sábado, 30 de julho de 2016

Curso de Missiologia (27)

Tarefa dos Institutos missionários numa Igreja toda missionária

Como sabemos, o Vaticano II enfatiza que a missão é tarefa de todo o Povo de Deus, de todos os fiéis. O próprio decreto conciliar Ad Gentes fala amplamente da cooperação missionária que deve engajar, de um modo que lhes é próprio, tanto as Igrejas particulares como as paróquias, bispos, padres, religiosos e leigos (cf. 35-41).
A respeito da responsabilidade missionária dos leigos e leigas, João Paulo II diz enfaticamente: “A necessidade de que todos os fiéis compartilhem tal responsabilidade não é apenas questão de eficácia apostólica, mas é um dever-direito, fundado sobre a dignidade batismal, pelo qual os fiéis leigos participam no tríplice ministério de Jesus Cristo. Se é verdade que a fundação de uma nova Igreja requer a Eucaristia, e, por conseguinte, o ministério sacerdotal, todavia a missão, que comporta as mais variadas formas, é tarefa de todos os fiéis” (RMi 71). A participação dos leigos na missão, juntamente com a ênfase no papel da Igreja local, traz novos desafios para os institutos religiosos com carisma missionário.
É preciso lembrar que os institutos com finalidade prioritariamente missionária, como é o nosso caso, são um fenômeno dos últimos quatro séculos. Eles foram importantes instrumentos na propagação da fé cristã e na fundação de novas Igrejas, e cumpriram uma missão histórica admirável, mas precisam se adaptar à concepção conciliar de Igreja. E continuam tendo um papel importante, não mais apenas na atividade missionária ad gentes em sentido territorial, mas também na animação missionária, tanto nas Igrejas jovens como naquelas de antiga tradição cristã (cf. AG 27; RMi 66). E esta é uma tarefa tão urgente quanto complexa, que exige muita fantasia e ousadia.
Os institutos missionários, porém, precisam tomar consciência de que não são mais os únicos encarregados da atividade missionária da Igreja e de que existem outros carismas missionários nas Igrejas locais. E como a Igreja está hoje presente em praticamente todo o mundo, a tarefa destes institutos não é mais fundar novas Igrejas, mas oferecer uma ajuda missionária específica às Igrejas locais e ser para elas força propulsora de um movimento de abertura missionária e encarnação transformadora no seu respectivo contexto, a fim de que se tornem um efetivo sujeito eclesial missionário. Se não fizerem isso, os institutos missionários correm o risco de trair seu carisma e impedir a realização da vocação missionária da Igreja local.
A esse respeito, podemos ler em Ad Gentes: “Representante a título pleno da Igreja universal, saiba a Igreja particular que foi enviada aos não-fiéis que habitam o território em que está implantada. Deve, pois, individual e comunitariamente, dar testemunho e ser sinal de Cristo junto a eles. Além disso é preciso que o ministério da palavra alcance a todos, para que lhes chegue o anúncio do Evangelho” (n° 20). E, sobre os institutos missionarios e seus membros, podemos ler na Redemtoris Missio: “A vocação especial dos missionários ad vitam, isto é, por toda a vida, mantém toda a sua validade: representa o paradigma do compromisso missionário da Igreja, que sempre tem necessidade de doações radicais e totais, de impulsos novos e corajosos” (n° 66).
Assim, podemos dizer que os institutos missionários assumem hoje a tarefa de ajudar a Igreja local no seu processo de maturação. Uma Igreja local alcança sua maturidade quando se torna missionária, no duplo sentido de dar respostas pastorais efetivas aos desafios advindos da sua realidade social e cultural – às alegrias e esperanças, tristezas e angústias do seu povo – e de participar solidariamente das necessidades das outras Igrejas locais. Isso porque, mesmo vivendo num contexto geográfico e cultural específico, a Igreja local continua sendo Igreja de Deus, sinal e instrumento do chamado universal à salvação. Seu olhar deve ir além das próprias fronteiras, e seu coração deve bater em sintonia com o coração da Igreja universal no seu empenho pela salvação do mundo.
Ademais, o berço das vocações missionárias sempre foi a fé das comunidades cristãs. Se existem missionários é porque as comunidades da Igreja local são missionárias. Assim foi no passado, no caso das Igrejas europeias e norte-americanas, e assim é no presente, em todas as Igrejas particulares. Por isso, “a formação missionária é obra da Igreja local, com a ajuda dos missionários e dos seus Institutos, bem como dos cristãos das jovens Igrejas. Este trabalho não deve ser visto como marginal, mas central na vida cristã” (RMi 83). Os institutos missionários têm um papel relevante na ação de despertar e formar as vocações missionárias das Igrejas locais, e, nisso, os escritos e as iniciativas do Padre Berthier nos interpelam fortemente.
Em outras palavras, a tarefa específica dos institutos missionários na Igreja de hoje pode ser compreendida em três direções:
a)       Ser um laboratório de universalidade, mediante a constituição de comunidades plurinacionais e interculturais e estratégias de ação solidária em âmbito global;
b)       Ser um laboratório de espiritualidade missionária, caracterizada pelo êxodo de si mesmo em direção ao outro, pela hospitalidade e pela humildade de quem pede acolhida na cultura e no mundo dos outros;
c)       Ser uma plataforma de envio missionário, oferecendo possibilidades de formação às pessoas que hoje se descobrem chamadas à missão nas situações de fronteira, nas situações de divisão e sofrimento humano.

