quinta-feira, 30 de junho de 2016

O Evangelho dominical - 03.07.2016

PORTADORES DO EVANGELHO

Lucas recolhe no seu evangelho um importante discurso de Jesus, dirigido não aos Doze mas a outro grupo numeroso de discípulos aos quais envia para que colaborem com Ele no Seu projeto do reino de Deus. As palavras de Jesus constituem uma espécie de carta fundacional onde os Seus seguidores hão de alimentar-se na sua missão evangelizadora. Realço algumas linhas mestras.
«Ponham-se a caminho»
Mesmo que o esqueçamos uma e outra vez, a Igreja está marcada pelo envio de Jesus. Por isso é perigoso concebe-la como uma instituição fundada para cuidar e desenvolver a Sua própria religião. Responde melhor ao desejo original de Jesus a imagem de um movimento profético que caminha pela história segundo a lógica do envio: saindo de si mesma, pensando nos outros, servindo ao mundo a Boa Nova de Deus. «A Igreja não está aí para si mesma, mas para a humanidade» (Bento XVI).
Por isso é hoje tão perigosa a tentação de nos voltarmos sobre os nossos próprios interesses, o nosso passado, as nossas aquisições doutrinais, as nossas práticas e costumes. Mais ainda, todavia, se o fazemos endurecendo a nossa relação com o mundo. O que seria uma Igreja rígida, encerrada em si mesma, sem profetas de Jesus nem portadores do Evangelho?
«Curai os doentes e dizei: está próximo de vós o reino de Deus»
Esta é a grande notícia: Deus está próximo de nós, animando-nos a fazer mais humana a vida. Mas não basta afirmar uma verdade para que seja atrativa e desejável. É necessário rever a nossa atuação: que é que pode levar hoje as pessoas até ao Evangelho? Como podem captar Deus como algo novo e bom?
Seguramente, falta-nos amor ao mundo atual, e não sabemos chegar ao coração do homem e da mulher de hoje. Não basta predicar sermões desde o altar. Temos de aprender a escutar mais, acolher, cuidar a vida dos que sofrem… Só assim encontraremos palavras humildes e boas que aproximem esse Jesus cuja ternura insondável nos coloca em contato com Deus, o Pai Bom de todos.
«Quando entreis numa casa, dizei primeiro: Paz a esta casa»
A Boa Nova de Jesus comunica-se com respeito total, desde uma atitude amistosa e fraterna, contagiando paz. É um erro pretender impor a partir da superioridade, da ameaça ou o ressentimento. É anti-evangélico tratar sem amor as pessoas só porque não aceitam a nossa mensagem. Mas, como o aceitarão se não se sentem compreendidos por aqueles que se apresentam em nome de Jesus?
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

ANO C – SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO – 03.07.2016

Ninguém consegue algemar o Evangelho de Jesus Cristo!
Resultado de imagem para algemar o evangelho
Apenas concluímos um mês cheio de memórias de santos populares, e iniciamos julho com a solenidade de São Pedro e São Paulo. Acolhamos com reverência o testemunho destes irmãos maiores, colunas que sustentam as comunidades cristãs. Mas, para chegar à vida real destes personagens é preciso escutar o testemunho das Escrituras. Se é verdade que Pedro é o primeiro líder dos cristãos e Paulo é o apóstolo dos povos, também é certo que ambos, cada um a seu modo e a seu tempo, foram discípulos de Jesus e passaram por sucessivas crises e dificuldades, provaram a prisão e passaram pelo martírio.
Esqueçamos por um instante a cena contada por Mateus e centremos nossa atenção no acontecimento narrado nos Atos dos Apóstolos. Pedro, o primeiro Papa foi presidiário! “Para que servem as chaves prometidas por Jesus Cristo se não ajudam a soltar as algemas que o prendem ou abrir a porta da prisão, mantida sob rigorosa vigilância?” Pedro estava imerso na penumbra desta e outras perguntas quando uma luz iluminou sua cela, uma mão tocou seu ombro e uma voz ordenou que se levantasse. As algemas caíram, os guardas não viram nada e a porta que separava a cela da cidade se abriu sozinha...
Depois de ter sido um fariseu zeloso e violento e de ter acumulado muitos méritos e honras por causa disso, Paulo fez a experiência de ser conquistado por Jesus Cristo e, diante do bem supremo desta acolhida gratuita e imerecida, considerou tudo o mais como lixo e déficit na contabilidade da vida (cf. Fil 3,1-14) e se lançou, livre e incansável, no anúncio desta boa notícia, especialmente às pessoas e grupos de origem pagã. O zelo e o ardor que Paulo demonstrara pelo judaísmo se transformou em zelo pela fé e pela autonomia e liberdade recebidas em Jesus Cristo. Com isso, perdeu de vez a tranquilidade...
Esta complexa trajetória de vida atraiu contra Paulo a desconfiança dos próprios cristãos e o ódio dos seus irmãos judeus. Depois de sucessivos enfrentamentos e perseguições, ele também acabou na prisão. Sendo cidadão romano, exigiu o direito de ser julgado decentemente em Roma, e para lá foi conduzido. Entretanto, ninguém conseguiu colocar sob algemas aquilo que o fazia livre: a boa e emancipadora mensagem de Jesus Cristo. “Por ele, eu tenho sofrido até ser acorrentado como um malfeitor. Mas a Palavra de Deus não está acorrentada”, escreveu ele ao fiel amigo e companheiro Timóteo (2Tm 2,9).
Pedro e Paulo são filhos, irmãos e pais da fé numa Igreja que confirmou com a vida aquilo que anunciou com as palavras. De um lado, Pedro, Paulo e os demais cristãos detidos mantêm contato com as suas comunidades de base, inclusive através de cartas às suas principais lideranças; de outro, as comunidades não ficam indiferentes, apesar da crise de fé provocada por uma perseguição feita em nome de Deus e da religião, assim como pelos riscos políticos e sociais que estas relações implicam. O vínculo entre a comunidade dos discípulos e seus líderes presos se mostra de um modo singelo e comovente no relato dos Atos dos Apóstolos proposto pela liturgia de hoje (cf. 12,1-11).
As escrituras dizem que “enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja orava continuamente por ele.” É neste contexto que Pedro experimenta a presença fiel de Deus também na prisão. Logo que é libertado do cárcere, vai à casa da mãe de João Marcos, onde a comunidade está reunida em oração. Quando Rosa, a mãe de Marcos, abre a porta e vê que é Pedro, é tomada de tanta alegria que acaba deixando-o plantado do lado de fora enquanto vai anunciar a surpreendente e boa novidade à comunidade reunida, a qual pensa que Rosa está doida. Aberta a porta, Pedro entra e conta, entusiasmado, o que havia acontecido.
O que sustenta as Igrejas e comunidades cristãs é o encontro com Deus em Jesus Cristo. O que o evangelho de hoje nos propõe é substancialmente isso. Num lugar marcado pelo domínio estrangeiro, Jesus interroga seus discípulos sobre o que pensam dele. E Pedro é o primeiro dentre todos os seguidores a reconhecê-lo e proclamá-lo Messias. Só quem está aberto e sintonizado com a lógica de Deus pode reconhecer a presença de Deus nas ações e palavras deste filho da humanidade e irmão de todos os seres humanos. Esta é a base sólida sobre a qual Jesus Cristo constrói a comunidade cristã.
Queridos Pedro e Paulo, apóstolos e irmãos na fé! Com vocês aprendemos que crer, confiar, partilhar e anunciar são verbos essenciais na gramática cristã. O verdadeiro discípulo é aquele que conjuga estes verbos em todos os tempos, modos e pessoas. Ajudem-nos a viver de tal modo que, chegando ao entardecer da existência, também nós possamos dizer: “Chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.” Suportando os sofrimentos e incertezas presentes, jamais nos envergonhemos ou desanimemos, pois sabemos em quem acreditamos! Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Atos dos Apóstolos 12,1-11 * Salmo 33 (34) * 2ª Carta a Timóteo 4,6-8.17-18 * Evang. de Mateus 16,13-19)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Festividades juninas

