quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O evangelho dominical - 02.10.2016

AUMENTA-NOS A FÉ

De forma abrupta, os discípulos fazem a Jesus um pedido vital: «Aumenta-nos a fé». Noutras ocasiões tinham pedido: «Ensina-nos a rezar”. 
À medida que Jesus lhes desvenda o projeto de Deus e o trabalho que lhe quer encomendar, os discípulos sentem que não lhes basta a fé que vivem desde crianças para responder à Sua chamada. Necessitam de uma fé mais robusta e vigorosa.
Passaram-se mais de vinte séculos. Ao longo da história, os seguidores de Jesus viveram anos de fidelidade ao Evangelho e horas obscuras de deslealdade. Tempos de fé forte e também de crise e incerteza. Não necessitaremos de pedir de novo ao Senhor que aumente a nossa fé?
Senhor, aumenta-nos a fé! Ensina-nos que a fé não consiste em acreditar em algo, mas sim em acreditar em ti, Filho encarnado de Deus, para nos abrirmos ao Teu Espírito, deixar-nos alcançar pela tua Palavra, aprender a viver com o Teu estilo de vida e a seguir de perto os Teus passos. Só tu és quem «inicia e consuma a nossa fé».
Aumenta-nos a fé! Dá-nos uma fé centrada no essencial, purificada de adesões e acréscimos postiços, que nos afastam do núcleo do Teu Evangelho. Ensina-nos a viver nestes tempos uma fé, não fundada em apoios externos, mas na Tua presença viva nos nossos corações e nas nossas comunidades crentes.
Aumenta-nos a fé! Faz-nos viver uma relação mais vital contigo, sabendo que Tu, nosso Mestre e Senhor, és o primeiro, o melhor, o mais valioso e atrativo que temos na Igreja. Dá-nos uma fé contagiosa que nos oriente para uma fase nova de cristianismo, mais fiel ao Teu Espírito e à Tua trajetória.
Aumenta-nos a fé! Faz-nos viver identificados com o teu projeto do reino de Deus, colaborando com realismo e convicção em fazer a vida mais humana, como quer o Pai. Ajuda-nos a viver humildemente a nossa fé com paixão por Deus e compaixão pelo ser humano.
Aumenta-nos a fé! Ensina-nos a viver convertendo-nos a uma vida mais evangélica, sem nos resignarmos a um cristianismo rebaixado onde o sal se vai tornando insosso e onde a Igreja vai perdendo estranhamente a sua qualidade de fermento. Desperta entre nós a fé das testemunhas e dos profetas.
Aumenta-nos a fé! Não nos deixes cair num cristianismo sem cruz. Ensina-nos a descobrir que a fé não consiste em acreditar no Deus que nos convém, mas naquele que fortalece a nossa responsabilidade e desenvolve a nossa capacidade de amar. Ensina-nos a seguir-te tomando a nossa cruz cada dia.
Aumenta-nos a fé! Que te experimentemos ressuscitado, no meio de nós, renovando as nossas vidas e alentando as nossas comunidades.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

ANO C – VIGÉSIMO-SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 02.10.2016

A fé verdadeira desemboca na partilha e no serviço.

Depois da parábola do rico e de Lazaro, os apóstolos pedem que Jesus os faça crescer na fé. Por trás deste pedido e da resposta de Jesus estão alguns problemas concretos: o abismo que separa os ricos e indiferentes dos pobres e carentes; o escândalo que isso provoca nas comunidades cristãs; a orientação exigente e concreta da Palavra de Deus; a recusa de mudar o mundo através de acontecimentos que impressionam; o imperativo do perdão incondicionado aos irmãos e irmãs (cf. Lc 16,19-17,4). É diante disso que os apóstolos reagem assustados e preocupados, e suplicam a Jesus: “Aumenta a nossa fé!”
Qual é o problema dos apóstolos, daqueles escolhidos a dedo por Jesus e de todos os que vieram depois? Sentimo-nos incapazes de romper com alguns valores profundamente arraigados e tidos como essenciais pela cultura religiosa: a necessidade de punir as pessoas consideradas pecadoras ou impuras; a sedução por uma religião que prioriza ações milagrosas e espetaculares; a valorização absoluta da riqueza e do próprio bem-estar, como se fosse sinal inequívoco de nobreza e de benção de Deus, mesmo quando conseguida às custas da indiferença frente às necessidades do próximo...
Os apóstolos percebem vivamente que necessitam da luz e da força da fé para superar esta floresta de amoreiras que impedem a vida e a compaixão. Eles sabem que a fé não é estéril, mas parecem ignorar que seus frutos não são necessariamente espetaculares. É a irresistível atração pelas coisas grandiosas e que ainda hoje leva tantos irmãos e irmãs – inclusive pastores, padres e bispos! – a ler a metáfora usada por Jesus de forma literal. É triste assistir à multiplicação de pretensos milagres – induzidos e a serviço do poder e da riqueza de alguns poucos – em estádios e praças, com transmissão ao vivo...
O que chama a atenção na resposta que Jesus dá aos assustados apóstolos não é o apelo a uma fé prodigiosa e espetacular, mas a necessidade de uma fé mínima. “Se tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda...” O próprio Jesus sempre evitou recorrer a ações miraculosas para ser fazer ouvido e aceito. Ele tinha consciência de que a fé não procede do milagre, mas o precede. É a fé que nos leva a ver maravilhas, e não as ações maravilhosas que despertam a fé. As ações de Jesus que chamamos de milagres são respostas compassivas de socorro a quem não tinha com quem contar.
O fruto da fé se mostra substancialmente na descoberta da própria dignidade socialmente negada e no olhar que reconhece os seres humanos e todas criaturas como parceiras e irmãs. O Vaticano II diz que a fé tem força crítica e dinamismo libertador, pois “ilumina com sua luz tudo que existe e manifesta o propósito divino a respeito da plena vocação humana, orientando assim o espírito para as verdadeiras soluções” (GS 11). Mesmo parecendo pequena, desprezível e frágil como semente de mostarda, ela tem força para jogar no fundo do mar as estruturas poderosas e opressoras simbolizadas pela amoreira.
Mas para que isso aconteça, é preciso ser capaz de romper com a lógica do poder. Nesta perspectiva, Paulo lembra a Timóteo a fé sincera que recebeu da sua avó Loide e da sua mãe Eunice, e pede-lhe que conserve esse dom sempre vivo e ativo. A fé gosta de vir acompanhada pela fortaleza, pelo amor e pela sobriedade. Como Paulo e Timóteo, os verdadeiros missionários não conhecem a vergonha, nem diante de Jesus Cristo, nem diante da perseguição ou do escárnio que sofrem aqueles que levam adiante seu projeto. O justo vivera por sua fé, profetiza Habacuc num contexto de violência e perseguição.
A ação missionária da Igreja é sempre frutuosa, mas ao modo do grão de mostarda. O trabalho generoso dos missionários, quando brota do ventre da compaixão e da misericórdia, jamais será estéril. Aqueles que agem como filhos de Deus, livres e libertadores, generosos e solidários, duplamente apaixonados por Deus e pela humanidade, nunca serão pessoas inúteis. Talvez seja exatamente isso o que os missionários têm a oferecer ao mundo em nome dos cristãos: uma fé capaz de romper com todos os dinamismos de isolamento e de dominação; um amor capaz de restabelecer a dignidade de quem a tem negada; uma esperança que vê para além dos muros e borrascas do tempo presente.
É a ti que nos dirigimos, Deus Pai e Mãe, neste primeiro domingo do mês dedicado à oração e à animação missionárias. Dá-nos uma fé capaz de construir pontes com os demais homens e mulheres e de impedir a tentação do isolamento. Faz com que o encontro com o teu Filho e nosso Irmão nos torne autênticos discípulos, destemidos apóstolos, eloquentes testemunhas no serviço solidário e gratuito aos mais pobres. Vem em nosso auxilio para que nossa fé, mesmo sendo pequena como semente de mostarda, seja ativa, remova as amoreiras da injustiça e dinamize a presença dos cristãos no mundo. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Habacuc 1,2-3.2,2-4 * Salmo 94 (95) * 2ª Carta a Timóteo  1,6-8 * Evangelho de São Lucas 17,5-10)

