quarta-feira, 30 de novembro de 2016

ANO A – SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO – 04.12.2016

Preparemos o Natal semeando e cultivando a Esperança!

O profeta Isaías nos ajuda a entender que a esperança dos cristãos vem a partir de baixo da pirâmide social e das margens dos sistemas de poder. Num tempo em que Israel vivia a tragédia de uma monarquia que dava às costas ao povo, sufocando seus direitos sob o rumor ritmado das botas do exército, Isaías convida este mesmo povo a fixar seu olhar em algo que está por acontecer: “Um broto vai surgir do toco que restou de Jessé... Ele julgará os fracos com justiça, dará sentenças em favor dos pobres da terra... A justiça será o cinto que ele usa, a verdade o cinturão que ele não deixa...”
Parece incrível, mas o profeta diz que não se deve esperar mais nada da monarquia, que é preciso voltar ao toco de Jessé, ao pai de Davi, às origens populares da liderança. O futuro não está nas mãos do sucessor de plantão, mas nas iniciativas promissoras e alternativas de uma comunidade-broto que se deixa inspirar pelo Espírito de Javé, que afirma o direito dos fracos e humilhados, que só é implacável com os opressores. Nesse povo-novo não há relações violentas ou dominadoras: o lobo hospeda o cordeiro, o leão dorme ao lado do cabrito, as crianças brincam tranquilamente com as serpentes...
João Batista retoma este sonho de Isaías e diz que a realização dessa utopia não está longe. “O Reino dos céus está próximo!” Na verdade, o reinado de Deus já está em ação, e pede que entremos no seu dinamismo. É porque Deus está fazendo novas todas as coisas que precisamos converter-nos. O dinamismo da conversão parte da boa notícia de que Deus continua dando seu aval aos anseios mais caros e preciosos da humanidade. Em tempos de Advento, a conversão se expressa na alegre descoberta de que algo estupendo está acontecendo e pede a nossa colaboração!
Por isso, na linha da pregação de João Batista, a preparação para o Natal vai muito além de uma bela decoração das casas, ruas e templos. A esperança que nos anima não se baseia nos privilégios de classe ou raça, nem se reduz a algumas preces a mais ou a uma confissão rápida e superficial. Às elites religiosas, desejosas de manter a aparência de piedade e de correção sem mudar as práticas opressoras, João Batista grita: “Produzi fruto que mostre vossa conversão. O machado está posto à raiz das árvores. Toda árvore que não der fruto bom será cortada e jogada no fogo.” Restarão apenas todos secos...
Preparar os caminhos do Senhor em tempos de direitos humanos e sociais ameaçados significa afirmar o direito de toda pessoa à vida e à segurança, à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; proclamar que nenhuma pessoa pode ser mantida em escravidão, submetida à tortura ou tratada ou castigada de forma cruel, desumana ou degradante; garantir que toda pessoa possa participar da vida cultural da comunidade, fruir as artes e participar do processo científico e de seus benefícios; assegurar aos trabalhadores uma remuneração justa e satisfatória, que lhes assegure uma vida digna...
Ancorado na própria experiência, Paulo a Palavra de Deus foi escrita para que sejamos fortalecidos e mantenhamo-nos firmes na esperança, considerando que de Deus nos vem a concórdia e a harmonia. Permanecer firme na esperança tem pouco a ver com a crença numa utopia intimista ou escapista. Nas palavras ousadas de Jesus, Deus reina quando os últimos se tornam os primeiros e os primeiros passam para o fim da fila. A firmeza da esperança que nos mantém constantes é sustentada pela fé em Jesus Cristo crucificado e no Reino que ele anunciou, celebrou e realizou.
Pedindo nosso empenho pessoal no entendimento e na acolhida recíproca, Paulo nos exorta à vivência da acolhida e do entendimento entre os diferentes: católicos e evangélicos, cristãos e não cristãos, crentes e ateus engajados na construção de um outro mundo. Tendo como que um só coração e uma só voz, glorificaremos o Deus e Pai de Jesus Cristo, aquele que vem ao nosso encontro em Belém. Pessoas e grupos diferentes são todos vocacionados a glorificar e servir a Deus, cada um a seu modo!  Será que os sonhos e as dores compartilhadas, como essa da tragédia que abateu inteiramente a equipe de futebol da Chapecoense, não têm força para colocar juntos até lobos e cordeiros, crianças e serpentes?
Ó Pai, queremos renascer a partir de baixo, de mãos dadas com todos aqueles que nada contam para os grandes. Ajuda-nos a mudar nosso modo de ver e de pensar, os critérios de avaliação e as prioridades de ação. Convence-nos de que não podemos descansar enquanto todos os seres humanos não forem reconhecidos em sua dignidade e tratados como dignos membros da única família. Mediante a palavra e o testemunho de João Batista, convence-nos de que não podemos apelar aos privilégios sociais, culturais e religiosos, e ensina-nos a sonhar coisas novas, como sonhou e viu o profeta Isaías. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaías 11,1-10 * Salmo 71 (72) * Carta aos Romanos 15,4-9 * Evangelho de São Mateus 3,1-12)