Festa de São João

João, santo cuja festa se celebra a 24 de junho, era primo de Jesus, filho de Zacarias, sacerdote do Templo de Jerusalém, e de Isabel, prima de Maria. Como o nascimento de Jesus se comemora a 25 de dezembro, por ter nascido seis meses depois de seu primo, João tem a sua festa natalícia a 24 de junho.
De fato, as duas festas decorrem das festividades pagãs, apropriadas pela Igreja, dos solstícios de verão e inverno no hemisfério norte. Solstício vem do latim sol + sistere, “que não se mexe”. É quando o sol, medida a sua latitude a partir da linha do equador, se encontra em sua maior declinação em relação à Terra. Então, neste dia, no hemisfério norte o dia é o mais longo do ano e, a noite, a mais curta. No hemisfério sul ocorre o contrário.
Os solstícios não ocorrem sempre no mesmo dia. Variam conforme o ano. Mas quase sempre entre os dias 20 e 25 de junho e dezembro. Por isso, os dias 21 de junho e 21 de dezembro marcam as mudanças de estações. No hemisfério sul, do outono para o inverno, em junho; e da primavera para o verão, em dezembro.
Há indícios de que João, decidido a não seguir a carreira sacerdotal do pai no Templo de Jerusalém, preferiu unir-se aos monges essênios de Qumran, junto ao Mar Morto. Talvez por discordar do elitismo espiritual dos essênios, que se consideravam os prediletos de Deus, João trocou a vida monástica pela pregação ambulante às margens do rio Jordão. Ali formou a sua própria comunidade, selada pelo batismo cuja espiritualidade se centrava na prática da justiça. Daí passou a ser conhecido como João Batista (aquele que batiza). Jesus aderiu à comunidade de seu primo e foi por ele batizado nas águas do Jordão.
João denunciou a vida corrupta e devassa do governador da Galileia, Herodes Antipas, que se juntara à mulher de seu irmão, Felipe. Preso, foi degolado a pedido de Salomé, enteada do governador, orientada pelo ódio vingativo de sua mãe, Herodíades. Em plena festa palaciana, a cabeça de João foi exibida em uma bandeja.
A atuação de Jesus só teve início após o martírio de João. É como se o primo firmasse posição para demonstrar a Herodes Antipas, a quem chamava de “raposa”, que a luta continua... Seus primeiros discípulos, André e Simão, o cananeu, vieram do grupo de João.
Da comunidade dos doze apóstolos, o mais jovem também se chamava João, autor do quarto evangelho. Ele abre o seu relato em homenagem ao xará, a quem chama de “enviado de Deus para ser testemunha da luz.”
A festa de São João é marcada, no hemisfério sul, pela fogueira e os fogos de artifício, que simbolizam a “luz do mundo” e o fato de a luz (Jesus) vencer as trevas (da noite mais longa do ano).
Desde o século XVIII, a festa foi comemorada no Brasil com adereços que os portugueses trouxeram da Ásia, especialmente da China, como balões, bandeirinhas e fogos de artifício. Já a dança da quadrilha (quadrille, dança de quatro casais), aqui em trajes caipiras, veio da Holanda e recebeu influências portuguesa e francesa. A marcação, hoje abrasileirada, lembra foneticamente o francês: anarriê (en arièrre, retornar); anavantu (tout em avance, todos para frente).
Neste ano, todos nós, devotos de São João, devemos pedir muita luz para o Brasil, onde muitas cabeças vêm sendo degoladas pela corrupção e os desmandos administrativos.
Frei Betto

quinta-feira, 23 de junho de 2016

ANO C – DÉCIMO TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 26.06.2016


Fomos libertados para viver com paixão o Amor e a Justiça.

