quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Preparando o domingo - 04.09.2016

A prioridade e as renúncias para seguir Jesus (Lucas 14,25-33)
O evangelho da liturgia deste final de semana apresenta Jesus colocando as condições fundamentais para quem quer segui-lo no caminho da cruz. Diante da prioridade do seguimento, todo o resto se torna relativo.
Jesus está a caminho de Jerusalém. Virando-se para a multidão que o seguia, ele deixa claro que o caminho do seguimento é exigente e demanda renúncias. É uma opção radical. Nesse sentido, a proposta do discipulado não é para a multidão, a “massa”. A militância por vida plena é uma decisão para pessoas livres de tudo o que escraviza. Jesus diria que as pessoas que optam pelo reino são como o “fermento” que transforma a massa (Lucas 13,21). A decisão pelo reino não é de facilidades. Talvez seja por isso que poucas pessoas decidam seguir pelo caminho proposto por Jesus.

1. Seguir Jesus exige renúncias
1.1 Renunciar a família (Lucas 14,26)
Uma das cláusulas que Jesus estabelece para as pessoas que o querem seguir é desapegar-se dos laços afetivos com a família, da segurança que a família proporciona. A prioridade é o seguimento. A família é secundária. Conforme a comunidade de Lucas, Jesus usa o verbo “odiar” em relação aos familiares (Lucas 14,26). É palavra forte. Aqui, no entanto, odiar quer dizer colocar em segundo plano diante de algo prioritário. Para Jesus, as relações familiares não podem impedir a adesão ao projeto do reino. Este é a prioridade.
É Jesus mesmo quem nos dá o exemplo, ao dar preferência à missão. Quando sua mãe e seus irmãos querem vê-lo, Jesus afirma ter uma família mais importante. É a família de quem, como ele, vive o projeto do Pai. “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam” (cf. Lucas 8,19-21).
1.2 Renunciar os interesses pessoais (Lucas 14,26)
Outra condição exigida por Jesus é colocar os interesses pessoais, a própria vida, em segundo lugar diante da prioridade, que é o projeto do reino e sua justiça.
Nosso mundo estimula o individualismo, os desejos egoístas e o bem-estar individual. Jesus, no entanto, propõe como critério para segui-lo no caminho da cruz a busca do bem-viver coletivo, o serviço na gratuidade, a ajuda solidária na luta por uma sociedade justa. Em outras palavras, decidir pelas relações do reino é imitar o próprio mestre.
1.3 Renunciar os bens (Lucas 14,33)
Seguir Jesus supõe também ser totalmente livre diante dos bens. Exige estar desapegado de tudo, isto é, do orgulho e da competição, das seguranças e das ambições, de todas as formas de riqueza.
Optar pelo reino é colocar os bens a serviço da vida. E Jesus recorda mais de uma forma de como fazer com que os bens nos ajudem a ser “ricos para Deus” (cf. Lucas 12,21). Os bens geram vida quando partilhados (Lucas 12,33-34; 14,15-24; 18,18-23; 19,1-10) ou quando investidos a serviço do reino, isto é, de projetos que têm em vista a igualdade, tal como fizeram as mulheres que o seguiam desde a Galileia (Lucas 8,1-3).
Jesus quer ajudar-nos a não colocar os bens como o mais importante, transformando-os em ídolos que escravizam. “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Lucas 16,13). E servir a Deus, à vida, é ser verdadeiramente livre.

2. Seguir Jesus requer novas atitudes
2.1 Tomar a cruz e seguir (Lucas 14,27)
Seguir as relações do reino e da sua justiça é estar disposto a carregar a cruz. É tomar decisões que requerem desapego e geram conflitos que levam ao desprendimento, a sofrimentos. É uma opção de vida que supõe riscos e exige renúncias. Que renúncias?
Aqui, podemos lembrar as recusas do próprio Jesus. Primeiro, deixou sua família em Nazaré, priorizando a missão conferida pelo Espírito do Senhor no anúncio de uma boa notícia para os pobres (Lucas 4,16-31). Para priorizar o projeto do Pai, Jesus renunciou aos valores oferecidos por este mundo injusto, simbolizado pela figura do diabo. Diante dele, o nazareno rejeitou as riquezas, recusou o poder real e não aceitou a oferta de prestígio (Lucas 4,1-13). 
Isso significa que, para seguir Jesus na radicalidade, é necessário ser uma pessoa livre, que não se deixa escravizar pela propaganda consumista e pela oferta de bens, poder e fama como sentido de vida.
2.2 Ser prudente e realista (Lucas 14,28-32) 
Seguir o projeto do reino requer novas atitudes, exige que sejamos pessoas recriadas. Então, Jesus conta duas parábolas que ilustram o desafio para quem opta em segui-lo no caminho.
Na primeira (Lucas 14,28-30), ele mostra que o seguimento não é fruto de uma opção que se faz de uma hora para outra, mas é resultado de decisões bem pensadas, amadurecidas. Elas devem estar de acordo com a realidade de cada pessoa que quer assumir o discipulado na radicalidade. Somente assim pode haver fidelidade até o fim, evitando-se falsas ilusões, uma vez que não basta boa vontade. Diferente é uma decisão momentânea. Esta é como fogo de palha que logo se extingue e não persevera. Seguir Jesus é ser como o construtor de uma torre. Ele planeja sua obra e avalia se tem recursos para levar a obra até a sua conclusão.
Na segunda parábola (Lucas 14,31-32), Jesus apresenta o exemplo de um rei prudente ao se defender de outro rei que vem batalhar contra ele. A prudência leva a avaliar as condições que se tem para assumir a missão. É necessário ter sabedoria e humildade para assumi-la com coerência. É preciso também coragem e firmeza para suportar as consequências, as cruzes que resultam da opção pela justiça do reino. As parábolas insistem na clareza ao se fazer a opção em seguir Jesus na missão de viver as relações do reino.
E nós hoje?
Certamente, as exigências de Jesus nos questionam quando nossa ação evangelizadora está voltada mais para as “massas” e não tanto para o “fermento”, isto é, o engajamento radical em favor da democracia, da justiça e da partilha, da gratuidade e da superação de preconceitos.
É evidente que Jesus não recusa ninguém. Ele mesmo acolheu com ternura um homem muito rico. Porém, não deixou de lhe mostrar que o caminho da felicidade passa pela partilha (Lucas 18,18-23). Também foi comer na casa de um ladrão confesso. Mas deixou claro que ele se tornaria discípulo do reino na medida em que devolvesse o que roubara e partilhasse outro tanto com os pobres (Lucas 19,1-10). 
Com a narrativa da liturgia deste final de semana, a comunidade de Lucas quer encorajar as pessoas que, ainda hoje, decidem assumir fielmente o seguimento da proposta de Jesus. Quer animá-las a se manterem firmes diante das calúnias e das difamações, das perseguições por causa da justiça ou até da própria morte que vierem a sofrer por parte de indivíduos e instituições que servem às riquezas deste mundo.
Este evangelho nos convida a perseverarmos na fidelidade ao projeto do reino, custe o que custar, mesmo que a luta em favor da inclusão de mulheres, pessoas negras e pobres gere o ódio da Casa Grande contra nós. Importa que a vontade do Pai se torne realidade em nossas vidas (cf. Lucas 22,42). E isso será possível na medida em que abrirmos nossos corações ao mesmo Espírito que animou a missão de Jesus de Nazaré na intimidade com o Pai (Lucas 4,18).
Qual é a nossa atitude diante dessas condições exigentes que Jesus nos coloca? É de acolhida ou de indiferença? É de adesão ou de repulsa?
Ildo Bohn Gass