Preparando o domingo - 04.12.2016

Arrependimento e conversão (Mateus 3,1-12)
A doutrina do profeta precursor como um novo Elias estava baseada na expectativa da vinda do Messias. Os doutores da lei ensinavam que antes da chegada do Messias deveria haver um grande arrependimento do povo (Mt 11.10). Em diferentes comentários os rabinos mencionavam as profecias de Ml 3.1; 4.5-6 e Is 40.3 e as utilizavam para enfatizar a necessidade de arrependimento e conversão.
Apesar disso, fariseus e doutores acreditavam que chegariam ao Messias através da observância da tradição. Desde o exílio, as autoridades religiosas preocupavam-se com a restauração da nação. A expectativa sempre foi grande. Manter o moral alto, porém, sempre foi uma grande dificuldade. Sucessivas derrotas políticas e militares criaram uma enorme insatisfação. Diríamos hoje que o povo estava frustrado. É a crise de identidade. Naquela época, essa crise se manifestava com maior intensidade, já que para se chegar ao Messias era necessária a tradição.
Por isso, João afirmava que na radicalização da chegada do Senhor não mais era fator de segurança ser da descendência de Abraão (v. 9). Exigia-se, antes de tudo, metanoia. Podemos imaginar o impacto dessa afirmação! De repente, a segurança de fariseus e doutores ia por água abaixo.
Batismo com água — batismo com o Espírito Santo e com fogo
Já no pós-exílio, o judaísmo adotara o batismo como admissão de prosélitos a uma nova experiência religiosa. Com certeza, essa experiência não era exclusiva da religiosidade judaica. Banhos de purificação eram comuns a diversas culturas, religiosas ou não.
Água lava e purifica. Tira sujeiras. Carrega consigo o mau cheiro. Metanoia aponta para a purificação simbolizada no batismo de arrependimento em águas correntes. Aí está a diferença entre o batismo de João e os demais batismos. Estes apontavam para a iniciação ressaltando a pureza ritual. João destaca a pureza moral. Banhar-se no batismo de João era declarar-se arrependido.
Mas o que João quer dizer sobre o batismo com o Espírito Santo e com fogo de Jesus? Aí está a radicalidade dos profetas. Na sua visão escatológica, João aponta para a justiça. Quem passar pelo fogo estará salvo. É uma nova nação de gente boa. Quem não passar pelo fogo, queimará (...) em fogo inextinguível (v. 12).
Fogo no Evangelho de Mateus enfatiza conceitos fundamentais, como justiça e lei. O que importa em Mateus é agir. Este é o critério definitivo. Os verdadeiros discípulos de Jesus o seguem, não apenas o ouvem. Seguir é caminhar após, nos mesmos princípios do Mestre.
Batismo no fogo exige envolvimento
“Não se enganem; não sejam apenas ouvintes dessa mensagem, mas ponham em prática o que ela manda. Porque aquele que ouve a mensagem e não a pratica é como a pessoa que olha no espelho e vê como ela é. Dá uma olhada, depois vai embora e logo se esquece da sua aparência. Mas quem examina bem a lei perfeita que dá liberdade às pessoas e continua firme nela não é somente ouvinte mas praticante do que essa lei manda. E Deus abençoará tudo o que essa pessoa fizer. (Tg 1.22-25.)
Roberto N. Baptista

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O evangelho dominical - 27.11.2016

COM OS OLHOS ABERTOS

As primeiras comunidades cristãs viveram anos muito difíceis. Perdidos no vasto Império de Roma, no meio de conflitos e perseguições, aqueles cristãos procuravam força e alento esperando a pronta vinda de Jesus e recordando as suas palavras: «Vigiai. Vivei despertos. Tende os olhos abertos. Estai alerta».
Significarão todavia algo para nós estas chamadas de Jesus para viver despertos? Que é hoje para os cristãos colocar a nossa esperança em Deus vivendo com os olhos abertos? Deixaremos que se esgote definitivamente no nosso mundo secular a esperança numa última justiça de Deus para essa imensa maioria de vítimas inocentes que sofrem sem culpa alguma?
A forma mais fácil de falsear a esperança cristã é precisamente esperar de Deus a nossa própria salvação eterna enquanto damos as costas ao sofrimento que há agora mesmo no mundo. Um dia teremos que reconhecer a nossa cegueira ante Cristo Juiz: quando te vimos com fome ou sedento, estrangeiro ou nu, doente ou na prisão, e não te assistimos? Este será o nosso diálogo final com Ele se vivemos com os olhos fechados.
Temos de despertar e abrir bem os olhos. Viver vigilantes para olhar mais para lá dos nossos pequenos interesses e preocupações. A esperança do Cristão não é una atitude cega, pois não esquece os que sofrem. A espiritualidade cristã não consiste só num olhar para o interior, pois o seu coração está atento a quem vive abandonado à sua sorte.
Nas comunidades cristãs temos de cuidar cada vez mais para evitar que o nosso modo de viver a esperança não nos leve à indiferença e ao esquecimento dos pobres. Não podemos isolar-nos na religião para não ouvir o clamor dos que morrem diariamente de fome. Não nos está permitido alimentar a nossa ilusão de inocência para defender a nossa tranquilidade.
Uma esperança em Deus que se esquece dos que vivem nesta terra sem poder esperar nada, não poderá ser considerada como uma versão religiosa de um otimismo a todo o custo, vivido sem lucidez nem responsabilidade? Uma busca da própria salvação eterna de costas para os que sofrem, não poderá ser acusada de ser um sutil «egoísmo alargado para o mais além»?
Provavelmente, a pouca sensibilidade ao sofrimento imenso que há no mundo seja um dos sintomas mais graves do envelhecimento do cristianismo atual. Quando o Papa Francisco reclama «uma Igreja mais pobre e dos pobres», está a gritar-nos a sua mensagem mais importante e interpeladora aos cristãos dos países do bem-estar.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

