quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Igreja Catolica critica e condena a PEC 241

NOTA DA CNBB SOBRE A PEC 241
“Não fazer os pobres participar dos próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida.”
 (São João Crisóstomo, século IV)
O Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, reunido em Brasília-DF, dos dias 25 a 27 de outubro de 2016, manifesta sua posição a respeito da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241/2016, de autoria do Poder Executivo que, após ter sido aprovada na Câmara Federal, segue para tramitação no Senado Federal.
Apresentada como fórmula para alcançar o equilíbrio dos gastos públicos, a PEC 241 limita, a partir de 2017, as despesas primárias do Estado – educação, saúde, infraestrutura, segurança, funcionalismo e outros – criando um teto para essas mesmas despesas, a ser aplicado nos próximos vinte anos. Significa, na prática, que nenhum aumento real de investimento nas áreas primárias poderá ser feito durante duas décadas. No entanto, ela não menciona nenhum teto para despesas financeiras, como, por exemplo, o pagamento dos juros da dívida pública. Por que esse tratamento diferenciado? 
A PEC 241 é injusta e seletiva. Ela elege, para pagar a conta do descontrole dos gastos, os trabalhadores e os pobres, ou seja, aqueles que mais precisam do Estado para que seus direitos constitucionais sejam garantidos. Além disso, beneficia os detentores do capital financeiro, quando não coloca teto para o pagamento de juros, não taxa grandes fortunas e não propõe auditar a dívida pública.
A PEC 241 supervaloriza o mercado em detrimento do Estado. “O dinheiro deve servir e não governar!” (Evangelii Gaudium, 58). Diante do risco de uma idolatria do mercado, a Doutrina Social da Igreja ressalta o limite e a incapacidade do mesmo em satisfazer as necessidades humanas que, por sua natureza, não são e não podem ser simples mercadorias (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 349). 
A PEC 241 afronta a Constituição Cidadã de 1988. Ao tratar dos artigos 198 e 212, que garantem um limite mínimo de investimento nas áreas de saúde e educação, ela desconsidera a ordem constitucional. A partir de 2018, o montante assegurado para estas áreas terá um novo critério de correção que será a inflação e não mais a receita corrente líquida, como prescreve a Constituição Federal.
É possível reverter o caminho de aprovação dessa PEC, que precisa ser debatida de forma ampla e democrática. A mobilização popular e a sociedade civil organizada são fundamentais para superação da crise econômica e política. Pesa, neste momento, sobre o Senado Federal, a responsabilidade de dialogar amplamente com a sociedade a respeito das consequências da PEC 241.
A CNBB continuará acompanhando esse processo, colocando-se à disposição para a busca de uma solução que garanta o direito de todos e não onere os mais pobres.
Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, continue intercedendo pelo povo brasileiro. Deus nos abençoe!

Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de Brasília
Presidente da CNBB

Dom Murilo S. R. Krieger, SCJ
Arcebispo de São Salvador da Bahia
Vice-Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner, OFM
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário-Geral da CNBB

O Evangelho dominical - 30.10.2016

PODEMOS MUDAR?

Lucas narra o episódio de Zaqueu para que os seus leitores descubram melhor o que podem esperar de Jesus: o Senhor que invocam e seguem nas comunidades cristãs «veio procurar e salvar o que estava perdido». Não o irão de esquecer.
Ao mesmo tempo, com seu relato da atuação de Zaqueu ajuda a responder à pregunta que não poucos levam no seu interior: Realmente posso mudar? Não é já demasiado tarde para refazer uma vida que, em boa parte, deixei perder? Que passos posso dar?
Zaqueu é descrito com dois traços que definem com precisão a sua vida. É «chefe de publicanos» e é «rico». Em Jericó todos sabem que é um pecador. Um homem que não serve a Deus mas sim ao dinheiro. A sua vida, como tantas outras, é pouco humana.
No entanto, Zaqueu «procura ver Jesus». Não é mera curiosidade. Quer saber quem é, que se encerra neste Profeta que tanto atrai as pessoas. Não é tarefa fácil para um homem instalado no seu mundo. Mas este desejo de Jesus vai mudar a sua vida.
Para ver Jesus, Zaqueu terá que superar diferentes obstáculos. É «baixo de estatura», sobre tudo porque a sua vida não está motivada por ideais muito nobres. Outro impedimento são as pessoas: terá que superar preconceitos sociais que lhe tornam difícil o encontro pessoal e responsável com Jesus.
Mas Zaqueu prossegue a sua procura com simplicidade e sinceridade. Corre para se adiantar à multidão, e sobe a uma árvore como uma criança. Não pensa na sua dignidade de homem importante. Só quer encontrar o momento e o lugar adequado para entrar em contato com Jesus. Quer vê-Lo.
É então quando descobre que também Jesus o está a procurar, pois chega até àquele lugar, procura-o com o olhar e diz: «O encontro será hoje mesmo na tua casa de pecador». Zaqueu desce e recebe-o em sua casa, cheio de alegria. Há momentos decisivos em que Jesus passa pela nossa vida porque quer salvar o que nós estamos arriscando perder. Não os devemos deixar escapar a ocasião.
Lucas não descreve o encontro. Só fala da transformação de Zaqueu. Muda a forma de ver a vida: já não pensa só no seu dinheiro, mas no sofrimento dos outros. Muda o seu estilo de vida: fará justiça aos que explorou e partilhará os seus bens com os pobres.
Mais tarde ou mais cedo, todos corremos o risco de nos «instalarmos» na vida, renunciando a qualquer aspiração de viver com mais qualidade humana. Os crentes temos de saber que um encontro mais autêntico com Jesus pode fazer a nossa vida mais humana e, sobretudo, mais solidária.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

ANO C – TRIGÉSIMO-PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 30.10.2016

Para encontrar e anunciar Jesus, precisamos descer e sair! 