Quem quiser seguir Jesus Cristo em tempos de cultura líquida (que rejeita referências sólidas, enrijece a lógica que transforma tudo em mercadoria, aceita a exclusão como destino inexorável e estabelece a indiferença como sinônimo de liberdade) precisa tomar uma decisão firme e refletida. Não pode ter como única referência os próprios desejos e sonhos, mas precisa ter claro o objetivo de seguir e imitar Jesus na sua paixão pela humanidade, na sua solidariedade com os últimos, no seu enfrentamento com os poderes que se opõem ao projeto de um mundo no qual todas as criaturas tenham seu lugar.
É emblemático que, frente à tentação do integralismo e à discussão sobre quem é o maior e (cf. Lc 9,46-50), Jesus tenha tomado “a firme decisão de partir para Jerusalém”. Nossa meta da vida cristã não é voltar os olhos ao céu ou contemplar numa espécie de êxtase o esplendor dos impérios, mas, como o faz Jesus, perceber e denunciar suas contradições e suas injustiças. Ademais, perseverar no caminho de Jesus Cristo exige renovada coerência com o Evangelho, imbatível firmeza diante das resistências e ânimo indestrutível frente às possíveis decepções. Como os discípulos daquele tempo, somos enviados à frente de Jesus para preparar-lhe um lugar, sempre cientes das possíveis resistências.
A reação dos samaritanos – grupo social que, segundo os evangelhos, recebe uma atenção privilegiada de Jesus – é compreensível diante de um anúncio possivelmente insuficiente por parte dos discípulos. Assim como haviam proibido o trabalho daqueles que faziam o bem mas não estavam com eles, é possível que os discípulos tenham anunciado aos samaritanos um Jesus nacionalista, identificado com os poderes e doutrinas que diminuíam e excluíam os samaritanos, omitindo que Ele estava subindo a Jerusalém exatamente para contestar a validade do templo e para enfrentar a rejeição e o martírio.
Não seria também essa a principal causa da resistência que o mundo ocidental e moderno opõe ao cristianismo? Será que não temos identificado demasiadamente Evangelho e poder? Será que não temos renegado culpavelmente a defesa corajosa e decidida dos direitos de todos os humanos? Será que não temos esquecido perigosamente a profecia? Pouco adianta ameaçar os ateus e as (indevidamente chamadas) seitas com o fogo que desce do céu ou sobe do inferno... O que precisamos mesmo é de conversão ao Evangelho de Jesus Cristo e de abandono da pretensão do monopólio da verdade.
Os cristãos precisam levar a sério a advertência de Jesus de Nazaré e partir para outros povoados e periferias, cientes de que segui-lo pelos caminhos da história de hoje é a vocação de todos os homens e mulheres que aderem ao cristianismo, inclusive dos que não o fazem explicitamente. Se nosso caminho tiver uma direção clara e permanecer fiel à prática de Jesus, é possível que muitas pessoas, pertencentes tanto aos setores sociais mais abastados como aos grupos populares, se sintam também hoje fortemente interpeladas e decidam se incorporar à comunidade dos discípulos e discípulas.
É verdade que as pessoas que procuram nossas comunidades trazem consigo contradições e ambivalências, das quais, aliás, nem prelados da Igreja conseguem se livrar. Com Jesus, aprendemos a apresentar a elas, com delicadeza e clareza, as exigências e consequências da opção de estar com ele.  Jesus nos apresenta uma espécie de ética do seguimento, na qual as rupturas e renúncias são uma pedagogia para a liberdade. Assim como exige um distanciamento frente ao fanatismo, Jesus pede uma ruptura com alguns costumes que, mesmo conservando um certo valor, podem limitar a liberdade.
Com palavras diferentes, Paulo repete o mesmo ensinamento de Jesus: “Toda a lei se resume neste único mandamento: amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Eis a liberdade bela e preciosa à qual somos chamados e à qual não podemos renunciar sem descer ao nível dos mortos: não a autonomia, a indiferença e a superioridade, mas o respeitoso reconhecimento da dignidade do próximo e o livre serviço às suas necessidades. Nisto consiste a obediência razoável devida a Deus e o amor maduro que de nós ele tem direito a esperar. Fomos libertados para a prática do amor e da justiça.
Jesus de Nazaré, mestre de exigentes lições e peregrino que avança no caminho para Jerusalém, decidido a enfrentar o poder: queremos caminhar contigo, aprender aquilo que realmente conta e alcançar a liberdade profunda e radical. Queremos aprender de ti e dos profetas que te precederam e seguiram a profecia e o ardor pelos direitos de Deus. Dá-nos a disciplina e a coragem para romper com todos os compromissos que reduzem ou adiam nossa autêntica liberdade.  Que São João Batista, festa e alegria dos pequenos, nos estimule e acompanhe, e que nada nos impeça de caminhar contigo. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(1° Livro dos Reis 19,16.19-21 * Salmo 15 (16) * Carta aos Gálatas 5,1.13-18 * Evangelho de S. Lucas 9,51-62)