O Papa Francisco e a Misericordia

AINDA E SEMPRE A MISERICÓRDIA
O Papa fechou a Porta Santa e encerrou o ano da misericórdia. Mas, ao mesmo tempo, escreveu a carta apostólica Misericórdia et miseranda, que mostra que esta atitude deve ser o centro da vida de todo cristão. Comentarei detalhes importantes da carta na próxima crônica. Nesta resgato as raízes da centralidade da misericórdia para a vida.
A alguns pode deixar perplexos a misericórdia ser o maior desejo de Deus e não o sacrifício. Pois não nos ensinaram sempre que é importante fazer sacrifícios, porque esses agradam a Deus? Os da minha geração certamente perderam a conta de quantas tabelinhas de ramalhetes espirituais preencheram, em folhinhas parecidas com as do jogo de batalha naval, dando conta de quantos sacrifícios haviam sido feitos naquele mês. E esses sacrifícios consistiam em privar-se de balas, ou rezar ajoelhada no chão frio durante bastante tempo, ou passar um mês sem comer chocolates. Tudo isso para agradar a Deus. E agora nos dizem que ele não quer sacrifícios e sim misericórdia? Como assim?
Porque sabe disso, Jesus insiste. Sabe que não é espontânea em nós a prática da misericórdia. Não é natural nossa inclinação para olhar o outro sem julgá-lo, sem segregá-lo, sem classificá-lo com rótulos ou compartimentos que sigam nossos padrões. Pelo contrário, é costume nosso olhá-lo de cima. Pobre dele ou dela se não tem fé como nós, nem faz sacrifícios diários e miúdos que acumulamos, acreditando assim economizar para uma eternidade mais confortável ou mais brilhante.
Ganhar a salvação aplicando na poupança do sacrifício parece que não agrada a Deus. Pelo menos é isso que diz seu Filho Jesus, o único que O conhece verdadeiramente. E para reforçar ainda mais sua afirmação, Jesus o diz após ver seu poder questionado por ocasião da cura de um paralítico, depois de chamar para segui-lo um publicano malvisto entre o povo por ser desonesto e ladrão, após ser criticado por comer com publicanos e pecadores.
Impressionante contexto em que muitos de nós poderíamos identificar-nos facilmente com os críticos de Jesus. Esclarecedora situação em que estaríamos certamente entre os que julgam sem cessar o próximo e por isso têm muito que aprender em termos das preferências de Deus. Ele não se compraz com nossos sacrifícios, oferendas e rituais, com os quais pensamos comprar sua benevolência. Mas – pasmem! – deseja a misericórdia incessante e permanente, uma atitude de vida que nos faça aproximar-nos do outro com as entranhas carregadas de carinho, ternura e abertura total. Mesmo que o outro não seja puro, nem justo, nem imaculado, segundo os cânones oficiais.
Este é o aprendizado que somos convidados a encetar hoje e sempre. Não podemos acreditar-nos mestres da pureza e doutores da ascese, exibindo em praça pública quão grande é o nosso espírito de penitência e sacrifício. Estamos sendo carinhosamente chamados pelo Senhor, em convite reforçado pelas palavras de Francisco, a sermos discípulos da misericórdia, procurando humildemente aprender a fazer dela nosso estilo de vida.
Em tudo a misericórdia deve perpassar-nos de alto a baixo. Deve inspirar nossas palavras, fazendo-nos “sair dos círculos viciosos das condenações e vinganças, que continuam a encadear indivíduos e nações", tal como disse o Papa. A palavra do cristão, reiterou ele, "propõe-se fazer crescer a comunhão”. Portanto, logicamente não pode ser de juízo e condenação sobre o outro.
A misericórdia deve guiar nossos gestos. Estender a mão ao diferente, ouvir o angustiado, erguer o caído sem condená-lo, procurar colocar-se no lugar do outro para entender sua perspectiva e aprender com ela. O próprio Papa deu o exemplo ao encontrar-se em Cuba com o patriarca Kirill, da Igreja Ortodoxa russa, em fevereiro passado. Um gesto concreto que pôs fim a uma separação entre cristãos que já dura mais de mil anos.
Tudo isso é um delicado aprendizado. Para tanto, necessitamos de disciplina. E do tempo propício para aprender do próprio Deus, que quer misericórdia e não sacrifício, que é misericórdia em Si mesmo. Ao longo de toda a Escritura, nós podemos ver e ouvir esse Deus desviando o rosto das gordas oferendas rituais a Ele feitas com o coração carregado de dureza e intransigência, com a vida pontilhada de cupidez e avareza. Não é possível agradá-lo assim. Pois o que Ele quer é misericórdia.
Deus é Aquele que recebe o filho que se foi com festa nunca antes vista naquela casa; que deixa para trás as noventa e nove ovelhas fiéis e sadias para buscar a que se perdeu nos espinhos do caminho por não seguir a voz do pastor. Em Jesus, encarnação de sua misericórdia, Deus acolhe a adúltera sem uma palavra de condenação; aceita com gratidão a homenagem do amor da pecadora pública que entra no banquete do fariseu e banha com lágrimas e perfume seus pés cansados da poeira da estrada; cura doentes, toca leprosos, abraça crianças, liberta os pobres, faz os cegos verem, os surdos ouvirem e os coxos andarem. Olhando para Ele aprenderemos que a misericórdia é maior que o sacrifício.
Maria Clara Bingemer

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

ANO A – PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO – 27.11.2016

Preparemos o Natal revestindo-nos do Senhor Jesus Cristo!