O episódio apresentado no evangelho deste domingo é sobejamente conhecido. Mas, para entendê-lo em toda a sua força e novidade, precisamos considerar o contexto no qual se desenvolve a cena. Uma rápida olhada no contexto literário nos mostra que o episódio acontece depois que Jesus acolhe e abençoa crianças (cf. Lc 18,15-17), após o frustrado encontro do jovem rico e a metáfora do camelo e do buraco da agulha (cf. Lc 18,15-34), e em seguida à acolhida e cura do cego de Jericó (cf. Lc 18,35-43). E estamos na última etapa da subida de Jesus para Jerusalém.
O contexto mais amplo revela o desconcerto e a resistência dos discípulos frente à pregação e à prática revolucionárias de Jesus: eles tentam impedir que as crianças se aproximem dele; se escandalizam com a afirmação de que aos ricos é difícil entrar na lógica do Reino de Deus; cobram a conta por terem deixado tudo para seguir Jesus; não conseguem compreender nem aceitar que seu caminho passe pela humilhação; querem calar a boca do cego e mendigo que suplica compaixão. Ou seja: não conseguem assimilar as lições mais elementares da compaixão e da misericórdia!
Quem é propriamente este personagem tão conhecido a quem o evangelista chama Zaqueu? Traduzido literalmente, seu nome significa puro ou inocente! E isso é surpreendente, já que, por ser cobrador de impostos e negociar com os romanos – considerados invasores e pagãos – Zaqueu era visto como impuro, mercenário e traidor nacional. Por isso, apesar dos muitos bens que possuía, e apesar da posição de chefia que ocupava entre os publicanos, Zaqueu era socialmente renegado e religiosamente excluído. Sua baixa estatura sinaliza mais o rebaixamento social que uma característica física!
Não obstante isso, enquanto os discípulos não conseguem reconhecer a verdadeira identidade de Jesus, Zaqueu busca insistentemente descobrir quem é Jesus. O evangelista diz que ele não desejava apenas ‘ver Jesus’, mas queria ‘ver quem era Jesus’. Movido por este desejo que dava sentido à sua vida, Zaqueu acaba fazendo aquilo que aprendera dos mesmos líderes religiosos que o desprezavam. Subir na arvore a na vida era o modo aceito como usual para alcançar a salvação: buscar palcos e pedestais, subir na hierarquia, aferrar-se às instituições judaicas, confiar nas práticas minuciosas da lei.
A árvore na qual Zaqueu sobe é símbolo e imagem do próprio judaísmo que o renega! Mas o encontro de Zaqueu com Jesus se dá de uma forma que ele não esperava. Apesar de ter subido na árvore, não é Zaqueu que vê Jesus, mas Jesus que vê Zaqueu e pede que desça imediatamente daquele lugar que nada acrescenta à sua vida. “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa.” As palavras são claras e imperativas: ele deve descer, e fazê-lo depressa, porque exatamente neste dia Jesus deve permanecer na casa dele. O lugar do verdadeiro encontro de Zaqueu com a salvação não é o templo: é a rua e a casa!
Zaqueu dá-se conta do absurdo da sua estratégia de subir para saber quem é Jesus e, motivado pelo anúncio de que Jesus deveria ir naquele instante à sua casa, desce depressa e recebe Jesus em sua casa, com muita alegria. A salvação tem seu tempo e seu espaço, mas estes nem sempre coincidem com aqueles que são estabelecidos pelas religiões. Como os primeiros cristãos descobriram e anunciaram – diante do olhar escandalizado de todas as religiões –, a morada de Deus no mundo é a comunidade de irmãos e irmãs que, embasada no amor, se reúne para fazer celebrar a fé e partilhar o pão.
O encontro seguido da visita de Jesus à casa Zaqueu faz com que ele se torne mais autêntico e generoso que os fariseus mais perfeitos. João Batista havia determinado simplesmente que os publicanos não cobrassem mais do que fora estabelecido (cf. Lc 3,12-13), mas Zaqueu se propõe a devolver quatro vezes o que subtraiu aos outros, cumprindo ao pé da letra o que pedia a Lei (cf. Ex 21,37). Enquanto os fariseus pagam apenas o dízimo, Zaqueu dá a metade dos bens aos pobres! A experiência de ser visto e reconhecido por Jesus possibilita que Zaqueu revele a generosidade e a justiça que não eram vistas por ninguém e a grandeza humana que se escondia na sua pequena estatura.
Jesus de Nazaré, incansável peregrino nos santuários das dores humanas, adorável hóspede que resgata nossa dignidade e suscita uma inaudita generosidade. Faz da tua e nossa Comunidade uma família de gente nova, um povo-semente de uma vida que mereça este nome. Arranca do nosso meio a ilusão de que precisamos subir para te encontrar. Liberta-nos da acomodação e faz de nós pessoas e igrejas em descida e saída para encontrar e abraçar a humanidade. E ensina-nos a te encontrar no burburinho das ruas, nas casas que apesar de tudo se mantêm abertas e em toda carne que clama por ti. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Livro da Sabedoria 11,22-12,2 * Salmo 144 (145) * 2ª Carta a os Tessalonicenses  1,11-2,2 * Lucas  19,1-10)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Preparando o domingo - 30.10.2016

Hoje, a salvação entrou nesta casa (Lc 19,1-10)