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O Evangelho dominical - 28.08.2016

SEM ESPERAR NADA EM TROCA

Jesus está a comer convidado por um dos principais fariseus da região. Lucas indica-nos que os fariseus não deixam de espiá-Lo. Jesus, no entanto, sente-se livre para criticar os convidados que procuram os primeiros lugares e, inclusive, para sugerir ao que o convidou a quem há de colocar à frente.
É esta a interpelação ao anfitrião que nos deixa desconcertados. Com palavras claras e simples, Jesus indica-lhes como hão de atuar: «Não convides os teus amigos nem os teus irmãos nem os teus parentes nem aos vizinhos ricos». Mas, há algo mais legítimo e natural que estreitar laços com as pessoas que nos querem bem? Não fez Jesus o mesmo com Lázaro, Marta e Maria, seus amigos de Betânia?
Ao mesmo tempo, Jesus assinala em quem se há de pensar: «Convida os pobres, aleijados, coxos e cegos». Os pobres não têm meios para corresponder ao convite. Dos aleijados, coxos e cegos, nada se pode esperar. Por isso, ninguém os convida. Não é isto algo normal e inevitável?
Jesus não rejeita o amor familiar nem as relações amistosas. O que não aceita é que elas sejam sempre as relações prioritárias, privilegiadas e exclusivas. Aos que entram na dinâmica do reino de Deus procurando um mundo mais humano e fraterno, Jesus recorda-lhes que o acolhimento aos pobres e desamparados há de ser anterior às relações de interesse e aos convencionalismos sociais.
É possível viver de forma desinteressada? Pode-se amar sem esperar nada em troca? Estamos tão afastados do Espírito de Jesus que, por vezes, até a amizade e o amor familiar estão mediatizados pelo interesse. Não temos de nos enganar. O caminho da gratidão é quase sempre duro e difícil. É necessário aprender coisas como estas: dar sem esperar muito, perdoar sem exigir, ser mais paciente com as pessoas pouco agradáveis, ajudar pensando apenas no bem do outro.
Sempre é possível reduzir um pouco os nossos interesses, renunciar de vez em quando a pequenas vantagens, colocar alegria na vida do que vive necessitado, oferecer um pouco do nosso tempo sem reserva-lo sempre para nós, colaborar em pequenos serviços gratuitos.
Jesus atreve-se a dizer ao fariseu que o convidou: «Ditoso tu se não te podem pagar». Esta bem-aventurança ficou tão esquecida que muitos cristãos nunca ouviram falar dela. No entanto, contém uma mensagem muito querida para Jesus: «Ditosos os que vivem para o próximo sem receber recompensa. O Pai do céu os recompensará».
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

ANO C – VIGÉSIMO-SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 28.08.2016

A quem reservaremos os primeiros lugares em nossa Igreja?