Itacir Brassiani msf

Curso de Missiologia (26)

Novas fronteiras da missão ad gentes


Na encíclica Redemptoris Missio, João Paulo II diz que os horizontes e possibilidades da missão se alargaram e que é preciso recuperar a coragem das gerações que nos antecederam. Segundo ele, a primeira e principal expressão da missão da Igreja é a missão ad gentes, cujos destinatários são os povos ou grupos que ainda não creem ou deixaram de crer em Cristo ou estão longe dele, onde a Igreja não está ainda radicada ou cuja cultura ainda não foi influenciada pelo Evangelho (cf. RMi 34). Seu objetivo é ajudar as pessoas para que se abram ao Evangelho de Jesus Cristo e o acolham como norma que orienta e sustenta sua vida. Esta missão continua imensa e não está de modo algum concluída (RMi 35).
Entretanto, na linha de pensamento de Joao Paulo II, a missão ad gentes não pode ser mais compreendida unicamente em termos territoriais, mas a partir das diversas fronteiras, que também representam muros. A partir de RMi 37, podemos identificar três diferentes fronteiras ou âmbitos nos quais a missão ad gentes pode se realizar. Trata-se de fronteiras que desafiam a atividade missionária da Igreja como um todo, frente às quais cada instituto missionário precisa discernir e priorizar responsavelmente sua contribuição.
a)        Fronteiras ou âmbitos territoriais: São as faixas territoriais que não receberam ou recusam o testemunho e o anúncio de Jesus Cristo, e as regiões nas quais as comunidades eclesiais são frágeis e carentes do dinamismo necessário para encarnar o Evangelho na cultura e nas estruturas sociais.
b)       Fronteiras ou âmbitos sociais: São os ambientes e estruturas sociais, que anseiam por uma palavra orientadora e uma presença solidária e transformadora, especialmente os grandes aglomerados urbanos, nos quais se forja uma nova cultura; os inquietos e exigentes setores juvenis; o mundo da mobilidade humana ou das migrações; as situações de pobreza intolerável e desumana.
c)        Fronteiras ou âmbitos culturais: São os chamados novos areópagos ou fronteiras culturais, entre os quais estão: o mundo das comunicações, que unifica a humanidade e a transforma numa aldeia; os movimentos de luta pela paz, desenvolvimento e libertação dos povos, sobretudo das minorias; as iniciativas de promoção da mulher, da criança e de proteção da natureza; o mundo da cultura de massa e da pesquisa científica; o espaço das relações internacionais e da luta pelos Direitos Humanos.
Na perspectiva de João Paulo II, as gentes às quais se dirige a atividade missionária da Igreja não são simplesmente os não-crentes ou os fiéis das religiões não-cristãs. Todos os fenômenos culturais e estruturas sociais que necessitam do testemunho, do anúncio e da ação transformadora dos cristãos também são por definição “territórios” de missão ad gentes e, portanto, desafios que devem ser considerados responsavelmente pelas Igrejas locais e pelos institutos missionários.
Este ‘movimento para’, próprio da missão ad gentes, pode ser desdobrado hoje em quatro aspectos:
a)       Um dinamismo ad gentes, que nos coloca diante da realidade humana e religiosa ou a-religiosa daqueles a quem somos enviados;
b)       Um dinamismo ad extra, que pede o desapego e a saída de nós mesmos e nossas comunidades eclesiais, que sejamos uma Igreja em saída;
c)       Um dinamismo ad vitam, que sublinha a origem da missão na experiência do amor de Deus e nossa consequente consagração total e permanente a ela;
d)       Um dinamismo ad paupers, que nos leva a servir de forma solidária e prioritária aos excluídos e oprimidos, estes que são os preferidos de Deus.


Itacir Brassiani msf

Curso de Missiologia (25)

Missão, missões e atividades missionárias
Na perspectiva do Vaticano II, a Igreja se compreende missionária em sua própria natureza, participante da missão de Jesus Cristo e do Espírito Santo no mundo. Sua missão é, essencialmente, continuar na história a missão de Cristo, enviado para evangelizar os pobres. Instigada por ele, a Igreja deve seguir o mesmo caminho de pobreza, de obediência, de serviço e de entrega de si mesma (cf. AG 5). Esta missão é intrínseca à sua própria natureza, permanente e universal, como universal é a salvação oferecida por Jesus Cristo.
Paulo VI nos ensina que a missão da Igreja é substancialmente a evangelização. “Evangelizar constitui a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar...” (EN 14). E evangelizar é anunciar a boa notícia de Jesus Cristo e promover o Reino de Deus como vida para todos. “A Boa Nova do reino que vem e que já começou, de resto, é para todos os homens de todos os tempos. Aqueles que a receberam, aqueles que ela congrega na comunidade da salvação, podem e devem comunicá-la e difundi-la ulteriormente” (EN 13).
A dimensão de anúncio, ensino e celebração do Reino de Deus é completada, como vimos, pela ação transformadora. A linha divisória não passa mais entre cristandade e países pagãos, mas entre Igreja em missão e mundo em permanente evolução e tensão. Se a justiça, a paz e a defesa da integridade da criação estão no coração da missão, o mundo inteiro é terra de missão.
Assim, a missão não é apenas uma entre as diversas atividades da Igreja. E não se trata mais simplesmente de converter os pagãos. A Igreja conciliar vê as religiões como tentativas humanas de responder às questões fundamentais da vida humana e de propor caminhos para sua realização plena. Por isso, sem deixar de anunciar Jesus Cristo, não rejeita o que há de verdadeiro nas religiões; considera suas práticas e doutrinas como raios da verdade que ilumina todos os seres humanos; e exorta ao diálogo e à colaboração com as pessoas que seguem outras religiões (cf. NA 2).
Mas aqui precisamos retomar a dinstinção e a articulação entre missão enquanto essência e modo de ser da Igreja no mundo, atividades missionárias concretas e missões. A missão da Igreja, na continuidade da missão de Jesus Cristo, é uma só – anunciar, testemunhar e promover o reino de Deus – e varia de acordo com as circunstâncias, com o modo como é realizada nas várias regiões e situações do mundo e com os seus protagonistas (cf. AG 6).
As atividades missionárias em seu sentido amplo são as ações que realizam e concretizam esta missão são diversas: testemunho de vida e diálogo intercultural; presença solidária e diversas formas de serviço; pregação do Evangelho e catequese; formação de comunidades locais, com seu clero, sua vida consagrada e seus agentes leigos; etc. (cf. AG 10-18). A exortação Redemtoris Missio acrescenta a isso a encarnação do Evangelho nas diversas culturas, o o diálogo intereligioso e a promoção do desenvolvimento (cf. n° 52-59).
Aquilo que chamamos missões são a “atividade própria desenvolvida por aqueles que percorrem o mundo pregando o Evangelho e implantando a Igreja entre os povos ou grupos humanos que ainda não vivem segundo a fé em Cristo. A atividade missionária no sentido estrito é esse trabalho feito em determinados territórios designados pela santa sé” (AG 6). Esta atividade estritamente  missionária é distinta tanto da ação pastoral, que se exerce junto aos fiéis da comunidade, como da ação ecumênica, ambas importantes e necessárias.


Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Curso de Missiologia (24)

Modelos de inculturação e aprendizados necessários à inculturação

No último momento de sua assessoria, o Pe. Joaquim nos convidou a refletir sobre três modelos típicos de inculturação:
Tornar-se nativo: Assimilar a cultura do modo mais completa possível. A nova cultura é vista como boa e a anterior como inferior. O missionário quer se parecer o mais possível com as pessoas da cultura hospedeira, apagando as diferenças.
Formar um gueto: A nova cultura é vista de modo crítico, e a cultura de origem é sobrevalorizada. Ocorre o fechamento para manter os hábitos e costumes. Esse modelo não pode durar muito, mas parece uma forma alegre de viver.
Tornar-se um bom estrangeiro: Este é o caminho intermediário entre os dois extremos. Ambas as culturas são vistas como conjuntos que englobam aspectos positivos e negativos. O objetivo é uma adaptação que possibilita uma relação saudável com as pessoas da nova cultura.
Como ser um bom missionário em dialogo e interação com a cultura do outro? É preciso aprender várias atitudes...
Aprender tirar os sapatos: O lugar do qual nos aproximamos é sagrado, e precisamos cuidar para não pisar sobre as pessoas e sobre Deus mesmo. Deus chegou onde somos enviados antes, e habita o coração dessa cultura. As sandálias simbolizam aquilo que se moldou ao nosso pé, os padrões de conduta habituais, e tirar as sandálias significar relativizar aquilo que nos envolve e entrar em contato com a sacralidade do lugar onde pedimos licença para entrar.  É um processo de deslocamento e relocamento. A nova terra nunca vai substituir a antiga, nada substitui ou restitui o que foi vivido. Isso é passado, e faz parte daquilo que foi deixado para trás.
Aprender a ser hospede: Aqui ocorre a relação entre hospede e hospedeiro, os ajustes entre a antiga e nova cultura. Hospede não tem direito, é acolhido, recebe tudo gratuitamente, entra no espaço do outro. A mala representa o patrimônio mínimo que carregamos, como segurança mínima na nova situação, o nosso pequeno poder numa situação desconhecida e ameaçadora. O peregrino não necessita de bagagem, pois o outro o provera. Ocorre uma relação de troca, de intercambio de prosperidades e identidades: abrigo, alimento, conselhos, identidades, palavras... O anfitrião é aquele que chegou à maturidade humana e oferece tudo, com largueza e gratuidade. O missionário hospede toma então consciência de que é imagem de Deus, que o outro também o é, que o mais importante é acolher e ser compassivo. E esse processo acaba mudando sua identidade.
Aprender a entrar no jardim do outro: Trata-se de discernir o que superar e o que conservar e promover. Todas as culturas tem seu jardim.  Sua beleza depende do capricho do jardineiro. Este jardim pode parecer cheio de belas flores, sem ervas daninhas. Ou então, repleto de ervas daninhas. Ou pode parecer que ele tem flores e ervas daninhas. É aqui que se joga a possibilidade de chegarmos a ser universais, passando pela experiência da liminaridade, de uma boa socialização, mudando a consciência, transformando a forma de pensar e de agir. E assim chegamos a ser um irmão universal, com o preço de nunca mais sermos o que fomos no passado, da origem. É a dor da separação das raízes anteriores que possibilita um novo enraizamento.

Itacir Brassiani msf

Curso de Missiologia (23)

Conflitos interculturais e inculturação

Apresentamos aqui a terceira parte da reflexão feita pelo Pe. Joaquim Andrade no nosso Curso de Aperfeiçoamento da Ação Missionaria, aqui em Santa Cruz de la Sierra: conflitos interculturais e fases da inculturação.  Os conflitos são percebidos como desentendimentos substanciais, envolvem as emoções, aumentam o stress, a ansiedade e a raiva. Estas tensões podem ser expressas de forma direta ou indireta. Podem ser formas mais rígidas ou mais flexíveis.
Na convivência intercultural todos precisamos aprender a deixar, a sair, e a chegar. Para tanto, necessário é definir onde eu quero chegar, onde a congregação quer que eu chegue, onde a cultura local quer que eu chegue. Deixar nossa tribo significa deixar nossa segurança, minha identidade, coisas e relações familiares.
O processo de inculturação conhece diferentes fases. Há uma série de dificuldades iniciais: choro, solidão, busca da comida e da cultura de origem. Se tivermos fortes raízes na cultura de origem, temos possibilidade de desenvolver um bom trabalho onde chegamos, e se as raízes foram superficiais, também o trabalho poderá ser pouco frutuoso.
A primeira fase é a da novidade: O missionário sente-se feliz por estar num pais e numa cultura diferente, quer conhecer as coisas. Ele também é uma novidade para o povo.
A segunda fase é a da dor: O missionário começa a enfrentar os problemas de adaptação (língua, cultura, deslocamento). Começa a criticar tudo o que existe no pais hospedeiro, e pode entrar numa situação de desordem profunda. O que era bonito não o é mais... Aqui são importantes as atividades comunitárias, da direção espiritual e da oração.
A terceira é a fase da independência: O missionário já assimilou a língua e a cultura, expressa seus pensamentos e percepções, e a sensação de deslocamento vai desaparecendo. Começa a se abrir e busca afirmar seu lugar.

Itacir Brassiani msf

Curso de Missiologia (22)

