sexta-feira, 30 de junho de 2017

A família e o seguimento de Jesus

A FAMÍLIA NÃO É INTOCÁVEL

Com frequência temos defendido a «família» no abstrato, sem pararmos para refletir sobre o conteúdo concreto de um projeto familiar entendido e vivido desde o Evangelho. E, no entanto, não basta defender o valor da família sem mais, porque a família pode traduzir-se de formas muito diferentes na realidade.
Há famílias abertas ao serviço da sociedade e famílias debruçadas sobre os seus próprios interesses. Famílias que educam no egoísmo e famílias que ensinam solidariedade. Famílias libertadoras e famílias opressoras.
Jesus defendeu com firmeza a instituição familiar e a estabilidade do matrimonio. E criticou duramente os filhos que se desentendem com os seus pais. Mas a família não é para Jesus algo absoluto e intocável. Não é um ídolo. Há algo que está acima e é anterior à família: o reino de Deus e a Sua justiça.
O decisivo não é a família de carne, mas essa grande família que temos de construir entre todos os Seus filhos e filhas colaborando com Jesus em abrir caminhos para o reino do Pai. Por isso, se a família se converte em obstáculo para seguir Jesus neste projeto, Jesus exigirá a ruptura e o abandono dessa relação familiar: «O que ama o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim não é digno de mim. O que ama o seu filho ou a sua filha mais do que a mim não é digno de mim».
Quando a família impede a solidariedade e a fraternidade com os outros e não deixa os seus membros trabalharem pela justiça querida por Deus entre os homens, Jesus exige uma liberdade crítica, mesmo que isso traga consigo conflitos e tensões familiares.
São as nossas casas uma escola de valores evangélicos como a fraternidade, a procura responsável de una sociedade mais justa, a austeridade, o serviço, a oração, o perdão? Ou são precisamente lugar de «des-evangelização» e correia de transmissão dos egoísmos, injustiças, convencionalismos, alienações e superficialidades da nossa sociedade?
Que dizer da família onde se orienta o filho para um classismo egoísta, uma vida instalada e segura, um ideal do máximo lucro, esquecendo tudo mais? Está-se a educar o filho quando o estimulamos apenas para a competição e a rivalidade, e não para o serviço e a solidariedade?
É esta a família que os católicos tem de defender? É esta a família onde as novas gerações podem escutar o Evangelho? Ou é esta a família que também hoje temos de «abandonar», de alguma forma, para ser fiéis ao projeto de vida querido por Jesus?
José Antonio Pagola

Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

ANO A – FESTA DOS APOSTOLOS PEDRO E PAULO – 02.07.2017

Pedro e Paulo: discípulos de Jesus e testemunhas do Reino de Deus!
Com a festa dos apóstolos Pedro e Paulo estamos fechando o ciclo das festas juninas, marcado pela memórias de santos populares. Pedro é o primeiro líder dos cristãos, reconhecido desde os primórdios como o principal no grupo dos Doze, e Paulo é o apóstolo dos povos, mas não podemos esquecer que ambos foram discípulos de Jesus e passaram por crises e dificuldades, provaram a prisão e sofreram o martírio. Eles fazem parte daquela ‘nuvem de testemunhas’ da qual fala a Carta aos Hebreus (12,1): viveram e morreram firmes na fé, seduzidos e guiados pela visão do invisível (cf. Hb 11,13.27).
A primeira leitura nos lembra que Pedro, nosso “primeiro Papa”, foi presidiário! As chaves prometidas por Jesus Cristo de nada adiantaram para soltar as algemas ou abrir a porta que prenderam Pedro! Ele estava imerso na penumbra do abandono quando uma luz iluminou a cela, uma mão tocou seu ombro e uma voz ordenou que se levantasse depressa. As algemas que o prendiam caíram no chão, os guardas que vigiavam não viram nada, e a porta que separava a cela da cidade se abriram sozinhas...
Depois de ter sido um fariseu zeloso e violento, e mesmo tendo acumulado muitos méritos e honras por causa disso, Paulo fez a experiência de ser conquistado por Jesus Cristo e, diante do bem supremo desta acolhida gratuita e imerecida, considerou tudo o mais como lixo e déficit na contabilidade da vida (cf. Fil 3,1-14) e se lançou incansavelmente no anúncio desta boa notícia. Por isso, também ele, como muitos outros da sua geração, foi denunciado, perseguido, encarcerado e finalmente executado. Ele assimilou o que Jesus dissera ao enviar os Doze: “Não tenham medo de nada!”
Mas nada e ninguém conseguiu colocar sob algemas aquilo que fazia de Paulo um homem livre: a Boa Notícia de Jesus Cristo. “Por ele, eu tenho sofrido até ser acorrentado como um malfeitor. Mas a Palavra de Deus não está acorrentada” (2Tm 2,9). Ele sabia muito bem em quem colocara sua confiança, não se envergonhava de compartilhar a sorte dos encarcerados e pedia que ninguém se envergonhasse dele ou de testemunhar a favor de Jesus Cristo, que também foi preso e condenado (cf. 2Tm 1,8).
Não esqueçamos que Pedro e Paulo eram membros de comunidades cristãs, e o vínculo entre a comunidade e seus líderes presos se mostra de um modo comovente no relato dos Atos dos Apóstolos. “Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja orava continuamente por ele.” Um pouco antes, quando Pedro e João haviam sido liberados da prisão, a comunidade pedia em oração: “Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem, e concede que teus servos anunciem corajosamente a tua Palavra” (At 4,29). Diante da perseguição, as comunidades pede coragem, e não tranquilidade. O que as sustenta é o encontro com Deus em Jesus Cristo.
Jesus faz uma pergunta, central no terceiro bloco narrativo de Mateus (11,2-16,20): “Quem sou eu para vocês?” Na voz de Pedro, esta é a primeira vez que um discípulo o reconhece e proclama Messias. Mas não esqueçamos que, mesmo sem rejeitar a confissão de Pedro e dos demais discípulos, Jesus chama a si mesmo Filho do Homem, e não Filho de Deus (cf. Mt 11,19; 12,8; 12,32), acentuando assim seus vínculos com a humanidade. Isso significa que somente quem está aberto e sintonizado com a lógica de Deus pode reconhecer a presença de Deus nas ações e palavras deste filho da humanidade e irmão de todos os seres humanos, e esta é a base sólida sobre a qual Jesus Cristo constrói a comunidade cristã, literalmente, a assembleia dos chamados. “Não foi um ser humano que te revelou isso...”
Crer, confiar, partilhar e anunciar: estes são os verbos essenciais da gramática vital dos cristãos. Só chega à meta da caminhada do discípulo aquele que conjuga estes verbos em todos os tempos, modos e pessoas. É nesta perspectiva que, escrevendo a Timóteo desde a cela da prisão, Paulo faz um balanço da sua vida e suas palavras são eloquentes e comoventes: “Chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.” Um pouco antes, havia escrito: “Estou suportando também os sofrimentos presentes, mas não me envergonho. Sei em quem acreditei” (2Tm 1,12).
Jesus de Nazaré, filho de Deus e filho da humanidade! A glória dos teus discípulos e santos não vem dos milagres ou das honras e aplausos encomendados, mas do teu Pai, o Deus vivo. É por isso que os humildes que os vêm podem se alegrar. Quem te reconhece como Filho de Deus encarnado na humanidade não está livre das dificuldades, mas sabe que “o anjo de Deus acampa em volta dos que o temem”. Por isso, feliz a pessoa que nele crê e espera: viverá firme como quem vê o invisível. São Pedro e São Paulo, testemunhas, evangelizadores e dirigentes da primeira hora, roguem por nós! Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Atos dos Apóstolos 2,1-11 * Salmo 33 (34) * Segunda Carta a Timóteo 4,6-8.17-18 * Evangelho de Sao Mateus 16,13-19)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Evangelho dominical - 25.06.2017