Jesus não desperdiça nenhuma ocasião para ensinar aqueles que o seguem. Ele propõe uma inversão radical na escala dos valores da sociedade e da religião, e não se cala nem mesmo na casa de uma autoridade moral, em pleno jantar festivo para o qual havia sido convidado com especial deferência. Jesus apresenta a lição do evangelho de hoje num solene dia de sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus, logo depois de afirmar que as necessidades de uma pessoa estão acima das leis. Vendo que os convidados disputam os primeiros lugares, propõe uma reflexão sobre o orgulho e a humildade.
Como modelo de evangelizador, Jesus não se permite ficar na periferia das coisas. Seu ensino hoje não é sobre as regras de boas maneiras numa refeição solene, mas sobre um princípio fundamental da vida cristã: quem é o maior ou o primeiro, o mais importante ou notável na vida cristã. Jesus começa pela crítica ao orgulho e aos privilégios e passa à questão dos beneficiários da nossa atenção. Ele conhece o costume quase universal de privilegiar, tanto nas festas quanto nas decisões e projetos mais essenciais, os familiares, parentes, amigos e vizinhos. Para Jesus, este é um círculo muito estreito.
Inicialmente, Jesus fala aos hóspedes que estão com ele à mesa, afirmando que “todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”. Depois, dirige-se ao próprio anfitrião que o acolhe festivamente, questionando sua expectativa de retribuição. E deixa muito claro que orgulho e a busca de retribuição não são posturas enraizadas no Evangelho. O cristão deve rejeitar a busca de honras e vaidades e buscar decididamente o lugar reservado aos servidores. Da mesma forma a Igreja: ela precisa superar a velha pratica de servir, apoiar e defender as pessoas e instituições que podem retribui-la.
Prosseguindo, Jesus propõe a inversão dos grupos de pessoas que costumam aparecer no topo das nossas listas de honoráveis, presenças infalíveis nas listas de convidados das festas e solenidades: os pobres, aleijados, coxos e cegos devem ser os primeiros. É claro que aqui ele não quer estragar nossa festa, mas questionar a estreiteza das fronteiras que traçamos entre os ‘nossos’ e os ‘outros’. Jesus coloca em questão a busca de compensações que rege nossas pequenas e grandes ações. A verdadeira felicidade consiste em dar generosamente, sem cobrar dividendos, na terra ou no céu.
O saudoso Dom Helder Câmara ensinou que o maior perigo que nos ameaça é o desejo de sempre vencer e jamais fracassar, de sentir-se sempre querido e nunca sobrar. E chegou a advertir um colega no episcopado: “Mais grave do que ser apanhado pela engrenagem do dinheiro, é ser apanhado pela engrenagem do prestígio”. Na verdade, a busca privilégios e compensações é tão desgastante como infantilizadora: o caminho que dá acesso a eles geralmente passa pela subserviência e é acompanhado pelo medo do anonimato e pelo apego doentio aos bens e a toda sorte de títulos...
A recompensa para quem segue o caminho de Jesus é prometida para ressurreição dos justos. Em outras palavras: a felicidade que ninguém pode roubar é aquela que conquistamos – ou recebemos de graça! – entrando pela estreita porta da humildade, da generosidade e da solidariedade. É a alegria profunda que experimentamos quando ouvimos da boca dos porta-vozes da vida o convite: “Amigo, vem para um lugar melhor!” Enquanto caminhamos nesta direção, não há honra e alegria maiores que servir, compartilhar sonhos e lutas com aqueles que normalmente são ejetados para os últimos lugares.
Na carta aos Hebreus, a santa Palavra sublinha que, em Jesus e na comunidade daqueles que o seguem, torna-se visível a assembleia dos primogênitos, o verdadeiro povo de Deus, constituído de homens e mulheres que descobriram a grande honra de amar e servir. Esta é a verdadeira cidade de Deus, a manifestação e a morada de Deus no mundo. Fogo, tempestade, trevas, sons de trovões e trombetas são nada diante do sinal grandioso de homens e mulheres mansos e corajosos, humildes e generosos, ternos e fortes, humanos e compassivos. A estes Deus se revela, e no louvor dos seus lábios se alegra.
Jesus de Nazaré, servidor humilde, com tolha na cintura e jarra na mão:  queremos seguir teu caminho, acolher tua palavra forte e iluminadora e participar da tua ação libertadora. Tu nos pedes que, na mesa da história e nas mesas da Igreja, reservemos os primeiros lugares aos que são vistos e tratados como últimos. Ajuda-nos a assimilar coerentemente este mandamento para então escutarmos teu convite: “Vem para um lugar melhor!” Concede aos catequistas e a todas as lideranças leigas da nossa Igreja essa impagável alegria. Que todos nós – ministros ordenados, religiosos e religiosas, leigos e leigas – testemunhemos ao mundo a alegria do Evangelho e a santidade da compaixão. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Eclesiastico 3,19-21.30-31 * Salmo 67 (68) * Carta aos Hebreus 12,18-24 * Evangelho de S. Lucas 14,1.7-14)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Preparando o domingo - 28.08.2016

Convidar para espiar... (Lucas 14,1.7-14)


Parece que os convites que Jesus recebe para tomar refeição sempre têm uma intenção e que nem sempre é por amizade. Neste texto, a intenção é evidente: querem espiá-lo. 
A intenção de vigiá-lo, talvez seja por sua liberdade frente à lei, questionando profundamente o legalismo farisaico. Assim fora na casa do fariseu Simão (Lucas 7,36ss) e na casa de outro fariseu, quando se sentou à mesa sem antes lavar as mãos (Lucas 11,37ss). Na primeira vez, ele comparou o fariseu com a pecadora, e o fariseu saiu perdendo. Parece que Simão não sabia amar com a mesma intensidade daquela mulher. A outra vez, vendo o olhar espantado do fariseu, provocou uma discussão danada sobre a hipocrisia com que era praticada a lei. Referindo-se a fariseus, Jesus até usou esta expressão: “Sois túmulos disfarçados, sobre os quais se pode transitar, sem o saber!” Será que, ao escutar por cinco vezes “ai de vós”, a comida ainda continuou a descer saborosa por seu esôfago, ou ficou presa na garganta?
Diante disso, pergunto-me: por que o convidavam? Por que o Evangelho de Lucas faz tanta questão de apresentar-nos Jesus aceitando convites para comer?
No Primeiro Testamento, o banquete é sinal de que os tempos messiânicos do Reinado de Deus teriam chegado. Assim escreve o profeta Isaías: “Iahweh dos Exércitos prepara, sobre esta montanha, um banquete para todos os povos...” (Isaías 25,6).
Talvez seja a partir desta memória profética que o Jesus das comunidades lucanas esteja sempre a caminho, entrando nas casas, sentando à mesa para refeições. Assim, estas comunidades guardam-nos seu projeto de discipulado: o Caminho de Jesus é o Caminho da comunidade. A Casa é a comunidade que vai se formando ao longo do caminho. A Mesa torna-se o lugar para apreender e viver a proposta de relações novas com Jesus. 
A mesa nos ensina a superar a ambição pelo primeiro lugar (Lucas 14,7-11)
Antes de continuar minha reflexão, convido você a fazer um exercício. Visualize, em sua memória, os banquetes das comemorações de sua cidade, de sua comunidade, de suas festas, de suas quermesses. A quem é enviado o convite para participar do banquete? Quem senta à mesa? Qual a lógica da organização das mesas? Em qual das mesas há lugares com nome reservado? Quem cozinha? Quem serve à mesa? Quem fica espiando pela janela ou com disfarce em meio aos convidados para o banquete? Você mesmo poderá se fazer outras perguntas...
Agora, continuando nossa reflexão, voltamos à mesa onde Jesus está sentado e o escutamos contar uma parábola: “Quando alguém te convidar não sente no primeiro lugar...” (Lucas 14,8). Parece que Jesus está continuando uma conversa que já havia começado, sentado à outra mesa: “Ai de vós, fariseus, que apreciais o primeiro lugar nas sinagogas e as saudações nas praças públicas ...” (Lucas 11,43).
Jesus nos convida a não buscar lugares de honra, a não entrar no jogo da competição. É que essa atitude revela o desejo de ser mais, de exercer o poder do privilégio sobre outras pessoas. A competição gera divisões, ciúmes, invejas. Ao contrário, faz parte do seu projeto do Reino quem viver como irmã e como irmão, em relações de parceria. 
A mesa nos ensina a gratuidade da solidariedade (Lucas 14,12-14)
E, depois, Jesus se dirige diretamente para quem o convidara: “Ao dares um almoço, não convides teus amigos... Antes, convida os pobres que não têm como te recompensar...” (cf. Lucas 14,12-14).
Esta narrativa de Lucas leva-me a recordar o que escutei num encontro bíblico: fizemos da casa uma igreja; fizemos da mesa um altar; fizemos da partilha um sacrifício; fizemos de Jesus um sacerdote. Ao lembrar-me desta reflexão, vem-me este pensar: a Boa Notícia da inclusão tornou-se má notícia da exclusão.
Mais uma vez, convido você a visualizar cenas de sua vida em que a lei e a tradição, a moral e a teologia geraram exclusão do banquete, impediram de sentar-se à mesa.
“O amor é benigno, o amor não procura os próprios interesses, não se orgulha, não se alegra com a injustiça...” (1Coríntios 13,4-7). O amor é gratuito.
Por que convidar Jesus para uma refeição? Para espiar ou apreender a incluir?
A mesa é o lugar onde é colocada em cheque a nossa fidelidade ao caminho do discipulado. A mesa é o lugar que denuncia as estruturas excludentes da casa-comunidade-igreja. A mesa nos desafia a retomar e a praticar as palavras do Cântico de Maria (Lucas 1,46-55), bem como as palavras que Jesus proclamou na sinagoga de Nazaré (Lucas 4,18-19).
Caminho, Casa, Mesa de Jesus... Ainda hoje, o Caminho, a Casa e a Mesa continuam nos desafiando para fazer acontecer o Banquete do Reino...      
Tea Frigerio 