O Evangelho dominical: 26.06.2016

SEM INSTALAR-SE NEM OLHAR PARA TRÁS

Seguir Jesus é o coração da vida cristã. O essencial. Nada há mais importante ou decisivo. Precisamente por isso, Lucas descreve três pequenas cenas para que as comunidades que leem o Seu evangelho, tomem consciência de que, aos olhos de Jesus, nada pode haver mais urgente e inadiável.
Jesus utiliza imagens duras e escandalosas. Observa-se que quer sacudir as consciências. Não procura mais seguidores, mas seguidores mais comprometidos, que o sigam sem reservas, renunciando a falsas seguranças e assumindo as rupturas necessárias. As Suas palavras colocam no fundo uma só questão: que relação queremos estabelecer com Ele, aqueles que nos dizemos seguidores seus?
Primeira cena: Um dos que o acompanham sente-se tão atraído por Jesus que, antes que o chame, ele mesmo toma a iniciativa: «Irei seguir-te aonde quer que vás». Jesus faz-lhe tomar consciência do que está a dizer: «As raposas têm covis, e os pássaros ninho», mas ele «não tem onde reclinar a sua cabeça». Seguir Jesus é toda uma aventura. Ele não oferece aos seus segurança ou bem-estar. Não ajuda a ganhar dinheiro ou a adquirir poder. Seguir Jesus é «viver de caminho», sem nos instalarmos no bem-estar e sem procurar um falso refúgio na religião. Uma Igreja menos poderosa e mais vulnerável não é uma desgraça. É o melhor que nos pode acontecer para purificar a nossa fé e confiar mais em Jesus.
Segunda cena: Outro está disposto a segui-Lo, mas pede-lhe para cumprir primeiro com a obrigação sagrada de «enterrar o seu pai». A nenhum judeu pode estranhar, pois trata-se de uma das obrigações religiosas mais importantes. A resposta de Jesus é desconcertante: «Deixa que os mortos enterrem os seus mortos: tu, vai anunciar o reino de Deus». Abrir caminhos ao reino de Deus trabalhando por uma vida mais humana é sempre a tarefa mais urgente. Nada deve atrasar a nossa decisão. Ninguém nos deve reter ou travar. Os «mortos», que não vivem ao serviço do reino da vida, já se dedicaram a outras obrigações religiosas menos prementes que o reino de Deus e da sua justiça.
Terceira cena: A um terceiro que quer despedir-se da sua família antes de segui-Lo, Jesus diz-lhe: «O que agarra o arado e continua a olhar para trás não serve para o reino de Deus». Não é possível seguir Jesus olhando para trás. Não é possível abrir caminhos para o reino de Deus ficando no passado. Trabalhar no projeto do Pai requer dedicação total, confiança no futuro de Deus e audácia para caminhar atrás dos passos de Jesus.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Preparando o domingo: 26.06.2016

Seguir Jesus é seguir também a sua opção (Lucas 9,57-62)


Conforme informam os versículos 57 e 58, Jesus está com seus discípulos a caminho de Jerusalém, para a festa da páscoa dos judeus que se aproximava. Nesta caminhada, alguém se dispõe a segui-lo. Jesus logo adverte que quem lhe segue assume um compromisso no caminho da cruz. Quem caminha com Jesus corre riscos, não é bem aceito, é perseguido, é ameaçado.
Quem caminha com Jesus, não só anda com ele, mas assume a missão que ele recebeu do próprio Deus, conforme os textos que foram lidos há pouco. As palavras no evangelho de Lucas são as palavras de Isaías que Jesus retoma e assume para si como sua missão: anunciar a boa notícia aos pobres; dar liberdade aos presos; dar vista aos cegos; libertar os oprimidos.
Na segunda parte do texto Jesus chama pessoas ao discipulado, para assumir com ele a missão que realiza. Jesus é um tanto exigente. Ele quer pessoas que realmente tenham vontade de se unir a ele na tarefa que realiza. Chega a dizer que quem quer segui-lo deve deixar tudo para trás (vers. 62).
Estaria alguém disposto a aceitar esse chamado hoje? Para ser discípulo de Jesus há que se desprender de tudo que amarra, prende, escraviza. Essas amarras, como no tempo de Jesus, também hoje são os laços familiares e normas que criamos até dentro das próprias comunidades.
Jesus aponta alguns aspectos importantes e necessários que deve refletir quem quer segui-lo.
a) Não deve ser fruto de uma emoção momentânea, de uma decisão impensada; não é seguir por seguir. É assumir um compromisso de fé naquilo que Jesus faz e fala e naquilo para cuja finalidade ele chama, conforme está expresso na missão que Jesus assume das palavras de Isaías.
b) Quem decide seguir Jesus tem que estar consciente das consequências que daí resultam.  Quem segue Jesus, não é compreendido por sua família (Mc 3.31-35), é rejeitado pela própria comunidade (Lc 4.28 e 29), não tem morada fixa nem bens, depende dos outros (Lc 8.3ss), é caluniado e perseguido (Mc 3.6 e 11ss).
c) Seguir Jesus é seguir também a sua opção (Lc 4.18-19). A opção de Jesus é a opção do próprio Deus (Sl 12.5: Deus se levanta para salvar os pobres que gemem debaixo da opressão; Ex 3.7-10: Deus escuta o clamor e vê a opressão dos pobres no Egito e desce para libertá-los; Ex 19.13-27: Deus não concorda que Moisés concentre o poder e lhe sugere dividir a responsabilidade de conduzir e orientar o povo; Is 5.8-12: Deus condena a concentração de riquezas; Is 10.1-4: Deus não aceita leis injustas que negam justiça aos pobres e tiram o direito dos aflitos).
As atitudes de Jesus relatadas no evangelho – de ponta a ponta – deixam claro a sua opção: sempre agiu em favor dos menos favorecidos – os famintos, enfermos, aflitos, as crianças, as mulheres, os desorientados...
As exigências de Jesus são radicais. Quem quer ser discípulo deve pesá-las bem, pois não poderá olhar para trás (exemplo do arado). Mas Jesus não pede nada impossível, suas exigências são praticáveis. Ele apenas alerta para o significado e a consequência de tal decisão. Alerta para que não pense num oba-oba.
Estamos dispostos a aceitar o convite para seguir Jesus? É difícil? Mas nós podemos! O espírito Santo é quem impulsiona e encoraja para a ação. Que digamos “Sim”, e como o Profeta Isaias e Jesus declaremos: “O Espírito do Senhor está sobre mim; ele me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me para libertar os presos, para restaurar a vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e anunciar o ano aceitável ao Senhor”.
Pastor Jorge Dummer (IECLB)

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O Evangelho dominical: 19.06.2016

ACREDITAMOS EM JESUS?