Paixão missionaria

Que a minha loucura seja perdoada!
Há alguns anos percebi, não diferente de muitos jovens que conheço, que a minha felicidade não chegaria com a formatura. O sonho de concluir a faculdade, trabalhar e casar não era meu. Era a expectativa dos outros para mim – e para qualquer menina da minha idade. Queria mais que isso, necessitava ir além.
Agora, aos 25 anos, parto para a experiência que deve concretizar o meu desejo. Trilhando este caminho, compreendi que apenas viveria tão feliz quanto esperava, quando me desafiasse a sair de mim e de tudo que sempre concebi como mundo. Assim, decidi ser missionária.
A Igreja Católica do Rio Grande do Sul mantem um projeto de apoio à Arquidiocese de Nampula, em Moçambique. Lá, a Igreja-Irmã acolhe há 23 anos missionários e missionárias gaúchos. A pequena vila de Moma, no litoral leste da África, será minha casa a partir do dia 12 de setembro.
Na preparação para este tempo, compreendi que missão é serviço. E servir com amor. Primeiro servir no sentido de se colocar à disposição às necessidades do outro, mesmo que talvez não seja aquilo que eu ache que é necessidade.
Aí entra o amor. Compreender que o outro precisa e oferecer o que tens na gratuidade. As necessidades de cada um, os anseios, as angústias e as alegrias também se tornam meus quando me disponho a caminhar lado a lado. Eu me faço, me construo, me reconheço quando me encontro no outro.
Vou para servir a partir da realidade e não do meu desejo. Um novo mundo se constrói quando somos capazes de compreender com compaixão e empatia a cultura, a religião, os costumes, as opções e os contextos sociais, políticos e históricos de um povo.
Por isso, ao contrário do que normalmente se espera, não se sugere ao missionário grandes obras ou feitos extraordinários. A marca de uma missão começa pelo ouvir. Escutar e ver as aflições do outro, ir ao seu encontro e, com ele, construir a libertação. A vida plena se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros. Isto é, definitivamente, a missão.
As expectativas? Todas as possíveis. Às vezes tenho medo, angústias, um monte de perguntas. Entretanto, em grande parte do tempo, me inundo de alegria pela possibilidade de poder construir em Moma novos caminhos.
Há os que questionam: “Mas aqui não é muito melhor?”. Há também os que avisam: “Conheço gente que morreu de malária...” E, ainda, os que anunciam “Quero ver como vai ser na volta”. Tem também os que, duros para compreender, lançam o diagnóstico: “Você não está bem certa da cabeça...” “Se assim for, que a minha loucura seja perdoada, porque metade de mim é amor e a outra metade também." (Oswaldo Montenegro)
Victoria Holzbach

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Preparando o domingo - 02.10.2016

“Aumenta a nossa fé!” (Lucas 17, 5-10)