sábado, 20 de agosto de 2016

Resistência Constitucional ao Golpe

CARTA DE PORTO ALEGRE
AFIRMAR A RESISTÊNCIA CONSTITUCIONAL
Depois de tantos anos de ditadura e autoritarismo superados pelas lutas dos democratas brasileiros das quais se originou a Constituição de 1988, lamentavelmente estamos vendo dia a dia o enfraquecimento dos direitos sociais e das garantias de liberdades.
O impeachment, previsto na Constituição como um remédio para punir governantes que cometem crimes de responsabilidade, foi transformado em instrumento meramente político para golpear um mandato legítimo da Presidenta da República conferido por mais de cinquenta e quatro milhões de votos.
Sem provas do crime de responsabilidade exigido pela Constituição, o parlamento rasga a Constituição e cassa um mandato. E assim fazendo, põe em risco a democracia, duramente conquistada depois de mais de 20 anos de ditadura militar.
Diante disso, reunidos em Porto Alegre neste dia 18 de agosto, os democratas signatários chamam a atenção da nação brasileira para o processo de enfraquecimento, retirada e violação de direitos sociais e fundamentais previstos em leis e na Constituição.
E também denunciam o uso do direito contra o próprio direito. Em nome da Constituição, eliminam aquilo que nela está consagrado. Trata-se da legitimação dos retrocessos através do próprio direito. Por isso, hoje, além das ruas e das arenas políticas, boa parte das lutas contra os diversos golpismos deverão ocorrer nos tribunais e nas salas de audiência.
Por isso nos propomos a manter um fluxo regular de denúncias e relatos do que está acontecendo aos órgãos nacionais e internacionais de Direitos Humanos, além de instar o Judiciário e o Ministério Público a assumirem uma perspectiva propositiva de cumprimento do texto constitucional. Vamos anunciar ao "mundo jurídico" que há um processo de resistência constitucional em marcha e que estamos aqui, vigilantes e lutando. A resistência constitucional exige que todos os operadores do direito se comprometam com a Democracia, com o Estado Democrático de Direito e com os direitos consagrados do povo.
Se a Constituição estabelece que o Brasil é uma República que visa a erradicar a pobreza, fazer justiça social e construir uma sociedade justa e solidária, é preciso saber que esse dispositivo vale e é norma. Com a Constituição como arma é que poderemos enfrentar a parcialidade da mídia, a cumplicidade de amplos setores do Judiciário, do Ministério Público e das polícias para com a repressão, cada vez mais truculenta, aos setores vulneráveis da sociedade. E, sem facciosismos, ter claro que o combate à corrupção não se faz com a transformação da justiça em justiciamento. Como já afirmou uma associação de magistrados, não se combate a corrupção rasgando a Constituição.
Se o povo e os trabalhadores não se envolveram diretamente na discussão do processo de impeachment é porque viram o episódio como uma disputa interna das elites políticas. Mas agora que começa a ofensiva contra os direitos trabalhistas, previdenciários e sociais, o verdadeiro caráter do golpe se desnuda e é o momento de dar concretude ao processo de resistência constitucional. Direitos são cláusulas pétreas. É proibido retroceder.
Resistir significa denunciar que a Constituição está sendo rasgada em nome dela mesma. E gritar que, infelizmente, depois da promulgação da Constituição de 1988 que estabeleceu um conjunto de conquistas sociais, jamais se havia pensado que chegaria o dia em que seria revolucionário defender a legalidade constitucional.
Porto Alegre, 18 de agosto de 2016.

CARREIRAS JURÍDICAS PELA DEMOCRACIA
ADVOGADOS E ADVOGADAS PELA LEGALIDADE DEMOCRÁTICA

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O evangelho dominical - 21.08.2016