De novo entra em cena a figura de um “publicano”, desta vez de nome conhecido: Zaqueu! Os governantes arrendavam áreas do país para publicanos ricos, que embolsavam o que conseguiram extorquir além das taxas estabelecidas. Estes chefes dos publicanos empregavam outros para fazer a cobrança - e enfrentar a celeuma do povo - sentados nos telônios nas portas das cidades e nas encruzilhadas das rotas das caravanas.
Zaqueu era chefe dos cobradores de impostos da cidade de Jericó, e por isso, por causa da sua extorsão, muito rico - e com certeza muito odiado e desprezado.
Porém, Lucas nos mostra que ninguém é tão perdido que não possa ser salvo pela misericórdia de Deus. Ninguém está além da possibilidade de salvação. Com umas rápidas pinceladas, ele traça o caminho da conversão e salvação de Zaqueu.
Com certeza, Zaqueu tinha ouvido falar da atividade e dos ensinamentos de Jesus, e tinha uma enorme vontade de conhecer mais de perto este homem tão diferente dos outros rabinos ou mestres religiosos do seu tempo. Nem levava em conta perder a sua dignidade, subindo em uma árvore. O importante mesmo era não perder o momento de Jesus passar.
Jesus acolhe este gesto de busca. Ele olha mais para esta chama de bondade do que para toda a maldade praticada anteriormente por Zaqueu. Pronuncia as palavras que iriam mudar para sempre a vida de Zaqueu: “Desça depressa, Zaqueu, porque hoje preciso ficar em sua casa.” (v. 5)
Por causa dessa iniciativa, o próprio mestre se torna alvo de críticas por parte dos “justos”: “Ele foi se hospedar na casa de um pecador” (v. 7). Como sempre, a novidade do Reino, trazida por Jesus rompe todos os esquemas sociais e religiosos pré-concebidos!
Diante do gesto de amor da parte de Jesus, trazendo para si o opróbrio normalmente reservado para Zaqueu, o publicano responde com um gesto concreto de conversão: “A metade dos meus bens, Senhor, eu dou aos pobres; e, se roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (v. 8).
Não é uma conversão teórica, mas muito concreta, e passa pelo econômico: devolver o dinheiro roubado, partilhar os bens! O amor de Jesus conseguiu o que o ódio e o desprezo jamais conseguiriam: a conversão de um pecador. “Hoje a salvação entrou nesta casa”. Mais uma vez Jesus ilustrou de maneira muito concreta que Ele veio “procurar e salvar o que estava perdido”.
A história nos convida a assumir cada vez mais as atitudes tanto de Jesus como de Zaqueu. De um lado, compreensão, misericórdia e perdão diante dos erros alheios; do outro, reconhecimento da nossa própria necessidade de perdão e conversão contínua, para que se dê em nossas vidas a experiência de Zaqueu, de que “Hoje a salvação entrou nesta casa!”
Thomas Hughes svd

domingo, 23 de outubro de 2016

A oração do cristão

O mais importante
O mais importante não é que eu te busque
mas sim que Tu me buscas em todos os caminhos (Gen 3,9);
Que eu te chame por teu nome,
mas que Tu tens o meu tatuado na palma de tua mão (Is 49,1);
Que eu te grite quando não tenho sequer palavra,
mas que Tu gemes em mim com teu grito (Rom 8, 26);
Que eu tenha projetos para ti,
mas que Tu me convidas a caminhar contigo rumo ao futuro (Mc 1, 17);
Que eu te compreenda,
mas que Tu me compreendes em meu último segredo (1 Cor 13,12);
Que eu fale de ti com sabedoria,
mas que Tu vives em mim e te expressas do teu jeito (2 Cor 4,10);
Que eu te guarde trancado em meu cofre,
mas que eu sou uma esponja no fundo de teu oceano (EE 335);
Que eu te ame com todo o meu coração e minhas forças,
mas que Tu me amas com todo o teu coração e tuas forças (Jo 13,1).
Porque como poderia eu buscar-te, chamar-te, amar-te
se Tu não me buscas, me chamas e me amas primeiro?
O silêncio agradecido é minha última palavra,
minha melhor maneira de encontrar-te.

(Benjamín González Buelta)

América!