Eis que inicia a preparação para a festa do Nascimento de Jesus, o rosto da misericórdia de Deus. Não esqueçamos que, de preparação para o Natal, ninguém entende mais que Maria, aquela de Nazaré. Ela não pensou em pinheirinhos, em luzes coloridas, em presentes e festas, nem mesmo em novenas. Depois de descobrir-se chamada a colaborar com o advento do mundo sonhado por Deus desde sempre, e depois de dar sua resposta madura e generosa, ela não perdeu tempo: viajou apressada ao encontro de Isabel para servi-la e para comprovar os sinais da visita de Deus no seu corpo e na história.
Na sua carta, Paulo pede que tenhamos consciência do tempo em que estamos e que despertemos, pois o tempo de graça e de paz, sonhado de geração em geração, está mais perto do que nunca. Será verdade? Os fatos não estão sinalizando exatamente o contrário? Nunca como hoje os direitos do povo estão sendo tão cinicamente ameaçados. Nunca como agora o mar Mediterrâneo se encheu de cadáveres de migrantes desesperados, sob o olhar indiferente do mundo ocidental. Nunca como nesta época de mercantilização da vida o desejo de mudança foi engolido ou anestesiado pelo desejo de consumo...
Não, Paulo não está delirando! Ele sabe que quem conhece a importância do momento que vive e sabe que o Dia está chegando, é capaz de despojar-se das ações que só prosperam nas sombras e nas trevas: a insensibilidade diante do sofrimento dos inocentes, o acovardamento diante do cinismo dos poderosos, a indiferença frente ao assalto aos direitos sociais mais elementares, a sede de prosperidade e bem-estar individual a qualquer custo, as brigas e guerras sempre irracionais, as festas e orgias que se multiplicam e insultam o crescente e criminoso empobrecimento de setores cada vez mais numerosos...
A verdadeira preparação para o encontro com o Senhor que vem se faz quando nos despojamos dos trajes vistosos que mal escondem sangue e clamor e nos revestimos do Senhor Jesus Cristo. Preparamo-nos para o advento do Reino de Deus trocando a roupa, tão burlesca como mentirosa, do Papai Noel e nos revestindo com os trajes surrados e autênticos de Jesus de Nazaré, o profeta da Galileia. Por mais simpático que queiram fazê-lo, o Papai Noel não passa de promotor de vendas de um mercado sedento de lucros, um vendedor de ilusões que nos embriagam e nos mantém adormecidos!
Revestir-se de Cristo significa fazer nossos os seus sentimentos, pensamentos e projetos. E ele viveu sua missão de enviado e amado do Pai eliminando as distâncias que separam pessoas, desfazendo as hierarquias que elevam uns sobre outros, compartilhando a mesa rejeitada pelos que querem sentar-se no tribunal como juízes, exercitando a compaixão quando muitos desejam a punição, repartindo tudo quando alguns não pensam senão em acumular, fazendo-se humano quando muitos pretendem ser divinos, abraçando a cruz e a anulação de si mesmo quando a maioria deseja apenas sucesso e a fama...
Sim, o Natal de Jesus e a vinda do seu reino nós os prepararemos permanecendo acordados, atentos e comprometidos. Segundo o evangelista, o próprio Jesus nos lembra que os contemporâneos de Noé não souberam avaliar o que estava germinando sob o próprio nariz e distraíram-se com festas, comidas e bebidas, o mesmo modo de preparar o Natal que o Mercado nos propõe hoje. Precisamos ficar atentos e alertas, porque não sabemos o dia em que o Senhor virá a nós, onde armará sua tenda e com que trajes baterá à nossa porta. Não nos enganemos pensando que ele nascerá em Belém, no dia 25 de dezembro...
“Ficai atentos! Ficai preparados! Já é hora de despertar! Deixai-vos guiar pela luz do Senhor! Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo!” Estas são palavras que ecoam com força e nos ensinam o modo correto de ir ao encontro do Cristo que vem. Precisamos transformar as espadas em enxadas, os fuzis em foices, os muros em pontes, os confrontos em abraços, o consumo em compaixão... Enfim, substituir ‘o bom velhinho’ pelo Deus Menino! Precisamos deixar-nos mover pelo ardente desejo de viver o Reino de Deus, acorrendo com nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem. E isso sem perder o senso de urgência dessa mudança de rumo e de práticas. Ele pode vir no momento menos esperado...
Ensina-nos, Jesus de Nazaré, a trilhar o caminho que conduz ao encontro contigo. Ajuda-nos a viver acordados, lúcidos e solidários as quatro semanas de Advento que se abrem diante de nós. Dá-nos um olhar límpido e inteligente, capaz de ver onde, como e quando teu Reino está germinando e pedindo nossa colaboração. Desperta em nós a coragem e a criatividade necessárias para transformar espadas em enxadas, lanças em foices, indiferença em compaixão, presentes em presença. E que não sejam desiludidos os pobres e desamparados que esperam somente em Ti! Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
 (Profecia de Isaías 2,1-5 * Salmo 121 (122) * Carta aos Romanos 13,11-14 * Evangelho de São Lucas 24,37-44)

Preparando o domingo - 27.11.2016

Atenção! Deus chega a cada momento! (Mateus 24,37-44)


SITUANDO
Chegamos ao quinto Sermão da Nova Lei. Cada um dos quatro Sermões anteriores iluminou um determinado aspecto do Reino. O primeiro: a justiça do Reino e as condições de entrada (Mt 5 a 7). O segundo: a missão dos cidadãos do Reino (Mt 10). O terceiro: a presença misteriosa do Reino na vida do povo (Mt 13). O quarto: viver o Reino em comunidade (Mt 18). O quinto Sermão trata da vigilância em vista da chegada definitiva do Reino. Mateus segue o esquema de Marcos, mas acrescenta algumas parábolas que falam da necessidade da vigilância e do serviço, da solidariedade e do julgamento.
No fim do século I, as comunidades viviam na expectativa da vinda imediata de Jesus. Elas diziam: "Quando Jesus passar eu quero estar no meu lugar!" E se perguntavam: "Quando Jesus vier, será que vou ser tomada ou vou ser deixada?"  Havia um clima semelhante ao de hoje, em que muitos dizem: "O fim do mundo vai chegar logo!" E se perguntam: "O que fazer para não ser pego de surpresa?" A resposta a estas indagações e preocupações encontramos no Sermão da Vigilância. 
COMENTANDO
Mateus 24,37-41: Como nos dias de Noé, um será tomado, outro será deixado
Quem determina a hora da chegada do fim é Deus. Mas o tempo de Deus não se mede pelo nosso relógio ou calendário. Para Deus, um dia pode ser igual a mil anos, e mil anos igual a um dia (Sl 90,4; 2Pd 3,8). O tempo de Deus corre independentemente de nós. Nós não podemos interferir nele, mas devemos estar preparados para o momento em que a hora de Deus se fizer presente dentro do nosso tempo. Pode ser hoje, pode ser daqui a mil anos. O que dá segurança não é saber a hora do fim do mundo, mas sim a Palavra de Jesus presente na vida. O mundo passará, mas a palavra dele jamais passará (cf. Is 40,7-8).
Mateus 24,42-44: Jesus vem numa hora em que a gente menos espera
Deus vem quando a gente menos espera. Pode até acontecer que Ele vem e a gente não percebe a hora da sua chegada. Jesus pede duas coisas: uma vigilância sempre atenta e, ao mesmo tempo, uma entrega tranquila de quem está em paz. Tal atitude é sinal de muita maturidade, em que se misturam preocupação vigilante e tranquilidade serena, e em que se consegue combinar a seriedade do momento com a consciência da relatividade de tudo.
ALARGANDO
Quando será o fim do mundo? Quando dizemos "FIM DO MUNDO", de que mundo estamos falando? O fim do mundo de que Jesus fala é o fim deste mundo, onde reina o poder do mal que esmaga e oprime a vida. Este mundo de injustiça terá um fim. Ninguém sabe quando nem como será o fim deste mundo (Mt 24,36), pois ninguém pode imaginar o que Deus preparou para aqueles que o amam (1Cor 2,9).
O novo mundo da vida sem morte ultrapassa tudo, como a árvore ultrapassa a sua semente (1Cor 15,35-38). Os primeiros cristãos estavam ansiosos para que este fim chegasse logo (2Ts 2,2). Ficavam olhando para o céu, esperando a chegada de Cristo (At 1,11). Alguns nem trabalhavam mais (2Ts 3,11). Mas "não compete a vocês conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com a sua própria autoridade" (At 1,7). A única maneira de contribuir para que chegue o fim e "venham da face de Deus os tempos do refrigério" (At 3,20) é dar testemunho do evangelho em todo canto, até os confins da terra (At 1,8). 
Carlos Mesters, Mercedes Lopes e Francisco Orofino