NEM TUDO VALE

Jesus vai caminhando para Jerusalém. A Sua marcha não é a de um peregrino que sobe ao templo para cumprir os seus deveres religiosos. Segundo Lucas, Jesus percorre cidades e aldeias «ensinando». Há algo que precisa ser comunicado àquelas pessoas: Deus é um Pai bom que oferece a todos a sua salvação. Todos são convidados a acolher o Seu perdão.
A Sua mensagem surpreende a todos. Os pecadores enchem-se de alegria ao ouvi-Lo falar da bondade insondável de Deus: também eles podem esperar a salvação. Nos setores farisaicos, no entanto, criticam a sua mensagem e também o Seu acolhimento a cobradores, prostitutas e pecadores: não está Jesus a abrir o caminho para um relaxamento religioso e moral inaceitável?
Segundo Lucas, um desconhecido interrompe a sua marcha e pergunta-lhe pelo número dos que se salvarão: serão poucos? Serão muitos? Salvar-se-ão todos? Só os justos? Jesus não responde diretamente à estas preguntas. O importante não é saber quantos se salvarão. O decisivo é viver com atitude lúcida e responsável para acolher a salvação desse Deus Bom. Jesus recorda-o a todos: «Esforçai-vos por entrar pela porta estreita».
Desta forma, corta pela raiz a reação de quem entende a Sua mensagem como um convite ao laxismo. Seria escarnecer do Pai. A salvação não é algo que se recebe de forma irresponsável de um Deus permissivo. Não é tampouco o privilégio de alguns eleitos. Não basta ser filhos de Abraão. Não é suficiente ter conhecido o Messias.
Para acolher a salvação de Deus é necessário esforçar-nos, lutar, imitar o Pai, confiar no Seu perdão. Jesus não reduz as Suas exigências: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso»«Não julgueis e não sereis julgados»«Perdoai setenta vezes sete» como o vosso Pai; «Buscai o reino de Deus e a sua justiça».
Para entender corretamente o convite para «entrar pela porta estreita», temos de recordar as palavras de Jesus que podemos ler no evangelho de João: «Eu sou a porta; se um entrar por mim será salvo» (João 10,9). Entrar pela porta estreita é «seguir Jesus»; aprender a viver como Ele; tomar a sua cruz e confiar no Pai que o ressuscitou.
Neste seguir a Jesus, nem tudo vale, nem tudo é igual; temos de responder ao amor do Pai com fidelidade. O que Jesus pede não é rigor legalista, mas amor radical a Deus e ao irmão. Por isso, a Sua chamada é fonte de exigência, mas não de angústia. Jesus Cristo é uma porta sempre aberta. Ninguém a pode fechar, só nós, se nos fechamos ao Seu perdão.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

Solenidade da Assunçao de Nossa Senhora - 21.08.2016

SEGUIDORA FIEL DE JESUS

Os evangelistas apresentam a Virgem com traços que podem reavivar a nossa devoção a Maria, a Mãe de Jesus. A sua visão ajuda-nos a amá-la, meditá-la, imitá-la, rezá-la e confiar nela com espírito novo e mais evangélico.
Maria é a grande crente. A primeira seguidora de Jesus. A mulher que sabe meditar no seu coração os atos e as palavras do seu Filho. A profetisa que canta a Deus, salvador dos pobres, anunciado por Ele. A mãe fiel que permanece junto ao seu Filho perseguido, condenado e executado na cruz. Testemunha de Cristo ressuscitado, que acolhe junto aos discípulos o Espírito que acompanhará sempre a Igreja de Jesus.
Lucas, por seu lado, convida-nos a fazer nosso o canto de Maria, para nos deixarmos guiar pelo seu espírito até Jesus, pois no «Magnificat» brilha em todo o seu esplendor a fé de Maria e a sua identificação maternal com o seu Filho Jesus.
Maria começa por proclamar a grandeza de Deus: «o meu espírito alegra-se em Deus, meu salvador, porque olhou a humilhação da sua escrava». Maria é feliz porque Deus pôs o seu olhar na sua pequenez. Assim é Deus com os simples. Maria canta-o com o mesmo gozo com que bendiz Jesus ao Pai, porque se oculta a «sábios e a entendidos» e se revela «aos simples». A fé de Maria no Deus dos pequenos faz-nos sintonizar com Jesus.
Maria proclama Deus «Poderoso» porque «a Sua misericórdia chega aos Seus fiéis de geração em geração». Deus coloca o Seu poder ao serviço da compaixão. A Sua misericórdia acompanha todas as gerações. O mesmo prega Jesus: Deus é misericordioso com todos. Por isso diz aos seus discípulos de todos os tempos: «sede misericordiosos como o Vosso Pai é misericordioso». Desde o seu coração de mãe, Maria capta como ninguém a ternura de Deus Pai e Mãe, e nos introduz no núcleo da mensagem de Jesus: Deus é amor compassivo.
Maria proclama também ao Deus dos pobres porque «derruba do trono os poderosos» e os deixa sem poder para oprimir; pelo contrário, «enaltece os humildes» para que recobrem a sua dignidade. Aos ricos reclama-lhes o que foi roubado aos pobres e «despede-os vazios»; pelo contrário, aos famintos «enche-os de coisas boas» para que desfrutem de uma vida mais humana. O mesmo gritava Jesus: «os últimos serão os primeiros». Maria leva-nos a acolher a Boa Nova de Jesus: Deus é dos pobres.
Maria ensina-nos como ninguém a seguir Jesus, anunciando o Deus da compaixão, trabalhando por um mundo mais fraterno e confiando no Pai dos pequenos.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

Preparando o domingo - 21.08.2016

A vida nasce aonde menos se espera... (Lucas 1,39-56)