POR UMA NOVA LINGUAGEM INCLUSIVA
No início dos anos 1990, fui dar uma conferência sobre o papel da mulher na Igreja. A organização pediu que o texto fosse enviado antes e assim o fiz. Recebi-o de volta com a seguinte observação: “Favor usar a linguagem inclusiva”. Atônita fui verificar de que se tratava. E descobri que não se usava mais a expressão “o homem” para designar a humanidade inteira. Recorria-se a expressões como “o homem e a mulher”, a “pessoa humana”, “ser humano” etc.
Aprendi, naquela ocasião, o que significava linguagem inclusiva. É a que não exclui uma das partes ao dizer o todo, mas expõe as diferenças, a fim de a tudo incluir. Passei a tomar muito cuidado quando escrevia sobre temas de antropologia teológica ou ciências humanas, usando sempre a linguagem inclusiva. E era ajudada pela vigilância da comunidade acadêmica, que desejava realmente introduzir esse novum no falar e no pensar.
Hoje, mais de vinte anos depois, percebo que a linguagem inclusiva encontrou realmente cidadania e se antes soava estranho dizer “o ser humano” para designar o todo da humanidade, hoje acontece o contrário. Soa estranho, retrógrado e inadequado usar a expressão “o homem” quando se quer referir algo tão cheio de matizes e sutis diferenças como a humanidade. Isso comprova que nossa linguagem é performativa, cria realidade e a configura, fazendo acontecer as coisas que não são para dentro do reinado do ser.
Hoje está em curso um outro processo de linguagem inclusiva. Refere-se ao espaço em que habitamos, ao continente em que vivemos, o lado de cá da Terra, que compreende do Alasca à Patagônia e é o único do mundo que pode ser percorrido inteiramente por terra, sem interrupções. Refiro-me à América, “descoberta” por Cristóvão Colombo em 1492, mas já habitada anteriormente por diversas tribos e nações de imensa riqueza cultural e diversidade linguística.
A parte norte do continente, colonizada por ingleses chegados no navio Mayflower, desenvolveu-se muito, enriqueceu notavelmente, incluindo nesse processo de desenvolvimento o massacre das tribos indígenas, a escravidão dos africanos e o saque a territórios antes pertencentes a outros países, como o México. A parte sul, denominada “Pátria Grande”, também tem pecados de opressão e colonialismo a confessar, mas não conseguiu a pujança de enriquecimento dos irmãos do Norte. Permanece marcada pela pobreza, a desigualdade e a opressão.
Disso redundou um isolamento da parte norte do continente que passou a autocompreender-se como desligado do Sul, assumindo para si apenas o nome que pertencia a todo o conjunto encontrado por Colombo: América. América passou a ser o outro nome dos Estados Unidos, nação grande e poderosa, rica e dominadora, que defende truculentamente suas fronteiras e mantém uma política externa opressiva e temida. Diante de seu potencial bélico e sua agressividade comercial, tremem os povos fracos e os países pobres.
O sul do continente teve dupla colonização: espanhola e portuguesa, e os países correspondentes aos diversos vice-reinados receberam nomes diferentes. Cada um deles é rico cultural e linguisticamente, mas muitas vezes carente de recursos materiais. Seus habitantes têm a autoconsciência de sua identidade em termos de país, mas não a de ser um grande continente, chamado desde o princípio América e assim permanecendo até os dias de hoje.
O Papa João Paulo II propôs, em 1996, que a Igreja fosse uma só em toda a América. De lá para cá não parece ter havido muitos progressos nesse sentido. O Papa Francisco também fez tentativas em suas visitas ao continente e muito especialmente em seu discurso ao congresso dos Estados Unidos, onde defendeu abertamente a causa dos migrantes que entram nos Estados Unidos atrás do chamado “sonho americano” de prosperidade e melhoria de vida.
Parece-me que deve-se somar a todos esses esforços de conscientização uma transformação da linguagem. Ao falar, pensar, escrever sobre esta parte do mundo, deve-se usar a grafia América, seguindo a grafia hispânica, que foi a primeira que o continente conheceu e com a qual foi batizado.
Assim, paulatinamente, o nome América poderá ir trabalhando as mentes, corações e consciências no sentido de que os índios guaranis e ianomâmis, as tribos quéchuas e os aymaras, os afro-brasileiros e os latinos migrantes nos EUA são tão americanos como os anglo-saxões. Poderemos assim esperar que a linguagem vá fazendo seu caminho no imaginário dos povos, incluindo todos em uma mesma denominação. E que se faça verdade o que disse o presidente Barack Obama no discurso em que anunciou a retomada das relações com Cuba: “Somos todos americanos”.

Maria Clara Bingemer

sábado, 22 de outubro de 2016

Dia Mundial das Missoes - 23.10.2016

Igreja missionária, testemunha de misericórdia
Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2016


Queridos irmãos e irmãs!
O Jubileu Extraordinário da Misericórdia, que a Igreja está vivendo, proporciona uma luz particular também ao Dia Mundial das Missões de 2016: convida-nos a olhar a missão ad gentes como uma grande, imensa obra de misericórdia. Com efeito, neste Dia Mundial das Missões, todos somos convidados a «sair», como discípulos missionários, para fazer frutificar os seus talentos, a sua criatividade, a sua sabedoria e experiência, para levar a mensagem da ternura e compaixão de Deus à família humana inteira.
Em virtude do mandato missionário, a Igreja tem a peito todos quantos não conhecem o Evangelho, pois deseja que todos sejam salvos e cheguem a experimentar o amor do Senhor. Ela «tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho» (MV, 12), e anunciá-la em todos os cantos da terra, até alcançar toda a mulher, homem, idoso, jovem e criança.
A misericórdia gera íntima alegria no coração do Pai, sempre que encontra cada criatura humana. Desde o princípio, Ele dirige-Se amorosamente mesmo às mais vulneráveis, porque a sua grandeza e poder manifestam-se precisamente na capacidade de empatia com os mais pequenos, os descartados, os oprimidos (cf. Dt 4, 31; Sal 86, 15; 103, 8; 111, 4). Ele é o Deus benigno, solícito, fiel; aproxima-Se de quem passa necessidade para estar perto de todos, sobretudo dos pobres; envolve-Se com ternura na realidade humana, tal como fariam um pai e uma mãe na vida dos seus filhos (cf. Jr 31, 20).
É ao ventre materno que alude o termo utilizado na Bíblia hebraica para dizer misericórdia: trata-se, pois, do amor duma mãe pelos filhos; filhos que ela amará sempre, em todas as circunstâncias suceda o que suceder, porque são fruto do seu ventre. Este é um aspeto essencial também do amor que Deus nutre por todos os seus filhos, especialmente pelos membros do povo que gerou e deseja criar e educar: perante as suas fragilidades e infidelidades, o seu íntimo comove-se e estremece de compaixão (cf. Os 11, 8). Mas Ele é misericordioso para com todos, o seu amor é para todos os povos e a sua ternura estende-se sobre todas as criaturas (cf. Sal144, 8-9).