Lucas reúne nos primeiros dez versículos deste capítulo diversos dizeres de Jesus sobre algumas atitudes fundamentais para a vida de quem quer segui-Lo pelo caminho do discipulado. Podemos dividir o trecho de hoje em duas partes: vv. 5-7 e vv. 8-10.
A primeira parte trata da questão da fé inabalável, que deve ser característica do discípulo. Inicia-se o diálogo com os apóstolos expressando diante de Jesus a sua insegurança quanto à sua fé: “Os apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta a nossa fé!” (v. 5). Tal pedido tem outros ecos nos evangelhos. Faz-nos lembrar do pai do moço epiléptico em Marcos: “Eu tenho fé, mas ajude a minha falta de fé!” (Mc 9, 24).
É a experiência de todo(a) discípulo(a). Acreditamos em Jesus, queremos seguir a sua pessoa e o seu projeto, mas a vida se encarrega de nos demonstrar como é fraca a nossa fé. Quantas caídas, traições, incoerências, recaídas! O único recurso é pedir este dom gratuito de Deus, que ninguém pode exigir por seus próprios méritos, que é a fé inabalável. Do fundo no nosso ser gritamos com os Doze: “Aumenta a nossa fé!”
Com a hipérbole (exagero) típica do oriental, Jesus enfatiza tanto a necessidade da fé quanto a sua força, através das imagens do grão de mostarda (semente bem pequena), e do sicômoro (árvore mais ou menos grande, que tem um sistema complexo e amplo de raízes: “Se vocês tivessem fé do tamanho de uma semente de mostarda, poderiam dizer a este sicômoro: “Arranque-se daí, e plante-se no mar. E ela obedeceria a vocês.” (v. 6)
A segunda parte do trecho fala sobre a atitude correta de quem tem um ofício ou ministério dentro da comunidade cristã. Em outros trechos Lucas enfatiza a gratuidade de Deus diante da escolha dos seus discípulos. Aqui temos o outro lado: a responsabilidade de quem foi chamado sem mérito algum da sua parte. Ser chamado para qualquer ministério, ordenado ou não, é para que sigamos o exemplo do Mestre, que não veio para ser servido mas para servir, e não para nos vangloriarmos como se fôssemos mais do que os outros membros da comunidade.
O ensinamento não é que os discípulos não valem nada, nem que o seu trabalho não tem valor. O ponto central é que o fato de terem desenvolvido bem as suas tarefas e missão não lhes dá o direito de exigir a graça de Deus por causa dos seus méritos. Tal graça é, e sempre será, um dom gratuitamente oferecido.
Hoje nós estamos na mesma situação dos apóstolos: fomos chamados à fé sem mérito algum da nossa parte. Agradecendo a Deus por este dom, assumamos a nossa parte, que é de cumprir bem a missão recebida, sem nos gabarmos disso, pois se nós conseguimos fazer bem as coisas, também é porque podíamos contar com a graça de Deus (cf. 2 Cor 12, 1-10). Sem falsa humildade, mas também sem vaidade, devemos rezar: “Somos empregados inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (v. 19)
Pe. Tomaz Hugues SVD

Aniversario de fundação dos Missionários da Sagrada Família

Como em Nazaré da Galiléia

A primavera se despedia e o outono apenas se mostrava com seu caráter melancólico e seu convite a aprofundar as raízes e encontrar forças para enfrentar as agruras do inverno dos países nórdicos. Com uma pequena mala na qual trazia todos os seus pertences, um grande sonho na mente e um coração repleto de confiança o Pe. Berthier chegava a Grave no dia 27 de setembro de 1895. No dia seguinte, no berço do anonimato e da pobreza, da fé e da ousadia, começava nossa história de Missionários da Sagrada Família.
Voltemos a Grave para reaprender as lições da nossa origem. E a primeira lição é a radical confiança em Deus. Berthier começou sozinho, com 55 anos de idade e uma saúde historicamente frágil, sem recursos econômicos e sem um apoio claro por parte das autoridades eclesiais. Como a maioria dos fundadores, ele acolheu a inspiração divina e confiou na sua Providência. Confiou como se tudo dependesse de Deus e trabalhou como se tudo dependesse de si mesmo. A confiança na bondade e na graça providencial de Deus é o chão fecundo no qual crescem e frutificam as iniciativas duradouras.
A segunda lição é a pobreza e o trabalho. Em Grave encontramos simplicidade, despojamento e trabalho duro e dedicado, como em Nazaré. Deixemos que o próprio Berthier nos fale: “Aqui em Grave tudo está longe de um bom estado, mas nós colocamos a obra sob a proteção da Sagrada Família, e ela jamais habitou em palácios em Belém, no Egito ou em Nazaré... Nossa casa é pobre... Nossa capela e nossa sacristia são pobres. As mesas de estudo e do refeitório são de madeira, feitas pelos próprios seminaristas.”
Uma terceira lição que aprendemos em Grave é a bondade. O trabalho era muito duro e as condições precárias da casa assustavam, mas Grave tinha um coração. A bondade paterna e a proximidade amiga do Pe. Berthier faziam esquecer ou superar todas as dificuldades e manter o sonho missionário. Berthier era ao mesmo tempo pai, irmão, amigo, guia e pastor, mas seu coração de pai iluminava tudo o mais.
Uma outra importante lição que aprendemos em Grave é a fraternidade. Desde o início as portas abertas daquele velho quartel transformado em centro de formação missionária acolheu jovens alemães, franceses, holandeses, poloneses, suiços e até norte-americanos. As diferenças de cultura e de idioma não impediam a concórdia e o entendimento. O próprio Fundador testemunha: “Cada um que chega recebe o abraço fraterno de todos. Alguns são designados para lhes informar sobre os costumes da casa e o fazem de bom coração, de modo que o novo membro logo se sente integrado na família. Todos vivem como irmãos.”
Uma última lição que Grave nos ensina é a formação do espírito missionário. Aqueles primeiros jovens que acolheram o convite do Pe. Berthier desejavam colaborar com a tarefa missionária da Igreja. Enfrentaram os estudos e trabalhos em vista de se tornarem missionários santos e capazes, humildes e despojados, inspirados na Sagrada Família de Nazaré. Demos novamente a Palavra ao Fundador: “Esses jovens são acolhidos desde que sejam inteligentes e piedosos e queiram se dedicar definitivamente à obra e se empenhar no seu desenvolvimento, formando aqueles que virão depois deles e, quando chegar o momento, dedicando-se às missões. Nosso primeiro objetivo é formar missionários.”
Na passagem do aniversário do nosso nascimento como Congregação façamos uma viagem espiritual a Grave e, por um instante, coloquemo-nos como alunos sedentos dessas lições que valem uma vida. Sentemos ao lado do Pe. Berthier e seus discípulos. Provemos do seu coração de pai e de amigo daqueles jovens sonhadores. Participemos dos trabalhos para melhorar a casa e preparar as refeições. Enriqueçamo-nos com sua simplicidade e pobreza. Cresçamos no ardor missionário. E não esqueçamos as palavras do Fundador: “Na Sagrada Família reinam a piedade, o trabalho, o amor mútuo, e é nessas virtudes que nós procuramos exercitar nossos jovens.”