As primeiras gerações cristãs conservaram a recordação deste episódio evangélico como um relato de importância vital para os seguidores de Jesus. A sua intuição era certeira. Sabiam que a Igreja de Jesus deveria escutar uma e outra vez a pregunta que um dia fez Jesus aos Seus discípulos nos arredores de Cesárea de Filipe: «Vós, quem dizeis que Eu sou?»
Se nas comunidades cristãs deixamos apagar a nossa fé em Jesus, perderemos a nossa identidade. Não conseguiremos viver com audácia criadora a missão que Jesus nos confiou. Não nos atreveremos a enfrentarmos o momento atual, abertos à novidade do Seu Espírito. Iremos asfixiar na nossa mediocridade.
Não são tempos fáceis para nós. Se não voltamos para Jesus com mais verdade e fidelidade, a desorientação nos paralisará. As nossas grandes palavras continuarão a perder credibilidade. Jesus é a chave, o fundamento e a fonte de tudo o que somos, dizemos e fazemos. Quem é hoje Jesus para os cristãos?
Nós confessamos, como Pedro, que Jesus é o «Messias de Deus», o Enviado do Pai. É certo: Deus amou tanto o mundo que nos ofereceu Jesus. Saberemos nós, os cristãos, acolher, cuidar, desfrutar e celebrar esta grande oferta de Deus? É Jesus o centro das nossas celebrações, encontros e reuniões?
Confessamos também que Jesus é o «Filho de Deus». Ele nos pode ensinar a conhecer melhor Deus, a confiar mais na Sua bondade de Pai, a escutar com mais fé a seu chamado para construir um mundo mais fraterno e justo para todos. Estamos a descobrir nas nossas comunidades o verdadeiro rosto de Deus encarnado em Jesus? Saberemos anunciá-Lo e comunicá-Lo como uma grande notícia para todos?
Chamamos a Jesus «Salvador» porque ele tem força para humanizar as nossas vidas, libertar as nossas pessoas e encaminhar a história humana para a sua verdadeira e definitiva salvação. É esta a esperança que se respira entre nós? É esta a paz que se espalha a partir das nossas comunidades?
Confessamos a Jesus como nosso único «Senhor». Não queremos ter outros senhores nem submeter-nos a falsos ídolos. Mas, ocupa Jesus realmente o centro das nossas vidas? Damos-lhe primazia absoluta nas nossas comunidades? Colocamo-lo acima de tudo e de todos? Somos de Jesus? É Ele quem nos anima e faz viver?
A grande tarefa dos cristãos é hoje juntar forças e abrir caminhos para reafirmar muito mais a centralidade de Jesus na Sua Igreja. Tudo o mais vem depois.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O recente massacre em Orlando

Orlando ou a vida em contínuo sobressalto
De novo, o horror, gratuito e inexplicável. Em uma boate gay de Orlando, o afegão Omar Mateen, de 29 anos, disparou sua poderosa metralhadora sobre os frequentadores. Era sábado à noite, o local estava cheio de jovens. Saldo de 50 mortos e 53 feridos. O atirador, casado e pai de família, figura entre os mortos. Quando a polícia entrou, tirou-lhe a vida.
Mais um massacre, mais uma declaração de fracasso da humanidade em sua dignidade. Novamente o relato da dor, as imagens do sofrimento estampadas na mídia. As lágrimas, as mensagens antes da morte, as fotos. Tudo horrível.
Mas o que mais me impressionou desta feita foi ler que a mulher de Omar sabia de seus planos e havia mesmo ido com ele mapear a Disney, lugar onde, pelo visto, ele pretendia realizar outro massacre. Algo o fez optar pela boate gay, mas um dos alvos planejados era a Disney.
Isso me encheu de horror e me convenceu que a vida hoje é um contínuo e ininterrupto sobressalto, um nunca mais ter sossego nem tranquilidade apenas devido ao fato de ser humano e viver neste planeta. Por maior que seja minha implicância contra o parque temático da Disneylandia, que acho fútil, idiotizador, levando seus frequentadores apenas a consumir mais e mais ideologia, brinquedos inúteis e outros fetiches pós-modernos, meu horror persiste por se tratar de um lugar onde comparecem majoritariamente crianças.
Isso revela que Omar Mateen tinha entre seus alvos principais e deliberados crianças da idade de seu filho ou mesmo mais novas. Mapeava o local para fazer seus planos macabros e acionar ali sua metralhadora, se não houvesse sido abatido pela polícia na boate gay. Este lugar onde meus netos já foram mais de uma vez, já que meus filhos não participam de minha antipatia pelo local, podia ter sido o palco onde o atirador pretendia espetacularizar suas frustrações e recalques vários de vida inteira. E com as minhas amadas crianças lá dentro.
É claro que quando penso em meus netos a barbárie me dói mais no peito. Me atinge mais, na medida do amor por eles. Mas o fato é aterrador em si mesmo, ainda que meus netos não fossem personagens, ainda que a tragédia não fosse com os seres que amo.
Um ser humano armar-se com a mais requintada e poderosa das metralhadoras e planejar cuidadosamente o assassinato de pessoas indefesas é algo monstruoso. O fato de que tudo isso possa ser dirigido a crianças é mais monstruoso ainda. Crianças pequenas, incapazes de se defender, pois não têm ainda sequer entendimento. Os frequentadores da boate Pulse também foram tomados totalmente de surpresa. Até porque o atirador frequentava a boate. Apesar de casado, Omar Mateen era usuário de sites de relacionamento gay e frequentador da boate.
Sobre sua vida privada, não queremos nem devemos comentar, embora inevitavelmente detalhes de sua infância e adolescência tenham vindo à tona após o massacre que perpetrou. E esses nos dizem ter sido Omar vítima de cruel e constante bullying na escola que frequentava. A hostilidade dos colegas, que chegava até a agressão física, se devia à sua aparência: gordinho e “de outra raça”, descendente de afegãos. Mais uma vítima da discriminação e do racismo que impera na sociedade onde vivia e que se vinga de sua frustração e sua dor provocando a dor alheia.
Preocupado em afirmar sua masculinidade, Omar Mateen trabalhava como segurança, andava armado, carregava em si todos os símbolos do macho americano. Mas quando a pressão dentro de si ameaçava explodir frequentava sites de relacionamento gays e boates gays. Sua homofobia transbordava em identidade bem próxima daqueles a quem tanto odiava e tanto desejava exterminar e combater. E na boate Pulse, no último sábado, explodiu pela última e definitiva vez, matando os que formavam parte do grupo que lhe ensinaram a odiar, mas ao qual temia pertencer.
Omar Mateen, o assassino de 49 pessoas cuja maneira de amar odiava, é um produto típico do processo para formar homens em um sistema machista. E o adulto Omar, que não hesitou em descarregar sua arma sobre pessoas indefesas e pretendia fazer o mesmo com crianças na Disney, carregava em si o menino machucado pelas cruéis brincadeiras dos colegas sobre sua raça, sua cor, seu corpo.
A impressão é que não estamos minimamente seguros em lugar algum. Queremos proteger os que amamos, mas não temos poder para isso. A qualquer momento pode cruzar nosso caminho um ser cruelmente ferido pela sociedade que construímos. Um ser como Omar Mateen. E seremos as vítimas de nossa própria intolerância, nosso racismo, nosso machismo, nossa aversão às diferenças dos outros. É bom parar enquanto é tempo...se é que ainda é tempo.

Maria Clara Bingemer

ANO C – DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 19.06.2016

O caminho de Jesus Cristo não garante o sucesso fácil!

O retiro e a oração de Jesus neste momento denotam a encruzilhada, o momento forte no qual ele e seus discípulos se encontram. O que está em jogo é a missão e a identidade de Jesus e dos seus discípulos. A pergunta estava no ar e na cabeça de todos. Jesus havia saciado a fome das multidões, curara doentes, e havia enviado os discípulos para preparar e alargar sua ação. Mas eles se perguntavam: “Quem é este que dá ordem aos ventos e à água, e lhe obedecem?” (Lc 8,25). E até Herodes, desejoso de conhecer Jesus, se interrogava: “Quem será este homem, sobre quem ouço falar estas coisas?” (Lc 9,9)
Ao que parece, o conteúdo da pregação de Jesus e o testemunho contundente das suas ações não eram suficientes para que os discípulos intuíssem claramente sua identidade e sua missão. Mais: a tendência que predominava era entendê-lo no horizonte da ideologia nacionalista, que vivia a ardente expectativa da vinda de um messias identificado com a tradição monárquica, cuja tarefa seria libertar Jerusalém do domínio do exército romano. É para tomar distância deste perfil de líder popular nacionalista e consolidar sua vocação diante do Pai que Jesus se retira em oração.
Depois de aprofundar a consciência sobre a missão que o Pai lhe confia, Jesus retoma a conversa com os discípulos e propõe um balanço das opiniões sobre ele. “Quem dizem as multidões que eu sou?” Na verdade, o povo se perguntava, e alguns arriscavam afirmações aproximativas sobre a pessoa de Jesus: ele poderia ser João Batista ressuscitado; ou Elias que retornava para purificar a fé; ou então um outro profeta importante. Em todos os casos, Jesus aparece claramente identificado com a tradição profética. Ele mesmo acenara para isso na sinagoga de Nazaré quando, percebendo o desconcerto que sua mensagem provocara, dissera que “nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra...”
Um pouco antes, diante da cura do filho da viúva de Naim o povo dizia: “Um grande profeta surgiu entre nós...” E o fariseu que o recebera em sua casa para uma refeição questionava: “Se este homem fosse profeta, saberia quem é esta mulher que está tocando nele...” Mas não podemos nos deter nas respostas que estão na boca do povo ou que aprendemos de cor e boiam na superficialidade das fórmulas pouco consequentes. Afinal, que ressonâncias concretas têm em nossa vida e em nossos projetos fórmulas abstratas e distantes como Messias, Filho de Deus, Redentor, Salvador, Senhor?
A pergunta que Jesus dirige aos discípulos nos pede uma tomada de posição. “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro responde que ele é “Cristo de Deus”, recorrendo um conceito que denota um messianismo de natureza teocrática e nacionalista, que alimenta a expectativa de uma intervenção poderosa para liberar o território do domínio romano e reinstalar a monarquia. Jesus reage a esta resposta de Pedro, determinando que os discípulos não anunciem uma coisa dessas ao povo. Os discípulos estão imersos numa ideologia que fanatiza e desvia do caminho.
Nas imagens e conceitos que usamos para falar de Jesus está embutido aquilo que esperamos dele e pensamos sobre a pessoa humana. Os próprios chefes do judaísmo dão a entender que há uma ideia de poder e de sucesso conexa com o conceito “Cristo de Deus” (cf. Lc 23,35). Não é por nada que, mesmo depois de acompanhar Jesus no seu caminho até Jerusalém e de participar da sua ceia sacramental, os discípulos ainda discutem qual deles devia ser considerado o maior (cf. Lc 22,14-30). Por isso, Jesus prefere falar do caminho do Filho do Homem: sofrimento e rejeição por parte da liderança religiosa.
Precisamos mudar nossos hábitos, trocar os velhos trajes que trazem as marcas de reinos, impérios e ideologias de péssima memória. Paulo lembra que o nosso batismo significa exatamente isso: revestir-se de Cristo.  E isso implica na eliminação dos muros – arquitetônicos ou dogmáticos – que separam e hierarquizam crentes e não crentes, ricos e pobres, cultos e incultos, homens e mulheres, sacerdotes e leigos, etc.  “Todos vós sois um só, em Cristo Jesus”, insiste o Apóstolo das nações. Fiéis a esta verdade, sigamos o profeta de Nazaré, o rosto da misericórdia de Deus Pai.
Jesus de Nazaré, carpinteiro como teu pai José e ouvinte assíduo da Palavra: sendo filho da humanidade e nosso irmão maior, tu és o Ungido de Deus, do Pai dos pobres. Olhando para teu corpo trespassado, te reconhecemos como um dos nossos e, por isso, como o início do Ano Novo (que os indígenas celebram no dia 21/06) e Caminho que nos leva à plena liberdade, que vale mais que a vida. Exultamos de alegria à sombra das asas da tua cruz e tomamos a nossa, cada dia, nos turbulentos e desafiadores tempos que vive a nação brasileira. Com vozes de alegria, nossa boca te canta louvores. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profeta Zacarias 12,10-11; 13,1 * Salmo 62 (63) * Carta aos Gálatas 3,26-29* Evangelho de S. Lucas 9,18-24)

Preparando o domingo: 19.06.2016

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e me siga” (Lucas 9, 18-24)

Proclamamos hoje a versão lucana da profissão de fé de Pedro, que Marcos situa no caminho de Cesaréia de Filipe (Mc 8, 27-35) e coloca como pivô de todo o seu Evangelho. Este trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os Evangelhos: quem é Jesus? O que é ser discípulo dele? São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus, determinará a maneira do meu seguimento a ele.
O trecho inicia-se com Jesus em oração. Essa é uma atitude típica de Jesus em Lucas.  Muitas vezes no Terceiro Evangelho, especialmente antes de momentos importantes na sua vida, Jesus se acha em oração.  Pois ele nada faz por vontade própria, mas escutando a vontade do Pai.
O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua: “Quem dizem as multidões que eu sou?” É inócua, pois não compromete; o “diz que” não compromete ninguém, pois expressa a opinião dos outros.  Por isso, chovem respostas da parte dos discípulos: “João Batista, Elias, um dos antigos profetas que ressuscitou!”.  Mas Jesus não quer parar aqui. Esta pergunta foi só uma introdução.
A facada vem em seguida: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Agora não chovem respostas, pois quem responde vai se comprometer. Não será a opinião dos outros, mas a opinião pessoal!  Esta opinião traz consequências práticas para a vida.
Finalmente, Pedro se arrisca: “O Messias de Deus”. Mas a reação de Jesus é no mínimo estranha: “Ele proibiu severamente que eles contassem isso a alguém”.  Que coisa esquisita!  Jesus proíbe que se fale a verdade sobre ele!  Como é que ele espera conquistar discípulos deste jeito?  O assunto merece mais atenção.
Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, como diríamos hoje.  Ele usou o termo certo para descrever Jesus.  Mas Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”.  Pois cada um pode entender este termo conforme a sua cabeça, conforme os seus desejos.  Jesus quer deixar bem claro que ser “messias” para ele é ser o “Servo Sofredor” de Javé. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas e econômicas, enfim, com a classe dominante do seu tempo: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar no terceiro dia”. (v 22)
Essa visão que Jesus tinha do Messias, não era a comum - em geral as pessoas esperavam um messias triunfante, glorioso, guerreiro. Marcos nos mostra que Pedro partilhava essa visão errada, ao ponto de tentar corrigir Jesus, e de ganhar de Jesus uma correção dura: “Fique atrás de mim, Satanás!  Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mc 8,33).
Não basta ter os termos e títulos certos. Temos que ter o conteúdo certo.  A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, mas na verdade frequentemente criamos Deus à nossa imagem e semelhança, para que ele não nos incomode. A nossa tendência é de seguir um messias triunfante, e não o Servo Sofredor.
Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem que andar nas pegadas do seu mestre: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga”. (Lc 9,23) O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções dele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Carregar a cruz não é aguentar qualquer sofrimento com passividade. Se fosse, a religião seria masoquismo!
Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus.  Segui-lo não é tanto fazer o que Jesus fazia, mas o que ele faria se estivesse aqui hoje. Como ele foi morto, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei”, (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), os seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses. 
Por isso sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências políticas, econômicas ou ideológicas.  Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato de Marcos.  Por isso muitas pessoas, inclusive no seio da Igreja, contestam e criticam o Papa Francisco, pois ele continuamente nos demonstra as consequências práticas do seguimento de Jesus, algo que nos desafia e desinstala – e nos incomoda no nosso comodismo.
O texto faz ressoar para cada um de nós as duas perguntas de Jesus. É fácil responder o que os homens dizem dele: o que dizem o Papa, o Bispo, o catequista, os teólogos, a TV. Mas esta pergunta não é tão importante. É a segunda que cada um tem que responder: “Quem é Jesus para mim?” E a resposta se dará não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós, pela nossa maneira de viver, pelas nossas opções concretas, pela nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. 
Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que não seja exigente, que não traz consequências sociais, que não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa.  Pois o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim, e deixou bem claro: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me 
siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perde a sua vida por causa de mim, esse a salvará.”(Lc 9,24)
Tomaz Hughes SVD 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O Evangelho dominical: 12.06.2016

NÃO AFASTAR NINGUÉM DE JESUS!

Segundo o relato de Lucas, um fariseu chamado Simão está muito interessado em convidar Jesus para a sua mesa. Provavelmente, quer aproveitar a refeição para debater algumas questões com aquele galileu, que está adquirindo fama de profeta entre as pessoas. Jesus aceita o convite: a todos deve chegar chegar a Boa Nova de Deus.
Durante o banquete sucede algo que Simão não previu. Uma prostituta da localidade interrompe a sobremesa, atira-se aos pés de Jesus e começa a chorar. Não sabe como agradecer-lhe o amor que mostra por quem, como ela, vive marcada pelo desprezo geral. Ante a surpresa de todos, beija uma e outra vez os pés de Jesus e os unge com um perfume precioso.
Simão contempla horrorizado a cena. Uma mulher pecadora tocando Jesus na sua própria casa! Não o pode suportar: aquele homem é um inconsciente, não um profeta de Deus. Aquela mulher impura teria de ser afastada rapidamente de Jesus.
No entanto, Jesus deixa-se tocar e querer pela mulher. Ela o necessita mais do que ninguém. Com ternura especial oferece-lhe o perdão de Deus e, em seguida, convida-a a descobrir dentro do seu coração uma fé humilde que a está a salvar. Jesus só lhe deseja que viva em paz: «Os teus pecados são-te perdoados… A tua fé te salvou. Vai em paz».
Os evangelhos destacam o acolhimento e compreensão de Jesus com os setores socialmente mais excluídos: prostitutas, cobradores, leprosos… A Sua mensagem é escandalosa: os desprezados pelos homens mais religiosos têm um lugar privilegiado no coração de Deus. A razão é só uma: são os mais necessitados de acolhimento, dignidade e amor.
Algum dia teremos que rever, à luz deste comportamento de Jesus, qual é a nossa atitude nas comunidades cristãs ante certos coletivos como as mulheres que vivem da prostituição ou os homossexuais e lésbicas, cujos problemas, sofrimentos e lutas preferimos quase sempre ignorar e silenciar no seio da Igreja, como se para nós não existissem.
Não são poucas as preguntas que podemos fazer: Onde podem encontrar entre nós um acolhimento semelhante ao de Jesus? De quem podem escutar uma palavra que lhes fale de Deus como falava Ele? Que ajuda podem encontrar entre nós para viver a sua condição sexual desde uma atitude responsável e crente? Com quem podem partilhar a sua fé em Jesus com paz e dignidade? Quem é capaz de intuir o amor insondável de Deus aos esquecidos por todas as religiões?
 José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