A misericórdia encontra a sua manifestação mais alta e perfeita no Verbo encarnado. Jesus Cristo revela o rosto do Pai, rico em misericórdia: «não somente fala dela e a explica com o uso de comparações e parábolas, mas sobretudo Ele próprio a encarna e a personifica» (DV, 2). Aceitando e seguindo Jesus por meio do Evangelho e dos Sacramentos, com a ação do Espírito Santo, podemos tornar-nos misericordiosos como o nosso Pai celestial, aprendendo a amar como Ele nos ama e fazendo da nossa vida um dom gratuito, um sinal da sua bondade (cf. MV, 3).
A comunidade que, no meio da humanidade, vive em primeira linha a misericórdia de Cristo, é a Igreja. Ela sente sobre si o permanente olhar d’Ele que a escolhe com amor misericordioso e, deste amor, ela deduz o estilo do seu mandato, vive dele e dá-o a conhecer aos povos num diálogo respeitoso por cada cultura e convicção religiosa.
Como nos primeiros tempos da experiência eclesial, há tantos homens e mulheres de todas as idades e condições que dão testemunho deste amor de misericórdia. Sinal eloquente do amor materno de Deus é uma considerável e crescente presença feminina no mundo missionário, ao lado da presença masculina. As mulheres, leigas ou consagradas – e hoje também numerosas famílias –, realizam a sua vocação missionária nas mais variadas formas: desde o anúncio direto do Evangelho ao serviço sociocaritativo.
Ao lado da obra evangelizadora e sacramental dos missionários, aparecem as mulheres e as famílias que entendem, de forma muitas vezes mais adequada, os problemas das pessoas e sabem enfrentá-los de modo oportuno e por vezes inédito: cuidando da vida, com uma acrescida atenção centrada mais nas pessoas do que nas estruturas e fazendo valer todos os recursos humanos e espirituais para construir harmonia, relacionamento, paz, solidariedade, diálogo, cooperação e fraternidade, tanto no setor das relações interpessoais como na área mais ampla da vida social e cultural e, de modo particular, no cuidado dos pobres.
Em muitos lugares, a evangelização parte da atividade educativa, à qual o trabalho missionário dedica esforço e tempo, como o vinhateiro misericordioso do Evangelho (cf. Lc 13, 7-9; Jo 15, 1), com paciência para esperar os frutos depois de anos de lenta formação; geram-se assim pessoas capazes de evangelizar e fazer chegar o Evangelho onde ninguém esperaria vê-lo realizado. A Igreja pode ser definida «mãe», mesmo para aqueles que poderão um dia chegar à fé em Cristo.
Espero, pois, que o povo santo de Deus exerça o serviço materno da misericórdia, que tanto ajuda os povos que ainda não conhecem o Senhor a encontrá-Lo e a amá-Lo. Com efeito a fé é dom de Deus, e não fruto de proselitismo; mas cresce graças à fé e à caridade dos evangelizadores, que são testemunhas de Cristo. Quando os discípulos de Jesus percorrem as estradas do mundo, é-lhes pedido aquele amor sem medida que tende a aplicar a todos a mesma medida do Senhor; anunciamos o dom mais belo e maior que Ele nos ofereceu: a sua vida e o seu amor.
Cada povo e cultura tem direito de receber a mensagem de salvação, que é dom de Deus para todos. E a necessidade dela redobra ao considerarmos quantas injustiças, guerras, crises humanitárias aguardam, hoje, por uma solução. Os missionários sabem, por experiência, que o Evangelho do perdão e da misericórdia pode levar alegria e reconciliação, justiça e paz.
O mandato do Evangelho – «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt 28, 19-20) – não terminou, antes pelo contrário impele-nos a todos, nos cenários presentes e desafios atuais, a sentir-nos chamados para uma renovada «saída» missionária, como indiquei na Exortação Apostólica Evangelii gaudium: «cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho» (n. 20).

Precisamente neste Ano Jubilar, celebra o seu nonagésimo aniversário o Dia Mundial das Missões, promovido pela Pontifícia Obra da Propagação da Fé e aprovado pelo Papa Pio XI em 1926. Por isso, considero oportuno recordar as sábias indicações dos meus Predecessores, estabelecendo que fossem destinadas a esta Obra todas as ofertas que cada diocese, paróquia, comunidade religiosa, associação e movimento, de todo o mundo, pudessem recolher para socorrer as comunidades cristãs necessitadas de ajuda e revigorar o anúncio do Evangelho até aos últimos confins da terra. Também nos nossos dias, não nos subtraiamos a este gesto de comunhão eclesial missionário; não restrinjamos o coração às nossas preocupações particulares, mas alarguemo-lo aos horizontes da humanidade inteira.
Santa Maria, ícone sublime da humanidade redimida, modelo missionário para a Igreja, ensine a todos, homens, mulheres e famílias, a gerar e guardar por todo o lado a presença viva e misteriosa do Senhor Ressuscitado, que renova e enche de jubilosa misericórdia as relações entre as pessoas, as culturas e os povos.

Vaticano, 15 de maio – Solenidade de Pentecostes – de 2016.

FRANCISCO

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O Evangelho dominical - 23.10.2016