Para muitas igrejas, a Palavra evangélica proposta para a liturgia do próximo final de semana é a visita de Maria a Isabel (Lucas 1,39-56), que faz parte dos relatos da Infância de Jesus segundo Lucas (Lucas 1-2). Essas narrativas, mais do que dizerem como os fatos aconteceram, indicam para realidades mais profundas que iluminam a caminhada das comunidades a quem se destinam. Em resumo, o primeiro capítulo do Evangelho da Infância mostra como é reconhecida a ação de Deus em meio ao povo excluído, mas cheio de esperança, representado por Zacarias, Isabel e Maria. Dois eram idosos, uma era estéril e a outra ainda não havia tido relações sexuais com homem. Portanto, eram pessoas de quem não se esperava que pudesse nascer vida nova, que pudessem dar à luz uma criança. 
Maria pôs-se a caminho... (Lucas 1,39)
A narrativa pode ser dividida em três momentos. O primeiro descreve a ida de Maria à casa de Isabel e de Zacarias, próxima de Jerusalém (Lucas 1,39-41), uma caminhada de mais de 100 km. De um lado, essa saída de casa faz-nos lembrar de tantas jovens que, como Maria, também deixam seus povoados quando engravidam, a fim de encontrar apoio em familiares que moram distante. De outro lado, quando foi chamada para ser a mãe do Messias, Maria havia se disponibilizado para estar a serviço da Palavra de Deus (Lucas 1,38).
Agora, ela já está a caminho para servir, para ser solidária com outra mulher, também grávida. É a solidariedade entre as mães que reconhecem em seus corpos o agir do Espírito divino, pois ambas receberam a graça da fecundidade de forma misteriosa.
Mas não é somente o encontro de duas mulheres. É também o encontro de duas crianças ainda no útero de suas mães. É o encontro do Precursor com o Salvador. João alegra-se com a visita de Jesus (Lucas 1,41). Ainda no ventre materno, já aponta para seu primo como aquele que vem socorrer o seu povo num momento de forte repressão do império romano.
Feliz aquela que acreditou... (Lucas 1,45)
A segunda parte desta narrativa é a saudação que Isabel faz a Maria (Lucas 1,42-45). Impulsionada pelo Espírito, a mãe de João Batista reconhece Maria como a mãe do Messias. Ao mesmo tempo em que elogia a sua fé (Lucas 1,45), a declara abençoada, bem-aventurada, assim como o fruto do seu ventre (Lucas 1,42). Essa saudação faz lembrar outras mulheres que também foram chamadas de benditas. São os casos de Jael (Juízes 5,24) e de Judite (Judite 13,18), ambas libertadoras de seu povo ameaçado por exércitos poderosos.
Em Lucas 1,56, podemos ler que Maria ficou três meses com Isabel. Mais uma vez, os autores do texto fazem memória das Escrituras de Israel e querem nos apresentar Maria como a nova Arca da Aliança, pois em seu útero carrega o Emanuel, o Deus que está em nosso meio. É que, da mesma forma como Maria ficou os três meses com Isabel, também a antiga Arca da Aliança havia ficado durante três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,2-11; cf. v. 11).
Em outras palavras: os representantes da antiga Aliança, Zacarias (Javé se lembrou) e Isabel (Deus é plenitude), reconhecem a ação de Deus em Maria (a amada) e Jesus (Javé salva), representantes da nova Aliança. João (Javé é misericórdia) anuncia que a misericórdia de Deus na antiga Aliança vem se realizar plenamente em Jesus de Nazaré. Por isso, seus pulos de alegria no ventre de Isabel (Lucas 1,41.44), acolhendo o novo que está por nascer.
E encheu de bens os famintos... (Lucas 1,53)
A terceira parte do relato é a reação de Maria à saudação de Isabel, é o cântico de Maria conhecido como Magnificat (Lucas 1,46-55). Ele está recheado de memórias da história de Israel, especialmente do canto de Ana, a mãe do profeta Samuel (1 Samuel 2,1-10). Entre outros textos, recorda também a profecia de Sofonias em favor dos pobres de Javé, o resto fiel a Deus (cf. Sofonias 2,3; 3,11-13).
Maria é a legítima representante de todos os pobres que têm esperança. Da mesma forma como o profeta Habacuc (Hab 3,18), ela percebe a presença de Deus e se alegra com sua grandeza (Lucas 1,46-47). E o motivo dessa alegria é que, tal como na experiência libertadora do Êxodo (Êxodo 3,7-8), Deus viu a humilhação dos pobres e exerce sua misericórdia para com eles, estando a seu lado para libertá-los (Lucas 1,49-50; Salmo 103,17). 
Qual é a força capaz de promover essa libertação? É a força do braço de Deus, isto é, a força de sua justiça, que consiste e um projeto revolucionário que subverte relações desiguais. Se antes os poderosos humilhavam os pobres a partir de seus tronos, agora os famintos são exaltados e comem pão com fartura (Lucas 1,51-53).
Mais que uma mulher submissa e alienada dos conflitos sociais de seu tempo, Maria é uma mulher de luta pela igualdade e pela superação de todas as injustiças. Ela é subversiva porque subverte as relações de humilhação propondo a acolhida e a igualdade. Não é por acaso que seu filho seguiu os passos dela nesse caminho.
É no engajamento pela superação de todas as formas de opressão que revelamos a misericórdia divina em nossa prática. A justiça de Deus se revela em seu agir na defesa dos fracos e contra todos os sistemas que os oprimem, sejam eles políticos ou econômicos, culturais, jurídicos ou religiosos. Nesse agir libertador se manifesta a aliança fiel e misericordiosa esperada desde as origens do povo hebreu (Lucas 1,54-55; Miqueias 7,20).
O Magnificat celebra a esperança na realização da vontade de Deus que liberta. E mais. Convida a todas as pessoas discípulas de Jesus a nos juntarmos a Maria para colocar-nos a serviço desse projeto de Deus, de modo que também em nós se realize a sua Palavra (cf. Lucas 1,38). A ação divina em Maria foi possível por que ela acreditou (Lucas 1,45), ela deu a sua contribuição, colocando-se a serviço de Deus na solidariedade. Mais adiante, quando uma mulher também declarara Maria feliz, Jesus dirá a ela que “felizes, sobretudo, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (cf. Lucas 11,27-28). E essa bem-aventurança soa forte para nós ainda hoje.
Ildo Bohn Gass