Pluralismo, interculturalidade e dialogo

Partilhamos aqui o segundo tema desenvolvido pelo Pe. Joaquim. Ele começou lembrando que o diálogo inter-religioso é necessário porque nenhuma religião consegue abarcar a grandeza de Deus. A grandeza divina é revelada parte por parte.
Este dialogo pode ser sobre um tema comum, como a experiência religiosa, para que cada parte aprenda e amadureça com a outra. Não é debate, mas escuta reciproca, sem perder a identidade. O dialogo pode ser: filosófico ou histórico, místico ou religioso, prático e ético. O dialogo se dá entre arvores diferentes, mas o ecumenismo é uma arvore só, com a mesma raiz, mas com galhos diferentes. 
Poderíamos imaginar uma liturgia universal, que acolha a inspiração e a luz cristã (trindade e relação); a simplicidade hindu (ver Deus e deixar-se ver por Ele); a ascese budista (superação do sofrimento); a fidelidade muçulmana (fé e submissão); a filosofia chinesa (jogo dos dois princípios opostos que se complementam); a ancestralidade africana (comunhão com os que se foram e os que estão por vir); e a comunhão vital dos indígenas (sintonia e comunhão com as diversas formas de vida).
Hoje, vemos aparecer alguns conceitos novos: aculturação, inculturação, transculturação, multiculturalidade, interculturalidade. O eixo de tudo seria a socialização: assimilação de hábitos características do seu grupo social, a fim de chegar a ser membro funcional de uma comunidade.  Inculturaçao é o processo que acrescenta à própria cultura alguns elementos e a perspectiva da cultura do outro. A interculturalidade é o reconhecimento e a interação com a originalidade do outro sob a orientação de um mesmo fim.
O iceberg pode ser uma interessante metáfora para compreender a cultura: é composta de uma camada pequena, superficial, explicita, fácil de ser mudada (artefatos, comidas, teorias, dogmas), e uma camada maior, escondida, profunda, não explicitada, difícil de ser mudada (valores, atitudes, mitos, crenças, percepções, modos de pensar).
O desenvolvimento da sensibilidade e da postura intercultural passa por seis etapas:
Negação: A cultura de origem é vista como verdadeira e superior, e a cultura dos outros é considerada menor; ocorre negação e isolamento físico e psicológico; aqui, a tarefa é reconhecer a existência de diferenças culturais.
Defesa: A cultura de origem é considerada verdadeira, a outra é diferente e ruim; experimenta-se o sentimento de ser ameaçado pela cultura do outro, a polarização entre nós e eles; então, aqui a tarefa é superar a polarização através da ênfase na humanidade comum, desenvolver a tolerância.
Minimização: A cultura de origem é percebida como universal e as diferenças não são consideradas importantes; a tendência é considerar os valores da própria culturas como absolutos, e a diferença é vista como negativa; emerge aqui a tarefa de conhecer mais sobre a própria cultura para compreender a originalidade da cultura dos outros.
Aceitação: A cultura de origem é vista como uma entre as outras, cada uma com sua complexidade e seu alcance, e a diferença é aceita tanto no comportamento como no valor; nesta fase, a tarefa é desenvolver a habilidade de mudar de perspectiva, a olhar o mundo na perspectiva do outro, percebendo os contrastes e complementaridades.
Adaptação: O missionário aprende a reconhecer as pistas e portas que a cultura nova oferecem, consegue ver o mundo a partir de olhos diferentes e mudar os próprios comportamentos, a se entender como um entre outros; a tarefa é desenvolver a capacidade de mudar os parâmetros de referência conforme a situação e o ambiente.
Integração: Existem movimentos de dentro para fora e de fora para dentro, interação fecunda entre culturas, e isso nos leva à descoberta de que somos hospedes globais, nômades estruturais. Aqui, a tarefa é desenvolver uma identidade multicultural, a flexibilidade cultural (efeito camaleão).


Itacir Brassiani msf

Curso de Missiologia (21)

Interculturalidade, ecumenismo e diálogo inter-religioso

O Pe. Joaquim Andrade, Verbita, assessor do quarto dia (quinta-feira, 28 de julho) da segunda semana da primeira etapa do Curso de Aprofundamento da Ação Missionaria, começou com esta afirmação programática: O mundo está em movimento, as religiões estão em movimento, a Igreja está em movimento (?)...
O missionário, que está sempre se deslocando, vai refazendo sempre seus conceitos e suas imagens de missão. Isso não é estranho, pois o mundo está em movimento, as religiões estão em movimento, as Igrejas estão em movimento. Por isso, nos últimos 15 anos as Congregações missionarias estão sendo obrigadas a rever seus projetos de missão.  Não há mais lugar para uma teologia estática.
Hoje o pensamento se mostra muito acelerado, tudo está simultaneamente em movimento (as relações, as coisas, as pessoas, os povos...) Há tempos sabemos que a terra não é mais o centro de tudo, mas nem o sol é a referência principal e fixa. Para o missionário, as pessoas com quem caminha e trabalha são o sujeito, o centro para o qual tudo converge.
O foco da missão também mudou. A Igreja deixou de ser o centro, e se entende como relativa ao Reino. A missão passou da conquista ao diálogo, e passamos do diálogo inter-religioso às relações inter-religiosas, do diálogo inter-religioso ao diálogo inter-espiritual. Passamos também das fronteiras geográficas às fronteiras missionarias, da missão ad gentes à missão inter gentes, da missão inter gentes ao dialogo profético.
Existe na atualidade um forte movimento migratório internacional. Mais de 200 milhões de pessoas vivem fora dos seus países. Nos Emirados Árabes, mais 70% da população é migrante; no Kwait, são mais de 60%; em Singapura, passam de 43%. Mas não podemos esquecer que a migração é coetânea à humanidade: para sobreviver, para dominar, para implantar a cultura, ou como modo de vida nômade.
Neste processo de migração as pessoas e grupos levam consigo seus símbolos culturais, seus hábitos alimentares, seus símbolos e práticas religiosas. Essa bagagem entra em contato com novas tradições religiosas e com elas se mescla. Surge assim uma nova tradição cultural e religiosa.
As grandes tradições religiosas que conhecemos emergem na história entre os séculos VIII e II antes de Cristo: os filósofos na Grécia, os profetas em Israel, Zaratustra na Pérsia, Confúcio e Lao-Tsé na China, Buda na Índia. Eram tempos de uma sociedade culturalmente agraria. Hoje estamos numa sociedade do conhecimento, na qual as pessoas experimentam uma dupla ou múltipla pertença religiosa, o sincretismo religioso teórico e prático e se sentem confortáveis com isso.
É interessante escutar o que diz a antropologia sobre a origem e o fundamento das religiões. James Frazer parte da constatação de que natureza regula a vida. Quando essa regra é perdida ou se desfaz, provoca medo e desordem. As pessoas respondem a isso com a magia, que é a liturgia embrionária da humanidade. Por isso, a magia tem sua base na necessidade de controlar a natureza. Malinowski constata que temos medo da morte e dos mortos, e, por isso, procuramos sacraliza-la. A morte traz crise para os indivíduos, e então procura-se preservar o morto para manter os laços afetivos. E. Durkheim afirma que a religião porta a ideia do Todo, e os fenômenos religiosos se expressam em crenças e ritos. Por fim, Griffiths parte da experiência humana e pessoal da solidão induz à oração. A religião ajuda a superar e transcender a solidão através da partilha de vida e de crenças.


Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 28 de julho de 2016

ANO C – DÉCIMO-OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM –31.07.2016

É preciso revestir-se do homem novo, buscar o Reino de deus!

Qual é a intenção do anônimo personagem do evangelho deste domingo ao chamar Jesus de ‘mestre’? Depois da discussão sobre a autoridade de Jesus para expulsar demônios, da advertência sobre a busca obsessiva de sinais grandiosos e da crítica dura aos fariseus e doutores da lei, “alguém do meio da multidão” pede a Jesus, sem esconder o habito de dar ordens: “Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo.”  Este sujeito sem nome faria parte do grupo dos fariseus e doutores da lei? Não parece ser um dos discípulos que o seguem no caminho a Jerusalém...
De fato, no evangelho de Lucas são sempre pessoas estranhas a Jesus ou adversários declarados que costumam chamá-lo ironicamente ‘mestre’: o fariseu que criticou Jesus por deixar-se beijar pela mulher pecadora (7,40); os familiares de Jairo, cuja filha estava doente (8,49); o pai de um rapaz possuído pelo demônio (9,38); o doutor da lei, criticado por Jesus (11,45); um homem da elite judaica (18,18); os fariseus (19,39);  os espiões que querem denunciá-lo (20,21); os saduceus (29,28); os escribas (20,39). Estes exemplos deixam claro quem são, em Lucas, os que chamam Jesus de Mestre...
Parece que, chamando Jesus de mestre, este sujeito sem nome próprio não está expressando sua concordância nem sua adesão a ele. E Jesus percebe claramente a ironia da saudação e as contradições do demandante, tanto que sua resposta dá a entender que, se não for aceito como mestre, também não pode ser buscado como juiz. No fundo, Jesus percebe que aquele sujeito está longe de ser necessitada ou candidata a discípula. Jesus percebe que se trata de uma pessoa que corre o risco de ser devorada pela ganância. Mas essa situação concreta abre a Jesus a oportunidade para falar sobre a relação com os bens.
“Atenção! Guardai-vos contra todo tipo de ganância, pois mesmo que se tenha muitas coisas, a vida não consiste na abundância de bens.” Esta é a reação de Jesus ao perceber que, por trás da demanda, não está uma necessidade, nem um princípio de justiça, mas a fome insaciável de bens. E, para sublinhar a seriedade da sua exortação, Jesus propõe uma parábola na qual o protagonista é uma pessoa radicalmente voltada a si mesma, extremamente ambiciosa, que fala e decide sempre sozinha e não se interessa por mais ninguém. A linguagem é clara: meus celeiros, meu trigo, meus bens.
No final de uma safra bem-sucedida, o personagem da parábola diz a si mesmo: “Meu caro, tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe e goza da vida.” Como não lembrar aqui a parábola do rico que festejava indiferente à miséria de Lázaro que jaz à sua porta (Lc 16,19-31)? Para Jesus, as que pessoas que agem assim são tolas, desprovidas de qualquer resquício de razão, vazias de qualquer valor humano. São pessoas que, com suas decisões, cavam abismos que os separam dos simples humanos. E acabam cavando também a própria ruína, pois são tão pobres que só tem dinheiro...
Mas, se o acúmulo indiscriminado de bens é tolice e pobreza humana, o que significa ‘ser rico diante de Deus’? Está claro que, para Jesus, o problema não está nos bens em si mesmos. O mal dos bens está no obstáculo que eles podem representar para a liberdade radical e para o engajamento no movimento do Reino de Deus. O Reino de Deus é a pérola preciosa e o tesouro que vale mais que tudo, o terreno no qual brota o trigo que vai para a mesa dos pobres, o ventre no qual é gerada uma nova humanidade. Aos ricos, o que falta não são armazéns novos ou polpudas contas bancarias, mas adesão ao Reino, um coração maior, uma visão mais solidaria, um estilo de vida menos vazio e menos vaidoso.
Paulo nos pede que, tendo sido ressuscitados com Cristo pelo batismo, aspiremos às coisas celestes, esforcemo-nos para alcançar as coisas do alto, onde está escondido o segredo da nossa vida, em Deus. É um outro modo de dizer que o segredo do bem viver está na abertura e na dedicação ao Reino de Deus: nas relações fraternas e igualitárias; na partilha gratuita e generosa; na compaixão que humaniza e liberta; na mutua confiança que a tudo renova e sustenta... O homem novo, renascido em Cristo, é a pessoa que não reconhece hierarquias ou privilégios de qualquer espécie.
Jesus de Nazaré, mestre na escola do serviço e guia na busca do bem-viver e conviver: aos olhos do teu e nosso Pai, mil anos podem representar menos que o dia de ontem, o aparente vigor da nossa vida pode ser enganoso, e nós podemos desaparecer nesta mesma tarde. Já aprendemos amargamente que um projeto de vida fundamentado no acúmulo sem limites não tem fundamento, é uma bolsa roída pelas traças. Ajuda-nos a manter e aprofundar nossa adesão ao teu caminho, ao teu estilo de vida, aos teus valores. Ensina-nos a contar bem os nossos dias, a colocar os bens econômicos no seu devido lugar. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Eclesiastico 2,21-23 * Salmo 89 (90) * Carta aos Colossenses 3,1-5.9-11 * Evangelho de Lucas 12,13-21)

