consumo exclusivo de alguns; e o mandamento, claro e direto, “dai-lhes vós mesmos de comer...” Mesmo tendo colaborado com Jesus e obedecido à ordem dele naquela memorável ação no deserto, os discípulos não haviam entendido nada, e isso fazia a travessia do mar agitado ainda mais difícil. O que era mais forte: o vento contrário ou o peso de uma tradição que sustenta a privatização dos bens e a indiferença diante da necessidade e da dignidade dos semelhantes? O que metia mais medo: a presença discreta de Jesus em oração na montanha e nas encruzilhadas da vida ou a difícil travessia que leva do eu e do meu ao Outro e ao nosso? O que causa espanto aos discípulos não é a presença de Jesus no meio do mar, sua passagem à frente ou sua insistência a não ter medo, mas a necessidade de partilhar os bens para saciar os famintos, de passar da indiferença à misericórdia, de passar do saber tudo ao despojamento fecundo da oração ao Pai. João insiste, na sua carta: o amor maduro exclui o medo, tanto o medo do próximo, visto como ameaça, como o medo de Deus, visto como punição. Deus se faz visível, amável e permanentemente acessível quando o amor é a marca das nossas relações. “Deus é amor: quem permanece no amor permanece com Deus, e Deus permanece com ele...” Eis o que suscita e sustenta em nós a confiança, tanto no próximo como em Deus. (Itacir Brassiani msfo

O batismo de Jesus

Tu és o meu filho amado, em ti está o meu agrado (Lc 3,15-16.21-22)