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Em memoria do Pe. Rodolpho Ceolin msf

Celebrando o Jubileu que não houve: 
60 anos da ordenação presbiteral do Pe. Rodolpho Ceolin msf
Se o saudoso Pe. Rodolpho Ceolin estivesse ainda conosco, no dia 25 de novembro estaríamos celebrando seus 60 anos de ministério presbiteral. Seria uma festa e tanto, marcada pela alegria, pela gratidão, pela serena esperança. Uma festa com presença de muitos coirmãos, familiares e amigos de todas as idades. Afinal, ele marcou muitas gerações!
Memória dos 50 anos
Carrego ainda vivas lembranças da celebração do seu Jubileu de Ouro, em Jaguari, na sua querida comunidade natalícia (Linha 7, Carlos Gomes). Quando ele marcou a data da celebração, no mês de outubro, fiquei indignado, pois tinha previsto um encontro de formação missionaria. E o encontro seria na Escola Apostólica Sagrada Família, a mesma que o recebera como adolescente vocacionado em 1943, como néo-sacerdote em 1957, e para a qual estava nomeado no final de 2012, para concluir sua fecunda existência.  Mas, pela grande admiração e gratidão que tinha por ele, eu não podia não cancelar o evento, e assim o fiz.
Lembro-me que, na véspera, tinha uma assessoria à assembleia da diocese de Uruguaiana, atendendo ao convite de Dom Ângelo Domingos Salvador. Mal terminei meu trabalho, deixei Uruguaiana no meio da tarde e segui, via Alegrete, Manoel Viana, São Francisco de Assis e Santiago, rumo a Jaguari. Para mim, um caminho absolutamente desconhecido, que foi se tornando belo e acolhedor, pois me conduzia a uma pessoa que eu amava. Cheguei já escuro na casa do Ermindo, irmão do Rodolpho.
Todos me esperavam, já preocupados. No dia seguinte, a celebração marcada pela emoção e pela gratidão, com a presença de muitos amigos e admiradores, alguns amigos de infância e a comunidade toda. Depois, uma festa simples e animada, bem do jeito do povo do interior. Um momento de graça, e não apenas para o Pe. Rodolpho.
Uma memória necessária
Devo dizer que lamento muito não podermos celebrar este novo jubileu. Sentia-me no direito de esperar que o Pe. Ceolin não nos deixasse antes dos 90 anos de vida. Sabedoria, maturidade e humanidade como a que encontrávamos nele não se encontra em qualquer pessoa... Mas ele partiu, deixando um vazio, suscitando recordações, ensinando silenciosas lições. Mas sua memória tem ainda o dom de semear pontos de luz e de vida nesses tempos bicudos que vivemos.
Recordamos e celebramos a memória do Pe. Rodolpoho Ceolin msf não para engrandecê-lo e honrá-lo, como se disso ele gostasse e necessitasse. Mantemos viva a memória de sua vida fecunda porque isso nos faz bem, nos ajuda a manter o rumo certo, a perseverar na vida religiosa fraterna e missionaria, a ‘desviver-nos’ por coisas que valem a pena, a pagar com alegria e generosidade o preço da esperança que nos mantem dignamente vivos.
Ele foi sim um bom pastor!
Celebrando essa festa que deveria acontecer – que ele, Lourival, Hermeto, Jovino, Estanislau, e, desde há pouco, Romulo e Susana compartilham lá do outro lado – quero recordar os derradeiros pensamentos que partilhou conosco, nos primeiros meses do seu último ano de vida. Na festa da páscoa de 2013 (31 de março), no ele escrevia (os destaques são dele):
“No período que me encontro (em tratamento) no Lar de Nazaré, venho tendo a feliz oportunidade para boas leituras, para orar e rever minha vida em diversos aspectos. Venho me detendo, com mais afinco, na avaliação sobre como tenho vivido minha consagração a Deus como religioso Missionário da Sagrada Família, e como exerci o ministério sacerdotal, até atingir a bela idade de 83 anos...
Trato de me avaliar, perguntando-me: na minha vida, fui deveras MISSIONÁRIO da Sagrada Família? De 2002 para cá, em Santo Ângelo, fui deveras BOM PASTOR? Poderia e deveria ter sido bem mais... Das tantas e tantas horas que dediquei ao cultivo da horta e à limpeza nos arredores da casa paroquial, bem que devia tê-las usado para visitas aos enfermos, e catequizandos, ao atendimento às pessoas...
Em certa ocasião, num encontro pessoal com Dom Estanislau, manifestei-lhe que eu vinha me questionando, até com certa angústia, a respeito do estilo da ação pastoral em determinadas paróquias: ‘Sem a pretensão de ser dono da verdade, minha impressão é a de que corremos o risco de ser pastores demasiadamente confinados em nossos gabinetes e casas paroquiais, com insuficiente ação e presença junto ao povo, seja tanto da matriz, como dos bairros e das comunidades do interior...’ Aliás, esse era o meu caso!...
Concluo, com sábias e categóricas palavras de nosso amado Fundador, que praticou o que nos recomenda: “Ah, meus filhos, É PRECISO ir ao encontro das pessoas, pois elas não virão até vocês! É PRECISO procurar o povo, e não esperar que ele venha ao nosso encontro. As pessoas não vem a Deus em bando, É PRECISO conquista-las uma a uma. É PRECISO conquistar os homens, as mulheres, os jovens, as crianças! Qualquer outra ideia que se fizer sobre o nosso ministério (presbiteral) é falsa, ou, ao menos, incompleta!”