A POSTURA JUSTA

Segundo Lucas, Jesus dirige a parábola do fariseu e o publicano a alguns que presumem de ser justos ante Deus e desprezam todos os outros. Os dois protagonistas que sobem ao templo para orar representam duas atitudes religiosas opostas e irreconciliáveis. Mas, qual é a postura justa e acertada ante Deus? Esta é a pregunta de fundo.
O fariseu é um observante escrupuloso da lei e um praticante fiel da sua religião. Sente-se seguro no templo. Reza de pé e com a cabeça erguida. A sua oração mais bonita: uma oração de louvor e ação de graças a Deus. Mas não lhe dá graças pela sua grandeza, a sua bondade ou misericórdia, mas pelo bom e grande que é ele mesmo.
Em seguida observa-se algo falso nesta oração. Mais que orar, este homem contempla-se a si mesmo. Conta a sua própria história cheia de méritos. Necessita sentir-se em ordem diante de Deus e exibir-se como superior aos demais.
Este homem não sabe o que é orar. Não reconhece a grandeza misteriosa de Deus nem confessa a sua própria pequenez. Procurar Deus para enumerar ante ele as nossas boas obras e desprezar os demais é postura imbecil. Depois da sua aparente piedade esconde-se uma oração de «ateu». Este homem não necessita de Deus. Não lhe pede nada. Basta-se a si mesmo.
A oração do publicano é muito diferente. Sabe que a sua presença no templo é mal vista por todos. O seu trabalho de cobrador é odiado e desprezado. Não se desculpa. Reconhece que é pecador. Os seus golpes no peito e as poucas palavras que sussurra dizem tudo«Oh Deus! tem compaixão deste pecador».
Este homem sabe que não pode vangloriar-se. Não tem nada para oferecer a Deus, mas muito que receber dele: o Seu perdão e a sua misericórdia. Na sua oração há mais autenticidade. Este homem é pecador, mas está no caminho da verdade.
O fariseu não se encontrou com Deus. Este cobrador, pelo contrário, encontra a postura correta ante Ele: a atitude do que não tem nada e necessita tudo. Não se detém sequer a confessar com detalhe as suas culpas. Reconhece-se pecador. Dessa consciência brota a sua oração: «Tem compaixão deste pecador».
Os dois sobem ao templo a orar, mas cada um leva no seu coração a sua imagem de Deus e o seu modo de relacionar-se com Ele. O fariseu continua enredado numa religião legalista: para Ele o importante é estar em ordem com Deus e ser mais observante que ninguém. O cobrador, pelo contrário, abre-se ao Deus do Amor que predica Jesus: aprendeu a viver do perdão, sem vangloriar-se de nada e sem condenar a ninguém.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

ANO C – TRIGÉSIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 23.10.2016

O Evangelho da misericórdia gera justiça e paz!

No centro do evangelho de hoje está a questão da correta atitude na oração. Se, no último domingo, Jesus pedia que não desistamos de rezar, hoje ele nos pede atenção sobre o modo de rezar. Jesus confronta a postura de dois personagens bem conhecidos: o fariseu, cioso de sua superioridade e perfeição, separado das pessoas comuns, ostensiva e exteriormente piedoso; o publicano, cobrador de impostos, colaborador do poder estrangeiro, impuro e execrável aos olhos dos judeus nacionalistas, excluído da vida social e religiosa que gira em torno do templo. Mas, na sua mensagem para o Dia das Missões, o Papa Francisco nos lembra que o evangelho da misericórdia gera reconciliação, igualdade e justiça.
Desejoso de ser visto e reconhecido, o fariseu reza de pé, e olha os demais de cima para baixo. Sua oração é uma espécie de autoelogio, marcada pelo desprezo e pela condenação dos demais, considerados inferiores e pecadores. É como se Deus fosse obrigado a agradecer o fariseu por ele ser bom e correto. O publicano não entra no templo e, sem coragem até de levantar os olhos, bate no peito reconhecendo sua condição ambivalente e pedindo que Deus se compadeça dele. É bem possível que estas diferentes posturas na oração não sejam um problema somente do judaísmo, nem dos primeiros cristãos...
A ostentação e a pretensão de superioridade, sempre acompanhadas de uma agressiva discriminação, contaminaram também os cristãos e, infelizmente, resistem, como erva daninha difícil de erradicar, até nossos dias. E, o que é pior, quase sempre vêm revestidas com a atraente roupagem da piedade... Mas, desde o mito bíblico de Abel e Caim, sabemos que Deus que não trata todas as pessoas do mesmo modo. “Ele não é parcial em prejuízo do pobres, mas escuta, sim, as súplicas dos oprimidos; jamais despreza a súplica do órfão, nem da viúva, quando desabafa suas mágoas”, lembra o livro do Eclesiástico.
Por outro lado, precisamos lembrar que, por mais que nos custe admitir, nosso mundo está dividido. Não é necessário viajar o mundo para perceber que, em termos gerais, os países do Norte, vivem na abundância de bens e oportunidades, enquanto que os países do Sul são condenados a digerir a miséria à qual a secular expropriação os condenou. E existem também divisões entre pessoas e grupos sociais... Basta lembrar a primazia que a mídia dá às pessoas e grupos ocidentais, brancos, masculinos, cultos e ricos. Os negros e índios, as mulheres, os analfabetos e os pobres são tratados como inferiores.
Será que esta divisão nefasta e nada evangélica está presente também no interior das nossas igrejas? Infelizmente, parece que sim! Basta dar uma olhada atenta à primazia conferida às Igrejas europeias – à teologia, ao direito e à liturgia por elas elaboradas – no confronto com as Igrejas do Terceiro Mundo. E não podemos esquecer aquela profunda e dolorida divisão – que às vezes se transforma em oposição e em condenação recíproca – entre as próprias comunidades cristãs: ortodoxos e romanos, católicos e protestantes, igrejas clássicas e igrejas pentecostais, e assim por diante. Fariseus versus publicanos!
A humanidade tem como vocação ser uma só família, e essa é também a vontade de Deus. A interdependência dos povos e nações é já um fato objetivo, mas precisa se tornar um valor subjetivo, garantido ética e institucionalmente. O desafio é transformar essa solidariedade objetiva e estrutural num valor buscado e assegurado para todos. A dignidade da pessoa humana independe da sua origem étnica, da pertença religiosa, da nacionalidade, da convicção política, da identidade sexual, da instrução. Estas diferenças não dividem, nem hierarquizam; apenas distinguem, complementam e enriquecem.
Ao ouvir a prece da pessoa humilde e discriminada, Deus resgata sua dignidade e a verdadeira igualdade entre todos os seres humanos. A este propósito, é impressionante o testemunho de Paulo. Ele combate com tenacidade a pretensão de superioridade dos judeus e dos novos cristãos de origem judaica frente aos cristãos vindos do paganismo. Quando diz, em forma de testamento, que combateu o bom combate, completou a corrida e guardou a fé, está se referindo à sua convicção de que Cristo é nossa paz, pois de dois povos fez um só povo, derrubando o muro da inimizade que os separava (cf. Ef 2,14).
Deus Pai e Mãe, tu fazes a prece do humilde atravessar as nuvens e escutas atenta e cordialmente o clamor dos oprimidos. Então, despoja-nos de todo orgulho arrogante e de toda competição infantil. Ajuda-nos a anunciar teu Evangelho integralmente e a fazer resplandecer, pelo anúncio e pelo testemunho, a boa notícia e a boa convivência que ele nos pede. Ajuda-nos a vislumbrar em Jesus teu rosto compassivo e misericordioso, e anunciá-lo a todos. E isso até que a humanidade seja de fato uma só família, na qual todos os membros são queridos e respeitados, para além de toda e qualquer diferença. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Eclesiastico 31,15-22 * Salmo 33 (34) * 2ª Carta a Timóteo  3,6-8.16-18 * Evangelho de São Lucas 18,9-14)