O Evangelho dominical - 31.07.2016

DESMASCARAR A INSENSATEZ

O protagonista da pequena parábola do «rico insensato» é um proprietário de terras, como aqueles que Jesus conheceu na Galileia. Homens poderosos que exploravam sem piedade os camponeses, pensando só em aumentar o seu bem-estar. As pessoas temiam-nos e invejavam-nos: sem dúvida eram os mais afortunados. Para Jesus, são os mais insensatos.
Surpreendido por uma colheita que ultrapassa as suas expectativas, o rico proprietário vê-se obrigado a refletir: «Que farei?». Fala consigo mesmo. No seu horizonte não aparece ninguém mais. Não parece ter esposa, filhos, amigos nem vizinhos. Não pensa nos camponeses que trabalham as suas terras. Só o preocupa o seu bem-estar e a sua riqueza: a minha colheita, os meus celeiros, os meus bens, a minha vida…
O rico não se dá conta de que vive encerrado em si mesmo, prisioneiro de uma lógica que o desumaniza esvaziando-o de toda a dignidade. Só vive para acumular, armazenar e aumentar o seu bem-estar material: «Construirei celeiros maiores, e armazenarei ali todo o grão e o resto da minha colheita. E então direi a mim mesmo: Homem, tens bens acumulados para muitos anos; deita-te, come e dá-te boa vida».
De repente, de forma inesperada, Jesus faz intervir ao mesmo Deus. O seu grito interrompe os sonhos e ilusões do rico: «Louco, esta noite vão exigir-te a vida. O que acumulas-te, de quem será?» Esta é a sentença de Deus: a vida deste rico é um fracasso e uma insensatez.
Aumenta os seus celeiros, mas não sabe ampliar o horizonte da sua vida. Acrescenta a sua riqueza, mas despreza e empobrece a sua vida. Acumula bens, mas não conhece a amizade, o amor generoso, a alegria nem a solidariedade. Não sabe dar nem partilhar, só comprar. Que há de humano nesta vida?
A crise econômica que estamos a sofrer é uma «crise de ambição»: os países ricos, os grandes bancos, os poderosos da terra… temos querido viver acima das nossas possibilidades, sonhando com acumular bem-estar sem limite algum e esquecendo cada vez mais os que se afundam na pobreza e na fome. Mas, de repente a nossa segurança veio-se abaixo.
Esta crise não é uma crise mais. É um «sinal dos tempos» que temos de ler à luz do evangelho. Não é difícil escutar a voz de Deus no fundo das nossas consciências: «Basta de tanta insensatez e tanta falta de solidariedade cruel». Nunca superaremos as nossas crises econômicas se não lutarmos por uma mudança profunda do nosso estilo de vida: temos de viver de forma mais austera; temos de partilhar mais o nosso bem-estar.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

Curso de Missiologia (20)

Caminhos da missão através da espiritualidade integradora

Na parte da tarde desta quarta-feira, o Pe. Godoy deu mais uma contribuição ao aperfeiçoamento da nossa ação missionaria, com o tema da missão na perspectiva da justiça, da paz e da integridade da criação. Ele preferiu entrar no tema pela porta da espiritualidade, considerando que esta é uma importante.
Segundo o Pe. Godoy, a espiritualidade integradora na perspectiva do cuidado do planeta oferece um ponto de unificação sem suprimir as diferenças; mantem uma tensão que provoca conflito e faz crescer, inquieta; responde a um chamado de Deus, de seu amor compassivo e misericordioso; e oferece um foco e uma urgência bastante abrangentes para o agir missionário hoje.
Raymond Pannikar diz que a experiência de Deus é o ponto de partida e a base de toda experiência, uma experiência em profundidade de todas e cada uma das experiências humanas (do amigo, da palavra, da conversa...), subjaz a toda experiência humana (dor, beleza, prazer, bondade, angustia) e, por isso, abre-nos à dimensão do infinito. Estes seriam os pontos mais marcantes dessa espiritualidade compreendida como uma forma de seguir Jesus e colaborar com sua missão hoje.
Uma espiritualidade de escuta do clamor de Deus nos excluídos e na mãe terra. Trata-se de uma espiritualidade encarnada no mundo, na humanidade, na história. Os crucificados e ameaçados estão próximos de nós, ao nosso lado, no nosso caminho. A mística crista é uma mística dos olhos abertos, que se comove com a dor da humanidade e a destruição da natureza, a partir dos excluídos e das vítimas.  Leonardo Boff diz Igreja pode ser perseguida pelos grandes do mundo, mas não pode ser abandonada e amaldiçoada pelos pobres. E, se por trás da nossa ética não há uma mística, uma nova espiritualidade, um novo acordo da pessoa humana com os demais seres humanos, é grande o risco de que esta ética degenere em legalismo e moralismo e não de realização da existência em relação terna e reverente com os demais seres.

Uma espiritualidade transformadora: Jesus nos chama à conversão pessoal, a viver os valores do Reino, a renunciar à violência e adotar a mansidão, a promover a justiça e a misericórdia e cuidar da terra mediante ações cotidianas e sustentáveis. Trata-se de uma conversão e transformação simultânea em várias esferas inter-relacionadas: esfera da pessoa, esfera relações comunitárias, esfera da sociedade. Trata-se de uma transformação subjetiva, comunitária e estrutural.
Uma espiritualidade profética: Conforme Jeremias, o profeta é aquele que se deixa tocar por Deus, descobre-se chamado a desconstruir esquemas e estruturas injustas e edificar com esperança. É uma pessoa que confia radicalmente no Deus da vida e identifica-se intimamente com a Boa Notícia de Deus aos pobres, aos oprimidos, aos marginalizados. Sua paixão por Deus se faz viva na compaixão pelos filhos e filhas de Deus.
Uma espiritualidade que se alimenta na oração: Não há dúvida de que, sem mística, a oração pode ser apenas forma e exterioridade. Mas a mística não sobrevive sem oração, sem tempos, lugares e práticas que a interioriza, materializa e historiciza. No exercício pratico da oração, a escuta e a meditação da Palavra de Deus ocupa o primeiro lugar, mas é seguida de perto pela Eucaristia e por outras formas de celebrar.
Uma espiritualidade hospitaleira e misericordiosa: Num mundo fragmentado, marcado pelo crescente isolamento e individualismo, para não falar da indiferença e das relações frias e utilitaristas (problemas que rondam também nossas comunidades eclesiais e o povo nas fronteiras missionarias), o desenvolvimento da hospitalidade e da compaixão como atitudes profundas e estruturais da pessoa e das comunidades é uma tarefa tão urgente quanto excelente.
Uma espiritualidade simbólica e corporal: É insuficiente e limitada uma espiritualidade que se contenta com textos e doutrinas, orientações e prescrições morais, regras e leis que pretendem reger pensamentos e sentimentos. Oramos com o corpo, a música, os gestos, os símbolos. Vivemos a luta e a festa, a luta com a gratuidade e o louvor, alegria e engajamento, e a espiritualidade deve privilegiar estas expressões.
Espiritualidade intercultural e diversa: Estamos conscientes de que nossa cultura e nossa espiritualidade recebe contribuição dos povos indígenas, dos afrodescendentes, dos camponeses, do mundo urbano, dos movimentos ecológicos e populares, das mulheres e das juventudes, das outras religiões. É nesta mistura original que a espiritualidade deve lançar suas raízes e buscar suas expressões e recursos, cultivando com cuidado a abertura intercultural e à diversidade.
Espiritualidade relacional, holística e cosmoteandrica a partir de Deus: A auto transcendência humana, que rompe com a consciência individual isolada e auto referencial, é a abertura que possibilita o cuidado com os outros e o meio ambiente. De acordo com Panikkar, a realidade é tridimensional: tudo tem uma dimensão de infinito e de liberdade (dimensão divina), de subjetividade e consciência (dimensão humana), de corporalidade ou materialidade (dimensão cósmica). Em sua pluralidade e complexidade, a realidade é policêntrica.
Temos várias expressões da ecologia: ecologia ambiental (comunidade de vida); ecologia política e social (modo de vida sustentável); ecologia mental (novas mentes e novos corações); ecologia cultural (patrimônio ameaçado, inclusive as culturas locais); ecologia da vida cotidiana (espaços da existência humana, rural e urbano); ecologia integral (pertencemos ao universo). A ecologia integral é aquela que inclui claramente as dimensões humanas e sociais. “O todo sem a parte não é o todo. A parte sem o todo não é parte. Mas se a parte o faz todo sendo parte, não se diga que é parte sendo o todo” (Gregório de Matos).
A espiritualidade integradora se desenvolve em quatro passos inter-relacionados, não necessariamente nesta ordem: a) Experiência de Deus no encontro com Jesus nas situações concretas da história; b) Experiência do outro na formação de comunidades que partilham sua fé; c) Aprofundamento da fé para a defesa da justiça, da paz e de toda a criação; d) Experiência da missão como transmissão da fé vivenciada.
O Pe. Godoy terminou sua contribuição com uma frase que poderia ser chamada de “legado ecológico do Papa Francisco”: “Não deixemos que, à nossa passagem, fiquem sinais de destruição e de morte que afetem a nossa vida e a das gerações futuras” (Evangelii Gaudium 215).