Um irmão entre os irmãos
Poucos dias mais tarde, no ultimo bilhete que me enviou, respondendo à minha carta de agradecimento e despedida e enviando-me o texto da reflexão acima descrita, o Pe. Ceolin escrevia (também aqui os destaques são dele):  
“A estas alturas da vida, não devo agradecer-lhe apenas pela amizade e benquerença fraternal. Sou-lhe muito grato, em especial, por sua constante intercessão a Deus por minha saúde e crescimento espiritual, na fase que estou vivendo com os demais coirmãos enfermos e idosos. Além disso, você vem me abastecendo de leituras animadoras, mormente nesta fase tão rica, humana e espiritual, que o Deus da VIDA, me proporciona aqui no Lar de Nazaré...
Mas quanto à mensagem que você fez chegar a mim, através do nosso amigo comum Pe. André, a meu ver, só me resta dizer: ITA, é demais!  Não passo de um mortal como todo ser humano. O que fui e sou, devo-o unicamente ao BOM DEUS e a VOCÊS confrades e a tantos amigos (as) que ELE colocou na minha vida!
Meu estado de saúde, de momento, consiste em lutar para que a medula se reative e volte a produzir as plaquetas em quantia suficiente. Ita, por meio do André, aqui vai um pouco do que vivo e reflito atualmente, a respeito de que e de como vivi meus anos como MSF. Ita, meu abraço fraterno, amigo, carinhoso e agradecido.”
Deus é todo amor, pastor em busca da ovelha amada!
Desde então ele foi silenciando progressivamente, deixando sua emoção aflorar com mais intensidade e serenidade, pensando na despedida, na travessia e no encontro, no dom e na oferta radical e incondicional de si mesmo a Deus, que ele havia antecipado sacramentalmente no batismo e na consagração, e que em breve deveria viver. É nesse contexto que brotam e adquirem pleno sentido as palavras que ele deixou escrito, em forma de testamento, para serem lidas nas suas próprias exéquias (aqui também, os destaques são do texto original).

“Nos meses vividos em Passo Fundo, recolhido e acolhido no Lar de Nazaré para tratamento de saúde, junto a confrades verdadeiramente irmãos e funcionárias (os) dedicadas (os), fiz a experiência mais bela da vida: DEUS É TODO AMOR, É PAI DEVERASMENTE MISERICORDIOSO, É PASTOR EM BUSCA DA OVELHA AMADA.
Como é bonito estar cercado não só do Amor de Deus mas também muito cercado do amor de vocês, familiares, parentes, amigos (as) de tantos lugares, em especial de Santana Prado e da comunidade tão querida da Linha 7, Carlos Gomes; cercado de amor de meus confrades de toda a Província e do Generalado, cercado, ultimamente pelos de Passo Fundo e de Santo Ângelo; cercado de amor pelos funcionários (as) do Lar de Nazaré.
É bonito morrer cercado de amor como fui pelas queridas irmãs Carmelitas, pelo Pe. Jacinto e pelo Pe. Marcos, pelos funcionários (as) da casa Paroquial, pelos paroquianos (as) que me conduziam ao Hospital de Ijuí, pelos que me assistiam de dia e de noite no Hospital de Santo Ângelo e na casa Paroquial. É mais que bonito morrer cercado de tanto amor dos amados paroquianos (as) que tanto oraram por mim.”
A saudade espalha as sementes
O que nos resta dizer? Há algo que possa ser acrescentado? Não é esse o retrato acabo e em cores vibrantes, rico de detalhes que muitos guardamos com carinho, de uma pessoa que viveu seu ministério com generosidade sem limites e de modo fecundo até a derradeira Travessia? Da minha parte, consola-me ouvir sempre de novo as últimas palavras que ele dirigiu a mim, expressando seu abraço “fraterno, amigo, carinhoso e agradecido”. A amizade e o carinho são seus, Pe. Ceolin, mas a gratidão é toda nossa! Deus seja louvado pelo seu ministério e sua vida generosa e fecunda!

Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O Evangelho dominical - 20.11.2016

CARREGAR COM A CRUZ

O relato da crucificação, proclamado na festa do Cristo Rei, recorda aos seguidores de Jesus que o Reino de Deus anunciado e inaugurado por Jesus não é um reino de glória e de poder, mas de serviço, amor e entrega total para resgatar o ser humano do mal, do pecado e da morte.
Habituados a proclamar a «vitória da Cruz», corremos o risco de esquecer que o Crucificado nada tem que ver com um falso triunfalismo que esvazia de conteúdo o gesto mais sublime de serviço humilde de Deus para com as Suas criaturas. A Cruz não é uma espécie de troféu que mostramos a outros com orgulho, mas o símbolo do Amor crucificado de Deus que nos convida a seguir o seu exemplo.
Cantamos, adoramos e beijamos a Cruz de Cristo porque, no mais fundo do nosso ser, sentimos a necessidade de dar graças a Deus pelo seu amor insondável. Mas sem esquecer que o primeiro que nos pede Jesus de forma insistente não é beijar a Cruz mas sim carrega-la. E isso consiste simplesmente em seguir os seus passos de forma responsável e comprometida, sabendo que esse caminho nos levará mais tarde ou mais cedo a partilhar o seu destino doloroso.
Não nos está permitido aproximar-nos do mistério da Cruz de forma passiva, sem intenção alguma de assumi-la. Por isso, temos de cuidar muito de certas celebrações que podem criar em torno da Cruz uma atmosfera atrativa mas perigosa, que nos distraem do convite a seguir fielmente o Crucificado nos fazem viver a ilusão de um cristianismo sem Cruz. É precisamente ao beijar a Cruz que escutamos o chamado de Jesus: «Se alguém vem detrás de mim… que carregue com a sua cruz e me siga».
Para os seguidores de Jesus, reivindicar a Cruz é aproximar-se serviçalmente dos crucificados; é introduzir justiça onde se abusa dos indefesos; é reclamar compaixão onde só há indiferença ante os que sofrem. Isto irá trazer-nos conflitos, rejeição e sofrimento. Será a nossa forma humilde de carregar com a Cruz de Cristo.
O teólogo católico Johann Baptist Metz tem insistido no perigo de que a imagem do Crucificado acabe por nos ocultar o rosto de quem vive hoje crucificado. No cristianismo dos países do bem-estar está ocorrendo, segundo ele, um fenômeno muito grave: «A Cruz já não tira a tranquilidade de ninguém, não tem nenhum aguilhão; perdeu a tensão do seguimento a Jesus, não chama a nenhuma responsabilidade, mas retira-nos dela».
Não teremos todos de rever qual é a nossa verdadeira atitude ante o Crucificado? Não teremos de nos aproximarmos Dele de forma mais responsável e comprometida?
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ANO C – SOLENIDADE DE CRISTO, REI DO UNIVERSO – 20.11.2016