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Rio 2016

Olimpíada: exercícios corporais e espirituais
Dizia o grande mestre espiritual Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, que os exercícios corporais e espirituais contêm em si uma profunda e positiva analogia. Assim podemos ler o que escreve no primeiro parágrafo do livrinho dos Exercícios Espirituais, seguramente o mais importante manual de espiritualidade da história do cristianismo.
“Primeira Anotação. Por este nome, exercícios espirituais, entende-se todo o modo de examinar a consciência, de meditar, de contemplar, de orar vocal e mentalmente, e de outras operações espirituais, conforme adiante se dirá. Porque, assim como passear, caminhar e correr são exercícios corporais, da mesma maneira todo o modo de preparar e dispor a alma, para tirar de si todas as afeições desordenadas e, depois de tiradas, buscar e achar a vontade divina na disposição da sua vida para a salvação da alma, se chamam exercícios espirituais.”
Com esta concepção do ser humano como ser em movimento, ser dinâmico, que só cresce e se realiza no bojo do exercício que o faz movimentar e exercitar o corpo e o espírito, Santo Inácio nos presenteia com uma revolucionária e muito atual visão antropológica. O ser humano não é um corpo de morte decaído e fadado à destruição com uma alma imortal. Não. O ser humano é um corpo animado pelo Espírito divino. E esse conjunto harmonioso e transcendente criado por Deus deve exercitar-se sob pena de esclerosar-se e fracassar nas metas mais importantes de sua vida.
Igualmente, em tempos de Olimpíada, quando os olhos do mundo inteiro se voltam para a Cidade Maravilhosa, o Rio de Janeiro, vemos que o que esta secular competição nos traz não é apenas uma mensagem centrada no desempenho corporal, na eugenia e na estética dos corpos desvinculados de subjetividade e interioridade.
Pelo contrário, ao contemplar a maravilha dos atletas que se prepararam durante meses e anos para enfrentar as provas, podemos ver igualmente atletas do espírito, que renunciaram a muitos prazeres e alegrias, legítimas ou não tanto, para poder dedicar-se inteiramente àquilo a que se propõem. E alguns deles e delas integram o mesmo amor e dedicação exercitando o corpo e o espírito, estejam ou não vinculados a alguma religião ou igreja.
Assim é que a superginasta Simone Biles, que já se comenta que superará a até então insuperável e mítica Nadia Komaneci, treina desde pequena com uma disciplina inquebrantável, acompanhada da reza do terço e da frequência à missa. Católica, Simone Biles confessa que a fé é uma das únicas constantes em sua vida atribulada, ao lado do esporte que é sua paixão. Criada pelos avós, Simone os chama de pai e mãe, e vai com eles à missa. Carrega consigo um terço branco que, esclarece, não é para rezar antes da prova, mas na vida de todo dia.
Também os atletas estadunidenses David Boudia e Steele Johnson ganharam medalha de prata na plataforma de dez metros da natação ornamental masculina. Após a prova, rezaram juntamente com o treinador e a cena foi transmitida ao vivo pela mídia. E testemunharam que a fé os mantém conectados à Terra, independente do êxito olímpico. E a fé de ambos é saber que sua identidade se encontra em Cristo.
O grande tenista Juan Martin del Potro, um homem de profunda fé, considera o encontro com o Papa Francisco um momento único que jamais esquecerá. Porém sua fé, Del Potro a demonstrou mesmo na quadra, após a luta com o pulso quebrado, as cirurgias que teve de fazer e o cansaço até a exaustão para chegar a uma prata que equivale a ouro. O abraço fraterno e emocionado no inglês campeão do tênis nestas Olimpíadas, Andy Murray, mostrava ao mundo que para além das Malvinas ou das Falklands, guerra que já dividiu os dois países, ocasionando a morte de mil jovens argentinos, a fraternidade e o espírito de respeito e amor ao outro é possível.
Mencionamos aqui três atletas cristãos. Mas os há de várias religiões e mesmo sem religião, mas com profunda abertura para a transcendência e a espiritualidade. Por isso mesmo, os jogos olímpicos no Rio de Janeiro contam com um centro inter-religioso, onde atletas e treinadores podem desfrutar de momentos para meditar, fazer preces e celebrações. O cardeal do Rio, Dom Orani Tempesta, declarou: “É muito bom ver o Rio de Janeiro como um povo acolhedor, onde as religiões se entendem”. E o capelão judeu para os atletas olímpicos, o rabino Elia Haber, comentou: “Esperamos conseguir prover este balanço entre o físico e o espiritual. É muito importante para o atleta trabalhar isso”.
Neste momento, atletas somos todos, concentrados que estamos nesta bela experiência de sediar os jogos olímpicos. Já vemos que se trata de algo que abre para além de esforços físicos e treinamentos exaustivos, embora estes sejam parte constitutiva das provas. Como nos relembra Santo Inácio, o verdadeiro jogo é a vida e nela há que exercitar constantemente corpo e espírito, integrados em harmoniosa síntese que visibiliza no mundo o sonho de Deus para a humanidade.

Maria Clara Bingemer

ANO C – SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – 21.08.2016

Bem-aventurados os homens e mulheres que acreditam!

A Assunção é uma festa mariana que fez história e lançou profundas raízes na religiosidade popular. Mas é importante destacar que aquilo que cremos sobre Maria se refere, de alguma forma, à comunidade eclesial, ao povo de Deus, a todos os homens e mulheres. A glorificação de Nossa Senhora, sua acolhida e realização plena em Deus, é uma vocação e uma promessa de Deus extensiva a toda a humanidade. Maria não é medalha olímpica solitária; ela sobe ao podium com a humanidade. Nela, a pessoa humana em sua integridade – em corpo e alma! – é assumida e realizada plenamente em Deus. Eis uma belíssima realização da nossa esperança e uma proclamação clara e inequívoca da dignidade do corpo.
No Magnificat, Maria aparece como uma pessoa humilde e humilhada. No seu evangelho, Lucas nos apresenta Maria de Nazaré como uma mulher que sabe ouvir a Palavra viva de Deus e está sempre pronta a dar o melhor de si para que essa Palavra se realize na história. Da boca de Isabel ficamos sabendo que ela é alguém que ousou acreditar na força da Palavra e na fidelidade do Deus misericordioso que a pronuncia. Por isso, no vulto cristão de Maria o que se destaca é a humildade, a escuta e a fé, marcas fundamentais da sua personalidade, intrinsecamente relacionadas.
Deus pôde realizar grandes coisas em Maria e através de Maria porque encontrou nela a indispensável base humana já preparada. Para fazer-se humano, o Filho de Deus precisou de uma pessoa profundamente humana, e não de criaturas angélicas! Humildade, escuta e fé na ação libertadora de Deus é também o que possibilita uma vida humana e feliz. O segredo da felicidade que todos buscamos não está na posse ou no consumo desmedido de bens, nem na fama, no sucesso ou no poder de atração que exercemos, mas na abertura humilde e profunda aos outros, ao futuro e a Deus.
Depois do diálogo engajado com Deus representado pelo anjo, Maria vai apressadamente à casa de Isabel. Busca um sinal que confirme a parceria de Deus com os humildes e sua aliança com os pobres. Ela havia dado sua palavra Àquele que é capaz de fazer grandes coisas em favor do seu povo, mas nem tudo estava claro. Então, a discípula se faz serva, a serva se torna peregrina e a peregrina procura hospitalidade na casa de Isabel. Juntas, na intimidade aberta de uma casa, Isabel e Maria louvam a Deus e profetizam. E então, a discípula, serva e peregrina se transforma em profetiza destemida...
Contemplando sua própria história e a epopeia do seu povo, Maria percebe e proclama a intervenção libertadora de Deus: ele dispersa os soberbos, derruba os poderosos, exalta os humildes e oprimidos, socorre seu povo e estende sua misericórdia a todas as gerações. Então, esta mulher, assumida por Deus no céu, não é apenas uma humilde trabalhadora do lar, uma discreta pessoa que acredita, a ‘doce e recatada’ esposa de José. Deus assume em corpo e alma e eleva à glória do céu aquela que rompe com a cultura que menospreza a mulher, aquela que diz uma palavra profética na arena pública.
Na assunção de Nossa Senhora e no encontro entre Maria e Isabel o corpo festeja e é festejado. É bendito o corpo feminino de Maria, assim como bendito é Aquele que ela nutre e carrega no ventre. Bendito é o corpo de Isabel, capaz de perceber a incontida alegria daquele que preparará a estrada para a chegada do Messias, e bendito é o corpo dos mártires de todos os tempos. Bendito é também o corpo dos humilhados e dos famintos, destinados por Deus desde sempre ao brilho. Em Maria o corpo humano não necessita de malhação, retoque e maquiagem para ser apreciado e valorizado...
Finalmente, Maria é discípula de Jesus, membro da Igreja, sinal e símbolo do povo de Deus. Sua assunção por Deus é um sinal da ressurreição que todos esperamos. Como aquela mulher radiante do Apocalipse, a humanidade está em trabalho de parto e, mesmo ameaçada por todos os lados, vai dando à luz um Homem Novo e construindo um Mundo Novo. Maria simboliza a humanidade e a Igreja em seus traços femininos. Nela, a Igreja é chamada a construir-se como corpo que acolhe, aquece, alimenta, ensina, respeita e favorece o crescimento e o amadurecimento dos filhos e filhas.
Ave Maria, cheia de graça! O senhor está contigo! És bendita entre todas as mulheres, e é bendito o fruto do teu ventre!  Maria santa, mãe de Deus e dos filhos e filhas de Deus, intercede por nós neste complexo tempo que o Brasil vive. Ajuda tua Igreja a ser uma comunidade de iguais. Ensina as pessoas consagradas a anunciar com a vida e com a palavra que nada pode ser colocado acima do amor a Jesus e aos pobres nos quais ele vive. E conduz a vida consagrada aos desertos (onde o nada parece tudo), às periferias (onde a impotência se impõe) e às fronteiras (onde a criatividade não pode conhecer limites). Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Apocalipse de S. João 12,1-10 * Salmo 44 (45) * 1ª Carta aos Coríntios 15,20-27 * Ev. de São Lucas 1,39-56)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Semana da Familia