Itacir Brassiani msf

Curso de Missiologia (19)

Nossa tarefa: contribuir com a ação missionária da Igreja.

Depois de um breve resgate de alguns textos fundacionais e de uma breve memoria da concretização do carisma na história, na minha contribuição de hoje ao Curso de Aperfeiçoamento da Ação Missionaria refleti sobre as mudanças sugeridas e exigidas pelo Concilio Vaticano II e consignadas em nossas Constituições. Finalmente, tendo isso como horizonte, propus a operacionalização do nosso carisma missionário hoje em cinco linhas ou eixos articuladores.

1.   Participar da atividade missionária da Igreja
A atividade missionária da Igreja compreende o que se chama de missão ad gentes, nos seus diversos âmbitos (territorial, social e cultural). Trata-se do conjunto de iniciativas que vai desde o primeiro anúncio e o testemunho profético e transformador até a apresentação de caminhos concretos para a vivência da justiça e da paz.
São iniciativas e atividades que têm caráter de fronteira, e exigem grande dose de abertura e criatividade. Lendo os sinais dos tempos e sintonizando com a Igreja de hoje precisamos, de tempos em tempos, individuar os campos prioritários desta missão, tanto nas antigas como nas novas Igrejas. E devemos fazê-lo no interior da Igreja e como corresponsáveis pela Igreja.

2.   Contribuir no fortalecimento das Igrejas locais
Priorizando as regiões e situações nas quais a Igreja ainda não alcançou vitalidade ou a perdeu, podemos assumir paróquias e pastorais específicas, com o objetivo de contribuir para o amadurecimento da Igreja local. E é muito importante não priorizar os interesses da Congregação em detrimento das reais necessidades e urgências da Igreja local.
Mas, como a maturidade eclesial não se expressa prioritariamente na consolidação das estruturas físicas e jurídicas, o foco do trabalho deve ser a dinamização da vida comunitária, a formação e promoção dos diversos ministérios leigos, o estímulo às diversas vocações, o compromisso com a paz e a justiça e a solidariedade com os pobres.

3.   Animar o espírito missionário nas Igrejas particulares
A inserção nas Igrejas com fraca vitalidade é um critério importante, mas não exclusivo, da nossa missão. À medida em que o protagonismo missionário está se deslocando dos institutos especificamente missionários para as Igrejas particulares, qualquer Igreja local pode ser lugar de missão. Mas nossa inserção nessas Igrejas deve ser bem definida. Não podemos simplesmente confundirmo-nos com o clero diocesano e paroquializar nosso apostolado.
Cabe-nos despertar, promover e manter a missionariedade da Igreja local através de iniciativas diversas como: organização de centros de animação missionária; criação de organismos de animação missionária nas comunidades paroquiais; participação nos organismos missionários diocesanos e regionais; comunicação e campanhas missionárias; criação de comunidades missionárias interculturais; etc.

4.   Despertar, acolher e formar vocações missionárias
O empenho pessoal do Padre Berthier na acolhida e formação de vocações missionárias deve continuar e se expressar criativamente no contexto eclesial e social no qual vivemos. Não esqueçamos que o filão priorizado pelo Fundador era o das vocações missionárias que corriam o risco de se perderem. Ele não cansava de repetir que não fundara um instituto para competir com os demais, mas para suprir uma lacuna!
Hoje, essa dedicação à formação de vocações missionárias pode se desdobrar em iniciativas como: oferecimento de um percurso formativo essencialmente missionário aos nossos formandos; criação de caminhos concretos para despertar, formar e enviar missionários leigos; formação de comunidades eclesiais comprometidas com o anúncio, o testemunho e a realização do Reino de Deus no seu espaço e além-fronteiras; preparação de leigos e leigas para o trabalho pela paz, pela justiça e pelos direitos humanos; organização e manutenção de centros de animação e formação missionária; oferecimento de possibilidades de participação em experiências missionárias aos jovens; etc.