Jesus Cristo é um ‘rei’ pobre, misericordioso e servidor!

Há mais de 50 anos atrás, durante o Concílio Vaticano II, o saudoso e profético Dom Helder Câmara escrevia, de Roma, aos seus colaboradores: “Celebrei a missa de Cristo Rei. Claro que ele é Rei. Mas de uma realeza tão diferente, que eu me angustio ao ver que, de certo modo, exploramos a realeza dele para justificar inconscientemente a nossa. Durante a missa, pensei o tempo todo no pobre Rei, com estopa nas costas e coroado de espinhos. E fiquei repetindo baixinho: ‘Meu pobre Rei, para mim você é (o mendigo) Luciano’. Dependesse de mim, criaríamos uma festa nova: a festa de Cristo Servidor e Pobre”.
Ainda hoje, as imagens do poder continuam exercendo sobre uma irresistível sedução sobre muita gente. Muitos experimentam uma espécie de êxtase quando têm a oportunidade de se aproximar de um chefe de estado, de um rei ou príncipe, de um ídolo do esporte, de um cardeal ou do Papa. Mas os Evangelhos nos previnem severamente contra os riscos de uma aproximação ingênua entre Jesus Cristo e um rei ou um destes ídolos famosos e poderosos. Quem identifica Deus com os reis, príncipes e sacerdotes acaba olhando o Cristo crucificado e os excluídos de todos os tempos sem entender nada.
É verdade que Jesus anunciou algo como um reino ou reinado de Deus. Ele mesmo foi aclamado como descendente do rei Davi, como o Messias e o rei esperado. Mas isso nada tem a ver com a figura dos reis e chefes que a história nos deu a conhecer, pois alguns deles assassinaram os próprios familiares para alcançar o trono. A referência a Davi expressa a esperança de uma liderança nova e popular, de um líder humilde e corajoso na defesa dos injustiçados, nos moldes do frágil e rejeitado filho de Jessé, excluído pelo próprio pai da festa dos filhos e herdeiros (cf. 1Sm 16,1-13).
Jesus anunciou e colocou em ação o reinado de Deus. Deus reina quando os coxos andam, os cegos veem, os mudos falam, os presos conquistam a liberdade, os oprimidos adquirem a cidadania, os mortos ressuscitam e os pobres recebem boas notícias. Deus reina na medida em que homens e mulheres superam as relações de dominação e exercitam a liberdade e a solidariedade. Jesus realiza o reinado de Deus esquecendo-se de si, fazendo-se irmão e servidor de todos, prioritariamente dos últimos na escala social. Ele renunciou à igualdade com Deus, despojou-se de tudo e assumiu a vida humana e a posição social dos escravos. E é por isso que o mundo inteiro deve fazer reverência diante dele.
A cena descrita por Lucas no evangelho de hoje nos apresenta Jesus crucificado entre dois condenados à morte. Toda a sua vida foi uma proclamação viva de um Deus que acolhe os últimos e faz justiça aos oprimidos. Pregado na cruz entre dois condenados, Jesus proclama silenciosa e inequivocamente a solidariedade de Deus com os excluídos e põe em ação o reinado de Deus. Enquanto os reis e príncipes se afastam dos homens e mulheres e os consideram desprezíveis, Jesus compartilha a sorte dos condenados e os acolhe no seu reinado. Certamente esse não é um rei muito convencional.
Por isso, o Cristo pendente da cruz permanece uma espécie de espada que penetra nossa fé até à medula e incomoda a Igreja e seus chefes. E não passam de fuga e de traição as tentativas de substituir os espinhos por uma coroa de ouro e a cruz por um trono glorioso. É nesta condição de condenado e de proscrito, de quem compartilha a condição dos desclassificados, que Jesus nos livra das trevas do poder impostor e é o primogênito da humanidade regenerada, a cabeça da Igreja seu corpo, o príncipe das mulheres e homens libertos. A ele podemos pedir: “Lembra-te de mim quando entrares no teu reinado!”
Enquanto expressão mais radical da proximidade e da solidariedade de Deus com a humanidade discriminada, Jesus é potente e eloquente sacramento da humanidade renovada. É entregando-nos a vida como dinamismo e força de uma compaixão que regenera que ele nos salva. É compartilhando a humana carência que ele conquista a plenitude pela qual todos anelamos. E é fazendo-se em tudo irmão e servo que ele resgata a dignidade da verdadeira autoridade. É na boca de um dos companheiros proscritos e condenados que ressoa a proclamação da inocência de Jesus: “Ele não fez nada de mal.”
Diante de ti, Jesus de Nazaré, e dos irmãos que estão à tua direita e à tua esquerda, reconhecemos a loucura dos nossos desejos de poder e de glória, e te suplicamos: elimina do nosso coração e da tua Igreja estas pretensões descabidas e o medo que elas escondem. Reveste-nos da tua corajosa compaixão e guia-nos no caminho da solidariedade com os últimos, a fim de que sejamos apenas mas sempre Servidores dos mais pobres, multiplicando sinais luminosos e efetivos do teu reinado ativamente presente na compaixão. Só assim contribuiremos para que reines, e seremos realmente teus irmãos e irmãs. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(2° Livro de Samuel 5,1-3 * Salmo 121 (122) * Carta aos Colossenses 1,12-20 * Evangelho de Lucas 23,35-43)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O Evangelho dominical - 13.11.2016

