quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

ANO C – TEMPO DO NATAL – FESTA DO BATISMO DE JESUS – 10.01.2016

Jesus é aliança entre os povos e pessoas, luz para o mundo!

Bem ou mal, o batismo faz parte da tradição cultural do nosso povo. Seu sentido original perde-se no tempo e na inconsciência, mas no batismo se esconde um valor antropológico nem sempre explicitado. Mais que um rito de passagem, o batismo é um rito de pertença a um povo, a uma nação. Numa sociedade que desarticula os vínculos e fragmenta a vida dos mais pobres, o batismo ainda representa a oportunidade de estabelecer algumas alianças de sobrevivência com vizinhos, compadres e comadres. E não deixa de ser um ato de fé na força da vida, sempre severina e precária.
No evangelho de hoje, Lucas registra que ‘todo povo foi batizado’, mas não oferece nenhuma descrição ou detalhe de um batismo especial de Jesus, nem dá informações sobre sua origem e identidade. Em apenas uma frase e dois versículos, dá por terminada a descrição do batismo de Jesus! O tempo no qual ocorre não é propriamente especial em relação ao batismo dos demais habitantes da região da Judéia que confessam seus pecados: aquele tempo e aquele lugar reúnem os pecadores, e Jesus entra na fila, anonimamente. Ninguém vê nada de especial durante o batismo de Jesus, nem mesmo João Batista...
Mas, depois do batismo, estando Jesus recolhido em oração, o céu se abre e o Espírito Santo desce sobre ele em forma de pomba. No céu aberto ressoa uma voz: “Tu és meu filho amado; em ti encontro o meu agrado.” E nada mais. Nenhuma reação. Nenhuma aclamação ou comentário. Tudo transcorre como se fosse um fato absolutamente normal. Tanto que logo Jesus segue sozinho para o deserto, anônimo, firme na busca de luzes para entender sua identidade e sua missão. Mas o que o batismo de João significava mesmo, e como Jesus o teria vivido?
O batismo de João representava o cancelamento dos débitos do povo frente ao judaísmo, desobrigava o fiel frente às estruturas do sistema judaico, representado pelos sacerdotes e encarnado no templo. Expressava essa liberdade, e também o desejo de endireitar as estradas, de preparar os caminhos para o encontro com Deus, e a expectativa de que algo novo estava por acontecer. Nele, Jesus entende que é o filho querido e ungido que se opõe aos poderosos da terra (cf. Sl 2), o agrado do Pai, o servo fiel que tira o pecado do mundo (cf. Is 42,1-7), o broto promissor na terra ressequida (cf. Is 11,1-2)...
No batismo, Jesus cresce na consciência de que uma nova criação está em gestação. Trata-se de um processo de alargamento da consciência, que antecede o próprio momento do batismo e prossegue depois dele. Ao participar de um rito que proclama o cancelamento dos pecados e débitos cobrados pelo templo, que torna o povo livre frente aos seus valores e leis discriminadoras, Jesus se descobre uma pessoa livre, um ‘fora de lei’. Sua lealdade não é com o sistema religioso mantido pelos sacerdotes, mas com Deus Pai. Para ele, não há mais judeu ou grego, homem ou mulher, escravo ou livre...
E é por aqui que começa a nova criação, simbolizada pelo céu aberto e pela descida da pomba, pois o pecado não é a ação contra ou fora da lei, mas o cumprimento das leis que hierarquizam, discriminam e condenam pessoas e povos. Os doutores da lei e os sacerdotes pecavam porque cumpriam os detalhes da lei e esqueciam a compaixão e a misericórdia. A nova sociedade e a nova criação começam exatamente com a renúncia a esta velha, opressora e corruptorta ordem. Jesus enfrentará este sistema nas tentações que virão em seguida ao batismo e durante toda a sua vida.
No batismo de Jesus, o Espírito que desce ‘em forma corpórea, como pomba’ entra em cena para recordar o Espírito que pairava sobre as águas e presidiu a primeira criação. Ele se faz presente em Jesus e, posteriormente, nos discípulos, para que eles façam a passagem da minoridade que limita e da escravidão que amedronta para a maioridade e a liberdade de filhos e filhas, nos quais o próprio Deus se reconhece e se compraz. Ele  suscita testemunhas e sustenta a prática do bem e da justiça, tanto em Jesus como nos discípulos. Da força do Espírito emerge um povo livre, articulado e maduro que, como Jesus, percorre o mundo fazendo o bem...
Jesus de Nazaré, filho amado do Pai, visita peregrina e benfazeja, irmão querido da humanidade, servo da paz e da justiça! No dia em que recordamos tua entrada na fila dos pecadores para receber o batismo de João, pedimos por tua Igreja: que ela não seja leal senão a ti e não procure agradar senão ao teu e nosso Pai. Sendo e procurando ser uma comunhão articulada de batizados, que ela se revele um ensaio geral da nova ordem, na qual as desigualdades sejam eliminadas e a dignidade de cada criatura seja afirmada sem mas nem porém. E que seus filhos e filhas vivamos para fazer o bem! Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaías 42,1-7 * Salmo 28(29) * Atos dos Apóstolos 10,34-38 * Evangelho de Lucas 3,15-16.21-22)

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