OS NOSSOS MEDOS

Quando o nosso coração não está habitado por um amor forte ou uma fé firme, facilmente a nossa vida fica à mercê dos nossos medos. Às vezes é o medo de perder prestígio, segurança, comodidade ou bem-estar o que nos trava de tomar as decisões. Não nos atrevemos a arriscar a nossa posição social, o nosso dinheiro ou a nossa pequena felicidade.
Outras vezes paralisa-nos o medo para não sermos apanhados. Atemoriza-nos a possibilidade de ficarmos sós, sem a amizade ou o amor das pessoas. O temor de ter que enfrentar a vida diária sem a companhia próxima de ninguém.
Com frequência vivemos preocupados apenas em ficar bem. Dá-nos medo fazer o ridículo, confessar as nossas verdadeiras convicções, dar testemunho da nossa fé. Tememos as críticas, os comentários e a rejeição dos outros. Não queremos ser classificados. Outras vezes invade-nos o temor do futuro. Não vemos claro o nosso caminho. Não temos segurança em nada. Talvez não confiemos em ninguém. Dá-nos medo enfrentarmos o amanhã.
Sempre foi tentador para os crentes procurar na religião um refúgio seguro que os liberte dos medos, incertezas e temores. Mas seria um erro ver na fé o refúgio fácil dos pusilânimes, dos covardes e assustadiços.
A fé em Deus, quando é bem entendida, não conduz o crente a eludir a sua própria responsabilidade ante os problemas. Não o leva a fugir dos conflitos para encerrar-se comodamente no isolamento. Pelo contrário, é a fé em Deus que enche o seu coração de força para viver com mais generosidade e de forma mais arriscada. É a confiança viva no Pai que ajuda a superar covardias e medos para defender com mais audácia e liberdade o reino de Deus e a sua justiça.
A fé não cria homens covardes, mas pessoas resolutas e audazes. Não fecha os crentes em si mesmos, mas abre-os mais à vida problemática e conflitiva de cada dia. Não os envolve na preguiça e na comodidade, mas anima-os para o compromisso.
Quando um crente escuta verdadeiramente no seu coração as palavras de Jesus: «Não tenhais medo», não se sente convidado a fazer menos dos seus compromissos, mas alentado pela força de Deus, a enfrentar esses compromissos.
José Antonio Pagola

Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 21 de junho de 2017

ANO A – DÉCIMO-SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 25.06.2017

Se os profetas se calarem, as pedras falarão!
Testemunhar Jesus Cristo com força profética é muito mais do que simplesmente tornar seu nome conhecido no mundo. A missão dos cristãos, inerente à fé em Jesus Cristo e consequência do encontro com ele, consiste em dar continuidade à sua dupla paixão: paixão pelo reino do Pai e paixão pela vida dos pobres. E isso significa, entre outras coisas suscitar, prosseguir e alimentar as práticas e os movimentos que resgatam a vida de todos os grupos oprimidos e questionam as práticas de dominação e de exclusão. A profecia é também e sempre uma ação transformadora.
É natural que todos sintamos um certo medo diante das ameaças e tristeza frente às mentiras e calúnias, ou até das ameaças, que recebemos por causa de um engajamento que brota da intimidade com Deus e do amor pelo seu povo. Os próprios discípulos e discípulas da primeira hora provaram o medo, e não é por acaso que, no evangelho deste domingo, Jesus pede três vezes: “Não tenham medo!” Quem não se vê representado no desabafo de Jeremias, que chega a amaldiçoar o dia em que nasceu? Mas é exatamente em meio às perseguições que ele faz a experiência do conforto e do amparo da presença de Javé...
O problema surge quando o medo – que geralmente vem de mãos dadas com o desejo de uma vida longa e tranquila e com a aparente tranquilidade de quem não quer deixar sua cômoda zona de conforto – coloca viseiras nos olhos, mordaças na boca e correntes nas mãos, ou quando cala a voz profecia e esteriliza a força da fé. E isso começa com o simples medo de pensar e de viver de modo diferente das pessoas do nosso círculo de amigos e de família, e termina no medo de desagradar ou ser mal visto pelas autoridades políticas ou eclesiásticas.
A fé é o oposto do medo, e não simplesmente o contrário da descrença! Quem age movido pelo medo faz de tudo para encontrar uma segurança que, para nós cristãos, é dada gratuitamente por Deus, e só por ele, àqueles que se entregam de corpo e alma ao seu Evangelho. É esta segurança que faz com que os profetas e profetizas sejam firmes como pessoas que enxergam o invisível. Elas sabem em quem acreditam, em quem depositam a confiança. Sabem que é perdendo a vida que podem conserva-la para sempre. Aquele que as chamou é fiel! O próprio Jesus Cristo as defende.
Jesus nos ensina a desenvolver esta confiança radical chamando a nossa atenção para os pardais e para os cabelos. Deus cuida até dos pardais, para que caiam no alçapão, e dos cabelos, para que não caiam no chão, quanto mais daqueles que ama, chama e envia! “Vocês valem mais do que muitos pardais! Até os vossos cabelos estão contados!” Deus toma conta da vida dos seus filhos e filhas chamados à profecia porque é pai terno e bondoso, sempre e já no presente de suas criaturas. Então, medo de quê? Então, porque calar a voz da profecia, a voz que nos queima desde dentro?
Mais que consolação intimista, a experiência do coração materno de um Deus, que se supera nas delicadezas pelos frutos do seu ventre, é luz que afugenta o medo e força que sustenta a profecia. Podemos dizer, com São Paulo, que muito mais forte que as privações e a morte, e muito mais abundante que nossos pecados, é a graça que Deus derramou sobre nós. A graça de Jesus Cristo não tem qualquer comparação com nossos limites e pecados! E ainda temos a promessa de que o próprio Jesus será testemunha de defesa daqueles que dele dão testemunho neste mundo...
Afinal, como nos ensina Paulo, a fé que nos alimenta e sustenta a profecia brota de uma experiência de ser reconciliado e regenerado por Deus em Jesus Cristo. Vivemos em paz com Deus e nossa condição é marcada pelo sinal da Vida. O mal e a morte não nos amedrontam nem dominam.  Cristo venceu as forças destruidoras e desagregadoras e nos resgatou para a liberdade. Confiados naquele que “cuida de cada cabelo que vamos perdendo sem mesmo notar”, os profetas e profetizas não se deixam amordaçar pelo medo e proclamam com a própria que é para a liberdade que Cristo nos libertou.
Jesus de Nazaré, destemido profeta da Galileia: envia testemunhas autênticas da liberdade e da solidariedade. Suscita profetas que, que se alimentem da tua Palavra; que anunciem com palavras e ações a verdade sobre a dignidade de todas e de cada criatura; que denunciem as estruturas que excluem, mesmo aquelas que se apresentam em meio a luzes coloridas e fumaça de incenso; que renunciem às ações e contaminadas pelo espetáculo, pela indiferença, pela violência e pelo medo; que prenunciem, em seu modo de viver, um mundo em cuja mesa haja lugar para todas as criaturas. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Jeremias 20,10-13 * Salmo 68 (69) * Carta de São Paulo aos Romanos 5,12-15 * Evangelho de São Mateus 10,26-33)

ANO A – SOLENIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – 23.06.2017

Nosso Deus tem um coração, grande e compassivo.
A tentação de imaginar Deus de forma abstrata e de propor a mensagem cristã de forma estritamente doutrinal está sempre rondando os cristãos das diferentes Igrejas. A doutrina do Deus uno e trino, celebrada na festa da Trindade, pode virar uma difícil questão de matemática ou de metafísica. A boa notícia recordada pela solenidade de Corpus Christi pode descambar numa discussão polêmica, fisicista e anti-ecumênica. E, com isso, acabamos representando o mistério de Deus mediante figuras abstratas ou ameaçadoras, como o triângulo, a lei, o olho, o juiz, o rei, o chefe dos exércitos...
Precisamos superar os resquícios de imagens abstratas, parciais e distorcidas de Deus. Que consolação podemos encontrar naquela representação de Deus como um triângulo composto de linhas e ângulos absolutamente simétricos, mas carentes de pulsação e de vida? Que orientação ou estimulo pode nos vir de conceitos herméticos como união hipostática, duas pessoas em uma natureza, três pessoas em um só Deus? Por mais que sejam doutrinalmente ortodoxas, estas fórmulas não são capazes de produzir liberdade, solidariedade e vida...
A Sagrada Escritura nos apresenta a história e a imagem de um Deus vivo, que se caracteriza pela Compaixão, e é isso que a solenidade do Sagrado Coração de Jesus quer colocar em evidência. Não precisamos ter medo de reconhecer traços antropomórficos em nossas imagens de Deus. Nunca nos livraremos disso. O que precisamos evitar é a tentação de projetar na ideia de Deus elementos de uma antropologia que exclui a corporeidade, a relação, a compaixão e a solidariedade. Estes elementos mutilam nossa humanidade e distorcem nossa ideia de Deus!
A solenidade do Sagrado Coração de Jesus quer sublinhar que Deus tem um rosto humano, um coração que ama apaixonadamente a humanidade. Aliás, é pouco e insuficiente dizer que Deus nos ama: Ele é amor, e sua relação conosco só pode ser de amante para amado, de pai e mãe que recompõe as forças dos filhos cansados e levanta o ânimo dos abatidos. Um Deus que é amor não traz fardos, mas alívio, não profere sentenças condenatórias mas multiplica atos que libertam. Celebrar o coração sagrado de Jesus significa celebrar a revelação de Deus como amor, apenas amor, sempre amor.
Como filhos e filhas gerados no ventre de Deus, como gente que recebeu nos lábios o beijo e o Sopro de Deus para ser no mundo sua imagem viva, também somos chamados a conjugar o verbo amar, especialmente no modo indicativo, no presente e no futuro, e na primeira pessoa do singular e do plural. João escreve: “Se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros... Deus é amor: quem permanece no amor permanece com Deus e Deus permanece com ele.” Quando nossas relações são sustentadas pelo amor, demonstramos que conhecemos quem é Deus!
Moisés lembra aos hebreus que a afeição de Deus por eles não é motivada pelo poder ou importância que possam ter, mas pela insignificância, não porque eles fossem bons, mas porque Deus é bom, é amor. Seu amor é causa e não consequência de nossa retidão. Deus é assim! Jesus faz questão de afirmar que Deus não se dá a conhecer aos sábios e entendidos, aos grandes e poderosos, mas aos pequeninos e humildes. E é aos cansados e fatigados que ele dirige seu convite e faz sua oferta de alívio e descanso. É isso que significa a mansidão e humildade de coração que o caracteriza e que nós invocamos.
Mais que na celebração de cultos solenes, na elaboração de doutrinas eruditas e na obediência formal a leis minuciosas, a alegria de Deus consiste em buscar e proteger as pessoas indefesas e ameaçadas e preparar para elas uma mesa farta diante dos inimigos que as perseguem sem tréguas. E isso na proporção de 1 por 99! E ele também se alegra com os homens e mulheres que, estimulados por seu jeito de ser e de amar, procuram fazer o mesmo. Este é o caminho e a proposta de Jesus, e não deveria ser outro o caminho das Igrejas e de todos aqueles que creem que Deus tem um coração. Haja coração!
Jesus de Nazaré, Coração de Deus na carne humana, Compaixão de Deus na complexidade da história! Tu nos revelaste a Misericórdia e o Amor como dinamismos que aproximam e articulam a divindade da humanidade. Traído, preso e executado na cruz, tu nos amaste até o fim e para além de todo merecimento. Do teu lado aberto pela lança, deixaste correr sangue e água, dando-nos o Espírito que te movia, para que, atraídos por teu coração, pudéssemos beber na fonte da salvação. Por isso, não cansamos de louvar teu nome e de pedir que seja teu o coração que sustenta nossa missão. Mas precisamos que permitir que teu amor nos regenere, de novo e sempre. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Livro do Deuteronômio 7,6-11 * Salmo 102 (103) * Primeira Carta de São João 4,7-16 * Evangelho de São Mateus 11,25-30)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A proposito do Corpus Christi e da Missa