PARA TEMPOS DIFÍCEIS


As profundas mudanças socioculturais que estão acontecendo nos nossos dias e a crise religiosa que sacode as raízes do cristianismo no ocidente, urge-nos mais do que nunca a procurar em Jesus a luz e a força que necessitamos para ler e viver estes tempos de forma lúcida e responsável.
Chamada ao realismo: Em nenhum momento Jesus propõe aos Seus seguidores um caminho fácil de êxito e glória. Pelo contrário, dá-lhes a entender que a sua longa história estará cheia de dificuldades e lutas. É contrário ao espírito de Jesus cultivar o triunfalismo ou alimentar a nostalgia de grandezas. Este caminho que a nós nos parece estranhamente duro é o que está mais de acordo com uma Igreja fiel ao Seu Senhor.
Não à ingenuidade: Em momentos de crise, desorientação e confusão não é de estranhar que se escutem mensagens e revelações propondo caminhos novos de salvação. Estas são as consignas de Jesus. Em primeiro lugar, «que ninguém vos engane»: não cair na ingenuidade de dar crédito a mensagens alheias ao evangelho, nem fora nem dentro da Igreja. Portanto, «não sigais atrás deles»: Não seguir a quem nos separa de Jesus Cristo, único fundamento e origem da nossa fé.
Centrarmos no essencial: Cada geração cristã tem os seus próprios problemas, dificuldades e buscas. Não podemos perder a calma, mas assumir a nossa própria responsabilidade. Não se nos pede nada que esteja acima das nossas forças. Contamos com a ajuda do próprio Jesus: «Eu vos darei palavras e sabedoria»… Inclusive num ambiente hostil de rejeição ou desafeto, podemos praticar o evangelho e viver com sensatez cristã.
A hora do testemunho: Os tempos difíceis não hão de ser tempos para lamentos, nostalgia ou desalento. Não é a hora da resignação, passividade ou demissão. A ideia de Jesus é outra: em tempos difíceis «tereis ocasião de dar testemunho». É agora precisamente quando temos de reavivar entre nós o chamado para ser testemunhas humildes mas convincentes de Jesus, da sua mensagem e do seu projeto.
Paciência: Esta é a exortação de Jesus para momentos duros: «Com a vossa perseverança salvareis as vossas almas». O término original pode ser traduzido indistintamente como «paciência» ou «perseverança». Entre os cristãos falamos pouco da paciência, mas necessitamo-la mais do que nunca. É o momento de cultivar um estilo de vida cristã, paciente e tenaz, que nos ajude a responder a novas situações e desafios sem perder a paz nem a lucidez.
José Antonio Pagola
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O milagre dos santos de casa

A REVOLTA DOS SANTOS

Estive ontem na igreja. Rezei como faço costumeiramente. Ajoelhei, sentei, levantei, alternadamente. Mirei os olhos no sacrário, onde uma pequena chama vermelha cintila, sinalizando a presença de Jesus sacramentado. Olhei para Nossa Senhora de Fátima, linda como sempre. Senti que me olhava carinhosamente como uma mãe. Saudei São José Operário e o Menino que estava também com os instrumentos de trabalho na mão.

Passei a visitar São Sebastião, Nossa Senhora Aparecida, Sagrado Coração de Jesus, Sagrada Família. Não sei porque, mas senti que me olharam desdenhosamente. Tremi um pouco. Passei a encarar aquelas imagens antipáticas e feias, confesso, um tanto irado. Elas, porém, não mudaram sua postura.

Ousei chegar um pouco mais perto delas, mas com certo receio como quem se julga culpado por aquela situação. Toquei na cabeça do Sebastião e minha mão pareceu queimar. Toquei os pés do Sagrado Coração, e ele me pareceu correr de mim. Cheguei na Aparecida, que ficou estanque à minha frente, sem trocar de cor.

Nessas alturas, senti-me acometido de tristeza e comecei desviar o olhar daquelas imagens que insistiam em me espiar. Tudo em vão. Nem a oração ajudou. Vergonhoso seria se alguém estivesse me vendo, além daquelas imagens semicegas. Não vendo ninguém ao meu alcance, encorajei-me a pedir ajuda àquelas imagens de gesso.

Foi uma reza sem palavras. Reza quase sem graça, mas foi oração. Não ouvi palavra nenhuma, mas tive alguma reação estranha dentro de mim. Em meio àquele silêncio verbal, as estátuas pareciam movimentar-se em minha direção. Seria uma visão estranha de minha parte? Pareceu-me ouvir passos.

Foi quando comecei a correr para a porta de saída. Tropecei e caí, bestamente. Ri de mim mesmo, mas com vontade de dizer um palavrão.  Instantaneamente, gritei: “Santos, me ajudem”. Fiquei sentado ao chão por um momento. Passei a ouvir: “Bem feito”. Eram eles, reclamando: “Queremos um altar lá na frente”.

Estranhei aquela voz queixosa das imagens. E mais, não esperava tal reivindicação. Imagens muito afoitas, para meu gosto. E gritei: “Parem! Quem são vocês para escolher seu lugar, aqui na casa de todos?”

Como são santos, não se deram por vencidos, e falaram: “Os colegas lá dos altares que nos convidaram”.

Um pouco mais acordado, passei a entender o motivo da ‘revolta das imagens’. Comecei a pensar sobre os santos vivos que ocupam esse mesmo espaço. Estariam todos contentes? Sentir-se-iam todos incluídos no ‘banquete’ que aí se serve? Quais as reivindicações que existem numa comunidade de fé? Como acertar um diálogo que respeite as diferenças, e que seja inclusivo na luta e na festa da vitória?

No dia seguinte, retornei ao momento de oração pessoal. Em vez da revolta, experimentei a paz. Em vez de rezar aos santos e santas, rezei com eles a Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Com os santos convidados e os não convidados presentes; com vinho bom e pão à vontade, a festa continuou sem prazo para terminar.

Quem disse que santo de casa não faz milagre?

Pe. Vergílio J. Moro msf