Pe. Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O evangelho dominical - 25.09.2016

NÃO IGNORAR O QUE SOFRE

O contraste entre os dois protagonistas da parábola é trágico. O rico veste-se de púrpura e de linho. Toda a sua vida é luxo e ostentação. Só pensa em «banquetear-se esplendidamente cada dia». Este rico não tem nome pois não tem identidade. Não é ninguém. A sua vida vazia de compaixão é um fracasso. Não se pode viver só para banquetear.
Deitado no portal da sua mansão jaz um mendigo faminto, coberto de chagas. Ninguém o ajuda. Só uns cães se aproximam a lamber as suas feridas. Não possui nada, mas tem um nome portador de esperança. Chama-se «Lázaro» ou «Eliezer», que significa «O meu Deus é ajuda».
A sua sorte muda radicalmente no momento da morte. O rico é enterrado, seguramente com toda a solenidade, mas é levado ao «Hades», a«reino dos mortos». Também morre Lázaro. Nada se diz de rito funerário algum, mas «os anjos levam-no junto a Abraão». Com imagens populares do seu tempo, Jesus recorda que Deus tem a última palavra sobre ricos e pobres.
O rico não é julgado como explorador. Não se diz que é um ímpio afastado da Aliança. Simplesmente, desfrutou da sua riqueza ignorando o pobre. Tinha-o ali mesmo, mas não o viu. Estava no portal da sua mansão, mas não se aproximou dele. Excluiu-o da sua vida. O seu pecado é a indiferença.
Segundo os observadores, está crescendo na nossa sociedade a apatia ou a falta de sensibilidade ante o sofrimento alheio. Evitamos de mil formas o contato direto com as pessoas que sofrem. Pouco a pouco, vamos nos tornando cada vez mais incapazes para perceber a sua aflição.
A presença de uma criança mendigo no nosso caminho incomoda-nos. O encontro com um amigo, doente terminal, perturba-nos. Não sabemos o que fazer nem o que dizer. É melhor tomar distância. Voltar quanto antes às nossas ocupações. Não nos deixarmos afetar.
Se o sofrimento se produz longe é mais fácil. Temos aprendido a reduzir a fome, a miséria ou a doença a dados, números e estatísticas que nos informam da realidade sem sequer tocar o nosso coração. Também sabemos contemplar sofrimentos horríveis na televisão, mas, através do monitor, o sofrimento sempre é mais irreal e menos terrível. Quando o sofrimento afeta a alguém mais próximo de nós, esforçamo-nos de mil formas para anestesiar o nosso coração.
Quem segue Jesus vai-se fazendo mais sensível ao sofrimento de quem encontra no seu caminho. Aproxima-se do necessitado e, se está ao seu alcance, trata de aliviar a sua situação.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

ANO C – VIGÉSIMO-SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 25.09.2016

A Palavra de Deus nos mostra o caminho e pede conversão!

Caminhando decididamente para Jerusalém, arena do confronto definitivo com os poderes que discriminam, excluem e matam, inclusive em nome de Deus, Jesus continua alertando seus discípulos em relação à tentação da aparência, do dinheiro e do poder. Ele polemiza com os fariseus, mas sua atenção está voltada aos discípulos. A fé na sua Palavra e a adesão aos seus ensinamentos deve qualificar nossa relação com os bens e com os pobres. Uma fé vivida unicamente como remédio para nossos males individuais ou como combustível para uma carreira de sucesso tem pouco a ver com ele.
Tanto no tempo do Jesus como hoje, há um abismo, real mas ignorado e encoberto, que separa as pessoas que frequentam a mesma comunidade, os cidadãos de um mesmo pais, os habitantes do único planeta. É isso que aparece na parábola: há um rico que se veste elegantemente e dá esplêndidas festas todos os dias; e há um pobre coberto de feridas, devorado pela fome, rodeado de cães e sentado na calçada, em frente à porta da casa do rico e absolutamente invisível a irrelevante para ele. Profetas como Amós já levantavam sua voz e denunciavam o insulto dos banquetes dos ricos frente à miséria dos pobres...
No centro da vida cristã está a compaixão pelos pobres, e não a indiferença e a busca do próprio bem-estar individual a qualquer custo. O caminho entre a porta e a mesa deve ser amplo e aberto! Jesus não aceita a indiferença dos ricos frente aos sofrimentos dos pobres. Sua Palavra é clara e contundente: “Ai de vós, os ricos, porque já tendes vossa consolação!” (Lc 6,24). Ele insiste que os pobres e os sofredores devem ocupar os primeiros lugares na lista de convidados para as festas e celebrações (cf. Lc 14,13). Mas, o Brasil naturaliza casas-grandes e senzalas e não permite que Lázaro vá além da porta dos ricos...
Por isso, é estranho, para não dizer cínico, o grito do rico, depois da morte, pedindo que Lazaro tenha compaixão dele. O rico sem nome continua achando que os pobres devem estar a seu serviço: bem que eles poderiam aliviar a sede ou avisar seus parentes e livrá-los a tempo dos males que os esperam... Não pode não ser cinismo este apelo para que os pobres tenham compaixão dos ricos que sempre se vestiram de indiferença e prepotência. O caminho para o céu é nossa vida na terra, e a indiferença corta a comunicação, destrói as pontes, cava abismos e fere de morte a solidariedade entre as pessoas.
Jesus se demora na descrição das tentativas infrutíferas do homem rico para reverter uma situação irreversível, sem tomar consciência do abismo que ele mesmo cavou, pedindo que lhe tragam água para amenizar a sede e enviem um morto ressuscitado para convencer seus parentes da necessidade de mudar de atitude. Mas parece que não há sinal poderoso ou milagre esplendoroso capaz de tocar o coração e a mente de quem se fechou em si mesmo e faz da indiferença uma couraça protetora. Nada pode curar aqueles que se fecharam à Palavra e dos profetas, dos apóstolos e do próprio Jesus.
É lamentável que ainda hoje muitos pregadores apresentem esta parábola simplesmente como uma espécie fotografia da inversão que a morte provocaria na vida real. Jesus não está falando da felicidade que espera os sofredores no paraíso futuro, ou do sofrimento destinado aos ricos depois da morte! O que ele enfatiza é o caráter decisivo e irreversível das opções que fazemos e das práticas que desenvolvemos no tempo presente! O caminho da vida cristã é pavimentado pela escuta da Palavra de Deus e pela conversão. E ela não há lugar para privilégios, nem para milagres fáceis e encomendados...
Na carta a Timóteo, Paulo pede: “Tu que és um homem de Deus, foge das coisas perversas, procura a justiça e a piedade, a fé, a caridade, a constância, a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual fostes chamado.” Ele nos pede para juntar a piedade à prática da justiça, unir a solidariedade à fé, casar a mansidão com a perseverança no seguimento de Jesus Cristo, único e soberano líder que pode nos guiar a um mundo justo, fraterno e liberto. Como estamos longe dos sorrisos postiços e das propostas vazias daqueles que querem nosso voto e nossa consciência...
Neste último domingo do mês que dedicamos à tua santa Palavra, te pedimos: “Fala, Senhor! Fala da Vida! Só tu tens palavras eternas, e nós queremos ouvir. São tantos os apelos que vêm dos oprimidos. Tu és quem liberta, o Deus dos esquecidos.” Ajuda-nos a vencer a indiferença que cava abismos entre pessoas que nasceram para ser irmãos e irmãs. Ensina-nos a acolher, compreender e seguir aquilo que nos dizes através dos profetas e santos de ontem e de hoje. Sustenta a coragem daqueles que denunciam golpes midiáticos e sequestros de direitos. E que tua Palavra seja sempre a luz dos nossos passos. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Amós 6,4-7 * Salmo 145 (146) * 1ª Carta a Timóteo  6,11-16 * Evangelho de São Lucas 16,19-31)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Preparando o domingo - 25.09.2016

O rico e o pobre Lázaro (Lucas 16,19-31)

A parábola de Lucas 16,19-31 não é uma espécie de “geografia do céu e do inferno”, nem um ensinamento sobre a questão do “além”, da situação depois da morte. É uma parábola, cujo objetivo é provocar um questionamento, uma reflexão que leve ao entendimento da mensagem e a uma tomada de posição.
De um lado, essa parábola parece dirigir-se aos fariseus (Lucas 16,14), aqueles definidos por Jesus como “amigos do dinheiro”. De outro lado, é uma advertência aos discípulos e às discípulas de Jesus de ontem e de hoje.
Uma realidade cheia de contrastes
A situação inicial é descrita apresentando os contrastes entre duas realidades: de um homem rico anônimo contra um mendigo que se chamava Lázaro (que significa “Deus ajuda”); de roupas luxuosas de púrpura e linho contra a pele coberta de úlceras repugnantes; de banquetes diários contra estômago faminto que desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa; de enterro certamente com toda solenidade e pompa contra o sepultamento de um indigente; de luxo, abundância e supérfluo, de um lado, e a falta do mínimo necessário para viver, do outro.
O abismo da indiferença
Uma cena comum que pode ser vista quotidianamente no palco da vida. Mesmo separados pela distância da indiferença, o rico e o pobre viveram bem próximos um do outro. Porém, o rico não vê nada, sequer percebe a presença de Lázaro. Ele vive extremamente voltado para si, fechado no seu mundo de bens, luxo, festa e comilança. Uma pessoa insensível ante a situação de fome, doença e dor do pobre que estava junto à porta de sua casa.
Lázaro é um entre tantos marginalizados da cidade. Só os cães de rua se aproximam dele para lamber-lhe as feridas. Sua única esperança é Deus. O uso egoísta dos bens materiais cavou um abismo entre o rico e o pobre. Jesus desmascara esta realidade da sociedade onde as pessoas estão separadas por uma barreira invisível: essa porta que o rico nunca atravessa para aproximar-se de Lázaro.
Não basta ser “filho de Abraão”
Após a morte, as sortes se inverteram. Lázaro é levado pelos anjos ao “seio de Abraão”, expressão figurada para falar do banquete do Reino (cf. Lucas 13,28; Mateus 8,11). O rico está embaixo, na morada dos mortos, no meio de tormentos. Ele, que antes tinha comidas e bebidas finas à sua disposição, agora implora por uma simples gota d’água.  Porém, um abismo intransponível separa os dois. 
O rico da parábola crê que faz parte do povo de Deus, chamando Abraão de “pai”. Porém, não basta ser “filho de Abraão”, é preciso escutar as Escrituras e demonstrar solidariedade e justiça para com os irmãos que sofrem necessidade. O profeta Isaías, por exemplo, diz o que os filhos de Abraão devem fazer: “repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu e não se fechar à sua própria gente” (Isaías 58,7; cf. Mateus 25,35-36).
A parábola pode estar denunciando a falsa religião dos fariseus, que se dizem filhos e filhas de Abraão, mas acumulam os bens dos pobres, reduzindo à miséria muitos filhos e filhas de Abraão, irmãos e irmãs deles (cf. Mateus 23,14). Nesta posição, eles se tornam surdos ao clamor dos pobres e aos ensinamentos de Moisés e dos profetas.
Uma mensagem ética que rompe barreiras
Esta parábola é uma crítica de Jesus a um sistema opressor que gera indiferença diante do sofrimento de quem está na miséria. Os ricos insensíveis, amantes do dinheiro, não mudam seu comportamento de luxo e de esbanjamento. Sustentam uma sociedade que produz milhões de “lázaros”, aqueles que são jogados “fora dos muros” do convívio e da participação na vida.
A parábola é uma advertência e apelo à conversão dirigida a todos nós, discípulos e discípulas de Jesus. Quem escuta a Palavra de Deus não vive descompromissado com a realidade à sua volta. Quem segue Jesus vai se tornando mais sensível ao sofrimento daqueles que ele encontra em seu caminho. Aproxima-se do necessitado e, se estiver em seu alcance, procura aliviar sua situação.
A indiferença só se dissolve quando se dá passos que nos aproximam dos “lázaros” de diferentes rostos e nomes. Ao invés de levantar barreiras que dividem, somos interpelados a lutar para eliminar o “abismo” que separa os povos através do poder econômico, da suposta superioridade racial, de gênero, de crença ou cultura.
Felizes as pessoas que seguem Jesus, rompendo barreiras e atravessando portas, abrindo caminhos e se aproximando dos últimos. Elas encarnam o “Deus que ajuda” os pobres.
Katia Rejane Sassi