Estagnados...

O papa Francisco repete que os medos, as dúvidas, a falta de audácia... podem cortar pela raiz o impulso de renovação que necessita hoje a Igreja. Na sua Exortação A alegria do Evangelho chega a dizer que, se ficamos paralisados pelo medo, uma vez mais podemos ficar simplesmente como «espectadores de uma estagnação infecunda da Igreja».
As suas palavras fazem pensar. Que podemos perceber entre nós? Estamos a mobilizar-nos para reavivar a fé das nossas comunidades cristãs ou continuamos instalados nessa «estagnação infecunda» de que fala Francisco? Onde podemos encontrar forças para reagir?
Uma dos grandes contributos do Concílio Vaticano II foi o de impulsionar a passagem da «missa», entendida como uma obrigação individual para cumprir um preceito sagrado, para a «eucaristia» vivida como celebração gozosa de toda a comunidade para alimentar a sua fé, crescer em fraternidade e reavivar a sua esperança em Jesus Cristo ressuscitado.
Sem dúvida, ao longo destes anos temos dado passos muito importantes. Ficam muito longe aquelas missas celebradas em latim, em que o sacerdote «dizia» a missa e o povo cristão vinha para «ouvir» a missa ou para «assistir» à celebração. Mas, não estamos de novo celebrando a eucaristia de forma rotineira e aborrecida?
Há um fato inegável. As pessoas estão afastando-se progressivamente da prática dominical, porque não encontram nas nossas celebrações o clima, a palavra clara, o rito expressivo, a acolhida estimulante que necessita para alimentar a sua fé débil e vacilante.
Sem dúvida, todos, presbíteros e leigos temos que nos preguntar o que estamos fazendo para que a eucaristia seja, como quer o Concilio, «centro e o cume de toda a vida cristã». Como permanece tão calada e imóvel a hierarquia? Porque os crentes, não nos manifestamos com a nossa preocupação e a nossa dor com mais força?
O problema é grave. Temos que seguir «estagnados» num modo de celebração eucarística tão pouco atrativo para os homens e mulheres de hoje? É esta liturgia que temos repetido desde séculos a que melhor pode ajudar-nos a atualizar aquela cena memorável de Jesus onde se concentra de modo admirável o núcleo da nossa fé?
José Antonio Pagola

Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 14 de junho de 2017

ANO A – DÉCIMO-PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 18.06.2017

A compaixão é a origem, o suporte e a meta da missão!
Depois do convite dirigido a Mateus, e depois da confraternização simbólica com os pecadores celebrada na sua casa, Jesus faz uma peregrinação através do santuário das dores e esperanças humanas, anunciando a Boa Notícia do Reino a jovens que morriam antes do tempo; a mulheres vergadas sob o peso de doenças incuráveis; a cegos e mudos mutilados em sua cidadania... Trata-se de uma peregrinação e não de uma viagem turística! Em Jesus, Deus não quis fazer um simples passeio no mundo: ele assumiu a fundo nossa condição humana.
Andando pelos caminhos empoeirados da Galileia, Jesus não tem pressa. Ele vê e contempla a realidade e as pessoas profunda e demoradamente. Ele ousa ver e encarar a realidade humana e social assim como ela é, e seu olhar não tem nada de passividade, e menos ainda de indiferença. É um olhar comprometido e capaz de ver, por traz dos rostos tristes e dos corpos encurvados, as feridas provocadas pelas relações e instituições violentas e opressoras. “Vendo as multidões, Jesus teve compaixão, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor.”
O olhar de Jesus não identifica apenas doentes terminais, mortes inexplicáveis ou cegueiras causadas por espíritos maus. Ele não enxerga também apenas uma multidão indiferenciada e anônima. Ele vê gente cansada e abatida, um povo sem líder e sem guia. Um povo cansado é um povo sem esperança e sem ânimo. Um povo abatido é um povo espoliado e defraudado. Um rebanho sem pastor é um coletivo desorientado e indefeso. Para Jesus, o que faltava ao povo não eram autoridades, mas líderes verdadeiros, guias comprometidos com a busca de saídas benéficas ao povo.
Diante do cansaço e do abatimento de um povo humilhado, as entranhas maternas de Deus tremem, e ele revela sua capacidade de sofrer com seus filhos e filhas. Deus rejeita como indigna e pecaminosa toda forma de indiferença frente à dor das suas criaturas. E é esta compaixão que está na origem da missão de Jesus, e a sustenta até o fim. Mas, diante da imensa tarefa de anunciar a Boa Notícia de um Deus misericordioso e de sinalizar sua presença através de ações libertadoras, Jesus se vê pequeno. E a pequena comunidade que o segue também lhe parece insuficiente.
“A colheita é grande e os trabalhadores são poucos...” Usando estas palavras que sublinham a disparidade entre a grandeza da tarefa e a pequenez do seu grupo, Jesus nos estimula a pedir mais colaboradores. Mas oração dirigida ao Pai, ao “dono da colheita”, é o ponto final de um empenho profundo e pessoal para identificar, despertar, motivar e formar homens e mulheres com generosidade suficiente para se engajar na missão de Jesus Cristo.  divide com seus discípulos capazes de compaixão a responsabilidade de curar enfermidades e dissipar espíritos que escravizam as pessoas.
A partir desse modo de ver a realidade, Jesus prossegue estabelecendo uma prioridade aos seus escolhidos: “Vão primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Trata-se de priorizar o povo de Israel, abandonado pelos próprios pastores: doentes, cegos, coxos, loucos, estrangeiros, mulheres, crianças, pecadores... E é por causa dessa prioridade histórica que ele recomenda que eles não entrem na casa dos pagãos e nas cidades dos samaritanos. Seus discípulos não poderiam fazer tudo ao mesmo tempo! Mas, depois dessa prioridade cronológica, virão outros grupos sociais e religiosos necessitados...
Vivemos hoje numa sociedade de comunicação globalizada, e temos clara consciência de que os apelos que solicitam nossa alma missionária são múltiplos e globais. E são desafios maduros, como campos prontos para a colheita, que correm o risco de se perderem. Responder honradamente a estes desafios não é responsabilidade que pode ser assumida apenas por esta ou aquela congregação religiosa, por uma ou outra Igreja cristã. Esta é uma missão que convoca e compromete todos os cristãos, e todos os homens e mulheres de boa vontade, aqueles que tem fome e sede de justiça.
Jesus de Nazaré, primogênito dos humanos e peregrino no santuário das nossas dores e esperanças! Cumprindo a decisão do coração do teu e nosso Pai, não levas em conta nossos limites e os méritos que não temos, e nos tornas amigos de Deus, criaturas novas e reconciliadas. Que prova de amor essa de dar tua vida por nós, sem levar em conta nossos débitos! Ensina-nos a compaixão que comoveu teu coração, abriu teus olhos, afinou teus ouvidos, moveu teus passos, iluminou tua inteligência e fortaleceu tua vontade. E ajuda-nos a permanecer neste caminho, identificando e despertando pessoas de boa vontade que se encantem e se consumam na tarefa de levar adiante tua missão. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
      (Livro do Êxodo 19,1-6 * Salmo 99 (100) * Carta de Paulo aos Romanos 5,6-11 * Evangelho de São Mateus 9,36-10,8)