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Preparando o domingo - 23.10.2016

A verdadeira oração:
O fariseu e o publicano (Lucas 18,9-14)


No texto de hoje, Jesus apresenta uma parábola na qual o avesso é o lado certo. Ela mostra que Jesus tinha outra maneira de ver a vida. Jesus conseguia enxergar uma revelação de Deus lá onde todo o mundo só enxergava coisa ruim. Por exemplo, ele via algo de positivo no publicano, de quem todo mundo dizia: "Ele nem sabe rezar". Jesus vivia tão unido ao Pai pela oração, que tudo se tornava expressão de oração para ele.
SITUANDO
Neste texto, Jesus trata da oração. É a segunda vez que Lucas traz palavras de Jesus para ensinar como rezar. Na primeira vez (Lucas 11,1-13), ensinou o Pai-Nosso e, por meio de comparações e parábolas, ensinou que devemos rezar com insistência, sem esmorecer (cf. Lucas 18,1-8).
Agora, nesta segunda vez, ele recorre à parábola tirada da vida para ensinar sobre a humildade. A maneira de apresentar a parábola é muito didática. Primeiro, Jesus faz uma breve introdução que serve de chave de leitura. Em seguida, conta a parábola. No fim, o próprio Jesus faz a aplicação, mostrando que o avesso é o lado certo. 
COMENTANDO
Lucas 18,9: A introdução
A parábola é introduzida com a seguinte frase: "Contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros!" A frase é de Lucas e se refere, simultaneamente, ao tempo de Jesus e ao tempo do próprio Lucas, em que as comunidades da tradição antiga desprezavam as que vinham do paganismo.
Lucas 18,10-13: A parábola
Dois homens sobem ao Templo para rezar: um fariseu e um publicano. Na opinião do povo daquela época, um publicano não prestava para nada e não podia dirigir-se a Deus, pois era uma pessoa impura.
Na parábola, o fariseu agradece a Deus por ser melhor do que os outros. A sua oração nada mais é do que um elogio de si mesmo, uma auto exaltação das suas boas qualidades, um desprezo pelos outros.
O publicano nem sequer levanta os olhos, bate no peito e apenas diz: "Meu Deus, tem dó de mim que sou um pecador!" Ele se coloca no seu lugar diante de Deus.
Lucas 18,14: A aplicação
Se Jesus tivesse deixado o povo dizer quem voltou justificado para casa, todos teriam dito: "É o fariseu". Jesus, no entanto, pensa diferente. Quem voltou justificado, isto é, em boas relações com Deus, não é o fariseu, mas sim o publicano.
Novamente, Jesus virou tudo pelo avesso. Muita gente não deve ter gostado da aplicação que Jesus fez desta parábola.
Carlos Mesters e Mercedes Lopes

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Encontro de Formação Missionaria

“Vão também vocês trabalhar na minha vinha...”
Tendo esta frase da parábola de Mateus 20,7 como frase-guia, as comunidades da Paróquia São Sebastião da Boa Vista, Bairro Kennedy (Contagem, Arquidiocese de Belo Horizonte), se reuniram ontem numa jornada de formação e convivência missionaria. Aproximadamente 65 lideranças de diversos setores, grupos e comunidades aceitaram o desafio, das 8:00 às 17:00!
É verdade que a formação e a missão não se resumem nem resolvem nestes encontros mais formais e teóricos, mas o empenho de cada um e de todos, a disposição de estar juntos, a sede de aprender e de fazer, proporcionam uma bela experiência de vida cristã. E isso sem esquecer, é claro, das pessoas que se empenharam na infraestrutura, da animação à cozinha, assim como dos Juniores MSF, que também participaram e contribuíram.
Na parte da manhã, depois da missão comunitária, com a qual iniciamos o encontro, refletimos e discutimos sobre a alegria e os desafios de ser missionário, tomando como inspiração e provocação as orientações do Papa Francisco, na encíclica A alegria do Evangelho, e do recente documento dos Bispos do Brasil sobre a missão dos leigos e leigas (Doc. 105). Na parte da tarde, refletimos sobre a missão, seus agentes e os possíveis campos prioritários na nossa área pastoral, concluindo com sugestão de projetos e iniciativas concretas.
Na sua Mensagem para a Jornada Mundial de Oração pelas Missões de 2016, o Papa Francisco retoma a provocação que nos deixa na Evangelii Gaudium: “Cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (n° 20).
Por sua vez, a respeito da missão dos leigos e leigas, os Bispos do Brasil afirmam: “Os cristãos leigos e leigas que vivem sua fé na vida cotidiana, nos trabalhos de cada dia, nas tarefas mais humildes, no voluntariado, cuja vida está escondida em Deus, são o perfume de Cristo, o fermento do Reino, a gloria do Evangelho! (Doc. 105, n° 35). Por isso, “não é evangélico pensar que os ministros ordenados (diáconos, padres e bispos) sejam mais importantes e mais dignos, sejam ‘mais igreja’ que os leigos e leigas. A dignidade não vem dos serviços e ministérios que cada um exerce, mas da iniciativa de Deus, da incorporação a Cristo pelo batismo!” (Idem, n° 109).
Para concluir, recordemos mais uma afirmação contundente e provocativa do Papa Francisco: “A missão não pode ser apenas uma parte da nossa vida, um ornamento que podemos dispensar, um simples apêndice ou momento entre tantos outros. É algo que não posso arrancar do meu ser, se não quero me destruir. Somos como que marcados a fogo por esta missão de iluminar, abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar” (Evangelii Gaudium, n° 273).