Preparando o domingo - 25.09.2016

Mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos (Lc 16,19-31)

Este último trecho do capítulo 16 de Lucas continua os ensinamentos de Jesus sobre as riquezas, ou melhor, sobre a questão fundamental da partilha dos bens como necessidade absoluta para os seus discípulos. Aqui, temos a famosa parábola do “Rico e Lázaro”, e também a reflexão sobre o destino dos irmãos do rico. Levanta a questão: “Irão seguir o exemplo do irmão rico ou atender o ensinamento tanto de Jesus como do Antigo Testamento sobre o cuidado dos necessitados, como Lázaro, e assim se tornarem Filhos de Abraão?
Os destinatários do Evangelho de Lucas eram as comunidades cristãs urbanas das cidades gregas do Império Romano. A imagem da parábola é típica da sociedade urbana, tanto a de então como a de hoje! De um lado, o rico que esbanja dinheiro e comida em banquetes e futilidades, e do outro lado o pobre miserável, faminto e doente. Ambos vivem lado ao lado, sem que o rico tome conhecimento da existência e dos sofrimentos do pobre! Quantos exemplos disso existem hoje! Lado ao lado com a maior opulência, a mais desumana miséria, e entre as duas situações uma barreira de cegueira e indiferença...
É muito interessante - e importante para a nossa compreensão da parábola - que os vv. 22-26 não dizem que o rico foi para o inferno por que ele fazia algo moralmente repreensível; e nem que Lázaro foi para o céu porque ele era “santo”. Por isso, por tão inconveniente que possa soar em uma sociedade como a nossa, dá para entender que esse trecho condena o rico simplesmente por ser insensível, em uma sociedade de empobrecimento, e abençoa o pobre pelo simples fato de estar sofrendo a miséria em uma sociedade que esbanja os bens necessários para a vida.
É interessante que no texto o rico não tem nome, mas o pobre sim. “Lázaro” que dizer em hebraico “auxiliado por Deus”. A riqueza torna-se pecado diante da situação desumana dos pobres, pois é a negação da partilha e da solidariedade! O que dizer então da nossa sociedade atual neoliberal, com a escandalosa desigualdade que ela ostenta?  O rico foi condenado porque ele simplesmente se fechou diante do sofrimento alheio. A parábola não diz uma palavra sobre o comportamento dele fora desse aspecto. Esse fechamento é a negação de todo o ensinamento do Antigo e do Novo Testamento. O simples fato de existir lado ao lado o rico opulento e o Lázaro sofrido é a condenação de uma sociedade pecaminosa que permite esta situação anti-evangélica.
A segunda parte da história, versículos 27-31, continua com o diálogo entre o rico e Abraão, e mostra claramente que a sua indiferença diante do sofrimento de Lázaro não estava de acordo com o Antigo Testamento (vv. 29-31), e nem com Jesus (v. 9). Enfatiza que nem manifestações milagrosas vão mudar o coração duro de quem não quer ouvir a Palavra de Deus: “Abraão lhe disse: Se eles não escutam a Moisés e os profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos”(v. 31). “Moisés e os profetas” significa a Escritura, pois a Bíblia hebraica se dividiu em Lei (Moisés) e Profetas.
Palavra tão atual! Pois não é por falta de conhecimento da Palavra de Deus que o mundo se acha na sua situação atual. Não é por desconhecimento do ensinamento de Jesus sobre a fraternidade e a solidariedade, que temos uma sociedade excludente hoje no Brasil! Não é por falta de celebrações litúrgicas e sacramentais que há tanto sofrimento nas nossas ruas e bairros! É simplesmente porque a sociedade opta por se organizar conforme critérios anti-evangélicos, e porque tantos cristãos reduzem o cristianismo a uma série de leis, ritos e doutrinas, muitas vezes não ultrapassando muito de uma simples lista de “boas maneiras”.
Optamos por diluir as exigências do Evangelho para que possamos continuar com os “ricos” e os “Lázaros” de hoje, lado ao lado, sem que estes incomodem aqueles! Sabemos o que a Bíblia diz, conhecemos muito bem o ensinamento de Jesus, mas continuamos na construção de uma sociedade injusta, fundamentada sobre a idolatria do lucro, com a consequência automática do sofrimento e exclusão.
O rico e Lázaro continuam morando hoje em nossas cidades. Jesus hoje nos desafia para que optemos por outra forma de sociedade, onde todos terão acesso aos bens necessários para uma vida digna. Se não queremos ouvir o que nos diz a Palavra de Deus, se queremos continuar surdos diante do grito dos excluídos, então o nosso destino será também aquele do rico da história. “Tenho medo de não responder, de fingir que não escutei; tenho medo de ouvir teu chamado, virar doutro lado e fingir que não sei!”
Lucas não deixa que o leitor evite as questões gritantes da ligação entre fé e vida, entre religião e economia, questões mais atuais do que nunca, sempre abordadas pelo Papa Francisco, que na verdade simplesmente nos recorda o ensinamento do Evangelho, que a sociedade conhece bem, mas reluta para não colocar em prática.
Thomaz Hughes