ANO A – SOLENIDADE DO CORPO E SANGUE DE JESUS CRISTO – 15.06.2017

O corpo de Cristo é vida partilhada na mesa do mundo!
O povo de Israel gostava de lembrar que Deus sempre dá o melhor de si pelo povo que ama. Ele o alimenta com a melhor farinha produzida pelo trigo e com o melhor mel oferecido pelas abelhas.  As comunidades cristãs, por sua vez, se rejubilam na experiência e no anúncio de que, em Jesus Cristo, Deus assume definitivamente a fragilidade da carne humana e se faz um de nós, sempre por nós. E proclamam que Deus tem corpo feito de carne e sangue, amor e vulnerabilidade, e que sua carne é verdadeiro alimento que sacia todas as fomes e seu sangue é bebida que desaltera todas as sedes.
Na catequese aprendemos, e continuamos acreditando, que a comunidade cristã é um corpo vivo, orgânico e articulado que tem Cristo como cabeça. Em suas cartas, Paulo sublinha que somos um corpo porque partilhamos de um único pão, e que, num corpo vivo os membros são solidários: quando um membro sofre, todos os demais sofrem com ele; quando um membro é honrado, os demais participam de sua alegria; e os membros mais frágeis são os que necessitam de maior cuidado e proteção...
A festa do Corpo e Sangue de Cristo quer nos lembrar enfaticamente que Deus tem um corpo, e que este corpo é o nosso corpo individual, mas é também, e principalmente, o corpo da comunidade, formado por homens e mulheres que dão o melhor de si pela Igreja! É um corpo formado por pessoas acostumadas ao sofrimento, que nem sempre estão em nossas celebrações e festas. O corpo de Deus é este corpo feito de membros livres e diferentes, mas unidos no mesmo espírito, na mesma dor e no mesmo sonho.
Este é exatamente bum dos sentidos mais profundos da Eucaristia: a partilha do mesmo e único pão expressa nosso desejo e nosso compromisso de viver a solidariedade e a comunhão com o corpo vivo de Cristo, com todos os seus membros, sem exceção, começando pelos ‘últimos’, por aqueles nos quais Jesus disse que estaria presente; o ato de beber do mesmo e único cálice expressa a comunhão com o sangue de Cristo que circula nas veias daqueles que elegemos como irmãos, ou que Deus nos deu como irmãos.
Porém, estamos tão acostumados a solenizar o ‘Corpus Christi’, a participar da missa e a ‘receber a comunhão’ que, ouvindo Jesus Cristo dizer que é Ele “o pão vivo que desceu do céu”, temos que fazer enorme esforço para crer que ele está presente naquela partícula de pão que chamamos hóstia. Nossos olhos teimam em ver somente pão, e então lutamos para ver ali o próprio Cristo... Com isso esquecemos que a primeira e mais decisiva passagem não é do pão para Cristo, mas de Cristo para o pão repartido!
No evangelho de hoje, Jesus fala de sua vida em termos de carne e sangue, e estas palavras sublinham, ao mesmo tempo, a concretude de sua vida histórica e a vulnerabilidade que compartilha com todos os seres humanos. Os discípulos acham isso difícil demais... Na verdade, a questão decisiva é reconhecer as ações e opções concretas de Jesus Cristo, sua comunhão solidária com a humanidade sofredora, como algo que nos motiva e sustenta, como um caminho que vale a pena ser continuado.
Para muitas pessoas isso não faz o menor sentido. Elas pensam que é irrelevante ou impossível que Deus tenha assumido a carne humana. Isso não as toca, não as alimenta, não mexe com elas. Entretanto, as palavras de Jesus Cristo são claras: “A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida.” O pão do céu se fez carne e terra, se oferece como alimento para aqueles que têm fome e sede de justiça. É a humanidade de Jesus que sacia nossa fome e nossa sede de um mundo reconciliado!
Jesus Cristo dá o melhor e tudo de si para que o mundo viva, para que todas as criaturas tenham vida e esplendor. É para isso que ele se faz carne e se oferece como verdadeira comida, se faz sangue servido como verdadeira bebida. A Ceia Eucarística que celebramos comunitariamente pretende ser sacramento – sonho e caminho! – de uma vida plena. Então, a Eucaristia não pode se resumir numa prática religiosa privada e misteriosa, repetida unicamente para cumprir uma lei ou para salvar a própria a alma. E jamais pode ser reduzida a um troféu exibido em procissões, tão públicas como apologéticas.
Deus Pai e Mãe, que nos alimentas com o melhor do trigo e com o mel puro! Queremos celebrar a ceia do teu Filho, memória e esperança, com o coração agradecido e com os rins cingidos para o caminho que nos espera. Dá-nos teu Filho, Pão para a vida do mundo! Dá-nos teu Espírito, fogo de comunhão que regenera o mundo na comunhão sustentada pelo dom. Mantém nossos passos na imensa caravana dos homens e mulheres de boa vontade. Não somos dignos que entres em nossa casa, mas dize uma Palavra e recuperaremos a dignidade e a liberdade. E assim viveremos a verdadeira comunhão. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Deuteronômio 8,2-3.14-16 * Salmo 146 (147 B) * Primeira Carta Aos Coríntios 10,16-17 * Evangelho de S. João 6,51-58)

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O Evangelho dominical - 11.06.2017

A INTIMIDADE DE DEUS

Se, mesmo sendo impossível, a Igreja dissesse um dia que Deus não é Trindade, mudaria em algo a existência de muitos crentes? Provavelmente não! Por isso ficamos surpreendidos ante esta confissão do P. Varillon: «Penso que, se Deus não fosse Trindade, eu seria provavelmente ateu. Em qualquer caso, se Deus não é Trindade, eu não compreendo já absolutamente nada».
A imensa maioria dos cristãos não sabe que ao adorar a Deus como Trindade estamos confessando que Deus, na Sua intimidade mais profunda, é só amor, acolhimento, ternura. Esta é talvez a conversão que mais necessitam não poucos cristãos: o passo progressivo de um Deus considerado como Poder a um Deus adorado gozosamente como Amor.
Deus não é um ser «onipotente e eterno» qualquer. Um ser poderoso pode ser um déspota, um tirano destruidor, um ditador arbitrário: uma ameaça para a nossa pequena e débil liberdade. Poderíamos confiar num Deus de quem só soubéssemos que é onipotente? É muito difícil abandonar-se a alguém infinitamente poderoso. Parece mais fácil desconfiar, ser cauto e salvaguardar a nossa independência.
Mas Deus é Trindade, é um mistério de Amor. E a Sua onipotência é a onipotência de quem só é amor, ternura insondável e infinita. É o amor de Deus que é onipotente. Deus não pode tudo. Deus não pode senão o que pode o amor infinito. E sempre que o esquecemos e saímos da esfera do amor fabricamos um Deus falso, uma espécie de ídolo estranho que não existe.
Quando não descobrimos ainda que Deus é só Amor, facilmente nos relacionamos com Ele a partir de interesse próprio ou do medo. Um interesse que nos move a utilizar a Sua onipotência para nosso proveito. Ou um medo que nos leva a procurar toda a classe de meios para nos defendermos do Seu poder ameaçador. Mas esta religião feita de interesse e de medos está mais próxima da magia que da verdadeira fé cristã.
Só quando se intui a partir da fé que Deus é só Amor e se descobre fascinado que não pode ser outra coisa senão Amor presente e palpitante no mais fundo da nossa vida, começa a crescer livre no nosso coração a confiança num Deus Trindade de que o único que sabemos por Jesus é que não pode senão amar-nos.
José Antonio Pagola

Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 7 de junho de 2017

ANO A – SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE – 11.06.2017

A Trindade Santa é mistério de comunhão, amor e compaixão!
Quando dizemos que Deus é mistério estamos nos referindo a um Aonde e a um Alguém que faz com que nos sintamos em casa, estáveis e seguros; que nos supera, envolve e protege de um modo absolutamente gratuito e acolhedor; que nos arranca de nós mesmos e nos abre ao outro; que vence a nossa passividade e nos põe a caminho.  Se o qualificamos como mistério é porque, em sua profundidade, nos espanta e, ao mesmo tempo, nos seduz e nos leva além de nós mesmos e além do tempo presente. Bendito seja Deus Pai, Filho e Espírito Santo, porque é grande seu amor por nós!
Quando intuiu este mistério inominável e inapreensível, Moisés “curvou-se até o chão”, prostrado pelo espanto de um amor tão imerecido quanto desproporcional: descobriu que Aquele que dá sentido e substância ao nosso ser é “misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel”, lento e vazio de cólera e punição. Moisés imaginava encontrar Deus subindo a montanha e conservá-lo na lei escrita na pedra fria, mas eis que Ele se manifesta descendo e caminhando no meio do povo...
É insuficiente e falsa a imagem de um Deus pronto a punir o menor dos desvios de criaturas que ele mesmo chamou à vida. É uma parcialidade mal-intencionada ensinar que Deus “não deixa nada impune, castigando a culpa dos pais nos filhos e netos, até a terceira e quarta geração” e, ao mesmo tempo, omitir que “ele conserva a misericórdia por mil gerações, e perdoa as culpas, rebeldias e pecados”. O próprio e original na revelação cristã é o perdão e a compaixão, e não a punição.
Deus é Pai e Mãe, ou Vida e Amor que nos antecede, Deus antes de nós. Deus é Filho, ou vida e amor compartilhados, Deus conosco. Deus é Espírito, ou vida e amor em nós, ou Deus em nós e em todas as criaturas, ao ritmo da história. O amor se caracteriza por chamar à vida e dar proteção, e nunca por limitar ou diminuir a vida. “Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu filho único, para que todo aquele que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna...”
É verdade que simplesmente dizer que Deus é Amor não resolve tudo. Esta palavra anda tão inflacionada quanto desgastada. Em nome do amor se cometem loucuras e são feitas promessas que não duram mais que uma curta noite de verão. Porém, amor é mais um verbo que um substantivo, e para falar responsavelmente dele devemos ter diante dos olhos o percurso histórico de Jesus de Nazaré: “sabemos o que é o amor, porque Jesus deu a sua vida por nós” (1Jo 3,16).
No coração da melhor teologia desenvolvida pelo cristianismo está a convicção de que Deus não é um conceito que precisamos compreender mais ou menos exaustivamente, nem uma doutrina que precisamos aceitas mais ou menos resignadamente, mas um mistério que merece nossa adoração. A teologia, pelo menos a boa teologia, está sempre a serviço da evangelização, ou seja: a questão substancial não é compreender uma teoria mas salvar ou transformar as pessoas e o mundo.
Em Jesus Cristo, Deus se revela não apenas dizendo e ensinando algo sobre si mesmo, mas principalmente agindo, salvando: acolhendo pecadores, alimentando famintos, curando doentes, resgatando a cidadania dos excluídos. Assim, Jesus Cristo revela um Deus que não é prisioneiro dos códigos de pedra ou de papel, que não assume a postura de um juiz distante e imparcial, mas um Deus que ama, que afirma o direito dos sem-direito, que age e julga em favor dos oprimidos.
Eis o caminho da Igreja, nascida para prosseguir a ação de Jesus Cristo: ser mais pastora que cuida da vida das ovelhas mais frágeis e menos professora que ensina leis e doutrinas; sair do limbo dos princípios gerais e vazios e comprometer sua honra influência na defesa de quem é ameaçado e explorado; engajar-se na urgente missão de salvar o mundo com a força do Evangelho e com os recursos do próprio mundo, evitando uma postura autossuficiente de julgamento e condenação. É preferível uma Igreja suja pela inserção no mundo que uma Igreja doente por causa do comodismo, diz o Papa.
Deus querido e amável, Compaixão que não conhece ocaso, Abraço que não conhece limites, Comunhão que acolhe as diferenças, Amor que brilha no esvaziamento: glória a ti nas alturas celestes; glória a ti nos caminhos da história; glória a ti na intimidade das criaturas. Em ti somos, nos movemos e existimos. Tu és o Ventre de onde viemos, o Caminho que percorremos e a Pátria pela qual anelamos. Ensina-nos a compartilhar a vida e o clamor dos irmãos e irmãs de todos os gêneros, gerações e religiões. E que a graça, o amor e a comunhão corram soltas nas veias da tua Igreja. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
 (Livro do Êxodo 34,4-9 * Profecia de Daniel 3,52-56 * Segunda Carta aos Coríntios 13,11-13 * Evangelho de São João 3,16-18)

domingo, 4 de junho de 2017

O Evangelho dominical - 04.06.2017

VIVER DEUS DESDE DENTRO

Há alguns anos, o grande teólogo alemão Karl Rahner atrevia-se a afirmar que o principal e mais urgente problema da Igreja do nosso tempo era a sua «mediocridade espiritual». Estas eram as suas palavras: o verdadeiro problema da Igreja é «continuar com uma resignação e um tédio cada vez maior pelos caminhos habituais de uma mediocridade espiritual».
O problema se agravou nestas últimas décadas. De pouco serviram as tentativas de reforçar as instituições, salvaguardar a liturgia ou vigiar a ortodoxia. No coração de muitos cristãos está se apagando a experiência interior de Deus.
A sociedade moderna apostou no «exterior». Tudo nos convida a viver desde fora. Tudo nos pressiona para nos movermos depressa, sem pararmos em nada nem em ninguém. A paz já não encontra resquícios para penetrar até ao nosso coração. Vivemos quase sempre na crosta exterior da vida. Estamos esquecendo o que é saborear a vida a partir de dentro. Para ser humana, a nossa vida falta-lhe hoje uma dimensão essencial: a interioridade.
É triste observar que tampouco nas comunidades cristãs sabemos cuidar e promover a vida interior. Muitos não sabem o que é o silêncio do coração, não se ensina a viver a fé desde dentro. Privados de experiência interior, sobrevivemos esquecendo a nossa alma: escutando palavras com os ouvidos e pronunciando orações com os lábios enquanto o nosso coração está ausente.
Na Igreja fala-se muito de Deus, mas, onde e quando escutamos, os crentes, a presença silenciosa de Deus no mais fundo do coração? Onde e quando acolhemos o Espírito do Ressuscitado no nosso interior? Quando vivemos em comunhão com o Mistério de Deus desde dentro?
Acolher a Deus no nosso interior quer dizer pelo menos duas coisas. A primeira: não colocar a Deus sempre longe e fora de nós, quer dizer, aprender a escutá-lo no silêncio do coração. A segunda: descer Deus da nossa cabeça até ao profundo do nosso ser, quer dizer, deixar de pensar em Deus só com a mente e aprender a percebe-Lo no mais íntimo de nós.
Esta experiência interior de Deus, real e concreta, pode transformar a nossa fé. Surpreendemo-nos de como temos podido viver sem a descobrir antes. É possível encontrar Deus dentro de nós no meio de uma cultura secularizada. É possível também hoje conhecer uma alegria interior nova e diferente. Mas parece-me muito difícil manter por muito tempo a fé em Deus no meio da agitação e frivolidade da vida moderna sem conhecer, mesmo que seja de forma humilde e simples, alguma experiência interior do Mistério de Deus.
José Antonio Pagola

Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 1 de junho de 2017

ANO A – SOLENIDADE DE PENTECOSTES – 04.06.2017

A diversidade é uma bênção que vem do Espírito Santo!
A experiência do Espírito Santo é coroamento do evento pascal. Reunidos em comunidade, pedimos que o Espírito renove em nós os prodígios que realizou no início do cristianismo. Nosso pedido mais intenso é que o Sopro de Deus nos dê respiro e vida; ensine-nos a testemunhar e anunciar o Reino de Deus na língua das diversas culturas; aumente nosso apreço pela diversidade; derrube os muros que nossos medos e prepotências ergueram; abra as portas das nossas igrejas e as empurre para a missão; enfim: convoque todos homens e mulheres de boa vontade para a imensa caravana que luta em favor da vida.
O Espírito Santo é dom, presença gratuita e força vital de Deus nas suas criaturas e nos caminhos da história. Ele suscita e sustenta a comunhão entre o Pai e o Filho; possibilita e mantém a comunhão dos cristãos entre si e com Cristo, sua cabeça; possibilita a comunhão entre as diferentes Igrejas; abre todas as criaturas para a interdependência e colaboração essencial e vital. E cumpre esta obra maravilhosa criando e sustentando a riqueza da diversidade. Um mundo uniforme seria feio, frio, falso, morto...
A diversidade de línguas e culturas também é dom do Espírito, bênção de Deus e uma forma de proteger a humanidade. Sendo uma e única, a humanidade vê, sente, pensa, age, trabalha, crê, celebra e se comunica mediante diferentes linguagens. A imposição de um pensamento único é meio caminho para construir impérios que asseguram a dominação dos mais fortes e espertos sobre os mais fracos. O próprio Deus dispersa os povos e arruína os projetos de implantar uma cultura uniforme e prepotente.
Mas será que podemos afirmar isso também em relação às religiões e Igrejas cristãs? Jesus é muito aberto em relação às diferenças religiosas: mesmo sendo judeu, ele respeita o movimento samaritano e demonstra apreço pela postura religiosa de pessoas pagãs. Chega a dizer que o que importa não é a religião, mas a prática e a lealdade (cf. Jo 4,23). E as primeiras comunidades cristãs seguem o mesmo rumo, louvando a Deus pela experiência e pelos valores espirituais de gente de diferentes religiões.
Na evangelização e na ação pastoral, o valor da diversidade se expressa na inculturação. Não deixa de impressionar como o relato dos Atos dos Apóstolos sublinha que cada um os diferentes grupos étnicos e culturais reunidos em Jerusalém na manhã do pentecostes escuta a pregação dos apóstolos na sua própria língua de origem (cf. At 2,6.8.11). É isso que causa, além de uma certa confusão nas mentalidades muito arrumadinhas, muito espanto e admiração. O que impressiona é propriamente a diversidade!
Outra importante expressão da presença ativa do Espírito Santo no mundo e nas pessoas são os vínculos de amor, amizade e solidariedade. Onde o Espírito é acolhido, as pessoas isoladas se reúnem, os membros formam um corpo. É uma comunhão que ultrapassa os indivíduos e se estende às coletividades humanas, às organizações sociais e a todas as criaturas. O Espírito impede que sejamos fragmentos desarticulados, perdidos no tempo e no espaço. Ele nos transforma em corpo e equipe!
Mas o Espírito Santo não se coaduna com o silêncio omisso, com o individualismo espiritual, com a submissão medrosa ou com a passividade irresponsável. Ele é a força de ação de Deus na história, a força da ação libertadora de Jesus Cristo. Ele nos é enviado como dinamismo missionário, como capacidade de gerar o homem novo e a nova sociedade: partilhar o pão, curar doenças, perdoar e acolher pecadores, anunciar o Evangelho, denunciar as opressões, partir em missão. O Espirito suscita a profecia!
Finalmente, segundo o Evangelho, os discípulos são enviados por Jesus com o “Sopro” do Espírito para, como ele, “tirar o pecado do mundo”: para superar e eliminar as práticas de dominação em si mesmos e nas instituições sociais, políticas e religiosas. E isso com sentido de urgência, sem deixar para depois, pois o pecado que for tolerado continuará produzindo seus frutos amargos. Nada de portas fechadas, nem de braços cruzados! A afirmação da diversidade vai de mãos dadas com a comunhão e a missão!
Deus, Pai justo e Mãe compassiva, fonte da diversidade, origem e meta da missão: como nossos pais e mães o fizeram no passado, esperamos e suplicamos pelo precioso dom do teu Espírito. Que ele venha como Vento que arrasta o pó acumulado pelas velhas leis, estruturas, ritos e posturas. Que ele venha como força de Comunhão respeitosa e benfazeja de povos, culturas, religiões, Igrejas e movimentos. Que ele nos chegue como Terremoto que acorda e desestabiliza uma Igreja que dorme e se sente segura.  Que ele nos visite como Fogo que incinera o lixo da corrupção e do moralismo interesseiro. Que ele venha com a suavidade da Brisa que celebra a diversidade e revigora quem quase perdeu a esperança. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
(Atos dos Apóstolos 2,1-11 * Salmo 103 (104) * 1ª. Carta aos Coríntios 12,3-7.12-13 * Evangelho de S. João 20,19-23)