A liturgia deste final de semana propõe abrir-nos a Deus, da mesma forma como Jesus o fez ao acolher o dom do Espírito enquanto estava em oração logo após o seu batismo.
Em Lucas, a narrativa a respeito do batismo de Jesus vem depois do Evangelho da Infância. Entre as narrativas da infância (Lucas 1-2) e o início da missão de Jesus (Lucas 4,14 em diante), os autores deste Evangelho inserem o relato da preparação do caminho do Senhor feita por João Batista (Lucas 3,1-20) e o relato da preparação de Jesus para sua missão (Lucas 3,21-4,13). Como dobradiça que liga as duas partes, está a narrativa a respeito do batismo de Jesus (Lucas 3,21-22). Temos, assim, um paralelo entre dois batismos: o de João com água e o de Jesus com o Espírito e com o fogo.
João aponta para o Messias
A comunidade de Lucas faz questão de situar historicamente o início da atividade de João (Lucas 3,1-2). Do ponto de vista político, foi no tempo de Tibério, imperador romano de 14 a 37 d.C., e de Herodes Antipas, governador da Galileia desde 4 a.C. até 39 d.C. Do ponto de vista religioso, foi na administração do sumo sacerdote Caifás (sumo pontífice no templo de 18 a 36 d.C.), genro de Anás (6-15 d.C.), nomeado sumo sacerdote por Herodes Antipas em nome do imperador.
Por um lado, João denuncia profeticamente o reino da opressão representado por Tibério e por Herodes, em aliança com o templo de Jerusalém. Diante de tanto sofrimento, o povo esperava ansiosamente a vinda de um libertador. João Batista faz fortes críticas aos poderosos, anunciando um juízo severo para eles (Lucas 3,17). Por isso, o povo começou a ver em João a esperança da vinda do messias, o rei ungido por Deus que viria para libertar o seu povo.
Por outro lado, João anuncia a vinda do Reino de Deus para breve (Lucas 3,9.17), chamando à conversão, à mudança de mentalidade e de vida, convocando à partilha e à vivência de relações fraternas (Lucas 3,11-14). Em consequência dessa prática profética, ele foi preso e encarcerado pelos poderosos de seu tempo (Lucas 3,19-20). Assim, João cumpriu sua missão como profeta que faz a ponte entre a Aliança de Deus com Israel e a Aliança em Jesus com toda humanidade.
Para Lucas, a tarefa de João é fazer com que as pessoas se convertam e se abram ao Reino de Deus presente no novo agir de Jesus. Lucas o apresenta mostrando para Jesus. João não é o Messias, o Cristo, o Ungido. Seu batismo era somente com água, sinal de purificação e de conversão para acolher Jesus de Nazaré, mais forte do que João. Sua atitude é de estar a serviço, menor ainda que os servos, de quem também era tarefa desatar as sandálias de seus senhores.
As sandálias também lembram a lei do levirato (Deuteronômio 25,5-10). Segundo esta lei, quando um marido morria sem deixar filhos, um parente próximo devia assumir a viúva para gerar um herdeiro para o falecido. Assim, além de dar continuidade à vida do falecido, resgatava sua terra, de modo que ela permanecesse no clã. Quando o parente mais próximo se negava a assumir a tarefa do resgate para seu irmão falecido, outro parente devia cumprir a lei. Era então que o parente mais próximo dava uma de suas sandálias ao novo resgatador, o novo "noivo". Era o sinal que este passava a ter o direito de resgate, de gerar descendência para o falecido. Ao não desatar a correia das sandálias de Jesus, João reconhece nele o resgatador, o messias libertador de todas as formas de opressão. João é o último representante da Antiga Aliança. Jesus, porém, é o noivo da Nova Aliança.
O Messias assume a sua missão
Jesus é batizado com água junto ao povo, em meio ao povo. Em seu batismo, Jesus é investido para a sua missão, guiado pelo Espírito de Deus. É somente Lucas quem faz referência à atitude orante de Jesus no seu batismo. E é esta atitude de intimidade de Jesus com o Pai que faz com que o Espírito o transforme e o envie para evangelizar os pobres (Lucas 4,18-19). Também para nós Jesus pediu que tivéssemos essa atitude orante durante a vida toda, abrindo-nos ao Espírito de Deus. Ele é fruto da oração, da acolhida, é dom (Lucas 11,13).
João batiza Jesus com água. No entanto, Jesus batiza com o Espírito e com o fogo. Por isso, o seu batismo é superior ao de João. É no Espírito Santo, representado pelo fogo de Pentecostes (Lucas 3,15-16; Atos 2,1-13). Neste Evangelho, ainda antes do batismo de Jesus, há uma ênfase muito grande na apresentação de pessoas abertas à ação do Espírito Santo. Lembramos João Batista, Maria, Zacarias e Simeão (Lucas 1,15.41.67; 2,26-27). E o fogo recorda a presença de Deus no êxodo, na libertação do povo oprimido pelo sistema faraônico (Êxodo 3,2-3; 13,21; 19,18). É o mesmo fogo de Pentecostes, o dinamismo do Espírito, que entusiasma os discípulos e as discípulas de Jesus para o anúncio e a vivência da boa-nova até os confins da terra (Atos 1,8; 2,1-13).
Uma vez preso João, Jesus dá um novo rumo à sua missão. Diferentemente do Precursor, que anuncia a vinda do Reino de Deus para breve e como um juízo severo, Jesus vive o Reino já presente no seu jeito de se relacionar especialmente com as pessoas mais discriminadas, revelando a misericórdia do Pai (Lucas 7,22; 11,20; 17,20-21).
Lucas apresenta o batismo de Jesus depois da prisão de João como o ato em que o Espírito de Deus vem confirmar o Nazareno enquanto Messias, ungindo-o para a missão do serviço, da mesma forma como fora ungido o servo de Deus em Isaías 42,1 e 61,1. Nesse momento, Jesus estava em oração, isto é, em íntima comunhão com a fonte da vida, com o projeto do Reino. Tão íntima é essa comunhão que, em Jesus, Deus e a humanidade se encontram. Esse é o significado da abertura do céu (Lucas 3,21), realizando a esperança do povo (Isaías 63,19b). Em Jesus, céu e terra estão tão próximos que é possível perceber a presença materializada ("em forma corpórea") do Espírito de Deus nas atitudes de Jesus. Se em Gênesis 8,8-11 a pomba foi a mensageira da vida recriada depois de submersa pelas águas do dilúvio, agora a presença da pomba anuncia que o Espírito de Deus impulsiona Jesus a realizar a nova criação, mulheres e homens recriados a partir das águas do batismo. No batismo, morremos com Cristo e ressuscitamos com ele para uma vida nova (Romanos 6,1-14). Viver como pessoa renovada e ressuscitada é, portanto, missão de todos nós.
Ao lembrar a entronização do rei que vem libertar o povo (Salmo 2,7: "Tu és o meu filho"), a comunidade de Lucas apresenta Jesus como o verdadeiro Rei e Messias, que veio governar com justiça e no serviço ao povo. Por isso, lembra também a missão do servo em Isaías 42,1 ("em ti está o meu agrado"). No batismo de Jesus, temos uma epifania, ou seja, uma manifestação do filho de Deus ao mundo, gerado como o messias que vem libertar o povo.
No batismo, Jesus assume publicamente o seu compromisso com as novas relações do Reino de Deus já presente em seu agir. Batizar-se em seu nome, na linguagem paulina, é revestir-se de Cristo, ou seja, é agir como o próprio Cristo agia, superando todas as formas de discriminação (Gálatas 3,27-28).
Ildo Bohn Gass