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

O Evangelho dominical - 18.09.2016

DINHEIRO

A sociedade que conheceu Jesus era muito diferente da nossa. Apenas as famílias poderosas de Jerusalém e os grandes senhores de Tiberíades podiam acumular moedas de ouro e prata. Os camponeses só podiam ficar com algumas moeda de bronze ou cobre, de escasso valor. Muitos viviam sem dinheiro, intercambiando produtos num regime de pura subsistência.
Nesta sociedade, Jesus fala do dinheiro com uma frequência surpreendente. Sem terras nem trabalho fixo, a Sua vida itinerante de Profeta dedicado à causa de Deus permite-Lhe falar com total liberdade. Por outra parte, o seu amor aos pobres e a Sua paixão pela justiça de Deus urgem-No a defender sempre os mais excluídos.
Fala do dinheiro com uma linguagem muito pessoal. Chama-lhe espontaneamente «dinheiro injusto» ou «riquezas injustas». Ao que parece, não conhece «dinheiro limpo». A riqueza daqueles poderosos é injusta porque foi acumulada de forma injusta e porque desfrutam sem a compartilhar com os pobres e os famintos.
Que pode fazer quem possui estas riquezas injustas? Lucas conservou umas palavras curiosas de Jesus. Apesar de que a frase pode resultar algo obscura pela sua concisão, o seu conteúdo não há de cair no esquecimento. «Eu vos digo: Ganhai amigos com o dinheiro injusto para que quando os falte, os recebam nas moradas eternas».
Jesus vem dizer assim aos ricos: «Utilizai a vossa riqueza injusta em ajudar os pobres; ganhai a sua amizade partilhando com eles os vossos bens. Eles serão vossos amigos e, quando na hora da morte o dinheiro não vos sirva já para nada, eles vos acolherão na casa do Pai». Dito com outras palavras: a melhor forma de «branquear» o dinheiro injusto ante Deus é partilha-lo com os seus filhos mais pobres.
As Suas palavras não foram bem acolhidas. Lucas diz-nos que «estavam ouvindo estas coisas uns fariseus, amantes das riquezas, e escarneceram Dele». Não entendem a mensagem de Jesus. Não lhes interessa ouvir falar de dinheiro. A eles só lhes preocupa conhecer e cumprir fielmente a lei. A riqueza, consideram-na como um sinal de que Deus abençoa a sua vida.
Apesar de vir reforçada por uma larga tradição bíblica, esta visão da riqueza como sinal de bênção não é evangélica. Há que dize-lo em voz alta porque há pessoas ricas que de forma quase espontânea pensam que o seu êxito econômico e a sua prosperidade é o melhor sinal que Deus aprova a sua vida.
Um seguidor de Jesus não pode fazer qualquer coisa com o dinheiro: há um modo de ganhar dinheiro, de gastá-lo e de o desfrutar que é injusto, pois esquece os mais pobres.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

ANO C – VIGÉSIMO-QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 18.09.2016

A Palavra de Deus adverte quem oprime e explora.
A parábola que Jesus apresenta aos discípulos no evangelho de hoje é muito complexa. Para entende-la, tenhamos bem presentes na memória as parábolas que Jesus nos propôs no domingo passado para defender sua prática solidária com os pobres e excluídos. São inesquecíveis as figuras do pastor que sai pressuroso ao encontro da ovelha que se perdeu e da mulher que varre atentamente a casa em busca da moeda extraviada. E como esquecer a figura daquele pai que esbanja atenção, dinheiro e compaixão na festa de acolhida do filho que chegara a disputar comida com os porcos?
A parábola de hoje coloca em evidência um protagonista muito diferente: um administrador acusado de esbanjar os bens que não lhe pertencem e que, por isso, está ameaçado de demissão. Ciente de que não está preparado para assumir outro trabalho e recusando-se a pedir esmolas, o administrador esbanjador age com esperteza e rapidez: altera, em favor dos devedores, o montante de algumas contas, prejudicando mais ainda seu patrão! Faz isso movido pela esperança de que, no futuro, os devedores por ele beneficiados retribuam solidariamente e abundantemente seu gesto de bondade.
O que surpreende e desconcerta é que a esperteza desonesta do administrador seja explicitamente elogiada pelo patrão (e pelo próprio Jesus). Há quem explique o elogio a esta ação aparentemente imoral levantando a hipótese de que o ‘desconto’ de 50 e 20% corresponderia aos juros iníquos cobrados pelo credor ou à comissão à qual o administrador teria direito. Seria isso mesmo? Ou Jesus estaria propondo outra mensagem, semelhante àquela do pai que gasta sem critérios para acolher e restabelecer a dignidade do filho que havia descido involuntariamente ao degrau mais baixo do inferno social?
A questão fundamental que Jesus apresenta com esta parábola poderia ser formulada da seguinte maneira: Como usar de forma evangelicamente correta os bens, as honras e o prestígio que temos como cristãos e como Igreja? A palavra corajosa de Amós traz à luz do dia as práticas de acúmulo que os ricos de todos os tempos tentam esconder nas sombras da noite ou nas franjas da hipocrisia mais deslavada. Mas Jesus também deixa claro que somos apenas administradores de bens que não nos pertencem e que, frente ao bem maior do Reino de Deus, o dinheiro é coisa de pouco valor e radicalmente injusta.
O administrador aparentemente desonesto é elogiado porque evita ser amigo do dinheiro (como o são os fariseus) e se mostra amigo das pessoas, não das que contabilizam créditos, mas daquelas que são devedoras insolventes. Com ele, nós aprendemos que o dinheiro que passa pelas nossas mãos, bolsas e contas não nos pertence e precisa ser usado corretamente: para construir solidariedade, para beneficiar a pessoa humana (todas as pessoas, insiste Paulo), começando pelas mais necessitadas. É o oposto daquilo que fazem os comerciantes e políticos denunciados pelo profeta Amós!
Aquilo que, à primeira vista, parece esbanjamento e desonestidade é, na verdade, sabedoria evangélica! Precisamos assumir nossas responsabilidades no mundo da economia – produção, administração, distribuição e consumo de bens – com critérios evangélicos. E o critério fundamental é este: ou os bens estão a serviço de uma convivência social sadia e solidária, ou não servem pra nada! E desviar para os bens econômicos o amor e o afeto que devemos às pessoas é uma loucura que compromete nossa felicidade pessoal e destrói os laços sociais. Só o uso solidário pode lavar o dinheiro sujo!
O próprio Jesus veio ao mundo como herdeiro e administrador das coisas do Pai, e não fez outra coisa que diminuir e cancelar os débitos das pessoas e grupos que os sistemas criminalizam. Ele esbanjou os bens do Pai, inclusive a própria vida, para fazer amigos entre os excluídos! Ele não teve receio de comprometer a honra, o nome e a própria ortodoxia para fazer amigos. Mas, infelizmente, muitas Igrejas ainda dão a impressão de existem unicamente para aumentar estas contas ou cobrar comissão para renegociá-las... Em vez de fazer amigos e emancipar os oprimidos, engordam suas contas bancárias.
Senhor, tua Palavra é caminho de sabedoria. Queremos guardá-la e pô-la em prática em todas as circunstâncias da nossa vida. Ensina-nos a contar adequadamente o tempo e avaliar corretamente o valor das coisas. Concede-nos a coragem de desmascarar os males que nos são propostos em belas e sedutoras embalagens. Confirma-nos no serviço a ti, único e supremo bem, e àqueles que são excluídos da mesa e recebem apenas as migalhas que sobram. Ajuda-nos a gastar tudo o que temos e somos para fazer amigos e irmãos, retirando os pobres do lixo e fazendo-os sentar entre os nobres do teu povo. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Amós 8,4-7* Salmo 112 (113) * 1ª Carta a Timóteo  2,1-8 * Evangelho de São Lucas 16,1-13)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Preparando o domingo - 18.09.2016

