segunda-feira, 6 de março de 2017

Trump e seu muro

Façamos o muro
Façamos o muro. Nós, os mexicanos, o pagaremos, de acordo. Mas o faremos nós mesmos e colocaremos um posto de socorro a cada 20 quilômetros. Um albergue com médicos, comida, água, camas para descansar e recuperar as forças, aulas de inglês. E o mais importante: vamos incluir muitas portas ao longo do muro, milhares. Portas que só tenham travas de um lado: o nosso.
Façamos o muro. Nós, os mexicanos, pagaremos por ele, de acordo. Mas primeiro vamos pedir um empréstimo aos Estados Unidos para construí-lo. Ao Banco Mundial. Melhor ainda: ao Fundo Monetário Internacional. Faremos uma licitação para o projeto arquitetônico do muro. Outra licitação para a construção. E outra, quando ele estiver pronto, para a gestão.
Convidaremos apenas nossos amigos para participar das licitações, é claro. E que ganhem as licitações os mais amigos entre todos nossos amigos. Os do projeto arquitetônico atrasarão sua entrega muito, muito mesmo: anos (são arquitetos medíocres, mas são nossos melhores amigos).
A construção só começará com anos de atraso. E em pouco tempo haverá problemas com alvarás de construção. E mais problemas com os fornecedores dos materiais. E greves dos trabalhadores. Depois de dois meses a primeira parte construída apresentará rachaduras e umidade, levando à suspensão temporária da construção do muro.
Assim se passarão os anos e, com um pouco de sorte, também passarão os presidentes dos Estados Unidos, até que chegue um a quem a construção de um muro não interesse. Melhor ainda: até que chegue um que dê ordens de parar com a construção do muro (não devolveremos o dinheiro do empréstimo, é claro.)
Façamos o muro. Nós, mexicanos, pagaremos por ele, de acordo. Um muro verde, ecológico, uma cerca viva. Uma cerca, para sermos específicos, feita de pés de maconha. Primeiro, é claro, legalizemos a maconha para finalidades de construção de muros. E então veremos como mudarão os fluxos migratórios: as pessoas do Norte correndo em debandada rumo ao Sul, para fumar nosso muro.
Contrariamente ao que se poderia esperar, não os deteremos. Pelo contrário. Todos nos encontraremos na fronteira, e uma nova época de amizade e fraternidade surgirá entre os dois povos.
Façamos o muro. Pagaremos por ele nós, os mexicanos, de acordo. Mas façamo-lo como atração turística, como parque de diversões. Vamos chamá-lo de "o Muro da Vergonha" ou algo desse estilo. Ao lado dele instalaremos museus sobre o racismo, o imperialismo, a discriminação. E mirantes para poder ver de longe como são as coisas do outro lado do muro.
Virão turistas japoneses, chineses, alemães, escandinavos, turistas do mundo inteiro. Nosso muro será um grande negócio e criará milhares de postos de trabalho. Que, é claro, serão ocupados pelos migrantes que não possam atravessar o muro.
Façamos o muro. Nós, mexicanos, pagaremos por ele, de acordo. Um muro invisível, como a roupa invisível do imperador. Um muro que apenas as pessoas inteligentes possam ver. Nós, mexicanos, o construiremos com tijolos invisíveis e aço também invisível. Libertos de restrições materiais, o ergueremos altíssimo: mil metros de altura. E muito espesso: dois quilômetros de largura.
No dia da inauguração, diremos ao presidente dos Estados Unidos: cá está seu muro; é muito alto, muito largo, mas apenas os inteligentes podem vê-lo. Tenho certeza de que o presidente dos Estados Unidos ficará muito contente.
JUAN PABLO VILLALOBOS

(escritor mexicano, é autor dos livros "Festa no Covil", "Se Vivêssemos em um Lugar Normal" e "Te Vendo um Cachorro)

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