5.   Organizar e animar a pastoral das famílias
Considerando a Pastoral das famílias como uma ênfase sugerida pelo testemunho do próprio Fundador, subordinamos esta atividade ao anúncio, testemunho e construção do Reino de Deus. Junto com o objetivo de levar o apoio da fé e da Igreja às famílias concretas, nossa Pastoral das famílias precisa ter características missionárias, ou seja: fazer das famílias sementeiras de vocações missionárias; criar condições para que as famílias se tornem células vivas de uma Igreja comunitária e libertadora, autênticas igrejas domésticas; promover seu engajamento nas causas da justiça, da paz e da integridade da criação.
Percorrendo cada um destes caminhos ou o seu conjunto estaremos dando efetividade ao nosso carisma hoje. Mas me parece importante acrescentar que, como congregação e como unidades provinciais, precisamos garantir sempre e em tudo o caráter comunitário da nossa vida e missão. A comunidade religiosa entra no discernimento e no planejamento, nas atividades concretas e na avaliação das prioridades e atividades, mas também oferece o ambiente familiar e a base fraterna tão necessários para a perseverança e crescimento dos missionários.

Itacir Brassiani msf

Curso de Missiologia (18)

A nova visão de Igreja e de Missão do Concilio Vaticano II
Na manhã de hoje, fui chamado a dar minha contribuição pessoal no Curso de Aperfeiçoamento da Ação Missionaria que estamos desenvolvendo em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia.  Foi-me solicitado que desenvolvesse o tema do Carisma missionário dos Missionários da Sagrada Família. Inicialmente, resgatei alguns textos referenciais para a compreensão da intenção do Fundador e apresentei como este Carisma foi se desenvolvendo na história da Congregação. Em seguida, propus-me a demonstrar como este Carisma foi relido à luz do Vaticano II.

Estou convencido de que ponto de partida para uma boa reflexão sobre o lugar que o nosso Carisma ocupa na vida da Igreja é a consciência de que o Concílio Vaticano II, apresentando uma nova visão do mundo e da Igreja, modificou radicalmente o sentido do conceito de missão. Mesmo sem apresentar muitas referências explícitas, nossa Constituição supõe a visão de Igreja e de missão do Vaticano II.
A partir do Vaticano II a Igreja se reconhece inserida no mundo e profundamente solidária com tudo o que é humano. Acreditando que o Espírito de Deus dirige a história e fomenta a sede de paz, justiça e solidariedade dos indivíduos e povos (cf. GS 26), a Igreja deseja compartilhar as alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos homens e mulheres, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem (cf. GS 1).  Assim, a Igreja reconhece e afirma a necessidade de conhecer e compreender o mundo em que vivemos, sua índole muitas vezes dramática, suas expectativas e seus desejos (cf. GS 4).
O Concílio Vaticano II desenvolve novos aspectos da doutrina sobre Igreja, e o primeiro desses aspectos é a noção de Igreja como povo messiânico de Deus, inserido e peregrino no mundo, convocado a anunciar e promover o reino de de Deus sendo dele sinal e gérmen e constituindo-se sacramento de unidade do inteiro gênero humano (cf. LG 1, 5, 9). Esse povo tem Cristo como cabeça, a liberdade como condição, o amor como lei e o Reino de Deus iniciado já na terra como objetivo. Mesmo aparecendo às vezes como pequeno, fraco e insignificante, esse povo é princípio eficaz de unidade, esperança e salvação para todo o gênero humano, pois Cristo o assumiu como seu instrumento, o estabeleceu como luz do mundo e sal da terra e enviando a todo o universo (cf. LG 9).
Um segundo elemento da eclesiologia conciliar é o conceito de Igreja local. “São Igreja de Cristo todas as comunidades legítimas de fiéis, espalhadas por toda a parte, em torno de seus respectivos pastores. Lá onde estão, são, em plenitude, o novo povo chamado por Deus, no Espírito Santo. Cristo está presente em todas essas comunidades, por pequenas e pobres que sejam, mesmo quando vivem no isolamento, pois a participação no corpo e no sangue de Cristo nos transforma naquilo que tomamos” (LG 26). Com as Igrejas locais e por meio delas se forma a única Igreja Católica.
Assim, a missão da Igreja é situada de modo novo no âmbito da Igreja local e tem nela seu sujeito fundamental. No Decreto Ad Gentes, o capítulo dedicado ao papel missionário das Igrejas precede o capítulo dedicado aos institutos e obras missionárias. É através do empenho de cada Igreja particular que que a natureza missionária da Igreja se realiza. Isso significa que as Igrejas jovens também podem e devem ser missionárias.
“Para despertar o zelo missionário é conveniente que as novas Igrejas se disponham quanto antes a participar da ação missionária da Igreja universal, enviando também elas missionários que anunciem o Evangelho em todo o mundo, apesar da penúria do clero. A plena comunhão com a Igreja universal requer que as Igrejas particulares participem ativamente da missão da Igreja junto aos povos” (AG 20).

Por fim, na perspectiva aberta pelo Vaticano II, a missão compete a todo o povo de Deus, e, no interior dele, os leigos e leigas adquirem um valor cada vez maior (cf. AG 21).  “O apostolado dos leigos é participação na missão salvadora da Igreja. Todos estão qualificados pelo Senhor ao exercício desse apostolado, através do batismo e da confirmação. Os leigos são especialmente chamados a tornar a Igreja presente e ativa nos lugares e nas circunstâncias onde somente por eles pode atuar o sal da terra” (LG 33). Como o mandato missionário de Jesus não exclui os leigos, estes têm o direito e o dever de se empenharem de forma individual ou associada para que o anúncio da salvação seja conhecido e acolhido, especialmente naquelas situações onde as pessoas só poderão ouvir o Evangelho e conhecer Cristo através deles (cf. AA 6).
É preciso lembrar, entretanto, que o papel dos leigos e leigas na missão não se restringe ao importante e indispensável engajamento nas obras de formação e desenvolvimento humano. Eles são convidados a colaborar nas atividades paroquiais e diocesanas, especialmente na catequese, assim como a participar e promover as diversas formas de apostolado leigo (cf. AG, 41).  João Paulo II pede que, na atividade missionária, sejam valorizadas, aproveitadas e respeitadas as várias expressões, índoles e finalidades do laicato: associações do laicato missionário, organismos cristãos de voluntariado internacional, movimentos eclesiais, grupos e sodalícios de diversos tipos (cf. RMi 72).


Itacir Brassiani msf