“Quem é fiel nas pequenas coisas, também é nas grandes” (Lucas 16,1-13)


Este texto faz parte de um capítulo aparentemente fragmentado, mas que realmente tem como tema unificador o uso dos bens materiais em benefício dos outros, especialmente dos mais necessitados. Divide-se em quatro segmentos inter-relacionados: vv. 1-8a; vv. 8b- 13; vv. 14-18; vv. 19-31. Três destes trechos serão usados hoje e nos próximos dois domingos.
A interpretação popular da primeira parte, a história do “administrador Injusto”, traz muitos problemas para os pregadores, pois, aparentemente, Jesus está elogiando quem age de maneira desonesta. Tal interpretação é moralmente inaceitável. Por isso, temos que olhar bem a história. Os estudiosos não estão de acordo de que trata-se de uma parábola, ou uma “história-exemplo”, que Lucas também usa muito (10, 29-37; 12, 16-21; 16, 19-31;18, 9-14).
Para que entendamos melhor o contexto da história, é bom saber que os documentos da época atestam que frequentemente se usava o sistema aqui relatado. Como a cobrança de juros era proibida pela Lei, o administrador embutia o ágio na “nota promissória”. Por exemplo, uma pessoa talvez tivesse emprestado 200 litros de azeite, mas por causa dos juros de 100%, a sua conta acusava 400 litros. Então, na história de Lucas, o administrador, enfrentando a demissão, resolve na mesma hora vingar-se do seu patrão. E o faz reduzindo as contas devidas ao seu valor real. Reduzindo para os juros que beneficiavam o patrão, faz amigos para si mesmo, entre os devedores.
O “patrão” ou “Senhor” a que se refere o v. 8a não é Jesus, mas o “homem rico” do v.1. Ele “elogiou” o administrador desonesto, por sua esperteza! A palavra grega aqui traduzida por “esperteza” significa uma estratégia prática visando alcançar um fim determinado. Tem nada a ver com a virtude, no sentido mais geral de agir com justiça. Assim embora possa parecer, à primeira vista, que Lucas esteja elogiando a desonestidade, a interpretação mais exegética diz que o que devemos imitar não é a desonestidade, mas o bom senso na administração dos bens materiais.
Para os que entendem o trecho como uma verdadeira parábola, há duas explicações possíveis- Uma diz que o que Jesus quer ensinar é que os seus discípulos, quando confrontados com a decisão de segui-Lo ou não, devem agir de maneira decisiva, como fez o administrador quando confrontado com a sua situação de crise, e não vacilar.
Outra interpretação vai na direção do “contraste”: o sentido normal de justiça não condiz com a atitude condizente do patrão em v.8. Assim, se faz contraste entre a maneira de agir dos homens e de Deus. Este ponto de vista corresponde com outros ensinamentos em Lucas sobre a nova justiça, a justiça do Reino e a dos homens. Os critérios da “justiça do Reino de Deus” não são os da sociedade, mas exigem o perdão e o relacionamento com os inimigos.
A segunda parte do trecho - vv. 8b - 13 – contém aplicações práticas de como os discípulos devem usar os bens materiais. Indica o entusiasmo dos “que pertencem a este mundo” como exemplo para os discípulos que muitas vezes são insossos no seu seguimento de Jesus. “O dinheiro injusto”, que pertence a um mundo com princípios de exploração, pode até servir aos discípulos quando usado para a partilha com os necessitados, que se converterão em “amigos” que “vão receber vocês nas moradas eternas” (v.9).
Outro ponto destacado é a necessidade de fidelidade diária. Se nós partilhamos os nossos bens na convivência quotidiana, ganharemos os verdadeiros bens imperecíveis como prêmio eterno. Mas isso exige fidelidade e lealdade total a Deus. A alternativa é sucumbir às tentações da injustiça que escraviza. A gente fica leal a este Deus através da partilha dos bens, especialmente com os mais necessitados.
Embora possamos discutir e debater sobre interpretações minuciosas do trecho, uma coisa é inegável: Jesus quer advertir os seus seguidores sobre a tentação de escravizar-se ao dinheiro, e na mesma hora, exigir que a partilha material seja ponto marcante da vivência dos seus discípulos!
Pe. Thomas Hughes SVD