Semana da Família: Procurados pela misericórdia
O orgulho e a autossuficiência trazem desarmonia aos nossos relacionamentos: ambição, medo, competição, dominação. Imaginamo-nos deuses, mas, no fundo, sabemos que somos muito frágeis e que o fracasso e o nada nos rondam. Então passamos a viver de máscaras e fantasias que nos escondem, falsificam e impedem de viver e de crescer.
Quem se julga grande e carrega malas e mais malas de créditos e méritos diante da esposa ou esposo, dos filhos e filhas, dos pais, dos vovôs ou dos netos, de Deus ou de quem quer que seja, é camelo que engordou e não pode passar pelo buraco da agulha, não consegue entrar na lógica do Evangelho, não consegue embarcar no dinamismo do Reino de Deus.
O pecado nos rouba a paz, escurece o olhar, distorce o pensar e o sentir; provoca vergonha e nos conduz a esconderijos que pouco conseguem esconder. Mas é próprio de um Deus misericordioso colocar amor no nosso caos, serenidade na nossa perturbação, ternura na nossa rigidez, acolhida no nosso desespero, perdão nas nossas culpas. Como aquele pai do filho que o abandonou e voltou desolado...
O Papa Francisco nos lembra que a misericórdia é o coração pulsante do Evangelho e o distintivo ou arquitrave da Igreja. Tanto na vida da Igreja como na nossa vida pessoal, nada pode ser desprovido de misericórdia. Às vezes a compaixão e a misericórdia com que Deus nos trata parece inacreditável, inadmissível, impossível. Mas Jesus ensina: “Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível”.
Como ele faz isso? Cercando-nos de amor incondicional e levando-nos à consciência dos nossos limites e erros. Assim, o camelo do nosso orgulho e falsa perfeição vai diminuindo de estatura e se tornando pequeno e insignificante, de modo que podemos passar pelo buraco da agulha. Ou então vai forçando o buraco da agulha, alargando as portas da sua misericórdia, reduzindo suas exigências a nosso respeito. Como pai e mãe que é, Deus não se conforma em ver seus filhos e filhas distantes e sofridos.
É ainda o Papa Francisco quem nos lembra que nenhuma família é uma realidade perfeita e acabada, mas requer que cresçamos continuamente na capacidade de amar. O amor do Deus uno e trino e o amor de Jesus Cristo por sua Igreja estimulam e interpelam a família a ser dom de amor sempre mais pleno e universal. Mas também nos ensina a não esperar que a família seja o céu na terra, a meta alcançada no meio da caminhada. Por isso, que ninguém julgue ou condene com dureza as imperfeiçoes e fragilidades do outro. Todos somos chamados a tender para uma perfeição sempre maior no amor.
Por fim, o individualismo não pode levar nossas famílias a se fecharem na segurança do próprio ninho. Deus confiou à família a missão de tornar o mundo inteiro uma realidade doméstica e familiar, um ambiente de acolhida e compaixão no qual todas as pessoas possam se sentirem e serem de fato reconhecidas como irmãs. Para quem assim alarga as paredes da casa, Jesus tem uma promessa: toda pessoa que relativizar casas, irmãos e irmãs, pai e mãe, filhos e campos por causa dele, recebera cem vezes mais e terá como herança a vida eterna.
Portanto, famílias: avancem, continuem a caminhar! O que lhes é prometido é sempre mais. Não percam a esperança por causa dos próprios limites. Mas também não renunciem à busca da maturidade no amor e da comunhão que lhes é prometida. Somos procurados, amados e curados por um Deus apaixonado! Na família, sejamos misericordiosos como o Pai é misericordioso conosco.
Itacir Brassiani msf

(Reflexão no terceiro dia da Semana da Família [16.08.2016], Paroquia São Sebastião, Bairro Kennedy, Contagem, MG)