ANO C – DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 12.06.2016

Não existe santo sem passado, nem pecador sem futuro!

O bispo vietnamita François van Thuan sentiu-se tocado por uma frase escrita desajeitadamente na parede da cela da prisão na qual passou mais de 20 anos: “Não existe santo sem passado, nem pecador sem futuro.” François, hoje em processo de beatificação, viu nesta frase um resumo do Evangelho, e eu penso que é também uma boa chave-de-leitura para o evangelho proclamado deste domingo. Santa é a pessoa que, tocada pelo amor de Deus, entra num permanente processo de conversão. E, diante de Deus, ninguém está preso às culpas do passado ou às contradições do presente, por maiores que sejam.
O Evangelho de Jesus deixa claro: os cristãos não são superiores a ninguém, não ocupam o centro de nada. Mas as tentações são muitas, persistentes e fortes: muitos católicos se sentem superiores aos pentecostais e muçulmanos; há padres e religiosos se consideram melhores que os demais membros da comunidade; existem ricos e bem-sucedidos se sentem mais dignos e meritórios que os fracassados... No ventre desta postura de superioridade vigora um distanciamento, uma força que separa e traça fronteiras intransponíveis. Na sua base está a presunção de ser o centro de tudo...
No evangelho de hoje, o fariseu Simão convida Jesus para uma refeição em sua casa e observa escandalizado que o honrado convidado não evita uma mulher reconhecidamente pecadora que, entrando sem permissão na sala da festa, lava os pés de Jesus com as lágrimas e os enxuga com os cabelos. Diante disso, Simão e seus correligionários concluem que Jesus não é um profeta nem pode agir e falar em nome de Deus; é um “comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores” (Lc 7,35). Para Simão, Deus não poderia senão confirmar sua ideologia farisaica. Como muitos ainda pensam hoje: Deus e a bíblia confirmam a superioridade dos homens sobre as mulheres, dos ricos sobre os pobres...
Mas os verdadeiros profetas começam por desvelar os limites e fraquezas que escondemos sob nossas belas doutrinas. Diante de Deus, ninguém é puro nem perfeito! O que nos sustenta no seguimento de Jesus Cristo é a experiência de que ele nos ama pessoalmente e se entregou por nós. É isso que faz com que Paulo considere todos os méritos acumulados no judaísmo como lixo desprezível. É isso que leva a mulher pecadora a vencer todas as barreiras, a ultrapassar os muros levantados pela hipocrisia e a irromper na própria casa daqueles que a condenam. Para Jesus, não há pecador sem futuro!
Paulo elabora a seu modo os princípios fundamentais deste Evangelho da gratuidade da salvação. Para ele, não atingimos a maturidade espiritual e a plenitude da liberdade observando prescrições, que acabam sempre fortalecendo nosso ego ou nossas instituições, mas acolhendo o amor de Deus que nos é oferecido como graça e como tarefa em Jesus Cristo. A lei é uma via superada e precisa ser descartada, enquanto que a fé é um caminho de vida, uma via pascal. Dos cristãos se espera que assumam o espírito de Cristo como orientação pessoal de vida. “Eu vivo, mas não sou eu: é Cristo que vive em mim!”
Diante de tamanha bondade e gratuidade, não há como não ser agradecido e reorganizar a vida. Mas o fariseu, como muitos o fazem também hoje, não demonstra gratidão e hospitalidade porque pensa que é merecedor da salvação, que é credor diante de Deus. A presunção de mérito o prende ao passado e fecha o futuro. A presunção nunca se dá bem com a gratidão, uma vez que eleva, incha, distancia, despreza, exige. E cobra até o último centavo, inclusive do próprio Deus. Esta é uma lógica terrivelmente mortal, que acaba desumanizando tanto quem a vive como aqueles com quem se relaciona.
A vida cristã é um caminho de acolhida, liberdade e gratidão. “Eu não anulo a graça de Deus”, diz Paulo. Isso significa reconhecer que somos pecadores acolhidos gratuitamente por Deus, mas implica também em fazer da gratuidade e da acolhida sem discriminação o princípio regente das nossas práticas e projetos, tanto individuais como comunitários e institucionais. Longe de nós a fria superioridade do fariseu, incapaz de qualquer gesto de hospitalidade para com Jesus. Precisamos entrar ritmo de Jesus Cristo, que derrubou os muros que separavam e fez nascer um único povo (cf. Ef 2,14).
Jesus de Nazaré, coração sem fronteiras, amor que prioriza os marginalizados, perdão que redime e devolve a dignidade aos pecadores! Somos uma comunidade de pecadores reconciliados, a serviço da reconciliação da humanidade. Queremos manter as portas abertas a todas as pessoas tratadas como restos descartáveis. Não estamos totalmente livres das ideologias que discriminam e classificam, mas continuamos desejando ser uma Igreja que acolhe e promove a dignidade dos pobres, a diaconia das mulheres, a partilha de bens e a eliminação dos muros. Ajuda-nos a namorar apaixonadamente esse ideal. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(2° Livro de Samuel 12,7-13* Salmo 31 (32) * Carta aos Gálatas 2,16-21 * Evangelho de São Lucas 7,36-8-3)