Itacir Brassiani msf

domingo, 16 de outubro de 2016

V Assembleia do Povo de Deus de Belo Horizonte

Igreja missionária, servidora da Palavra

Parcial do Plenario
“Deus mostrou seu rosto amoroso na história do mundo e por ele se comoveu, envolvendo-se com ele (cf. Ex 3,7). Mostrou-se, de maneira definitiva, em seu Filho Jesus, a Palavra que se irmanou a nós, em nossa carne, revelando-nos a vida de comunhão à qual todos/as somos chamados/as a viver...”
É com estas palavras que se inicia o Projeto de Evangelização da Arquidiocese de Belo Horizonte, aprovado na tarde de hoje pela V Assembleia do Povo de Deus, momento culminante de um processo amplo e participativo que se estendeu por mais de seis meses. Hoje, 15 de outubro, das 8:00 às 17:00 h, aproximadamente mil delegados/as, distribuídos em 22 grupos, debateram e aprovaram 30 propostas de evangelização, distribuídas em 10 diferentes áreas vitais.
As 10 áreas ou temas-articuladores são os seguintes: rede de comunidades; opção preferencial pelos pobres; Igreja da acolhida, fé, política e cidadania; família; protagonismo dos leigos e leigas; opção preferencial pelas juventudes; formação integral e permanente; catequese; comunicação e cultura. Em cada uma destas áreas ou temas, aprovamos uma proposta na dimensão da pessoa, uma proposta na dimensão da comunidade e uma proposta na dimensão da sociedade.
Parcial dos grupos de trabalho
Processos e momentos como esse são muito significativos, tanto do ponto de vista da formação da consciência eclesial como do ponto de vista do protagonismo dos leigos e leigas. As assembleias paroquiais, forâneas e regionais, assim como algumas assembleias setoriais (dos religiosos e religiosas, das juventudes) que antecederam a grande assembleia de hoje conferem às propostas votadas uma consistência e uma pertinência inquestionáveis.
Os grandes desafios que nos esperam são, na minha percepção, três: a) motivar e envolver de fato e em profundidade as paroquias, movimentos e agentes na assimilação criativa e na efetivação das propostas aprovadas; b) trazer as propostas para programas e atividades em âmbito forâneo e paroquial; c) elaborar um projeto de pastoral que estabeleça prioridades e articule iniciativas pertinentes em âmbito de Arquidiocese.

Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Evangelho dominical - 16.10.2016

O CLAMOR DOS QUE SOFREM

A parábola da viúva e do juiz sem escrúpulos é, como tantos outros, um relato aberto, que pode suscitar nos ouvintes diferentes ressonâncias. Segundo Lucas, é uma chamada para orar sem desanimar, mas é também um convite para confiar que Deus fará justiça a quem lhe grita dia e noite. Que ressonância pode ter hoje em nós este relato dramático que nos recorda a tantas vítimas abandonadas injustamente à sua sorte?
Na tradição bíblica, a viúva é símbolo por excelência da pessoa que vive só e desamparada. Esta mulher não tem marido nem filhos que a defendam. Não conta com apoios nem recomendações. Só tem adversários que abusam dela, e um juiz sem religião nem consciência a quem não importa o sofrimento de ninguém.
O que pede a mulher não é um capricho. Só reclama justiça. Este é o seu protesto repetido com firmeza ante o juiz: «Faz-me justiça». A sua petição é a de todos os oprimidos injustamente. Um grito que está na linha do que dizia Jesus aos seus: “Buscai o reino de Deus e a sua justiça”.
É certo que Deus tem a última palavra e fará justiça a quem lhe grita dia e noite. Esta é a esperança que acendeu em nós Cristo, ressuscitado pelo Pai de uma morte injusta. Mas, enquanto chega essa hora, o clamor de quem vive gritando sem que ninguém escute o seu grito, não cessa.
Para uma grande maioria da humanidade, a vida é uma interminável noite de espera. As religiões pregam Salvação. O cristianismo proclama a vitória do Amor de Deus encarnado em Jesus crucificado. Entretanto, milhões de seres humanos só experimentam a dureza dos irmãos e irmãs e o silêncio de Deus. E, muitas vezes, somos os mesmos crentes que ocultamos o Seu rosto de Pai velando-o com o nosso egoísmo religioso.
Por que é que a nossa comunicação com Deus não nos faz escutar por fim o clamor dos que sofrem injustamente e nos gritam de mil formas: «Fazei-nos justiça»? Se, ao rezar, nos encontramos de verdade com Deus, como não somos capazes de escutar com mais força as exigências de justiça que chegam até ao seu coração de Pai?
A parábola interpela-nos a todos os crentes. Seguiremos alimentando as nossas devoções privadas esquecendo quem vive em sofrimento? Continuaremos a rezar a Deus para colocá-lo ao serviço dos nossos interesses, sem que nos importem muito as injustiças que há no mundo? E se rezar fosse precisamente esquecermos de nós e procurar com Deus um mundo mais justo para todos?
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez